Autores
-
fev- 2025 -9 fevereiro
Chuvas de verão: esquetes de improviso urbanos
Chove. Uma menina corre em meio aos paralelepípedos e às gotas jovens, excitadas e insistentes. Usa um vestido branco curto, melissas azuis nos pés e cabelos longos e soltos. Corre sorrindo e dizendo “chuva, Pascal, chuva! Casa! Chuva, Pascal, vamos!”, e um chow-chow com sua intrépida lingua roxa reúne todas as forças – de onde, não se sabe; talvez do instinto, talvez da ligação afetiva com a sua humana; mais provável a associação do comando “casa” à ideia de conforto: bem mais interessante relaxar em sua almofada aconchegante do que andar pelas ruas sujas e enlameadas, alimentadas por toda a água que está por vir. Do outro oposto da calçada, um senhor carrega sacolas de mercado, sem conseguir andar muito rápido. Uma das alças arrebenta e rolam laranjas pelos quatro cantos e os que ninguém contou. Todos correm para se proteger da chuva. As laranjas parecem dançar e agradecer o banho em meio a um dia tão insuportavelmente quente. O senhor, apressado na tentativa de reaver as indisciplinadas frutas, é vencido pela sua descoordenação e tropeça no próprio sapato. Sem perder o compasso do acaso, um rapaz, com roupas de jogging, em um movimento impensado, projeta-se como um vulto e …
Leia mais » -
9 fevereiro
Anônimo
A cena do interrogatório de Eunice Paiva no filme Ainda Estou Aqui provocou um clarão em minha memória, como se estivesse ainda sob efeito do medo das denúncias que ocorriam no período, entre amigos, colegas e mesmo parentes. Qualquer comentário que fugisse ao discurso aceito pela ditadura poderia ser motivo para delação. Ato contínuo, o encarceramento para averiguação, que resultaria no desaparecimento e morte de alguém cujo crime fora somente o de se opor ao regime. De um cidadão anônimo, passava-se a suspeito, investigado e culpado em fração de segundos. Esse tipo de memória fica adormecida, mas não se apaga nunca. Trazendo a questão para o presente e para fora de um contexto de perseguição política, me veio à cabeça o que está ocorrendo com o avanço da Inteligência Artificial (AI). Os algoritmos substituíram o álbum de fotografias que Eunice era obrigada a olhar e identificar quem conhecia, numa delação forçada a que muitos, após dias de tortura, sucumbiam. Uma inocente postagem nas redes sociais da foto de uma confraternização entre amigos, mesmo sem identificar o nome de cada um, é suficiente para “fichar” todos os presentes. Quer eles participem das redes ou não, são rastreados e investigados pela AI. …
Leia mais » -
8 fevereiro
Folga
Uma empresa chinesa criou, recentemente, a licença infelicidade. Cada funcionário, ao longo do ano, tem direito de faltar ao serviço, por um período de até dez dias, caso se sinta triste, irritado, angustiado ou infeliz. De primeira, questionei a ingenuidade da proposta. Como eles não desconfiam das artimanhas da procrastinação? Eu, sem dúvida, anualmente, seria acometida por uma certa tristeza, às segundas e sextas. Naqueles dias de sol em que os infelizes trabalham, meu caminho seria o mar. Pé na areia. Mate Leão. Biscoito Globo. Livro do mês e celular desligado. Sim, cada vez mais me convenço de que a telinha quebra o clima de intimidade em qualquer situação, inclusive comigo mesma. Sem culpa de enganar o chefe. Pensando bem, no mercado não se joga para perder. É possível que a empresa tenha criado o direito à licença infelicidade sabendo que ninguém tirará proveito, por medo de represálias. Aqui no Brasil, tenho certeza que o benefício seria gatilho de insegurança e ansiedade, pois funcionaria, subliminarmente, assim: o funcionário que tirar licença de um dia para cuidar do seu sofrimento será, imediatamente, incluído na lista de demissão do fim do ano. Isso para não citar outras complicações, como, por exemplo, a possibilidade …
Leia mais » -
8 fevereiro
O teatrólogo e o apresentador de tv
Qual elo poderia unir duas figuras tão distintas quanto o teatrólogo Zé Celso (1937 – 2023) e o apresentador Sílvio Santos (1930 – 2024)? Agitador cultural, artista libertário, inovador, ousado, Zé Celso Martinez Corrêa dedicou sua vida às artes cênicas e a difundir cultura para esse país tão carente, um sujeito transgressor e revolucionário que jamais se submeteu aos padrões estabelecidos, tendo batido de frente com a ditadura. Faleceu bestamente num incêndio em seu apartamento, aos 86 anos. Sílvio Santos, ou melhor, Senor Abravanel, um dos homens mais ricos do Brasil, dono de uma portentosa rede de comunicação, o SBT, com programação voltada para as classes mais humildes, é um homem desprovido de ideais e motivações políticas, conhecido por bajular os donos do poder, foi um dos veículos de que serviu de sustentáculo ao ex-presidente Bolsonaro. Após mais de 60 anos de carreira, retirou-se dos palcos por conta de sua idade avançada aos 92 anos, em 2023. Vindo a falecer um ano depois. A fatalidade colocou frente a frente essas personalidades tão díspares numa pendenga judicial que se arrasta por mais de 40 anos em torno do destino de um terreno no bairro do Bixiga em São Paulo. Trata-se de …
Leia mais » -
7 fevereiro
Videomakers ou a arte de surpreender seu pai (mais uma vez)
Minha competente editora me manda um recado por escrito: tu precisas fazer um vídeo promocional do teu livro para jogarmos no Tik Tok. Ela é gaúcha, do Alegrete, e com gente da fronteira não se brinca. Se ela disse “tu precisas” é porque nem quero pensar o que pode me acontecer se não o fizer. Me aprumei decidido a cumprir a tarefa. Peguei o celular, olhei para ele e ele para mim. E nada. Fiz uma careta pensativa imaginando como fazer o vídeo. Ante o vasto deserto de idéias que se apossou do meu ser admiti para mim mesmo: sou analfabeto em fazer vídeo ou selfie. Quando seguro a câmera tenho a firmeza de uma gelatina e transformo qualquer depoimento em noticiário de terremoto. Não rola química entre nós dois. Mencionei o pedido para minhas filhas que riram de mim. Diante da chacota juvenil, não pensei duas vezes. Convoquei as duas para a tarefa. Já que ficam tirando onda com a minha cara dizendo que papai é um dinossauro agora quero ver. Sabidas! Bom, me surpreendi. Sem perder tempo já foram posicionando a cadeira onde me sentaria, trouxeram luz, ajustaram o ângulo para tirar o reflexo nos meus óculos. O …
Leia mais » -
7 fevereiro
A cinta
Trinta anos de casamento, Nicanor pensou em fazer uma surpresa à mulher: – Que tal a gente voltar ao motel em que dormimos juntos pela primeira vez? – Motel?! Que ideia! – Por que não? Vai ser gostoso relembrar a sensação daquele encontro. Tanto insistiu, que Matilde terminou concordando. Meio a contragosto, é certo, mas não custava satisfazer esse capricho do marido, que ainda veio com outro: – Você podia vestir aquela cinta vermelha… Lembra? A mulher aparentemente fez que não ouviu. E numa noite de sábado (tal como da primeira vez), inventaram uma mentira para os dois filhos adolescentes e se mandaram para o motel. O letreiro não era mais o mesmo (Nicanor teve a sensação de piscava menos), e uma parte fora reconstruída. Mas dava para reavivar antigas sensações. Pediram um quarto com o mesmo número daquele em que dormiram da primeira vez. O marido achava que isso daria sorte. Depois de passar pela portaria, ele estacionou na garagem que havia ao lado. Era muito escura, certamente para preservar a identidade dos frequentadores. Mal entraram no quarto, Matilde fez um ar de quem não gostou: – Hum… O cheiro. Isso está com cara de que há tempos …
Leia mais » -
6 fevereiro
Obra aberta a ser reeditada!
A experiência de Nietzsche com seus aforismos em relação à utilização da linguagem como produtora de verdades, esclarece que os benefícios de um banho de banheira com água fria não deve ser evitado, e que devemos entrar e sair rapidamente, porque saímos modificados com o choque da temperatura, sem necessidade de se aprofundar. Os inimigos da água fria não recomendam essa experiência, porém, o frio pode tornar veloz seu pensamento. Por vezes o desejo de nos livrar de uma intensa dor emocional ou física, instiga desistir do pouco que temos, encurta o semblante, e promove poucas vistas a esperança. É como o segurar de um copo na mão por alguns minutos, não vai afetar nenhum de nossos músculos. Porém, permanecer com o mesmo copo dias a fio sem esvaziar nenhuma gota, com certeza fará tão mal quanto um pesadelo diário não resolvido. Nossas vidas penetram os olhos e vagueiam nos pensamentos após muito passarem por um mastigar de opiniões e ideias no entorno de uma sociedade consumista de informação, vinda de todos os lados. Por isso a dúvida se mantém acesa no cuidar ao tomar banho gelado e no esforço muscular. Estamos constantemente à busca da melhor informação. O novo …
Leia mais » -
6 fevereiro
Os dedos de fogo de Angústias
Angústias é uma menina com dedos de fogo e por isso é uma menina triste. Tudo o que toca arde. Vive longe do mar, num lugar parecido a um deserto, mas muito frio, com terra avermelhada como tingida de sangue. Pouco chove ali e, quando isso acontece, a terra se transforma num espelho e lança brilhos que chegam às nuvens. Só em ocasiões assim Angústias fica feliz, chora de alegria e passa horas admirando as poças d’água, tocando-as com a ponta dos dedos que, assim, ficam livres do fogo por algum tempo. Angústias é uma menina sem amigos. Agora é inverno onde Angústias mora e o frio tem sido impiedoso. As aves e os roedores foram embora em busca de paragens mais quentes. A menina sofre com o vento e o ar gelado, que lhe trincam os dentes, mas sai de casa mesmo assim, ao menor sinal dos primeiros e débeis raios de sol. Sai para admirar os montes esbranquiçados de geada e orvalho, as lágrimas que pendem do olho verde das folhas, a manada de búfalos correndo com elegância e fúria pelo descampado. É dessa forma que ameniza a tristeza que traz na testa franzida e no olhar que …
Leia mais » -
5 fevereiro
Alegoria do pitaco
Diria o maluco que cada um tem sua loucura. Uma das minhas é ler crítica literária. Mesmo quando espremido num cotidiano atribulado, um artigo de quatro ou cinco páginas sempre encontra uma brechinha entre canecas de café. E desde muito tenho essa mania. Outra louquice é inventar desafios relacionados à leitura. O último é ler os treze (ou quatorze?) volumes do compêndio intitulado Pontos de Vista, contendo cinquenta anos de críticas literárias do Wilson Martins. Provavelmente esse seja o trabalho sistemático mais longevo da área. Por si só, uma baita empreitada. O autor me chamou atenção desde a primeira leitura pela profunda fundamentação do seu argumento, sempre escrevendo com estilo singular e sem receio de magoar o escritor em questão. Pela análise do Wilson passaram as obras de todos (ou quase todos) os escritores que estudamos na escola e outros que agonizam em bibliotecas antigas. Há também textos sobre obras cujos escritores nunca ouvimos falar porque foram esquecidos ou subjugados sem jamais terem uma reedição. Inclusive perdi a conta de quantos autores conheci nessa campanha. Dizem que Moacyr Scliar andava com um recorte de jornal no bolso, pronto para mostrar às pessoas o elogio do temido crítico a um dos …
Leia mais » -
4 fevereiro
Rosa, verde e rosa
Rosa. Apenas Rosa. Nascida e criada na Estação Primeira de Mangueira. Primeira estação do trem e do seu coração. Rosa ganhou esse nome por duas paixões do seu pai. O samba de Cartola e a Mangueira. Rosa nasceu em 1980, ano em que Cartola morreu e seu pai resolveu lhe prestar essa homenagem. Ele assobiava “As rosas não falam”, quando se lembrava da mulher, que havia lhe abandonado alguns anos após Rosa ter nascido. Dizem que sua mãe era uma mulher linda, sorridente, mas não tinha nascido para ser mãe. Depois de ter parido Rosa, ela estava sempre triste, pelos cantos, como se não gostasse mais de viver. Seu Reynaldo tentava de tudo. Fez até um canteiro de rosas para ela, inspirado por Cartola. Dizem que a letra de “As Rosa não falam” foi quase totalmente composta quando Cartola levou à Dona Zica, sua esposa, umas mudas de rosas que plantou no jardim. Dias depois, ao abrir a porta pela manhã, ela percebeu que muitos botões haviam desabrochado e ficou deslumbrada com tanta beleza e quantidade. Chamou seu amado e perguntou: – Cartola, venha aqui! Venha ver o jardim! Por que é que nasceu tanta rosa? E o sábio respondeu: …
Leia mais » -
3 fevereiro
#09 – EXPURGO
hoje eu mordium chumaço depapel higiênicopara estancar(ou tentar conter)o sangramentoda língua dilacerada:como um cadáverantecipado que devorao seu próprio sudário. Um Andarilho Dentro de Casa
Leia mais » -
2 fevereiro
Nada será como antes
Olhei para o bolo de chocolate com aquela cobertura de brigadeiro escorrendo pelos cantos. Peguei um prato e já ia me servindo, quando fui assaltada por um pensamento aterrorizante — esse é o último pedaço. Uma sensação de finitude me invadiu; como liquidar essa fatia que ainda pode durar até amanhã? Não, não posso fazer isso, vou dividir para ela durar mais. E, assim, fui me satisfazendo com uma terça-parte da delícia, até que não restasse nada além de migalhas. Depois do último pedaço, pensei com o melado que ainda restava na boca: será que isso é sinal de demência? Gula? Ou, quem sabe, avareza? Demência, ao que tudo indica pelo próprio fato de estar aqui me questionando, certamente não é. Avareza? Não, nunca fui daquelas que reutilizam cinquenta vezes o mesmo envelope de papel. Muito menos do tipo que compra em excesso um produto em promoção no final da validade sem a menor precisão, pelo simples prazer de economizar. Muito menos gula, pois não me atiro nem sonho com doces, muito menos salivo de alegria frente a uma confeitaria. Mas deve haver uma explicação para não querer encarar o final dessa fatia de bolo, então tentei ir mais a …
Leia mais » -
2 fevereiro
Anotações sobre rotina e/ou fim do mundo
Existe um filme premiado em Cannes que conta, de forma incrivelmente poética, o fim do mundo. Sob a perspectiva de choque entre dois corpos celestes, sendo um, a Terra e ‘Melancolia’, o nome do outro, o evento é uma dança de aproximação e afastamento, de medos e alívios, de insanidade e lucidez, tudo acontecendo a uma velocidade intangível, em que nós mesmos nos aproximamos e nos afastamos internamente. Detemo-nos nas consequências, ao passo que o esplendor da bela e enorme visão no horizonte nos reconforta. A beleza, às vezes, pode ser devastadoramente melancólica. Perceber o belo pode nos tornar nostálgicos, artistas, ensandecidos. Raciocinar e fazer planos é uma das grandes consequências ruins de ser humano: sofremos ao nos dar conta de que existimos, de que temos um futuro (ou não, pela carga duramente certeira de finitude). Entre as problemáticas que fabricamos ao planejar, muitas vezes sem viver o presente, há seres iluminados que se contentam em viver sem postagens em redes sociais, sem tornarem-se rostos produzidos aos passos da moda e do mundo – e que muitas vezes são ‘borrados’ por leis de proteção à privacidade. A mulher que passeia com um carrinho de bebê a sua frente, transportando latinhas …
Leia mais » -
2 fevereiro
O NEVOEIRO
Metáfora. Figura de Linguagem que consiste em comparar dois ou mais elementos de forma indireta. Conforme o dicionário, a metáfora nos presta este favor. Aliás, um grande favor! Sem a metáfora, a imagem do que falamos ou escrevemos não teria a mesma expressividade! Aqui, nestes rascunhos e esboços de um tempo, a metáfora nos serve como uma imagem de alerta, de reflexão e, por que não, de perplexidade! Como podemos ignorar o óbvio? Outro ponto importante a considerar antes do exemplo, é que fatalmente repetimos os mesmos erros ao longo da história! Elementos de comparação: nevoeiro e visão. NEVOEIRO: Quando a temperatura do ar cai até o ponto de saturação da umidade do ar, formam-se as chamadas gotículas de água em estado líquido que, de tão pequenas, ficam em suspensão, reduzindo a visibilidade! VISÃO: Um dos cinco sentidos. Por meio desse sentido, temos a capacidade de enxergar tudo à nossa volta. Remexendo os espaços e as gavetas do tempo, a história que se segue já foi contada por muitas gerações. A propósito, ela se repete indefinidamente… a despeito da inteligência e da sagacidade de algumas criaturas… Conta-se que há muitos anos, um grande nevoeiro tomou conta da cidade. Entretanto, o …
Leia mais » -
2 fevereiro
Berlin
Cada vez que assisto a uma tentativa de calar as vozes dissidentes me lembro de Berlin: foi lá que me deparei com as reais consequências de um regime político onde falta liberdade. Percebi que a política é problema de todos e que, de uma forma ou de outra, é preciso participar (o que pode ser algo pequeno como votar conscientemente ou fazer parte da associação de bairro). É importante defender com unhas e dentes a liberdade de expressão, desde que não se caia na armadilha de dar liberdade completa a quem quer tirar a liberdade dos outros. O assunto é polêmico, os limites são tênues, há paradoxos envolvidos. Já me horrorizei muito mais quando via um político contrariar hoje o que havia dito ontem. Pode ser oportunismo, mas reconheço que esse é o tipo de coisa que supera conflitos: se todos se mantiverem firmes em pontos de vista imutáveis acabaremos indo às vias de fato com frequência e com maiores prejuízos para os envolvidos. Se é voz do povo que os políticos não são confiáveis, deveria também ser dito que são necessários. Mas voltemos a Berlin, uma das minhas cidades preferidas. Na primeira vez que fui a Berlin o muro …
Leia mais » -
1 fevereiro
Entrevista exclusiva com Trump (II)
Nosso portal publicou em 27 de novembro de 2020, com exclusividade, uma entrevista com o então presidente Trump que acabara de ser derrotado nas urnas por Joe Biden. Em vista da volta de Trump à presidência (e às manchetes), julgamos oportuno, como documento de valor histórico, republicar a entrevista que segue abaixo: Sérgio Sayeg – Pleased to meet you, Mr. Trump. Donald Trump – Excuse me, I know you? Sérgio Sayeg – I´m a blogger from Brazil. Can you say a few words to the brazilian people? Trump – Você brasileiro? Sérgio Sayeg – O senhor fala minha língua!? Trump – Sure. Eu aprender brasileiro quando fazer curso on line de ‘marxismo cultural’ e ‘terraplanismo avançado’ com mestre Olavo de Carvalho. Amazing! Ele dizer eu ser popular in Brazil. Sérgio Sayeg – Sim, o senhor tem muitos admiradores entre os seguidores de Bolsonaro? Trump – Who? Sérgio Sayeg – Bolsonaro, brazilian president. Trump – Oh, yes, Bolzonero, um leal servant. Eu brincar ser um ‘TRUMPolim’ para carreira dele. Hahaha. Em 2022, depois ele perder eleiçon to Lula, falar para ele non se preocupar com tribunal de Haia por ele destruir Pantanal, matar yanomamis e não fazer nada para acabar pandemia. …
Leia mais » -
1 fevereiro
O hoje do ontem
Aproveitei o final de ano e mandei estofar o sofá. Chegou ontem. Interessante o impacto que uma simples mudança causa na sequência aleatória dos dias. Aliás, a espera pela entrega do “novo”, por si só, me provocou alvoroço. Não sou capaz de imaginar o resultado final do serviço a partir do pedacinho de pano da amostra. Por sorte, deu certo. A novidade trouxe animação, beleza, vontade de decorar a sala com novos objetos. Valeu o custo. O velho estava surrado de uso, a espuma sem firmeza, o tecido soltando o alinhavo e as amarras da história. O desbotado teimava em gritar o que se foi. Perdeu a graça, o charme e, na tristeza do seu envelhecer, passou a incomodar. Agora, o sofá azul de céu noturno assume sua imponência vestido de novos tempos. Do seu posto de belo, encara a tevê como se ordenasse um brinde ao que virá. Dono de um vigor encantador, ele brilha, orgulhoso de si. A mesa de jantar, a de centro, a luminária velha de guerra, na timidez da falta de viço, parecem nutrir um amor platônico. Não sei se o sofá inveja a intimidade, a cumplicidade e a vivência dos objetos que aqui estão desde …
Leia mais » -
1 fevereiro
Promessas e Cotidianos
Ano novo anda de mãos dadas com promessas. Não fugi à regra, quando enumerei minha lista de boas intenções. Passada a euforia refleti sobre esse costume. Eu estou me enganando! Claro que sim, ora se bem me conheço, nenhum rol ou plano de ações vai mudar a minha forma de ver o mundo, de agir, de errar e acertar. Que alívio! Vamos então ao meu ponto de equilíbrio: escrever. Essa é a minha terapia, o meu exercício diário de conexão com o mundo, com a vida. Na apreciação do cotidiano, no fascínio pelo simples, pelas belezas da natureza, e das pessoas eu encontro o meu refúgio. Vejo, crio ou invento pequenos milagres ou grandes feitos no que ninguém mais viu. Me comovo e me surpreendo com novas e antigos costumes. Não é assim de estalo, que família e amigos, em rotinas ou viagens me entendem ou correspondem. E tudo bem! O comum, o rotineiro me encantam, mesmo em lugares onde estou só a passeio. O pequeno grupo de alunos que passa em frente ao hotel, os uniformes com emblemas em outro idioma, as frases que não entendo, a alegria, o riso. Ao sumirem na próxima esquina levam o meu olhar entre …
Leia mais » -
jan- 2025 -31 janeiro
Para sempre Urca
Naquela tarde quente de verão ele desceu do táxi na avenida Portugal, um pouco depois da igreja de Nossa Senhora do Brasil. Parou na mureta de pedra de frente para o mar apreciando a vista da enseada de Botafogo, do Iate Clube até a curva em direção ao Aterro. Suspirou sorrindo e disse para si com o peito estufado do mais genuíno orgulho carioca: incomparável. Virou o rosto para dentro do bairro, olhou para as casas e prédios baixos e caminhou lentamente até achar o que procurava. Um dos prédios de três andares de arquitetura tradicional do bairro, charmosinho e típico da Urca. Sim tinha sido em frente a você, meu amigo de outros tempos, que eu sonhara com ela. Sentou-se de lado na mureta de maneira a ver tanto a enseada de Botafogo, com a estátua do Cristo Redentor no alto do Corcovado compondo o cartão postal, quanto aquele endereço tão presente em sua memória afetiva. Não tinha a menor idéia de quem morava ali nem como eram os apartamentos daquele pequeno edifício de três andares. Mas fora em frente a ele que fez alguns dos mais doces planos de sua vida. Planos jamais cumpridos. Uma gaivota passou fazendo …
Leia mais » -
30 janeiro
Quando o nosso nome estiver gravado na pedra
Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definido ainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até a noite de núpcias, quando, no momento crucial, minha mulher me chamou de César. “Céeeesar!”, gritou ela, antes de largar o corpo na cama, suada e satisfeita. “Ela se casou com o Beto e tirou a virgindade do César”, meus amigos faziam sempre a mesma piada. Desde então mudei de nome em outras três ocasiões: no escritório em que fui trabalhar eu me sentia Oswaldo, e assim me apresentava a todos; na faculdade, Péricles; na mesa de jogo, antes de bater o punho e gritar “Truco!”, Evanildo. Meus amigos se confundiam. Para facilitar a vida deles, aceitei que colocassem no meu pescoço uma tabuleta com o nome que eu usava no momento e, mesmo assim, ficavam pouco à …
Leia mais » -
30 janeiro
Alguns convencidos que tudo sabem!
Um grupo de cientistas japoneses criaram o sistema ferroviário que uniu Tóquio a 36 cidades vizinhas. Eles tiveram a colaboração de Blob, um sincício multinucleado macroscópico, amarelo brilhante, que também propôs resultados semelhantes nas redes rodoviárias no Reino Unido e na península ibérica. Seu nome científico é Physarum polycephalum, e já vivia na Terra há 500 milhões de anos antes dos seres humanos. Esse é um exemplo de como a sabedoria do idoso jamais deve ser ignorada. Ele não possui cérebro, mas sua habilidade em encontrar caminhos mais curtos, sem conhecer o destino, é impressionante. Sua locomoção é lenta porém precisa, e se dá a uma velocidade de 1cm/minuto, permitindo-lhe avaliar cuidadosamente seu trajeto. Seu apelido vem do filme clássico The Blob (A Bolha Assassina) de 1988, que narra a história de uma estranha substância gelatinosa que dissolve a carne humana. No entando, o Blob, especialista em meios de transporte, não come gente, tem apenas uma semelhança em termos de forma com a Bolha. Um artigo de 2010 descreveu que flocos de aveia foram dispersos em uma representação de Tóquio e das cidades, e Blob criou uma rede semelhante ao sistema ferroviário de forma eficiente e tolerante a falhas. Como é possível essa forma …
Leia mais » -
29 janeiro
Minhas melhores companhias e eu
. Da minha varanda imaginária contemplo o novo tempo que chega. Por circunstâncias da vida, a convivência com minhas melhores companhias vai duplicar. O que antes era “semana sim, semana não” agora ser torna “semana sempre”. Será intenso e mais profundo. Seremos nós três. E isso conta a favor. Minhas melhores companhias crescem a olhos vistos. Sou testemunha e me sinto privilegiado. Modos, falas e atitudes. Gostos, desgostos, ações e reações. Cores, nomes e sabores. Decisões, dúvidas e incertezas. Sons, silêncios, risadas e rosnados. Crescimento, simplesmente. E eu agora mais próximo do que nunca. Me ajustam, me criticam, me perguntam, me exigem, me solicitam, me propõem, me observam, me falam, me calam. Daqui para frente será assim e muito mais porque a vida vai se abrir para elas e as novidades vão jorrar. Algumas até virão em casa. Outras serão despachadas para o passado na seleção natural da efervescência natural da existência. Os dias que virão serão cheios e intensos. A mim, só peço ar puro para respirar e bom juízo para decidir. Ouvidos para escutar mais e olhos para enxergar até quando estiverem fechados. Sexto sentido será pouco.
Leia mais » -
27 janeiro
#08 – A Ilha
. A ilha com seu silênciome comunica a mortedos seres espectraisque nela vivem ou já viveram. A ilha cercada por manguesé um poço de lama e óleo. Os pescadores da ilhame comunicam o fimdos pescadores da ilha. Os pescadores da ilhame apresentam a pesca de um dia,nada. A ilha com sua morteme comunica o silênciodos seres superioresque a mataram e matam. A ilha abandonada pelos banhistasé um deserto de espuma e água. Os frequentadores da ilhame comunicam o desastredas praias da ilha. Os frequentadores da ilhame apresentam o bronzeado de um dia,petróleo. A ilha com sua sorteme comunica o crimedos seres continentaisque seguem impunes. Os pescadores da ilhame comunicam o fim dos peixese voltam tarde para casa. O Acaso das Manhãs
Leia mais » -
26 janeiro
Tâmaras, vinho branco e gatos
Há algumas semanas a bandeja de tâmaras – com caroço, tal qual informava a identidade visual da embalagem – repousava paciente sobre a bancada da cozinha, no aguardo do momento especial que tanto se preparava Theobaldo. Amante de história e das descobertas da gastronomia dos tempos passados, planejava dar à fruta uma espécie de protagonismo em um quitute da Roma Antiga. Mas faltava-lhe o mel e as nozes, e com sua atual situação financeira não conseguia juntar todos os ingredientes ao seu carrinho de compras essenciais. Em um sábado à noite deste janeiro desconcertadamente quente, deu mil desculpas diferentes aos amigos, recusou educadamente um convite de festividade de aniversário e se deu ao luxo de matar a garrafa de vinho branco, um Chardonnay 2018, resfriado dentro de seu frigobar retrô. Theo ficou na ponta dos pés, com algum esforço, e alcançou a prateleiras das taças, no alto. Passou uma água rápida no delicado vidro, ajeitou-o sobre a bandeja de madeira e cortiça – herança do enxoval dos pais -, pôs a bandeja de tâmaras e a garrafa de vinho, já consumida além da metade. Apagou a luz, acendeu um abajur e um incenso de odor madeira do oriente, escolheu uma …
Leia mais » -
26 janeiro
Semancol Homeopático
Medicamento fitoterápico de amplo espectro, indicado para pacientes que perderam a autocensura e para aqueles que sofrem de compulsão verbal, podendo ser administrado também em pacientes com quadros de perda de cerimônia, falta de educação e traços de inconveniência. Ação esperada do medicamento Semancol Homeopático se mostrou extremamente eficiente no combate à boca solta, diminuindo sensivelmente a incidência de comentários inapropriados, grosserias, risadas fora de hora, ditos desabonadores sobre pessoas presentes em tom alto, entre outros sintomas. Seu efeito se estende também à inibição do desejo de ser íntimo de pessoas que nem conhecem o paciente, de permanecer em uma visita depois que todos já se despediram e da compulsão por furar filas e empurrar os outros para se colocar em primeiro lugar em eventos públicos. Há relatos de êxito na aplicação do Semancol Homeopático em casos que o paciente sofre de franqueza rude, tece comentários em momento inoportuno, faz perguntas constrangedoras e insiste em colocar sua posição política ou religiosa como dogmas em redes sociais. Indicações Semancol Homeopático é indicado para pacientes que apresentem qualquer dos sintomas acima, com uma frequência maior do que uma vez por mês. Medicamento de uso adulto e geriátrico, sendo que, nesse último caso, …
Leia mais » -
26 janeiro
CRÔNICA CAMONIANA
Quando dois olhos se olham de uma maneira inesperada e se encontram e se sabem tão íntimos e tão inteiros, sente-se o fogo que arde sem se ver. Quando dois seres se veem próximos o bastante para dizer e celebrar o momento, vive-se o não contentar-se de contente. Quando duas bocas esperam, ansiosas, o suave toque ou o roçar de leve, percebe-se a dor que desatina sem doer. Quando duas almas dançam a canção imaginária dos amantes e ninguém os vê, e ninguém os interrompe porque há um tempo só deles, entende-se o solitário andar por entre as gentes. Quando duas histórias se entrelaçam e se fazem uma. Risos, brincadeiras, beijos e abraços, contemplação. O céu não é céu. As estrelas não são estrelas. Tudo é invenção. E inventam-se horas e coisas. Inventa-se a sensação. Quando duas mãos se aproximam e se querem. Quando dois sonhos se cruzam. Não importa o real. Importa a imaginação. Quando tudo isso acontece, a gente chama ou acha ou pensa ou diz que é amor. E vemos e vivemos intensamente o mundo inteiro. Os filmes, as músicas, os poemas, os comerciais, os bilhetes e o cartaz. As flores e a cena congelada do beijo …
Leia mais » -
25 janeiro
Eu, produto de valor
Abriu uma nova sorveteria no shopping perto da minha casa. Por estratégia ou atrevimento, a novinha fica em frente à geladinha oficial. Disposta a conhecer a gostosura da hora, entrei na imensa fila que se formava. Tentei me distrair com as opções de sabor, designer da loja, mas, na consciência, pesava a culpa da traição. Para agravar a tensão, pertinente ao momento de flerte que não deveria acontecer, me acompanhava o olhar da atendente da sorveteria antiga. Pude ouvir seus pensamentos: — Tá fazendo o quê aí, sua falsa? Juro que pensei em desistir. Rejeitar a oportunidade de saborear uma nova experiência e, com o rabo entre as pernas, voltar para a queridinha oficial. Mas o tédio é um encosto nos traidores. O cansaço da rotina desperta o pior de cada um. Pensar nisso, construiu a coragem necessária para rebater os resquícios da minha ética amorosa: — Merece o chifre. Enquanto era única na minha vida, nunca fez uma promoção, me deu brinde ou ofereceu um cupom de desconto. Agora, aguenta a dor de me perder. Peguei minha casquinha, ergui os ombros, joguei o cabelo, empinei o bumbum e passei bem devagar na porta da ex. A lógica do mercado …
Leia mais » -
23 janeiro
Ouse ser Sábio!
A solidão está no noticiário como uma dor social frequente, e acabou indo a público através da imprensa, que despertou atenção desse problema de saúde nos EUA. O sr. Vivek Murthy, Ex-cirurgião geral dos Estados Unidos, publicou um relatório de 82 páginas que chama atenção para esse tema. O documento intitula-se “Nossa epidemia de solidão e isolamento”, com o subtítulo “Os efeitos curativos da conexão social e da comunidade”. O que choca é saber que a falta frequente de conexão social, pode prejudicar a saúde física de forma tão perigosa quanto fumar 15 cigarros por dia. Quando a vida é vista pelo ângulo da juventude, parece um teatro de marionetes à distância. Mas quando vista pelo prisma do adulto, parece estar dentro do palco, com detalhes reais e desgastados. No entanto, as ligações sociais tornam mais leve o conviver com os pregos e parafusos, o óleo esparramado no chão, e as portas abertas sem tranca, que poderiam esconder a intimidade e nos proteger dos perigos. No contexto das relações de trabalho, é onde o homem cria suas habilidades sociais e a capacidade de interagir, o que não conseguiria desenvolver trabalhando somente em home office. Desde 1990 o número de homens …
Leia mais » -
23 janeiro
A difícil arte de aceitar afeto
O homem com a cicatriz no rosto viu quando ela ia descalça e mancando pela estrada. Parou o carro e a pôs no banco de trás, encolhida feito um novelo. Ela tremia de frio, ele a cobriu com uma manta. Dirigiu o mais devagar que pôde, nenhum solavanco a perturbasse. Não trocaram palavra. Em casa, deu-lhe banho quente, segurando-a pela nuca, como a um defunto. Observou que ela tinha novas tatuagens, gostou de algumas, não de todas. Preparou-lhe um mingau suave de aveia, para não machucar seu estômago, sabe-se lá desde quando não comia. Meteu-a na cama em silêncio, cuidando para não tirá-la do torpor em que estava imersa. Foi até o jardim e queimou as roupas que ela vestia. Eram roupas de homem. Enormes, como as dele. Deitou-se no sofá da sala e demorou para pegar no sono. Pensou e pensou, mas não conseguia chegar ao que poderia ser a melhor solução para tirá-la do poço em que tinha se metido. Passou a mão pela cicatriz no rosto: não deixaria que ela o machucasse de novo. Pela manhã, o homem com a cicatriz no rosto acordou no sofá já sabendo que ela tinha ido embora, certamente vestindo roupas dele, …
Leia mais » -
22 janeiro
Desde aquele dia
Em 2010 eu morava em Gaurama e não sabia o que fazer da vida dali pra frente. Aos vinte anos a gente acha que pode tudo e acredita cegamente que as questões da vida têm soluções simples, num otimismo nada mais que adolescente. Eu estava perdido e assim fiquei talvez por mais um ano ou dois, pois tinha abandonado uma faculdade, concluído dois cursos técnicos dos quais pouco aproveitei e seguia vivendo na crença de que teria um futuro promissor como baterista. Embora hoje, década e meia depois, me orgulhe de uma empreitada ou outra, ando com a certeza de que jamais me dediquei tão fortemente a algo como ao instrumento. A bateria me era uma religião. Estudava como se apostasse todas as fichas numa única jogada e criei uma rotina que ultrapassava dez horas de prática por dia. Lia todas as revistas, buscava referências, bandas e músicos, fazia aulas com os bateristas mais experientes da região e viajava seguidamente para workshops em Porto Alegre e Caxias do Sul. Vez ou outra, além disso, compunha músicas para a banda da qual fazia parte, chamada General Lee. Nessas idas e vindas, conheci muita gente e sempre foi comum a surpresa quando …
Leia mais »





























