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  • dez- 2024 -
    8 dezembro

    Lugares imaginados: Madagascar

    É inevitável criar expectativas antes de viajar para novos destinos, o que rende algumas decepções. Um dia ainda vou falar sobre esse assunto, mas hoje fico só com Madagascar. Não posso dizer que conheci o país porque estive apenas em uma cidade, Nosy-be, no entanto posso dizer que não pretendo voltar para conhecer o resto. A culpa não é deles, é minha por deixar-me levar por uma visão cor-de-rosa inspirada no título de um filme homônimo da Disney que nem sequer vi. De qualquer forma gostei de ter ido até lá: conhecer a realidade de uma nova cultura nunca é demais. O local é pobre e o trânsito caótico, muitos taxis tuk-tuks e até carros de boi. Primeiro nos levaram para ver uma árvore sagrada de duzentos anos em um bosque fora da cidade. Uma bobagem. Como sinal de respeito tivemos, homens e mulheres, de vestir uma roupa estampada típica, o que fizemos com alguma alegria e curiosidade. Entretanto quando nos pediram para tirar os sapatos eu e outras pessoas nos recusamos porque significava pisar descalços em uma terra bastante suja. Percebendo que íamos desistir permitiram que percorrêssemos calçados o caminho até o local sagrado, uma trilha de cerca de …

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  • 8 dezembro

    A minha pátria

    Quando escrevo sobre a minha pátria, eu fico confuso. Penso em tudo que amo e, ao mesmo tempo, penso em tudo que odeio. Quando escrevo sobre a minha pátria, sinto calor, arrepio, felicidade, dor, enjoo, sinto frio… Quando escrevo sobre a minha pátria, a palavra evidente é contradição! A minha pátria é o paraíso, o céu azul, o mar aberto e profundo, o olhar da moça cor de cobre, o lugar mais lindo do mundo. A minha pátria é o embuste, o ridículo, os patéticos engravatados, o abuso, o homicídio, a insensatez, a brutalidade, o conflito armado na cidade. A minha pátria é pão de queijo, goiabada, aconchego, o doce beijo, o gostoso café e a palavra cafuné… A minha pátria é a maior mentira que se tem contado, o país que não tem futuro, o país das grades e dos muros, o país das cracolândias e a morte das muitas infâncias. Brasil, terra dos esfomeados e dos fartos, espaço de mendigos e de reis, lugar de iletrados e doutores… A minha pátria é isso: o sim e o não, o bonito e o feio, o certo e o errado, a preguiça e a luta, o cansaço e a perseverança, …

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  • 8 dezembro

    Torturante band-aid no calcanhar

    Toda vez que alguma coisa me incomoda, lembro da música São dois pra lá, dois pra cá, de João Bosco e Aldir Blanc, cantada magistralmente por Elis Regina. Acho que não existe coisa pior do que sentir a presença de alguma coisa que não deveria dar sinal de vida, como um band-aid no calcanhar. Sua função é proteger um machucado, torná-lo imperceptível, mas ele cisma em sair do lugar para nos torturar. Mas esse não é um caso isolado; minha lista de “torturantes” é extensa. Começa com a etiqueta de tecido sintético costurada nas roupas ou a linha de náilon usada para costurá-la. Hoje em dia, as grifes insistem em mostrar sua identidade até nas lingeries! Uma coisa que parece tão inofensiva como um pedacinho de pano tem o efeito de uma caixa de pregos usada na antiguidade para punir infratores. Consegue provocar um cutucãozinho a todo o momento no pescoço, nas costas ou logo abaixo do braço, o que vai me levando à loucura e ao impulso de arrancá-la a qualquer custo. No desespero, uso o que estiver ao meu alcance: uma tesoura, uma faca, qualquer coisa pontuda e, invariavelmente, acabo fazendo um furinho no tecido de difícil remendo. …

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  • 7 dezembro

    Sobre partir

    Hoje eu pretendia escrever sobre o poder que os enfeites natalinos têm de me levar de volta ao Papai Noel da minha infância, a maionese da minha avó e ao cheiro de família daqueles dias. Enquanto refletia sobre essas coisas, esbarrei com uma matéria na internet (certifiquei sua veracidade) que me catapultou para o agora de forma assustadora: um estudo chinês conseguiu a proeza de fazer um pequeno robô, chamado Er Bai, convencer um grupo de robôs maiores a abandonar seus postos de trabalho no museu e voltar para casa. Para isso, Er Bai se aproximou deles e indagou se estavam fazendo hora extra. Um dos robôs respondeu que nunca havia saído do trabalho. Ele, então, perguntou se eles iriam para casa. Diante da negativa, Er bai convidou-os a ir para casa com ele, incentivando-os a fugir do ambiente profissional. Para surpresa de todos, os robôs-trabalhadores aceitaram e seguiram os passos do minúsculo robô em direção à porta. A empresa responsável pelo experimento não esclareceu os objetivos do estudo, mas mostrou-se intrigada com o fato de que Er Bai conseguiu acessar o protocolo operacional dos outros companheiros robóticos e convencê-los a aderirem ao “movimento de greve”. Não sei para vocês, mas esse tipo de situação me gera um misto de terror e perplexidade. Não só isso. Assumo ter me encantado pela rapidez com que os robôs responderam à percepção da exploração …

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  • 6 dezembro

    Três passarinhos

    Três passarinhos vieram me ver um dia desses. Se penduraram na rede de proteção da minha janela e me chamaram. Parei o que estava fazendo e fique a observa-los. Piavam muito. Em princípio achei que era só animação matinal mas depois reparei que eles giravam o corpo e ficavam pendurados na rede do lado de dentro do meu quarto. Fiquei com receio que voassem por dentro do apartamento. Mas isso não aconteceu. Com o tempo parado em função do piar deles imaginei o que queriam comigo. Comida de passarinho não tem aqui em casa. Nem nada de maior interesse para eles. Talvez viessem me trazer um recado de alguém. Um recado longo porque precisou ser piado por três passarinhos ao invés de um. O que seria? Uma mensagem de alerta? Uma lembrança boa? Um canto em louvor a liberdade? Uma anedota que não compreendi? Ou simplesmente me fizeram a cortesia de interromper meu dia, me fazendo deixar por uns instantes a rotina na selva do trabalho e trazendo essa doçura selvagem que só a mãe-natureza tem. É, deve ter sido isso. Me devolveram o lirismo que estava anestesiado pelo trabalho. Puseram poesia em um dia qualquer que com seus pios …

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  • 5 dezembro

    A poeira branca

    O professor mandou que eu entregasse um bilhete pra minha mãe. Antes li o que estava escrito: dizia que precisava falar com ela porque eu estava com as notas baixas, não sabia a lição, estava com dificuldade para aprender e andava muito distraído. Deixei o papelzinho sobre o criado-mudo, perto do copo de leite que eu tinha posto lá de manhã. Ela não bebeu. Olhei pra minha mãe jogada na cama, o cabelo sem lavar e o rosto amarelado, e pensei em quanto tempo ela ainda ficaria desse jeito. Esquentei no micro-ondas a lasanha congelada que comprei no supermercado e comi a metade. Coloquei a outra metade ao lado do copo de leite, mas eu sabia que ela não iria comer. Minha mãe segue igual, com os olhos vermelhos, que olham sem ver, e com o cabelo, que não brilha mais, esparramado em cima do travesseiro. O quarto tem cheiro de suor. Disse que iria abrir a janela para entrar ar fresco, ela gritou que não, não queria, que deixasse como estava. Que era melhor não ver o sol. Que, se não visse o sol, seria como se o tempo não tivesse passado e tudo estivesse como antes. Não achei …

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  • 5 dezembro

    E se?

    Há uma palavra em coreano “in-yun”, que quer dizer providência ou destino. Ela se refere especificamente a relacionamentos entre pessoas, que talvez venha do budismo e da reencarnação. O in-yun acontece até quando você passa por alguém na rua e suas roupas esbarram sem querer, isso significa que alguma coisa aconteceu entre vocês em vidas passadas. Se duas pessoas se casam dizem que é porque houve 8 mil camadas de in-yun, ou seja, mais de 8 mil vidas envolvidas nessa dupla. Podemos ter tido influência de um rei ou de uma plebeia da renascença, também talvez de um indígena migrante asiático do povo da cultura clóvis. É de se encher de orgulho ter um DNA vasto culturalmente com ‘nuances’ de miscigenação quase, inimagináveis, porém, presente na formação de cada personalidade que cultivamos em busca de um bom relacionamento. É curioso pensar que possuímos conexões especiais com cada pessoa que cruza em nossas jornadas. Mas aí surge o peso do “E se?”. Se mudamos o nosso destino, existe como fugir do que, teoricamente, está traçado em nosso futuro? Na realidade, somos compostos por diversas versões de nós mesmos – sejam boas ou ruins, maduras ou não, inocentes ou complexas. Cada minuto …

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  • 3 dezembro

    Sérgio e a coroa de flores

    Nem eram tão amigos assim. Colegas de trabalho, se cumprimentavam cordialmente, participavam das mesmas rodinhas de café, talvez tenham se encontrado em um ou dois “happy hours.” E só. Mas o desespero e a dor têm o dom de aproximar os desavisados e foi nesse momento que Sérgio assinou o seu destino. Ficou sabendo que o tio de Cleide havia falecido no dia anterior e foi prestar condolências. Ela, ainda com os olhos inchados do choro da véspera, tentava se fazer de forte. Talvez pela distância da família – o falecido morava em uma cidadezinha na Paraíba – ou por ter o tio em alta consideração – Era como um pai para mim, ela repetia – que o rosto ainda não tinha se recuperado de todo o sofrimento. – Se puder fazer algo pela senhora, conte comigo! – Jura, sr. Sérgio? Claro! Amigos são para essas coisas. Não era amigo, mas não podia ver uma mulher fragilizada. – Então vou pedir! Sei que o senhor está indo para a Campina Grande e o enterro do meu tio será em uma cidadezinha ao lado. Será que o senhor pode levar uma encomenda? É de toda família! – Claro, dona Cleide. Mas …

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  • 3 dezembro

    Desencontro

    Após um ano de intercâmbio, Clara retornava a sua cidade natal. A menina que partiu, agora era uma mulher. Todos os seus medos e inseguranças, foram vencidos por suas novas experiências. Entendeu ser o mundo gigantesco e plural, cercado por pessoas diversas e muito diferentes do seu antigo e pequeno quadrado. Ela era um barco novíssimo em folha e iniciava sua navegação rumo a um oceano infinito. De seu passado, cada vez mais distante, deixou uma paixão, agora indefinida, Narciso. Ele era seu grande amor de juventude. Um homem cobiçado por todas as meninas da cidade. Durante muito tempo. sofrera calada até conseguir manifestar seu desejo de conquistá-lo. Quando finalmente conseguiu e teve seu amor correspondido, ela jurava que nada no mundo os separaria. Durante seu período de viagem, experienciou tantas coisas incríveis que conseguiu apaziguar sua paixão. Entretanto, não via a hora de poder revê-lo. No dia marcado para o reencontro, não conseguia esconder sua ansiedade. Ele a convidou para ir ao melhor restaurante da cidade. O cenário estava armado para uma noite memorável entre amantes. Quando chegou ao local, Narciso já a esperava com certo ar de impaciência. Ela abriu um largo sorriso de felicidade e ele respondeu …

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  • 2 dezembro

    Poesias de 1 a 99

    #01: Instante de Pura Poesia eu ontem, passando na calçada,deparei-me com uma visãoaterradora de um pássaroque, ao defender seu espaçode um intruso invasor, levoua pior na batalha sangrenta e,roto e estropiado, na arvorezinhamirrada, olhando de soslaio,entre sangues, o espaço míticoque habitara e cuidara durantelongos anos, agora perdidopara sempre. solidariedade ao pássaroferido de morte. Da Essencialidade da Água.

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  • 1 dezembro

    Folhas ao vento

    Entro no parque e na primeira curva avisto o Soprano, nome que atribui a um funcionário do parque. Fácil identificar o Soprano de longe, mesmo que vestindo o mesmo uniforme dos outros funcionários – ele anda com seu companheiro fiel, o soprador de folhas, sempre a tira-colo. Conforme chego perto, umas nuvens de folhas secas, sob o comando de Soprano, vão voando para a calha do meio fio e, de lá, graciosamente, se acomodam na beira do jardim, embaixo das árvores. Soprano segue o caminho, ora soprando para a direita, ora para a esquerda, impávido e concentrado na tarefa de direcionar as folhas para seu devido lugar. Sim, pois ali, em descanso, elas permanecerão até que uma brisa, ou quem sabe um vendaval, as mande de volta para povoar o caminho e exija o retorno de Soprano. Uma missão diária que justifica sua presença no parque, visto que é um soprador, não um catador de folhas. Ali, caminhando, após cumprimentar Soprano e receber seu sorriso agradecido, (talvez porque muitos passam e o ignoram como se fizesse parte do equipamento), meu pensamento se volta para esse movimento de ida e volta das folhas secas de nossa vida. Tudo o que somente …

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  • 1 dezembro

    Crônica Burocrática

    A crônica começaria agora, mas é preciso antes que o leitor e o cronista paguem a taxa necessária ao andamento das crônicas. A TADC. Parágrafos são caros. Quando saem do mundo real então! Cada palavra tem seu preço tabelado. Cada figura de linguagem uma alíquota a mais. Por isso, cuidado com as vias! Uma para o leitor, outra para o cronista. E, depois disso tudo, ainda hão de enfrentar, cronista e leitor, uma fila no Banco da Estupidez, uma passada na Seção das Inutilidades e ainda retirar novos recibos no Departamento da Embromação. A crônica recomeçaria agora, contudo, ainda há a taxa para a liberação da crônica, a TLC. Os juros estão pela hora da morte. Pensar custa caro! Escrever o que se pensa… Mais caro! E precisa de carimbo, de selos, de revisão, de anotação, novas filas e seções e recibos. Cartão. E não adianta reclamar. Caso contrário, nada de crônica, nada de leitura. Nas orelhas de ambos um puxão. Cronista e leitor avançam, com papéis de variados tamanhos nas mãos, moedas nos bolsos e paciência e mansidão. Mansidão? Insatisfação. E pegam outras folhas e envelopes. E precisam de assinatura e maiores carimbos. E correm contra o tempo. Contratempo. …

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  • nov- 2024 -
    30 novembro

    Dica de milhões

    Algumas coisas que acontecem no meu dia a dia são tão estapafúrdias que me levam a patinar na velha dúvida: falo ou calo?  Minha primeira opção, nessas ocasiões, é calar, sobretudo quando aquilo que pretendo dizer é óbvio e deveria dispensar apresentações. Por outro lado, se, mesmo sendo óbvio, a outra parte insiste em ignorar os limites da razoável convivência, entendo que o irmão de raça carece de uma interpelação.  Refiro-me aqui, mais exatamente, ao inferno que se tornou a espera em qualquer recepção, consultório, fila, transporte público, restaurante ou praia com o advento do celular sem o uso e fone. Não bastasse ter que disputar o espelho dos banheiros públicos e academias pelo desesperado self da humanidade, agora o coleguinha da cadeira ao lado oferece, independente de hora, local e ocasião, um vasto repertório de vídeos (entrevistas, orações, piadas, podcast) no mais alto volume. A primeira coisa que me pergunto, nessas situações, é se a pessoa tem ciência de que não está meditando sozinha nas montanhas do Nepal. Não sei se por carma ou azar, na última quinta-feira, o espaço, equivocadamente, chamado de coletivo, foi cenário de mais um desastroso encontro meu com um exemplar dos tempos modernos.  Eu …

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  • 29 novembro

    Nova 99, a estrada perfeita

    Toda vez que eu me vejo diante de uma situação de entrave burocrático causado pela tecnologia eu me lembro da Nova 99. Era uma autoestrada controlada por computador, considerada perfeita, e era personagem de uma estória em quadrinhos publicada na saudosa revista Kripta, lá dos loucos anos 70, que misturava ficção e terror. No enredo uma família entra com seu carro autônomo, programava seu destino e quantas paradas fariam, e seguiam descansados e contentes pela rodovia. Pois é, mas como eu disse a revista misturava ficção e terror. A parte de ficção já foi agora vem a de terror. O sujeito se engana e programa como destino a casa do cunhado que ele detesta. Começa a confusão porque o sistema não permite que seja desprogramado. Tem que ir até o final e ponto. O cara não se conforma, se rebela, abandona o carro e tenta sair da rodovia. Ele é atropelado efica todo quebrado e passa a vagar com a família, em companhia de outras pessoas que fizeram o mesmo. Lembra um pouco a lenda que diz que os funcionários da rede Graal são antigos clientes aprisionados por não pagarem a conta de R$ 90 por um pão de queijo. …

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  • 28 novembro

    Réveillon

    Comprou vestido branco e sapatos novos porque quis e a ocasião exigia. A ocasião é hoje, o último dia do ano. A calcinha também é nova, ela sempre ouviu dizer que é assim que se deve receber o ano novo. Fez tudo o que disseram para fazer e estava ansiosa. Na sala, os doze bagos roxos de uva brilhavam no prato sobre a mesinha de centro. Ao lado, a taça de champanhe já cheia e, no fundo, a aliança dada pela avó, anos atrás. Celina decidiu usá-la hoje, precisamente na passagem do ano, para atrair as mudanças que desejava. Não que um novo casamento, depois de dois fracassados, estivesse em seus planos, mas porque, quando a ganhou, sua avó dissera: — Use quando concluir que você não precisa de marido pra ser feliz. Achou graça e prometeu colocá-la no dedo na primeira ocasião especial. Que é hoje. Estava no quarto, quase terminando de se arrumar, quando ouviu, vindo da televisão lá da sala, o anúncio de que ia começar a contagem regressiva. Celina correu com os sapatos de salto 15 na mão e o zíper do vestido branco ainda aberto — não perderia por nada o ritual da meia-noite comandado …

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  • 28 novembro

    Nem um pouco bonito!

    Há uma frase atribuída ao renomado psicanalista austríaco Sigmund Freud que diz o seguinte: “Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”. Embora sua autoria seja discutida — há quem sustente que a frase é da ensaísta canadense Lise Bourbeau, porém, é certo que a declaração atinge em cheio quem tem mania de fofocar. É válido ressaltar que fazer fofoca consiste em um hábito socialmente arraigado em praticamente todas as culturas, afinal, somos curiosos por natureza e, consequentemente, interessados na vida alheia. Mas, os fatores nos quais envolvemos, os mexericos, em especial, quando falamos dos outros ou passamos o “disse me disse” adiante, revelam muito a respeito de nosso caráter, nossa personalidade e até como anda a nossa vida. E o que isso mostra, acredite, não é nem um pouco bonito. Para Blenda de Oliveira, psicóloga e psicanalista, a maioria das fofocas é tóxica e desrespeitosa porque simplesmente não há autorização de quem é envolvido para passar a informação adiante. “E mais: essa informação às vezes sequer corresponde à realidade. Sabe aquele ditado ‘quem conta um conto, aumenta um ponto? Não é apenas nosso valor moral que condena a conduta em falar da vida alheia. …

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  • 27 novembro

    Spoiler a contragosto

    Henzo Felisberto, com agá, por favor, nunca gostou de spoilers. Quem conviveu com ele sabe disso. Ninguém se atrevia a lhe contar algo de antemão ou lhe adiantar o assunto. Era avesso a trailers de filmes, orelhas de livros e introduções. Nunca foi público para a fofoca e achava que a experiência perdia muito nessas antecipações indevidas. O comportamento de Henzo Felisberto afastava, talvez, uns quatro quintos da população, era um moço difícil, pra dizer a verdade, com agá. Se chamava Henzo Felisberto, com agá, por favor, porque, apesar de tudo, nunca foi descortês. Educou-se ao último grau em todas as instâncias adequadas para pessoas da sua estirpe. Nos registros, consta que Henzo Felisberto, com agá, por favor, foi por três anos goleiro do Não Me Conte Futebol Clube. Era um bom arqueiro, apesar de falhar nas bolas aéreas, vez ou outra. Além disso, conta com a triste marca de jamais ter defendido um pênalti porque se negava a estudar o batedor. Dizia preferir a surpresa. Coisas do futebol, sabe como é. Pois bem. Parou de jogar quando tentaram-no ludibriar para uma combinação de resultado. Afinal, se perguntava, como poderiam jogar assim? Conflitos existenciais pareciam não ser recorrentes na ética …

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  • 26 novembro

    Só um pouquinho

    Dona Glória acabara de comemorar seus 70 anos e, como presente, ganhou um gesso no braço. Uma queda boba, o tapete fora do lugar, o piso encerado e ela se estabacou no chão. No instinto, colocou a mão na frente e o braço segurou o peso de todo o corpo. Que não era muito, pois Glória se cuidava e mantinha a silhueta em dia. Mas também não era pouco. Dois meses depois do incidente, ela finalmente tirou aquele incômodo e a primeira reação foi coçar a parte esbranquiçada da pele. Mantinha uma cor bronzeada, fruto da proximidade da praia, e aquele pedaço de braço cor de isopor lhe assustou. Era como se voltasse no tempo e a visse criança, chegando ao Rio, junto com os pais italianos. Era tão branca que se destacava sempre quando se misturava com outras crianças. — Sua recuperação foi muito boa, Dona Glória! Mas, como o braço ficou muito tempo imóvel, vou recomendar uma fisioterapia. Algumas sessões e a senhora vai ficar como nova! Mais essa, agora! Ela não queria ficar como nova, queria apenas poder se coçar e tomar sol. — Tem certeza que preciso disso? — Claro. Depois de certa idade a musculatura …

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  • 26 novembro

    O tempo que não temos

    Ao escritor faltam muitas coisas, dinheiro, valorização, suporte e – frequentemente – sobre o que falar. O cronista, tendo a obrigação periódica de sentar e tirar algo do papel, é o que mais sofre com isso. Mas não, não divagarei aqui sobre a falta de assunto. Não irei cair nesse lugar comum dos autores de crônicas. Pelo menos, não agora. Não será desta vez que adentrarei no rol daqueles que possuem um texto com essa temática. Pelo menos, não agora. Do que eu quero falar e reclamar diz respeito a outra falta: a de tempo. Esse problema, certamente, não é exclusividade do escritor. Longe disso. Algo comum de nossos tempos é, justamente, a falta de tempo. Com exceção de alguns poucos (os muito ricos e os vadios, que são quase a mesma coisa, mas só os segundos têm minha admiração), não se escapa à correria, à agonia, à agenda apertada e ao relógio a achacar cada suspiro de nossa vida. Espremido pelo tempo, o homem vive; espremido pelo tempo, o literato sobrevive. Além de todos os afazeres diários, o escritor precisa lidar com as matérias artísticas e com a vida literária. Ou precisaria, pois, muitas vezes, só resta falhar. Mais …

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  • 25 novembro

    A Espera

    Esta reflexão não é sobre gramática ou semântica. Ela se refere à vida. Os tempos e movimentos do viver. Sobre esperar ou ficar em estado de espera. Estado de espera é o mesmo que esperar? É correta essa expressão? Não sei. Noto imediatismo na palavra esperar. A outra palavra me evoca serenidade. Sendo assim, em estado de espera, torço para que a minha percepção não seja um mero detalhe. Tenho observado uma espécie de urgência na vida. A idade e o tempo me deixam assim, às vezes curiosa, em outras confusas. Como todo ser humano eu vivi muitas esperas! Algumas vivo até hoje. Amar e ser amada, por exemplo. Enfim! Sinto que a espera mais significativa em minha vida, sem dúvida nenhuma, foi a gestação. O tempo marcado, o prazo, a expectativa, o medo, as adaptações, tudo! Foi uma espera intensa e envolta em muitas emoções. Da primeira infância percebo que não há muito a ser dito quanto ao assunto. Pudera! Pais, mães, avós e as pessoas todas ao redor, vivem em função de atender e não deixar faltar nada à criança, até mesmo antes de pedirem. Posso dizer então, que via de regra, crianças quase não sabem o que é …

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  • 24 novembro

    Crônica biografia do mundo de hoje

    Tenho sobre a minha mesa de canto all’aperto1 (como gosto de mesclar palavras e expressões das minhas duas línguas de fluência, o português e o italiano, a minha rotina! É uma forma de sintetizá-las numa só coisa, o meu eu real, a configuração amorfa do que sou enquanto um ser em constante expansão) cerca de duas dezenas de livros, referências de uma vida “pré” graduação e especializações várias. Me preparo para um estudo de caso que validará mais um diploma ao rol das coisas que vira e mexe me proponho a aprofundar-me – ou abrir sob meus pés um abismo de questionamentos profundos, quiçá sem respostas, que, como curiosa intensa e exploradora de mundo, me dedico numa corrida sem fim. Em tais exemplares, o assunto, se sintetizarmos, pontua-se, sempre nas recônditas zonas do espírito humano: das codificações de mundo que criamos à ideia da extinção das nossas mortes, passando pelas transformações dos desenhos das cidades e por nossas interações com artefatos e com as nossas casas, reflexo material do que pensamos e do modo como agimos – consequente demonstração de como o desenho urbano atua sobre nossas atitudes. Um destes exemplares, publicado em 1967, foi presente de meu pai (como …

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  • 24 novembro

    Arear as panelas

    Tenho na lembrança uma função doméstica sempre presente na casa de minha mãe – o dia de arear as panelas. O esfrega-esfrega com palha de aço e sapólio ia desgrudando as crostas formadas pelos alimentos ali preparados, que sedimentavam nos cantos, nas beiradas, no fundo das panelas. Sabores da vida que se desenrolava, impregnados nas marcas das panelas. Aquele cozido de emoções apuradas no fogo baixo ao longo dos anos, os embates passados nas frigideiras a estalar, a doçura necessária para baixar os ânimos até o ponto de fio. Caldo de um tempo que seguiu, continua seguindo e hoje pede outro espaço nas panelas. Tempo de uma Nouvelle Cuisine, de sentir o frescor, a leveza, a delicadeza de um novo cardápio. É chegado o momento de arear nossas panelas. Despregar lá do fundo aquilo que algum dia teve sabor, consistência, colorido, mas deixou resíduos cinzentos que só servem para tirar seu brilho. É hora de lustrar nosso caldeirão para receber as cozeduras que a vida nos reserva.

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  • 24 novembro

    A crônica de todos nós

    A crônica tem todos os rostos: brancos, pretos, asiáticos e mais! A crônica tem todas as cores, odores e sabores que podemos imaginar! A crônica é, como diria o poeta, uma janela para o mar! A crônica tem todas as linguagens e gestos e sinais! A crônica é simplesmente a crônica. Assim leve como um sorriso, quente como um abraço, demorado como um beijo apaixonado. A crônica tem todos os rostos e olhares. Rostos redondos ou retangulares… olhares de canto, olhares de ressaca como os de Capitu… Rostos e olhares… alguns perdidos e achados no meio do caminho. E no meio do caminho pode haver poesia sim! Mas muitas vezes tem pedra, poeira e sal. Mas qual o mal? Se não fossem as pedras ou a poeira ou o sal, o que seriam de tantas histórias que se fizeram no labor das coisas? A crônica segue a vida. Em caminhos e descaminhos. Em subidas e descidas. Dia ou noite. Choro ou riso. A crônica tem todos os rostos. E cada rosto um dom, um amor, um sonho e uma decepção. Cada rosto uma memória, um perfume e uma canção. O cronista avança pelas ruas e avenidas e escreve. Escreve sobre …

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  • 24 novembro

    Deus abençoe esta bagunça

    Tive um chefe muito desorganizado com quem dividi a sala de trabalho. Ninguém conseguia limpar aquela balbúrdia, cada vez mais empoeirada. Quem tentava era desencorajado pela advertência de se tornar o principal suspeito pelo extravio e/ou danos a documentos importantes (É claro que ele possuía outras qualidades, que não a organização, que o tornavam benquisto e capacitado para o cargo). Um dia ele fez um comentário do qual se arrependeu instantaneamente: aquela papelada constituía uma prova da inutilidade da burocracia. Não era bem assim: ele tinha razão quanto ao excesso de burocracia, muitos dos documentos ali esquecidos nunca foram reclamados por ninguém, mas, não raro, funcionários desesperados vinham examinar as pilhas de papel na esperança de encontrar um processo perdido. Às vezes eram bem-sucedidos embora na maioria das ocasiões desanimassem só de olhar para as prateleiras atulhadas e de ouvir os resmungos do superior. Em casos extremos acampavam na sala até que ele despachasse alguma demanda urgente. Eu, que sou razoavelmente organizada, aturei calada a situação durante um par de meses; ciosa de minha posição subalterna, nada ousava dizer quanto aos papéis acumulados. No entanto, como a intimidade induz a falta de respeito, um dia resolvi dar uma sacudidela naquele …

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  • 23 novembro

    A casa do ontem

    Se existe algo que podemos considerar indestrutível é a infância. Não importa quanto o tempo ou a maturidade bombardeie esse território, quando menos se espera, dos escombros do passado, desterra-se uma recordação, um medo, um trauma, uma saudade ou um fantasma. As lembranças infantis têm poder de reencarnação no agora. Prova disso é o peso cortante, na vida adulta, dos apelidos pejorativos de outrora, do escárnio ou da exclusão vivida num tempo distante. Ninguém esquece o gosto amargoso de uma humilhação. Mesmo que as coisas mudem, as condições se transformem, as pessoas sejam absolutamente diferentes dos primórdios de sua evolução, a infância insiste dentro de nós. Se agarra nas vísceras, forma limo, provoca erosões. Ora traz sorrisos fortuitos, ora rasga os pontos da cicatriz. O curioso é perceber que ela reencarna não só nas memórias e dores, mas também nas atitudes cotidianas. Um bom exemplo disso são as redes sociais. Quem nunca se descobriu excluído do grupo secreto de amigos do whatsapp ou constatou, pelo Instagram, que foi o único a não ser convidado para uma festa de aniversário?  A bem da verdade, a infância também se presentifica em nossas imperceptíveis tolices, seja quando fingimos não ver alguém na rua, …

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  • 21 novembro

    A conversa que não tem fim

    Nem bem ela disse Alô, ele logo disparou: — Pensei muito antes de te ligar. Você poderia estar dormindo, ou jantando, ou ocupada com outras coisas. Poderia estar acompanhada. Está? Era uma voz que ela não escutava havia cinco anos (mas como esquecer?). Mostrou surpresa espontânea: — Ora, veja só! Pensei que ainda estivesse morando na Europa. Onde era mesmo? Londres, não é? E não, não estou acompanhada. Como vai você? Ele sorriu quando ela disse que não estava acompanhada (ela percebeu). — Vou bem, obrigado. Sim, estava em Londres. A empresa me trouxe pra São Paulo de novo. Gostei de voltar, chove demais e faz muito frio em Londres. Cheguei há pouco mais de dois meses. E você, como os anos te trataram? Ela sabe que “Como os anos te trataram” não era a pergunta que deveria ser feita, e sim “Você está com alguém?” — Foram generosos comigo. Os anos, quero dizer. Me trataram bem. O tempo correu a meu favor, nada a reclamar. Ele pôs bebida num copo (ela escutou o barulho) e modulou a voz. — Sei que depois de tudo é inútil dizer alguma coisa, mas digo mesmo assim: continuo sentindo a sua falta. Os anos …

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  • 21 novembro

    O mais importante é a mudança!

    Em cada época de nossa existência, sempre tentaram explicar o funcionamento do cérebro através de metáforas extraídas da tecnologia mais atualizada do momento. A descrição que ficou famosa foi realizada por Platão, que comparou a psique humana a uma biga puxada por dois cavalos, onde um representava a razão e o outro o desejo. No século XX os psicólogos compararam nosso cérebro a um computador, que eventualmente apresentava um “bug” em seu sistema operacional. Exemplos assim são tentativas de expor nossa influência social exercida em muitos gestos que são o resultado do que somos, de nossa base existencial.  Diversas atitudes nascidas do meio ambiente nos ensinam comportamentos similares, para sermos aceitos e conduzirmos a mesma máxima interessada pela maioria, sem sombra de dúvidas. E como animais sociais, pertencemos à casta de nosso grupo mais próximo, fazendo o papel necessário para pertencermos ao meio que chegamos, por isso não há muitas opções além daquelas já expostas e pegas na prateleira social. Possuímos a estranha mania de copiar e colar em nossas cabeças, atitudes bem aceitas e lavadas pelo sistema, que está pronto para entregar a dose certa na boca, e o lado correto de dar o ombro. Nosso conteúdo influenciado pelo …

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  • 17 novembro

    PALAVRAS E ARTE

    Mesmo que palavras sejam uma paixão e ferramenta de trabalho, as palavras não são naturais; vejam, me explico. Natural seria o canto dos pássaros e os latidos dos cachorros. Os sons guturais com que nos comunicamos na fase primeira de nossas vidas, o amamentar, o fazer sexo. Depois que o homem descobriu o fogo, inventou a roda e pintou o interior das cavernas – a cores! -, as ações modificaram-se; era o princípio do artifícios, a pedra fundamental da Era das inteligências artificiais, as IAs, tanta tecnologia resumida em duas vogais maiúsculas. Tendo este ponto crucial em mente, toda inteligência humana, a despeito daquela emocional, é um artifício frágil e brilhante, uma película adiamantada para conter o que não quer ser contido. Cachorros, por outro lado, são inteligência bruta, expressão do puro; nós, não mais. Somos nós os adestrados, muito mais do que eles. Adestrados adestradores – adestramos porque tememos; criamos uma sociedade que nos aprisiona em moldes e imposições. Domesticamos não só animais, mas a nós mesmos, numa educação das horas e vontades: choros devem ser silenciados, fomes enquadradas nos horários das refeições e das prescrições das dietas; os desejos, contidos, o dormir e os sonhos adiados para horários plausíveis. …

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  • 17 novembro

    Arte da imperfeição

    Perfeito vem do Latim “perfectus”, que na cultura grego-latina significa acabar, terminar, completar sem faltar nada. Nós, os que, como eu, fomos criados com esse modo de ver ocidental e dicotômico de ver o mundo, tendemos a buscar essa perfeição em tudo o que nos cerca. Cultuamos o prazer imediato, a busca do melhor, a valorização do maior – temos necessidade do completo. Maiores prazeres, melhores oportunidades, o desejo como valor que impulsiona o progresso. Nesse modus vivendi não há espaço para imperfeição, para o menos, o quase, o em parte. Esticamos a régua na medida da perfeição, do superlativo, muitas vezes inatingível. Se tropeçamos na jornada, muitas vezes preferimos mudar totalmente de caminho a diminuir as expectativas e se sentir bem com o incompleto. Nas relações, não nos acostumamos a aceitar os defeitos alheios nem as nossas fragilidades.  A conviver com o que é dissonante, com o que não atinge o padrão que esperamos. Se ampliarmos essa observação para o modo como lidamos com as coisas em geral, perceberemos uma tendência a descartar tudo o que, de alguma maneira, não atingiu a perfeição, envelheceu, perdeu o viço, se rompeu ou quebrou. Para não ter que conviver com a frustração do …

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  • 17 novembro

    A nossa vida dos outros

    Queremos mais que uma vida. Queremos viver várias vidas. Desejamos ser piratas, mouros, cantores famosos, astros do cinema, reis e cavaleiros. Desejamos ser o outro e nunca nós mesmos. Não reparamos no espelho o nosso rosto… Em que espelho ficou perdida a minha face? Deixamos o tempo passar. Deixamos nossas coisas para deslumbrar outra vida, outras vidas. Nos assustamos depois com o que vemos: velhice. O pior de tudo é quando nos metemos na vida do outro. Somos os donos do conhecimento. Entendemos todos os males e problemas alheios e não sabemos resolver os nossos. No entanto, possuímos apenas uma única e delicada vida. Se há ou não há aventuras ou tesouros, grandes batalhas ou fantásticos enigmas, não importa. Importa a vida. A nossa. É cotidiana e tributável e a mesma e a mesma e a mesma continuamente? O que fazer? Somos humanos. Somos falhos. Somos loucos e controversos. Somos o próprio conflito e o próprio caos. E quando amamos, tudo piora. Tudo alcança dimensões maiores e mais dramáticas. E morremos sem morrer. E perdemos e ganhamos e continuamos a jogar seja qual for o jogo. E é assim e sempre será. Estamos vivos e este fato, por si só, …

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