
GRITO DE GOL
Um grito de gol não sai de uma superfície plano inclinada: a garganta. Ele irrompe de um outro lugar. Vem do fundo , sinuoso e labiríntico. Vem da pátria, seja verde e amarela, rubro-negra, tricolor…
Pulsional, berra com a força e velocidade maiores que da própria bola, que estremece a rede, transferindo sua energia cinética para as suas malhas, resvalando no peito e retumbando nas batidas do coração do tocedor.
Nos traçados da bola, que dribla num tempo lógico, nos projetamos nos talentos dos pés e na alma de quem chuta a bola, que sorri e chora. Transferimos para os jogadores em campo, o nosso ambicioso ideal, desejosos de sermos nós mesmos os campeões e assim teríamos uma constelação cravada nos peitos nus, com astros e estrelas formando figuras imaginárias.
Nesse jogo renovamos a aposta na improvável vitória. Damos partida no motor do desejo que se realiza quando a bola cobre o goleiro adversário. O grito de gol pula da boca, faz tremer o corpo , como a paixão . Segundos depois do “gozo catártico”,
retesamos os músculos, atentos, prendemos a respiração.
Se apaixonar-se é a diminuição do Eu e a hipervalorização do Outro, o gol cai como uma luva nesta fantasia. — Gol! É do Brasil!!!A sexta estrela seria nossa, nos completaria como um álbum de figurinhas e melhor ainda, sem igual no mundo.
O gol é como o amor. Ambos têm a mesma criativa tática para preencher a falta.
Mas, se o grito se cala, deixando mais frágeis as solas dos pés, calejamos. A derrota também é nossa, carentes que somos de grandes vitórias. Do lado de fora dos estádios, nos traçados do jogo da vida real, nossas identificações entram em campo.
Qual é a sua atuação nesta área? Atacante, meio-campista, defensor ou o que espera para agarrar as bolas chutadas?
Mas as frustrações prorrogam o desejo. “Da próxima vez vai dar certo”.
A vitória destrói a ilusão ao confrontar o sujeito com o vazio. Esvazia-se a fantasia, revelando que a completude não existe. O que fazer quando os planos tão bem calculados são provocados pelas emoções?
Em choque, caímos na real: o adversário imbatível é o inesperado. A bola está com o outro e oscila sem concreta explicação.
O avião da seleção pousou numa outra América, encoberto por um grandioso arco-íris. Estreou no dia de Santo Antônio, o segundo jogo no São João, e depois São Pedro. Sinais de bom augúrio. Mas não houve santo que desse jeito!
Ciao!























