Crônicas

O entregador

O café esfriava enquanto eu assistia a saga do entregador, em frente à portaria, tentando descarregar do furgãozinho um pacote grande e pesado. A situação era cômica: ele andava de um lado para o outro, movia a encomenda pra lá e pra cá, e terminava sempre com a mão no queixo, pensativo. Por certo, não tinha carrinho de transporte nem experiência.

O porteiro não deixou a guarita e certamente nem pensou em ajudar. Aliás, complicaria um pouco a vida do coitado, pedindo todas as referências possíveis para atrasar ainda mais o recebimento da encomenda, com cara de quem comeu e não gostou. Ele é bastante conhecido no condomínio, faz o tipo que reclama de tudo. Arrisco a dizer que se ganhasse na Mega-Sena, reclamaria três dias seguidos por ser obrigado a se apresentar no Banco para receber o dinheiro. Depois, reclamaria dos familiares e amigos, eternos pedintes. Depois, é óbvio, arrumaria outra e mais outra e mais outra coisa para reclamar. Um reclamante assíduo, crônico. Confesso, às vezes me pareço com ele.

O velho do 101 apareceu, retornava do passeio matinal com o seu companheiro canino. Pois bem, vendo a situação do entregador, se ofereceu para ajudar, mas o cachorro pulou para dentro do furgão e causou um baita alvoroço. Imagino que quase nada lá dentro se manteve no lugar, o próprio furgão chegou a balançar com o cão pulando entre as encomendas. Os dois demoraram um bocado para capturá-lo e, logo depois, o entregador agradeceu e dispensou a ajuda com um sorriso amarelo. É claro, não consegui ouvir palavra alguma, mas me era tudo tão nítido que eu poderia narrar a situação como se estivesse sentado o tempo todo no banco do carona.

Quando lembrei do café já era tarde. Pois é, talvez eu tenha perdido a hora bisbilhotando a vida alheia. Nem sequer olhei para o relógio, peguei rápido a mochila e fui para o trabalho. Como de praxe, o porteiro não respondeu ao meu bom-dia. Quando passei pelo furgão, ainda estacionado na frente do prédio, percebi o entregador empilhando caixas lá ao fundo e, estampado com letras garrafais, na incômoda e pesada encomenda, o meu nome.

Alexandre Leidens

Alexandre Leidens é um cronista nascido em Gaurama/RS, que hoje reside em Londrina/PR. Leitor compulsivo, cínico e pessimista, retrata os meandros do cotidiano com o desdém tragicômico dos velhos ranzinzas. Rouba livros sempre que possível. Adepto do chope gelado e da conversa fiada, só gosta do verão quando vai à praia. É autor do livro “O cigarro, o sovaco e o apoio de braço” (Bestiário), vencedor do Prêmio Mozart Pereira Soares (2025), na categoria “Crônicas”. Escreve para o site Crônicas Cariocas às quartas-feiras.

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