Poesias de 1 a 99

Poema #03: PRESSÁGIO

Vê onde há dor,
vá onde se avista,
doa o que não se pede,
perca o que não se dói.

Foi o que não se via,
viu o que não se achava,
trouxe o que não devia,
deveu o que não se tinha.

“Terei onde ser um outro,
verei o que há de novo”,
tentou ser tudo que tinha
viveu feito vivo-morto.

“Saudade é da liberdade”,
cantava o finado rouco;
mas tudo o que era livre
fizera de caso pouco.

Saudade é da boa turma,
teimosa que só a rima:
largava, sentia, ouvia;
era a vida do bicho solto.

Onde fora tal maledicência
que só o tombo levava o rito?
O tinha o decurso, o todo
fez da fome o que tinha dito.

Repetiu o que se lembrava,
calejava o suor da testa,

uma vida já percorrida
se de si esquecida,
de que resta?

A turma já como desfeita
anunciava o discurso às pressas;
foi o que não era
e não se via.

Eis a sutileza:
Viver é afetar a vida com a espera.

Pedro D’Ambrosio

Pedro D’Ambrosio é ítalo-brasileiro, artista independente e assistente jurídico, atualmente habitando o interior do norte fluminense (RJ). Escreve entre a inquietação do pensamento e a delicadeza da forma, explorando temas como linguagem, existência, silêncio e travessia. Seu trabalho se movimenta entre a filosofia, a poesia, a música e a arte como gesto. É Licenciando em Filosofia pela UNINTER e também Bacharelando em Direito pela Universidade Candido Mendes, mas é no espaço sensível das ideias e das criações que constrói sua estrada. Fala inglês e italiano, e além da escrita, encontra nas viagens e no montanhismo experiências de escuta e abertura ao mundo.

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