A lua na casa de saturno
saturno na casa da lua
todo mundo em casa.
A casa de todos no mundo
todo mundo na casa de
todo mundo e eu que não
encontro o meu lugar
em lugar nenhum,
no escuro.
O Jardim Simultâneo
A lua na casa de saturno
saturno na casa da lua
todo mundo em casa.
A casa de todos no mundo
todo mundo na casa de
todo mundo e eu que não
encontro o meu lugar
em lugar nenhum,
no escuro.
O Jardim Simultâneo
Quando Zími entrou no apartamento, a tábua do piso fez barulho. A luz do quarto de Mila Cox acendeu, ela abriu a porta e falou:
“O universitário quer fazer a entrevista com você. Certamente porque te considera um punk velho, cheio de histórias pra contar. Deve ser machista, pouco acostumado com mulheres no rock. Ele disse que colou no show de Santo André.”
Ela anunciou a ele que um jovem que estava presente no fim de semana anterior numa apresentação de Zími e Cox com a banda que tinham juntos, Crop Circles.
O jovem a qual Cox se referia era estudante de jornalismo, e queria a entrevista para um trabalho acadêmico.
“Talvez tenha preferido falar comigo pelo fato de eu ser coadjuvante. E o envelhecimento é um processo magnífico, no qual nos tornamos a pessoa que sempre deveríamos ter sido. Minhas versões anteriores estão perdoadas porque era o melhor que podia fazer na época.” — respondeu Zími.
“Você não é coadjuvante. Nós dividimos os créditos de todas as músicas.”— disse ela.
Ela anunciou também que compraria um baixo Gibson Thunderbird, e que daria seu Fender Jazz Bass como parte do pagamento.
Fosse financeira ou musicalmente, isso pouco importava para Zími.
Cox tomou a decisão ao receber de sua avó a pressão para se manifestar sobre seus planos para ingressar no ensino superior.
Precisava tomar uma decisão, e a tomou, mesmo sendo algo que nada tinha a ver com o desejo de sua avó.
Ela tinha agora vinte anos e ainda não tinha o desejo de entrar para uma faculdade.
Zími tinha quarenta e cinco e se formou em jornalismo antes dela nascer.
Geralmente era ela quem respondia às perguntas quando alguém pedia para entrevistá-los.
Eles eram integrantes da banda Crop Circles, um duo.
Ele era um baterista minimalista, que tocava de pé seu econômico kit percussivo, e em algumas músicas também atuava como vocalista.
Ela era baixista e vocalista, e usava um sintetizador para suprir a ausência proposital de um guitarrista.
Dividiam as composições, mas no palco, ela ficava à frente.
O universitário queria fazer a entrevista de forma falada, pela câmera do computador.
Zími já havia feito entrevistas, geralmente para outros estudantes, mas nessas ocasiões, havia respondido por escrito a perguntas que havia recebido por e-mail.
Marcaram a entrevista para a tarde do dia seguinte.
Na maioria das vezes quem atendia a esses pedidos era Mila Cox, que estava na sala quando Zími estava pronto para falar.
Ela estava curiosa sobre como ele se sairia.
Sabia que se tratava de um cara bem articulado, mas que podia não medir a força das palavras, dependendo do tema abordado.
Num dado momento, foi perguntado se eles tinham planos de fazer trabalhos solo.
Zími respondeu que no seu caso seria um livro, que já estava em gestação, e não outra atividade musical, ainda que o conteúdo desse livro fosse em parte relacionado à música.
O monólogo a seguir se deu quando Zími foi questionado sobre os baixíssimos índices de leitura do povo brasileiro, logo depois de dizer que seu projeto paralelo à banda seria um livro.
“Não tenho qualquer ilusão sobre ser reconhecido por mérito literário.
Acho que na música conseguimos ter alguma influência cultural, pelo retorno que temos de pessoas que vão a nossos shows e ouvem as músicas que lançamos em mídia física ou pela internet.
Mas no Brasil, a grande maioria das pessoas vai para a internet sem nunca ter lido um livro na vida.
Será invariavelmente mais um idiota na internet.
Terá como referência milhões de outros idiotas.
Inspirando e apoiando uns aos outros, os idiotas na rede se multiplicam.
Não se darão conta da própria estupidez e ridicularidade, e irão cada vez mais longe com ela, por causa da própria burrice e principalmente do retardamento mental coletivo que o cercará, e que até mesmo o acolherá na grande rede, dando-lhes mais confiança para novas empreitadas desastrosas e constrangedoras.
Mas na verdade, essas empreitadas são desastrosas e constrangedoras apenas para pessoas que respeitam minimamente a própria inteligência, ou que tenham salvado para si um fiapo de sensibilidade e opinião própria.
E a internet, que quando usada por pessoas que não tem preguiça de evoluir, é um portal interminável de conhecimento, uma universidade que cabe no bolso, e acaba tendo suas serventias desperdiçadas quando usadas por pessoas com a cabeça oca.
Esse portal incrível, em simbiose com a outra parte, majoritária, que é um antro de patuscadas e um oceano de motivos para vergonha alheia, precisa ser peneirado para que dali se tire conteúdo relevante do meio de tanto lixo.
As convicções precipitadas e inabaláveis das massas, que constituem o tão desprezível senso comum, crescem destrambelhadamente, sempre para o prejuízo do próprio rebanho, que desconhece o potencial de autodestruição que sua ignorância e alienação possuem.
A falência cultural que atingiu essa estúpida sociedade de consumo, em todas as classes sociais, se confronta com períodos anteriores em que a produção cultural para as massas ainda tentava usar a qualidade como atrativo, ainda que misturada com recursos que a tornassem mais palatáveis para o gosto popular.
Antes da internet, era necessário que o artista superasse o direcionamento artístico imposto pelas rádios e, no caso do Brasil, também a escassez de programas dedicados à música.
Com a chegada dos anos oitenta, essa escassez se tornou crônica, e o Rock produzido no país enfrentava a falta de familiaridade do público, dos produtores e executivos das gravadoras com o gênero, e em muitos momentos, os arranjos típicos da época, que logo se tornariam datados.
Os artistas da Motown e da Stax, por exemplo, tinham um nível de excelência artística indiscutível, podem agradar desde um intelectual até uma pessoa menos esclarecida, desde que esta ainda tenha alma, e que de alguma forma tenha acesso a essas obras.
Tornaram-se clássicos, romperam barreiras entre o que se considerava música negra e música branca, mas hoje, nem mesmo o advento da internet torna possível sua apreciação por uma maioria, que é movida por sucessos populares instantâneos e descartáveis, de qualidade rasteira, machista e sexista, e que não lhes dá consistência para durar como arte.
Nem precisam durar, pois para a engrenagem sinistra funcionar, o povo tem que estar cada vez mais afogado em conteúdo de qualidade cada vez mais pobre.
É preciso que haja quase imediatamente a substituição desses sucessos populares por novas aberrações musicais, que alimentam a alienação do gado, que por sua vez as consome avidamente, sem qualquer questionamento. Apenas vão seguindo o resto do rebanho. Falta referência.
Não há saída para esse beco inóspito, uma vez que a educação e a cultura, que são armas poderosas para que uma pessoa possa adquirir discernimento, não fazem parte da realidade brasileira.
É preciso estar muito além disso para que um território povoado possa ser chamado de país.
É preciso que as pessoas leiam, deixem de ser bisonhas, para que não sejam manipuladas de uma maneira tão triste.
Baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar, ao invés de pesquisarem, para que saibam efetivamente sobre algo.
São pessoas cheias de necessidades implantadas, que não são reais. Isso lhes causa frustrações diárias.
Seria mais legal se vivessem menos de aparências, que deixassem de guardar taças de cristal para visitas, enquanto bebem em copos de requeijão.
Ontem mesmo recorri a uma fuga, tomei umas bebidas pra comemorar a vitória do Uruguai sobre o time da CBF., antes de colocar som num baile da saudade. Não sei como alguém que diz ter alguma estima pelo país pode torcer pra aquela gente.
Mas antes disso fizemos uma música parodiando a alienação do povo brasileiro.”
Zími foi discotecar numa festa para pessoas da terceira idade, convidado pelo pai de um amigo que fazia aniversário naquele dia.
Antes da conversa com o universitário começar, ele havia espetado o pen drive que levara para a festa, que tinha músicas pop dos anos sessenta.
Para que a discotecagem não fosse uma picaretagem completa, Zími alternava as músicas do pen drive com a execução de compactos de vinil de Chriz Montez, Classics IV e outras coisas do gênero.
Na festa ele contava com uma vitrola para tocar discos de vinil e uma caixa de som para espetar o pen drive, enquanto fingia manipular os discos.
O universitário estava ouvindo as músicas de fundo enquanto Zími se prolongava nas respostas e perguntou sobre aquelas músicas, que não pareciam com o estilo dos Crop Circles.
Zími, que vestia uma camiseta dos The Germs, admitiu que nesse ponto, ele e Mila Cox sofreram influência do Jesus and Mary Chain, ao tentar colocar melodias pop encobertas por ruídos pouco ou nada palatáveis aos ouvidos médios, acostumados com hits radiofônicos.
Quando o jovem universitário lhe perguntou sobre o que Zími esperava do futuro da música e da humanidade, ele respondeu:
“Não vejo o futuro humano com otimismo nenhum. Do micro ao macro, a tendência é a autodestruição da espécie. Tudo está caminhando para um lado sinistro.
As pessoas se enfurecem com banalidades cotidianas, mas quando se trata de acontecimentos que devastam suas vidas irremediavelmente, parecem pouco se importar, ou nem mesmo perceber.
Individualmente, não é raro que atinjam patamares olímpicos de constrangimento aos poucos que pensam com alguma clareza e discernimento.
Sobre o cenário político mundial, é ainda mais pavoroso falar.
Logo as diferenças irão causar uma erosão política irreversível, sendo que a atual conjuntura de guerras poderá acelerar o fim a médio ou até mesmo a curto prazo.
A música parece acompanhar esse processo. É possível encontrar coisas boas no underground, longe da grande mídia, que compactua com a destruição do cérebro das pessoas, que não apreciam música como sendo uma forma de arte, e sim como uma distração bastante rasa, machista e sexista.
Chegamos a um ponto em que a música de qualidade, seja qual for seu gênero, é destinada a um nicho, um grupo seleto de humanos que usam o cérebro.”
Depois da entrevista, fizeram pizza no forno de padaria que tinham na cozinha.
No dia seguinte, começaram a compor uma música em homenagem a Dwight Twilley, assim que tomaram conhecimento de sua morte.
“Ibarabô, agô lona/ Olukumí/ Iboru iboya ibosheshe/ Canta Tuiuti!”. Agô Ilé, início esse texto pedindo licença para comentar sobre o enredo da Paraiso da Tuiuti em 2026. Esses belos versos de um refrão em Iorubá que serão cantados pela escola na Sapucai, em 2026, revelam diversos aprendizados que fazem do carnaval uma festa necessária para o aprendizado.
No Brasil. É muito comum a associação direta dos Orixás a todas as religiões de matriz africana. No entanto, o culto a essas divindades é uma característica partícular dos povos denominados Iorubás. Vamos conhecer um pouco dessa história?
Quando Olodumaré. criador do mundo, soprou o Emi para que fosse criado, por Obatalá o primeiro ser humano, Orunmila tudo assistiu. Nesse momento, todos os seres foram conectados aos Orixás. Orunmila recebeu, de Olodumaré, a missão de ser porta-voz do oráculo de Ifá guiando a humanidade pelos bons caminhos.
Após essa tarefa, Orunmila, na cidade de Ilé Ifé, transmitiu o conhecimento do oráculo de Ifá para os Babalaôs que aprenderam a decifrar suas mensagens.
Então, foram eles os responsáveis por disseminar a mensagem do Ifá pelo mundo.
Por meio da escravidão, essa tradição chegou ao continente americano, mais precisamente a ilha de Cuba, lugar onde os escravizados trabalharam em fazendas de cana e café e lutaram contra a injustiça da colonização.
Foi nessa local onde o Ifá Cubano, também chamado de Santeria para fugir da perseguição, criou suas raízes e se transformou em um culto bastante popular na ilha até os dias de hoje. Essa popularidade chegou ao Brasil onde, conforme já mencionado, os Orixás são imediatamente ligados as religiões africanas, embora nem todas elas os cultuem.
O enredo da Tuiuti é riquíssimo, fator que torna a missão de resumi-lo em um texto limitado do Instagram bastante ingrata. No entanto, só por esses detalhes fica claro que a escola vem com ricos ensinamentos. Ansioso para ver o desfile?
Comprou um relógio para controlar seus batimentos cardíacos. Descobriu que, ao ter o combo de medições de oxigenação, estresse, sono e ciclo menstrual, tornava seu pulso um criador de conteúdo.
Dados. Gráficos. Percentuais.
O coração, finalmente, auditável.
As notificações de redes sociais, e-mails ou o contar do tempo passaram a ser meros gadgets. O que importava era o número que subia e descia como se fosse destino. O corpo, agora, tinha analytics.
Com o intuito — primeiro e quase exclusivo — de mapear o próprio coração, passou a utilizar a pulseira flexível de cor laranja (também havia a opção preta, mas… quem quer ser discreta em fevereiro?). Dormia com o apetrecho; acordava com um vibrar incessante no punho, notificações piscando como quem dá bom dia e já cobra produtividade emocional.
Os picos de estresse reinavam entre a hora do levantar — rush de mensagens — e o fim do expediente, que, por ser autônoma, oscilava entre as 18h e as 2h40 da manhã. Raras vezes sua “rotina” não mudava. Aliás, rotina era uma palavra que lhe caía grande demais — como vestido emprestado, sobra um pouco no busto, aperta no quadril. Num confortável marca-passo, aprendeu a desconfortar-se da realidade.
Tudo passou a ser normal enquanto durasse a bateria do smartwatch.
O mundo cabia nos 67% restantes.
O acessório laranja combinava perfeitamente com seus óculos de ciclista urbana. A cidade, que desde as novas lentes, em um tempo outrora, se enferrujara de sol e desejo, agora fazia do verão o agente ruivificante: rubicundou-se em pleno fevereiro; enrusbeceu não de vergonha, mas de coragem.
Cortou as pontas dos cabelos e converteu-se.
O laranja passou a ser sua segunda cor favorita — a que a identificava, a que gritava antes dela.
Nos cinco dias de carnaval, ruiçou aos poucos, como quem aceita arder. Ardeu seu desconforto onde antes calava. Arder é uma forma sofisticada de não adoecer.
Concentrou-se no encontro fugaz dos corpos fantasiados: as máscaras injetam uma pseudo-coragem pelas veias — um placebo de liberdade. Teatro de verdade, no rés do chão do espaço público. Deixou-se boiar nos braços de um passado transfigurado de pessoa comum, mais magra, olhos mais sinceros, vigilante e contábil de afetos, mesma leveza sustentada por um viés infantil e escorregadio.
Liberdades hoje em dia confundem-se com libertinagens — diria alguém com sobrancelha arqueada, talvez do século XIX.
Há um choque entre gerações jamais visto antes. Há um colapso das formas sociais estabelecidas. E isso pode ser bom. Ou pode ser apenas inevitável. Desconforto sentido, interiorizado e meditado.
E foi então que tudo começou por uma intrépida sexta-feira 13.
Pleno carnaval.
Comprou um ticket de cinema para uma sessão vazia. Enquanto a cidade, lá fora, ensaiava gargalhadas com cuícas e paetês, ela escolheu o escuro climatizado. O coração — balde de pipoca à mão — ocupando uma fileira inteira de si mesma. No topo de um Mirante, na Tonelero, horas antes, era horizonte.
Agora era plateia.
O smartwatch marcava batimentos estáveis. Mas… e a alma? Entre a piscina do topo e o mar do térreo, como estabilizar uma coisa qualquer?!
Purpurina everywhere. A cuíca rindo com os dentes cerrados. Um riso friccionado ecoando pelas finas paredes, soníferas de um cansaço acumulado. Um fingimento alegre. Um som que nasce do atrito — como quase tudo que importa.
Ao tensionar sinapses, ao se permitir solitude e pausa, colapsou com quem acha que a entende e já a julga. Mas não se jogou do parapeito. Desceu de lá com graça.
Aprendeu que pulsar não é performar.
Abraçar as mudanças vem de um movimento corporal que envolve mente e coração.
E talvez — só talvez — desligar as notificações seja o primeiro ato verdadeiramente revolucionário de fevereiro. Mesmo que a pulseira ainda a identifique na multidão.
“Meu quarto foi despejo de agonia / a palavra é arma contra a tirania’’. Essa frase do samba da Unidos da Tijuca revela muito bem como sua homenageada utilizou a palavra como uma arma denunciando as desigualdades brasileiras e dando voz a pessoas esquecidas. Trata-se de Carolina Maria de Jesus, como o próprio título do enredo já revela.
Pela sinopse de seu enredo, a Tijuca fará uma homenagem ao estilo tradicional. Ou seja, ela pretende contar a história de Carolina que começa no cerrado de Minas Gerais, onde a gigantesca mulher, ainda criança, aprendeu com os ensinamentos de seus ancestrais. Dentre eles, está o seu avó Benedito, o tal “preto velho que lhe ensinou os mistérios” como o próprio samba enredo já diz.
Desse jeito, o enredo vai acontecendo em capítulos. Entre eles, está aquele em que ela vai trabalhar na roça e acaba presa e humilhada por portar um dicionário! Além disso, foi acusada de feiticeira e de ser uma mulher que queria causar prejuízos aos brancos, os donos do local (ou melhor, que achavam ser isso). Pensar em uma Carolina acusada de bruxaria é pensar no destino de várias mulheres que, ao se indignarem com as injustiças que o mundo lhes impunha, foram acusadas do mesmo.
Infelizmente, vivemos uma realidade em que cada característica física de uma pessoa faz com que ela desça um degrau na escala social. Aí, quem é homem e branco fica lá em cima, já uma mulher, preta, que mora na periferia fica lá embaixo nessa escala que impõe diversas dificuldades para que essas pessoas sejam vistas.
Carolina não só viveu essa realidade, ela se indignou com ela e resolveu contar. Isso porque, tinha uma arma muito mais barulhenta e potente que qualquer calibre que só se presta para calar vozes. Assim, fez de seu lápis megafone e falou para a sociedade sobre sua realidade, ainda que tenha tentado ser calada.
Por todos esses motivos, fica claro que a Tijuca acertou muito em seu enredo. É necessário homenagear a coragem de uma mulher que nunca se calou diante de sua situação. Que a força de Carolina Maria de Jesus se espalhe para outras mulheres de fibra como ela, pois serão capazes de mudar esse país.
Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.
Bom, o carnaval chegou e o ano, enfim, começa a partir daí. Quantos não vivem dizendo isso a cada novo carnaval, a cada novo fevereiro? Todos ficam em compasso de espera. Tudo parece inerte. A expectativa é enorme, assim como as filas e a falta de paciência. E eis que a festa da pretensa liberdade dá o seu tom. Os carros alegóricos que transitam pela avenida e levam cores e delírios e gritos histéricos, além das notas dos jurados, formam um comboio de fantasia. Uma cara fantasia! A melodia é difícil? A letra é sofrível? A voz do ‘puxador’ falseia? Não importa, é carnaval!
Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.
Engarrafamentos e arrastão. Praias com águas mornas e sol acima dos 40ºC. “Aquecimento” é isso aí! Há muito gringo para ver o desfile limpo e organizado e delimitado e amordaçado e bonitinho. É a festa da liberdade, diga-se de passagem! Mas cuidado com o cronômetro!
Há muito dinheiro envolvido na grande festa popular. Muito brilho. Negociações e aplausos e apertos de mão. Não esqueçamos as fotos com os políticos: sorrisos e acenos. Não esqueçamos também dos famosos: uma imagem é tudo! E as notas então? Beleza! Beleza! Silicones e músculos: força em ação! Mas a festa é de libertação! Olha o flanelinha aí! Não tem vaga não!
Bandeira branca amor não posso mais… Ô abre-alas eu quero passar… Mamãe eu quero mamar… Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é?
O ano, de fato, levanta e sacode a poeira (não sei se dá a volta por cima) e tudo segue como sempre. E mais fotos e escândalos, mais flanelinhas, mais arrastões, mais filas e filas… E o calor que derrete o asfalto? E as chuvas que atormentam a cidade? O preço do leite e do pão e da carne e do açúcar?
O poeta olha para o relógio e escuta as marchinhas do seu tempo. O cronista transcreve. Mas o carnaval passa, não passa? E passa para mais um carnaval passar… A crônica não está atrasada, não é? Palavras ao vento. Palavras como serpentinas. Palavras e o tempo…
E o velho tempo ri dos homens e das coisas porque a maior fantasia, o maior carnaval é a própria vida. Às vezes, a gente se esquece…
“A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *
Os emaranhados da vida
tapeçaria mal tecida
De palavras sufocadas por amarras
por nós
Arremates enrijecidos do tempo
entre as costuras
Vida vivida
em monobloco
Esgarçar a tessitura
do tempo mal vivido
Esburacar a trama
de pontos suturados
Criar um circulador
de silêncios no espaço
Arear lembranças
do que resta calado
(*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar
A dúvida é mesmo a assombração da humanidade, o veneno do existir. Não importa a situação. Se nos deparamos com a necessidade de fazer uma escolha ou se somos tragados pela incerteza da continuidade de algo que nos é fundamental, vem a maldita nos mastigar por dentro.
Quem nunca passou uma noite em claro matutando sobre o melhor caminho a seguir? Largo meu emprego de anos por uma oportunidade promissora? E se tudo der errado? Troco de curso na faculdade? E o tempo que já cursei?
No amor também não é diferente. Quando a insegurança monta casa em nossa mente, a alegria cede lugar à angústia. O medo de perder a prioridade na vida da pessoa amada ganha ares fantasmagóricos: Ele/Ela está diferente, será que não me ama mais? Será que vai terminar comigo?
Quem nunca se viu preso na areia movediça da dúvida a respeito da sinceridade do ser amado? Quer coisa pior do que não sabermos se a pessoa escolhida é realmente digna do nosso amor?
O inferno da incerteza não para por aí. Não termos ciência do nosso tempo de validade no mundo também acarreta todo tipo de perturbação. Seja porque adotamos a máxima “só se vive uma vez” e, com isso, perdemos o luxo da ponderação, seja porque nos travamos diante da afirmação: “o amanhã ninguém sabe como será.”
Por isso, acredito que a quarta-feira de cinzas merece toda a nossa enaltação. Ela é a melhor solução para os impasses da dúvida, do medo e da insegurança. É ela que agiganta as emoções e o colorido dos dias de carnaval. Como faz isso? É simples: delimita com clareza o momento do fim, desenha a borda do buraco onde nos atiramos. É ela que assevera: faça tudo o que desejar, porque vai acabar, COM CERTEZA!
A catarse inigualável que o carnaval promove vem da garantia de que não nos perderemos em meio as nossas fantasias. SEJA TUDO QUE DESEJAR, porque a quarta-feira de cinzas vem te catar, te envelopar e reconduzir ao lugar de origem. É feito um salto de bungee jumping, só que com a confiança de que a corda não arrebentará.
Quer leveza maior? Chego a sentir o vento no rosto.
E a danada é tão assertiva que marca a hora do encontro. Ao meio-dia, as obrigações civilizatórias te enlaçam, te puxam pelo tornozelo. O pulo acontece em um abismo controlado. Mas e na vida e no amor, como é possível viver essa explosão de alegria sem que a opressão da dúvida venha nos assolar?
Não sei… Talvez a solução esteja no caminho inverso. Na valorização das cinzas. Pouco importa quanto vai durar ou quando vai acabar. É por não saber que devemos apostar todas as fichas no desejo. Também somos o que acabou.
E se eu sofrer? E se eu me decepcionar? Me frustrar? Me arrepender? Ah, para de medinho.
Todo ano tem carnaval!
“Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante” (Roberto e Erasmo Carlos)
Os saudosos anos 60, além de propiciar nova consciência, clamor pacifista e efervescência artística, colocaram nos moços longas cabeleiras. Encaracoladas, cacheadas, naturais, lisas, afro, black power, rebeldes, mas invariavelmente compridas.
Depositários inconformados de valores de uma sociedade decrépita que exaltava a grana e a guerra, os jovens ansiavam por uma nova ordem onde floresceria o amor e a solidariedade universal.
Os profetas da Nova Era atribuíam o movimento à irrupção da Era de Aquário. “Quando a lua está na sétima casa e Júpiter alinha-se com Marte”, dizia a canção-símbolo do musical “HAIR” (cabelo).
As mesmas cabeças que, turbinadas por alucinógenos, hospedavam interiormente loucos devaneios de libertação, faziam brotar exteriormente caracóis psicodélicos e fios emaranhados rebeldes.
Cabelos longos significavam também transgressão à virilidade e à classificação dos gêneros segundo a tradição moralista cristã que dividia o ser humano em 2 categorias absolutas: o homem e a mulher, definidas respectivamente pelas cores azul e rosa.
As mulheres que tinham nos abundantes cabelos a marca registrada da feminilidade como protótipo de beleza, agora enfrentavam a concorrência masculina, numa época em que os limites que separavam as duas tipologias biológicas tornaram-se mais fluidos.
Os militares machões que promoviam a guerra e a repressão sempre tiveram aversão por cabelos compridos, enfileirando-os em pelotões capilares uniformes através de cortes tipo reco.
O sistema opressor para impor os valores burgueses exigia do indivíduo apresentação visual condizente. As vestes e o penteado deveriam retratar disciplina e ordem. Cabelos e roupas desalinhados eram sinal de desleixo, desrespeito, rebeldia.
A marcha inexorável do tempo sepultou os anos 60 e com eles a quimera por um mundo melhor. “O sonho acabou”, proclamou o cabeludo John Lennon.
Com o passar dos anos, os cabelos tornaram-se grisalhos, cresceram tanto que ficaram frágeis, começaram a cair como folhas no outono.
Cabelos compridos saíram de moda. Também saiu de moda o empenho em acabar com as guerras e salvar o planeta.
Adveio uma nova leva de jovens individualistas com aspirações de ascensão social e fortuna material. Essa espécie em expansão era representada por um figurino asseado, bem trajado, de cabelos aparados.
A nova safra de jovens das gerações X, Y e Z, ao invés de colares, fitas, pulseiras artesanais com a insígnia de paz e amor, portava roupas e acessórios de grife. Os hippies de outrora tornaram-se capitalistas de terno e gravata e investidores do mercado de ações e em criptomoedas.
Alguns mais extremados ostentavam, orgulhosos, símbolos neonazistas, muitos deles… carecas. O radicalismo execrava radicalmente a presença de fios subversivos.
Carregavam metralhadora numa mão e Bíblia noutra. Respaldam seu ódio nas palavras do mesmo Cristo que, triste ironia, pregava amor e usava vestes simples, sandálias, barba e… cabelos compridos.
Talvez eu seja apenas um saudosista que me apegue a um passado cabeludo que não volta mais.
Mas no alto das minhas décadas de vida, reluto em ir ao barbeiro cortar periodicamente os cabelos. A eles me apego, como uma ingênua esperança de voltar a sonhar por um mundo melhor.
“Resort com all inclusive, garçons bronzeados, bíceps à mostra, tapa-olho de pirata, buffet internacional e drinks tropicais… Música dos carnavais antigos, marchinhas singelas ou picantes ressoando, sem atrapalhar a conversação… Praia de areia branca, som do vai e vem das ondas… chuveirões e piscinas de borda infinita a poucos passos… Espreguiçadeiras, guarda-sóis, serviços de massagem, banhos de imersão e tratamentos corporais… Um livro, um chapéu, óculos de sol e minhas quatro amigas da vida toda! Detalhe: tudo pago. Amo vocês.”
Esse foi o aviso que apareceu no “záp-zap” da família. Afinal, o Carnaval é feito para brincar, sonhar, ser Cleópatra, a Rainha de Sabá, a loira da escola de samba, se é que me entendem…
Além disso, o ano precisa começar. Já chega de réveillon. E logo vêm as contas para pagar, viver, ter, ser, morar. Ufa.
Quero um pouco de ousadia, fantasia, alegria e folia.
Sendo assim, vou me divertir.
— Ah, mas isso pode ser em qualquer época do ano — dirá a desmancha-prazeres.
— Não vai inventar moda, mamãe! — a apavorada.
— Não vá gastar à toa! — esse é o “gestor de finanças”. Das minhas finanças…
— Já falou com seu médico? — a hipocondríaca.
— Mamãe, à tardinha nós vamos aí, está bem? Precisamos conversar com a senhora.
Hã? O quê?
Ah, crianças, do que vocês estão falando?
Aviso? Não mandei nada hoje.
Onde estou? Em casa, escrevendo minha crônica semanal.
Para a revista, ora! Qual? a revista online.
Ah, sim, o tema?
Escolhi este: Fantasia de Carnaval.
Beijos, também amo vocês…
“Não esperamos a saudade pra cantar”. Essa frase do samba-enredo da Viradouro faz lembrar os versos da música de Nelson Cavaquinho “Quando me chamar saudade”. Nela, o poeta clama para que “flores” sejam conferidas em vida. Parece que a escola entendeu essa mensagem ao decidir homenagear o grande Moacyr da Silva Pinto, muito mais conhecido como Mestre Ciça, no ano em que esse gigante completa 70 anos. Como a escola pretende cumprir essa missão?
O ano de 2026 será marcado por muitas homenagens. Aqui nessa página já foram comentadas personalidades que “receberão suas flores” de diversas formas. Baseado em seu enredo, parece que a Viradouro vai homenagear seu mestre de bateria fazendo algo semelhante ao que fará a Acadêmicos de
Niterói, ou seja, contando sua história na avenida.
Isso porque, a escola falará sobre a ligação do mestre com a Estácio de Sá. Berço do samba e local onde estão fincadas as raízes do homenageado. Ela também pretende falar sobre sua trajetória no samba como passista, integrante de bateria e, finalmente, maestro da batucada.
O vascaíno Ciça fez história em muitas escolas por onde passou, iniciando sua trajetória na Estácio, escola em que comandou a bateria em um desfile que homenageava o maior rival de seu time, o Flamengo. O mestre não podia deixar tal fato passar dessa forma. Então, foi comandar a Tijuca no desfile do centenário de seu time do coração.
Dessa forma, o mestre foi fazendo e construindo sua história. Essa, que, aliás, o coloca entre as grandes lendas portadoras da batuta que passaram na Sapucaí. Com seu talento, Ciça ganhou carnavais com uma bateria sempre afinada e doutora em fazer a galera mexer o corpo e sambar no ritmo mágico das baterias por ele comandadas.
Por tudo isso que foi falado, não é nenhum exagero dizer que a escola de Niterói acertou em cheio na escolha de seu enredo. Conseguem imaginar a emoção que será ver esse mestre conduzindo sua bateria enquanto homenageado? Aguardo ansioso para ver.
Queria falar de literatura. De literatura brasileira, especificamente. Gostaria, na verdade, de escrever sobre algumas das obras de Erico Verissimo, como O prisioneiro, que, por acaso, li os últimos capítulos hoje mesmo. E, preciso dizer, quanto mais leio as obras do Erico, mais certeza tenho de que se trata de um escritor absolutamente extraordinário. No entanto, não abordarei nem o romance e nem a guerra, sua temática principal. Falarei de Grêmio.
E, vamos combinar, como tem sido difícil falar de Grêmio. Nossa geração cresceu vendo o Grêmio ganhar tudo e mais um pouco nos anos noventa. Passamos por uma década e meia sem títulos, é verdade, mas geralmente com times aguerridos, figurando quase sempre na parte de cima da tabela. Em 2016 veio a Copa do Brasil, depois a Libertadores, a Recopa e uma sequência de Gauchões. Também passamos por uma queda trágica para a segundona e, no retorno, tivemos um ano mágico com Suárez e companhia quase beliscando o título brasileiro.
O fato é que hoje, ao assistir aos jogos, tenho vontade de criar palavrões. Sinto essa necessidade, às vezes, mesmo antes do início das partidas, bebendo ou não uma cervejinha. Nada contra o nosso novo treinador, nem contra os jogadores, que, em geral, respeito e admiro. O problema é que não há um palavrão específico que retrate exatamente a situação. Por vezes os jogos são tão constrangedores que nem mesmo o grande Erico Verissimo (caso fosse gremista) conseguiria descrever.
No fim das contas, trata-se de um impulso, de uma onda de raiva, de ódio, de repulsa, de indignação, como só um futebol mal praticado consegue nos proporcionar. Durante os noventa minutos fico a cogitar neologismos e não encontro nada que represente tamanho desentrosamento. Falando sério, eu não sei qual urucubaca lançaram sobre o tricolor, mas passou da hora de nos desfazermos dela.
De certa forma, sinto-me como o Tenente, de O prisioneiro, que, preso ao passado, não consegue seguir em frente, recaindo em elucubrações, questionamentos e fantasias das mais absurdas. Devo confessar que ainda sonho com as defesas do Marcelo Grohe, com a classe do Maicon, com a força do Edilson, com a canhota do Douglas, último camisa 10, e, claro, com a eterna dupla Geromel e Kannemann. Que saudades.
Sei que para uns e outros pode parecer bobagem, mas a língua de Camões, de Machado de Assis, de Erico Verissimo, não precisa de palavrões criados durante uma partida de futebol. Já existem palavrões demais e geralmente eu os utilizo em demasia, inclusive em momentos não oportunos. Não adianta, nem nos porões do idioma há uma expressão de baixo calão que defina o futebol praticado pelo Grêmio nos últimos tempos. E, convenhamos, quem sou eu para querer criar neologismos? Deixemos isso para quem conhece. Perdão, Guimarães Rosa. Por isso, peço encarecidamente à equipe que não me permita fazer isso e passe a se apresentar de uma forma, ao menos, mais aprazível. Se não for pela taça, pela torcida, pela história do clube, que seja pela Língua Portuguesa…
“Deixa girar, que a rua virou Bembé/ Deixa girar que a rua virou Bembé”. Começo a escrever esse texto escutando a versão cantada pelo lendário Neguinho da Beija-Flor. Será que o primeiro ano sem ele vai gerar saudades? Pergunta retórica, não é? Fato é que seus substitutos também parecem estar em total condição de levar o bonito samba da escola na avenida. Agora, vocês sabem o que é o Bembé de Mercado?
De acordo com o próprio enredo trata-se do “maior candomblé do mundo-nascido da transgressão de João de Obá, mantido na resistência do Pai Tidu, acalentado na doçura de Mãe Lidia, insistido na inquietude de Pai Pote e preservado na firmeza de sua Iyá Egbé e de seus detentores.”
Acho importante citar todas essas figuras. Também o é falar um pouco sobre a história dessa festa que nasceu em Santo Amaro, no ano de 1889, por meio da ocupação de João de Obá para realizar uma grande festa de candomblé que durou três dias. Desde então, todo 13 de maio, a festa se repete no Largo do Xeréu e reúne quase uma centena de casas dedicadas a essa religião.
É essa festa carregada de representatividade e de poder ancestral que a Beija-Flor pretende reproduzir na Sapucai. Quando falo em reprodução, o faço em sentido literal. Isso porque, tanto o samba-enredo quanto o enredo indicam que a escola pretende fazer um grande Xirê na avenida.
Conseguem imaginar a força que esse desfile promete trazer para a avenida? A Beija-Flor, atual campeã do carnaval carioca, vem forte com um desfile que parece prometer colocá-la como forte candidata ao bicampeonato. Como um amante do carnaval posso dizer que esse enredo causou grande impacto e
uma promessa de muitos arrepios ao longo do desfile. As forças ancestrais agradecem a escola por trazer ao conhecimento do Brasil que não conhecia uma festa tão cercada de representatividade e brasilidade.
“Festa do pecado” – foi com esse tipo de rótulo que o Carnaval, desde cedo, apresentou-se à minha imaginação. Falava-se nele como “festa da carne”, alegria dos baixos instintos, frenesi do demo. Por isso eu sempre o recebi com uma ponta de remorso. Brincar o carnaval era transgredir não sei que piedosas regras, era se comprometer com o inferno. O corpo gozava, mas esse prazer de poucos e efêmeros dias acabava tendo um preço.
No entanto o Carnaval não é apenas gozo do corpo, prazer dos instintos. Comporta uma outra dimensão, cheia de fantasia e sonho, alimentada pelo dramatismo de paixões que entristecem e dilaceram. Em cada folião ou foliã anônimos, sonhando nas esquinas sombrias com o próximo parceiro, reflete-se a paixão transfigurada de Pierrô, Colombina e Arlequim. Ninguém admite que saia à rua apenas para brincar – pelo contrário: a brincadeira é também esperança de algo maior, transcendente. É o sonho de uma grande paixão, o desespero fantasiado em riso.
Dos autores que escreveram sobre essa festa, um dos que mais me impressionaram foi João do Rio. Há em suas crônicas e nos seus contos o sentimento do homem dividido entre a alegria e o remorso, e para quem o prazer físico é uma emoção torpe. João do Rio retrata a belle époque, tempo de crise e subversão de valores no qual as contradições, por mínimas que fossem, ganhavam um acento patético. Mesmo descontando-se os exageros da época, ressalta de seus textos, colorida e potencializada pelo impressionismo do estilo, a velha oposição entre carne e espírito, que comumente vem à tona numa época como a de agora.
E lá estão, nos textos do carioca, personagens ansiosos por mergulhar na noite, perder-se na devassidão e no abismo de outros corpos. Vão arrependidos, exalando em palavras de autocomiseração e tédio o odor de seus baixos instintos. Até que são punidos por uma espécie de logro que lhes é dado pelo objeto de desejo, que se apresenta horroroso e hediondo.
Assim, por exemplo, a mulher mascarada e aparentemente linda revela-se, quando lhe arrancam a máscara, doente e disforme. Não é uma Vênus, como parecia; é um aleijão, de cujo nariz jorra pus. Por essa deformação estética, que frustra qualquer possibilidade de satisfação física, corrige-se um desvio ético e revela-se, ao mesmo tempo, o moralismo do autor. O esnobe e homossexual João do Rio, tão criticado pela sociedade da época, não passava de um moralista severo.
Mas o nosso tempo é outro, bem mais prático e comercial. Longe estamos dos excessos da belle époque. Hoje é o governo que alardeia preocupação com a nossa saúde venérea, incitando-nos ao uso da camisinha. O pecado é não se prevenir, ficar doente, mas não é errado transgredir os limites do corpo. Este parece aberto a todo tipo de prazer. E a virgindade vale muito pouco.
Mesmo assim o Carnaval ainda preserva o romantismo de outros tempos. É falsa, mesmo na permissividade da folia, a alegação de que ninguém é de ninguém. Para além do corpo que se oferece, em riso lúbrico e escancarado, sonhamos com alguém que venha e não vá embora. Alguém que fique e nos socorra depois – quando a lembrança do gozo desfeito não for mais que uma evidência de solidão.
Para viver em sociedade é preciso estar atento. Olhos bem abertos e ouvidos bem sintonizados.
Por que existem várias maneiras de se ofender alguém sem usar palavreado de baixo calão. Por exemplo, atribuir à sorte as conquistas dos outros é uma delas. É uma forma velada de desprezar a preparação e o esforço que outros tiveram.
Como se as coisas só dessem certo para uns como resultado da ocorrência de eventos positivos, favoráveis ou inesperados. Coisas que acontecem fora do controle ou da vontade humana mas que nunca dão errado. Aleatório puro ou sorte em estado bruto.
Para essa classe de escolhidos não é preciso fazer esforço algum. Basta ficar lá sentado, embaixo da árvore como aquele primo do pato Donald, o Gastão, que o universo se movimentará a seu favor. Afinal, eles foram ungidos pela sorte, sem saberem porque e sem terem feito nada para isso.
Bem feitas as contas, é maluquice das boas imaginar que a vida possa se organizar dessa forma. Mas para gente que acredita em terra plana, achar que a sorte é só para uns e não para outros é café pequeno.
Outra forma de ofender sem arreganhar os dentes é mostrar surpresa ante uma demonstração de esforço genuíno ou conhecimento. Nesses casos a frase do ofensor vem acompanhada de um sorriso, ou mesmo riso, em que diz “nunca imaginei que você fosse capaz de se classificar” ou “nunca pensei que você conhecesse Moliére” (ia escrever Shakespeare mas decidi dar uma folga ao britânico).
Nos dois casos, para ficar só em dois, não raro o ofendido não percebe que está sendo espezinhado. Fica meio atônito, sem ter o que falar direito, tentando compreender se aquilo que escutou é elogio ou crítica. É quase paralisador.
Mas há raros momentos em que percebe a ofensa e reage, mesmo fazendo uso de ironia para não perder a linha nem provocar uma briga. Aí, o efeito é devastador contra…ele próprio! O ofensor se ofende e diz que não se pode elogiar. Faz uma bela volta no salão interpretando a vítima, em um papel escrito com a mais fina arte da manipulação. Envergonhado, o ofendido se cala e se esconde ante a culpa que lhe impingem. Quanta maldade.
Se você chegou até aqui é porque testemunhou – ou foi vítima – dessas formas de ofensa. E se arrepende de não ter dado a resposta adequada ou ter se afastado diplomaticamente, sem oferecer o espetáculo patético da sua falta de ação.
Isso agora é passado. O que foi não pode ser mudado. E mesmo que você consiga enterrar no mais profundo de si essas ofensas sofridas, isolando essa bagagem da superfície onde vive, o reflexo delas ocasionalmente vai latejar na sua mente. Pode não ser sempre mas em algum momento, quando você escutar um elogio, aquele parasita desprezível vai rastejar para fora do buraco em que você o confinou. Só para plantar a dúvida em você, tirando o gosto doce das coisas boas e legítimas da vida.
O Zé roubou a Cida, só porque era vesgo o pai não permitia o casamento? Não foi por esse motivo, a Cida estava prometida a um outro – e promessa é dívida. No dia seguinte, ainda no orvalho da madrugada, escurinho, os dois irmãos bateram na porta do Zé, que ele saísse fora de casa, para morrer.
O Zé saiu de peito aberto, olhou nos olhos dos cunhados e mandou que atirassem. Os dois tremeram na pontaria – diacho de homem que olha para um lado e a gente pensa que está olhando para o outro. O Zé mandou que atirassem mais uma vez, enquanto os olhos tortos entortavam a pontaria de novo.
Aí o Zé disse: – Cristo mandou dar a outra face, eu dei. Agora é a minha vez – e avançou com o facão contra os dois.
Os pobres estavam tão desprevenidos que nem tiveram tempo de reagir, morreram sem saber o que estava acontecendo.
Quando o Zé viu, o sogro caminhava contra ele. O velho tinha os olhos em brasa: – Excomungado! Tem parte com o capeta! Já me tirou a filha e os filhos, já me tirou a vida – e, apontando o revólver contra o próprio peito, disparou.
O Zé ficou pouco tempo na cadeia; fora legítima defesa, e ele tinha que sustentar a mulher e a sogra, as duas juntas para ajudar a lembrar.
Por uns quarenta anos, o Zé amargou um remorso dos diabos. Tanto comeu do fruto doente da árvore da memória, que um dia resolveu ganhar coragem e cortar o mal pela raiz: uma dose de cianureto, e estava selada a abdicação.
“Sou independente, fácil de amar/ livre de qualquer censura/ Vem, baila comigo/ Só de te olhar, posso imaginar loucura’’. É dessa forma, e de outras, que a Mocidade, na letra de seu samba enredo, apresenta sua homenageada. Nem é preciso perguntar quem é, pois o próprio nome do enredo já deixa evidente. Como será que a Escola pretende homenagear a gigantesca Rita Lee?
Em comparação aos enredos já comentados aqui nessa página, acredito que o mais semelhante ao da Mocidade é o da Imperatriz Leopoldinense. Isso porque, as duas escolas optaram por homenagear duas figuras gigantescas da música brasileira. Ney em uma homenagem em vida e Rita, infelizmente, de forma póstuma. Uma outra semelhança entre essas duas figuras está na incontestável presença do feminino. Os dois tiveram que chutar as barreiras do patriarcalismo para viver da forma como queriam. Fizeram, conseguiram e inspiraram muitas pessoas.
Nesse sentido, a Mocidade deixa claro em seu enredo que sua homenageada: “Veio ao mundo para arrombar a festa e escandalizar um Brasil que já perdia seus matizes para um opressivo cinza chumbo”. Ou seja, uma mulher de força que, em um dos mais tristes momentos da história brasileira, ousou desafiar o regime vigente.
Além disso, enquanto “ovelha negra” de toda uma família tradicional brasileira, ela revolucionou misturando rock britânico com ritmos brasileiros e construindo uma carreira musical impecável.
Rita é tão infinita que fica difícil encontrar as palavras certas para defini-la. Por isso, vou tomar a liberdade de fazê-lo por meio de um parágrafo que a própria
Mocidade colocou em sua sinopse de enredo, segue o trecho: “Plural. Pluralíssima. Muitas em uma só. Rainha do rock. Cantora, compositora, instrumentalista, atriz bissexta, escritora e apresentadora. Ativista. Super-heroína dos animais. Defensora dos “frascos e comprimidos”. Padroeira da Liberdade. Sagrada e profana. Maldita pela igreja. Bendita pelos fãs. Santa Rita. De sampa. Feiticeira das palavras e atitudes contra o preconceito e a caretice, com ou sem a guitarra nas mãos. Bruxa raiz qie cruzou a lua amarela. Energia esotérica de outras dimensões. De outros planetas. De outros carnavais”.
Ou seja, simplesmente, Rita Lee.
Minha vida vai muito além das limitações do eu.
Subir os degraus de qualquer monumento todas as manhãs, me traz a oportunidade de tudo ficar claro.
Seria bom passar esse brilho aos olhos dos outros. Está tudo incrivelmente bem, e agora entendo que os limites entre ruídos e sons, são convenções, e todos estão à espera da transcendência.
É possível transcender qualquer convenção se você imaginar que pode fazê-lo. Por isso entendo que minha vida vai muito além das limitações do “eu”.
Ser, é ser percebido, portanto, conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos dos outros a natureza de nossas vidas mortais está nas consequências de nossas palavras e ações que continuam a se perpetuar ao longo dos tempos.
Talvez haja um mundo melhor esperando por nós e que não estejamos mortos por muito tempo.
Nossas vidas não são só nossas, do útero ao túmulo, estamos ligados uns aos outros. No passado e no futuro, em cada crime e em cada bondade, renascem as esperanças.
A morte talvez seja apenas uma porta, e quando uma se fecha, outra se abre. Se não pudermos imaginar o céu, imaginemos uma porta se abrindo, e atrás dela, estará a esperança.
Se um dia você encontrasse com a criança que já foi, aquela pessoa insegura, inexperiente, frágil e esperançosa por carinho, abraço e amor, o que você diria a ela para que pudesse chegar em seu hoje bem melhor?
O que não vale é mentir sem sentido como descreveu brilhantemente Jean Jacques Rousseau em seu frenesi no último livro chamado “Devaneios do Caminhante Solitário”. Ele escreveu que “Mentir para vantagem pessoal é impostura, mentir para vantagem de outra pessoa é fraude, mentir para prejudicar é calunia”. “Mentir sem proveito ou prejuízo para si ou para outrem não é mentir”.
É ficção.
Não se poderia dizer que alguém mente quando dá dinheiro falso, a um homem a quem não deve”.
Com tantas possibilidades em mentir, creio que devemos procurar ser sempre verdadeiros, e correr os riscos desse ato saudável por nossas almas.
O universo não responde à ansiedade, ao desespero, à pressa. Ele responde à confiança, ao equilíbrio, e à entrega.
Quanto menos você força, mais tudo acontece.
O mundo não deve nada a você, então assuma a responsabilidade pela sua vida.
Um dia o azul desapareceu. Olhamos para o céu com cara de espanto. Alguém palpitou que uma tempestade se aproximava, mas aquele cinza parecido com aço sobre a cabeça de todos não tinha nada a ver com os temporais costumeiros do mês de abril. Era diferente. Havia um cheiro, um quê desconhecido que tornava aquele dia distinto. O amarelo também sumira. Ao anoitecer a luz acabou. Os namorados não se encontraram, as ruas ficaram vazias e o silêncio se impôs, tão duro que se podia cortar com faca. Nem carros, nem bulício, nem passos: a cidade estava muda.
Pouco a pouco, como se fosse mágica, todos vimos o verde sumir diante de nossos olhos e até o carvalho milenar, parte inseparável de nossa paisagem diária, perdeu a pujança. Alguma coisa desconhecida sugou lentamente sua seiva, o tronco já apresentava rachaduras e a árvore imponente logo viria abaixo. Quase ninguém teve coragem de sair para a roça. Quem se atreveu, por força da rotina, regressou coberto de cinzas, como se um grande incêndio tivesse devastado o vale em que vivíamos.
O choque foi maior quando percebemos que o vermelho também desaparecera e, incapazes de distinguir o sangue do barro, erguemos nossos punhos e gritamos com as gargantas cheias de poeira. O céu despencou com fúria, ferro e fogo sobre nossa cabeça.
Na tela branca, Pablo desenhou formas delgadas, línguas apontando para o alto, corpos retorcidos em ângulos improváveis, animais em agonia, mães que choram. Foi o que ele viu. Em seus olhos nublados estava refletida a imagem de uma guerra em tenebroso preto e branco.
“Çai Erê, Babalaô, Mestre Sacaca/ Te invoco do meio do mundo pra dentro da mata”. É dessa forma a Estação Primeira de Mangueira pretende fazer uma conexão Rio-Amapá fazendo com que o público do carnaval conheça as tradições desse Estado por meio de uma figura pouco conhecida por muitos brasileiros. Essa é Mestre Sacaca. Você sabe quem é?
Segundo o próprio enredo, trata-se de um “curandeiro, folião, marabaixeiro e defensor dos povos da Floresta”. Como a escola falará sobre essa figura?
Nessa história Mangueira é personificada e está no Turé, um importante ritual sagrado e de resistência de diversos povos indígenas do Brasil que leva a conexão com os encantados. Nesse caso, após entrar em transe xamânico em razão do ritual, ocorre uma conexão da escola personificada com Mestre Sacaca.
Dai em diante, o mestre será responsável por guiá-la aos encantos da floresta, sejam eles da curé medicinal do poder das águas, dos tambores ou da força das tradições amapaenses representadas por Sacaca.
É muito interessante como, durante esse processo de transe, Mangueira vai se conectando a tudo o que vai acontecendo durante o ritual e vai percebendo o quanto sua existência é carregada de brasilidade e ancestralidade.
Ou seja, Sacaca e a Estação Primeira representam um Brasil que jamais pode ser esquecido, um Brasil de tradições que precisam ser valorizadas, como o samba e o Turé. Esse enredo cumpre um papel didático muito importante ao ensinar o público amante do carnaval sobre tradições que, possivelmente, não fazem parte de suas vivências. Nisso também reside a beleza do carnaval.
Salve a Estação Primeira de Mangueira.
Tento não crer nessa tristeza que me abala. Já são muitos os motivos para sofrer. Tá pensando que é por coisas externas, como a falta de minha mãe? Não, absolutamente. Perdi-a, como perdi o meu pai, num acidente de trânsito, ainda na infância. Fui criado por uma tia pobre e carrasca. Ela se satisfazia em me ver padecendo. A comida era fracionada. Seus filhos comiam mais. Nunca fui com a cara de nenhum, todos bandidos, literalmente; são assaltantes finos. Perdi o contato com eles quando o mais velho foi preso, em outro estado. Também não faço questão de tê-los por perto. Na verdade, é um grande alívio não ver titia e os seus filhinhos, que para ela não têm nenhum defeito. Disseram-me para procurar ajuda psicológica, e ri disso, porque ninguém vai saber o que sinto por dentro. Mesmo que eu fale, eles estarão passivos, esperando a minha melhora. Por que sei disso? Porque já fui a um par de psicólogos que me relegaram à sorte da insanidade. Tenho problemas com o que mora dentro de mim. Muitas vezes me acocoro ou me deito no chão para passar a ânsia da dor que me invade – é uma alternativa que me dá um pouco de consolo; e o faço em locais diversos, mesmo no shopping, quando fui pela última vez, há dois anos. Tenho medo dessa solidão, que não tem por quê. Já tive amigos, mas os perdi com o tempo, com a minha modorra, com o meu pouco-caso, por que estava preocupado com as minhas loucuras, com as necessidades geradas por um país capitalista. Mas como poderia trabalhar, se não me dava bem com gente? Sim, tenho muito medo de gente. Um médico, amigo da família, numa simples olhada, disse que eu era bipolar e fóbico. Saí arrasado do consultório. Como pode uma irresponsabilidade tamanha de sequer me ouvir?! Ele não me escutou, tirou o parâmetro por causa do meu histórico familiar, principalmente do meu pai, que era atendido por ele. Não me deu perspectiva nenhuma, maldito. Morreu na covid, com os bolsos estufados de dinheiro e soberba. Sinto muito, mas não sei mais quem sou. Perdi-me em desalinhos, em desconexões da minha mente atulhada de sentimentos vazios. Um único amigo que me restou disse que eu era capaz, que podia superar essa dor. Sei que tenho apoio moral, por causa dele; ele me salva nos momentos mais difíceis. Mas suas palavras, às vezes, se perdem no ar, como se ele estivesse falando com o nada, com o limbo do meu ser. Sou um homem triste do fim dos tempos. Não me acalanto com qualquer pegada. Nenhum evento social me agrada. Na verdade, como disse, me dá um medo desesperador. Quero fugir, e, quando não consigo, vou ao banheiro e passo o tempo necessário para me restabelecer minimamente. Evito os eventos sociais. Nilo, meu amigo, disse que preciso enfrentar, mesmo com medo, e o faço por ele, em encontros na sua casa, onde reúne a patota da infância. É o único momento que sinto ser possível, mas logo, no outro dia, recai sobre mim o peso da vida.
Outro dia, me lembrei de uma frase que me caiu no colo de graça no Instagram. É de Mário de Andrade: “Viver é gastar a vida e não conservar a vida”. E eu penso: às vezes, a gente economiza tudo – até o que não era pra economizar. Economiza amizade, esperando a pessoa perfeita, aquela que preenche todas as necessidades, que não enche o saco, não cobra e não liga na hora errada. O amigo sem defeitos. E, com essa exigência toda, quantos amigos a gente deixa passar?
Às vezes, economiza o riso. Ri pouco, preocupado se alguém está olhando. Queremos gargalhar de uma piada boba ou dançar soltos, mas guardamos tudo. Esses dias, fui no Bloco do Padreco – um pré-carnaval aqui em Belo Horizonte, no mesmo dia da Banda Mole. O bordão diz que “o carnaval só começa quando a Banda Mole passa”. Pra mim, só começa quando o Bloco do Padreco sai. Perto dos músicos, na comissão de frente, um grupo de freirinhas que se reúnem todo ano atrás da igreja. Fui com um amigo: duas freirinhas desgarradas rezando no meio do bloco. Tinha de tudo ali – freiras perdidas, padres bêbados, homem das cavernas, Batman. Ninguém economizava nada. Risos? Sambavam à vontade, dançavam e quebravam tudo até onde a coluna permitia. No resto do ano, essa turma só se encontra no pré-carnaval.
Fico pensando: em que época do ano a gente gasta a vida sem ser no carnaval? Em que momento chega pra um estranho, ali meio sozinho na porta de um bar, e o leva pro meio do bloco? “Ei, não fica sozinho, vem brincar com a gente!” Gasta-se torto e a direito aquilo que não era pra economizar: amor, amizade. Quando pinta um clima, uma paquera, basta olhar de longe e sorrir com os olhos, esperando o convite. No resto do ano, a gente se quer, mas olha pro lado – tanta pressa de ganhar dinheiro, fazer coisas, pagar contas.
A chuva não poupou ninguém. A multidão se aglomerava, se espremia perto da padaria na Praça Geraldo Torres. De vez em quando, alguém se animava e voltava a dançar na chuva. Fora do carnaval, mal nos olhamos. Vestida de freira, rezando pela alma dos pecaminosos, vi uma Kombi com “Carreto” escrito. Anotei o número, tirei uma foto sensual e mandei pro cara. O carnaval liberta, solta. Enquanto o bloco cantava “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, “Marcha do Saca-Rolha”, “A Cabeleira do Zezé”, a energia que a gente economizou ia pro ralo. Gastamos a vida e, de certa forma, nos renovamos. Não há tristeza que sobreviva àquela algazarra toda – ela vai pra algum lugar.
Carnaval deveria ser o ano inteiro. No fim do bloco, comentei com um amigo: “As pessoas andam tão sozinhas, só os celulares conversam pelas ruas. Mas é daquilo que a gente fez no Bloco do Padreco que sentimos falta”. Aquele abraço amigo em gente desconhecida, quando o estranho vira parceiro e os olhos sorridentes viram possível amor. E a música? “Toque que a gente vai pro meio do bloco e não se segura”. É disso que precisamos o ano todo – disso que vivemos em quatro dias intensos.
Zími acordou cedo e estava em bom estado.
Trabalha em casa, assistindo antes ao noticiário da manhã, que lhe agrada por mostrar ao vivo as condições surreais do transporte público.
Ele estava livre disso depois de anos, mas a forma como o povo é obrigado a se deslocar para o trabalho como gado de corte ainda o chocava.
Nunca havia o menor esboço de rebelião por parte de quem é obrigado a simplesmente doar todo o tempo e energia de sua vida e ainda morrer deixando dívidas para um sistema que cobra caro até para que sejam massacrados diariamente nas máquinas de moer carne que são os ônibus, trens e o metrô de São Paulo.
Um colapso social mostrado diariamente, que estraga a saúde física e mental das pessoas, e então ficava claro que um setor precário na vida, precariza ainda mais os outros
Todas as soluções propostas por Zími desde o seu nascimento eram consideradas utópicas.
O noticiário local era até certo ponto interessante, enquanto o noticiário nacional, apresentado na sequência, era bastante deprimente.
Por inércia, deixou a televisão ligada no mesmo canal, e o noticiário deu lugar a um programa pavoroso de variedades.
Ela ensinava uma receita que gourmetiza a moela de frango, apontada como solução mais barata para que o povo ingerisse proteínas gastando menos que em outras carnes.
Teve a impressão que a programação, ao invés de realmente salientar que essa sempre foi uma saída financeiramente viável, dava a entender que com a crise aguda e generalizada de então, era possível deixar uma eventual vergonha de lado e comer pelo que se podia pagar.
Para Zími, sempre foi necessário levar em conta o custo-benefício.
Alcançar o mesmo grau de nutrição, com um custo menor que o de outrora. Pode supor que grande parte da audiência, em TV aberta, já dominava as técnicas do custo benefício, por força da necessidade.
Todo o cenário para mostrar o preparo da moela parecia um outro planeta em comparação à vida real das massas, a quem o programa certamente estava direcionado e sendo muito assistido.
Mais um motivo para que se tornasse vegano.
O preço do queijo o ajudaria a não trair o movimento.
Com tanta desgraça por toda parte, sentia-se quase culpado por reclamar da vida que levava.
Não chegava a ser uma vida de merda, mas era limitada por falta de dinheiro.
A questão do sofrimento matutino no transporte público era tão relevante para ele, que sentiu por anos um tempo precioso de vida escorrendo para o ralo de uma maneira feia, que mesmo vivendo com um salário mínimo e meio, pensava se não era demais privilegiado por trabalhar em home office, fumando maconha de bermuda e chinelo, bebendo muito café, enquanto alguma estação de metrô entra em colapso.
E entra em colapso numa manhã chuvosa, e compromete todo o sistema da vida de cada uma daquelas pessoas, que estão com guarda-chuva, mas com a meia molhada, esperando por um serviço caro e precário, e tendo vários outros problemas, inclusive o trabalho, que era o destino planejado, em manhãs que em dias comuns já não costumam ser muito promissoras.
À tarde, Zími aproveitava que tinha que trazer algo da rua, então saía, perambulava e voltava à noite.
Na tarde do dia da receita de moela, ele saiu e encontrou Tito, um vizinho que morava no prédio e entrava enquanto ele saía.
Tito era vegano, e seria curioso comentar com ele sobre a crise e as adaptações que as pessoas que comem carne tinham que fazer para não deixarem de comer algo que para essas pessoas é imprescindível.
A maioria dos amigos de Zími era constituída de vegetarianos e veganos.
Ele comia carne, mas não com essas pessoas, e gostava muito da comida deles.
Tito, logo após cumprimentá-lo, disse a Zími que precisava fazer uma redação para a escola.
Carregava um belo case preto e retangular da Fender.
Tito havia abandonado os estudos na sexta série e agora, aos vinte e oito decidiu fazer um supletivo para arrumar um emprego com registro.
Exímio guitarrista, fez até ali o que pôde para viver apenas de música, mas as cobranças pela inadimplência como inquilino estavam grandes demais para ele.
Já havia se convidado para integrar a banda Main Drags, que na verdade é um duo, e não teme nunca teria guitarrista, por imposição de Mila Cox, baixista e tecladista, parceira musical de Zími nesse projeto.
Não haveria guitarrista nem mesmo para contribuir em momentos específicos.
Cox daria conta de fazer o suficiente com o baixo, o teclado e o sintetizador.
Zími era o baterista.
Por algum motivo, Tito acreditava que o ingresso na banda lhe daria algum dinheiro.
A tal redação para o supletivo estava deixando Tito aflito, pois teria que entregá-la naquela noite e não demorar para pegar o certificado.
Tito falou: “Então, o tema da redação é ‘Paradoxos’. Escrever sobre qualquer tipo de paradoxo.”
Zími falou: “A única referência possível para entender parcialmente esses paradoxos da vida, é a arte em geral, e em especial, paradoxos no mundo da música. Por exemplo: Sem a Yoko Ono, não haveriam bandas maravilhosas que moldaram nosso gosto musical. Dá pra ficar até depois de amanhã citando nomes, mas vamos ficar só no Sonic Youth e B52`s. O fato dela ser mal vista por muitos talvez seja apenas um fenômeno brasileiro, algo profundamente enraizado na ignorância dessas pessoas, que em ampla maioria não saberia citar o nome de quatro músicas dos Beatles. Ainda que ela fosse responsável pela separação da banda, seria absolvida por ter evitado constrangimentos com algum eventual disco ruim gravado nos anos 70, que macularia a banda e possivelmente inviabilizaria a gravação dos bons discos solo gravados pelos quatro na década de 70. De qualquer forma, a persistência dessa birra mostra que há a persistência da burrice e da preguiça de pesquisar minimamente sobre algo que se propõe a falar, mesmo que bêbado. Bebida não faz ninguém burro, fascista ou racista, então não serve de desculpa para muitas situações palosas as quais a culpa lhe é atribuída. Os Beach Boys também tem grandes paradoxos. Mike Love, repudiado por muitos que atribuem a Brian Wilson o fato da banda ter ficado gigante. Mas MIke Love era importante na fórmula que definiu o som pelo qual são lembrados. Isso durou até 65. Aí veio o Pet Sounds, que Mike Love detestou, e os discos que vieram a seguir são os meus preferidos. De 69 até 73. Há aí o paradoxo relativo ao fato de ser esse o período de vendas mais baixas até então. E outro paradoxo: Nesse período, a banda que era a mais americana de todas na década anterior, agora poderia passar por uma banda britânica. E agradava mais aos europeus, naquela fase, do que aos americanos. Acho “Wild Honey”, “Surf’s Up” e “Holland” ainda melhores que “Pet Sounds”. Mike Love defendeu a fórmula simplória da primeira metade dos anos 60 porque queria dinheiro e não se importaria se a fórmula de surf music e carros durasse até hoje, desde que vendesse bem. Poderia ter evitado gravar seu pavoroso disco solo no começo dos anos 80. Provou que a fórmula só funciona com Brian Wilson. Então, a trajetória de muitos artistas e suas obras dão certa luz sobre paradoxos da vida cotidiana. Há quem não entenda a arte, algo típico de políticos, que associaram “Born in USA”, do Bruce Springsteen, a uma ode à América, e não uma crítica. O sujeito pode ter até entendido, mas usou a canção para expressar outra coisa. Até porque, na época do lançamento desse disco, eu mesmo pensei que se tratada de uma ode ao ‘american way of life’. Mas alguns discos gravados antes, como “The River’ e “Nebraska” salvavam o conjunto da obra. Mas no caso do Bruce Springsteen, houve por parte do público brasileiro uma aceitação, ainda que tardia, ao seu trabalho. E shows enormes e lotados no país. Durante muitos anos, no século passado, eu pensava no quanto seria bom ter a vida de algum desses medalhões que não tinham problemas financeiros. Agora, além deles estarem bem idosos, tem que conviver com problemas reais para os quais o dinheiro não é mais solução. Muitas vezes o problema pode ser justamente a redução da fortuna de outrora, somado à idade avançada, o que causa turnês saudosistas que podem macular um legado de muitas décadas. E esses artistas com décadas de carreira ficam famosos no auge e muitas vezes depois descambam para o saudosismo e a decadência. Logicamente há casos em que a decadência é apenas comercial e não artística. Mas adoro a fase decadente de muitos artistas. Aqueles discos bons para os quais ninguém mais se importava, não tocavam no rádio e vendiam pouco. No rock progressivo isso acontece muito. Em tudo que foi lançado de rock progressivo depois de 1975. Mas se for bom, não importa que não esteja na moda. Vá fazer a porra da refação e termine logo essa merda de supletivo.”
Tito falou: “Valeu, Zimi! Você já me deu uma luz!”
Entrou no prédio com o grande case retangular enquanto Zími saiu para perambular na rua e pensar sobre o destino da consciência após a morte.
Agora que a luz se apagou
e a solidão restabeleceu seu domínio,
ouço com receio a linguagem do escuro
que me des-norteia a vida.
Nasci sob o signo da morte
mas prefiro-a assim,
conquistada aos poucos.
Porção diária de veneno
que injeto na raiz da vida
até que ela, afinal, desapareça.
E a linguagem do escuro prevalece
(ainda que se acendam todas as luzes)
como sendo a linguagem universal de tudo
a tecer as teias da incompreensão fraterna.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
Próximo ao céu, onde nenhum obstáculo além de uma escada de marinheiro me separa do Cristo Redentor, a certeza de que nada é estável me invade. A mutabilidade da paisagem, colorida a cada noite por nuances de distintos pigmentos primitivos — esparsas, turvas, momentâneas — fere um órgão qualquer, apertado entre oxigênio, responsabilidades e preocupações.
(— Não dói porque é frágil, diz uma voz que não vem de mim. Dói porque ainda sente.)
Vejo, a princípio, uma face altiva e quase saudosa, a guardar uma das sete maravilhas do mundo moderno. Nada mais importa, por toda a eternidade. Eis o grandioso que se inclina, curioso, diante do que é genuíno, ainda quando o rosto é o morro dos Cabritos.
(— Eternidade também cabe no intervalo de um gole, murmura Ele, sem mover os braços.)
Telhas sombrias e arbustos naturais, adornados por flores hipotéticas, transbordam sabedoria a respeito da irrealidade do tempo presente. A noite tem cor de um veludo azul, feito em máquina de tinta de catálogo. Parece reproduzível, parece transportável — mas não é; depende da base.
(— Depende de quem olha, suspira o corpo ao lado, em repouso confiado. Eu entendo.)
Damos sentido às coisas pelo breve capricho de acharmos que tudo tem de fazer sentido. O mundo não faz sentido: respira, sente, reage, morre e nasce todos os dias. Ainda que luzes vigilantes enrubesçam os céus para que humanos notívagos brinquem de ser pássaros – cruzem altitudes, pulem de um país para outro, de uma cidade para outra, de um parapeito no térreo de uma serra para um na cobertura de uma praia.
E então, como se quisesse confirmar a metáfora, um pássaro atravessa a noite e pousa quase ao meu lado. Assusta. Meu corpo reage. O coração dispara. Mas o reflexo vem mais leve do que antes. O medo passa rápido. O alívio afrouxado em um riso maduro vem depois.
(— Ainda há espaço para o inesperado.)
Grilos cantam em um e em outro lugar. A brisa é mais fresca nas horas adormecidas, embora janelas sem cortinas — ou pessoas calorentas — permitam que suas intimidades sejam mais soltas quando quase todos dormem. Prédios inteiros estão sem luz; alguns se destacam por suas temperaturas de cor muito particulares: branco quente, branco neutro e tantas cores possíveis pela tecnologia em que células programadas para telefonar transfiguraram-se em extensões de nós.
Ouço música clássica pela saída do áudio do celular, cigarras nas matas dos arredores, motores de máquinas que se dizem silenciosos, conversas ininteligíveis ao longe, motos, carros e um pingar compassado de alguma torneira, não muito distante. Repousa ao meu lado uma xícara de café e uma presença que reconhece meu tempo — não pede explicações, não exige permanência.
Com ela atravesso sinais fechados sem perder impulso: sigo na garupa da bicicleta enquanto as rodas descrevem círculos breves, atentos, até que o mundo permita a passagem. De madrugada, numa avenida larga e quase vazia, o som alto ocupa o espaço e o volante vira dança. A cidade se abre como se fosse só nossa — não por posse; coincidência rara. Existem encontros que não pedem promessa, só
reconhecimento.
O tempo é relativo. As pessoas são relativas. E as pessoas são as mesmas de antes: sorrisos que despertam sentimentos de nós mesmos, tão endurecidos pelo correr dos dias.
Choro, sentada no parapeito. Me sinto uma coruja com minha cafeína líquida. Um pouco de mim se desfaz a cada segundo e tenho medo de o mundo acabar num instante — como acabou para o meu pai, para o meu avô, e há de acabar para o meu cachorro, e para meus filhos, se um dia existirem.
Tenho em mim a sede genuína de um viver desembestado, um cavalo selvagem em meio a um descampado. Livre. Leve. Vivo. Sem destino pré-concebido.
De esguelha, entrescondo a pergunta que Ele já sabe que aflige meu peito:
Quanto tempo?
Quanto até que meus olhos se fechem pela última vez, aqui?
Quanto até o último café, o último beijo, o último êxtase, a última visão, a última palavra?
Quanto de tempo hão meus cabelos, pele, sangue e respiro de testemunhar, para que minha mente se aquiete com tanto a se fazer e conhecer?
Sentada nesse parapeito, em conversa honesta e silenciosa com o Redentor, choro.
Não sei se de tristeza, de felicidade, ou apenas de equilíbrio — nessa minha vida em que as energias poderiam se carregar por um apetrecho qualquer, desenvolvido para me manter desperta. A todo momento.
Que pode ser o derradeiro.
E também o único.
E o primeiro.
Não era o primeiro a chegar
também não era o último
ficava no meio.
Lugar pouco disputado,
onde ninguém posa
e quase ninguém repara.
Enquanto alguns se apressavam em brilhar
e outros reclamavam da falta de luz
ele aguardava.
Não parecia esperar nada específico
talvez só o tempo exato em que algo se revela
sem fazer alarde.
Foi assim que aprendi:
nem toda claridade quer vencer a noite
algumas só querem caber dentro dela
por um instante e depois seguir
vagalumeando
Ainda que sejam versos pequenos…
Uns simples versos que sejam ao menos,
os ventos os empurrarão no tempo
onde serão o eterno consentimento.
Toda a lua brilha alta e resplandece
porque deseja muito o amor do mar.
Acaricia um instante e depois reflete:
é a busca de nunca encontrar.
Como um solitário que ri na estrada
é toda ela amor…uma imagem vaga,
tempero de emoções, fogo que estala.
Sendo certo o errado e não sendo
a peleja da busca, o contratempo,
ainda que seja um verso pequeno.
Muito se fala dos super ricos, grupinho reduzido de privilegiados que amealham fortunas tão descomunais que fazem o Tio Patinhas parecer um pobretão.
Erguem mansões em localidades diversas com dezenas de cômodos em mármore maciço e um séquito enorme de serviçais, bunkers antinucleares, coleções de carros blindados, iates, jatinhos, joias e objetos de luxo. Possuem zoológicos particulares com animais exóticos (em extinção). Constroem banheiras de ouro e privadas cravejada de brilhantes para dar um tratamento vip até à saída de seu cocô.
Investem em terras, fazendas, gado, ilhas paradisíacas, fundos exclusivos, startups, e outros ativos cujos rendimentos e valorização lhes permitem fazer o seu patrimônio crescer indefinidamente. Tal qual seu ego. E sua ambição. Sonegando impostos para perpetuar a riqueza em sua integralidade.
Não sabendo o que fazer com tanta grana acumulada, promovem festanças nababescas em hotéis 6 estrelas com shows de artistas super stars (super ricos também) e organizam turismo espacial de lazer para outros super ricos gastarem seu tempo em frivolidades inacessíveis aos demais mortais.
Não bastasse, fazem lobby sobre os governantes para direcionar os rumos das políticas para atender a seus propósitos particulares de maneira que os destinos da humanidade a eles se subjuguem.
Não se importam também em rapinar os recursos da Terra em benefício próprio, ameaçando a existência de todos os seres vivos, inclusive deles próprios. Colocam os bens materiais acima de tudo inclusive da vida.
Na outra ponta, na base da pirâmide social, uma imensa maioria de indivíduos padece de fome e sede e luta pelas migalhas que os permitam sobreviver: são os super pobres.
Para um visitante do espaço que descesse à Terra, tamanha desigualdade seria inconcebível. Qual a lógica em os terráqueos aceitar passivamente uma sociedade em que muito poucos têm bilhões enquanto bilhões têm muito pouco?
A chave para a compreensão desse quadro bizarro é que os super ricos contam paradoxalmente com a condescendência dos super pobres para manter o status quo.
Os super pobres não se revoltam, nem se organizam para pressionar por mudanças que melhorem sua situação relativa. Aceitam humildemente a superexploração a que são submetidos. São também super pobres de espírito.
Opostamente ao que imaginara Marx em sua ‘luta de classes’, esses falsos ‘coitadinhos’ enxergam como seus reais inimigos não os abastados donos do capital, mas os demais pobres a que consideram fracassados e os imaginam como concorrentes na batalha para a ascensão social. Se não obtiveram sucesso nessa empreitada utópica para ‘subir na vida’ é por não terem se esforçado suficientemente. E passam a trabalhar dobrado, tornando-se além de super pobres, super esgotados.
Acatam a ideia de que aqueles que se encontram em situação aflitiva foi por desígnios de um Deus que premia materialmente apenas quem é bem sucedido como empreendedor.
Admiram os bem aquinhoados que, graças a seus esforços, teriam alcançado a bem aventurança traduzida por uma vida de luxúria, ao gosto do Cristo corporativo que dirige a humanidade não de um trono celestial, mas acomodado numa cadeira ergonômica de couro num smart office com ar condicionado. Que está mais para CEO do que para o céu.
São os super pobres que abastecem com seu dízimo os pastores charlatões. São eles que elegem com seu voto os políticos corruptos e que enriquecem com sua atenção influencers picaretas. São eles que seguem os mandamentos dos impostores midiáticos que os convencem sem questionamento de lorotas persuasivas.
Os super pobres menosprezam a educação que poderia fazê-los compreender a exploração e ignoram a palavra daqueles que os exortam a entender a dura realidade. Preferem viver na ilusão e se apegar à religião que lhes ensina o conformismo e a submissão.
Sim, os super ricos podem continuar a se esbaldar à vontade. Contarão sempre com a benevolência dos super pobres.
Costumamos dizer que seguimos com a mesma garra, a mesma força, a mesma independência, os mesmos “superpoderes”, embora já tenhamos atingido determinada idade.
No fundo, porém, penso que isso talvez seja uma escolha. Optamos, de forma racional, por manter uma aparência de força. Decidimos seguir.
Ainda assim, creio que nos tornamos, sim, mais fragilizados, mesmo quando estamos bem de saúde, com autonomia e em boa forma física. É como se, pouco a pouco, fôssemos esvaziando o estoque da nossa força emocional.
Passamos a querer andar sempre em dupla. Reparem como muitos casais idosos realizam quase todas as atividades juntos. Ou mãe e filha, duas irmãs, dois amigos inseparáveis. Essa constatação se deu tanto pela observação de outras pessoas quanto pela observação de mim mesma.
Há, no entanto, aqueles que preferem a solidão. Gostam de estar sós, apenas consigo. Desses se diz que cultivam a solitude. Ficam sós por escolha e sentem-se preenchidos de si mesmos.
A solitude pode demonstrar força, garra e independência. Ou talvez revele pessoas que, com o avançar da idade, tornam-se mais recolhidas, avessas a reuniões, festas e encontros. Arredias…até ermitãs, chegando a ser intolerantes.
Eu mesma me percebo dividida entre esses dois tipos de idosos.
Creio que há também aqueles que são emocionalmente frágeis, mas optam por não demonstrar essa fragilidade. Em razão disso, afastam-se da vida social. Recusam situações em que se espera afabilidade, troca, interesse pelo outro, como festas, reuniões e encontros.
Reflexões. Apenas reflexões.

Aqui venta sempre desse jeito, sim senhor. Acho que é por isso que chamaram aqui de Ventania. Em Dois Córregos também venta muito. Foi a minha irmã, a Cida, que me contou. Não, eu não conheço lá. O senhor não está vendo as minhas pernas? Eu não conheço lugar nenhum, eu só conheço aqui. A Cida é quem me conta as coisas. Ela diz que Dois Córregos não é muito grande, mas que é muito maior do que aqui. E deve ser bem maior mesmo, pelas coisas que ela conta que tem lá. É, sim senhor, eu só conheço as coisas de ouvir contar. Ah, também já vi as figuras de umas revistas que a Cida emprestou uma vez.
O senhor está cansado de esperar? Sente um pouco, fique à vontade. Logo passa um trem. Eu não sei se esse pára aqui, tem algum que pára. Mas o senhor viu o horário na estação, não é? Aqui a gente tem todo o tempo do mundo, não é preciso pressa. Pode olhar as coisas, não se acanhe. Tem sempre muita coisa para se ver. Eu não tenho muleta, não senhor. A Cida vem na hora do almoço, depois da escola, não sei a hora certa. Ela faz a comida, faz o meu prato, depois leva para o meu pai e a minha mãe lá na roça. Depois ela fica ajudando lá até de noite.
Mas o senhor parece que está impaciente. A gente precisa não se aborrecer com as coisas. Eu gosto muito de conversar. Se eu não estou chateando o senhor, eu continuo. É a Cida quem conversa comigo, quando ela está em casa e tem tempo e paciência. O meu pai às vezes tem tempo, mas não tem paciência nunca. Ele só fala “essa desgraça, essa desgraça”, e olha minhas pernas moles, e bebe pinga. A minha mãe só fica chorando. Mas a Cida não, ela dorme na mesma cama que eu e fica ouvindo enquanto eu falo tudo que eu penso. Eu durmo um pouco de dia e não tenho sono logo de noite e então eu falo, eu falo muito e ela me escuta. Às vezes parece que ela está dormindo, mas ela fala que está prestando atenção. O senhor também parece que sabe prestar um pouco de atenção.
Eu aprendi muito bem como prestar atenção. É assim que eu passo o dia. Mas eu presto atenção só no que me interessa. É esse o segredo. O senhor fica olhando esse relógio bonito toda hora. O senhor não viu aquele sabiá poca ali no mamoeiro, não é? Olhe como ele faz com a cabeça, como ele ergue o pescoço e gira para um lado e para o outro. Olhe como ele fareja o ar, como ele vigia tudo.
O senhor fica olhando feito bobo as minhas pernas. Eu já aprendi a viver com elas. Eu não sei o que deu em mim, não. Foi uma doença que ninguém sabe o que é. Um dia elas começaram a bambear, logo ficaram assim molengatas até hoje. Eu até já pensei em me matar. Não era melhor acabar com a vida do que só dar trabalho, não prestar para nada? Foi o que eu falei para o meu pai. Ele ficou louco da vida, disse que ninguém pode mudar as coisas.
Ainda lembro daquela hora. A minha mãe olhou para mim e começou a chorar. Então eu ri para ela, eu queria mostrar que tudo estava bem, afinal eu até estava rindo. Mas ela chorou mais ainda.
Foi naquele dia que o padre veio aqui em casa e começou a rezar e a falar que era a vontade de Deus. Foi então que meu pai explodiu. Ele disse que só a vida tem remédio para a vida. Mandou o padre embora e pegou o garrafão de pinga. Eu admiro muito o meu pai, ele gosta muito de mim.
E é assim que é a minha vida. Eu não sou muito triste, não. Só de vez em quando. A gente se acostuma com as coisas. Eu comecei a gostar de ficar aqui parado na porta de casa. Eu tenho muito tempo. Fico ruminando as coisas, imaginando. Gostando de imaginar coisas boas. E também eu tenho tanta coisa para olhar. Aqui nunca acontece nada, mas eu fico olhando o mato e cada vez gosto mais das coisas que eu estou vendo.
Tem gente que acha que eu fiquei meio bobo, mas eu não me importo. Acho até bom, assim ninguém fica com dó de mim.
O senhor não está com dó de mim, não é? O senhor parece que já se cansou de me ouvir, não é? Desculpe não ter nada para lhe oferecer. Tem água no pote, se o senhor está com sede. Se o senhor gosta de pinga, também tem, está atrás da porta. Tinha um pedaço de bolo, a Cida levou na escola. Ela nunca leva lanche, hoje ela levou. É até ruim, é capaz dos outros ficarem com lombriga.
O senhor já vai? Daqui a pouco tem um trem, sim senhor, mas eu não sei se esse para aqui. Também pode ser de carga. Um tempo eu prestava atenção nos trens. Eu conhecia todos, só de ouvir. Eu só queria pegar um e ir para bem longe, numa cidade grande, bobagem minha.
Mas o senhor já vai mesmo? Não quer ficar mais um pouco? Eu estava gostando de falar com o senhor. Prefere esperar o trem na estação? O senhor não disse nada. Bom. Se quer ir, o senhor que sabe. Então até logo, senhor.
(Conto premiado no Mapa Cultural Paulista – 2014)