Já sei bem que é Carnaval. Os sons da rua anunciam a jornada – repare que até os pássaros são proibidos de cantar, com a arruaça que se desorganiza pelo Centro da cidade. Ronaldo, meu vizinho, saiu cedo, às 5h, e me deu notas de como serão as suas aventuras pelas praias do Ceará. Falou que iria de Beberibe a Paracuru, com os detalhes de ser uma grande viagem em família. Parariam nas praias para curtir um pouco do que tinham para dar. “Sou folião nato, Inojosa, desde que era pequenininho seguia o meu pai nessa trilha!”. Ele sabe que não gosto de festa nem nada, e mesmo assim, por educação, me chamou, num carro lotado com filhos, esposa e bugigangas. Onde já se viu eu participar de um fuá desse?! Coisa de gente maluca! Na verdade, na mente, eu pedia que ele fosse logo e me deixasse em paz – ele conversa pra burro, além do mais. Nem quando Lourdes era viva gostávamos de carnaval. Uma vez ou outra íamos para um bloquinho, mais por ela, e eu fazia a sua vontade. Víamos, no Centro, o passeio das escolas mixurucas daqui, onde os carnavalescos passavam bêbados e desinteressados na beleza. Hoje, me escondo, até mesmo de meus filhos. Eles também não são muito chegados a Carnaval, mas topam ir a uma praia desfrutar, coisa que jamais tenho ânimo de fazer. Carnaval é período de tristeza infernal, não sei bem o porquê. Fico mais depressivo se vejo na televisão o passeio das escolas de samba. A alegria dos outros me incomoda? Não é bem isso, não gosto de ver pessoas mais tristes do que eu; tampouco a felicidade exagerada me atrai. Todo o drama deve ter a ver com o meu pai, que era muito farrista, e minha mãe que ficava em casa chorando, “cuidando” dos filhos, também chorosos por causa da mãe. Era um desastre. Uma lamúria que fazia a minha avó passar os dias de Carnaval enfurnada em nossa casa, para pelo menos fazer a nossa comida, para se preocupar com a casa e com as criancinhas desprotegidas – enquanto minha mãe, como disse, se acabava de chorar; por isso não gosto de pessoas mais tristes do que eu. Ah, sim, deve ser por isso que odeio Carnaval. Não suporto Sapucaí e seus afins. A Bahia, então, tão linda, para mim, no Carnaval, vira o buraco do cão. Por isso eu me circundo, me enclausuro. Mando até Mariana, a minha filhinha mais querida, pastar. Ela veio me pedir para passar este Carnaval com ela, em casa, enquanto o marido se “distraía” em uma praia qualquer – olha a história se repetindo. Cada qual que cuide do seu Carnaval. No meu apartamento não há espaço para som, especialmente no meu quarto, com janelas contra ruídos. Aqui está tudo pronto para o fim. E, assim, deixo o Carnaval passar – simplesmente passar –, como todos os vendavais.
Crônicas Cariocas
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Enfim, Carnaval…
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Valeu, Mestre Ciça!
João Pedro é um menino de 9 anos nascido na cidade de Niterói. Como todo garoto, costuma ocupar seu tempo fazendo coisas que outros de sua idade também fazem. Estuda, vai ao colégio, joga videogame, usa seu celular para ver o que acontece nas redes sociais e passar o tempo se distraindo com games.
O menino sempre acompanhou a paixão de seus pais pela escola de samba de coração, a Viradouro. Os sambas da escola sempre fizeram parte dos churrascos de domingo com sua família. Durante a cerimônia familiar, o garoto sempre ficava se perguntando por qual motivo aqueles que o trouxeram ao mundo amavam tanto esse tipo de música que ele nunca conseguiu gostar.
No ano de 2026, Pedro sentiu uma euforia além do normal em sua casa, ele via seu pai bradando pelos quatro cantos sua empolgação pelo enredo que homenagearia Mestre Ciça. Até então, o garoto não fazia a mínima ideia de quem se tratava. Resolveu, então, então perguntar a Roberto, seu genitor, que tentou explicar de todas as formas, mas, ainda assim. o garoto não conseguia compreender tamanha empolgação.
Seu pai, então, resolveu fazer um convite, o chamou para assistir ao desfile da Unidos do Viradouro que aconteceria na madrugada do dia de segunda para terça. Cansado, após fazer muitas coisas ao longo do dia, João dormiu, mas foi acordado no horário por Silvia, sua mãe. Um pouco contrariado, foi ele assistir ao tão aguardado desfile.
No início, pouco entendeu sobre o que estava acontecendo. No entanto, ao ver a comissão de frente que trazia um garoto com idade semelhante, ele começou a se interessar. Daquele menino, surgiu a figura homenageada içada ao ponto mais alto de um tripé da comissão de frente que parecia visivelmente emocionado ao ser saudado por todo o Brasil. Naquele instante, o garoto entendeu que algo diferente estava acontecendo e passou a assistir vidrado a tudo o que acontecia na avenida.
Cada figura que aparecia, fazia o curioso Pedro perguntar aos pais de quem se tratava. Desse modo, o menino conseguiu entender o inexplicável. Percebeu que a mágica dos desfiles acontece dentro da avenida. Dali para frente, assim como seus pais, Pedro se tornaria mais um apaixonado pelo samba e quis assistir a todos os desfiles seguintes.
Nesse texto, o menino João é apenas um nome fictício para representar as milhares de crianças que, assim como o garoto Ciça, se apaixonaram pelo carnaval e pelos desfiles das escolas de samba em algum momento da vida.
Eu mesmo, sou um deles.
O sambódromo é um local onde o inimaginável se materializa em forma de emoção e faz a mágica acontecer. Coisa que pouquíssimas experiências conseguem realizar de forma tão eficiente como ocorre no carnaval. Ciça, após a Viradouro ganhar o título, disse que esse não é um título próprio, mas um título que cada sambista e apaixonado pelo carnaval carrega junto com o mestre. Essa frase demonstra um espírito de solidariedade que raramente pode ser vislumbrado em uma sociedade capitalista como a que vivemos. Mais do que nunca, precisamos não só viver o carnaval das escolas de samba, precisamos ser o carnaval das escolas de samba.
Que mais crianças como João Pedro possam entender a magia dessa festa e que o espírito do carnaval seja proliferado.
Valeu Viradouro! Valeu Mestre Ciça! E. por último, um valeu especial a todos os sambistas antigos e os novos que ainda surgirão!
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Poema #57: História Concisa
“Quando em meu peito rebentar-se a
Que o espírito enlaça à dor vivente”.
Álvares de Azevedo(1831-1852)O poeta dobra a esquina
com uma sacola de plástico:
pão, bife de hambúrguer e solidão.
Não vale a pena chorar por ele:
se fez as opções erradas,
se tombou pelo caminho,
nada fica além do fato
de um dia ter existido
e comido aquele sanduíche
barato.Uma Escada que Deságua no Silêncio
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In-cels ou In-hells?
Numa conversa de bar, ouvi, na mesa ao lado, alguém chamar um colega de trabalho de “incel”.
A palavra me chegou torta. Pensei ter escutado “in céu” — algo estrangeiro mal pronunciado, desses modismos que sobem à cabeça depois do segundo chope.
Nada disso.
As amigas se entreolharam com um susto breve — desses que duram menos que a espuma no copo.
— Justo ele? Bonito, cargo alto, vida ajeitada… um pouco inseguro, talvez. Mas isso?
— Escuta o que ele anda dizendo — respondeu a outra. — No cafezinho começou a atacar uma colega.
Disse que as mulheres estão “com poder demais”. Que ela recusou sair com um amigo dele porque o rapaz não é um “Chad”.
A mesa quase tremeu.
— Chad?
Risadas curtas.
— Esses machos-alfa de fórum. Os eleitos. Os que, segundo eles, monopolizam as mulheres.
A palavra incel voltou a circular como uma moeda gasta.
Celibatários involuntários. Homens que transformam rejeição em tese. Frustração em teoria.
Desapontamento em trincheira.
O bar seguia alto, indiferente. Mas ali, naquela mesa, algo tinha escurecido. Não era apenas a falta de encontros amorosos — era a construção paciente de um ressentimento com gramática própria.
Disseram que há fóruns, comunidades, códigos. Que o Brasil figura entre os que mais alimentam essas conversas. Que às vezes o discurso não fica só na tela.
O copo bateu no mármore com um som seco.
Pensei na minha audição equivocada do início da noite.
Não era “no céu”.
Era um outro lugar.
E agora me pergunto: estamos falando de incels — ou de pequenos infernos cultivados em silêncio, mesa a mesa, tela a tela?
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Uma crônica fora da lata
A polêmica no carnaval (entre tantas e recorrentes polêmicas de carnavais e redes sociais) tem a ver com uma lata. Mas não uma lata qualquer, uma lata física e, ao mesmo tempo, metafórica. Coisas de nossos tempos tão absurdos! Não vou explicar o desfile e tampouco descrever a escola de samba, personagem ímpar de um ano que se inicia. Há muita agressividade nas redes e o assunto foi dito e redito centenas de vezes… Não sou eu que vou repetir mais uma vez! O que eu quero aqui é uma boa provocação literária!
Liberto as palavras de qualquer lata para escrever esta crônica. E, pra começo de conversa, as três primeiras palavras são justamente conservantes, enlatado e conservador…
CONSERVANTES, de acordo com o dicionário, diz respeito a substâncias adicionadas a produtos alimentícios para prevenir a oxidação.
ENLATADO, por sua vez, significa “que se enlatou” ou “guardado ou conservado em lata”
CONSERVADOR significa “que ou o que, em princípio, é contrário a mudanças ou adaptações de caráter moral, social, político, religioso, etc…
Postas as palavras, vamos para a crônica!
Tem gente que vive enlatada e não tem ideia e não respira…
Tem gente que enlata os outros e não abre mão de impor suas latas e não abrir lata nenhuma!
Tem gente que conserva o rancor, o desamor, a mágoa e a tristeza!
Tem também sonhos enlatados, pensamentos enlatados, sentimentos enlatados…
Assim como são enlatadas muitas canções…
E assim, essa gente que não gosta muito da vida, vai conservando ódio e preconceito, violência e desprezo…
Essa mesma gente que não curte dissonâncias, vai enlatando tudo o que vê pela frente e, quando se vê, não há mais cores e sabores e odores, ao contrário, há apenas uma única verdade, absoluta, imponente, intransigente…
Sabemos que muitos conservantes mantém os alimentos dentro da validade a custa de nossa saúde!
Sabemos também que muitos enlatados possuem alto teor de sódio e que latas amassadas, enferrujadas ou estufadas devem ser evitadas!
Por esta razão, é importante pensar: ser conservador é necessariamente conservar apenas o que é bom?
Sabemos que não!
Os que gritam pelo conservadorismo querem conservar preconceitos enraizados, conservar privilégios indecentes e conservar o clima de guerra constante…
Quero, pela minha parte, conservar o riso e a alegria, não o cinismo. Quero conservar a malemolência da língua portuguesa, não a desigualdade. Quero conservar o abraço e a amizade, não a hipocrisia! Quero conservar a poesia e não a cara carracunda de quem não gosta de arte! Quero conservar a imaginação, o voo do balão, as bolhas de sabão, não a frieza e a falta de compaixão!
Quero conservar a essência de humanidade e não a barbaridade!
Quero conservar a crônica solta, livre, fora da lata… para que ela, a incrível crônica, possa, pelo poder das palavras, abrir outras latas!
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Boiar nas águas, atravessar os morros: menos Catherine, mais Rita – mais minha
Quantas vidas vivemos em uma vida – você, eu?
Eu, por exemplo, não sou mais a mesma do casamento.
Nem poderia ser. Seria falta de educação comigo mesma.
Tampouco sou a mesma que realizou, ainda nova, seu sono de morar no exterior. Ou a que ambicionava um prêmio de arquitetura, recebido na categoria sustentável antes dos 30.
Hoje sou a única criatura — ao menos aparentemente — que sai aos prantos da sessão de terça-feira de Carnaval de O Morro dos Ventos Uivantes. Quase uma sessão matinê, e a cidade pulsando lá fora, confetes aderindo aos cabelos alheios e se esbaldando, bêbados e desequilibristas, pelo chão. Batuques. Bebidas vendidas em isopores. E eu chorando por ingleses que insistem em amar como quem cava a própria cova.
Mudaram o destino do filme. Encurtaram silêncios, ajustaram gerações; embelezaram a dor com fotografias impecáveis, figurinos de tirar o fôlego; cenários e sentimentos antagônicos: pobreza e a opulência – esta convertida em excesso de desejo e intensidade, como se cada cena precisasse gritar para não desaparecer na sucessão incessante de imagens que disputam o mundo de hoje.
A sala azul… Trechos de paredes brilhantes. O almofadado do quarto de Cathy na cor de sua própria pele, com manchas que traziam suas sardas – mais discretas que as minhas – aos holofotes.
Diante de tanto impacto visual e emocional, ali estava eu, soluçando discretamente – ou nem tão discretamente assim -, com meu livro da Emily Brontë sobre os joelhos, acariciado cena após cena.
Percebi, entre uma lágrima e outra, algo que me pareceu escandalosamente maduro: já não tenho idade para viver e morrer de amor.
Meu primeiro amor morreu. Ou talvez tenha morrido apenas a menina que achava beleza no morrer por alguém.
— É, minha querida, diria meu falecido primeiro amor – poeta de obra, sombra e medida involuntária, para desgraça do meu eu adolescente e dos amores que vieram depois – morrer é sempre um gesto dramático demais para quem ainda precisa pagar boletos.
Concordo. Hoje. Com a ironia aprendida, equilibrando os deslizes do peito.
Há versões nossas que saem de moda. Como certas ideias românticas que já não combinam com o rumo e a velocidade do mundo atual.
Catherine me comoveu, mas não me seduziu. Heathcliff fez meu coração palpitar por sua beleza, seus cuidados e maldades com a amada, seus traumas infantis – mas me alertou. Amor que precisa destruir e magoar para provar que existe… Isso não me interessa mais.
Lá fora, batuques aleatórios. Pedra portuguesa sob os pés. Piso urbano novo, intertravado. Descobri, ali, que havia pedras portuguesas em Nova Friburgo — eu, arquiteta quase nunca distraída, atravessando a cidade sem notar o desenho do chão.
É curioso como podemos viver anos sem perceber o que sustenta nossos passos. Há quem nunca tenha notado a cor do piso à frente de casa.
Prefiro, agora, a atenção e a presença dos amores que nascem e morrem para fazer sentido. Não os que implodem casas e almas. Não os que confundem posse com poesia. Talvez mais os que atravessem do que os que fiquem.
Chorei lágrimas de equilíbrio outra vez. Chorei por ter amado com ferocidade quando foi preciso. Chorei pelas versões minhas que já caducaram. Chorei porque estou viva – e isso, convenhamos, é um privilégio maior que qualquer paixão homérica ou borboletas no estômago, essas criaturas inconvenientemente instáveis.
Somos compostos prioritariamente por água e sais: há líquido demais em mim para fingir secura. Sou mais mar e onda do que constância.
Estou aprendendo a nadar em águas salgadas e mais profundas. A boiar sem afundar. E é até reconfortante tomar uns caldos e tossir entupida de sal, de quando em quando.
Na mesma manhã do cinema, ainda carnaval, sentei-me ao sol na praça da minha cidade. Blusa semi-transparente e dourada. Top igualmente dourado. Abri uma garrafa de vidro de cerveja às dez da manhã, como quem inaugura um livro com cheiro de novo.
Zeca bebia seu copinho d’água recém-saído da geladeira da padaria.
Minha mãe torceu o nariz:
— Uma menina tão bonita bebendo assim, na rua…
O pior é que havia outra garrafa para ela, na sacola. Ela, fã da intrépida Rita Lee.
E então percebi o que a Rita entendera antes de todas nós: a liberdade feminina ainda é um escândalo para quem depende de permissão alheia.
— Minha querida, talvez cochichassem os artistas devidamente enterrados, escândalo é só o nome que dão às mulheres que respiram sem pedir licença.
Pois então respiro.
Senti, naquele banco de praça, algo sereno e perigoso: se filhos vierem, bem-vindos. Se não vierem, tudo bem igualmente. Zeca já dá conta de parte da minha vocação maternal. Se o amor ficar, que fique inteiro. Se for embora, que vá sem levar minhas estruturas.
Não tenho mais idade para morrer de amor.
Platão me sopra uma frase, como quem salva uma atriz de um branco em pleno palco: todo homem apaixonado é um poeta. Eis que a poesia desce do pedestal e volta ao gesto humano de amar.
Percebo, então, que tenho idade para atravessá-lo — com humor, com verdade, consciência e uma cerveja — ou um vinho — na mão.
Se houver (mais) outras vidas dentro desta, que elas me encontrem menos trágica que Catherine e tanto ou mais insolente que Rita.
E que, quando eu ameaçar dramatizar demais, haja sempre um eco, a sussurrar:
— Querida, ame. Mas conserve o seu sobrenome.
Tal qual fez minha mãe, com um casamento exemplar. Tal qual eu já fiz uma vez, diante do padre e do
cartório, com uma lição bem aprendida:
nunca tome decisões em pandemias.
Deixe o tempo no comando.
Aproveite as ondas.
Aprenda a não enjoar em alto-mar.
Respire. -
CRISES
As crises são produtivas e mesmo desejáveis. Precisa-se delas para crescer. Isso é verdade tanto para a História quanto para os indivíduos. Historicamente, a períodos de crise sucedem outros de euforia e progresso (os pós-guerras atestam essa verdade). No que diz respeito às pessoas, há relatos de crises que ensejaram profundas mudanças existenciais.
O problema é quando elas se tornam frequentes e mesmo viciosas. Há quem se acostume a viver em conflito consigo mesmo e cultive com certa morbidez o mal-estar que isso traz. Para gente assim, os momentos críticos não são estágios para o amadurecimento pessoal; persistem como uma espécie de segunda natureza.
Tenho um amigo assim. Sempre que conversamos, ele diz que está insatisfeito com a vida e se preparando para mudanças radicais. Ora pretende largar o emprego, ora se dispõe a deixar a mulher (que nunca deixa, por medo de ficar sozinho). Quando lhe pergunto quais seriam os novos planos, ele não sabe responder. Quer dar uma guinada na vida, mas ignora em que direção.
As conversas com ele me lembram o adolescente que fui – cheio de dúvidas e temeroso do futuro. Com quem namorar? Que carreira seguir? Que amigos cultivar? Questões como essas não raro me tiravam o sono, mas na adolescência isso é natural. Está-se numa encruzilhada quanto a escolhas que vão repercutir no restante da vida – e sabendo muito pouco do que a vida é. Vivenciar tal paradoxo, convenhamos, precipita qualquer um no torvelinho da crise.
Às vezes esse emaranhado de indecisões persiste em estágios posteriores, chegando à idade adulta e se projetando na velhice. Geralmente quem passa por isso diz que ainda não se encontrou (é tão longo esse “ainda”, que faz pensar em “nunca”). Quando enfim se dará esse encontro, para o qual a pessoa parece não estar (ou não ser) preparada?
Meu amigo fez análise, mas depois de algum tempo desistiu. Espirituoso, me disse que seu problema não é o inconsciente, mas excesso de consciência. Esse diagnóstico pode ser interessante como jogo de palavras, mas encobre um ceticismo que beira a desesperança. Se ele rejeita a análise mas não consegue se livrar do pessimismo renitente, que procure outra alternativa. No limite, mesmo autojuda pode servir – desde que seja com fé.
Faz dias que não nos vemos, mas sei que ao reencontrá-lo vou me deparar com o mesmo semblante sombrio e as velhas queixas. Ele me falará de suas novas deliberações e me pedirá que opine sobre elas. De que adiantaria opinar? Quem não consegue ouvir a si mesmo não vai querer ouvir os outros. Mas serei complacente quando ele começar, como das outras vezes: “Rapaz, agora é sério! Nunca estive tão mal…”.
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Rugas virtuais
Nunca me preocupei com a velhice, embora não acredite naquele papo de melhor idade, isso eu sei que é balela. Como eu poderia viver a melhor fase da minha vida sem enxergar um palmo à frente do meu nariz e ainda por cima na companhia de anti-inflamatórios e médicos de todas as especialidades?
Não que seja horrível envelhecer, mas a crença na velhice como o melhor dos tempos é a reencarnação do coelhinho da Páscoa. Sei que é preciso alguma ilusão para aguentarmos o tranco de lidar com o ganho de peso, o ressecamento da pele e aquela sensação térmica exclusiva e independente do resto do mundo. Mas chamar de melhor idade, convenhamos, é uma apelação insustentável.
Os homens não passam por essas agruras. Para eles o envelhecer oferece um certo charme, um quê a mais de sedução. Sim, o tempo é tendencioso.
Quanto a mim, também uso minhas gambiarras emocionais para lidar com as transformações impostas pelo vivido. Por um lado, é muito irritante ter um código de barras no centro do pescoço. Por outro, hoje sou vacinada contra uns tipos que antes me adoeciam de paixão. Nessa perspectiva, o resultado da conta existencial se mostra positivo.
Além disso, sempre botei fé na crença de que cada um tem a idade que deseja ter. Que delícia a promessa de viver meus vinte anos eternamente, sem dar importância às celulites, à flacidez dos braços, às linhas de expressão ou, por que não dizer, o caderno de caligrafia ao redor dos olhos. Sentir a juventude nos poros da alma.
O paraíso seria assim, não fosse o fato de que nesses tempos modernos a velhice se impõe através de rugas virtuais fincadas na autoestima.
Você pode ter corpo de quinze, mente de vinte, uma vida saudável, alimentação balanceada, rotina de exercícios físicos, mas, se não tiver investido na linguagem computacional, você está velho ou nos termos atuais off.
Ouço as músicas da moda, estou em todas as redes sociais, faço dancinhas para viralizar, mas não sei usar filtros, aplicar efeitos, fazer downloads, salvar no drive, escanear documento no celular ou resolver problemas da impressora.
Você pode ser jovem em tudo, mas é ancião de acesso.
É como querer comer quebra-queixo com prótese dentária, abrir pote de geleia com tendinite no pulso ou pagar boleto sem óculos para perto. Aliás, o tamanho dos números nos códigos de barra é o primeiro sinal de que as portas do futuro são estreitas e sem acessibilidade.
Não tem disfarce que esconda essa falta de colágeno binário. A tela do computador e do celular funcionam como um espelho moderno e cruel a berrar que eu estou fora.
Quem disse que aceito essa realidade? Eu resisto. Luto contra as evidências da minha velhice digital. Baixo aplicativos como quem usa hidratante anti-idade, só não consigo o efeito rejuvenescedor esperado. Esqueço as senhas, envio e-mail sem o anexo, me enrolo com os links de acesso. Por fim, me dou por vencida e chamo o jovem da casa para resolver o conflito. Bastam quinze segundos e dois toques, tudo resolvido.
Para manter a honra, mostro interesse em aprender o processo. Minutos depois não lembro mais onde clicar, já não sei o que fazer. Travo. A cada tropeço nasce uma nova ruga virtual. Uma linha de expressão, escrita em negrito, fonte Times New Roman, tamanho 28: você está oldline ─ deixem-me criar uma nova categoria em inglês para os anciãos do acesso e para ter o gostinho de estar na crista da onda.
A sorte é que a memória falha e o idoso é teimoso.
Pensando bem, envelhecer talvez seja uma pirraça. Das boas.
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A madrinha
Um estranho. Para as pessoas distraídas, apressadas, pensativas, envolvidas em seus pensamentos ou problemas, em que mudar a marcha do carro vem a ser um ato automático, o rapaz parado ali naquele cruzamento praticamente não existia ou era apenas isso: a figura de um estranho.
Em vez de empatia despertava irritação, talvez.
Não era transparente, mas era como se fosse. Como se ali não houvesse ninguém.
Gabriela passava todos os dias naquela esquina e por acaso o viu. Bastaram poucos segundos para sentir-se curiosa em saber quem era aquele rapaz, qual a situação que o levou a mendigar uma moeda, um trocado.
Não que ela não soubesse. Sabia sim, sua cidade já há algum tempo tornara-se o destino de pessoas e até famílias sem teto.
Havia muitos pedintes que ficavam nas esquinas das ruas olhando a vida passar. A vida da qual não faziam parte.
— Como é o seu nome? perguntou
— Ramón
— Toma Ramon, disse e lhe passou um sanduíche enrolado em papel alumínio.
Minha mãe ainda acha que sou criança! Ela ri e arranca com o carro. Não eram mais estranhos, embora não fossem amigos. Criou-se um vínculo sem nome, entre eles.
Gabriela criou um enredo onde faltavam todos os porquês, e não se conformava por não completar a história sobre o estranho.
Como ele era? Um rapaz banal. Nem alto nem baixo, moreno, jovem, cabelos pretos, roupas bem usadas, de dias de uso. No cartaz em suas mãos estava escrito a sua nacionalidade e um pedido de ajuda.
Gabriela elucubrava, não por interesse pessoal nele, mas por um início de consciência que estava adquirindo em sua recém iniciada vida acadêmica. Dia após dia, ao fechar o sinal, ela parava justamente no local onde ele fazia “o seu trabalho.” Trocavam um “bom dia”, “hoje está quente”, e seguiam em seus mundos.
Como em um flashback, ela o imaginava em seu país de origem conversando com seus colegas, fumando um cigarro, falando do governo, questionando o presente e talvez o futuro.
O sinal abria e Gabriela seguia seu caminho e o esquecia. Até o outro dia.
O trajeto para a faculdade, o sinal de trânsito, o estrangeiro e seu cartaz e a imaginação da garota.
Gabriela passou a pensar em si mesma e em como a vida era estranha. Lembrou-se do seu sonho de adolescente e de como ela não foi capaz de o sustentar quando se viu frente a frente com a real possibilidade de estudar fora. Sua família, seus amigos, seu país. Não! Ela não se sentiu preparada e desistiu.
Ao ver o estrangeiro, intimamente ela se justificava.
“Como ele pode deixar o seu país? O país é mais do que só uma palavra. O país são os bosques, os rios, as planícies, as rochas. É o trajeto para a cidade onde mora a minha avó e a minha tia. É o amanhecer e o escurecer. É o cheiro do mato molhado pela chuva. São os barulhos dos bichos ao amanhecer, são tantas coisas…”
Passaram-se os meses, o semestre do curso quase acabando, Gabriela acalmou seu coração e seguiu sua vida.
No início do semestre seguinte, ao passar pela avenida onde Gabriela faria um estágio, eis que ela vê Ramon.
Mudou de esquina. Foi para uma avenida arborizada. Continuava lá, com sua roupa surrada, seu cartaz nas mãos, passando por entre os carros, catando as moedas que lhe davam, até que o sinal abrisse e ele voltasse para o canteiro.
Ele vem rápido para perto de uma árvore do canteiro central e entre um sinal fechar e abrir, abaixa-se para tomar um gole de água oferecida por uma jovem grávida a quem ele sorri e dá um beijo.
Gabriela olhou pelo retrovisor e viu que eles se olharam e sorriram um para o outro.
Gabriela também sorriu.
Que país, que nada, pensou ela.
Amanhã mesmo vou falar com quem for preciso. Eles não vão ter meu afilhado na rua, não mesmo!
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Onde foi que erramos?
Um grupo de renomados cientistas das mais variadas áreas uniu-se para criar o ‘relógio do juízo final’ (‘doomsday clock’), um instrumento que estima o tempo restante para o fim do mundo, a ocorrer à meia-noite em ponto. Como num conto de Edgar Allan Poe, o soturno soar das 12 badaladas anuncia a chegada da morte.
O escalar das horas, ao contrário dos relógios convencionais, não ocorre em função do decorrer regular e inexorável do tempo, mas do processo de deterioração das condições que mantêm o organismo vivo.
Em 2026, os ponteiros desse cronômetro macabro foram ajustados para o horário de 23:58:35, ou seja, míseros 85 segundos aquém do horário fatídico em que daremos adeus ao planeta azul que nos abrigou por tantos milênios. A marcação que vinha oscilando para cima e para baixo, nunca chegara tão perto do apocalipse final como agora. E nada indica que vá reverter sua marcha funesta rumo ao precipício.
A maioria das pessoas é persuadida pelos negacionistas que essa ameaça, mesmo que fundamentada em estudos gabaritados de especialistas, não é para ser levada a sério. Esse relógio fictício não passaria de obra fantasiosa de cientistas catastrofistas com intenções malévolas. Podemos continuar agindo com irresponsabilidade, egoísmo e negligência que nada de ruim vai acontecer. Nossa civilização, fundada na lógica otimizadora do mercado, sempre ‘dará um jeito’ de manter tudo funcionando, não devemos nos preocupar.
Será? Um idôneo check-up revelaria que a nossa idosa e judiada Terra apresenta um quadro clínico de degeneração grave, prestes a ser levada à UTI. O diagnóstico é que infelizmente está vivenciando os últimos suspiros de senilidade, açoitada pela corrida armamentista, guerras sem fim, mudanças climáticas, pandemias, descontrole da tecnologia etc.
Um fator determinante que fez disparar o temporizador fatal foi a ascensão ao poder de governantes de qualidade deplorável que romperam os já frágeis acordos internacionais e deram as costas para a destruição ambiental. Trump e Putin, os mais poderosos estadistas em capacidade bélica da atualidade, lideram essa safra de maçãs podres, a mando de Tânatos ou Lúcifer.
Os seres desprezíveis que estão conduzindo nossa existência à derrocada ainda se dizem religiosos e representam eleitores tementes a Deus que deturpam os ensinamentos dos grandes mestres espirituais do passado. Para usar a parábola bíblica, transformaram a água límpida do amor no vinho azedo do ódio.
Jesus que difundiu o perdão e o amor ao próximo teria vergonha dos pastores evangélicos mercenários e de pregadores racistas e supremacistas que se dizem seus adeptos. Maomé que propagou a caridade e a justiça social deu cria a células jihadistas sanguinárias, tipo Estado Islâmico. Moisés ensinou aos hebreus leis morais e sociais que redundaram no sionismo e em genocidas como Netanyahu. Os preceitos de Buda, voltados à não-violência e à compaixão, foram sucedidos no Extremo Oriente pelas tiranias de Pol Pot e Kim Jong-un.
Nossa civilização tem produzido cada vez menos pessoas de valor como Aristóteles, Confúcio, Lao Tsé, São Francisco de Assis, Dalai Lama, Gandhi, Chico Xavier, Bezerra de Menezes, Mãe Menininha de Gantois, Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá, Rabino Sobel e Dom Paulo Evaristo Arns.
Personalidades com visões diferentes, mas que têm em comum o anseio por um mundo mais igualitário e maior solidariedade entre seus habitantes, independente de suas crenças. Se pudessem ser reunidas numa sala, esses seres abençoados deixariam suas divergências de lado, dariam as mãos e subscreveriam um manifesto ecumênico pelo bem da Humanidade.
Cada vez mais escasseiam cidadãos da estirpe de Nelson Mandela, Martin Luther King, Malcolm X, Albert Einstein, José Mujica, Papa Francisco, Ailton Krenak, Cacique Raoni, Malala e Greta Thunberg.
Como fazem falta brasileiros de caráter como Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela, Sobral Pinto, Hélio Bicudo, Oswaldo Cruz, Paulo Freyre, José Lutzenberger, Roberto Burle Marx, Cândido Rondon, Dorothy Stang, Chico Mendes, Betinho, Abdias do Nascimento!
Sem contar artistas e escritores que lutaram ou continuam lutando pelo bem comum como: Charlie Chaplin, Hannah Arendt, George Orwell , Ken Loach, John Lennon, Bob Marley, Bob Dylan, Bono, Peter Gabriel, Nina Simone, Joan Baez, Villa Lobos, Portinari, Machado de Assis, Carlos Drummond, Carolina de Jesus, Guarnieri, Vinícius de Moraes, Renato Russo, Cazuza e tantas outras mentes iluminadas que fizeram da arte instrumento para transformar o mundo.
Tanta gente que poderia fazer diferença sucumbiu ante dirigentes abjetos que conduzem nossa civilização para a desgraça, líderes que deveriam nos envergonhar, mas que continuam nos guiando com nossa humilhante anuência.
Nossa civilização que foi capaz de promover avanços inimagináveis na ciência e na qualidade de vida, falhou miseravelmente na simples tarefa de conservar a Terra habitável.
Foram os povos primitivos, chamados de atrasados, que mantiveram uma relação verdadeiramente sagrada com o planeta. Nela, o tempo subordina-se aos ciclos naturais que fazem com que o relógio do juízo final seja apenas uma inútil quinquilharia. Entre eles, a vida pode seguir seu curso e ser gozada em sua plenitude.
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Ah! Se eu pudesse
Sou um cara que desconhece muito de música. Em particular os novos nomes que têm surgido, seja aqui seja no exterior. Por que? Ah não sei, acho que me dá um pouco de preguiça acompanhar tendências, sabe?
Por isso para mim foi uma surpresa enorme descobrir que uma cantora, que eu só conhecia de nome, gravou uma bela canção do Roberto Menescal, que eu sei quem é. Ela é a Luisa Sonza.
O nosso encontro se deu assim. Um dia explorando os meandros da televisão a cabo desci o cursor até “música”. A maior parte do acervo não me interessava mas achei uma aba – acho que o termo serve também – com sucessos do Menescal. Legal da parte da operadora destacar um cara bacana como ele.
Entrei, cliquei, deixei o som rolar e me virei para tocar uns trabalhos ligados ao doutorado, que não vou contar quais são porque é provável que minha orientadora leia esse texto. Dito isso, lá estava eu lendo e escrevendo, com musica de qualidade ao fundo.
De repente, não mais que de repente, entra pelos meus ouvidos a agradável canção “Diz que fui por aí”. Estava preparado para escutar Nara Leão quando a voz que veio não era a dela. Fiquei parado um instante tentando reconhecer quem cantava mas sem sucesso. Dei uma espiada e li “Luisa Sonza”.
Não acreditei. Mas essa moça canta, canta, canta o que mesmo? Bom, canta algumas coisas que eu nunca escutei. Mas hoje, e agora, ela cantava bossa nova.
E canta bem. Faz aquela vozinha meio rouca, meio baixa, que combina com as letras. Aquela voz de travesseiro, que é novidade para uns mas para outros, como eu, faz abrir sorrisos. Parei o que estava fazendo – por bem pouco tempo, juro!!! – para ver qual seria a canção seguinte. E veio “Ah! Se eu pudesse”.
Que delícia. Música que agrada aos ouvidos não é só pela qualidade estética dela, que sou incapaz de avaliar porque me faltam conhecimentos. Mas, para mim, pela capacidade de acionar alguma lembrança.
Lembranças suaves, lembranças boas. Com pessoas do passado, que fiz sorrir e que me fizeram sonhar.
Dois minutos e trinta e seis segundos de puro enlevo. Ai, acabou. Eu desliguei o som, voltei ao estudo e fiquei com os ecos da voz dela nos meus ouvidos me sugerindo ver o mar “dizendo aquilo tudo quase sem falar”.
Suspiro e recomendo.
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CONFITEOR
Hoje eu cheguei em casa, mais uma vez, com uma vontade doida de me matar. Somente é possível raciocinar com o fígado. É a história de Prometeu, e vem o abutre e lhe rói o fígado. Por isso o homem é o desgraçado que é. Não é dono do seu destino, nem do seu próprio fígado.
Existe alguma coisa chamada destino? Predestinação? Deveria haver alguma coisa assim para justificar a minha vida, sempre sem sentido. Dizem que a ocasião faz o ladrão. O homem é produto do meio em que vive? Se eu vivesse no meio de assassinos, ladrões, drogados, teria que ser necessariamente um drogado, ladrão, assassino? É só a questão de estar ali, na hora certa. Ou na hora errada. Pode ser que o grande culpado seja o tempo.
Existe predestinação? Se Deus é eterno, se para Deus o tempo não existe, não é preciso predestinação. Deus apenas sabe, tudo acontece no presente para Deus.
Hoje estão descobrindo que o tempo não existe, que é invenção dos homens, convenção. Grande novidade. E a ordem do universo não é mais do que o caos. Nós nunca nos lembramos do caos que vivemos, que sensações, que ideias, que catástrofes, que emaranhado mental viveu a nossa pobre cabeça em determinado período. Tentamos entender o homem, o homem tenta entender a si mesmo. Não há nada a ser entendido. O caos não se entende. O caos do universo ou o caos da cabeça de um homem. Dizer-lhe que tudo que acontece é a vontade de Deus e que tem que corresponder a essa vontade? Na mente de Deus fui predestinado para ser santo: tenho que ser dono do meu destino e fazer-me santo na marra? Que predestinação é essa que depende de mim? Se Deus quer, faça-se. Que Deus é esse que não sabe querer? Mas como Deus pode querer se o tempo não existe? Então queriam que eu fosse mais do que Deus? Cuidado, o anjo virou diabo por causa disso. Mas queriam que eu fosse mais do que Deus, que fizesse com que a vontade de Deus se cumprisse. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” Parece que o querer de Deus ou o sonhar do homem dependem muito é da obra. A obra é que nasce, acontece. Tudo é fenômeno.
Com mais de cinquenta anos de idade, nada sei da minha vida. As coisas aconteceram. O homem na vida inteira não tem capacidade de tomar decisões. Toma-as, se as toma, com um pé no acaso, outro na circunstância. Não adianta saber que o acaso é um deus muito pequeno. O inferno dos outros faz a nossa circunstância? A maior decisão é se vale a pena ou não viver. Que todo mundo vive adiando, por medo, por imbecilidade. Não transmitir a nenhuma criatura a miséria da nossa existência. Se é miséria, por que existirmos? Cioran cansou-se de elogiar o suicídio, única ação nobre a fazer na vida, com a vida, e viveu mais de oitenta anos. Incongruência? Somos todos incongruentes. Viver não faz sentido. Nenhuma decisão na vida faz sentido. Muito menos sobre o próprio viver. Ainda mais que não somos donos de nossas decisões. Decidem por nós. Quem? Deus, o diabo? “O diabo na rua, no meio do redemunho.” Gosto dessa frase. É fácil pôr a culpa de tudo no diabo. Ou em Deus. Estou defendendo uma fenomenologia das decisões. Tudo acontece. Ou deixa de acontecer, o que já é um acontecimento.
Escrevo a próxima frase ou não escrevo? O que escrevo? Preciso escrever? Cheguei à verdade a que quero chegar? À minha verdade? Mas se é minha, não é verdade. Não importa. Quero a minha verdade. Todo mundo quer a própria verdade. Sou um Bentinho casmurrento raspando o fundo do tacho da amargura? O que quero descobrir? Capitu me traiu, e daí? A vida é danada de gostosa, mas é Capitu: vive a nos trair. Mas, e daí? Que prazer é esse de ficar cozinhando a própria amargura? Masoquismo, deixa Capitu para lá. Tudo é fenômeno, por que sofrer?
Ser ou não ser, eis a questão. O que eu ganharia com isso? Mas tem que se ganhar alguma coisa, sempre? Só se faz alguma coisa por interesse? Bom. Eu tenho que ter algum objetivo para realizar alguma tarefa. Algum porquê. Só posso me libertar desse fardo carregando-o até o alto da montanha. Sísifo não foi mais infeliz, carregou seu fardo. O abutre roeu o fígado de Prometeu? Ele carregou seu fardo. Quando depositá-lo no chão, quando todas as costuras estiverem cosidas, bem ou mal, estarei livre dele. Não precisarei mais ficar cozinhando as minhas amarguras. O abutre poderá deixar meu fígado em paz. Mas Sísifo teve paz? Prometeu teve paz? Sísifo não morre nunca. Prometeu não morre nunca. A miséria não tem fim. Quem disse isso? É preciso imaginar Sísifo feliz – disse Camus. Não sei como. Chegou um tempo em que não adianta morrer – disse o poeta Drummond.
O acaso de uma vida. Tudo que vivemos passa a fazer parte de nós. Não somos feitos apenas de circunstâncias. Há um eu carregado de passado, que é um gerador de tensões. Ninguém existe como um indivíduo. Eu é um mundo. Ego, id, superego? Um mundo. O que fizeram de mim. O que eu fiz de mim. Sem chorar o leite derramado. Tenho que cumprir. Sei que posso viver porque sei que posso me despedir da vida a qualquer hora. Não esperem que eu não seja incongruente. Quem está para morrer tem o direito de se contradizer. Imagine Sísifo feliz: sou eu. Imagine Prometeu feliz: sou eu. O abutre e o meu fígado.
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Morrer pela segunda vez
Orfeu chorou tudo o que pôde quando Eurídice desceu ao mundo dos mortos. Suas lágrimas encheram oceanos até seus olhos ficarem secos. Vendo que o pranto havia desaparecido, e como forma de manter viva a memória da esposa a quem amava sobre todas as coisas vivas, passou a cantar. E viu que cantar era bom e que todos os que o ouviam se deleitavam. Os passantes, antes de tomarem o metrô, jogavam moedas e um sorriso para o músico maltrapilho sentado no chão na entrada da estação. Aplaudiam, pediam bis e ele cantava mais. A tristeza de Orfeu não tinha fim e sua voz não conhecia cansaço. Cantava dia e noite a ausência da mulher adorada.
Com a força de sua canção, Orfeu decidiu buscar Eurídice no mundo das trevas. Manifestou o seu amor com todas as canções que conhecia, o peito repleto de agonia, tristeza e saudade. Hades, o poderoso deus do Reino dos Mortos, se comoveu:
— Eu devolvo sua esposa ao mundo dos vivos com uma condição: que ela o siga pelos caminhos de volta à vida e você não olhe, nunca, para trás, até que ela esteja inteiramente sob a luz do sol. E também, sob hipótese alguma, nunca mais cante uma canção. Nenhuma canção. Jamais uma nota musical deverá sair de sua garganta enquanto houver sinal de alma em seu corpo. Caso contrário, você a perderá para sempre.
Orfeu aceitou a condição. Tomou Eurídice pela mão e deram início à jornada de regresso ao mundo dos vivos, ele olhando para a frente, ela seguindo seus passos.
(Não olhe para mim, Orfeu. Ouça minha voz, escute os meus passos, sinta as batidas do meu coração. Estou bem aqui, perto de você. Não olhe para trás. Não permita que eu morra pela segunda vez — suplicou Eurídice).
Enquanto andavam, e já próximos da saída, iluminados por uma réstia do sol que brilhava lá fora, Orfeu se recordou de suas canções e do quanto elas agradavam a quem as ouvia. Lembrou-se dos aplausos e das esmolas que lhe davam. Sentiu saudade desse tempo. Percebeu que seria impossível viver sem cantar e sem plateia. E então, como quem sabe que tristeza não tem fim, com o coração doído e apertado, girou a cabeça para trás e olhou para Eurídice.
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Mirar no espelho!
Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonho, que descrevem experiências que vivi.
Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, e que eu gostaria de rever, trocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.
Quando fui a escola pela primeira vez, senti vontade de ficar mais tempo por lá com os amigos, porque aquela, era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.
Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e toda garotada estava lá.
Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas.
Momentos que se foram, mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.
Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama?
Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos.
Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas.
Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo.
O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso.
Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.
É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo.
Sendo dessa forma a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira.
No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.
Não se avalie um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena sentir-se mal ao mirar no espelho.
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12ª Escola a Desfilar: Salgueiro – A Delirante Jornada Carnavalesca da Professora Que Não Tinha Medo de Bruxa, de Bacalhau e Nem do Pirata da Perna-de-Pau
“Mestra, você me fez amar a festa / E eu virei carnavalesco / Sonhei ser Rosa / Te faço enredo’’. Enfim, chegamos à escola que será responsável por fechar os desfiles de 2026 na Sapucaí. A Acadêmicos do Salgueiro. Ela vem fazendo uma homenagem mais que merecida a uma das maiores personalidades no que diz respeito a fazer desfiles de escolas de samba. Sabem de quem se trata?
Quem conhece carnaval vai achar essa pergunta totalmente desnecessária, pois Rosa Magalhães dispensa apresentações. Maior campeã da história dos desfiles das escolas de samba, com 7 títulos, ela não se resume aos títulos que conquistou. Artista plástica graduada em pintura, indumentária e cenografia, até mesmo depois de sua partida, continua contribuindo na construção da arte que sempre amou.
Isso porque, Rosa não só será enredo, mas também é referência para uma série de carnavalescos que marcaram essa nova geração e, ano a ano, vem ajudando a reinventar o carnaval sem esquecer de suas origens. Um desses, declaradamente fã da mestra, brilha em uma escola onde ela fez história, trata-se de Leandro Vieira que, sem sombra de dúvidas, não é o único grande fã de Rosa.
Para falar dessa grande figura, o Salgueiro vem com um enredo que vai exaltar os carnavais feitos pela carnavalesca nas diversas escolas que passou. Para isso, Rosa se tornara uma heroína que vai viver as histórias dos enredos que levou a avenida. O desfile do Salgueiro promete.
É dessa forma que terminam os resumos dos enredos das escolas do Rio de Janeiro, com a frase: “nem melhor, nem pior, Salgueiro”. Essa frase resume o espírito do carnaval em que a competição existe, mas que o mais belo é a materialização do maior espetáculo da terra que acontece na avenida. Nesse sentido, independente de quem venha a ser campeã, todos as escolas já o são.
Viva o Salgueiro e viva Rosa Magalhães!
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11ª Escola a Desfilar: Grande Rio – A Nação do Mangue
‘’Freire ensine um país analfabeto que não entendeu o manifesto da consciência social”. É com esse grande soco na cara que a Grande Rio inicia seu samba enredo fazendo alusão a um dos maiores intelectuais que esse país já teve. Paulo foi teórico que tentou, por meio da educação, ver a emergência das periferias. O Manguebeat, por meio da música, tentou o mesmo. Você conhece esse movimento?
Manguebeat foi um movimento que surgiu no Recife, no início dos anos 1990, que fazia uma junção de vários ritmos regionais, como o maracatu, o coco e a ciranda, com ritmos já consagrados, como o rock, o hip hop e a música eletrônica. Seu maior expoente foi Chico Science, infelizmente já falecido. Esse movimento tinha como seu principal objetivo criticar a desigualdade social.
Dessa forma, a Grande Rio vem com um enredo que já deixa claro sua intenção desde o início. Falar sobre um Brasil que, apesar de sempre tentar ser esquecido, emerge das margens e escancara suas mazelas sociais.
Curiosamente, e felizmente, o faz por meio da arte, meio pelo qual é possível transformar o caos e a lama em riqueza. Essa que não se refere ao dinheiro, mas a cultura.
Vale a pena recorrer ao próprio texto da sinopse para entender um pouco mais do que esse movimento era, segue o trecho: “A nação do Mangue – o Antromangue idealizado por Chico Science – é a nação dos que festejam como resistência, os que dançam em volta da roda, batem seus tambores, bebem cerveja antes do almoço, pensam melhor, pulsam com as caixas de som, rompem as fronteiras do mundo, creem na arte, na ciência e na natureza das coisas, vestem-se como reis e rainhas, beijam seus beijos, amam seus amores, fazem carnaval, brincam com quem têm que brincar, brigam quando têm que brigar, celebram a vida e, do todo entranhado nos corpos, erguem e honram seus impressionantes castelos de lama’’.
Ou seja, do ordinário viver comum, emerge algo extraordinariamente rico, poderoso e revolucionário. O Brasil teve e sempre terá essa capacidade.
Viva o Manguebeat e viva Chico Science!
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Fervor
Não tinha nenhuma pretensão de me esquivar. Sou jogo aberto, embora um pouco carrancudo. Apesar da minha masculinidade exacerbada, dei total liberdade aos meus filhos. Paulinho era o único que não se abria muito. Vez ou outra, mesmo depois da separação de sua mãe, tentava uma saída só nossa, para assistir a um filme ou tomar uma. Ele sempre desconversava, e eu sentia uma saudade danada. Paulinho, depois dos dezessete, notei, se tornou introvertido. Um menino superativo na infância havia se tornado tímido, retraído, por conta, decerto, da pressão social. Lógico percebi a mudança de voz, ou uma leve mudança de voz. Acompanhado a isso, traços de feminilidade transbordavam, não tinha jeito, por mais que tentasse camuflar. Nunca toquei nesse assunto, para não o atordoar com bobagens. Que me importava se meu filho fosse gay? Porra, nunca tive preconceito algum! Paulinho não me permitiu ser seu amigo como gostaria de ser. Outras pessoas da família, sim, pegavam no pé, e eu mandava todos se ferrarem. Peguei uma briga foda com parte da família sacana, cacete, bolsonarista – agora, não me faz a menor falta. Nada poderia atacar o meu menino doce e humano. Quando pequeno, na casa dos dez anos, Paulinho começou a ir aos hospitais para cuidar de crianças com câncer. Ele ia vestido de palhaço, com sua trupe, e eu ficava superenvaidecido. Sensibilidade à flor da pele. Paulinho só queria viver sua vida tranquilo, em paz. Os irmãos não o incomodavam. Jorginho e Juninho não metiam o bedelho, e era uma festa quando se encontravam, apesar da diferença de idade – Paulinho era bem mais velho que os novos rebentos de um outro casamento. Estou, na qualidade de pai e amigo, pegando na mão de meu filho neste segundo e rezando para que esse pesadelo passe logo. Ele está na UTI porque consumiu grande quantidade de remédios. Os médicos e a polícia fizeram um calhamaço de perguntas sobre a tentativa de suicídio; se eu sabia qual era o motivo; se alguém poderia ter influenciado essa atitude desvairada. Respondi que a merda da sociedade era que tinha arrebentado o coração do meu filho. “Seu guarda, meu filho só queria ser gay em paz, entende?!”. A psicóloga do hospital veio conversar comigo, para que eu me desarmasse quando meu filho voltasse à vida. Disse a ela que eu era o seu maior incentivador; que isso não era problema algum. Está sedado agora. Mas pode me escutar, eu creio. Prometi que ele seria a bicha mais linda do mundo, ou a mulher que desejasse ser. Que eu faria de tudo para que, de uma vez por todas, ele fosse feliz. Percebi uma lágrima caindo de seu olho esquerdo. A verdade é que vamos sair daqui direto para um salão de beleza, e Paulinho, ou Paulinha, se sentirá a mulher mais bela do Brasil. Todo meu dinheiro será empregado para isso. Nenhuma dor assolará mais o coração de meu filho.
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10ª Escola a Desfilar: Vila Isabel – Macumbembê, Samborembá: Sonhei Que Um Sambista Sonhou a África
“Meus sonhos e tambores, tintas e prazeres/ Pra você, Heitor”. É dessa forma que o potentíssimo refrão da Vila Isabel promete dedicar sua passagem pela Sapucaí ao seu homenageado. Segundo o próprio nome do enredo já fala “um sambista que sonhou a África”. Vocês sabem de quem se trata?
A Escola do Morro dos Macacos homenageará o grande Heitor dos Prazeres. “Homem do povo” e multiartista que tem em seu currículo único os dons de ser sambista, compositor, pintor, inventor, boêmio e muitas outras coisas que a vida permitiu a ele ser. Sem dúvidas, o escolhido é uma figura que faz parte da história do Rio de Janeiro.
Aliás, em sua vida viveu importantes acontecimentos da cidade, como as festas que Tia Ciata realizava em sua casa onde da macumba foi surgindo esse ritmo mágico que hoje se convenciona chamar de samba. Lá, ao lado de Pixinguinha tornou-se tocador de atabaques, um Ogã de Xangô e Oxum.
Criado nesse ambiente, ele fez sua vida no samba, tornando-se “tocador” e aprendeu sozinho a tocar cavaco. Por viver nos dois ambientes, Heitor é uma figura que possui o mais alto gabarito para afirmar que “a origem do samba é a macumba”. Aos que ouvem, cabe não só respeitar, como também concordar com suas afirmações.
Viveu o surgimento das escolas de samba, ainda na Praça XI, com outros grandes mestres, como o genial Cartola. Não só viveu como fez tudo isso acontecer.
Por tudo isso, foi escolhido para representar o Brasil no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar. Foi, mas não foi sozinho, porque o acompanharam nomes como Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Mestre Pastinha e outros.
Tudo isso, permite a Vila caracterizá-lo como “Apaixonado Pierrot, Afro-rei”. Sim, um rei que será merecidamente saudado pela Sapucaí no último dia de desfiles do grupo especial. O samba magnifico dá a Vila a responsabilidade de ser a grande favorita. Será que vem título aí? Pode ser, a única certeza é que essa homenagem é mais do que merecida. Salve Heitor dos Prazeres!
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Poema #56: Isolamento
A lua na casa de saturno
saturno na casa da lua
todo mundo em casa.
A casa de todos no mundo
todo mundo na casa de
todo mundo e eu que não
encontro o meu lugar
em lugar nenhum,
no escuro.O Jardim Simultâneo
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A polícia do sonho
Quando Zími entrou no apartamento, a tábua do piso fez barulho. A luz do quarto de Mila Cox acendeu, ela abriu a porta e falou:
“O universitário quer fazer a entrevista com você. Certamente porque te considera um punk velho, cheio de histórias pra contar. Deve ser machista, pouco acostumado com mulheres no rock. Ele disse que colou no show de Santo André.”
Ela anunciou a ele que um jovem que estava presente no fim de semana anterior numa apresentação de Zími e Cox com a banda que tinham juntos, Crop Circles.
O jovem a qual Cox se referia era estudante de jornalismo, e queria a entrevista para um trabalho acadêmico.
“Talvez tenha preferido falar comigo pelo fato de eu ser coadjuvante. E o envelhecimento é um processo magnífico, no qual nos tornamos a pessoa que sempre deveríamos ter sido. Minhas versões anteriores estão perdoadas porque era o melhor que podia fazer na época.” — respondeu Zími.
“Você não é coadjuvante. Nós dividimos os créditos de todas as músicas.”— disse ela.
Ela anunciou também que compraria um baixo Gibson Thunderbird, e que daria seu Fender Jazz Bass como parte do pagamento.
Fosse financeira ou musicalmente, isso pouco importava para Zími.
Cox tomou a decisão ao receber de sua avó a pressão para se manifestar sobre seus planos para ingressar no ensino superior.
Precisava tomar uma decisão, e a tomou, mesmo sendo algo que nada tinha a ver com o desejo de sua avó.
Ela tinha agora vinte anos e ainda não tinha o desejo de entrar para uma faculdade.
Zími tinha quarenta e cinco e se formou em jornalismo antes dela nascer.
Geralmente era ela quem respondia às perguntas quando alguém pedia para entrevistá-los.
Eles eram integrantes da banda Crop Circles, um duo.
Ele era um baterista minimalista, que tocava de pé seu econômico kit percussivo, e em algumas músicas também atuava como vocalista.
Ela era baixista e vocalista, e usava um sintetizador para suprir a ausência proposital de um guitarrista.
Dividiam as composições, mas no palco, ela ficava à frente.
O universitário queria fazer a entrevista de forma falada, pela câmera do computador.
Zími já havia feito entrevistas, geralmente para outros estudantes, mas nessas ocasiões, havia respondido por escrito a perguntas que havia recebido por e-mail.
Marcaram a entrevista para a tarde do dia seguinte.
Na maioria das vezes quem atendia a esses pedidos era Mila Cox, que estava na sala quando Zími estava pronto para falar.
Ela estava curiosa sobre como ele se sairia.
Sabia que se tratava de um cara bem articulado, mas que podia não medir a força das palavras, dependendo do tema abordado.
Num dado momento, foi perguntado se eles tinham planos de fazer trabalhos solo.
Zími respondeu que no seu caso seria um livro, que já estava em gestação, e não outra atividade musical, ainda que o conteúdo desse livro fosse em parte relacionado à música.
O monólogo a seguir se deu quando Zími foi questionado sobre os baixíssimos índices de leitura do povo brasileiro, logo depois de dizer que seu projeto paralelo à banda seria um livro.
“Não tenho qualquer ilusão sobre ser reconhecido por mérito literário.
Acho que na música conseguimos ter alguma influência cultural, pelo retorno que temos de pessoas que vão a nossos shows e ouvem as músicas que lançamos em mídia física ou pela internet.
Mas no Brasil, a grande maioria das pessoas vai para a internet sem nunca ter lido um livro na vida.
Será invariavelmente mais um idiota na internet.
Terá como referência milhões de outros idiotas.
Inspirando e apoiando uns aos outros, os idiotas na rede se multiplicam.
Não se darão conta da própria estupidez e ridicularidade, e irão cada vez mais longe com ela, por causa da própria burrice e principalmente do retardamento mental coletivo que o cercará, e que até mesmo o acolherá na grande rede, dando-lhes mais confiança para novas empreitadas desastrosas e constrangedoras.
Mas na verdade, essas empreitadas são desastrosas e constrangedoras apenas para pessoas que respeitam minimamente a própria inteligência, ou que tenham salvado para si um fiapo de sensibilidade e opinião própria.
E a internet, que quando usada por pessoas que não tem preguiça de evoluir, é um portal interminável de conhecimento, uma universidade que cabe no bolso, e acaba tendo suas serventias desperdiçadas quando usadas por pessoas com a cabeça oca.
Esse portal incrível, em simbiose com a outra parte, majoritária, que é um antro de patuscadas e um oceano de motivos para vergonha alheia, precisa ser peneirado para que dali se tire conteúdo relevante do meio de tanto lixo.
As convicções precipitadas e inabaláveis das massas, que constituem o tão desprezível senso comum, crescem destrambelhadamente, sempre para o prejuízo do próprio rebanho, que desconhece o potencial de autodestruição que sua ignorância e alienação possuem.
A falência cultural que atingiu essa estúpida sociedade de consumo, em todas as classes sociais, se confronta com períodos anteriores em que a produção cultural para as massas ainda tentava usar a qualidade como atrativo, ainda que misturada com recursos que a tornassem mais palatáveis para o gosto popular.
Antes da internet, era necessário que o artista superasse o direcionamento artístico imposto pelas rádios e, no caso do Brasil, também a escassez de programas dedicados à música.
Com a chegada dos anos oitenta, essa escassez se tornou crônica, e o Rock produzido no país enfrentava a falta de familiaridade do público, dos produtores e executivos das gravadoras com o gênero, e em muitos momentos, os arranjos típicos da época, que logo se tornariam datados.
Os artistas da Motown e da Stax, por exemplo, tinham um nível de excelência artística indiscutível, podem agradar desde um intelectual até uma pessoa menos esclarecida, desde que esta ainda tenha alma, e que de alguma forma tenha acesso a essas obras.
Tornaram-se clássicos, romperam barreiras entre o que se considerava música negra e música branca, mas hoje, nem mesmo o advento da internet torna possível sua apreciação por uma maioria, que é movida por sucessos populares instantâneos e descartáveis, de qualidade rasteira, machista e sexista, e que não lhes dá consistência para durar como arte.
Nem precisam durar, pois para a engrenagem sinistra funcionar, o povo tem que estar cada vez mais afogado em conteúdo de qualidade cada vez mais pobre.
É preciso que haja quase imediatamente a substituição desses sucessos populares por novas aberrações musicais, que alimentam a alienação do gado, que por sua vez as consome avidamente, sem qualquer questionamento. Apenas vão seguindo o resto do rebanho. Falta referência.
Não há saída para esse beco inóspito, uma vez que a educação e a cultura, que são armas poderosas para que uma pessoa possa adquirir discernimento, não fazem parte da realidade brasileira.
É preciso estar muito além disso para que um território povoado possa ser chamado de país.
É preciso que as pessoas leiam, deixem de ser bisonhas, para que não sejam manipuladas de uma maneira tão triste.
Baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar, ao invés de pesquisarem, para que saibam efetivamente sobre algo.
São pessoas cheias de necessidades implantadas, que não são reais. Isso lhes causa frustrações diárias.
Seria mais legal se vivessem menos de aparências, que deixassem de guardar taças de cristal para visitas, enquanto bebem em copos de requeijão.
Ontem mesmo recorri a uma fuga, tomei umas bebidas pra comemorar a vitória do Uruguai sobre o time da CBF., antes de colocar som num baile da saudade. Não sei como alguém que diz ter alguma estima pelo país pode torcer pra aquela gente.
Mas antes disso fizemos uma música parodiando a alienação do povo brasileiro.”
Zími foi discotecar numa festa para pessoas da terceira idade, convidado pelo pai de um amigo que fazia aniversário naquele dia.
Antes da conversa com o universitário começar, ele havia espetado o pen drive que levara para a festa, que tinha músicas pop dos anos sessenta.
Para que a discotecagem não fosse uma picaretagem completa, Zími alternava as músicas do pen drive com a execução de compactos de vinil de Chriz Montez, Classics IV e outras coisas do gênero.
Na festa ele contava com uma vitrola para tocar discos de vinil e uma caixa de som para espetar o pen drive, enquanto fingia manipular os discos.
O universitário estava ouvindo as músicas de fundo enquanto Zími se prolongava nas respostas e perguntou sobre aquelas músicas, que não pareciam com o estilo dos Crop Circles.
Zími, que vestia uma camiseta dos The Germs, admitiu que nesse ponto, ele e Mila Cox sofreram influência do Jesus and Mary Chain, ao tentar colocar melodias pop encobertas por ruídos pouco ou nada palatáveis aos ouvidos médios, acostumados com hits radiofônicos.
Quando o jovem universitário lhe perguntou sobre o que Zími esperava do futuro da música e da humanidade, ele respondeu:
“Não vejo o futuro humano com otimismo nenhum. Do micro ao macro, a tendência é a autodestruição da espécie. Tudo está caminhando para um lado sinistro.
As pessoas se enfurecem com banalidades cotidianas, mas quando se trata de acontecimentos que devastam suas vidas irremediavelmente, parecem pouco se importar, ou nem mesmo perceber.
Individualmente, não é raro que atinjam patamares olímpicos de constrangimento aos poucos que pensam com alguma clareza e discernimento.
Sobre o cenário político mundial, é ainda mais pavoroso falar.
Logo as diferenças irão causar uma erosão política irreversível, sendo que a atual conjuntura de guerras poderá acelerar o fim a médio ou até mesmo a curto prazo.
A música parece acompanhar esse processo. É possível encontrar coisas boas no underground, longe da grande mídia, que compactua com a destruição do cérebro das pessoas, que não apreciam música como sendo uma forma de arte, e sim como uma distração bastante rasa, machista e sexista.
Chegamos a um ponto em que a música de qualidade, seja qual for seu gênero, é destinada a um nicho, um grupo seleto de humanos que usam o cérebro.”
Depois da entrevista, fizeram pizza no forno de padaria que tinham na cozinha.
No dia seguinte, começaram a compor uma música em homenagem a Dwight Twilley, assim que tomaram conhecimento de sua morte.
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9ª Escola a Desfilar: Paraíso do Tuiuti – Lonã Ifá Lukumi
“Ibarabô, agô lona/ Olukumí/ Iboru iboya ibosheshe/ Canta Tuiuti!”. Agô Ilé, início esse texto pedindo licença para comentar sobre o enredo da Paraiso da Tuiuti em 2026. Esses belos versos de um refrão em Iorubá que serão cantados pela escola na Sapucai, em 2026, revelam diversos aprendizados que fazem do carnaval uma festa necessária para o aprendizado.
No Brasil. É muito comum a associação direta dos Orixás a todas as religiões de matriz africana. No entanto, o culto a essas divindades é uma característica partícular dos povos denominados Iorubás. Vamos conhecer um pouco dessa história?
Quando Olodumaré. criador do mundo, soprou o Emi para que fosse criado, por Obatalá o primeiro ser humano, Orunmila tudo assistiu. Nesse momento, todos os seres foram conectados aos Orixás. Orunmila recebeu, de Olodumaré, a missão de ser porta-voz do oráculo de Ifá guiando a humanidade pelos bons caminhos.
Após essa tarefa, Orunmila, na cidade de Ilé Ifé, transmitiu o conhecimento do oráculo de Ifá para os Babalaôs que aprenderam a decifrar suas mensagens.
Então, foram eles os responsáveis por disseminar a mensagem do Ifá pelo mundo.
Por meio da escravidão, essa tradição chegou ao continente americano, mais precisamente a ilha de Cuba, lugar onde os escravizados trabalharam em fazendas de cana e café e lutaram contra a injustiça da colonização.
Foi nessa local onde o Ifá Cubano, também chamado de Santeria para fugir da perseguição, criou suas raízes e se transformou em um culto bastante popular na ilha até os dias de hoje. Essa popularidade chegou ao Brasil onde, conforme já mencionado, os Orixás são imediatamente ligados as religiões africanas, embora nem todas elas os cultuem.
O enredo da Tuiuti é riquíssimo, fator que torna a missão de resumi-lo em um texto limitado do Instagram bastante ingrata. No entanto, só por esses detalhes fica claro que a escola vem com ricos ensinamentos. Ansioso para ver o desfile?
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A cuíca, a ruivez e o smartwatch – sexta-feira 13 como comissão de frente
Comprou um relógio para controlar seus batimentos cardíacos. Descobriu que, ao ter o combo de medições de oxigenação, estresse, sono e ciclo menstrual, tornava seu pulso um criador de conteúdo.
Dados. Gráficos. Percentuais.
O coração, finalmente, auditável.As notificações de redes sociais, e-mails ou o contar do tempo passaram a ser meros gadgets. O que importava era o número que subia e descia como se fosse destino. O corpo, agora, tinha analytics.
Com o intuito — primeiro e quase exclusivo — de mapear o próprio coração, passou a utilizar a pulseira flexível de cor laranja (também havia a opção preta, mas… quem quer ser discreta em fevereiro?). Dormia com o apetrecho; acordava com um vibrar incessante no punho, notificações piscando como quem dá bom dia e já cobra produtividade emocional.
Os picos de estresse reinavam entre a hora do levantar — rush de mensagens — e o fim do expediente, que, por ser autônoma, oscilava entre as 18h e as 2h40 da manhã. Raras vezes sua “rotina” não mudava. Aliás, rotina era uma palavra que lhe caía grande demais — como vestido emprestado, sobra um pouco no busto, aperta no quadril. Num confortável marca-passo, aprendeu a desconfortar-se da realidade.
Tudo passou a ser normal enquanto durasse a bateria do smartwatch.
O mundo cabia nos 67% restantes.O acessório laranja combinava perfeitamente com seus óculos de ciclista urbana. A cidade, que desde as novas lentes, em um tempo outrora, se enferrujara de sol e desejo, agora fazia do verão o agente ruivificante: rubicundou-se em pleno fevereiro; enrusbeceu não de vergonha, mas de coragem.
Cortou as pontas dos cabelos e converteu-se.
O laranja passou a ser sua segunda cor favorita — a que a identificava, a que gritava antes dela.Nos cinco dias de carnaval, ruiçou aos poucos, como quem aceita arder. Ardeu seu desconforto onde antes calava. Arder é uma forma sofisticada de não adoecer.
Concentrou-se no encontro fugaz dos corpos fantasiados: as máscaras injetam uma pseudo-coragem pelas veias — um placebo de liberdade. Teatro de verdade, no rés do chão do espaço público. Deixou-se boiar nos braços de um passado transfigurado de pessoa comum, mais magra, olhos mais sinceros, vigilante e contábil de afetos, mesma leveza sustentada por um viés infantil e escorregadio.
Liberdades hoje em dia confundem-se com libertinagens — diria alguém com sobrancelha arqueada, talvez do século XIX.
Há um choque entre gerações jamais visto antes. Há um colapso das formas sociais estabelecidas. E isso pode ser bom. Ou pode ser apenas inevitável. Desconforto sentido, interiorizado e meditado.
E foi então que tudo começou por uma intrépida sexta-feira 13.
Pleno carnaval.Comprou um ticket de cinema para uma sessão vazia. Enquanto a cidade, lá fora, ensaiava gargalhadas com cuícas e paetês, ela escolheu o escuro climatizado. O coração — balde de pipoca à mão — ocupando uma fileira inteira de si mesma. No topo de um Mirante, na Tonelero, horas antes, era horizonte.
Agora era plateia.
O smartwatch marcava batimentos estáveis. Mas… e a alma? Entre a piscina do topo e o mar do térreo, como estabilizar uma coisa qualquer?!Purpurina everywhere. A cuíca rindo com os dentes cerrados. Um riso friccionado ecoando pelas finas paredes, soníferas de um cansaço acumulado. Um fingimento alegre. Um som que nasce do atrito — como quase tudo que importa.
Ao tensionar sinapses, ao se permitir solitude e pausa, colapsou com quem acha que a entende e já a julga. Mas não se jogou do parapeito. Desceu de lá com graça.
Aprendeu que pulsar não é performar.
Abraçar as mudanças vem de um movimento corporal que envolve mente e coração.E talvez — só talvez — desligar as notificações seja o primeiro ato verdadeiramente revolucionário de fevereiro. Mesmo que a pulseira ainda a identifique na multidão.
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8ª Escola a Desfilar: Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus
“Meu quarto foi despejo de agonia / a palavra é arma contra a tirania’’. Essa frase do samba da Unidos da Tijuca revela muito bem como sua homenageada utilizou a palavra como uma arma denunciando as desigualdades brasileiras e dando voz a pessoas esquecidas. Trata-se de Carolina Maria de Jesus, como o próprio título do enredo já revela.
Pela sinopse de seu enredo, a Tijuca fará uma homenagem ao estilo tradicional. Ou seja, ela pretende contar a história de Carolina que começa no cerrado de Minas Gerais, onde a gigantesca mulher, ainda criança, aprendeu com os ensinamentos de seus ancestrais. Dentre eles, está o seu avó Benedito, o tal “preto velho que lhe ensinou os mistérios” como o próprio samba enredo já diz.
Desse jeito, o enredo vai acontecendo em capítulos. Entre eles, está aquele em que ela vai trabalhar na roça e acaba presa e humilhada por portar um dicionário! Além disso, foi acusada de feiticeira e de ser uma mulher que queria causar prejuízos aos brancos, os donos do local (ou melhor, que achavam ser isso). Pensar em uma Carolina acusada de bruxaria é pensar no destino de várias mulheres que, ao se indignarem com as injustiças que o mundo lhes impunha, foram acusadas do mesmo.
Infelizmente, vivemos uma realidade em que cada característica física de uma pessoa faz com que ela desça um degrau na escala social. Aí, quem é homem e branco fica lá em cima, já uma mulher, preta, que mora na periferia fica lá embaixo nessa escala que impõe diversas dificuldades para que essas pessoas sejam vistas.
Carolina não só viveu essa realidade, ela se indignou com ela e resolveu contar. Isso porque, tinha uma arma muito mais barulhenta e potente que qualquer calibre que só se presta para calar vozes. Assim, fez de seu lápis megafone e falou para a sociedade sobre sua realidade, ainda que tenha tentado ser calada.
Por todos esses motivos, fica claro que a Tijuca acertou muito em seu enredo. É necessário homenagear a coragem de uma mulher que nunca se calou diante de sua situação. Que a força de Carolina Maria de Jesus se espalhe para outras mulheres de fibra como ela, pois serão capazes de mudar esse país.
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Pierrô e Colombina
Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.
Bom, o carnaval chegou e o ano, enfim, começa a partir daí. Quantos não vivem dizendo isso a cada novo carnaval, a cada novo fevereiro? Todos ficam em compasso de espera. Tudo parece inerte. A expectativa é enorme, assim como as filas e a falta de paciência. E eis que a festa da pretensa liberdade dá o seu tom. Os carros alegóricos que transitam pela avenida e levam cores e delírios e gritos histéricos, além das notas dos jurados, formam um comboio de fantasia. Uma cara fantasia! A melodia é difícil? A letra é sofrível? A voz do ‘puxador’ falseia? Não importa, é carnaval!
Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.
Engarrafamentos e arrastão. Praias com águas mornas e sol acima dos 40ºC. “Aquecimento” é isso aí! Há muito gringo para ver o desfile limpo e organizado e delimitado e amordaçado e bonitinho. É a festa da liberdade, diga-se de passagem! Mas cuidado com o cronômetro!
Há muito dinheiro envolvido na grande festa popular. Muito brilho. Negociações e aplausos e apertos de mão. Não esqueçamos as fotos com os políticos: sorrisos e acenos. Não esqueçamos também dos famosos: uma imagem é tudo! E as notas então? Beleza! Beleza! Silicones e músculos: força em ação! Mas a festa é de libertação! Olha o flanelinha aí! Não tem vaga não!
Bandeira branca amor não posso mais… Ô abre-alas eu quero passar… Mamãe eu quero mamar… Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é?
O ano, de fato, levanta e sacode a poeira (não sei se dá a volta por cima) e tudo segue como sempre. E mais fotos e escândalos, mais flanelinhas, mais arrastões, mais filas e filas… E o calor que derrete o asfalto? E as chuvas que atormentam a cidade? O preço do leite e do pão e da carne e do açúcar?
O poeta olha para o relógio e escuta as marchinhas do seu tempo. O cronista transcreve. Mas o carnaval passa, não passa? E passa para mais um carnaval passar… A crônica não está atrasada, não é? Palavras ao vento. Palavras como serpentinas. Palavras e o tempo…
E o velho tempo ri dos homens e das coisas porque a maior fantasia, o maior carnaval é a própria vida. Às vezes, a gente se esquece…
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Poema #03: Habitar o intervalo
“A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *
Os emaranhados da vida
tapeçaria mal tecida
De palavras sufocadas por amarras
por nós
Arremates enrijecidos do tempo
entre as costurasVida vivida
em monoblocoEsgarçar a tessitura
do tempo mal vividoEsburacar a trama
de pontos suturadosCriar um circulador
de silêncios no espaçoArear lembranças
do que resta calado(*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar
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A solução vive nas cinzas
A dúvida é mesmo a assombração da humanidade, o veneno do existir. Não importa a situação. Se nos deparamos com a necessidade de fazer uma escolha ou se somos tragados pela incerteza da continuidade de algo que nos é fundamental, vem a maldita nos mastigar por dentro.
Quem nunca passou uma noite em claro matutando sobre o melhor caminho a seguir? Largo meu emprego de anos por uma oportunidade promissora? E se tudo der errado? Troco de curso na faculdade? E o tempo que já cursei?
No amor também não é diferente. Quando a insegurança monta casa em nossa mente, a alegria cede lugar à angústia. O medo de perder a prioridade na vida da pessoa amada ganha ares fantasmagóricos: Ele/Ela está diferente, será que não me ama mais? Será que vai terminar comigo?
Quem nunca se viu preso na areia movediça da dúvida a respeito da sinceridade do ser amado? Quer coisa pior do que não sabermos se a pessoa escolhida é realmente digna do nosso amor?
O inferno da incerteza não para por aí. Não termos ciência do nosso tempo de validade no mundo também acarreta todo tipo de perturbação. Seja porque adotamos a máxima “só se vive uma vez” e, com isso, perdemos o luxo da ponderação, seja porque nos travamos diante da afirmação: “o amanhã ninguém sabe como será.”
Por isso, acredito que a quarta-feira de cinzas merece toda a nossa enaltação. Ela é a melhor solução para os impasses da dúvida, do medo e da insegurança. É ela que agiganta as emoções e o colorido dos dias de carnaval. Como faz isso? É simples: delimita com clareza o momento do fim, desenha a borda do buraco onde nos atiramos. É ela que assevera: faça tudo o que desejar, porque vai acabar, COM CERTEZA!
A catarse inigualável que o carnaval promove vem da garantia de que não nos perderemos em meio as nossas fantasias. SEJA TUDO QUE DESEJAR, porque a quarta-feira de cinzas vem te catar, te envelopar e reconduzir ao lugar de origem. É feito um salto de bungee jumping, só que com a confiança de que a corda não arrebentará.
Quer leveza maior? Chego a sentir o vento no rosto.
E a danada é tão assertiva que marca a hora do encontro. Ao meio-dia, as obrigações civilizatórias te enlaçam, te puxam pelo tornozelo. O pulo acontece em um abismo controlado. Mas e na vida e no amor, como é possível viver essa explosão de alegria sem que a opressão da dúvida venha nos assolar?
Não sei… Talvez a solução esteja no caminho inverso. Na valorização das cinzas. Pouco importa quanto vai durar ou quando vai acabar. É por não saber que devemos apostar todas as fichas no desejo. Também somos o que acabou.
E se eu sofrer? E se eu me decepcionar? Me frustrar? Me arrepender? Ah, para de medinho.
Todo ano tem carnaval!
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Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos
“Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante” (Roberto e Erasmo Carlos)
Os saudosos anos 60, além de propiciar nova consciência, clamor pacifista e efervescência artística, colocaram nos moços longas cabeleiras. Encaracoladas, cacheadas, naturais, lisas, afro, black power, rebeldes, mas invariavelmente compridas.
Depositários inconformados de valores de uma sociedade decrépita que exaltava a grana e a guerra, os jovens ansiavam por uma nova ordem onde floresceria o amor e a solidariedade universal.
Os profetas da Nova Era atribuíam o movimento à irrupção da Era de Aquário. “Quando a lua está na sétima casa e Júpiter alinha-se com Marte”, dizia a canção-símbolo do musical “HAIR” (cabelo).
As mesmas cabeças que, turbinadas por alucinógenos, hospedavam interiormente loucos devaneios de libertação, faziam brotar exteriormente caracóis psicodélicos e fios emaranhados rebeldes.
Cabelos longos significavam também transgressão à virilidade e à classificação dos gêneros segundo a tradição moralista cristã que dividia o ser humano em 2 categorias absolutas: o homem e a mulher, definidas respectivamente pelas cores azul e rosa.
As mulheres que tinham nos abundantes cabelos a marca registrada da feminilidade como protótipo de beleza, agora enfrentavam a concorrência masculina, numa época em que os limites que separavam as duas tipologias biológicas tornaram-se mais fluidos.
Os militares machões que promoviam a guerra e a repressão sempre tiveram aversão por cabelos compridos, enfileirando-os em pelotões capilares uniformes através de cortes tipo reco.
O sistema opressor para impor os valores burgueses exigia do indivíduo apresentação visual condizente. As vestes e o penteado deveriam retratar disciplina e ordem. Cabelos e roupas desalinhados eram sinal de desleixo, desrespeito, rebeldia.
A marcha inexorável do tempo sepultou os anos 60 e com eles a quimera por um mundo melhor. “O sonho acabou”, proclamou o cabeludo John Lennon.
Com o passar dos anos, os cabelos tornaram-se grisalhos, cresceram tanto que ficaram frágeis, começaram a cair como folhas no outono.
Cabelos compridos saíram de moda. Também saiu de moda o empenho em acabar com as guerras e salvar o planeta.
Adveio uma nova leva de jovens individualistas com aspirações de ascensão social e fortuna material. Essa espécie em expansão era representada por um figurino asseado, bem trajado, de cabelos aparados.
A nova safra de jovens das gerações X, Y e Z, ao invés de colares, fitas, pulseiras artesanais com a insígnia de paz e amor, portava roupas e acessórios de grife. Os hippies de outrora tornaram-se capitalistas de terno e gravata e investidores do mercado de ações e em criptomoedas.
Alguns mais extremados ostentavam, orgulhosos, símbolos neonazistas, muitos deles… carecas. O radicalismo execrava radicalmente a presença de fios subversivos.
Carregavam metralhadora numa mão e Bíblia noutra. Respaldam seu ódio nas palavras do mesmo Cristo que, triste ironia, pregava amor e usava vestes simples, sandálias, barba e… cabelos compridos.
Talvez eu seja apenas um saudosista que me apegue a um passado cabeludo que não volta mais.
Mas no alto das minhas décadas de vida, reluto em ir ao barbeiro cortar periodicamente os cabelos. A eles me apego, como uma ingênua esperança de voltar a sonhar por um mundo melhor.
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Fantasia de Carnaval
“Resort com all inclusive, garçons bronzeados, bíceps à mostra, tapa-olho de pirata, buffet internacional e drinks tropicais… Música dos carnavais antigos, marchinhas singelas ou picantes ressoando, sem atrapalhar a conversação… Praia de areia branca, som do vai e vem das ondas… chuveirões e piscinas de borda infinita a poucos passos… Espreguiçadeiras, guarda-sóis, serviços de massagem, banhos de imersão e tratamentos corporais… Um livro, um chapéu, óculos de sol e minhas quatro amigas da vida toda! Detalhe: tudo pago. Amo vocês.”
Esse foi o aviso que apareceu no “záp-zap” da família. Afinal, o Carnaval é feito para brincar, sonhar, ser Cleópatra, a Rainha de Sabá, a loira da escola de samba, se é que me entendem…
Além disso, o ano precisa começar. Já chega de réveillon. E logo vêm as contas para pagar, viver, ter, ser, morar. Ufa.
Quero um pouco de ousadia, fantasia, alegria e folia.
Sendo assim, vou me divertir.
— Ah, mas isso pode ser em qualquer época do ano — dirá a desmancha-prazeres.
— Não vai inventar moda, mamãe! — a apavorada.
— Não vá gastar à toa! — esse é o “gestor de finanças”. Das minhas finanças…
— Já falou com seu médico? — a hipocondríaca.
— Mamãe, à tardinha nós vamos aí, está bem? Precisamos conversar com a senhora.
Hã? O quê?
Ah, crianças, do que vocês estão falando?
Aviso? Não mandei nada hoje.
Onde estou? Em casa, escrevendo minha crônica semanal.
Para a revista, ora! Qual? a revista online.
Ah, sim, o tema?
Escolhi este: Fantasia de Carnaval.
Beijos, também amo vocês…
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7ª Escola a Desfilar: Viradouro – Pra Cima, Ciça!
“Não esperamos a saudade pra cantar”. Essa frase do samba-enredo da Viradouro faz lembrar os versos da música de Nelson Cavaquinho “Quando me chamar saudade”. Nela, o poeta clama para que “flores” sejam conferidas em vida. Parece que a escola entendeu essa mensagem ao decidir homenagear o grande Moacyr da Silva Pinto, muito mais conhecido como Mestre Ciça, no ano em que esse gigante completa 70 anos. Como a escola pretende cumprir essa missão?
O ano de 2026 será marcado por muitas homenagens. Aqui nessa página já foram comentadas personalidades que “receberão suas flores” de diversas formas. Baseado em seu enredo, parece que a Viradouro vai homenagear seu mestre de bateria fazendo algo semelhante ao que fará a Acadêmicos de
Niterói, ou seja, contando sua história na avenida.Isso porque, a escola falará sobre a ligação do mestre com a Estácio de Sá. Berço do samba e local onde estão fincadas as raízes do homenageado. Ela também pretende falar sobre sua trajetória no samba como passista, integrante de bateria e, finalmente, maestro da batucada.
O vascaíno Ciça fez história em muitas escolas por onde passou, iniciando sua trajetória na Estácio, escola em que comandou a bateria em um desfile que homenageava o maior rival de seu time, o Flamengo. O mestre não podia deixar tal fato passar dessa forma. Então, foi comandar a Tijuca no desfile do centenário de seu time do coração.
Dessa forma, o mestre foi fazendo e construindo sua história. Essa, que, aliás, o coloca entre as grandes lendas portadoras da batuta que passaram na Sapucaí. Com seu talento, Ciça ganhou carnavais com uma bateria sempre afinada e doutora em fazer a galera mexer o corpo e sambar no ritmo mágico das baterias por ele comandadas.
Por tudo isso que foi falado, não é nenhum exagero dizer que a escola de Niterói acertou em cheio na escolha de seu enredo. Conseguem imaginar a emoção que será ver esse mestre conduzindo sua bateria enquanto homenageado? Aguardo ansioso para ver.
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Alguém salve a Língua Portuguesa!
Queria falar de literatura. De literatura brasileira, especificamente. Gostaria, na verdade, de escrever sobre algumas das obras de Erico Verissimo, como O prisioneiro, que, por acaso, li os últimos capítulos hoje mesmo. E, preciso dizer, quanto mais leio as obras do Erico, mais certeza tenho de que se trata de um escritor absolutamente extraordinário. No entanto, não abordarei nem o romance e nem a guerra, sua temática principal. Falarei de Grêmio.
E, vamos combinar, como tem sido difícil falar de Grêmio. Nossa geração cresceu vendo o Grêmio ganhar tudo e mais um pouco nos anos noventa. Passamos por uma década e meia sem títulos, é verdade, mas geralmente com times aguerridos, figurando quase sempre na parte de cima da tabela. Em 2016 veio a Copa do Brasil, depois a Libertadores, a Recopa e uma sequência de Gauchões. Também passamos por uma queda trágica para a segundona e, no retorno, tivemos um ano mágico com Suárez e companhia quase beliscando o título brasileiro.
O fato é que hoje, ao assistir aos jogos, tenho vontade de criar palavrões. Sinto essa necessidade, às vezes, mesmo antes do início das partidas, bebendo ou não uma cervejinha. Nada contra o nosso novo treinador, nem contra os jogadores, que, em geral, respeito e admiro. O problema é que não há um palavrão específico que retrate exatamente a situação. Por vezes os jogos são tão constrangedores que nem mesmo o grande Erico Verissimo (caso fosse gremista) conseguiria descrever.
No fim das contas, trata-se de um impulso, de uma onda de raiva, de ódio, de repulsa, de indignação, como só um futebol mal praticado consegue nos proporcionar. Durante os noventa minutos fico a cogitar neologismos e não encontro nada que represente tamanho desentrosamento. Falando sério, eu não sei qual urucubaca lançaram sobre o tricolor, mas passou da hora de nos desfazermos dela.
De certa forma, sinto-me como o Tenente, de O prisioneiro, que, preso ao passado, não consegue seguir em frente, recaindo em elucubrações, questionamentos e fantasias das mais absurdas. Devo confessar que ainda sonho com as defesas do Marcelo Grohe, com a classe do Maicon, com a força do Edilson, com a canhota do Douglas, último camisa 10, e, claro, com a eterna dupla Geromel e Kannemann. Que saudades.
Sei que para uns e outros pode parecer bobagem, mas a língua de Camões, de Machado de Assis, de Erico Verissimo, não precisa de palavrões criados durante uma partida de futebol. Já existem palavrões demais e geralmente eu os utilizo em demasia, inclusive em momentos não oportunos. Não adianta, nem nos porões do idioma há uma expressão de baixo calão que defina o futebol praticado pelo Grêmio nos últimos tempos. E, convenhamos, quem sou eu para querer criar neologismos? Deixemos isso para quem conhece. Perdão, Guimarães Rosa. Por isso, peço encarecidamente à equipe que não me permita fazer isso e passe a se apresentar de uma forma, ao menos, mais aprazível. Se não for pela taça, pela torcida, pela história do clube, que seja pela Língua Portuguesa…