Crônicas

  • O menino que pintava cidades

    Sempre identifiquei as cidades pelas cores. Mesmo antes de visitá-las, ainda garoto – empinando pipas nos arredores de casa ou jogando bola dente-de-leite pelas ruas – eu já sabia que o Rio de Janeiro era azul, igual ao céu em dia claro, e São Paulo, de um cinza faiscante.

    Pensava nisso e começava a desenhar em um papel pequenos quadrados, dentro dos quais escrevia os nomes das cidades. A partir dali, cada uma passava a ser classificada por uma cor: Curitiba-Cor-de-Gelo, Salvador-Alaranjado, João Pessoa-Azul-Anil e Espírito Santo-Cor-de-Mel. Abaixo de cada nome, colocava um número. Dependendo do tempo que eu tivesse, aquele quadrado ganhava contorno, ornamento ou traço estilizado. Ao lado, em uma coluna paralela, repetia os números, indicando a posição das cidades no “meu mapa”. Assim, podia provar a autenticidade da criação quando mostrava para minha família ou a algum amigo das brincadeiras.

    Para muitos, claro, parecia uma ideia estapafúrdia.

    — Tá maluco? Onde já se viu dizer que cidade tem cor, menino? O que tem é ladrão e gente doida, isso sim — retrucava minha mãe, toda vez que eu insistia no assunto.

    Às vezes, ouvia dos mais velhos que São Paulo era a “cidade da garoa”. Isso me deixava intrigado: tentava imaginar a cor turva de um dia chuvoso, em um lugar que, para mim, só podia ser cinza faiscante.

    Tinha meu amigo Zeca, o único que acreditava nessas descobertas. Mas ele não espalhava nada, porque acreditava em tudo o que eu falasse.

    — Qual é mesmo a cor de Brasília? — perguntava em tom provocativo.

    — Brasília-Branco-Neve, Zeca — respondia, exibindo o número correspondente nas folhas dobradas que carregava no bolso.

    Um dia, ele me lançou uma pergunta que mudaria para sempre o rumo do meu raciocínio:

    — E a nossa cidade, que cor ela tem?

    Fiquei paralisado, tentando imaginar. Mas simplesmente não havia resposta. Durante semanas, busquei a cor certa para a nossa cidade. Fechava os olhos e nada me vinha. Comecei a evitar o Zeca, temendo que descobrisse meu vazio. “Como não saber a cor da nossa cidade, se você sabe até a cor de Nova Iorque?”, provavelmente ele diria.

    Cansado de esperar, Zeca tentou por conta própria. Disse-me, certa vez, que sua cabeça chegou a doer de tanto esforço em traduzir uma cidade inteira em uma única cor.

    — Na nossa tem casa de tudo que é cor, primo — disse.

    O tempo passou. Muitas coisas mudaram, e eu ainda pensava nas cidades coloridas, mas já sem o mesmo entusiasmo infantil. Perdi o contato com minhas raízes; Zeca virou lembrança. Conheci algumas das cidades rabiscadas no meu caderno, e elas se apresentaram exatamente como eu havia imaginado: o Rio de Janeiro é mesmo o azul intenso do mar em dia ensolarado.

    Esta manhã, acordei pensando no Zeca. Queria contar-lhe o quanto fiquei preso àquela questão: a cor da nossa cidade. Mas ele já não está entre nós. Passados quase quatro décadas daquele episódio, ainda sonho com a resposta. E hoje, enfim, posso dizê-la: nossa cidade tem cor, sim. É verde-limão.

  • Entre Rolês e Rodeios

    Já disse em algum lugar — não lembro onde — que nem o cronista descansa: se deixa o bloco de anotações em casa, não importa. Você ouve uma frase no táxi, na pastelaria, na farmácia, no Uber e sente aquele chamado para a escrita, algo como: ali dá uma crônica da boa.

    O meu, outro dia, foi a palavra rolê. Com o controle remoto, pulando de canal em canal, vi uma garota falando: “eu acho que a minha grande crítica a esse rolê dos suplementos”. Rolê? Será que os suplementos pegam Uber sozinhos, fazem caminhada ou nós é que vamos num rolê até a academia mais próxima? Achei engraçado.

    Em outro momento, num vídeo da internet, o rapaz falou: “este rolê da Bíblia é algo diferente”. Pronto. Já imaginei os apóstolos subindo o Monte Sinai de short, tênis da moda, garrafa de água e barra de cereal. Tomando Gatorade no meio da revelação divina. Moisés, coitado, descendo com as tábuas da lei debaixo do braço e reclamando que não tinha wi-fi lá em cima.

    É curioso como, sem perceber, a pessoa encalha numa palavra e vai usando para tudo. A palavra funciona como um tênis velho, um jeans e uma camiseta que servem para qualquer ocasião. Como se as palavras fossem a roupa do corpo quando a companhia aérea perde a mala da gente: você não tem outra escolha, vai de calça surrada até no casamento. É o rolê virando uniforme oficial da fala.

    Rolê da Bíblia, rolê dos suplementos, rolê da missa, rolê da gula, rolê do vestibular, rolê dos livros clássicos. Daqui a pouco, terá rolê da TPM, do Pix que não cai, da geladeira que pinga água no chão. E a gente, claro, embarca em todos esses passeios — mesmo sem ter comprado ingresso.

    Antes, você chamava um amigo para um chope ou uma ida à praia e falava: “vamos dar um rolê?” Ia bater perna, sair em boa companhia, ir pra farra. Hoje, com essa macaquice de rolê, ninguém sabe mais o que significa. O que era passeio virou conceito, mania, tique verbal.

    Fico imaginando o Deus-nos-acuda que deve ser um estrangeiro aprendendo português. Deve ficar com a cuca fundida, saindo fumaça pelas orelhas. Afinal, esse rolê de novas línguas leva tempo. O sujeito mal decorou o “bom dia”, e já tem que enfrentar o “rolê do boleto” e o “rolê da psicanálise”. Coitado.

    Mas acontece que, de região para região deste meu Brasil, cada palavra tem seu charme. É uma característica de cada povo, uma particularidade, um jeito. O rolê, não. É o primo pobre das gírias atuais, aquele que todo mundo usa sem saber por quê, que se espalha feito vírus e não deixa saudade.

    O problema é que, sentadas cada uma na sua casa, as pessoas desaprenderam o rolê verdadeiro. Com o cachorro ao redor do quarteirão, com o seu amor no cinema, com os filhos na passagem de ano. Daí vem esta macaquice linguística: rolê da Bíblia, rolê dos suplementos, rolê do vestibular.

    Mas deixa eu sair de fininho antes que, pego de calças na mão, alguém venha me inventar o rolê da crônica. Só faltava essa. Pernas pra que vos quero.

  • O Chute na tomada

    Bueninho era o vocalista da banda ‘Impunes’.

    Ele saiu do metrô na estação Liberdade, a caminho da Rua da Glória.

    Faltavam sete minutos para as treze horas.

    Logo chegou ao portão do prédio em que moram Zími e Mila Cox, que juntos são a banda Crop Circles.

    Era um trajeto curto, onde ele pensou em como algumas influências musicais deles podiam ser identificadas.

    Mas eram influências obscuras, e eram numerosas também.

    Muitas delas poderiam ser mais populares do que são, mas estão fora do radar das massas, e era isso que o atraía.

    As letras de Mila Cox e Zími eram muitas vezes em inglês, por opção estética, e embora fossem simples, conseguiam não apenas ridicularizar a sociedade, como também apresentar verdades incômodas.

    O estado sendo uma doença que se apresenta como cura, a igreja fazendo lavagem cerebral nas massas através do medo e outros assuntos que a essa altura ainda são tabus.

    A simbiose entre eles era apenas musical. Cada um tinha e prezava loucamente por sua individualidade.

    Mila Cox parecia uma jovem Lydia Lunch, e Zími lembrava um Slim Jim Phantom de quase cinquenta anos.

    Bueninho tem dezenove anos.

    Ele foi chamado porque Zími viu o clipe feito para o primeiro single que a banda ‘Impunes’ tinha lançado recentemente.

    Musicalmente, aquilo era o som do álbum ‘Metal Machine Music’, com algumas intervenções vocais e instrumentais por cima.

    Se fosse lançado em 1976 ou 1977, seria vanguarda.

    Mas o que agradou a Zími foi que o vídeo começa com um cachorro caminhando em direção a uma parede, então levanta a pata, e mija sobre uma tomada, causando um caos apocalíptico, com imagens de centenas de pessoas em desespero, explosões, destruição em massa, e um diabo cristão interpretado por Bueninho, que gargalhava de maneira esquizofrênica.

    No dia em que foi à casa dos Crop Circles, Bueninho vestia uma camiseta do New Model Army e levava um carrinho com uma bolsa térmica cheia de latas de cerveja.

    Ele havia tentado beber destilados com Zími com Tito, baterista da banda Provetas, depois de um show que aconteceu em Avaré, no dia em que se conheceram.

    As três bandas haviam tocado no evento.

    Bueninho deu um vexame horrendo, e desde então, o pouco que se lembrava do episódio era suficiente para deixá-lo completamente deprimido.

    Na madrugada seguinte ao evento, ele acordou pelado, enrolado numa toalha, no sofá de uma casa em que nunca havia estado antes.

    Todos na casa dormiam, com as portas dos quartos fechadas.

    Ele ouvia roncos e televisão ligada.

    Ele não encontrava suas roupas e documentos.

    Nunca se sentiu tão ridículo.

    Algum tempo depois, quem saiu de dentro de um dos quartos foi Tito.

    Tito contou que Bueninho saiu bêbado no meio de uma conversa.

    Pensaram que ele tinha ido mijar e logo voltaria.

    Como Tito era da cidade e também estava bêbado, voltava a pé para casa e viu

    Bueninho deitado no chão de um posto de gasolina que estava fechado. Acordou-o e o levou para sua casa.

    Tito havia chamado as bandas e ajudado a organizar aquele festival, realizado numa casa onde funcionava uma sociedade de amigos do bairro.

    E agora, enquanto subindo naquele elevador, Bueninho sentiu certo nervosismo, pensando se seria ou se já estava sendo motivo de chacota pela sua bebedeira.

    Ao sair, viu Zími praguejando na sala do apartamento, que estava com a porta aberta para o corredor.

    Aquela visão mostrava a ele alguém com uma vida bem diferente da sua.

    Mas acima de tudo, mostrava a Bueninho que eles eram na vida cotidiana o mesmo tipo de gente que eram quando saíam para tocar.

    A embriaguez de Zími ainda não era aguda, e ele estava desenrolando um monólogo.

    Enquanto gesticulava para que Bueninho entrasse, Zími dizia:

    “O diabo cristão nunca vai ser tão horroroso quanto algumas pessoas com as quais ainda preciso lidar de vez em quando. Um tipo que eu sei que existe, que não precisam e nem deveriam fazer parte do meu convívio social. Se eu saio pra comprar cigarros a cinquenta metros desse prédio, essa saída rápida pode se tornar uma epopéia, apenas porque pessoas me abordam gratuitamente. Seria glorioso poder evitar. Ainda não sou livre a esse ponto. Ao longo da minha vida, a pior parte da luta era quando me interrompiam enquanto eu estava tentando virar o jogo. As pessoas conseguem estragar tudo, só por estarem no meio do caminho. Algumas vezes foi preciso abrir mão de certas coisas materiais, pra que junto delas eu me livrasse de certas pessoas. De um modo geral, as pessoas tem um potencial enorme pra estragar tudo. Estão condicionadas a isso. São patrulhas ideológicas e comportamentais. Sempre tive atração pela decadência, mas quando falo sobre isso, preciso explicar para não ser mal interpretado. Eu sei que um artista, por exemplo, precisa melhorar com o tempo. No rock, ele pode estar melhor como músico depois de envelhecer, e será chamado de decadente. Ele pode, quando jovem, produzir algo de acordo com sua idade, mas se suas temáticas forem juvenis, ele terá que se adaptar ao envelhecimento. Caso contrário fará papel ridículo e se mostrará realmente decadente. Muitas vezes será lembrado pelos hits antigos. Mesmo tendo lançado grandes álbuns mais maduros, muitas vezes essa evolução é completamente ignorada. Odeio a palavra ‘amadurecimento’ quando usada pra pessoas que envelhecem. Há também muitas que pioram com o tempo. Mas esse tipo de suposta decadência artística em que o artista continua produzindo mais e melhor, e mesmo assim as mídias ignoram, ah, esse tipo me interessa. Muito mais do que a decadência dessa sociedade podre, onde a qualidade humana só deteriora.”

    Zími estava completando quarenta e oito anos naquela sexta-feira, e a sua banda, Crop Circles, não tinha show marcado no fim de semana.

    Sua parceira musical Mila Cox já dizia que estavam num hiato de shows.

    Tinham músicas novas que nunca haviam sido tocadas ao vivo.

    Ela disse para Zími que o aniversário dele deveria servir como um motivo a mais para tocarem naquele dia, ou no dia seguinte.

    Parece ter ficado brava e foi para a janela.

    Olhou para a rua, e bastaram dois minutos para lembrar exatamente porque estava ali.

    Virou-se de volta à reunião e ficou quieta.

    Então eles não marcaram show porque estavam na festa de Zími, no apartamento de sessenta metros quadrados que ele dividia com Cox e Zími repetiu várias vezes que dizia para sua mãe que nunca chegaria aos trinta anos de idade.

    Olhando para Mila Cox, Zími falou: “A parte mais louca é que se eu olhasse quando tinha a sua idade pra quem eu sou agora, muitos anos depois, acho que ficaria feliz, apesar de tudo. Foi uma vida que eu mesmo considero errante. Meus pais achariam pior ainda, então está tudo certo. O que eles queriam que eu me tornasse é aquilo que nós criticamos na música e na vida.”

    O ambiente parecia o camarim que Zími idealizou para usar sempre que fosse tocar, onde quer que fosse.

    Não havia deslumbramento,nem luxo. Havia um padrão utópico.

    Janela grande, banheiro, refrigerador, controle sobre quem entra e sai. Os camarins nunca eram assim. Eram geralmente improvisados e precários.

    Mas o que interessava mesmo é que agora ele tinha um lugar decente para viver.

    Zími estava morando num armário localizado no corredor de uma pensão perto dali, porque estava sem computador para exercer o trabalho de copywriter, que agora paga suas contas.

    “Havia naquele lugar um cara que limpava a bunda com sabugos de milho, e os atirava na casa vizinha, causando uma série de problemas.”

    Essa era uma das histórias que ele repetia muito.

    Mila Cox também vive do trabalho de copywriter.

    Ser baixista e vocalista dos Crop Circles não lhe dá lucro e nem prejuízo financeiro. Na sala do apartamento também estava Lola, que é baixista e toca na banda Main Drags.

    Foi ela quem pediu para que Bueninho levasse cerveja, mas àquela altura estava tomando vodka com suco de maracujá com Mila Cox, enquanto Zími e Silvano tomavam rum com limão e hortelã.

    Silvano é o vizinho uruguaio que mora no apartamento ao lado.

    Ele é um guitarrista que tem uma Kombi para fazer carretos e poder pagar as contas, e também para transportá-los em dias de show,quando geralmente também se apresentava, fazendo uma mistura de punk rock, blues e rock a billy.

    A nuvem de maconha ali era tão intensa que teria disparado qualquer alarme contra incêndios que estivesse numa distância razoável.

    Bueninho pensou: “Meu Deus, como eles aguentam? Devem cheirar pó no banheiro pra aguentarem!”

    Na frente dele, Silvano mostrava perícia manuseando a faca para cortar hortelã e fazer os drinks que bebia com Zími em copos grandes.

    O problema alcoólico de Bueninho depois do show em Avaré não havia sido mencionado.

    Duas semanas haviam se passado, e no fim de semana anterior, a banda de Bueninho tocou em Santo André sem que ele bebesse nada de álcool.

    Ele gostava de beber, mas havia descoberto isso há pouco tempo, e não tinha o vício da bebida.

    E morava com os pais, que eram advogados, e repudiavam a idéia de Bueninho levar música mais a sério do buscar uma carreira acadêmica.

    No ano anterior, ele havia concluído o ensino médio a duras penas, e não conseguia se ver novamente sentado num banco escolar.

    E era ainda mais desesperador imaginar uma vida nos moldes que seus pais planejavam para ele.

    Isso era o que ele sabia que não queria, muito antes de conceber algum caminho viável para sua vida.

    É claro que havia a opção de mandar tudo às favas, arrumar um emprego, alugar um lugar para morar, e se ainda houver tempo e energia, seguir com a música.

    Ele pensava nisso todos os dias.

    Bueninho não é um instrumentista, não sabe ler música, canta apenas músicas que sua voz pequena permite, e sua banda, formada por mais três jovens com problemas similares aos dele, tinha apenas um single lançado na internet.

    Além disso, largaram-no no interior quando ele ficou bêbado depois do show e acabou sumindo na cidade.

    Então ele foi à geladeira pegar mais uma cerveja e quando virou-se de volta, Zími estava de pé e, quase exaltado falou:

    “A vida tem que começar de verdade em algum momento. É preciso tirar o band-aid. A minha vida já terminou e recomeçou várias vezes pra que eu não cumprisse o que dizia pra minha mãe sobre não passar dos trinta anos. Um dia, quando eu morava numa pensão abandonada, dormia num armário fodido no corredor, eu passei aqui perto, descendo a Brigadeiro Luís Antônio, voltando pra casa, com o saco cheio da vida, cansado da rua e cansado do lugar em que eu morava, e então passei pela praça e havia no centro dela uma tenda armada, e havia um evento religioso. Passei olhando o evento cheio de som e luzes, e do nada, chutei algo sem querer e, simultaneamente, as luzes do culto piscaram e se apagaram. O gerador de luz era a bateria de um carro estacionado na calçada ao redor da praça. Continuei andando, num sentimento que era um mix de vergonha e perplexidade, enquanto cerca de oitenta pessoas olhavam pra mim, também parecendo perplexas. Eu andava e eles olhavam. Virei pra frente, segui o caminho até sair do campo de visão do grupo. Quando já estava numa padaria perto de casa pra usar o wi-fi, acendi um cigarro e não havia ninguém me seguindo. Depois de fumar, entrei na padaria, e havia uma mensagem da Cox me convidando pra tocar bateria num experimento musical caseiro que ela estava tramando. Ela morava na Penha, com a mãe e a avó, estava com o saco cheio e queria se mudar dali. Então nos juntamos pra pagar o aluguel desse apartamento. Tive que fazer um empréstimo, que depois me sugou até o tutano, mas já está quitado. Precisei comprar um computador e outras coisas. Mudamos pra cá, trabalhando em casa e saindo pra tocar. O momento satisfatório que vivo agora custou. Um dia contei a história do chute na tomada pro Falkner, o porteiro daqui do prédio que te anunciou no interfone. Ele disse que certamente aquele episódio libertou pelo menos meia dúzia de ovelhas daquele pastor, mesmo que tantas outras tenham ficado sob o domínio dele. Não chegamos a uma conclusão sobre a relação desse episódio com o fato da minha vida ter mudado a partir de então. Pode ser coincidência também. Mas aconteceu. E você precisa fazer alguma coisa também. Aquele clipe que vocês gravaram pode ter sido decisivo. E hoje é melhor você dormir nesse sofá pra não chegar bêbado em casa. Sei que ainda não está bêbado, mas provavelmente vai ficar, e deve evitar atritos na sua casa. Saia de casa de vez antes que atritos mais sérios surjam.”

    Mila Cox foi até Bueninho, dando-lhe um copo grande de vodka com suco de maracujá.

    Ela falou: “Já que não tem show e estamos aqui, tome esse drink e deixe a cerveja pro café da manhã.”

    As horas se passaram com Bueninho anotando nomes de bandas e ouvindo conversas sobre música alternativa e anarquia.

    Acordou no sofá na manhã seguinte sem se lembrar do momento em que adormeceu. Ninguém mais ali parecia ter dormido.

    Para o terror de Mila Cox, que é vegana, Zími e Silvano fritavam quantidades astronômicas de bacon e continuavam com as bebidas fortes.

    Bueninho foi até a geladeira e as cervejas ainda estavam todas lá.

    Ele quase morreu de tristeza ao recusar as fartas porções de bacon oferecidas por Zími, porque estava apaixonado por Mila Cox e não queria decepcioná-la.

    Inclusive mentiu a ela dizendo que também era vegano.

    Não iria jamais contá-la que estava apaixonado, mas mesmo assim preferiu manter alguma chance, apelando para a questão do veganismo por ter sido a primeira que surgiu.

    Sua autoestima era extraordinariamente baixa, e ele montou uma banda para tentar melhorar essa condição.

    Passou todas aquelas horas longe da tela do celular, e o lado ruim disso, é que iria sofrer opressão ao voltar para casa.

    Começou a pensar em sair de casa e largar a banda para tocar sozinho, com um teclado Casio que compraria usado.

    Arrumaria um emprego tosco, só pelo salário e pela revolta, que seria canalizada através de músicas contra o sistema.

  • Poema #37: Um Vazio Suficientemente Cheio

    Subtraímos da vida
    a sua menor parcela
    para o preenchimento
    de nossas carências.

    Mas ao assumirmos o
    controle desta mínima
    propriedade, sentimos

    que ela não nos basta
    posto que a enxergamos
    apartada de sua totalidade.

    Acrescentamos então à vida
    a parte restante que falta
    para completar a visão que
    nós temos do seu conjunto.

    Mas ao nos atribuirmos a
    capacidade de dispor dos
    elementos de acordo com nossa
    momentânea vontade, a vida

    perde a complacência concedida
    e resgata a sua fração que já
    tínhamos e que era a única que
    podíamos aspirar em nosso desconforto.

    Inventário de Sombras

  • A “calçada da fama” carioca

    No início dos anos 2000, quando o Rio ainda sentia o peso das filas intermináveis em frente ao Consulado Americano, um homem simples, de fala mansa e sorriso largo, decidiu reinventar a espera. Seu nome: Edson Ferreira Maia, o homem que inventou um ponto de encontro em frente ao Consulado.

    Foi ele quem criou o Baggage Keeper, Cel. Phone, uma tenda de guarda-volumes instalada na Rua México. A ideia, aparentemente banal, era fruto de uma astúcia tipicamente carioca: transformar um problema em oportunidade, e a oportunidade em convivência.

    Antes disso, Edson trabalhava como “guardador de vaga” para os que buscavam o visto. Quando os atendimentos passaram a ser agendados por telefone, alugou cadeiras. Mas veio o 11 de setembro, e com ele a proibição de objetos pessoais no interior do Consulado. Era o fim de uma fase — e o início de outra.

    Com autorização da segurança, Edson montou seu pequeno império colorido com as cores da bandeira americana. Ali, celulares, câmeras e mochilas eram guardados com cuidado, embalados em sacos plásticos e catalogados com números. Havia promoções camaradas: uma família inteira pagava como se fosse apenas um aparelho. Mais que serviço, era acolhimento.

    A calçada da fama de Edson

    Rapidamente, o espaço virou atração. Edson passou a colecionar fotos com artistas que utilizavam seus serviços: Bussunda, Beth Carvalho, Tony Garrido, Gabriel, o Pensador, bandas como Revelação e Detonautas, além de dezenas de globais.

    Ele próprio batizou o mural de “Calçada da Fama”. Quem passava pela Rua México dificilmente resistia a parar para espiar as centenas de fotografias expostas, cada uma delas testemunho de encontros casuais e da espontaneidade carioca.

    O sumiço e o silêncio

    Passados quase vinte anos, o rastro de Edson Ferreira Maia se perde no asfalto. O Baggage Keeper desapareceu, o painel de fotos já não está mais lá, e quem cruza a rua em frente ao Consulado encontra apenas a pressa cotidiana.

    Não há registros recentes em jornais, tampouco nas redes sociais. Como se aquele pedacinho de história tivesse sido engolido pelo tempo.

    E, no entanto, permanece a saudade. Quem conheceu Edson guarda a lembrança de uma figura simpaticíssima, capaz de transformar um espaço burocrático em ponto de encontro, de fazer da espera um espetáculo, de transformar gente apressada em plateia.

    Mais que um serviço, uma memória

    Hoje, ao revisitar a história de Edson, não há como não enxergar ali um retrato maior do espírito carioca: inventivo, solidário, capaz de rir das dificuldades e criar pontos de convivência onde antes havia apenas tensão.

    “Quero transformar este espaço em um point para os cariocas.” — Edson Maia

    Se conseguiu ou não manter o sonho vivo, o futuro não respondeu. Mas o passado, esse sim, confirma: por alguns anos, aquele pedaço da Rua México não foi apenas passagem para vistos e burocracias. Foi palco de encontros, fotografias e histórias que merecem ser lembradas.

    📌 Nota do editor: Se alguém souber por onde anda Edson Ferreira Maia, escreva para nós. Talvez seja hora de reencontrar não apenas o homem, mas também a memória de um tempo em que a calçada era lugar de festa, curiosidade e afeto.

  • Música Brasileira

    Ah! Que saudade da travessia de Milton, das noites com sol de Venturini, do palco de Gil, da construção e das construções de Chico!!

    O coração aperta com a alegria e as alegrias de Caetano, com as águas de março de Tom e, generosamente, faz lembrar de Madalena de Ivan.

    O som alcança corpo, alma e coração e, diante de mim, surge um lindo lago do amor, um lagode Gonzaguinha. Faz brotar mais água e um oceano inteiro em Djavan.

    Devagar, devagarinho, chegam os versos de Martinho e outros versos, os de Cartola, ensinam que o mundo é um moinho!

    Caymmi mostra entre os acordes o que é que a baiana tem e Gonzaga, o Gonzagão, apresenta uma Asa Branca e os perigos do sertão.

    E entre melodias, rimas e cantorias, a crônica celebra Pixinguinha, outra Gonzaga, a Chiquinha, Villa Lobos, Roberto e Erasmo, Marisa Monte, Lulu Santos, Hebert Viana e tantos nomes geniais.

    É a música brasileira pedindo passagem, deixando a mensagem de uma língua vibrante!

    É a música brasileira que se faz crônica, poesia, inúmeros romances e nuances de um idioma eletrizante!

    E entre confetes e serpentinas, vibra a Colombina e o vozeirão de Ed Motta.

    Mas como é que não se nota?

    O descobridor dos sete mares e de Tim Maia as excentricidades!?

    Com tanta música boa e malemolência do canto, há sempre mais encanto e mais sabor! Há também a ovelha negra da Rita  e o Maluco beleza de Raul.

    E entre melodias, rimas e cantorias, a crônica celebra Gal Costa, Maria Betânia, Gabriel o pensador. Celebra Lenine, Moraes e Alceu! Celebra Cazuza, Renato Russo e a guitarra de Pepeu!

    São tantos os tons, de pele e de sons, são tantos os nomes e rostos e histórias que um texto só não dá conta de mostrar!

    Esta é a crônica da música brasileira, a melhor que há!

    E assim, quando a tarde cair feito um viaduto, canta feliz a menina apimentada, a pequena Elis. E ela nos diz que a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar.

  • Tatibitate

    Meu amorzinho, vamos começar. Vou explicar para você direitinho o que vai acontecer, não se preocupe, estou aqui pra ajudar, viu amorzinho? Qualquer dúvida pode me perguntar, eu estou aqui do seu ladinho o tempo todo. Vamos lá? coloque o pezinho aqui, assim amorzinho, um pezinho pra frente, o outro pezinho pra trás. E a mãozinha precisa estar firme assim, viradinha.

    Quem lê esse parágrafo logo imagina um adulto conversando com uma criança bem pequena, que ainda não domina totalmente a linguagem, correto? Ledo engano. Ouvi esse diálogo em uma sala de teste ergométrico, em que a pessoa que estava sendo testada era uma senhora na faixa de sessenta anos. Constrangida, ela tentava se desvencilhar desse linguajar da assistente de enfermagem sem sucesso.

    O que percebo é que alguns comportamentos da sociedade acabam por eliminar o período entre a infância e a velhice. É como se, na hora de desenhar a linha do tempo, os anos da vida adulta não existissem.

    Infância e velhice se tornaram uma categoria única, com a diferença que, aos olhos principalmente de quem atende o público, essas crianças longevas sofreram uma perda significativa de senso crítico, autoestima, raciocínio e capacidade cognitiva.

    Assim, a partir dos sessenta anos, os denominados “da terceira idade” se veem frente a situações cômicas, se não fossem odiosas.

    Uma delas é essa mania de usar diminutivos, uma linguagem quase tatibitate. Os idosos não tem membros, tem membrinhos. Não são tratados como senhor e senhora e sim como senhorinha e senhorzinho. Tem sapatinhos e não sapatos e carregam malinhas e não uma mala.

    Esse uso constante do diminutivo reduz o idoso a uma condição infantilizada e o interlocutor a praticamente um tutor daquele ser incapaz. Isso para não falar do sorriso condescendente que acompanha o diminutivo, quase de comiseração.

    Vivemos em um país com trinta e sete milhões de pessoas (18% da população) com mais de sessenta anos e essa parcela da sociedade cresce a 2,5% ao ano. Há que se pensar, portanto, em uma reciclagem dos treinamentos para atendentes do público pois, no andar da carruagem, o diminutivo assumirá o comando na língua portuguesa.

    Está na hora de esticar a linha do tempo e encurtar o tratamento com diminutivos!

  • ………….|….|…|…|.|.|…|.

    Uma pena
    Rubra, rubor – ruído ruivo
    Feito item desejado
    Jaz – ainda que repleta de vida
    No papelão bonito de onde veio

    Nunca
    Sequer
    Dali
    Saiu

    Enquanto observa o líquido

    – mesma cor
    rubra, rubor – ruído ruivo
    Dançar serelepe em cristal humano
    Apaixona-se e queixa-se da sina que lhe
    Cabe
    Abre
    Fecha
    Resta

    O rubor vem do entalhe
    Afinação do cálamo
    Calado a observar
    Rêmige de primeira linha
    Ave-falante-de-peito-roxo
    Ares exóticos
    Mas
    É
    Brasileira

    – brasileiríssima, embora
    rubra, rubor – ruído ruivo
    Do sul

    A bebida reluz

    As barbas eriçam

    Deve ser sonho

    Ar condicionado

    Condição de um seu delírio
    Quer ser algo
    Escrita
    Grita

    Pensa nas curvas delineadas
    Êxtase encontro seu com a bebida
    Mergulho
    Líquido que de si
    Então tinta
    A ponta
    Uma linha
    “O” ponto
    .

    Rubro

    Rubor

    ………….|….|…|…|.|.|…|.
    Ruído ruivo

  • Para mim e por mim

    Hoje eu acordei disposta a me elogiar, admirar meus feitos, reconhecer minhas lutas, relembrar todas as vezes que me levantei de tombos dolorosos e segui em frente.

    Acordei sedenta da minha essência, de abraçar com carinho minhas cicatrizes, as lágrimas escorridas por trás do muro da fortaleza. Perdoar as escolhas feitas com ingenuidade, que tanto me culpei por achar burrice. Sorri orgulhosa do meu jeito brejeiro de dar nó em pingo d’água…

    Hoje eu quero celebrar a descoberta da minha importância, significado e especificidade, independente da validação dos outros.

    Envelhecer não é só contar primaveras, atravessar invernos, gozar verões e aguardar outonos. É também um encontro com as escolhas, possibilidades, desejos e encantos que resistem a oxidação dos dias.

    Salve a minha coragem.

  • Realidade Adversa

    “Da minha infância querida, que os anos não trazem mais…”

    “Maringá, Maringá, depois que tu partiste, tudo aqui ficou tão triste que eu garrei a imaginar…”

    “Vento que balança as palhas dos coqueiros, vento que encrespa as ondas do mar…”

    Aqui, sentada na varanda, Felícia aos meus pés, o sol de setembro ainda ameno e o trinar dos passarinhos me zoando aos ouvidos, eu penso.

    Sem pressa, sem ódios, sem amor. Como trilha sonora, busco deliberadamente os sons que embalaram as minhas inquietações juvenis.

    Não, não é fuga. Não é alienação. E nem poderia ser.

    Tantas coisas acontecendo no mundo… de santos a demônios, de guerras em palavras, intenções e atos…

    De surpresas a favas contadas…

    De descaso em vida a homenagens póstumas…

    Como abstrair? Como brincar de faz de conta?

    A dicotomia permeia tudo: céus e terra, humanos e não humanos.

    Os bruxos estão soltos…

    Ou talvez sempre tenham estado.

    No ar, nas ideias, nas esquinas e nos templos. E se disseminam nas ondas invisíveis que o homem, esse ser maravilhoso, “à imagem e semelhança de Deus”, colocou à nossa disposição.

    De ondas eu entendo, pois foi nelas que me refugiei desde a idade em que meus pensamentos se tornaram perguntas e porquês.

    E sigo aqui, entre ondas…

    As que me acalentam e as que me desafiam. Ondas de mar, de rádio, de pensamento… sempre elas a me lembrar que a vida não cabe em extremos, mas se move no vai e vem do tempo.

    E, nesse movimento aonde me encontro, entre idas e vindas, sigo buscando abrigo…

    Pois mesmo que eu veja, ou só mesmo perceba do meu ponto de vista, a realidade adversa por onde a humanidade caminha, se eu me alienar, deixo de cumprir o meu lugar no mundo.

  • Montanha

    A inspiração é forte. A concentração, igual.

    Olha-se adiante, para cima, em busca de cada reentrância na pedra que permita firmar as mãos ou só os dedos. Meio pé em um calço é o suficiente para subir mais um pouco no paredão.

    Visto por baixo, a parede parece lisa e impossível de ser conquistada. De perto, a visão é outra.

    Apoios para as mãos e pés se multiplicam, mas não estão expostos. É preciso atenção e muita observação para achá-los.

    A cada momento da jornada, entre um trecho de parede íngreme e outro, surge um platô mais amigável. Está ali para lembrar que ainda há mais a ser escalado.

    A sensação de estar lá, subindo devagar e firme, é única. Nada melhor que sentir a pedra quente nas mãos. A montanha firme, imóvel, e você subindo por ela.

    Silêncio profundo. Há vida à sua volta. Mas nenhum som chega até você. Impera a quietude.

    Um vulto passa longe. Você vira o rosto um pouco e vê um urubu voando. Sorri, e a ideia de a presença dele ser um presságio brinca na sua mente. Mas, qual nada. É só um urubu aproveitando uma térmica, a corrente quente ascendente. Ou, como diria Tom Jobim, dormindo na perna do vento.

    Admirar o voo do urubu serve para descansar um pouco. Mas agora, adiante. Aspirar o ar puro do alto da montanha. E seguir. Sem pressa, domando a ansiedade que cresce à medida que o cume se avizinha.

    O topo é o final da jornada. Cume ou chapadão, é para lá que você vai. O prazer da conquista é só seu. Egoísta? Nem de perto.

    Ninguém pode sentir o que você realmente sente nesse momento. Ou em outro qualquer da sua vida. Nenhuma narrativa, nenhuma imagem captada, nada na tecnologia humana é capaz de passar a outra pessoa o que você sente. A sensação, seja ela qual for, sempre será unicamente sua.

    No topo, você olhará para os lados. Para baixo. Vai suspirar satisfeito com sua conquista, para depois tomar o caminho de volta. Por onde subiu, vai descer. No mesmo ritmo, com o mesmo cuidado.

    E, a cada movimento para baixo na descida pelo paredão, a cada parada nos platôs, vai se lembrar de que cada conquista é única, mas não definitiva.

  • A busca de ser lembrado

    Gosto do termo “brumas” para figurar o esquecimento. O que vivemos se perde numa massa brumosa que dissipa as impressões do que passou. Não se revive nada, toda lembrança é o registro de uma perda. Ainda assim insistimos em lembrar, pois disso depende em grande parte a nossa identidade. 

    Outro vocábulo que também representa o que na memória se perdeu é “oblívio” – mas desse ninguém se lembra. É um vocábulo erudito e um tanto assustador. Por também significar repouso, tem alguma ligação com a morte. 

    “Amnésia”, sim, é patológico. Sugere uma perda temporária das lembranças devido a lesão cerebral ou à ingestão de determinadas substâncias. Seu radical evoca Mnemosine, a deusa que para os gregos determinava a lembrança e o esquecimento. Segundo a mitologia, os mortos que bebiam da água do seu poço relembravam suas vidas. 

    O esquecimento é o que mais tememos na morte, por isso o tema da memória provoca de forma tão intensa o nosso interesse. Quando se pensa em não morrer, ficar “para sempre”, pensa-se na verdade em permanecer na memória das pessoas. 

    A morte se consuma, não quando perdemos a vida, mas quando o que fomos desaparece por completo da lembrança dos vivos. Daí o empenho em que fique registrado o nosso nome nas obras de arte ou no acervo de instituições como academias, confrarias religiosas, associações de notáveis – que às vezes nem são tão notáveis assim, mas fazem questão do registro; o importante é que o nome esteja lá. 

    Nesse esforço de ser lembrado há quem desconheça a fronteira entre o bem e mal. Pouco importa se o recordam como um monstro ou um psicopata, desde que seus atos imprimam uma marca indelével na memória dos outros. Nesse grupo se enquadram os assassinos de celebridades ou os que, no exercício de funções delicadas como a de pilotos de aviação, produzem tragédias que levam à destruição de inocentes.  

    Muitos fazem tudo pela glória póstuma esquecidos de que o essencial mesmo é “permanecer”        enquanto estiverem vivos. Isso significa atuar, comprometer-se, ser determinante na vida dos que deles dependem ou com os quais mantêm vínculos de afeto.   

    Quem falha nessa tarefa, muitas vezes em prol de uma duvidosa notoriedade aos olhos dos pósteros, está condenado ao esquecimento em vida (um esquecimento que por vezes se confunde com desprezo). E deve amargar para sempre os efeitos da escolha errada.

  • Destino

    Ela buscava a perfeição nas pequenas coisas. Não por vaidade – que tolice seria pensar assim – , mas porque temia que, se um detalhe lhe escapasse, o resto se desfaria junto. Como se a vida fosse tecida de minúcias frágeis, e bastasse um único fio solto para que tudo se desfiasse.

    Naquela tarde, após o encontro inesperado com alguns colegas do antigo curso de Arquitetura, decidiu retardar a volta para casa. Um happy hour. Um instante de distração. E nesse gesto havia quase um crime: quebrar a rotina perfeita que sustentara por vinte anos de casamento. Estranho como a alegria, quando não estava prevista, parecia culpa.

    A noite avançava. Os amigos insistiam para que ficasse. Ela sabia que não devia prolongar aquele instante. O corpo dizia: fique. A consciência sussurrava: vá. Riam, insistiam, queriam retê-la. Ela ponderou: a música era boa, fazia tanto tempo que não tinha momentos só dela. Mas não conseguiu se entregar. Sentia-se dividida: entre o prazer de estar ali e a voz severa dentro de si, que lembrava sempre o “certo”. Presa ao medo de parecer chata, quase cedeu. Sempre houvera em sua vida um juiz oculto, vigilante, capaz de tolher qualquer leveza. É curioso como, às vezes, o que nos prende não é a obrigação, mas o receio da opinião alheia.

    Entre eles, Augusto. Não era apenas um amigo antigo. Era a lembrança de um caminho perdido. Ao vê-lo, sua alma estremeceu, frágil, como uma casa durante um terremoto. Pensou: se não tivesse obedecido à ordem das mulheres de sua família. Casar, ter filhos, cuidar da casa, como sua mãe fizera e a mãe de sua mãe antes dela, talvez tivesse permitido uma aproximação, quem sabe uma aventura. Recordou os corredores da PUC, os bancos da praça de alimentação, as conversas que nunca chegaram a ser promessa. E agora ele estava ali, diante dela, intacto. Como se o tempo não tivesse passado. Como se tivesse ficado, de propósito, à sua espera.

    E, de repente, bastou uma frase. Palavras comuns, triviais até, mas que carregavam o peso de uma chave guardada por décadas:

    – Nos trilhos somos livres. De uma estação a outra, seguimos nosso destino.

    Ela respondeu sem pensar, como se a voz não fosse dela, mas de algo mais antigo:

    – Para onde quer que você vá, levará consigo você mesma.

    Riram, mas não das palavras em si. Riram de si mesmos, do espanto de se ouvirem repetir o que soava tão gasto, tão decorado. O clichê, afinal, não estava nas frases escritas anos antes, por Augusto e por ela, no banco da praça: estava no tempo que haviam perdido. E foi por isso que aquelas palavras banais soaram como um segredo enfim revelado.

    O silêncio seguinte foi decisivo. E, de repente, já não importava mais a música, os protestos dos amigos, nem a madrugada que avançava. No olhar entre eles havia já um pacto. Sem despedidas, sem desculpas, de mãos dadas, abandonaram o bar.

    Daquele dia em diante, ela nunca mais foi a mesma. Começou a perceber fissuras no mundo perfeito que construíra: os filhos já não pareciam os mais belos, o chulé do marido lhe dava enjoo, a toalha molhada esquecida no banheiro tornara-se insuportável. Não era novidade nenhuma, mas agora ela via. E ver é diferente de saber.

    Numa manhã de sol quente, desceu as escadas para atender à campainha. Era Augusto, com dois envelopes timbrados de uma companhia aérea. Não houve palavra entre eles. Apenas o gesto. Um convite mudo. E ela aceitou.

    Enquanto partia, teve a impressão de que não deixava nada para trás. Ou talvez deixasse tudo: os filhos, o chulé, a toalha molhada, a casa perfeita. Ainda assim, não se despedia de nada. Era como se permanecesse ali, presa ao corpo que caminhava, à casa que ficava, aos seus demônios interiores. Ele, ainda embriagado pelo acaso. Ela, estranhamente vivendo a sensação de ter encontrado a si mesma, ao mesmo tempo, de estar se perdendo para sempre.

    E se perguntou: quem é que parte, afinal?

  • Desumanização

    Acompanho a minha esposa na fisioterapia. Como vocês sabem, ela fraturou o braço há um mês e está entrando numa fase longa de recuperação. Estou cagado de cansado, de um dia todo de trabalho; peguei um trânsito maldito e estou agora, 18h30min, num tal Ginásio 2 – Pós-operatório, no prédio do plano de saúde. Foi uma correria até chegar aqui. Antes, pegamos uma fila razoável para a marcação inicial. Ela foi chamada minutos depois – não demorou muito. Fico numa salinha ao lado esperando. Tocam (gritam), simultaneamente, a televisão, sintonizada na novela – e que novela ruim, meu Deus do céu –; o “divulgador” das senhas, a todo instante chamando um paciente, “Atenção, fulano de tal, senha de número 883, compareça ao Ginásio 2 – Pós-operatório”; e o celular alto de uma senhora, de seus sessenta anos, muito carrancuda, ouvindo a pregação de um pastor atentado. Procuro relaxar um pouco, fuçando o Instagram, para me dispersar, mas num momento ou outro o fuleiro do pastor berra. É decerto um desses pastores da Nova Era, um pastor treinado para a conversão das pessoas ao Deus dinheiro; um típico pastor coaching – e, como todos sabem, tenho abuso a coaching, com suas receitas milagrosas, doidos para angariar seu rebanho endinheirado. O cabra ainda teve o desplante de chamar Davi bíblico de “um tremendo de um malandro”. Não sei bem quem é Davi, mas sei que um religioso não devia se portar desse jeito. Um bom religioso não deve, a meu ver, se mostrar, deve ser discreto e imbuído das melhores intenções, para salvar as almas perdidas. Como vocês sabem, também, sou autista, nível de suporte um, e por isso tenho meus incômodos com sons variados, tocando ao mesmo tempo, principalmente. A vizinha sentada ao lado esquerdo resolveu ligar para a amiguinha, e está de conversa fiada, falando sobre um tal namorico: besteirol. Ri alto e fala como se estivesse na sala de casa. Levanta e se senta descoordenada, agoniada. Parece que tem algum problema na perna, talvez seja o motivo de estar ali. Não tem o menor constrangimento de falar em sexo no meio de uma sala lotada. Disse que o carinha que estava pegando era brocha, e assim, rindo, cada vez que mencionava o sujeito, o tratava como “o brocha”. É assim que as mulheres fazem nas suas conversas “particulares”? Não creio. Mãe e filho, à frente, conversam sobre estudos, estando o menino hiper-ansioso para passar de ano. Sem querer, escuto histórias que não queria escutar, às vezes se misturam, e viram um aglomerado sonoro insuportável. Haja paciência para a falta de senso das pessoas. Pensando em sair e esperar a minha esposa fora do prédio, ela alivia a minha ansiedade e a minha pressa para fugir e aparece na portinhola. Sai e pega na minha mão, forte. Voltamos ao carro e, logo, seguimos em direção à casa. Mais um dia superado com certa aflição.

  • O Edgar tem cada uma

    Para Luis Fernando Verissimo, com saudade*

    O Edgar está longe de ser bonito, mas anda empenhado em virar um grande sedutor. Acha que é só questão de lábia, de saber xavecar do jeito certo: o papo, o feeling, o timing. Nos sebos, vai direto à estante dos livros de autoajuda, escritos por coachs que ensinam o menino cheio de espinhas a chamar a menina mais bonita da escola para o cinema.

    Ao comprar um desses livros, Edgar tem uma exigência: não aceita conselho de gente encalhada. Primeiro confere se o autor ou autora é casado, tem filhos, aparece em foto de família em coluna de jornal. Se for assim, vale a pena ouvir.

    De tanto procurar, achou na estante o livro da canadense Rebecca Gibson:
    Título em inglês: Ten Secret Rules to Become a Man Able to Give What Every Woman Needs
    Subtítulo: A Practical Guide for the Hopeless, the Clueless, and the Terminally Single

    Eu, pessoalmente, tentei ajudá-lo:
    — Que livro mais idiota, Edgar.
    — Ora, idiota nada. Por quê?
    — Edgar, pensa bem. Se são dez regras secretas para um grande sedutor, por que elas estão na capa?
    — E daí? — me perguntou, enquanto o garçom trazia bolinho de feijão e cerveja.
    — O que é segredo, a gente não conta. Por isso acho o fim da picada você colocar sua vida amorosa nas mãos de um livro tão burro.

    — Pelo menos a autora não é encalhada.
    — E isso basta?
    — Ajuda.
    — Você tem cada uma, Edgar.

    Dei uns tapinhas nas costas dele. O garçom trouxe a cerveja e os bolinhos de feijão. Ficamos os dois ali, rindo.

    A tática que meu amigo leu era simples: bastava usar uma aliança no dedo, fingindo ser casado. Segundo Rebecca Gibson, uma loira canadense bochechuda e linda de doer, as mulheres gostam mesmo é de disputar o homem das outras. Gostam da rivalidade, da adrenalina. Para ela, amizade entre duas mulheres não existe, já que toda amiga é, em potencial, ameaça ao romance da outra. Em suma, Edgar só precisava se passar por um homem casado de respeito, dedicado aos filhos, cara fechada, sem inclinação para trair. Nada de errado nisso — afinal, solteiro, morava com a mãe idosa. Só estava jogando os dados a seu favor.

    E assim passou a usar aliança. Camisa sempre abotoada até o último botão — homem casado se preza. Cabelo penteado de lado, água de colônia discreta. Nada de virar o pescoço para a estagiária, nada de reparar no decote da Dagmar, advogada da sala ao lado. Ah, esqueci de dizer: Edgar é advogado numa firma. Passou a chamar clientes de senhora ou senhorita, conforme a idade.

    Outro dia, a estagiária reparou:
    — Edgar, que aliança bonita. Sua mulher deve ter muita sorte.
    — O sortudo sou eu.
    — Quantos filhos?
    — Um bebê e uma menininha de um ano.
    — Que bonito. É raro ver homem assim.

    Edgar passou a ser visto como homem de respeito. Homem de bem. Zeloso pela família.

    O plano funcionou: o homem casado, pai amoroso, sério. As pretendentes começaram a aparecer, provando que Rebecca Gibson, casada com um CEO de revista americana e mãe de um bebê adotado na África, tinha razão. A primeira foi Laura, garçonete da padaria, que se comovia com a aliança dourada. Pegava carona, evitava pagar ônibus, entrou no motel acreditando que “era só pra conversar”. Depois vieram a cozinheira do restaurante, a depiladora da livraria, a Sabrina mascando chiclete sem parar, estagiária do banco, que topava o motel antes ou depois do expediente.

    A aliança do Edgar virou feitiço.

    Vaidoso, começou a ir à manicure, à perfumaria, ao cabeleireiro, à estética.

    Agradecido, escreveu um e-mail para Rebecca Gibson:
    “Thank you so much, Miss Gibson. I truly appreciate your tips. You made me a brand new man.”
    Rebecca respondeu dois dias depois:
    “Thank you for your support.”

    A vida dele ia de vento em popa, causando inveja. Até que, certo dia, na praça de alimentação do shopping, de mãos dadas com uma morena da contabilidade, uma velha conhecida bateu no ombro dele:
    — Grande Edgar.
    — A senhora me conhece?
    — Respeita sua madrinha, seu malcriado.
    — A senhora o quê?
    — Finalmente arrumou uma mocinha para casar.

    Foi embora, deixando os dois a sós.
    — Então você não era casado? Colocou essa aliança só pra me fazer de besta?

    Ela pegou o molho da macarronada e jogou na camisa branca dele. Pegou também a cerveja e derramou na cabeça. Saiu furiosa. Mulheres não suportam homens mentirosos. Ainda que mintam para a esposa, para elas nunca. Rebecca Gibson até fez um bom livro, mas esqueceu de incluir um capítulo sobre como praticar em cidades pequenas como Belo Horizonte.

  • A Velha e o Mosquitão

    Dona Maria costumava se gabar por ser a maior espectadora de televisão do planeta. Havia alguém responsável por lhe conceder esse nobre título? Sim, no caso, ela mesma. Moradora de uma vila de pescadores, tinha uma vida bastante simples. Acordava de manhã, sentava-se em sua poltrona e ligava sua televisão. De lá só saia quando alguém batia em seu portão querendo comprar os sacolés que vendia para as pessoas daquela região.

    Toda essa calmaria ficou abalada quando um dia, enquanto assistia ao seu programa favorito, o plantão telejornalístico interrompeu sua programação com a seguinte notícia.

    — Informamos aos moradores desta cidade que amanhã receberemos a maior invenção deste século, o barco nuclear. Projetado com o tamanho de uma simples embarcação de pesca, ele será capaz de fornecer energia para todas as fábricas da nossa cidade. A crise energética enfim acabou. O equipamento ficará atracado na vila dos pescadores.

    — Por que diabos essa geringonça vai ser colocada aqui para iluminar as fabricas do outro lado da cidade? – indagou a senhora.

    No dia da inauguração, jamais tinham sido vistas tantas pessoas esquisitas naquela localidade. Era uma gente vestida de terno que andava com a cabeça tão levantada que quase alcançava o céu. Foi até estranho para os moradores daquela região verem o prefeito e vários vereadores comparecerem ao vilarejo fora do período eleitoral. Após todos os discursos e pompas, estava inaugurado o gerador de energia.

    Logo depois, começou um zunido infernal naquela localidade. Nenhuma pessoa conseguia mais fazer nada sem ser atormentado por um barulho ensurdecedor em seus ouvidos. Dona Maria já não conseguia mais ver ser programas de televisão. Como uma senhora obstinada, ela não poderia deixar aquela situação permanecer daquele jeito. Pensou logo em bolar um plano.

    Durante dois dias, ficou observando o ir e vir do pessoal que tomava conta daquele mosquitão. Percebeu que, uma vez ao dia, durante a troca de turno, o local ficava sem ninguém de vigia. Essa era a hora perfeita. Então, a Super Senhorinha saiu de sua casa, adotou passos cuidadosos e chegou em frente ao seu objetivo. Agora, precisava saber de onde vinha aquele barulho. Ela não titubeou, com sua perícia de cientista do lar, observou tudo durante algum tempo e percebeu que o som deveria vir de um cabo dentro daquele equipamento. Foi lá e desconectou tudo. Na mesma hora, o barulho parou. Saiu de lá vencedora.

    No dia seguinte, a paz voltava a reinar naquela casa, como era incrível a sensação de poder assistir televisão sem nenhum barulhinho para atrapalhar. Estava nas nuvens. De repente, sua programação voltou a ser interrompida pelo plantão.

    — Informamos que, por motivos ainda desconhecidos, o funcionamento do barco nuclear foi interrompido. A concessionária responsável está tentando adotar todas as medidas para restabelecê-lo o mais rápido possível, mas ainda conseguiu detectar o problema. Sendo assim, é necessário informar que estamos correndo um grande perigo, pois essa interrupção no equipamento por mais de 36 horas poderá causar uma explosão que destruirá nossa cidade. Os desenvolvedores do barco nuclear criaram esse mecanismo para nos proteger contra possíveis ladrões de tecnologia.

    Dona Maria ficou espantada com a notícia, mas sabia que não tinha tempo a perder. Esperou a hora que já conhecia muito bem e lá foi mais uma vez em direção ao mosquitão que tanto desprezava. Como já sabia exatamente o que fazer, não demorou nem 5 minutos. De repente, começou o zunido de novo, todos os funcionários correram para ver o que havia acontecido. Quando olharam para trás, somente viram uma senhora andando vagarosamente. Ela olhou para todos e disse:

    — Tentei voltar a ter paz para assistir meus programas de televisão, esse barulho estava complicando minha vida. Agora, se para ficar viva eu preciso aguentar o barulho desse mosquitão, que ele continue — disse Dona Maria contrariada após restabelecer o zunido muito a contragosto.

  • FERIADO

    Estou sentado, sozinho, na mesa de um bar, numa dessas noites perdidas. Lá fora a chuva impede-me de sair e eu fico observando este meu impedimento que na verdade é fuga a uma determinação que não tenho tido. Olho para a chuva e vejo a sua cortina de indiferença. A chuva escorre e a água correndo parece trazer-me uma espécie de nostalgia semelhante à náusea. A chuva forma com suas goteiras algo parecido com uma delimitação de espaços, de vivências, de ansiedade pura. Aqui dentro a vida que tenho tido como espaço permitido ao corpo. Lá fora a vida que eu poderia (talvez) ter se imperasse o sonho de estar além do espaço físico, como uma antevisão de um espaço neutro concernente à paz. Acrescento ainda que esta noite é de finados e a questão é transpor ou não o limite da porta.

     Inventário de Sombras

  • Poema: #12: Exercício Pessoano

    A chuva veio tomar
    os meus pensamentos
    e me puxou pelo braço… assim inteiro
    e já não me sou…deixei de ser…
    somos e não somos.
    Várias vozes… absorção.
    Um senão!

    E fica a impressão
    de que a vida se abandona
    na brevidade acelerada das coisas…
    e não somos! Fingimos ser…
    Inventamos, copiamos, fazemos um rascunho…
    E nos deparamos com o sentido inoportuno
    de não querer entender
    e somos!

    Vencido o humano,
    bandeiras ao vento, mastros,
    coração tremulando aos farrapos…

    Quando se escreve, há o momento da perda…
    e, no perder-se, encontramos
    o que no cotidiano…
    damos o nome de poesia.

  • Oscilações

    Um corpo que envelhece, expressões sem fôlego. Vera move-se em vaievéns curtos, sem, contudo, se entregar à queda. No espelho, vendo o que não queria – ou tentando não o fazer; momentos antes, a caixa… dezenas de momentos em papel fotográfico, seu os tantos sorrisos congelados em uma linha torta e encantadora de tempo. Via-se em cada instante eterno, ainda feita de sonhos. Como se o vento do mar Tirreno jamais tivesse parado de soprar em seus cabelos, tingidos tantas e tantas vezes, de tantas cores, desde então. Quase quarenta anos em um sopro. Sequer precisava fechar os olhos: bastava respirar para que o passado lhe viesse inteiro, sem convite ou pedido de licença.

    Sente um burburinho atravessar a caixa e está de volta a Rimini, Maranello, Venezia, Napoli, Capri, Milano. Quatro décadas resumidas em quarenta segundos, alisar dos dedos em unidades fotográficas brilhantes. Quarenta amontoados de papéis dentro da mesma caixa, tudo mofo e saudade.

    Não só quarenta, nunca são; os passaportes perfurados pela aposentadoria documental precoce, carimbos:
    ■ Sofia, a língua complexa, as construções monumentais, neve, amigos, entender a palavra банан (banana), se encantar com o suco de sua fruta favorita e, desde então, fazê-lo sempre para as visitas em sua casa;
    ■ Budapeste – o rio Danúbio e os deslumbramentos de passear à noite e em pleno domingo cheio de vida urbana;
    ■ Bruxelas – sabor das belgium fries, batatas fritas duas vezes, chocolates, o manneken pis que urina orgulhoso na fonte desde 1619, os raios de luz dentro das Igrejas.
    ■ Fez – com o arrastar do sari pela medina, todas as compras inusitadas dentro de uma farmácia, os curtumes e hortelã, o passar pela Al Quaraouiyine, mais antiga universidade do mundo;
    ■ Deserto do Saara – com suas tempestades de areia e neve, babuínos e artistas que pareciam entender e responder todas as línguas do mundo;
    ■ Londres, com seus ônibus duplex vermelhos, táxis pretos; pubs, cultura, chuva e a inesperada gentileza e atenção inglesas;
    ■ Paris e seus odores particulares – deveras compreensível o lançamento das fragrâncias mundiais tão emblemáticas -, os picnics pelos bancos, a surpresa de ver Notre Dame (antes do incêndio) pela primeira vez, percurso com os olhos fechados por dedos carinhosos e as lágrimas que não cessavam perante tanta beleza;
    ■ Versalhes sem adentrar o Palácio, mas vivenciando a cidade, as feirinhas locais.
    ■ Poissy para única e exclusivamente conhecer in persona os sete pilares do modernismo original, a morada do sonho coletivo de então;
    ■ Plovdiv, as ruínas romanas, a cidade repleta de pedras.
    ■ Praga, suas pontes, seus artistas, tantos passos ao sabor do que quis fazer sozinha.
    ■ Porto – restrito ao Porto da mesma cidade, as passagens vívidas pelas janelas do trem.
    ■ Lisboa, pastel de Belém, teleférico com vista para o Tejo e um cartão postal em cortiça.
    ■ Barcelona, as ramblas, o desejo de experimentar ser uma local.

    De além mar:
    ■ Montevideo e
    ■ Colonia del Sacramento, chorizo, cerveza e lindas recordações de registros perdidos nos Hds da vida.

    A maioria dos cartões dos hotéis, notas fiscais de restaurantes, supermercados, rastros das experiências cuja tinta despreende-se da realidade. Croquis apressados em cadernos de capa mole, telefones que não levarão a lugar algum, trajetos riscados à caneta bic, nanquim e grafite 0.7 de lapiseira. A coleção de bótons de cada país visitado. Uma miscelânea de coisas que só para ela são tesouro. Para o resto do mundo, apenas tralha.

    Um enjoo sem causa, nascido do nada, como se o mundo oscilasse para frente e para trás: ecos de músicas, um acordeão inesquecível em um beco em Perugia desafia o artista performático – que toca instrumentos demais concomitantemente – em uma ponte praguense. Sol de inverno, chuva de verão. O amigo mexicano ao lado, rindo com ela. Perugia volta ao seu coração como quem pisca. Quatro anos depois, o mesmo acordeonista a reverencia em uma foto já desbotada. Era um festival de chocolates, o sabor dos baci ainda grudados na língua.

    Mais uma vez um mal-estar súbito. O visco da pele fotográfica parecia o mesmo, até confrontar-se com o espelho. O chão parece escapar-lhe dos pés. O amor pela vida sobrevive, mesmo com as desventuras insistindo em fazer fila nos últimos anos. Tem certeza de ser a mesma dos registros instantâneos de outrora.

    Havia ainda outros retratos: a terma solitária, na qual fora seguida por um brutamontes local, nenhum falando a língua do outro, o pânico. A terma seguinte, cheirando a enxofre, com o namorado que durou. A famosa rua vermelha holandesa, maconha única e sem efeito – pura imersão cultural -, um ex-marido rindo. A saga por casas de um euro com o namorado que costurara sua vida, tantas histórias que nunca se tornaram registros. Cartas de amores e amigos. Um affair da internet que mandava envelopes pelo correio, um namorado da faculdade que a fizera conhecer o sul do Brasil em um evento como se fosse aluna de outro curso. O primeiro passeio de metrô e de barca, a primeira vez na Confeitaria Colombo, todas as primeiras coisas com o primeiro amor, quem a ensinou a jogar xadrez, a escrever e a dirigir. Os planos de uma viagem com um ex que se tornou amigo e nunca aconteceu. A promessa de desbravar o mundo, sozinha ou acompanhada.

    Tudo em um breve e intenso espaço de quarenta anos… – como passa depressa..!

    “La vita è adesso” (a vida é agora), diria um Renato Russo confinado em CD de capa amarela. “La vita è troppo breve per mangiare e bere male” (a vida é breve demais para comer e beber mal) – a máxima estampada em um mercado italiano que já chegou ao Brasil, e que faz todo o sentido.

    Sobre o sofá-cama aberto, esse objeto solitário como Vera, feito para viver entre duas funções e seguir indefinido, a caixa, uma taça de vinho tinto, pães e azeite. Um vinil garimpado em sebo toca no portátil que presenteara ao pai, e lhe coubera de herança. A conversa muda entre Marcel Proust e Byung-Chul Han sobre a busca de outro tempo e o tempo perdido. O tempo nunca cronológico, sempre perfume, presença, ferida, doce, salgados e amargos e mergulhos num passado por vezes modificado. Um pretérito que perfura o presente, deixando de fora smartfones. A roomate turca, o último passeio no mini-metrô perugino. Ela radiante pela liberdade enganosa de não ter que usar véu fora de seu país, o noivo que a impedia pelo telefone de passear com os novos amigos. Tudo aconteceu há tanto tempo..! Perderam contato, Vera se pergunta sobre a felicidade atual da amiga, quando o véu já não é mais obrigatório por lei em Istambul. Quase irmãs, graças al bel paese. Quase desconhecidas, graças ao tempo.

    O chiado da agulha pede o outro lado do vinil. A garrafa de vinho parece um conta gotas com o que resta do líquido. As quinquilharias jazem à meia-luz, inertes na indecisão do mobiliário entre cama e sofá. Um odor extasiante de recortes e invencionices inocentes, lembranças de outrora – utopia juvenil? – impregna todo o ambiente, mas termina por adquirir o sabor cítrico, crítico e desilusório na memória de uma adulta de avançada idade. No banheiro estreito, metálico, Vera outra vez no espelho sorri. Atenta como há muito não fazia. Os lábios suavisam, vê-se vazia, pele enrugada, olhar triste e perdido. A vida já passara por ali, agora vinha como aquela visita inesperada, que ninguém quer receber.

    Aurora, quase. Água quente na pia. Rosto refletido, defletido, molhado. Não sabe o que vem vindo: pela janela escotilha só água, único horizonte. Dizem que tudo se cura em água salgada: suor, lágrimas e mar. Vera sorri; o navio balança. É a vez do mar.

    — Memória datada de 07 de setembro de 2045, no Estreito de Gibraltar (35.972705, -5.702652).

  • O diário secreto de Miss Marple

    O ritual da noite era sempre o mesmo: minha irmã fechava as portas do armário, apagava a luz e decretava silêncio. Só então eu podia, sorrateiramente, pegar o meu livro, lápis, um caderninho e me esgueirar para o meu refúgio de leitura noturna – o banheiro– nada confortável, convenhamos, mas privativo, o que considerava um privilégio.

    O livro escolhido era adequado a essa leitura furtiva – algum título da coleção de Agatha Christie que minha mãe guardava na biblioteca. O Assassinato do Expresso Oriente, Morte no Nilo, Appointment With Death, Poirot Perde uma Cliente…. lia avidamente todas essas histórias que envolviam mistérios, crimes, e finais surpreendentes. Me encantava com Poirot, o investigador astuto e bigodudo e Miss Marple, uma velhinha a quem não se dava o menor crédito como investigadora, mas era brilhante ao tecer a linha de raciocínio dos assassinos e chegar ao desfecho do crime.

    Na minha mente infanto-juvenil me imaginava parte da trama, escondida atrás de uma cortina a observar uma atitude suspeita, aflita para poder trocar ideias com Poirot sobre as minhas hipóteses. No silêncio espesso da madrugada pensava: E se fosse ali, na minha banheira amarela, que encontrassem o próximo corpo? Isso me fazia esquecer completamente a pouca luz do ambiente, a dor nas costas de ficar sentada no chão e o silêncio da casa que, muitas vezes, me fazia imaginar que alguém abriria a porta e eu é que seria a próxima vítima.

    Aquelas anotações noturnas foram meu primeiro ensaio de investigação – mas não de crimes, e sim de mim mesma. Naquele pequeno banheiro de ladrilhos amarelos, cercada de meus companheiros da noite, eu tinha voz própria, acolhimento e o respeito que me faltava pela singularidade de menina fora da roda.

    Minha leitura era intercalada por momentos em que registrava no caderninho reflexões sobre a vida fora da fantasia, as descobertas reais sobre mim e sobre os outros participantes do duelo entre a inocência da infância e a impiedade da adolescência… enigmas que nem Miss Marple, com sua clarividência própria de uma mulher, conseguiria decifrar.

    Esse diário foi a porta de entrada para, muitas décadas mais tarde, me aventurar pela escrita criativa, refugiada em um outro espaço ladrilhado que foi o isolamento durante a Pandemia.

    Fui buscar lá no fundo minha veia investigativa para me dedicar aos contos de ficção, deixando sempre uma porta aberta no final dos textos para que o leitor pudesse fazer a suas próprias descobertas. Não é por menos que o meu primeiro livro de contos, se chama “Conto ou não conto”. Tenho certeza de que Miss Marple gostaria desse título.

  • Não se faz omelete sem quebrar os ovos

    Para muitas pessoas, a aproximação do aniversário inaugura o inferno astral, tempo no qual tudo que poderia dar errado, dará. Não sei se acredito nisso, mas fato é que, semanas antes do glorioso dia, tem início, dentro de mim, um misto de desassossego e agonia para decidir: como, onde e quando vou comemorar? Quem vou convidar?

    Penso na roupa que vou vestir, na playlist que vai tocar. Faço, mentalmente, a lista de convidados, mas antes mesmo de resolver se será churrasco ou festa anos 70, começo a pesquisar preço de viagem, roteiros. Quando me dou conta, novamente, escolhi viajar. 

    Os amigos reclamam, eu me cobro, prometo fazer diferente no próximo ano, mas acabo não resistindo à tentação de me jogar no mundo. 

    Quem vê de fora pode pensar que não gosto de estar com os amigos; eu adoro de paixão. Podem achar que na infância não tive festinhas. Enganam-se. Uma das lembranças dessa época é a minha vó cortando quilos de batata para fazer maionese e servir com arroz, pernil e farofa na grande celebração do meu nascimento. Lembro de amar a fase dos preparativos e me divertir muito com o evento.  

    Também não tenho problema para revelar idade nem sou daquelas pessoas que considera o aniversário um dia qualquer.  Para mim, é uma data especialíssima. Me alegra ser lembrada, receber o carinho das pessoas. Só não me animo o suficiente para tocar o projeto festa. Contudo, admiro os festeiros, invejo a facilidade que eles têm de juntar diferentes grupos num mesmo lugar e dar conta de tornar divertido e harmônico.

    Eu não desisti da ideia de fazer um churrasco com pagode, um lanche com karaokê, uma festa flashback, só não será dessa vez. 

    Prometo me programar, e, daqui a três anos, fazer uma grande comemoração para inaugurar os 60 anos. 

    Ainda nem escolhi o tema da festa e já me bateu a vontade de pesquisar sobre aurora boreal. 

    Não tenho culpa, vamos combinar, aquele céu verde neon é sedutor demais…

    De todo jeito, envelhecer é poder assumir, sem muita firula, a pessoa que nos tornamos. E, pelo visto, essa versão atual de mim não curte muito fazer festa. E tudo bem!

    Por sorte, envelhecer também traz uma habilidade para descartar a culpa. Talvez por isso chamem de melhor idade.

  • Ou nada, ou tudo

    Costumo rezar sozinha.

    Não por falta de fé coletiva, mas por necessidade de compreender o sentido da prece: se é pedido, agradecimento ou louvor.

    Nas igrejas e templos , percebo a oração como um ato comunitário.

    Já em casa, no silêncio, ela se transforma em diálogo íntimo, sem medo nem pressa.

    Essa percepção nasceu dos meus intervalos de “nada a fazer”.

    Paradoxalmente, nesses vazios sempre encontrei invenção e força.

    A vida me exigiu muito cedo: de menina curiosa a mulher adulta, mãe de quatro filhos, de cuidada a cuidadora. 

    Entre tarefas e cansaços, descobri nos pensamentos e nas preces uma forma de preservar a sanidade.

    Hoje, quando paro para divagar, também observo o mundo:

    as preocupações das pessoas, a política que interfere em suas vidas, as esperanças ou frustrações, diante do futuro.

    Nesse cenário, a prece ganha nova importância.

    Não apenas individual, mas coletiva: por filhos, pela chuva, pelos desamparados, pelos que sofrem. 

    É um gesto que acalma a mente e fortalece o espírito.

    Não me envergonho de reconhecer o valor dessas pausas.

    Ao contrário: me aplaudo.

    Trago comigo amor-próprio, antídoto contra julgamentos.

    Manoel de Barros dizia que alguns aprendem a carregar “água em peneira”.

    De certo modo, também aprendi.

    Nos instantes que pareciam não servir para nada, encontrei a diferença entre rezar em coro e rezar em silêncio.

    Hoje sei: no meu nada, a oração se fez tudo.

  • O segredo do nervo vago

    Dentro de nós e dos cães corre um fio invisível chamado nervo vago. Ele não aparece em exames, mas é peça central do sistema nervoso autônomo. Atua como maestro da calma: regula os batimentos cardíacos, conduz a respiração, organiza a digestão e até equaliza o tom da voz. O fisiologista Stephen Porges, criador da Teoria Polivagal, chama esse nervo de “ponte biológica da segurança”, pois traduz nossos estados emocionais em respostas corporais.

    Nos cães, esse nervo também está presente, mas sua ativação acontece de forma natural. Basta observá-los deitados de lado, barriga entregue pra cima, respirando devagar: nesse instante, o corpo inteiro se ajusta em harmonia. Para eles, o descanso não é estratégia; é vida. Eis a razão pela qual têm o dom de não se prender ao passado nem ao futuro. Já nós, humanos, tendemos a desafinar: corremos mais do que o coração suporta, comemos sem mastigar, falamos alto demais e tomamos decisões precipitadas. Assim, os instintos se confundem e a ansiedade toma espaço. Como lembrava Epicuro, “quem não sabe viver com simplicidade, não sabe viver com serenidade”.

    O aprendizado silencioso

    Quando passamos a mão no peito de um cão, percebemos algo que a ciência confirma: o toque lento e constante estimula o nervo vago, reduzindo a frequência cardíaca e induzindo calma. É nesse instante que surge a pergunta inevitável: afinal, quem ensina quem? Eles, que vivem o óbvio, ou nós, que inventamos protocolos para reencontrar o caminho da tranquilidade? O filósofo Viktor Frankl recordava que o ser humano precisa de um “sentido” para suportar a vida. Talvez o cão nos lembre justamente disso: respirar com atenção, mastigar devagar, confiar no vínculo e viver o presente.

    No fim, o nervo vago não é apenas uma linha que liga órgãos e funções: é o elo entre corpo, mente e laço afetivo. Em nós, exige disciplina e consciência. Nos cães, acontece como respiração: sem esforço, sem cálculo. E é justamente nessa diferença que se oculta a lição – aquela que nos distancia deles. Os cães vivem o que, muitas vezes, para nós sequer faz sentido.

    Cada respiração lenta, cada mastigada devagar, cada toque silencioso é um convite para retornar ao essencial. O cão não nos pede teorias; pede ação, plenitude, compreensão. E talvez seja essa a maior prova de sabedoria: enquanto nós buscamos protocolos para reencontrar a paz, eles a oferecem de graça, no simples gesto de existir tal como são.

    Assim, quando dono e cão respiram juntos, não é apenas o corpo que se acalma; é a vida que se afina, como dois acordes vibrando em uníssono, lembrando ao mundo que a serenidade não se explica, apenas se pratica.

    A seguir, uma sugestão prática para ativar diariamente o seu nervo vago.

    🐾 Ativando o nervo vago junto do seu cão

    1. Respiração conjunta:
    ■ Sente-se ao lado do seu cão, em silêncio. Busque um ambiente sossegado.
    ■ Coloque a mão suavemente sobre o peito dele, sentindo o ritmo da respiração.
    ■ Inspire fundo pelo nariz e solte o ar devagar. Ele tende a espelhar seu ritmo.
    ■ Repita por 3 a 5 minutos.

    2. Toque calmante:
    ■ Apoie a mão aberta no peito ou na base da orelha do cão.
    ■ Faça movimentos lentos e circulares, sem falar.
    ■ Permaneça assim por 5 minutos. Observe sinais de relaxamento: bocejo, respiração lenta, olhos semicerrados.

    3. Mastigação consciente:
    ■ Ofereça um petisco pequeno e crocante. A mastigação estimula a deglutição, ativando o nervo vago.
    ■ Observe o ritmo dele e acompanhe com calma, sem distrações ou pressa.

    4. Voz serena:
    ■ Fale com ele em tom baixo, compassado.
    ■ Pode ser uma canção suave, uma oração curta ou apenas sons suaves.
    ■ Controle as suas emoções.
    ■ Mantenha esse exercício por 2 a 3 minutos.

    5. Caminhada atenta:
    ■ Faça um passeio com seu cão e deixo-o explorar, sem agitá-lo.
    ■ Evite o celular e concentre-se apenas nos movimentos dele.
    ■ Observe como ele fareja, para, respira. Acompanhe o ritmo dele, sem pressa.

    ✨ Repita esse ritual uma vez por dia, de preferência em um momento de calma (pela manhã ou à noite). Aos poucos, você perceberá que não é apenas o cão que relaxa: você também se harmoniza.

    Referências: *Porges, S. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-Regulation. **Epicuro. Carta a Meneceu. ***Frankl, V. (1946). Em busca de sentido.

  • Rua do Bispo

    Quando criança, costumava jogar futebol a 50m de casa, em um terreno baldio, no bairro do Paraíso. Ficava numa rua simpática e pouco movimentada que começava onde os bondes faziam um balão no início da Av. Paulista e terminava 5 quadras depois, próximo a um campo de futebol de várzea. Chamava-se Rua do Bispo. Não sei de onde surgiu esse pitoresco nome nem me importava saber, voltado que estava para questões mais importantes, como brincar e ser feliz.

    Moleques peraltas, não nos incomodávamos de jogar bola em campos improvisados sobre paralelepípedos desencontrados, nos tempos em que o leito irregular de uma rua era o bastante para que fosse transformada em arena futebolística. Os minguados automóveis passavam numa frequência risível para os padrões atuais, ao que conferíamos ao solitário usuário da via, reverenciosa deferência, interrompendo respeitosamente o jogo até o proprietário do veículo importado acabar de desfilar sua altivez motorizada.

    Todo o fim de semana reuníamo-nos ‘religiosamente’ na Rua do Bispo, para jogar uma nada pecaminosa ‘pelada’. Simpática rua. Lembra-me traquinices e bem aventuradas diabruras.

    Vivíamos no Paraíso, até revogarem a Rua do Bispo. Fosse ‘Rua Bispo Fulano de Tal’ ninguém mexeria no santo nome. Não era o caso daquele simplório epíteto, adquirido possivelmente em função de, em tempos imemoriais, ali haver residido um homem de Deus, quem sabe um indulgente benfeitor. Esse detalhe histórico foi naturalmente atropelado. Não fosse assim, o incógnito clérigo não teria sido importunado.

    O fato é que, à revelia da santa madre igreja, a rua do bispo (com minúscula mesmo já que o santo não era forte) passou a ostentar o pomposo nome de Rua Desembargador Eliseu Guilherme.

    As placas afixadas nos muros das casas, que outrora exibiam aquele prosaico letreiro de 5 caracteres, passaram a estampar a nova denominação, onde dezenas de letras se atracavam para não ficar de fora daquele nome que ninguém conseguia decorar. Os encontros futebolísticos, agendados para a rua do bispo, passaram a ser marcados ‘para a esquina’.

    Sendo, por natureza, um perseverante crédulo na boa índole da raça humana, faço força para acreditar que houvera sido o desembargador um homem honrado, de caráter ilibado, que desembargava com incansável precisão e justiça salomônica as demandas que tinha a incumbência de, por dever de ofício, apreciar.

    Pode parecer que esteja empenhado nesta insana cruzada para recuperar o título sagrado do pontífice anônimo, cometendo irreparável injustiça com o Dr. Guilherme. É possível que fosse alguém de bem, alheio às injunções espúrias que se fizeram em seu emplacado nome. A verdade é que lhe criei certa antipatia, talvez improcedente, pelo fato de ter usurpado o nome original daquela rua tão marcante de minha infância. O homem… nageado que, há décadas deixou o reino dos viventes, deve estar se remoendo no caixão por ser tratado de maneira tão vil e descortês por esse escriba fariseu mal informado. Preferiria talvez ter o desembargador esse assunto desembargado de polêmica.  O fato é que o seu nome ficou fincado na Rua do Bispo, como eu, insubordinadamente, continuo-a a chamar, indiferente aos olhares perplexos dos atuais moradores, desinformados das peculiaridades históricas daquele logradouro.

    O tempo passou, o leviatã urbano irrompeu, rendeu os paralelepípedos irregulares, os bondes, os campos de várzea e os prelados anônimos, o Paraíso virou inferno.

    Mas continuo a lembrar-me da Rua do Bispo com saudade…

  • Doce Maria

    Nada vem por acaso. Acredito no destino, fé e sorte. O que tem de ser será. Marcelo saiu com a mãe para passear. Foram ao restaurante do avô, para visitá-lo e brincar com os primos e amiguinhos que moram nas redondezas, no bairro Antônio Bezerra. Lá, entre brincadeiras, meu filho viu uma gatinha abandonada, que ronronava com ardor, pedindo carinho. Marcelo pegou a pequena e não queria mais soltar. Levou-a à mãe, para mostrar a novidade. A mãe de cara se apaixonou. Todos viam que a gatinha era meiga, carinhosa e precisava de um lar. Mayara logo me mandou mensagens pedindo para trazer a gatinha para a nossa casa. “Mas, Mayara, já temos dois adultos. Não dá certo. Não insista”. Marcelo mandou áudios, dizendo que queria muito e que seria seu presente de aniversário – falta um mês para o grande dia dos seus cinco aninhos. Pegou o pai de jeito. Encarreguei-me de falar com a avó. Também não queria. Mas aí eu já considerava o caso e servia de advogado do meu filho. Amo bichos, nossa casa poderia receber mais um bichano, sim. Expliquei à minha mãe, que mora conosco, e que também deveria aceitar ou não, que a pequena gatinha seria vacinada e banhada no dia seguinte. Minha mãe permaneceu reticente, impondo condições. A gata não poderia ficar circulando em casa, até aprender onde devia fazer cocô e xixi. A gata não poderia sair do perímetro do banheiro. A gata não poderia, ainda, se aliar aos outros gatos. “Meu filho, os gatos já estão estragando o sofá. Mais um gato será o fim”. E indicou mais algumas restrições, com as quais concordamos. Pronto, a matriarca aceitou. Ficamos animados, eu, o meu filho e a Mayara. A gatinha chegou em casa cansada, mas, desbravadora, queria conhecer a sua nova morada. Logo ele me disse que tinha colocado o nome de Dulce Maria, por influência de uma pessoa que estava lá e era fã do RBD. Eu acabei gostando do nome, porque representa Doce Maria. Constatei que realmente ela era muito carinhosa, doce, uma menina que viria para somar. Marcelo, enfim, com o seu amor, nos convenceu de que deveríamos ter mais um membro na família. No sábado de manhã cedo levamos à veterinária, fizemos exames e demos vacinas. Resultou tudo certo. A gatinha era saudável, mas estava magrinha por conta da vida mundana. A médica avisou que ela poderia ficar molinha esse dia. Passou suplementação alimentar, para ganhar logo peso. Disse que ela teria de três a quatro meses e que o peso de um quilo e seiscentos gramas estava muito abaixo da média. Foi um dia puxado para a gatinha, então passou o resto da tarde dormindo – mas feliz e esperta em alguns episódios. E, hoje, um dia depois, nos admiramos e nos encantamos com a bela surpresa que a vida nos proporcionou.

  • O que a última Virada Cultural diz sobre nós

    Fui ver uns shows na Virada Cultural de BH, onde moro, no sábado e no domingo, dias 23 e 24. No sábado, assisti ao show das meninas do Fat Family, homenageando Tim Maia. No domingo, voltei para ver o Olodum e, logo em seguida, Carlinhos Brown, numa apresentação afinadíssima com a Orquestra de Ouro Preto. Os shows foram uma delícia: todos fazendo a gente sacudir o esqueleto, tirar o pé do chão, dançar. Desta vez, não quis virar a noite. Fui para casa dormir e voltei no domingo. Notei que BH mudou muito, eu mudei também — e o mundo, mais ainda.

    Se em outras viradas eu ficava até seis horas da manhã e acabava comendo uma broa de fubá com um pingado na lanchonete, desta vez voltei cedo e dormi o sono dos justos. No caminho de casa, fiquei pensando no que esta Virada Cultural de 2025 diz sobre a gente.

    A primeira coisa que me veio foi uma saudade de quando a gente ainda se comia com os olhos. Olhei ao meu redor e percebi: ninguém mais se comia com os olhos, ninguém se paquerava, ninguém chamava para dançar, pedia telefone, beijo na boca, sarro. O Brown tocava “Já sei namorar”“Amor I love You”. O Olodum embalava com “Avisa lᔓOlodum pra balançar”. O Fat Family fazia a festa com “Um dia de domingo”, “Azul do mar”. Tudo para uma plateia que não sentia tesão, não queria amar, não se olhava, não flertava. Ali, as canções de amor não faziam sentido: pareciam cantadas em grego. De vez em quando, no meio de uma música suave, um grupo de dois ou três berrava desafinado: “Sem anistia! Sem anistia!”

    Por um momento, no show de sábado, enquanto as meninas cantavam, lembrei de um show do Tom Zé que vi há alguns anos, na Guaicurus. Depois da apresentação, ofereci uma cerveja a um homem que estava com dois rapazes. Acabamos nós três bebendo Brahma, ouvindo blues e conversando na Rua Carijós. Hoje, cada papo que a gente puxa é monossilábico. O outro responde olhando para o chão, para o celular, já perdendo a paciência.

    Percebi que a política está fritando os nossos miolos. Sofremos tanto com a pandemia, com os desgovernos de Bolsonaro a Temer, penamos de um jeito que já não conseguimos mais dançar uma música tranquilos, namorar ou fazer um amigo novo.

    A multidão grita “Sem anistia”, mas logo depois joga no chão o papel do cachorro-quente, o pratinho do tropeiro, a lata de Xeque-Mate e o copo de água mineral, emporcalhando a cidade e transformando as ruas num lixão a céu aberto.

    Comemoro, como todo mundo, os avanços: a literatura feminina bombando, uma multidão lutando contra o machismo, o racismo estrutural, o fim do bolsonarismo. Mas vejo, infelizmente, que tiramos os olhos do amor. Estamos adoecendo.

    Belo Horizonte virou uma cidade triste, cheia de gente séria demais, deprimida, revoltada e irritadiça. Por isso, não deu vontade de virar a noite — não colou. Deu saudade de outra BH, de outros tempos, quando a gente sabia rir.

    O que me confortou foi, sem dúvida, a música de Carlinhos Brown, Fat Family e Olodum. Enquanto chacoalhava o esqueleto, torcia para ter minha cidade de volta, para ver o sorriso de novo no rosto das pessoas.

  • Poema #08: Contrato

    A palavra dada tem valor
    insuscetível de medir.
    Pode-se apenas estimar o peso
    na palma da mão estendida.

    O corpo intui o preço
    que o verbo não soube exprimir.
    Em troca, a renúncia ao troco
    abrevia o lapso do som ao silêncio.

    No mercado das promessas,
    a confiança é soberana.
    Mas às vezes, submissa,
    flerta com o charme do blefe.

  • Pi-ta-da

    Pitada – palavrinha gostosa de pronunciar e quase sempre de provar. No gosto, desgosto, e até no desacerto. Tudo começou, pelo que sei, com a pitada de rapé (râper, do francês), tabaco em pó usado para cheirar e, segundo uma citação encontrada na obra clássica de João Manuel de Macedo — A Moreninha, avivar o cérebro.

    Do rapé para o uso na culinária foi uma pitada. Seu uso mais comum passou a ser uma medida do sal, recomendada nas receitas, para o desespero de quem não tem prática na cozinha. Aí a pessoa recorre àquele que é o melhor amigo dos desinformados, e lê a definição: “o que se pode segurar entre as pontas de dois dedos”. Dois dedos grandes, de um homem ou de uma mulher de dedos delgados? Dedos apertados um ao outro ou com espaço entre eles? E aí a pobre iniciante é reprovada na mesa.

    Tentar dimensionar corretamente a pitada é quase pior do que descobrir quando um bolo ou um suflê está no “ponto”, outro conceito culinário totalmente abstrato e que depende da perícia do cozinheiro.

    Voltando à pitada, alguns manuais vieram em socorro dos incapazes mestres-cucas, tentando dar uma medida menos especulativa para esse termo. Surgiu, então, um padrão que, a princípio, resolveria o problema: uma pitada equivale a 1/8 de uma colher de chá. Aliviados, os principiantes na cozinha lá se foram tentar dividir o conteúdo de uma colher de chá em oito partes – missão impossível, com potencial de levar alguns ao autoflagelo usando a própria colher, no caso de não haver uma faca por perto.

    Foi assim, creio eu, que começou um movimento de aproveitamento desse termo tão gracioso para outros fins mais poéticos, menos estressantes. A pitada passou a povoar os textos em prosa e verso, em diferentes porções: uma pitada de sorte, de poesia, de magia e, por que não, uma pitada de liberdade.

    Redimida, a pitada ganhou outro status e a licença de não se atear a nenhuma medida. Pitada é o que cabe na imaginação de cada um, é “a gosto” de quem se apropria dessa dimensão subjetiva para fazer valer a sua vontade, seu desejo, suas esperanças – inclusive de que aquele prato especial do domingo fique saboroso.

  • Malta

    Malta é um arquipélago no Mediterrâneo habitado desde cerca de 5200 AC e que foi invadido pelos mais variados povos. Os últimos a passarem por lá foram os britânicos cuja influência vai desde a língua inglesa, que divide espaço com o maltês, até a mão de trânsito pela esquerda. Tornou-se um país independente em 1964 e agora faz parte da União Europeia.

    As principais ilhas são Malta e Gozo, a primeira muito mais turística do que a segunda, mas ambas com sítios arqueológicos importantes. Quem se interessar pelo tema não deve perder as ruínas do templo de Hagar Quim datadas entre 3200-2500 AC. As construções desde os templos pré-históricos até hoje usam predominantemente a pedra calcária, a única encontrada na região. O pequeno e bem estruturado museu, The Limestone Heritage, ilustra a extração e o uso dessa pedra.

    Os malteses afirmam que por sua posição estratégica Malta foi o local mais bombardeado da segunda guerra mundial: localizada perto da Sicília e do norte da África era uma base valiosa para os britânicos e seus aliados. A reconstrução respeitou a arquitetura original e agregou elementos modernos de forma elegante. Pequenos balcões fechados e coloridos enfeitam as fachadas das casas dando às ruas um ar bastante peculiar. Valeta, a capital, é vibrante e muito bonita. Próximas ficam Vittoriosa, Cospícua e Senglea, conhecidas como as três cidades, igualmente interessantes. A costa é toda recortada e compõe cenários marítimos deslumbrantes. Há muitas marinas e passeios de barco disponíveis, uns que mostram vistas da cidade e outros que levam a grutas de águas azuis. No interior também é imperdível visitar Mdina, linda cidade com muralhas e palácios do século XV, Rabat onde existem catacumbas e Mosta com sua Rotunda que tem o terceiro maior vão livre do mundo. A história de Malta é fascinante.

    Em Valeta fica a sede dos Cavaleiros da Ordem de Malta, ou Cavaleiros de São João Batista, uma ordem religiosa fundada no Século XI como ordem hospitalar para acolher os feridos das cruzadas e que mais tarde se transformou em ordem militar; atualmente é uma organização humanitária. Restou uma grande Enfermaria que hoje é usada para fins culturais e vale a pena conhecer. Visita obrigatória é a Co-Catedral de São João Batista, em homenagem ao patrono da ordem, onde há obras de Caravaggio, um pintor excepcional e um encrenqueiro idem que se refugiou em Malta para escapar dos inimigos. Associada à ordem está também a famosa Cruz de Malta de oito pontas.

    Como destino turístico Malta, com menos de quinhentos mil habitantes, foi uma grata surpresa. Ponham na lista.

  • O crítico perfeito

    Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos.

    Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário.

    São chaves que não abrem porta alguma, mas pendulam na possibilidade. Está introduzido o conceito curatorial de luz, memória e tempo.

    São todos os fusos horários em um coro uníssono que nos convida a passar o tempo com quem mais importa: nós mesmos.

    São palavras-abismo, tic-tac fragilizado pelas letras que os retiram das horas e os tornam instalação de arte.

    Na última sala, são as sombras do público — tal corpo heterogêneo e encantado de convidados, artistas e meros transeuntes — transformadas em projeções de luz que revela a história da cidade. É o fazer arte, o abrir dos múltiplos sentidos que fazem algo conceitual existir. Corpos parados, movimento. A estática não existia, e existia: tudo é repouso, sob tensão.

    Enquanto as duas salas centrais introduziam ao mundo, por primeira vez, a versão corpórea do ser que vos fala aos domingos — eu —, em seu corpo dúbio de ser artista e um cpf trivial, abriam-se também, nas telas-smart da fachada principal, janelas outrora fechadas. Elas vazavam a exposição para o presente: o tempo movimental da cidade.

    Câmeras escondidas, como parte da própria resistência artística, desafiavam os limites do espaço físico do centro cultural, deixando escorrer, discretamente, imagens para fora da arquitetura. Palavras em suspensão reagiam aos recortes de acrílicos que desafiavam as leis da gravidade, transfigurando-se em inéditos poemas, de visualização, por vezes, única. As perspectivas beiravam uma infinutude de hipóteses.

    De todas as hipóteses, havia um ser peculiar naquele entardecer. E não se trata dos alguns de quatro patas que zanzaram com seus tutores e não assinaram o livro de presença, mas vieram. Zeca, o meu Zeca, foi um deles. Mas esse, não. Não caminhava ereto como os outros, tampouco observava com a pressa dos sabidos. Preferia o chão. A frieza do piso de pedra, a polidez que refletia o que estava em cima, embaixo. Ali, deitado, encarava o mundo com a solenidade de quem conhece o segredo das coisas que balançam. Em suas mãos, um saco industrializado, aberto e barulhento. O mastigar como forma de não perder o presente.

    Algumas pessoas passavam e notavam. Outras, focadas em suas reflexões artísticas, nada viam além das obras. Havia aqueles que apenas se preocupavam com o enquadramento da selfies perfeita e tropeçavam na existência miúda sem perceber que ali — ao rés do piso encerado — havia filosofia em estado bruto.

    As placas, suspensas por fios de nylon invisíveis, dançavam como se tocadas por uma orquestra de suspiros. Um sopro aqui, um braço ali, e pronto: uma dança ao sabor do inesperado. Eram acrílicos coloridos, mas, vistos de lado, tornavam-se lâminas de tempo, quase perigosas em sua beleza oblíqua.

    Ele — ou seria ela? — permanecia absorto, talvez tentando compreender por que o que aprendera como vermelho parecia tão roxo por baixo, ou por que o verde fazia sombra de ouro. Sons guturais saiam de sua garganta. Palavras disformes como a produção de sentido. Eis que soltou uma risada.

    Não daquelas educadas, mas uma gargalhadinha breve e torta, como quem foi pego de surpresa por uma pequena embriaguez. Silêncio em toda a exposição luminosa.

    Era água com gás.
    Bebida dos deuses, claro — mas só para aqueles que ainda não sabem que deuses existem.

    Em literatura pode-se descrever assim: um espírito antigo num corpo novo. Ou ainda: uma criança-pedra, meio estátua meio relâmpago, comendo batatas como quem consagra o instante; fantasma da manhã seguinte, vinda para lembrar que tudo o que é belo balança — e passa.

    Eu, Bia Mies, apenas observava. No entre, espacial, temporal, emocional e luminoso da minha primeira inauguração artística. Só fui entender tudo quando ouvi minha outrora assistente dizer, com um suspiro de vencida:

    — Athena… Athena. Vamos. Está na hora de dormir.

    Eis o mistério desfeito: o ser filosófico, bêbado de água com gás, era apenas uma criança de quase dois anos, que comera torradinhas demais e decidira deitar-se no chão da exposição para apreciar o tempo à sua maneira. O crítico perfeito.

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