O dia prometia ser quente e úmido — combinação ideal para cabelos rebelados e para quem trabalha imóvel ao ar livre. Depois de entregar o filho à vizinha que o levaria à creche, voltou ao seu reino: um quarto-cozinha-banheiro, tudo no mesmo perímetro afetivo.
Abriu o velho armário que rangia como se quisesse dar opinião. De lá tirou seu uniforme de batalha: camisa preta com gravata borboleta, colete branco, calças bufantes que herdara de algum século passado, meias brancas e sapatos pretos tão lustrados que poderiam servir de espelho, se não fosse ele já ter um.
No espelho, iniciou o ritual. Espalhou a base branca, delineou os olhos caídos — reflexo do estado civil com o sono — e arqueou as sobrancelhas como quem diz “não fui eu”. Demarcou o sorriso e, por fim, a lágrima no canto esquerdo, que sempre julgou exagerada, mas o público adorava um dramalhão. Vestiu as luvas, ajeitou a boina e testou o sorriso congelado. Parecia irreconhecível. E ligeiramente ridículo. Perfeito.
Desceu pela ladeira até o parque municipal, seu escritório a céu aberto. Ali ficava por horas, imóvel, trocando de pose apenas para evitar virar uma estátua de sal. Ganhar dinheiro era quase um milagre; mas, com sorte, rendia legumes, arroz e, quando a semana era boa, até um iogurte para o filho.
O público passava, ria, deixava moedas. Ele reconhecia cada reação: o adulto curioso, a criança encantada, o adolescente que tentava fazê-lo piscar. Em suas poses — a mão ao céu, a cara de susto, o herói carregando o mundo — havia mais ciática que simbolismo, mas ninguém precisava saber disso.
Estava justamente no papel de Atlas contemporâneo quando ouviu uma voz conhecida. Congelou ainda mais do que a profissão exigia. Um grupo de crianças da creche vinha em direção a ele. No meio delas, seu filho.
Ótimo. Justo hoje que o suor ameaçava soltar a maquiagem e revelar que o palhaço, na verdade, precisava urgentemente de um ventilador e não de aplausos.
As crianças o cercaram, rindo e rodopiando, como se ele fosse um planetário com pernas. O pânico subia como a maré. Se a base branca derretesse, fim do mistério.
Seu filho parou bem diante dele, apertando os olhos como quem tenta decifrar um código secreto.
— Professora… por que o palhaço está chorando?
Ele prendeu a respiração.
— Sabe, meu pai tem um trabalho sério — mas lá em casa ele gosta de fazer palhaçada pra mim.
A gente ri um montão. Mas ele nunca chora…
E ali ficou o palhaço: imóvel, suando, com a lágrima oficial pintada e outra teimando em escorrer, tentando decidir qual delas era a mais difícil de explicar.
Uma mão vasculha alguma coisa que se possa comer no meio do papel, do plástico…
Outra mão manuseia as teclas de um computador em um lugar distante e escreve este texto…
Alguns olhos procuram nas calçadas e nas caçambas de lixo um alimento qualquer…
Em uma esquina de uma grande cidade, outros olhos observam o espetáculo de luzes e imagens nos telões expostos na avenida.
Como podemos viver, ao mesmo tempo, tantos avanços tecnológicos e ainda presenciarmos a fome?
Carros elétricos, robôs, cirurgias a distância, redes sociais, mas há gente passando fome.
O ser humano já foi à lua (mesmo que haja gente que não acredite), mas não resolvemos a fome do outro.
O ser humano faz foguetes, pontes, edifícios gigantescos… Perfura o fundo dos oceanos em busca de petróleo, cria satélites e uma estação espacial, mas a fome, a fome de doer a barriga e tirar a dignidade, nunca é resolvida!
É sintomático perceber que a ganância e a perversidade vão construindo o painel do paradoxo: luxo e lixo, vida e morte, paz e guerra… Indissociáveis? Maquiavelicamente indissociáveis…
A fome desfigura as pessoas, tornando-as objetos das cidades. Estes seres, carregados de esquecimento, tristeza e fuligem, transitam pelas ruas atônitos, perdidos dentro da própria fome…
E sente fome a criança que equilibra bolas em um sinal.
E sente fome a mãe que não tem trabalho, mas precisa alimentar desesperadamente o seu filho.
E sentem fome centenas de milhares de homens sem nome, uma legião de espantalhos vivos espalhados pelo mundo…
Fazemos planos mirabolantes, erguemos cidades inteiras no meio do deserto, desenvolvemos mais e mais ferramentas para facilitar as demandas do dia a dia, mas a fome, bruta, pesada, palpável… a fome, continua…
Ao redor do globo, toneladas e toneladas de comida são jogadas fora.
A fome, implacável, escancara um mundo difuso e contraditório.
As redes sociais dominaram, não há como negar. Se aconteceu, está na rede. Se não estiver, deve ser irrelevante, e nem interessará a ninguém.
Em tempos não tão longínquos, eram as redes de televisão e, antes ainda, os jornais e revistas.
Os expoentes da comunicação tornavam-se celebridades, a quem conhecíamos pelos nomes.
Redatores, colunistas, apresentadores e repórteres passavam a ser nossos “amigos”.
Ah, e o que dizer dos publicitários?
Esses eram mais do que celebridades, praticamente encarnavam o sucesso! Eram os responsáveis, tanto pelo nível de audiência das redes de comunicação, quanto pela aprovação dos mandatários da nação.
E estas eram expressas nas famosas pesquisas de opinião dos grandes institutos, cujos resultados fariam o “cliente” cair em desgraça, ou ganhar ascensão!
Eles se tornavam os gurus, seus nomes e credibilidades eram amplamente reconhecidos, pois cuidavam da imagem que chegaria ao povo.
Os tempos mudaram. E como!
Hoje, nossa vida precisa ser vista, comentada, invejada, copiada, seguida.
E, quanto mais seguidores tivermos, mais e mais conteúdo devemos produzir.
Falando nisso, adivinhem onde vi a notícia de que foi sancionada a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e o aumento da taxação para altas rendas?
Por surpreendente que pareça: em um Reels da rede social do governo federal!
Ah, jovens, vejam o quanto vocês mudam o que quiserem! “Reels, storys, flopar” e expressões do tipo, já fazem parte da linguagem institucional!
Vamos esclarecer esse negócio de musa inspiradora. Para início de conversa na tradição clássica ocidental eram nove as musas, todas filhas de Mnemósine, divindade grega da Memória, com o todo poderoso Zeus. Elas eram Calíope, Clio, Érato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Terpsícore, Talia e Urânia.
Cada uma inspirava a arte nos homens e nas mulheres, sempre de alguma maneira direta ou indireta como é próprio nas relações do divino com nós mortais. Por conta de suas qualidades é impossível dizer que quem escreve se inspira em uma musa só.
Calíope era a musa da eloquência e de certa forma está presente em tudo que se escreve ou fala. As vezes se confunde com verborragia mas para essa não há divindade determinada. Ao menos não para os gregos. Calíope é uma das musas inspiradoras mais presentes na minha vida, admito, porque já escutei e li que sei usar bem as palavras, com desenvoltura e quando há motivo mais ainda. Isso dito inclusive por você.
Culpada, meu escriba! Mas siga.
Vamos lá, quando alguém ou alguma coisa é citada, pode se atribuir a inspiração a Clio. Ela era a musa da História, a que conferia fama às pessoas. A fama aqui está subentendida como algo bacana, a despeito de atualmente se relativizar a idéia lembrando que existe boa e má fama. Mas no tempo da Grécia clássica fama era coisa boa. Daí ter sua musa.
Para aqueles momentos mais leves e mais amorosos ninguém escapa da influência das musas Érato, inspiradora da poesia lírica; e Polímnia, da poesia amorosa. São elas, as vezes em separado as vezes juntas quem fazem os escribas escolherem aquelas palavras mais adocicadas e que eventualmente tem poder de envolver e encantar quem as lê.
A da música é Euterpe e ela é para poucos haja visto a quantidade de gente desafinada que agride as mais belas canções já compostas. Fora os que acham que são inspirados por ela e insistem em escrever e musicar uns pseudo-versinhos para lá de sem vergonhas. Daqueles que só a claque aplaude, sabe?
Na sequência vem Terpsícore, musa da dança. Mesmo no ofício de juntar letras para formar palavras ela traz inspiração pois nada mais gracioso que um texto que se move aos nossos olhos.
Há a dupla de musas que parecem se opor: Melpômene, a tragédia; e Talia, a comédia. Essas duas usualmente não estão presentes ao mesmo tempo para inspirar. Mas há exceções. As vezes elas se conjugam com outras, como Érato ou Polímnia, o que traz bastante sabor ao que se escreve e explica o amor trágico ou a comédia romântica. Tudo obra da conjunção delas.
Por fim a última e para mim ainda inexplicável musa é Urânia.
Por que inexplicável?
Porque ela é musa da astronomia e da astrologia.
Sério?
Sim enquanto astronomia é ciência astrologia está mais para…
Não fala, sei sua opinião a respeito da astrologia.
Tá bom.
Devo entender depois de sua vasta explanação que é por isso que não sou sua única musa?
Mais ou menos.
Mais ou menos?
Sim, porque isso de ser musa não é assim algo tão exato.
Então me explica mas por favor vê se me enrola pouco.
Olha, eventualmente você é a única musa. Por outras vezes a inspiração é diversa, vem de várias musas ao mesmo tempo que se apresentam a me inspirar e o que escrevo é resultado dessas múltiplas influências. Mas há também aquelas situações em que uma única musa se mostra para mim com diversas formas. Isso é mais comum do que parece dado o caráter multifacetado dessas musas.
Pode ser mais claro com esse negócio de “caráter multifacetado dessas musas”?
Claro. Eu quero dizer que por vezes a mesma pessoa pode me apresentar a inspiração de mais de uma musa. Como se combinasse …
Calíope e Polímnia?
Sim, como se combinasse a inspiração essas duas musas. Daí ser a musa multifacetada.
Uma dessas pessoas seria euzinha aqui?
Sim, você.
Mas tem outras na sua vida.
Ao redor de mim você quer dizer. Sim é natural porque a convivência permite beber em fontes variadas.
Você bebe muito?
Com moderação, você sabe.
Hum, sei. E como é viver sob a influência de tantas musas?
Tem dias que vai bem, em especial quando estão calmas. Mas tem outros em que elas estão encapetadas.
Ah é, tem isso de musa endiabrada?
Tem sim, aí é um Deus nos acuda delas querendo inspirar a todo custo, eventualmente até impondo sua inspiração sobre as demais. É uma luta.
E como você resolve?
Respiro fundo e deixo fluir. Naturalmente a que estiver mais presente, mais conectada com o que penso e sinto no momento leva a melhor sobre as demais.
E quem costuma levar a melhor mais vezes? As musas de face única ou as multifacetadas?
É fácil, basta ver o que eu escrevo.
Nem sempre, porque as vezes suas palavras simples escondem emoções herméticas.
Mas para senti-las e entende-las não é difícil.
Ah não? O que é preciso, meu querido escriba?
A receita vem de longe, de um escriba anos-luz maior do que eu.
De pé na frente do último cinema de rua da cidade, Seu Alírio leu mais uma vez, com vagar, o cartaz que anunciava a demolição daquele edifício. Do seu edifício, hoje mais decadente que ele próprio e tão velho quanto. Aquele lugar tinha sido sua casa por quase oitenta anos e não podia permitir que viesse abaixo sem se despedir. Triste, respirou fundo e entrou.
Percorreu os corredores escuros já conhecidos de memória, abriu a cortina que dava acesso à sala de projeção e avançou. O ruído estrondoso dos aplausos fez com que encolhesse os ombros, tão pesado era. Olhou em volta e reconheceu os amigos com quem convivera ao longo dos anos. Todos estavam ali por ele, e sorriam, e Seu Alírio lhes devolveu o sorriso, comovido. Não faltou ninguém: os elegantes Rhett Butler e Scarlet O’Hara o cumprimentaram com um aceno de cabeça; Don Corleone, sempre fiel a seus amigos, fez-lhe um gesto gentil com a mão; Norman Bates e sua adorada mãezinha apenas o olharam com discreta admiração; Gilda, a mais bela de todas, tirou as luvas antes de mandar-lhe um beijo com os dedos; o senhor Charles Foster Kane deu-lhe uma piscadela e apontou para Rosebud, encostado num canto da parede, como se dissesse: “Viu só o que eu quis dizer?”; Ilsa Lund, vestida como se fosse viajar de avião pra muito longe, sussurrou: “You must remember this, a kiss is still a kiss…”; a senhorita Mary Poppins veio até ele levitando sobre as poltronas e o conduziu a seu lugar de honra, no centro da sala. As luzes se apagaram, a grande tela se iluminou e Don Lockwood apareceu dançando e cantando debaixo do maior toró que já houve naquela cidade.
Horas depois, quando as lembranças já não cabiam em sua memória e a saudade iria a qualquer momento fazer seu coração explodir, Seu Alírio deixou a sala, percorreu de volta os corredores escuros e ganhou a rua. Foi devagar para casa, arrastando o peso quase centenário de seu corpo. Ia cruzar a avenida quando um homem baixinho, vestindo um terno preto muito sujo e amarrotado, lhe ofereceu uma flor. Não disse nada. Apenas sorriu, coçou o bigodinho, virou as costas e saiu com seu andar desajeitado, fazendo piruetas no ar com a bengala. Seu Alírio aproximou a flor do nariz e aspirou. Fechou os olhos e compreendeu que a vida pode ser, sim, como no cinema: basta que se acredite nisso. E ele acreditava. Entrou em casa assoviando baixinho a canção Smile.
Pois é: eu ali, de carona com um amigo que não via fazia um tempo, recém-chegado da Europa, que me chamou para um chope — e eu aceitei. Só que, infelizmente, não sei se tinha tomado iogurte vencido, ou algo parecido, mas a playlist do meu amigo estava horrível.
No caminho, “Beija Eu”, da Marisa Monte; depois, “Já Sei Namorar”, dos Tribalistas. Até que, de uma hora para outra, me toca Ivo Pessoa, com “Quando Eu Te Vi”.
— Linda, né? — É…!
Ouvir Ivo Pessoa, para ser mais generoso, é como ouvir a vizinha do apartamento de cima andar de um lado para o outro, de salto alto. Pior que barulho de furadeira, pernilongo em noite de calor ou a empregada da vizinha cantando louvor.
— Falta muito para esta música acabar? — Três minutos. — O quê? Não tem como tirar? — Não.
E começou, ali mesmo, a cantarolar, numa espécie de karaokê involuntário. Uma música que fala de anjos, outras vidas, aves, aquele romantismo boboca de adolescente apaixonado, espinhento, virgem.
Prefiro mil vezes A Hora do Brasil ou as músicas do Padre Marcelo.
— Nossa. Mas que trânsito, hein!? — Pois é. — Falta muito pra chegar?
A todo momento eu perguntava: “Tá chegando?”. Tem gente que luta para sobreviver a um amigo com TOC; outros pelejam com um amigo de tique nervoso; alguns tentam tolerar o boca-livre, o que pede dinheiro emprestado, o que assalta a geladeira, o pessimista, o ruim de bola. Mas um que realmente merece o Nobel da Paz é aquele que sobrevive — resignado e mudo — à playlist pavorosa do amigo.
— Mas você não gostou mesmo, não é? — Meus ouvidos já viveram tempos melhores.
Ivo Pessoa é aquela música besta que mistura vibe de novela das seis, barulho de obra e o som de um caco de vidro arranhando o capô do carro.
Minha alma queria descer, pegar carona em outro carro, com outras pessoas, outra playlist.
Quando finalmente desci, falei pra ele:
— Da próxima vez coloca outra coisa. Até barulho de obra.
Meu amigo riu. Eu não.
Fomos tomar um chope que, numa hora dessas, é só o que se pode fazer.
“Sou a favor da pena de vida, se o sujeito cagou, pisou na bola, tem que resolver aqui, não pode sair fora” (Pedro Luís e a Parede)
É assustadora a frequência com que ocorrem nos EUA massacres perpetrados por armas de fogo em escolas, que deveriam ser ambientes seguros de sociabilidade e aprendizado. Famílias são destroçadas, crianças com uma vida pela frente são executadas friamente por razões fúteis.
As motivações para tais atos bárbaros podem ser racismo, ódio, terrorismo, paranoia… Mas há um fator que perpassa esses trágicos eventos: a facilidade com que os americanos têm acesso a armas de fogo.
É uma chaga americana que explica por que o país mais rico do planeta, o único onde o número de armas supera o de habitantes, continua sendo o mais violento e um dos que têm os maiores índices de criminalidade, campeão nas taxas de homicídios, suicídios e acidentes fatais provocados por artefatos bélicos.
O que impressiona é que nada parece indicar que isso vá mudar. A indignação após a consumação desses atos de selvageria não é suficiente para provocar mudança e, passada a comoção, o assunto cai no esquecimento.
A solução que se propõe para as carnificinas é armar professores e funcionários das escolas. Poderiam também, quem sabe, permitir que as crianças andassem com pistolas nas mochilas para aumentar sua proteção. O problema causado pela liberação das armas seria resolvido armando mais gente. Cômico se não fosse trágico.
Mas há também um componente ancestral que dificulta a modificação dessa fixação doentia, enraizada na cultura ianque, herdada dos tempos do faroeste, que faz com que ser contra armas represente perda de votos.
Um exemplo pode ser verificado nos filmes de ação que inundam cinemas e lares. Havendo um vilão malvado, o enredo sempre se livra desse personagem incômodo fazendo com que tome um tiro letal que o tire definitivamente de cena. São raros os casos onde a sorte do malfeitor é determinada por um julgamento onde fique comprovada sua culpa e definido seu encarceramento. Seu destino não é resolvido nos tribunais mas por uma pistola justiceira. A mensagem é que, como a justiça não funciona, a solução é que lhe seja metido um balaço. A ‘sentença’ de pena de morte é definida e aplicada pelos ‘mocinhos’, à revelia dos trâmites processuais.
Através da eliminação física do malfeitor, supõe-se que suas culpas foram expiadas. O espectador pode dormir o sono dos justiçados pois o meliante não voltará a ameaçar a pobre vítima nem abalar sua certeza de que a justiça foi aplicada e o delinquente teve o fim que merecia. Morto, não corre o risco de escapar das grades e voltar às ruas para vingar-se.
É como se os cidadãos da autoproclamada maior democracia do mundo confiassem menos em suas próprias leis do que no poder mortífero de um atirador, detentor do direito divino de fazer justiça com as próprias mãos.
Resta a pergunta: com a morte os crimes foram de fato redimidos? Minha opinião é um enfático NÃO! Uma vez que um preciso projétil arrancou-lhe a vida numa fração de segundo, sem que ele vivenciasse qualquer sofrimento, ele não teve oportunidade de ponderar sobre suas ações maléficas ou arrepender-se, pagando efetivamente por seus pecados através da perda da liberdade e da triste sina de ter parte de sua vida enclausurado no inferno de um cárcere. A verdadeira justiça só seria aplicada se o criminoso, ao invés de ter sua carcaça inerte levada a um cemitério, fosse conduzido em vida para a cadeia, amargando anos de tormenta por seus crimes atrás das grades de uma soturna cela, tendo oportunidade de avaliar se seus atos insanos valeram a pena.
Àqueles que argumentam que penitenciária não regenera ninguém, que pensem no aprimoramento do código penal de maneira que a prisão cumpra seu requisito não apenas de recuperar o criminoso para a sociedade como fazê-lo efetivamente pagar pelo crime. Não na outra vida, mas aqui mesmo. É isso que a sociedade espera do sistema jurídico.
Não é essa a lição que Hollywood passa. Perpetua a visão de que é somente através das armas que resolveremos o problema da injustiça e da criminalidade. Com isso fortalece um sentimento de incredulidade nas instituições em promover a segurança do cidadão.
O direito ‘sagrado’ de ter uma arma é considerado tão básico que consta expressamente da Constituição americana, associado a um sentimento de liberdade, proteção do patrimônio e segurança individual. Triste é constatar que se traga para cá essa deficiência dos nossos irmãos do Norte.
Num país onde questões mais graves como a fome, a miséria e a desigualdade social imperam, importar o bangue-bangue da cultura americana é uma boa maneira de lançar uma cortina de fumaça sobre as verdadeiras mazelas do nosso país.
Ao invés de investir num futuro melhor para nossos jovens, estamos, com essa obtusa política armamentista, cultivando a morte e a violência, transformando ruas e parques, não em espaços comunitários de convivência, mas em arenas de combate, onde o outro é visto como ameaça em potencial.
Graças a Deus, sou forte. Sou guerreira. Sou abençoada.
E por isso, os retalhos das minhas memórias não pesam. Não me ferem. Não me entristecem. Sou apenas espectadora deles.
É bom quando se olha para uma casa velha, caindo aos pedaços, e o que vem à mente não é a ruína, mas o gramado verde na frente, as cadeiras onde eu me sentava para observar as meninas brincando, os cachorros correndo soltos, o picolezeiro passando com sua buzina, e as tardes que se esvaíam lentamente…
Revejo meu cotidiano simples e humilde com muitas cores.
Os olhos azuis, cor do céu, do meu bebê.
O vestido vermelho de bolinhas brancas da mais velha.
Os cabelos cacheados e dourados da filha do meio.
O verde da grama.
O bege do pelo do cachorro.
Quantas lembranças!
Em quarenta e oito horas, revive-se meia vida.
Foi assim o meu passeio neste feriado de Finados.
Mas não foi só isso.
Vi também a pequenez dos grandes túmulos de mármore. A vaidade inútil das letras douradas. A ostentação póstuma com que os vivos tentam driblar o esquecimento. E pensei: debaixo de sete palmos de terra, todos somos iguais: não importa a lápide que se erga sobre a cova.
E, por fim, uma última constatação: como o tempo transforma nossas medidas!
O coreto da praça de Jardim é lindo… mas tão menor do que me recordava!
Por tudo se paga um preço nessa vida. Inclusive, pelo saber. Minha vó costumava afirmar: “a ignorância é uma benção.” Certamente, esse era seu jeito de dizer que certas verdades são difíceis de digerir. Na época, eu ouvia suas frases enigmáticas, mas o sentido íntimo desses ditos não me tocava a pele. Hoje, voltam à mente vestidos de significado. Cada vez mais, percebo que saber é temer. Listo a seguir as descobertas divulgadas na internet, nessa última semana, que balizam minha afirmação: o consumo diário de refrigerante dietético aumenta o risco de demência e acidente vascular cerebral; o presunto e a salsicha (que eu amo) são tão cancerígenos quanto o cigarro (que já abandonei); não existe nível seguro para o consumo de álcool; as noites insones, seja pelos efeitos da menopausa, noitada, maratona de filmes ou por qualquer outro motivo, são prejudiciais à saúde física e mental. E para completar a chuva de lamentos: o docinho depois da refeição, o bolo da tarde, o chocolate amado, não é tão inofensivo quanto parece. O açúcar, agora, é um veneno que inflama o corpo.
Diante disso tudo, acabei por concluir que tenho, como dizia minha mãe: “dedo podre para escolhas”, ou melhor dizendo, tenho muita afinidade com o rei, Roberto Carlos: “tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda.”
Talvez a saída seja ressignificar o desejo, ampliar os horizontes, mudar perspectivas, se aventurar em lugares ainda desconhecidos e apostar nos benefícios de uma vida bem cuidada.
Mas, como o Diabo sempre atenta, acabei de receber de uma amiga, pelo Instagram, um vídeo em que o cara canta um pagode que diz mais ou menos assim: “Você pode parar de beber whisky, conhaque, vodka ou cerveja, você pode fazer exercícios e se alimentar direito…. Não vai adiantar p. nenhuma, você vai morrer de qualquer jeito.”
Depois dessa, quase me entreguei ao pote de Nutella. Mas, por sorte, um pouco antes, tinha lido um artigo sobre envelhecimento ativo. Aí, ponderei (bônus da maturidade), avaliei minhas chances, tracei perspectivas, e, por fim, decidi vestir a roupa da caminhada.
Sempre que fico tentada a chutar o balde, penso naquela plaquinha de vaga para idoso (injusta e inapropriada) que mostra um velhinho de bengala, bem curvado. É só fazer isso e já me vem uma vontade imensa de cuidar no presente do futuro.
Virar na vida uma página é mostrar atitude. Existem páginas mais pesadas, outras que quase se rasgam no manuseio e aquelas que praticamente pedem para ser viradas. Mas tenha certeza que na vida sempre há alguma página a ser virada. Quer você queira, quer não.
As razões para se virar uma página em nossas vidas existem e nunca são poucas. Deixar para trás uma parte da própria história é um momento forte, de decisão firme que não permite vacilo.
As motivações que nos fazem mover a mão e mandar aquela página para o passado são várias. Algumas boas, outras ruins, as vezes alternadas, as vezes misturadas.
Se houvesse uma receita para se virar uma página na vida talvez ela começasse pela leitura da própria página. Se o que foi escrito ali perdeu o sentido não adianta lamentar. Se a leitura do episódio incomoda, rápida irá a mão à folha para vira-la.
Nem sempre virar a página significa se livrar de um problema.
Problemas todos têm. Eu tenho os meus, você tem os seus. Eu sei a medida que os meus me afetam e quão difíceis eles podem ser. Da mesma forma, você conhece os pesos dos que te afligem. Por isso não entro em competição de problemas por diversas razões. A primeira porque é uma grande imbecilidade, o que dispensa citar as demais.
Assim as páginas viradas de cada um são suas páginas, incomparáveis porque elas trazem sua história gravada. Boas anedotas ao lado de momentos difíceis, alegrias, amores, tristezas, corações partidos e por aí vai formando o mosaico de nossas vidas.
Elas não vão sumir, tenha certeza. Até porque continuam por ali, encadernadas juntas as demais, inclusive aquelas que ainda estão em branco. As páginas viradas simplesmente foram empurradas para o passado. Se der vontade de rememorar, basta procurar com calma.
Afinal, página virada não é página rasgada. As rasgadas são outra estória. E requerem o dobro de coragem.
O filme Maestro com Bradley Cooper traz a história de Leonard Bernstein às telas mundiais, que foi o gênio da regência dos anos 1950 a 1990. É uma oportunidade de conhecer e entender por que Bernstein sempre foi o centro das atenções em qualquer reunião, e de como ele hipnotizava a todos, homens e mulheres, através de uma combinação de sedução e exortação para compartilhar sua paixão estética ou política.
Muitas vezes parecia que ele desejava levar todos para a cama – mas antes de dormir, eles se entusiasmava com uma dúzia de tópicos, desde seu amor pelo “jazz” até a dificuldade de encontrar Deus.
É possível reconhecer a intensidade de um ser, um hiperfoco e perfeccionismo – o que ressoa mais do que tudo é o calor abrangente que trouxe para cada espaço e para cada pessoa que conviveu a seu lado.
Essa foi a coisa mais Bernstein que ficou marcada em sua trajetória distinta como a de todos, porém, talentosa ao extremo, vivida intensamente com amor e desejo.
Alguns detalhes das páginas do livro de sua filha Jamie, “Famous father girl”, acabaram sendo inseridos no filme, incluindo uma cena em que Bernstein esmaga rumores de sua infidelidade e bissexualidade durante uma reunião com Jamie.
Na década de 1950, os Estados Unidos ainda eram marcados por valores extremamente conservadores, tradicionais e homofóbicos, por isso Leonard dificilmente seria aceito como era naquela sociedade — por isso o casamento com Felícia Montealegre foi intrigante: apesar de ter sido uma esposa traída, nesse caso por outro homem, ela o aceitava.
O casamento de Leonard e Felícia, com quem teve uma história de amor imponente e destemida, foi incomum sim — e ainda assim continha os elementos de todo casamento; as especificidades foram tornadas de alguma forma universais.
Nem todo casal briga no Dia de Ação de Graças enquanto um balão gigante do Snoopy passa pela janela – mas toda pessoa casada, e os filho dos pais, reconhece essa briga.
O filme mostra uma carta de amor à vida e à arte, por isso Maestro é essencialmente, um retrato grandioso e emocionante de família e dedicação aos mais próximos. Devido ao seu estilo despojado foi uma Avis rara na cena cultural do século passado.
Quando ia escrever seus livros, o escritor Moacyr Scliar aproveitava, como dizia nas entrevistas, os intervalos da vida: a poltrona de um avião, a palestra do fulano, o aeroporto — qualquer brecha que, entre um compromisso e outro, a rotina oferecesse.
Para nós, leitores, não é diferente. Lemos na sala de espera do médico, no sacolejo de uma viagem de ônibus, no aeroporto, esperando um amigo no shopping. Quem lê há muito tempo sabe bem o que é isso. Tenho amigos que, apenas para me causar inveja, juram que não se incomodam com barulho; eu, ao contrário, acho que o silêncio virou um artigo de luxo — e pagaria qualquer coisa por ele.
Como grande parte dos leitores, tudo o que quero é um refúgio. Que, como já disse, anda cada vez mais raro.
Se abro um livro em casa, num domingo à tarde, o vizinho resolve comemorar o aniversário da esposa, com direito a karaokê, música alta (quando estou lendo, odeio qualquer tipo de música; qualquer uma, até as minhas preferidas) e aquelas palmas estrondosas. Tento ser tolerante. Tento.
Aí aproveito a sala de espera da dentista, abro o livro, começo a minha viagem… mas alguém liga o WhatsApp, manda e recebe áudios, depois desliza o dedo pelo feed do Instagram. Lá se vai o meu silêncio outra vez.
Outro dia, no parque, procurei um lugar com sombra, longe dos casais, das crianças, dos grupos com violão. De repente, um sujeito para perto de mim, diz “bom dia”, começa a se alongar e — adivinhem — está acompanhado do seu inseparável radinho de pilha.
Não sei se você reparou, mas, atualmente, ninguém faz nada em silêncio: academia, caminhada, natação, estudos, dirigir. Só resta ao leitor a sua luta diária por um pouco de sossego.
Outro dia, sentado num banco bem no centro da cidade, minha viagem pela imaginação era frequentemente interrompida pelo flanelinha: “Aí, gente boa!”, “Aqui, gente boa!”.
Abro o livro, fecho. Torno a abrir, fecho de novo. E assim, sem sucesso, vou tentando.
Tento a sala de espera do teatro, do dentista, a praça, a biblioteca, o pronto-socorro, as gôndolas do supermercado, um lugar debaixo da árvore do estacionamento. Às vezes — como já me aconteceu — vou ler em frente aos hospitais, onde não se pode buzinar, falar alto ou fazer festa.
Exageros à parte, é maravilhoso quando, em meio a este mundo tão barulhento, encontro um lugar quieto e posso saborear, finalmente, o livro. Só a imaginação me ajuda a suportar a vida. Tudo o que peço é que me deixem em paz.
Sabe aquela habilidade de reagir rápido, com graça, esperteza e a frase perfeita? Pois é… não veio no meu pacote. Diante de situações inesperadas, viro uma estátua com sorriso de paisagem. Meia hora depois, claro, surgem respostas brilhantes — todas atrasadas, todas inúteis. E eu fico furiosa comigo mesma.
Por isso admiro profundamente quem tem presença de espírito. Aquela gente que rebate na hora, cria na hora, brilha na hora. E dois casos sempre me vêm à mente.
O primeiro é de um político das antigas, mestre em se safar de qualquer saia-justa — e com memória prodigiosa (ou assessores eficientes soprando nomes). Em um evento, aproximou-se um sujeito que a equipe rapidamente identificou como “filho de fulano”. O político abriu um sorriso:
— Que prazer em vê-lo! Como vai seu pai, o nobre…?
— Deputado… meu pai morreu há cinco anos!
Ele nem piscou:
— Morreu pra você, filho ingrato! Para mim segue vivíssimo na lembrança.
Sério, quem pensa tão rápido? Outro exemplo é de uma conhecida que recebeu aquele clássico telefonema do “sequestro da filha”. Sem perder o fôlego — nem a fé — ela respondeu:
— Irmão, não tenho dinheiro nem filha! Sou irmã de caridade. Largue essa vida, venha para o bem, vamos orar juntos.
Bip bip. Golpista convertido ou, no mínimo, arrependido.
E aí fico pensando: o que esse povo tem que eu não tenho? Fui atrás de explicações sérias.
Resumindo o que aprendi: algumas pessoas conseguem aproveitar o microsegundo entre ouvir e responder para inventar alternativas inesperadas. É o tal do pensamento “fora da caixa”, que não se contenta com o óbvio e prefere o caminho criativo — às vezes absurdo, às vezes genial.
Ou seja: quem tem presença de espírito escolhe se divertir com a própria inteligência.
No fim das contas, presença de espírito é isso: um talento raro, quase uma arte marcial da criatividade. Alguns já nascem com cinturão preto. Eu, por enquanto, sigo no nível iniciante — procurando o tal manual que ninguém escreveu, mas que bem poderia existir. Até lá, sigo treinando. Vai que um dia o timing e eu finalmente combinamos um encontro. No caso deles… fazendo acrobacias. No meu, talvez só uma caminhada leve. Mas seguimos tentando.
“Vou ter que gastar meu décimo terceiro”, pensa o pai. Ou a mãe.
“O serviço vai dobrar”, lamentam a vendedora, a empregada, o patrão, o carteiro.
“Preciso variar e garantir o estoque”, diz o quitandeiro gourmet.
Ovos, uvas, pêssegos e toda a sorte de frutas ditas natalinas.
Ah, sem esquecer da famigerada e hilária uva-passa.
Os avós, os tios ricos, os pais de primeira viagem, os de última ou até os de ocasião fazem uma vistoria geral na casa. Afinal, Natal é festa da família.
É hora de mandar lavar os tapetes, consertar cadeiras, fazer inventário de copos, pratos e talheres.
Hum… chegou a hora da decisão: vai mesmo ter amigo-oculto?
Aquele costume sem autor conhecido, o verdadeiro elefante branco na sala, ou no espaço-cenário onde a família vai se reunir.
A tal brincadeira que não brinca, mas insiste em aparecer.
Apesar de todos, e cada um , jurarem que detestam.
Ou não?
Ah, sei bem…
Presentes úteis, inúteis, indefinidos, caros, errados, “nada a ver”.
Comprados com ou sem boa vontade. Com antecedência ou de última hora, em lojas cheias, vendedores apressados, cuja maior preocupação, no momento, é a comissão de venda.
Esse é um assunto tabu.
Assim como o tio inconveniente que bebe e conta a mesma piadinha de sempre;
a prima de nariz empinado que vai dar “só uma passadinha”;
o décimo namorado que a irmã leva às festas de família .
E que ela jura que desta vez “é prá valer!”
E assim se tem a festa de Natal.
O Menino Jesus?
Dorme, cercado de ovelhinhas e reis magos, debaixo da árvore pisca-pisca comprada na promoção relâmpago do site da Shein.
E o espírito natalino? Ah…
Esse talvez esteja embrulhado, sem etiqueta,
perdido entre os papéis de presente e as sobras do peru.
Para mim, segunda era igual a prima chata que a família faz questão de enaltecer na sua frente, porque é obediente e comportada, ou aquele irmão mais velho que serve de referência para tudo o que você não faz direito, ou aquela amiga da escola muito boazinha, que por isso mesmo não servia como companhia para as aventuras da adolescência.
Segunda sempre funcionou como aquela régua social que mede os procrastinadores, os menos abastados de disciplina e engajamento nos projetos de futuro.
Eu realmente tinha pinimba com a coitada. Ficava na espreita só sacando seus defeitos e se, por ventura, não tivesse, eu inventava. Como a gente faz quando não gosta de alguém de cara, sabe?
O abrir dos olhos no pós-domingo era batizado com o desabafo: maldita segunda-feira! Sempre chega para tirar o gosto do fim de semana. Parece pai na porta da festa antes da meia-noite. Trabalho que surge no final do expediente de sexta. Email de chefe cobrando relatório.
O curioso era esbravejar essa reclamação para o universo, ainda que o final de semana fosse tedioso pela falta de ânimo para sair da cama.
No final do domingo, aquele enjoo de véspera aumentava até chegar um certo refluxo no pensamento. Logo invadia aquela indisposição de existir, igual a gente sente quando chega visita em casa e não se estava esperando.
Acontece que o tempo é um homem espirituoso, provocador, que gosta de fazer graça com as nossas convicções, e, pelo visto, tem um certo apreço pelos dias mais injustiçados.
Só pode ser essa a explicação para o que vou contar aqui ou simplesmente sou a prova de que a lei do retorno existe e vocês foram as testemunhas escolhidas pelo destino.
Há vinte e cinco anos, grávida do meu único filho, e na necessidade de realizar uma cesárea devido a quadro hipertensivo, fiz um único pedido ao obstetra: marque qualquer dia menos segunda-feira.
Tudo certo, meu herdeiro de alma nasceria numa terça-feira, cinco de novembro.
Assim seria, se o Senhor Tempo não estivesse disposto a vingar toda minha implicância com uma de suas filhas.
Comecei com as contrações no domingo. Minha mãe, pela contagem das luas, alertava que havia chegado a hora. Eu rogava aos minutos que me deixassem alcançar a terça, que até de nome me parecia mais simpática.
Nada feito, Bernardo nasceu em uma estonteante segunda-feira. Trouxe com ele uma advertência da vida em relação ao desperdício de cinco dias na espera de um sábado e meio domingo para ser feliz. Sim, porque depois do almoço, era só preguiça e angústia.
Desde então, as segundas têm um gosto especial, um sabor de brigadeiro com refrigerante, um lançar de dados na esperança do seis, uma mensagem desejada no celular.
Não tem como ignorar, o tempo é um piadista insistente e a vida uma mocinha muito surpreendente.
Lembram que falei que vocês seriam testestemunhas de uma certa lei do retorno? Pois bem, acabo de nascer como cronista nesta segunda-feira ensolarada de paixão. Vocês são cúmplices dessa traquinagem jocosa do destino.
Sou mãe e filha desse dia tão primoroso que deveria se chamar Primeira-feira.
Quem diria que a donzela rejeitada passaria à condição de mulher amada.
O mundo dá muitas voltas e, pelo visto, prefere as segundas-feiras.
O hábito começou muito cedo. Dizia “papá” e “mamã” com um prazer especial em jogar com as sílabas. “Pa… pá”, “mã… mã” – os sons iam e voltavam até que ele os guardava para depois, quando quisesse, brincar de novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas (“bu… bu”, “pi… pi”, “tó…tó”). Um dia teve febre e ouviu “dodói”; enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a união lhe parecia perfeita, como em “croque” (sentia o atrito de um fonema no outro), “bafo” (a palavra terminava num sopro) ou “empecilho” (pronunciar essa foi um obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram como estranhos. “Erisipela”, por exemplo. Ficaria bem para designar um metal precioso (“Usava um colar de erisipela legítima”), mas não para indicar uma doença. O mesmo se diga de “faniquito”, que mais parecia nome de passarinho (“Na manhã clara e ensolarada, faniquitos em bando cortavam o azul do céu”). Teve pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não combinava em nada com as ulcerações que havia em suas pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas, assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso. O mais das vezes – foi aprendendo – o nome era uma falsa aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir as palavras conforme a semelhança que tinham com os objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, “sanfona”, “crocodilo”, “miosótis”, “turmalina” (se bem que essa mais parecesse nome de mulher) – e do outro “presidente”, “cadeira”, “promotor”, “recurso” (palavras que não excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do baú. Uma das primeiras que jogou fora foi “jucundo”, cuja hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste, mas significava “alegre”). Trocou “jucundo” por “meditabundo”, palavra mais honesta e de acordo com seu atual estado de espírito. Jogou fora também “vagar”, “flanar”, “leviano”, e por pouco não se livrava de “paciente” (“prudência”, que ia substituir a outra, aconselhou-o a esperar mais um pouco).
A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos, mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar, morria). Um dos novos termos foi “achaque”, que vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação poética). Outro foi “próstata”, que lhe pareceu o som de uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi “tumor”, que ele sem graça botou no lugar de “humor”.
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e nada encontraram em seu interior. “Ele era meio tantã”, comentou a mulher. “Passava horas diante desse baú vazio.” Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
Sair da vida de alguém é uma decisão unilateral. Não há consulta nem aviso prévio. Às vezes, se o processo é lento, a outra pessoa percebe. Às vezes, não.
Os motivos para a ruptura na convivência podem ser vários. O mais comum é dar um basta em uma relação tóxica. Depois dos mais variados episódios, das pequenas descortesias até insultos de diferentes graduações, finalmente se toma a decisão. Para alguns ela vem logo, para outros muito além do tempo razoável.
A toxidade tem seus graus. Ela é mais percebida nas situações extremas. Mas nos graus mais leves é igualmente nociva.
Seu efeito contaminante não é imediato e arrasador. Ao contrário, é suave porque envenena pouco a pouco. Os bons momentos convivem lado a lado com as situações ruins, mascarando-as.
Por isso é difícil de detectar que há uma intoxicação em andamento mas ela está lá. Dia a pós dia criando depósitos de substâncias nocivas dentro de nós. Minando nossa vontade, nos transformando em algo que não somos.
O que viramos? Um pouco de tudo e menos de nós. O basta é o ponto de ruptura da relação e da existência daquela persona que permitimos que surgisse. Uma representação simplória do nosso “eu” que pode ser tudo menos “nós”. Nossa vasta complexidade de faces foram submergidas enquanto nadávamos no lago frio e parado dessa relação tóxica. Mais um pouco e nos afogamos.
O “basta” traz à toa quem somos e andávamos esquecidos. Não à toa, a leveza se acomoda a partir do dia em que decidimos negar a outra pessoa nossa companhia, desatando as cordas gastas dos restos insistentes do afeto que estava moribundo.
Cria-se distância entre os dois.
Pela natureza desse tipo de relação tóxica, suave em seu cotidiano contaminante, o rompimento é semelhante. Não há rompantes, discursos, choros, recriminações ou gritos. As poucas palavras ditas são suaves e que pouco a pouco vão ficando desprovidas de calor. A antiga intimidade é coberta por camadas de superficialidade.
Aos poucos, no sentido inverso do envenenamento, vai se criando a capa de proteção. O silêncio ocasional oculta as intenções, as palavras vagas mascaram os pensamentos e os clichês tomam o espaço onde antes habitou a originalidade. Pouco a pouco vão se tornando estranhos um ao outro.
Ocasionalmente, é verdade, a antiga convivência volta a memória. A persona tóxica pensará na outra com saudade e se perguntará onde ela anda e o que faz. Quem se desintoxicou suspirará um instante sorrindo em homenagem aos momentos felizes mas afastará logo do pensamento a lembrança. Aquele cotidiano contaminado deixou avisos em sua memória.
A lembrança daqueles tempos afastará seu olhar para longe. Lá, onde quero estar.
A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha intactos álbuns de figurinha e ficava lendo e observando cada uma delas na hora do recreio. Tinha, por isso, todas as mais raras, que eram objeto de troca, literalmente, somente para dar aos coleguinhas mais chegados a figura que lhes faltava. Uma vez meus pais viajaram com meu avô materno, para Uruguai, Argentina e Paraguai, em um passeio muito realizado à época, pela empresa Soletur, de ônibus, que saía exatamente do Rio de Janeiro com direção ao Sul do País e adjacências. Não conto as vezes em que chorei amalgamado às perturbações e tristezas provocadas pela solidão e abandono. Não entedia que meu pai e minha mãe fossem voltar. Minha avó, já idosa, não dava muita bola, mas me deixava escutar as canções que passavam no rádio. Uma bem famosa era Hunting High and Low, do a-ha, que me fazia chorar em desabalada desesperança. Talvez por isso, na vida adulta, tenha me apegado às músicas desse gênero, que trazem uma dorzinha no coração, como as da banda Toto também. Para falar mais sobre a melancolia, devo dizer que não me esqueço das palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, que dizia ter a melancolia entranhada – e parece que já se acostumara com isso; relatara o fato a seu psiquiatra, que já não sabia o que fazer. De fato, com o tempo, aprendi, a partir de estudos aprofundados, que a melancolia é diferente da depressão. Na Psicanálise, a depressão é a perda da experiência, do desejo, da vontade, enquanto a melancolia é possuir um corpo sensível muito aguçado, para o bem ou para o mal. Mas não vim aqui falar de teorias. As pessoas não entendem que nasci assim, e que não é culpa minha ser melancólico. Já perdi amizades por isso, pela minha introspecção, por não entenderem que não estou sempre à disposição, que tenho meus momentos de angústia e solidão, necessários à minha sobrevivência. Quando criança, fui tido como depressivo e, pasmem, “um projeto de homossexual”, dada a minha hipersensibilidade. Nunca liguei. Coisa de gente pequena. Meu pai mesmo comprava revista de mulher pelada para um menino de cerca de dez anos e me dava, para me “divertir”; sem nem eu saber o porquê disso. Descobri tantas coisas, como a minha capacidade para as Artes… E não há nada que me impeça de viver da minha forma, neurodivergente, pois que, além do mais, sou autista, nível 1 de suporte. Levei tempo para me acostumar comigo. Agora quero ser feliz assim.
Engraçado: sou fã de carteirinha de muita gente séria e focada que vejo pelas ruas. Parece que, de tão preocupadas, vão resolver o problema da humanidade, todas as injustiças do mundo. Gente que não se distrai nunca, não perde tempo, não olha pro lado.
Queria ser assim, mas não sou.
Estou mais preocupado, claro, com coisas que se passam dentro de mim: uma música que ouvi e não me saiu da cabeça, uma piada que me faz rir sozinho na rua, uma saudade de um amor que passou, um filme que eu vi.
Aí, naturalmente, quando saio de casa, não me lembro se minha ideia era ir no açougue ou no hortifruti do bairro. Se era pra comprar pão ou alpiste do passarinho.
Outras coisas que, invariavelmente, eu esqueço: horários de compromisso, datas, aniversários — a vida organizada dos outros.
Mas, quer saber?
Acaba dando tudo muito certo.
Se eu deixo passar a data de um concurso, as inscrições são prorrogadas.
— “Você viu que as inscrições foram prorrogadaa?” — me avisa um amigo.
Se eu perco o horário de um ônibus, um conhecido passa e me dá carona. Se eu perco um documento de RG, alguém acha e me liga.
Acho que, de certa forma, o acaso gosta dos distraídos. Vive dando uma forcinha, arrumando um atalho, uma saída de emergência qualquer.
Como aquele motorista de ônibus que, solidário com a minha pressa, desviou a rota só pra me deixar no trabalho. Ele disse que não podia. Mas fez.
Acho que o mundo tem pena dos distraídos. Ou, quem sabe, simpatia.
O mundo está cheio de gente certinha demais, preto no branco demais. Talvez seja por isso que ele ajuda tanto gente distraída como eu.
Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida. Segue a 4ª parte:
Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.
61) SHAFT (Gordon Parks), 1971
O filme marca a ascensão de heróis negros no cinema americano (no caso, o durão detetive particular John Shaft) em oposição à prevalência de personagens centrais brancos. THEME FROM SHAFT, principal tema musical do filme, vencedor do Oscar, que combina funk, soul e jazz, composto pelo músico Isaac Hayes, tornou-se lendário. Foi lançado como faixa principal de um álbum duplo que alcançou um sucesso arrasador trazendo outros temas do filme (em boa parte, instrumentais). Em 2000, foi feito um remake com Samuel L Jackson no papel principal (como sobrinho do Shaft original) dirigido por John Singleton (BOYZ N THE HOOD), com nova versão do histórico tema original.
62) BLOW UP (Michelangelo Antonioni), 1966
O clássico do diretor italiano (mas rodado inteiramente em inglês), estrelado por David Hemmings e Vanessa Redgrave, trata de um suposto assassinato captado acidentalmente por um fotógrafo de moda, história baseada num conto do escritor argentino Julio Cortazar. A trilha foi composta pelo pianista Herbie Hancock sendo executada por uma trupe de primeira (Freddie Hubbard, Joe Henderson, Ron Carter, Jack DeJohnette, Jimmy Smith etc.). Todavia, o charme é o rock STROLL ON executada pelo grupo Yardbirds (com Jeff Beck e Jimmy Page) que aparece ao vivo tocando no filme. Antonioni tem outros filmes famosos como A NOITE, PROFISSÃO REPÓRTER (O PASSAGEIRO) e ZABRISKIE POINT, cuja trilha se tornou cultuada por conter canções inéditas do Pink Floyd.
63) A LIBERDADE É AZUL (Krzysztof Kieslowski), 1993
O compositor polonês Zbigniew Preisner distinguiu-se por criar e executar as trilhas da celebrada ‘trilogia da cores’ (TROIS COULEURS) do seu conterrâneo Kieslowski, a saber, A LIBERDADE É AZUL (BLEU), A IGUALDADE É BRANCA (BLANC) e A FRATERNIDADE É VERMELHA (ROUGE), com base na composição da bandeira francesa e nos ideais da Revolução Francesa. O primeiro e mais conhecido episódio, BLEU, é estrelado por Juliette Binoche. Priesner também musicou outro filme famoso do mesmo diretor, A VIDA DUPLA DE VÉRONIQUE, além de O JARDIM SECRETO, filme-fantasia com produção executiva de Francis Ford Coppola.
64) O HOMEM DE BRAÇO DE OURO (Otto Preminger), 1955
Diversos clássicos do diretor Otto Preminger tiveram trilhas marcantes como LAURA (cuja música tema de David Raskin tornou-se um concorrido standard de jazz), ANATOMIA DE UM CRIME (trilha assinada pelo mestre Duke Ellington) e EXODUS (com uma trilha épica condizente). A conhecida música de O HOMEM DE BRAÇO DE OURO, filme estrelado por Frank Sinatra, Kim Novak e Eleanor Parker, é assinada pelo afamado maestro Elmer Bernstein, responsável por outras grandes trilhas como a de OS SETE MAGNÍFICOS, O GRANDE MOTIM, MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA e (pasme!) da comédia sobrenatural GHOSTBUSTERS (OS CAÇA-FANTASMAS), cuja música tema tornou-se grande sucesso.
65) BIRD (Clint Eastwood), 1988
Clint Eastwood é um aficionado por jazz, como demonstra a música que acompanha boa parte dos filmes em que atuou como diretor, a maioria dos quais composta pelo próprio Clint. Esmerou-se nessa produção que trata da vida atribulada (vício em drogas e problemas financeiros e de racismo) e curta (faleceu aos 34 anos) de Charlie Parker, ou Bird, como era conhecido, na tela representado por Forrest Whitaker. A trilha apresenta 11 canções remixadas do saxofonista criador do bebop, sendo adicionados aos solos originais de Parker acompanhamentos de músicos contemporâneos.
66) FLASHDANCE (Adrian Lyne), 1983
Lyne é um bem sucedido cineasta com produções de grande bilheteria como 9 ½ SEMANAS DE AMOR (com sua trilha sensual), PROPOSTA INDECENTE e ATRAÇÃO FATAL. Maior sucesso da carreira de Jennifer Beals, FLASHDANCE foi comercialmente um arraso, assim como sua trilha. Apesar das críticas mal humoradas, poucos não se emocionam ao escutar WHAT A FEELING com Irene Cara (Oscar de canção original) ou MANIAC com Michael Sembello. As canções foram compiladas pelo DJ Giorgio Moroder, produtor de Donna Summer, e com vasta atuação durante a era disco. No cinema, assinou também as trilhas de EXPRESSO DA MEIA NOITE (ganhadora de Oscar), TOP GUN, GIGOLÔ AMERICANO, SCARFACE e A MARCA DA PANTERA.
67) MELODIA IMORTAL (George Sidney), 1956
THE EDDY DUCHIN STORY foi um filme biográfico estrelado por Tyrone Power e Kim Novak (no auge de sua beleza) sobre o pianista Eddy Duchin, sendo os números musicais tocados pelo consagrado Carmen Cavallaro. A trilha sonora, cujo álbum foi um dos campeões de vendas de 1956, inclui até uma versão de AQUARELA DO BRASIL de Ary Barroso. A música tema, TO LOVE AGAIN, é baseada num noturno de Chopin. Sidney é especializado em musicais, tendo trabalhado com Gene Kelly, Judy Garland, Frank Sinatra e até Elvis Presley. Destaque para ANCHORS AWEIGH em que Kelly dança com o ratinho Jerry (de Tom & Jerry), numa inédita integração com animação.
68) THE WALL (Alan Parker), 1982
Os filmes do diretor britânico Alan Parker têm em comum trilhas relevantes que fizeram sucesso comercial, sendo difícil selecionar uma: FAME (sobre jovens talentos de uma escola de música), MIDNIGHT EXPRESS (música eletrônica de Giorgio Moroder), THE COMMITMENTS (jovens de Dublin querendo montar uma banda de soul), EVITA (de Andrew Lloyd Webber com Madonna), BIRDY (assinada por Peter Gabriel), MISSISSIPI EM CHAMAS (impactante trilha de Trevor Jones num contexto de racismo). No caso de THE WALL, o filme/animação se baseia no álbum homônimo do Pink Floyd de 1979 com roteiro do baixista/vocalista Roger Waters com críticas ao autoritarismo e ao belicismo.
69) A PROFECIA (Richard Donner), 1976
Donner foi um cineasta versátil que dirigiu películas de gêneros diversos: ação, aventura, comédia, terror. Destacam-se SUPERMAN, O FEITIÇO DE ÁQUILA, OS GOONIES, MÁQUINA MORTÍFERA (1 a 4), TEORIA DA CONSPIRAÇÃO, MAVERICK. O aterrorizante A PROFECIA (OMEN) com Gregory Peck, é sobre um garoto que se revelou filho do demônio. Jerry Goldsmith caprichou na trilha que mescla música orquestral e elementos atonais, em especial a faixa AVE SATANI, com um coro cantado em latim que soa como uma missa negra. Com ela, Jerry, um dos mais famosos compositores de trilhas – STAR TREK, PLANETA DOS MACACOS (de 1968), CHINATOWN, ALIEN, PATTON, POLTERGEIST etc. – faturou seu único Oscar.
70) ROCKY III (Sylvester Stallone), 1982
A saga do fictício lutador Rocky Balboa é uma das mais bem sucedidas do cinema. A série iniciou-se em 1976, sendo o primeiro episódio dirigido por John Avildsen, o melhor avaliado pela crítica, contando com trilha de Bill Conti inclusive a música-tema, GONNA FLY NOW (indicada ao Oscar). Porém o personagem ficou vinculado à canção EYE OF THE TIGER interpretada pelo grupo Survivor, associada a garra e superação, presente no terceiro filme da franquia. Stallone agregou à trilha de Conti esse rock com a intenção de atrair um público mais jovem. EYE OF THE TIGER tornou-se um sucesso retumbante, tendo sido um dos singles mais vendidos do ano.
71) AMARGO PESADELO (John Boorman), 1972
Estrelado por Burt Reynolds e Jon Voight, esse polêmico filme, originalmente DELIVERANCE, cujo título em português dá uma ideia do tormento vivido por um grupo de 4 amigos que escalam um rio quando são atacados e seviciados por habitantes rudes da região. As cenas de violência sexual extrema foram suprimidas pela censura em sua primeira exibição no Brasil. O momento mais célebre ocorre quando um dos personagens faz um desafio musical com um banjo com um rapaz aparentemente deficiente mental da região (“DUELING BANJOS”). O duelo musical foi transposto para a trilha sonora do filme.
72) ARQUIVO X (Chris Carter), 1993
A série televisiva, uma das mais duradouras da história, ficou no ar por nada menos do que 10 anos com 9 temporadas e mais de 200 episódios, dando origem também a um longa. Trata-se de uma temática insólita em que um casal de agentes do FBI investiga casos paranormais. O inconfundível tema de abertura foi composto por Mark Snow utilizando assobios, ecos e elementos eletrônicos.
73) HARRY & SALLY (Rob Reiner), 1989
Comédia romântica não precisa necessariamente ser piegas, como prova essa divertida e esmerada produção protagonizada por Meg Ryan e Billy Cristal, que passam o filme inteiro se estranhando até acabarem juntos. A cena do orgasmo no restaurante é emblemática. A graciosa trilha sonora que fez tanto sucesso quanto o filme foi executada pelo estreante e promissor cantor e pianista Harry Connick, Jr, tido então como o futuro Sinatra e é composta por clássicos do jazz (irmãos Gershwin, Rodgers & Hart, Duke Ellington etc.) Ao fim, Connick Jr não se tornou um novo Sinatra nem emplacou novas trilhas, vindo a fazer alguns papéis como ator coadjuvante. O diretor Reiner teve outros filmes de importância como STAND BY ME (outra trilha memorável) e LOUCA OBSESSÃO (MISERY).
74) O FEITIÇO DA LUA (Norman Jewison), 1987
O diretor canadense Jewison carrega em sua bagagem filmes importantes como NO CALOR DA NOITE (trilha de Quincy Jones com tema de abertura de Ray Charles), O VIOLINISTA NO TELHADO (musical com temas tradicionais judaicos), THOMAS CROWN AFFAIR (trilha de Michel Legrand) e OS GLADIADORES DO FUTURO (André Previn). O FEITIÇO DA LUA (MOONSTRUCK) é uma comédia romântica que conferiu à cantora Cher o Oscar de melhor atriz, no papel de uma ítalo-americana que se apaixona pelo personagem vivido por Nicolas Cage. A trilha mescla canções populares italianas com trechos de ópera, com destaque para THAT ‘S AMORE interpretada por Dean Martin.
75) BAGDAD CAFÉ (Percy Adlon), 1972
Essa curiosa comédia dramática que contrapõe uma turista alemã com aparência fora dos padrões de Hollywood e a dona de um decadente posto de estrada é uma produção germânica que se passa nos EUA com atores americanos (inclusive o veterano Jack Palance). A nostálgica trilha sonora capta a solidão dos personagens e o clima do deserto de Mojave na Califórnia, onde a trama se desenrola. Mas o grande destaque é a balada CALLING YOU (indicada ao Oscar), interpretada por Jevetta Steele, com um enxuto arranjo de piano e flauta que se tornou sucesso mundial. A interpretação da cantora gospel arrancou rasgados elogios da crítica que a compararam com Whitney Houston.
76) YELLOW SUBMARINE (George Dunning), 1968
Os Beatles, o grupo de pop-rock mais famoso da história, lançaram também alguns filmes (A HARD DAYS NIGHT, HELP!…). YELLOW SUBMARINE destaca-se por ser uma animação em que eles aparecem caricaturados numa aventura em que salvam a cidade de Pepperland, tomada por malignos homens azuis que detestam música. A trilha sonora original contém apenas 4 canções inéditas do grupo e não chegou a alcançar grande sucesso comercial. O lado B contém temas orquestrais compostos pelo produtor musical George Martin. Mais tarde, foi lançada uma nova versão com todas as canções executadas no filme, a maioria já presente em outros álbuns. Apesar de tais restrições, o filme ganhou o status de cult por seus traços psicodélicos que revolucionaram a estética dos desenhos animados.
77) DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (Walter Salles), 2004
A saga de Che Guevara pela América Latina, sob a direção do cineasta de CENTRAL DO BRASIL, recebeu uma bela trilha composta pelo argentino Gustavo Santaolalla com a canção tema AL OTRO LADO DEL RIO de Jorge Drexler. Santaolalla compôs para 2 outros filmes do diretor brasileiro: LINHA DE PASSE e ON THE ROAD. O músico recebeu dois Oscars mas por outras trilhas, igualmente belas, BABEL e O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN. São dele também as trilhas dos mexicanos AMORES PERROS e BIUTIFUL, do portenho RELATOS SELVAGENS e do americano 21 GRAMAS.
78) GÊNIO INDOMÁVEL (Gus Van Sant), 1997
Reconhecido como um dos mais talentosos diretores surgidos nos anos 90, em especial em temas que tocam a juventude, Gus tem em sua filmografia, obras-primas como O ELEFANTE, MILK A VOZ DA IGUALDADE, ENCONTRANDO FORRESTER, UM SONHO SEM LIMITES e PARANOID PARK. Nenhum deles alcançou a projeção de GÊNIO INDOMÁVEL com Matt Damon e Robin Williams (valendo-lhe um Oscar). A trilha foi assinada por Danny Elfman, mas o destaque ficou por conta das 6 canções do garoto-prodígio Elliott Smith que integraram o álbum, em especial MISS MISERY (indicada ao Oscar).
79) CORRIDA CONTRA O DESTINO (Richard Sarafian), 1971
CORRIDA CONTRA O DESTINO (VANISHING POINT) é um road movie que, apesar do baixo sucesso comercial, tornou-se cult em função das cenas de perseguição e das relações pessoais que o personagem estabelece pelo oeste dos EUA, misturando filosofia existencial e crítica social, bem ao gosto da contracultura dos anos 70. Nesse contexto, a trilha mescla rock psicodélico, country e blues refletindo o espírito de rebeldia e liberdade da época. Ficou famosa no Brasil por utilizar a magnífica FREEDOM OF EXPRESSION, canção executada pelo desconhecido conjunto J B Pickers (na verdade, um improvisado grupo de músicos que se reuniu para gravar essa faixa para o filme), que se tornou conhecida por ser utilizada na abertura do Globo Repórter.
80) SINGLES, VIDA DE SOLTEIRO (Cameron Crowe), 1992
O filme estrelado por Bridget Fonda, Campbell Scott e Matt Dillon é uma simpática e descompromissada comédia romântica do mesmo diretor de JERRY MAGUIRE, QUASE FAMOSOS e VANILLA SKY (todos com trilhas sonoras pop rigorosamente selecionadas) que retrata a complicada relação de jovens à procura do par perfeito. A trama transcorre em Seattle, cidade em que emergia um efervescente movimento musical que se estendeu pelo planeta e revitalizou o rock. A trilha que se tornou referência reflete a atmosfera ‘grunge’, com bandas como Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden, Screaming Trees etc.
Certo dia resolvi organizar as fotos que ficavam naqueles albunzinhos que as Fotóticas da vida ofereciam junto com os filmes revelados, da época em que se revelava fotografia e colocava em álbuns. Foram guardados numa grande caixa, esperando o dia em que eu ia me dispor a organizar.
O tempo passou, não fiz isso quando deveria ter feito e, agora, essa se tornou uma Caixa de Pandora. De vez em quando olho para ela, pensando se gostaria ou não de abri-la. Lá estão registrados anos e anos da vida, que de certa forma, ao serem guardados nessa caixa, ficaram congelados.
Me dei conta de que fotos em papel impactam diferente na gente. Quando tudo passou a ser digital, parece que nossa memória também digitalizou, e as fotografias passaram a ocupar outro espaço, menos emocional, longínquo, o espaço virtual.
Nesse plano digital estão álbuns mais recentes, que podem conter momentos parecidos e com as mesmas pessoas que estão nos antigos registros de papel, mas a nossa relação com eles parece ser diferente, mais distante.
As fotos digitais parecem não fazer parte de nós e sim de uma plataforma – elas habitam fora de nós, em uma nuvem. Esse distanciamento nos possibilita facilmente deletar, corrigir, cortar, criar outros contextos para os momentos ali retratados.
Se algo desagrada, ou traz uma lembrança indesejada, com um clique está tudo resolvido e nem nos lembramos mais de que, um dia, esses momentos foram captados, registrados. Já as fotos em papel não. Eliminá-las exige rasgar, queimar, colocar no lixo, sei lá. E isso é um processo cirúrgico dolorido.
Se desfazer de flagrantes do passado que hoje não são mais significativos, da fisionomia de pessoas que não deixaram marcas – hoje são praticamente estranhas – dá uma sensação de sacrilégio. É como se esses retratos tivessem vida própria, não nos pertencessem e sim à nossa história.
A digitalização, no fundo, desumanizou esses relatos, criou um espaço confortável entre nós e aquilo que está na tela, para que pudéssemos ir ceifando, sem dó nem piedade, tudo aquilo que incomoda, que não faz mais sentido e, assim, compor o álbum com a história que gostaríamos de contar.
Mas as fotos em papel criam vida, e não há como apagar a história que contam. Elas ficam ali, naquela Caixa, como guardiãs fiéis do nosso passado.
Passeando pelo Instagram e lendo as primeiras linhas daquelas matérias aleatórias, esbarrei em uma que capturou a minha atenção: um britânico de 52 anos, Malcolm Myatt, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) e perdeu a capacidade de sentir tristeza. Meu primeiro pensamento foi: que sorte poder viver no conforto da alegria, não se abalar com os sacolejos do destino, se decepcionar com os invejosos, acordar com os olhos inchados de mágoa. Estava quase acreditando que há males que vêm para o bem quando descobri que essa alegria eterna é acompanhada de uma diminuição da capacidade de interpretar as relações, seus códigos e demandas. Na contramão dos ganhos, Malcolm apresenta um comportamento socialmente inadequado (para quem?). Faz piadas em velório, comentários constrangedores em qualquer ambiente, fala o que vem à cabeça, sem se preocupar com as consequências (talvez isso contribua para sua persistente alegria, não?).
Por fim, me convenci de que um estado de alegria inabalável depende de um estado de alienação absoluta. Um desligamento dos motores, das turbinas. Um infinito vagar à deriva num mar exaustivamente azul.
Quero não. Preciso sentir o embalo das ondas, a revolta do vento e depois descansar no cais.
E “harmonizam-se” com a cor preta e outros tons da mesma cor…
Que moda é essa? Qual o guru da arquitetura moderna foi o precursor dessa escolha?
Sigo com o Google Maps aberto, como quem caminha sem saber o caminho, mesmo tendo um mapa na mão.
É um bairro novo, de classe média alta.
As casas, recentes, seguem o mesmo modelo arquitetônico: fachadas altas, linhas retas, vidro escuro, cimento aparente. A estética da segurança, do silêncio e da sobriedade. Tudo muito moderno. Tudo muito igual.
Não bastasse a surpresa da cor, há algo mais que me inquieta.
As janelas não se abrem. Não há som de crianças, nem cheiro de comida, nem sombra de varal. As ruas estão limpas. E totalmente vazias. O traço comum é o isolamento: portões que se erguem automaticamente, carros que entram e saem sem que se veja o rosto de quem os conduz.
Casas habitadas por presenças ausentes.
O cinza não está apenas nas paredes. Está também na atmosfera.
Olho para o alto, ufa! Que alívio ver o céu azul…Suspiro. Mas ainda sinto o espírito do lugar.
Há uma palidez existencial ali, como se a forma da moradia tivesse moldado o modo de viver.
E me pergunto: quando foi que morar deixou de ser habitar e passou a ser apenas isolar-se?
Quando foi que o abrigo virou trincheira?
Sei que tudo é moda. A cor da tinta, o estilo da fachada, a lógica do silêncio.
Mas temo que o hábito de fechar-se por fora acabe por selar também o lado de dentro. Que o desejo de proteção vire indiferença. Que o medo se disfarce de elegância.
Ainda assim, insisto em acreditar que nem tudo se apaga sob o concreto.
Que, de vez em quando, ao abrir o vidro para deixar escapar o calor do carro, alguém note o verde das plantas, o brilho do sol, o céu azul.
Que um canto de pássaro ainda provoque surpresa.
Que uma frase, uma música, uma lembrança rompam o lacre do hábito e façam vibrar algo bom no coração das pessoas que ali vivem.
Porque, no fundo, morar é mais que possuir um espaço.
É deixar-se afetar por ele.
E viver é mais que proteger-se do mundo: é permitir que o mundo nos atravesse, nos transforme, nos toque.
Vou te contar o que vim fazer aqui. Faz algum tempo, uns meses já, que meu desempenho ao piano não avança. Estava muito preocupada em especial quando tentava executar “A Chegada da Rainha de Sabá”, de Handel. Pela sua cara nunca escutou, mas não tem problema é uma composição alegre, um pouco difícil eu admito, mas que merece ser tocada com precisão.
Vai daí que ultimamente não tenho obtido nenhum progresso. Meu professor tem me olhado feio e insistido que não estou me esforçando. Eu pratico bastante mas sabe o que aconteceu?
Aos poucos fui percebendo que algumas notas aparentemente fáceis e até básicas da composição não estavam saindo direito.
Foi então que ouvi dizer que os pianos eventualmente carregavam os espíritos da natureza.
Todo piano é feito de madeira, você sabe, e ela traz em si essa ligação com a mãe-natureza, foi o que me explicaram.
Quando corta a madeira esses espíritos são separados dela, ficam perdidos. Desde então eles vagam de um piano para outro buscando seu lar. Nessa busca eles assombram os pianistas.
Por vezes você vai tocar e o som sai tão pesado que parece que tem um elefante dentro do piano. Em outras ocasiões esses espíritos travessos camuflam a nota tocada certa tornando-a ruim.
Enfim, um inferno.
Ai me disseram que precisa pesquisar de onde vem a madeira do piano. Foi um trabalhão, já te digo. Meu piano é um Fritz, Fritz Dobbert. É, parece alemão, não é ? Só que não, porque a Frtiz Dobbert fabrica pianos no Brasil há quase 100 anos. Portanto, os espíritos são brasileiros certo? Aí a coisa complica.
Com esse caldo de culturas que a gente tem que misturou índio com português, com africano com europeu, com jacaré e cobra d’água não dá para ter certeza da origem desses espíritos.
Eles todos se misturaram aqui também.
Os que moravam na árvore que foi cortada para fazer o piano se juntaram com os que vieram de fora, nos navios. Pensa, se as pessoas fizeram isso, por que não os espíritos? Tudo é possível nesse mundo fantástico que nos cerca, acredite em mim.
Por isso que eu vim aqui. Me disseram que esse Xamã era a última palavra em conhecimento sobre essas coisas espirituais, sabe. Nem estranhei que ele ficava aqui em Copacabana mas tudo bem, o bairro é grande e tem de tudo um pouco, estou acostumada.
Você sabia que ali um pouco depois da galeria Menescal tinha uma vidente turca que lia a sorte na borra do café? Menina, era uma coisa de louco! Não errava uma, segundo uma tia me contou que ficou sabendo por uma vizinha cuja prima veio de Minas só para se consultar. Tiro e queda.
De qualquer forma, meu assunto aqui é um pouco mais focado, eu diria. Tenho fé que o Xamã vai me orientar, vai iluminar meus caminhos. Tomara que não me peça para fazer sacrifícios com animais que isso faz uma sujeirada da nada.
Queimar incenso e até um fuminho assim diferente, se é que você me entende, eu topo.
Opa, minha vez, até daqui a pouco amiga. (um tempo, assim, não tão grande depois…)
Você não vai acreditar. Estou passada. Vim para pedir orientação ao Xamã e ele foi rápido como quem rouba. Depois de me escutar relatar o que estava acontecendo ele me perguntou quantas horas eu pratico ao piano. Eu respondi que duas horas por dia. Sabe o que ele me disse? Que se eu dobrar para quatro horas os espíritos irão embora.
Minha amiga está soturna, posto que falante. Vive a crise dos oito anos – oito anos de casada. Parece que seu rancor, antes de conjugal, é numérico.
Deve ter lido em alguma revista especializada que existe “a crise dos oito anos” e, apercebendo-se de que está nessa faixa de tempo, convoca os agentes recônditos do cansaço e do tédio, o exército roaz produzido pelos infindáveis minutos, horas e dias de todos esses anos.
“Oito anos”, ela pondera, como se os instantes tivessem de repente se transformado num bloco que a puxa para trás, um condensado handicap de história e de vida orientado em sentido negativo. Um tempo dado unicamente a outrem, a alguma coisa que não a ela. Tempo que terá sido “ausência” pela exclusão das alternativas e das vias paralelas – as muitas vias que espreitam tentadoramente a trilha das nossas opções.
Realmente, por que se fixar nos oito anos? Conheço pessoas que referem como insuperável a crise dos cinco. Outros quase não passam pela barreira dos dois. E se a gente pesquisa, encontra quem mal tenha resistido ao limite dos seis meses e até ao do dia seguinte – aquele momento em que o sujeito olha para um lado e para outro e, epa!, depara-se nesse outro com alguém que, a partir dali, vai se constituir numa referência fixa, espécie de fronteira irremovível de sua pessoa. E como isso dá medo.
Minha amiga vem fazendo análise. O objetivo, segundo ela, é “questionar profundamente os meus sentimentos e as minhas relações”. Devo dizer que está se frustrando um pouco, pois esperava através do processo analítico ganhar forças para revolucionar a vida pelo conhecimento de si mesma. Esperava talvez deter, na casa dos seis anos, o processo que redundaria nessa crise dos oito. Ela me diz, no entanto, que tudo está sendo em vão. A “ideia revolucionária” parece mais uma fantasia que, no decorrer das sessões, desvenda-se ante seus olhos. De fato, ninguém se transforma no que não é. Eu podia mesmo lhe citar Sartre: “On change souvent pour rester soi-même.”
Agora faz essa catarse extra-analítica diante de mim, terapeuta sem divã. Além de falante, sombria. Fala dos oito anos como se ele fosse um recorde, parecendo não compreender que esse tempo é complicado porque condensa o bom e o ruim. Pesa porque é âncora. Generosamente, deixo minha amiga falar. É o melhor que se pode fazer por alguém nessas ocasiões.
Ela fala, fala, e me ocorre, maldosamente, que esse é um tipo de sofrimento que comove e também diverte. Deve-se ficar atento, respeitar a dor da amiga – mas não se impressionar demais com o seu tom indignado, com o ar meio apoplético e cheio de ansiedade, com a postura o seu tanto esforçada e ridícula. Essa é uma dor minúscula, mais aborrecida do que pungente.
Conversando com ela, ou melhor, ouvindo-a falar, a gente sabe que pode encontrá-la no dia seguinte saindo do cartório, aonde terá ido providenciar os papéis da separação – mas essa possibilidade é remota. O mais provável será surpreendê-la saindo do restaurante com o marido, depois de brindarem a mais um ano (o difícil oitavo, ufa!) de casamento. Tudo pode acontecer.
O engenheiro e capitão italiano, Agostino Ramelli (1531 – 1610), nasceu na comuna de Ponte Tresa, hoje um Cantão da Suíça. Ele viveu no ápice do Renascimento, e foi inventor de inúmeros mecanismos para fins militares. Na França, ele criou a “obra” que lhe deu fama até o hoje, a “roda de livros”, que nada mais é do que uma estante de livros rotativa, que lhe possibilitava ler, consultar e pesquisar vários livros sem que o leitor saísse de sua cadeira.
Os livros ficavam em uma roda gigante, que girava como um moinho movido a água, e dessa forma o leitor absorvia múltiplos conhecimentos de diversos autores sem se dirigir até a próxima estante da biblioteca, e sem preencher sua escrivaninha com aquela tradicional pilha de livros.
Podemos dizer que Rameli foi o bisavô das bibliotecas digitais da “web”, inovadoras no quesito empilhar para ler.
Nossos ancestrais muito criativos pensavam a frente nas atividades humanas, antes do surgimento da tela do celular em nossos dedos.
Como, por exemplo, criaram o antigo hábito de ler e preencher suas cabeças com algo que não seja apenas queixas diárias, ou retirar o foco do próprio umbigo e se tornar um ser capaz de conviver com os psicopatas do cotidiano.
Porém, o “avô dos e-books” foi o poeta Bob Brown que viveu entre os anos 1930 e 1940 no Rio de Janeiro. Esse honroso título lhe foi dado pelo “New York Times”.
Ele fundou uma revista de negócios chamada “Brazilian American” e foi autor de literatura popular, roteirista de cinema, jornalista, editor e artista de vanguarda.
Seu nome completo era Robert Carlton Brown e nasceu em Chicago em 1886.
Ele perseguia inovações no âmbito literário pensando em melhores formas para disseminar o conhecimento através do livro. Inquieto e resoluto, pensava que a palavra escrita não conseguia acompanhar o tempo.
Para continuar lendo na velocidade daqueles dias, ele precisou de uma instrumento. Uma máquina simples de leitura que permitisse que ele pudesse carregar consigo, ligar em qualquer tomada e ler romances de centenas de milhares de palavras em dez minutos se quisesse.
A tal máquina que chegou a ter um protótipo construído por um amigo, tinha uma fita de texto correndo por trás de uma lente de aumento a uma velocidade controlada pelo leitor.
Está mais para um microfilme do que uma reprodutora de livros.
Mr. Brown não queria parar por aí, ele antevia o dia em que as palavras seriam “gravadas diretamente no éter palpitante”.
Ele era um poeta, não imaginava como a web em 2025 necessitaria ser embebida em éter para acalmar sua efervescência.
A fluidez da manhã me capacita a digressões. Ainda me espanto e me encanto com o nascer do sol. Sinal de estar vivo. Sinal de uma tal de esperança que ainda vive em mim. Vou tomar uma medida para ser, sempre, amante do sol – desta feita, rigorosamente, como um penitente eterno. Apreciar, tomar o meu bom café, calmamente, para, só assim, encarar as profundezas do dia. Lorena não tem me deixado escapar da fadiga do dia como desejaria. Ela acorda tarde – e reclama de insônia –, e é um auê para arrumar o nosso filho. Portanto, como bom apreciador do nascer do sol, acordo invariavelmente às cinco da manhã. Já é o relógio biológico ativado que me desperta, não dependo, portanto, de apetrechos maquinais. Carlos Augusto volta e meia acorda mais cedo que a mãe e quer assistir à televisão, antes de ir ao colégio. Faço uma merendinha rasa, para que não fique morrendo de fome – já que a merenda do colégio é às 10h –, e o pobre infante não dá bola ao Sol. Fico chateado. Tento entretê-lo com a beleza do raiar do dia, mas ele, já com oito anos, diz que isso é besteira, que o dia nasce todo dia, e por isso não há nada de novo e interessante. Lorena, quando quer me irritar, inventa um exame pela manhã, e temos de sair aos sopapos cedo de casa. Semana passada fomos eu e o Carlos Augusto fazer um bendito exame de sangue. Não que isso atrapalhasse completamente a minha sanha de ver o Sol, mas o via de relance, sem o contemplar, e isso me aborrecia profundamente. Lorena, às vezes, só para me chatear, diz que eu preste atenção ao volante, que eu tenho filho e mulher para criar. Verdade seja dita, fico abobalhado, mas não amalucado. São duas coisas completamente diferentes. Mas o melhor dos mundos é quando pego Luna, a nossa labradora, para passear pela manhã. Tenho preguiça, gosto de acordar levemente como o Sol, mas, para agradar a minha bela cachorrinha, vou pelo menos três vezes na semana passear pela manhã com ela. Isso varia, também, pela tarde, no pôr do sol. Mas o pôr do sol é difícil para mim, porque ainda estou voltando do trabalho, e, por vezes, tenho de quarar na janela do carro vendo o Sol “se amostrar”. Já me chamaram de doido e de bestalhão – Lorena, principalmente. Ela, incauta, pensa que fé é só para os santos e congêneres. Não, me apego ao Deus Sol, como os Maias e tantas outras civilizações. O Sol é o meu Deus, e não há de se questionar, porque não existe explicação que me faça demover disso. Quando o Sol se deita, irradia beleza – uma luz que, ao se apagar, lentamente, se expande – e eu me abro às facetas de uma bela vida. Não me distraio muito, admiro, para melhor saber da sua sina; sobre o que ele tem para mim. Acredito no sol para acreditar em tudo que há.
O destino é meio brincalhão, vive tirando uma com a cara da gente — brinca de esconder, ora some completamente, ora se deixa achar de propósito, em todo caso, faz questão de lembrar quem é que dá as cartas.
Nas últimas semanas, um desejo miúdo me tirava o sossego: uma empada de camarão. O problema é que, apesar de Belo Horizonte ser uma cidade onde se come muito bem, de camarão, propriamente, não tinha.
Fui ao Biscoitim, ali na Rio de Janeiro, a moça do balcão me atendeu sorrindo:
— Posso ajudar? — Tem empadinha de camarão? — Que pena, de camarão, a gente não faz. — Nem umazinha só?
Aceitei, a contragosto, uma de quatro queijos, tomei um café. “A tarde seria azul, não houvesse tantos desejos”, como dizia Drummond. Viver é desejar. E, naquele instante, o que eu mais queria — sem dúvida — era sentir a suculenta se desmanchando na boca, derretendo, única, gloriosa.
E não importava se estivesse murcha, fria, de ontem, desde que fosse ela, minha obsessão salgada.
Perguntei num boteco pobre, esquina com a Rua dos Goitacazes, havia quatro empadinhas frias no balcão, olhando pra mim com cara de segunda-feira.
— Boa tarde. — Posso ajudar, amigo? — Essa aí… tem empada de camarão? — Temos bacon, frango, alho-poró. — Não quero outra, só a de camarão. — É de hoje de manhã, pode ser? — Deixa pra outro dia— respondi.
Lembrei de Leminski: “Não discuto com o destino, o que pintar, eu assino.” E, naquele dia, a vida, Deus, ou o próprio destino, nenhum deles queria que eu encontrasse o tesouro que eu procurava.
Belo Horizonte é uma cidade adorável, mas cheia de caprichos, imagine: no meio de tanta empada, não ter justamente a joia de camarão.
Viver também é aprender a desejar o possível. Talvez, na falta de uma paixão arrebatadora — que é a tentação dourada — eu devesse, quem sabe, dar uma chance às de quatro queijos, frango com catupiri, ou até à de jiló, famosa lá no Ponto da Empada, no Mercado Central.
Mas não adianta, meu coração não sabe desejar o possível. Poderia até me contentar com outros sabores, eleger uma predileção secundária, mas, mais cedo ou mais tarde, eu acharia a pequena maravilha, e, quando achasse, comeria com calma — e, como já havia decidido, tomaria junto um café fumegante.
Nessas horas, quando saio com minhas obsessões gustativas, prefiro ir só. Se chamasse alguém, além de enfrentar esse complô injusto da cidade contra minha delícia, ainda teria que aguentar um amigo reclamando atrás de mim. Tudo, menos isso.
Fui a um dos destinos mais famosos de BH: o Ponto da Empada, dentro do Mercado Central. Entrei pela Avenida Amazonas, fui percorrendo os corredores — aquele labirinto de cheiros, vozes e panelas — até que, de repente, para me distrair da saga, uma moça me ofereceu um copinho de suco de milho verde.
O suco estava tão bom, mas tão bom, que acalmou minha alma um pouco. Deu até pena — verdade, pena — de quem não mora em Belo Horizonte, e não tem um Mercado Central por perto.
Cheguei ao Ponto da Empada, e fiquei olhando os fregueses comendo de pé no balcão, um com café, outro com refrigerante, a maioria de olhos fechados, murmurando:
— Hummm… bom, não é? — Ah, acho que vou levar meia dúzia.
Olhei a lista de sabores, também não tinha.
— E você, moço? — Uma de bacalhau.
A atendente me deu, e, assim como todo mundo, eu falei:
— Hummm… bom, não é?
A empadinha derretia na boca, deslizava macia. Tomei um refrigerante. Falei pro rapaz do caixa:
— Nossa, é uma maravilha. — Eu sou suspeito pra falar — respondeu, rindo.
Pronto. A de bacalhau era minha favorita. Se pudesse, comeria todos os dias, com café, com suco de milho verde, sozinho, acompanhado, tanto faz.
Fui colocar uma encomenda nos Correios e, ao parar no ponto de ônibus, vi uma lanchonete aberta, na estufa, uma fartura de empadinhas douradas.
Entrei, olhei pra um lado, olhei pro outro, disfarcei e… olha lá. Olha lá! Quem estava ali? Uma quantidade imensa de empadas de camarão. Ali mesmo, na Rua Goiás, em frente ao ponto de ônibus.
— Me vê uma empada de camarão aí. — Com catupiry ou sem? — Sem. — Mais alguma coisa? — Aquele café quentinho, por favor.
Justo quando eu não esperava mais. Aí, me lembrei de Guimarães Rosa: “A felicidade se acha é em horinhas de descuido.”
Brevíssimas considerações iniciais: Antes de iniciar esse texto, eu peço licença a você (leitor) para que possa fazer uma breve diferenciação semântica entre dois temos. Sei que a pressa dos dias atuais torna essa introdução chata, mas considero que esse movimento inicial pode enriquecer sua leitura. Dito isso, segundo o Dicio, o termo devagar significa: “De maneira lenta; que não possui nem apresenta pressa; vagarosamente”. Já divagar: “Vagar; caminhar sem destino certo: divagava pelas ruas vazias”. Esses não são os únicos significados destes termos, mas, para o intuito desse texto, são os necessários. Dito isso, vamos ao que interessa (?!).
Na última semana do mês de outubro do ano de 2025, o Brasil teve um grande acontecimento. Para quem está achando que se trata do jogador Vinicius Junior assumindo a influencer Virginia como nova namorada, sinto dizer que você está errado.
Na verdade, o que realmente causou polêmica, e ajudou a dividir ainda mais o país, foi a chamada megaoperação nos Complexos do Alemão e da Penha na cidade do Rio de Janeiro. Como alguém que gosta de acompanhar a reação das pessoas nas redes sociais, tenho percebido que existem defensores e críticos da operação. Não entrarei nesse detalhe, mas queria chamar atenção para um outro ponto, o aumento astronômico da popularidade do secretário de Polícia Civil Felipe Cury. Será que estamos diante do surgimento de um novo líder?
Quando penso sobre essa pergunta, minha mente musical leva logo a canção “Zé do Caroço”, composição da incrível Leci Brandão. Quem conhece a letra sabe que nela a compositora se refere ao surgimento de um novo líder. Curiosamente, a primeira lembrança visual que tenho deste samba é do filme “Tropa de Elite 2”. Para quem não se lembra, no filme, quando o líder da milícia em uma comunidade vai receber políticosn para fazer campanha eleitoral, essa é a música que é tocada. Enquanto ela toca, o “dono da localidade” dança com uma pistola em punho escancarando todo o seu poder.
Agora, precisamos voltar a falar sobre Felipe Cury. Um homem que, na última semana deu declarações como: “O traficante não é vítima da sociedade”, “o traficante outro dia passou a ser vítima do usuário” (Em clara alusão a uma fala recente do presidente Lula), “o policial está sendo tratado como vilão”, dentre muitas outras. Ele chegou até mesmo a levantar a hipótese de que corpos apareceram decapitados por obra dos próprios moradores. No entanto, o que mais assusta é o uso do termo “adolescentes apreendidos” e “bandidos neutralizados”. Assustador, não? (!?!) As falas têm um objetivo claro de desumanizar pessoas. Quando isso acontece, é fácil justificar mortes. A pergunta é, quem serão os próximos a sofrerem desumanização? A lógica do inimigo não possui limites. É ai que mora o grande perigo.
Todo o ocorrido a que me referi anteriormente, obriga ao exercício esquisito de explicar o óbvio (?). Aliás, em tempos de pós-verdade, eu nem sei mais se é possível falar que essa palavra existe. Infelizmente, o Brasil é um país em que as pessoas não foram preparadas por meio de uma educação crítica, isso gera uma série de problemas facilmente visíveis e perceptíveis hoje em dia. Não ficarei falando sobre esse assunto, mas aproveitarei para comentar sobre outro que é tema deste texto. Antes disso, é preciso deixar algo bem claro.
Imagino que, depois de falar tudo o que disse até agora, já posso ser rotulado, por alguns, como “defensor de bandidos”. Por isso, quero deixar claro que considero que o combate ao crime organizado deve ser uma das principais prioridades do governo brasileiro atualmente. Também que eu não acho que um traficante seja totalmente uma vítima da sociedade (embora ache que o tráfico nas favelas é diretamente derivado de problemas sociais. Para essa conversa vocês já estão preparados?). Não acho também que o policial é um vilão. Acho a polícia, embora tenha hoje muitos problemas, fundamental para a garantia da segurança. Enfim, são muitas coisas que, apesar de obvias, precisam ser faladas. Apesar de saber que esse exercício é inútil, pois quem quer rotular o fará por puro ato de má-fé.
Dito isso, precisamos falar sobre Direitos humanos (Tá defendendo? Então leva um bandido pra morar na sua casa!). É muito interessante que, ao contrário dos mortos nos conflitos, essa palavra foi “humanizada”. Quem nunca ouviu alguém dizer: “Daqui a pouco vem o Direitos Humanos aqui pra defender“. Ou seja, além de humanizado, o conceito se tornou uma espécie de Geni que, tal qual a da música, foi feito para apanhar e para se cuspir. A pergunta é, qual o intuito de humanizar ou desumanizar algo? Na prática, pedras são jogadas ou tiros são dados sem que ao menos se dê chance de defesa.
Aliás, quando se fala em direito de defesa, estamos falando na condição que difere (ou pelo menos deveria diferir) o Estado do poder paralelo. O tráfico não respeita as leis, ele executa por possuir poder. Esse poder, certamente, leva a uma série de injustiças. É por conta dessas injustiças que o Estado Democrático criou um mecanismo que permite a todo mundo se defender antes de sofrer uma pena. Mesmo que alguém seja culpado, é importante que responda dentro dos limites da lei. Se não, o que garante que, no futuro você (cidadão de bem) não pode ser vítima de uma injustiça do estado? Infelizmente, ninguém está alheio a isso.
É por esse motivo que, às vezes, por mais absurdo que seja, precisamos defender as leis e o Estado Democrático de Direito. Da mesma forma que precisamos combater o crime e valorizar nossos policiais, médicos, enfermeiros, professores e tantas outras profissões dignas. Essa defesa é inegociável e não podemos renunciar a ela.
Quanto ao personagem inspirador desse texto, vou esperar para ver se ele realmente se tornará uma nova figura política desse país. Agora, recorrendo mais uma vez a um mestre da música brasileira e, especialmente, do samba, acho que é preciso divagar devagarinho (com o perdão da alteração na letra) para que não voltemos a alçar ao posto de heróis figuras que o Brasil (e principalmente os cariocas) já estão cansados de conhecer.
*As ideias expressas pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento do portal Crônicas Cariocas, que preza pela liberdade de expressão e não interfere no conteúdo de seus colaboradores.
Reza a lenda que quando os conquistadores espanhóis chegaram à América apresentaram-se montados em cavalos. Os nativos, que nunca tinham visto um animal assim, e muito menos armaduras reluzentes, enxergaram naquilo uma coisa só, meio homem, meio bicho de quatro patas.
Pode não ter sido bem assim no século dezesseis, mas se os alienígenas aportassem hoje em certos locais da Terra, talvez achassem que o telefone celular faz parte do nosso corpo, uma coisa assim meio homem, meio tela.
Andar agarrado ao celular é a marca registrada destas primeiras décadas do século vinte e um. Como essa simbiose vai evoluir é difícil prever. Quase sempre a realidade surpreende e contraria as expectativas de quem arrisca um palpite porque a visão do que vem por aí em tecnologia é privilégio de uns poucos gênios. A icônica fala de Steve Jobs ao declarar que as pessoas não sabem do que precisam até que você lhes mostre. Só uma coisa é certa: não há volta atrás.
O que deslumbra uma geração não causa o menor espanto na seguinte. O que achamos maravilhoso hoje será banal amanhã. No futuro quem se lembrará de que o celular foi inicialmente um telefone, visto que esse é o uso menos comum que fazemos dele? Se é que ainda existirão celulares. E quem se recordará de nós que ainda nos lembramos de onde vem o sentido de rodar um filme ou revelar uma foto?
E por que isso deveria nos preocupar, já que sempre foi desse jeito?
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