Crônicas

  • Uma crônica para o Luis

    Eu não sei exatamente com quantos anos li pela primeira vez um texto de Luis Fernando Veríssimo. O que sei é que era ainda bem jovem. Um estudante de muitos e muitos anos atrás…

    Sei também que quando li, não parava de rir e de achar que o texto era simplesmente incrível! Leve, divertido e com uma linguagem muito acessível.

    Pra variar, o texto em questão, era uma crônica!

    E, desde então, estava com algum texto do Veríssimo pronto pra ler.

    Construí meu hábito de leitura com os quadrinhos e com as boas crônicas dos grandes cronistas de outrora, entre eles, Luis Fernando Veríssimo!

    Os grandes autores e os grandes livros são aqueles que nos tiram do sério, nos chacoalham ou então nos fazem rir! Rir do banal, do sobrenatural, da vida, do acaso, da morte, do improvável…

    E rir era o que sabia fazer com excelência!

    Ah! Luis! Você nos deixou e estamos tristes, mas nos seus textos você permanecerá vivo! Suas tiradas cômicas, sua ironia e capacidade para transformar o simples e o cotidiano em textos maravilhosos marcaram gerações!

    Em A metamorfose, trouxe Kafka para a crônica! O nome da barata não podia ser melhor: Vandirene! Em O homem trocado, os infortúnios de um homem terrivelmente azarado vira um texto inacreditável!

    No texto A foto, as questões familiares tão complexas e tensas se apresentam com a ironia e bom humor tão peculiares das crônicas desse genial escritor gaúcho.

    Eu poderia listar uma infinidade de textos hilários, mas termino esta crônica com um texto que reli alguns meses atrás para a minha irmã, Exigências da vida moderna.

    Nesse texto, a busca pela saúde e pela disciplina viram motivo para boas gargalhadas!

    E a leitura foi feita assim, entre muitas gargalhadas. Sei que o texto só terminou depois de pararmos diversas vezes, quase sem fôlego e com lágrimas…

    Luis, fica esta crônica como um abraço. Uma forma de agradecer por todas as boas histórias que contou e encantou a todos nós!

    Que a morte seja a última coisa a nos encontrar em vida!

  • Estou pobre de heroínas…

    Neste site, onde publicamos crônicas, poemas, contos e reflexões, existe uma aba chamada Autores. Lá está a nossa descrição: quem somos, o que nos qualifica como escritores, nossa formação. Enfim, um retrato resumido de cada um.

    Tenho filhos, netos, família e amigos. Estudo. Publiquei livros de contos e crônicas, além da minha autobiografia. Tenho três graduações, fiz pós-graduação e posso afirmar: estudar foi e, ainda é parte importante de quem sou.

    No entanto, minhas referências como autora em “nosso site” são as pautas que me inquietavam quando decidi me dedicar exclusivamente à escrita: envelhecer e parar de trabalhar.

    Dois dilemas que me ocupavam a mente, provocavam reflexões e despertavam temores.

    Águas passadas…

    Aposentei-me entre os cinquenta e oito e os sessenta e seis anos.

    Nesse intervalo, flertei com a leveza de não ter horários, com a liberdade de escapar da rigidez hierárquica, da dureza das opiniões e de tudo aquilo em que me transformara como funcionária pública.

    Passei a ser uma estagiária sênior.

    Gostei! E, quando cansei, deixei de vez a vida pública e me tornei aposentada.

    Quanto ao envelhecer, só me dei conta quando troquei o batom vermelho pelo “cor de boca”; quando substituí os saltos pelos tênis, seja por conforto, seja por questões físicas.

    Aos sessenta e nove anos, saudei a minha velhice com um poema. Fiz isso com galhardia, consciência e verdade.

    Resolvidos, portanto, os dilemas da idade e do tempo ocioso, restava-me outra inquietação: quem seriam, agora, as minhas heroínas?

    As heroínas!

    Aquelas que, das páginas dos romances, nos forjaram, inspiraram, despertaram inveja ou compaixão.

    Mulheres que nos fizeram pensar não só em nós mesmas, mas no mundo, nas relações, em nossos direitos…

    Ou aquelas de quem apenas copiamos modelos de roupas ou frases de efeito.

    As mocinhas destemidas, submissas ou valentes, lindas e amadas.

    E também as que sofriam, ou faziam sofrer, a quem condenávamos ou aplaudíamos.

    Também conhecemos personagens que, mesmo em sua feiúra ou pequenez, nos fascinaram a ponto de não conseguirmos abandonar a leitura antes do fim.

    Mulheres descritas de forma nua e crua, com falhas humanas, como aquela que, ao perder a beleza e os prazeres da carne, passou a comer sem parar até se tornar obesa em Shangri-la, o Horizonte Perdido?

    Ou a governanta cruel de Primo Basílio?

    O que dizer de Madame Bovary, no misto de idealização romântica, insatisfação crônica e busca por relações insustentáveis?

    Tudo mesmo já foi dito, escrito, lido?

    Não haverá mais heroínas que possam me inspirar?

    Ou será que elas continuam escondidas nas entrelinhas, aguardando que eu as descubra, como quem abre uma janela e deixa entrar um sopro de vento novo?

    Quero ainda me surpreender, enternecer, admirar…

    No meio da multidão, no silêncio dos asilos, nos cabelos brancos exaltados pelo modismo, eu busco, eu quero, eu preciso.

    Onde estão minhas heroínas?

  • A eternidade possível

    Morreu o meu primeiro beijo. Junto com ele foi enterrada uma fração da minha eternidade. Memórias dos medos compartilhados, dos sonhos impregnados na pele, do riso frouxo de nossa meninice. 

    Foram sepultadas as emoções que eu causei, as palavras e gestos que de mim fugiram para morar em sua recordação. 

    Diante da notícia crua, áspera, concretada na impossibilidade de um adeus, surge como um rito acessível, a crônica, corpo real da palavra sobrevivente do fim.

    É através dela que ofereço ao querido Alexandre Guimarães, menino sensível, doce e leal, um pedacinho de eternidade nesse mundo. 

    Para isso, registo aqui o pequeno poema que ele me escreveu no pulsar da nossa cumplicidade adolescente:

    “Você é o índice das coisas maravilhosas O resumo de tudo que é divino.”

    Embora tenhamos nos perdido nas vielas do destino, jamais esqueci as palavras desenhadas num pedacinho de papel amassado pelo tremor das mãos. 

    Desconheço se ele foi feliz, se aprendeu a lidar com o medo de ser quem era, se encontrou o amor que merecia viver ou o que pensou na hora de partir… tudo isso está soterrado sob o Nunca Mais.

    Vívida em mim, resta a lembrança do quanto nos apoiávamos para enfrentar a perseguição dos populares da escola (ainda não existia o conceito de bullying).

    Nosso primeiro encontro se deu diante da ameaça de uma surra dos mais velhos na saída da escola. Eu, menor que você, segurei seu braço e afirmei: vem comigo! Ninguém vai te bater. 

    Você, com seu sorriso de crença, ergueu a cabeça e aprumou-se como se recebesse um salvo-conduto. Sua fé foi tanta que me acreditei forte.

    Escapamos dos maus e nos inventamos num beijo inaugural para ambos. Feito muito mais de alívio do que de paixão. 

    Nos tornamos amigos porque precisávamos mais de colo do que de romance. 

    Agora, diante do luto, só me cabe celebrar a sorte do nosso encontro no tempo que nos precisávamos. 

    No final, o que se eterniza de qualquer um de nós é o que a palavra pode contar. 

  • Pontuar

    Em uma de suas crônicas, Luis Fernando Veríssimo afirma que nunca usou o ponto e vírgula. A observação do escritor gaúcho, que é antes uma blague contra os gramáticos e puristas, sugere-nos algumas reflexões sobre a arte de pontuar. Ela tem a ver com um dos atributos fundamentais da poesia ou da prosa, que é o ritmo. Literatura é linguagem ritmada, e para se imprimir ao texto o seu ritmo é fundamental o uso desses sinais, que, se a alguns aborrece e inibe, a outros empolga e mesmo encanta.

    O ritmo é uma espécie de virtude metafísica da literatura. Um erro de grafia tem conserto, basta que se consulte um formulário ortográfico. Uma falha na concordância, na regência ou na colocação pode ser sanada com uma consulta gramatical. A falta de ritmo, traduzida entre outros indícios pelo mau emprego dos sinais de pontuação, sugere que o sujeito não dá mesmo para o ofício. É um míope verbal e certamente usará de modo inadequado as palavras. Pois não há semântica adequada sem um adequado suporte rítmico. A palavra errada é sobretudo a palavra fora de tempo.

    Pontua-se como se respira, respira-se como se pontua. E quase sempre ocorrem os exageros. Há os que decompõem o enunciado, abusando do chamado fragmento de frase. E picotam o período. Às vezes sem necessidade. Apenas pelo gosto de fracionar. De separar. De isolar os componentes da oração. Sujeitos. Predicados. Complementos.

    Há, pelo contrário, os que constroem períodos densos, longos, torrenciais, desses que tendem a abusar da paciência do leitor, coitado, que parece estar atravessando um rio interminável e caudaloso, e fica na expectativa de que aquilo termine, pois, com o tempo, ele até já esqueceu o que foi dito no início da frase e tudo o que deseja, a partir de certo momento, é que o escritor se compadeça da sua paciência e mesmo do seu fôlego, que dentro em pouco lhe faltará como já lhe falta a boa vontade para prosseguir na leitura, e ponha enfim nessa teia aparentemente infindável um ponto final. Ufa!

    Há os que se exaltam à toa e abusam do ponto de exclamação. Sempre! Até sem motivo! Como se vivessem numa perpétua euforia! Ou num perpétuo susto! Há os que abusam das reticências. Esses não dizem logo tudo, fazem …suspense. Preferem deixar sempre alguma coisa no vento, no ar… Imaginam que nesse deliberado laconismo é que mora a sutileza… O gosto de sugerir, explorar as entrelinhas, sabe como é… Pois o texto fala mais, quando… Eu sei que vocês me entendem… 

    Há os que (e esses geralmente são perfeccionistas) gostam de intercalar vários parênteses em seus períodos. Como se fosse necessário (às vezes é, mas eles exageram essa preocupação) fazer contínuas ressalvas às próprias ideias (mesmo as que já se tornaram claras para o leitor). Eles têm receio de que seu discurso (que eles supõem, geralmente, traduzir uma mensagem valiosa e útil) não seja suficientemente vigoroso (e sobretudo claro, inteligível).

    Há os que não resistem ao excessivo emprego dos: dois pontos. Esses parecem estar sempre preparando: uma surpresa, um desenlace inesperado para o leitor. Que acaba deixando de se surpreender, pois os dois pontos terminam previsíveis, constituindo uma espécie de alerta falso. E já deixam o leitor: de orelha em pé.

    Há, enfim, os obreiros da vírgula, que, numa espécie de afã asmático, virgulam, com disciplina espartana, sempre que a norma determina. A esses, pouco importa que o sentido se torne claro, no próprio fluir da corrente verbal. Se a regra manda, mesmo, contra o ritmo natural da fala, eles, prestos e soldados, vão largando, a intervalos breves, curtíssimos, as suas vírgulas, que, para o leitor, equivalem a pedregulhos, ou valas, ou, enfim, a obstáculos, que dificultam o, já difícil, ato de ler.

    E tu, leitor, qual o teu ritmo? Como é que, lendo ou escrevendo, tu respiras?

  • Duas dedicatórias, duas supostas histórias

    Toda obra literária contém mais do que aquilo que o autor quis entregar nas linhas por ele redigidas. Mas os livros enquanto objetos (embora de caráter quase metafísico) também nos contam mais do que o que há impresso nas suas páginas. O processo de editoração, a capa, os paratextos, tudo isso diz algo. E há a própria história do exemplar que temos, assim como as que ocorreram em torno dele, ambas deixando os seus vestígios.

    Nesse aspecto, os antigos são infinitamente mais ricos que os virgens recém saídos da gráfica. Os sebos são verdadeiras minas. Ao longo das explorações pelas galerias de estantes e seções, damo-nos com volumes e experiências idas e vividas. Algumas destas deixaram suas marcas apenas nas pessoas, esvaindo-se com elas; outras, entretanto, fincaram-se no papel, clamando para serem exumadas.

    Esse protesto do passado contra o esquecimento se mostra de maneira especial nas dedicatórias. Sob suas diversas formas, carinhosas, de admiração ou apenas protocolares perante um pedido; essas inscrições dizem e guardam muito. A partir delas, se nos dermos o direito de imaginar, podemos recontar muitos casos e até os criar.

    Diante das várias com que já me deparei, duas despertaram minha curiosidade e fabulação. Apesar de ter sido comprado no sebo da cidade e haver pertencido a um paraibano, o oferecimento com que me deparei em O norte agrário e o império indica Recife como local do possível encontro. “A Odilon Ribeiro Coutinho, homenagem muito cordial de Evaldo Cabral de Mello. Recife, 1985”, escreveu o autor, deixando claro o erro dos editores ao gravarem o seu sobrenome na capa com apenas um “l”.

    Diplomata de carreira, Evaldo servia em Lima, quando, um ano após o lançamento daquele estudo, esteve em Recife, sua terra natal. Odilon também tinha suas ligações com a capital pernambucana, tendo se formado em direito pela UFPE e, posteriormente, vendo-se vinculado à Fundação Joaquim Nabuco. Embora nem tudo entre eles fosse semelhança, o interesse intelectual pelo que hoje compreendemos como Nordeste os unia, principalmente, o pelo Nordeste de verdes canaviais.

    Este se localizava nos seus trabalhos e nas suas origens familiares. Como também estava em Gilberto Freyre, primo de Evaldo e amigo de Odilon, que pode ter estado no centro dessa reunião, em alguma ocasião que desconheço, mas sobre a qual a fertilidade de minha mente não se nega a fantasiar.

    Não obstante aquele ainda fosse seu segundo livro, o autor de Olinda restaurada já aparecia como uma figura da maior importância para a historiografia brasileira. Certamente, poder dialogar com ele gerou entusiasmo no Ribeiro Coutinho. Produto da sua conhecida rabugice ou simplesmente falta de entusiasmo do recifense pelo seu interlocutor, convém ressaltar a secura do que foi grafado, que deve ter jogado alguma frustração no usineiro, caso este pretendesse uma maior aproximação.

    Maior afeto e cumplicidade parece ter permeado a relação entre dois poetas. “A Astier Basílio, poeta. Esta lembrança do seu novo amigo”, foi o que encontrei em um exemplar de Curral de peixe, de Lêdo Ivo, que assina a dedicatória, seguida da designação do ano, 2003.

    De um lado, Astier jovem; do outro, o já consagrado autor de Ninho de cobras. Sem data tópica, meus devaneios alcançam maior liberdade. Ainda iniciando a carreira literária, o pernambucano de Campina Grande teria entrado em contato e enviado um livro seu a Lêdo Ivo. Cortesmente, o alagoano remeteu outro, não o seu último, mas o publicado oito anos atrás.

    Devido ao reconhecimento e ao início de uma interação, Lêdo deve ter estado contente. Maior alegria teria experimentado o jovem literato, podendo encaminhar um material seu para o poeta que admira e recebendo resposta dele sobre o texto, algo que muito anima quem está a publicar os primeiros trabalhos.

    Talvez tenham existido outras trocas posteriores, através dessas amizades que muito enriquecem os escritores, tanto os que estão começando na literatura, como os que já estão terminando a vida. Odilon Ribeiro Coutinho morreu há 21 anos, dos diversos itinerários que seus bens devem ter tido, o dito exemplar acabou no sebo. Não sei o motivo pelo qual Curral de peixe caiu no mesmo lugar. Poderia procurar o destinatário daquela dedicatória para perguntar e, quem sabe, iniciar um diálogo. Talvez, faça isso um dia.

    Agora, porém, não desejo certezas, murchariam a imaginação. Nesse momento, quero apenas ficar em minhas fabulações, viajando pelas histórias que os livros contam e pelas que eu crio.

  • Conversas aos pedaços

    Nada mais moderno e urbano do que escutar parte de uma conversa. Na rua, no elevador, em uma loja, no metrô, no cinema, enfim em qualquer lugar onde seres humanos circulem falando. Você passa e capta um pedaço da frase.

    Algo como “leva o cachorro para passear antes” e não conseguia escutar mais nada. Tinha que imaginar o restante do que seria dito. Na maior parte dos casos não valia à pena o exercício mental porque era sempre algum papo trivial demais. Ao menos para você, o ouvinte, porque para quem falava devia ser algo essencial. Ou não, vai saber.

    Antes para por em prática a arte de pescar conversas aos pedaços você precisava de ao menos dois indivíduos de nossa espécie. Um falava com o outro e a gente, de passagem, tropeçava nas partes das frases. Agora ficou fácil. Basta uma única criatura munida de seu telefone celular para fazer a festa dos caçadores de pedaços de conversa.

    E a coisa se ampliou bastante nos últimos tempos. A popularização do uso dos fones de ouvido, conectados aos telefones celulares, criou um festival de gente andando e falando pelas ruas que chega a ser assustador. Circulam no maior desembaraço tagarelando em alto e bom som. É uma falta de cuidado com o que falam misturado com uma necessidade de se mostrarem ocupados que nem sei onde vão parar.

    Quando os ladrões passarem a roubar fones de ouvido essa gente vai se inibir. Já o conteúdo das conversas mudou pouco. Pode fazer o teste. A maior parte da tagarelice continua sendo bobagem.

    Minha última experiência como pescador de conversa alheia, no entanto, me surpreendeu.

    Estava caminhando no parque da Aclimação, em São Paulo. Domingo de sol que me chamou para dar umas voltas e queimar calorias. Estava na terceira volta pelo lago, não, mentira, era o fim da segunda volta. De todo modo, ia animado quando passei por uma mulher que, no exato momento em que eu a ultrapassei, disse a seguinte frase: não se arruma alguém para matar esse cara.

    Parei na hora. Me virei espantado encarando-a. Ela percebeu, deu um sorrisinho e disse que não era comigo. Olhei em volta e não vi mais ninguém espantado com a frase. Será que ela tinha o hábito de acertar essas, digamos, pendências, dando voltas no lago e falando em alto e bom som?

    A mulher, ainda parada perto de mim, insistiu que não era nada demais. Concordei, deu um sorrisinho débil, me virei e fui embora.

    Por via das dúvidas acelerei o passo e fiz o caminho em zigue-zague para dificultar a mira do atirador. Vai quê…

  • Febre de sentir!

    Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas.

    São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos.

    Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com sintomas doentios, sem regras saudáveis e com grande efeito dolorido após um encontro, que mais parece um embate competitivo.

    Os invejosos, que são os que tem satisfação com o fracasso alheio, guardam em si o prazer secreto em oferecer um alívio para sua responsabilidade em buscar o melhor de si. 

    Mas que, na verdade, seus medos, os mantém distantes de qualquer crescimento que perceba facilmente ao seu redor.

    Para quem sofre esse ataque emocional, por vezes não permite ter o ato de exteriorizar o que machuca ou incomoda, de transformar experiências difíceis – físicas, mentais ou emocionais – em palavras, ou linguagem escrita, sem receios ou filtros, o que poderia trazer alívio, clareza e serenidade.

    Uma oportunidade singular de colocar pensamentos, medos, angústias e anseios em perspectiva, é transformar experiências em palavras escritas, dando um passo adiante no reconhecimento de problemas e na busca pelo melhor modo de lidar com eles.

    Segundo a psicanalista Daisy Dalmáz, a escrita por si só é um sinal de evolução. “Sabemos que o mundo das ideias pode tudo”, mas quando colocamos todo nesse universo interno na escrita, ocorre um salto de qualidade, pois, ele precisa ser organizado, precisa adquirir sentido, expressando um encadeamento de ideias e sentimentos.

    O processo precisa ser direcionado para um conteúdo que expresse SENTIMENTOS, e não SITUAÇÕES (por exemplo: “senti raiva” ao invés de “gritei muito” ou “senti tristeza” ao invés de “chorei”).

    Aos poucos, as pessoas que seguem com a prática vão se familiarizando com a elaboração dos textos, além de aguçar a criatividade e a percepção de suas emoções mais profundas, num belo processo de autoconhecimento e fortalecimento interno.

    Como escreveu Fernando Pessoa: “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”.

  • O paradoxo das leis de proteção aos cães no Brasil

    De vez em quando, o Brasil acerta na proteção aos animais. O Governo de São Paulo, por exemplo, tomou uma decisão justa ao proibir o acorrentamento de cães e gatos no Estado. Uma lei que soa óbvia, mas que só agora, em pleno século XXI, recorda o que qualquer responsável sempre soube: prender um animal pelo pescoço não é educar, é torturar. Cães não nasceram para viver sob grilhões. Nasceram para correr, farejar, vigiar, proteger e amar. Quando lhes roubam esse direito, não é apenas a liberdade que se perde, é a dignidade de um ser senciente que é negada.

    Nem toda lei criada pode ser chamada de necessária. Muitas vezes, são apenas cortinas de fumaça que não atingem o problema em seu cerne. A falta de conhecimento leva a legislar mal. Foi o que aconteceu em Campinas, onde vereadores propuseram proibir de vez o uso das coleiras eletrônicas, os chamados e-collars. A boa intenção é inegável. Afinal, quem gosta da ideia de dar choque em cachorro? Só que a vida é mais complicada do que a pauta de uma sessão de Câmara Municipal. Essa lei pode acabar virando um tiro no pé: condenando justamente os cães que poderiam ser salvos por um último recurso. A vida não cabe em generalizações. Há cães que não se enquadram no “sempre” ou no “nunca”. E é justamente aí que mora o perigo de uma proibição cega.

    A ciência já mostrou que reforço positivo pode ser um caminho mais adequado para substituir métodos arcaicos. Cães educados sem violência tornam-se mais estáveis, confiantes e felizes. Bater, ameaçar, causar dor, nada disso é linguagem canina. Além de não educar, semeia medo e alimenta a agressividade. Mas a realidade, áspera como é, também impõe exceções. Nos registros silenciosos das estatísticas aparecem os casos extremos: cães que se tornam ameaça constante, que atacam seus próprios donos, que colocam em risco vizinhos e famílias inteiras. Donos exaustos, depois de verem todas as técnicas falharem, encontram-se diante de um dilema cruel. Nesse contexto, sob protocolo clínico, técnico e ético, o e-collar deixa de ser castigo e torna-se ferramenta de resgate.

    A filosofia já dizia, muito antes de a ciência confirmar: a virtude está no meio-termo. Aristóteles chamava de phronesis, a prudência. Nem a tirania da dor, nem a ilusão permissiva do “tudo pode”. Entre esses dois extremos ergue-se o ponto de equilíbrio: autoridade sem crueldade, firmeza sem violência, atitude sem condenação. No Treinamento Invisível seguimos essa linha. A guia funciona como extensão do corpo, o olhar age no instante preciso; o gesto conduz sem brutalidade. Tudo isso vale mais do que qualquer mecanismo elétrico. Mas também sabemos reconhecer o imponderável. Em situações complexas, uma ferramenta pode significar a diferença entre a vida e a morte. Negar sua existência pode soar confortável, mas na prática é condenar cães ao abandono ou à eutanásia.

    Por isso, é preciso afirmar sem rodeios: sou contra cães acorrentados. A imagem de um animal acorrentado é, por si só, angustiante. Mas sejamos honestos: em alguns casos extremos, recorrer ao e-collar para evitar um fim trágico pode ser a única saída. Não é escolha fácil, nem deve ser banalizada. Só se justifica quando ciência, ética e circunstância caminham juntas, quando tudo já falhou e não restam alternativas. O risco, nesses momentos, não é apenas técnico: é moral.

    E é nesse contraste que mora o paradoxo: São Paulo quebra as correntes para que os cães vivam. Campinas ameaça abolir a última porta para que alguns condenados continuem vivos. Uma lei que liberta, outra que, se não refletida com prudência, pode aprisionar de outra forma. Entre as duas, está o desafio maior: compreender que educar não é prender nem castigar, mas também não é cruzar os braços diante do irremediável. A vida pede equilíbrio. E os cães, mais do que ninguém, estão entre nós para ajudar a trazer discernimento.

  • Que graça tem um livro?

    A graça de um livro? Ele te dá prazer. Se você não está lendo por obrigação, está envolvido na viagem mais deliciosa que poderia fazer — não apenas por países, sem precisar de passaporte, mas também por épocas. Um livro faz voltar no tempo.

    E a razão é única: prazer.

    Você escolhe uma história, se delicia lendo sinopses, acolhe a dica de um amigo e vai. Um livro não precisa te dar lições de vida, nem te deixar rico, nem transformar a sua existência.

    Eu era um simples vigilante de galpão quando viajei por vários planetas com O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Na vida real, cuidava de um depósito de sinalização de trânsito. Quando adolescente, antes que meus olhos fossem contaminados pela banalidade dos noticiários, li Capitães de Areia, de Jorge Amado, e me misturei a Pedro Bala, Dora, Volta Seca — meninos de rua da Bahia. Li também Cartas a um jovem poeta, de Rilke; Knulp, de Hermann Hesse, durante a crise dos 40 anos; e O Triste Fim de Policarpo Quaresma e Clara dos Anjos, de Lima Barreto, devorando-os nos ônibus, indo e voltando para o centro de BH.

    Por que eu lia? Porque gostava. E ainda gosto. Só isso.

    E o que dizer de O Bebê de Tarlatana Rosa, de João do Rio, que me transformou em folião de carnaval? Surreal: um livro me pôs na avenida, sem eu sequer sair da poltrona. Estranho, não é? Se a gente fica parado lendo, as pessoas acham esquisito. Devia estar jogando bola, sambando ou correndo. Mas não: eu lia.

    Li pela primeira vez Crônica de uma namorada, de Zélia Gattai — esposa de Jorge Amado — ainda no ensino fundamental. Era ruim de bola, preferia ler, e me fascinava o mundo que Zélia trazia. Ler era gostar de ler. Nada além disso. Nem precisava.

    Já adulto, quando o trabalho me irritava, li Bartleby, o escriturário, de Herman Melville. O patrão de Bartleby, um advogado famoso, tinha um grupo de funcionários copiando processos no escritório. E Bartleby, de repente, virou-se para ele e disse: “Prefiro não fazer.” Surreal ver um empregado falando aquilo para o patrão. Eu ria, batia palmas, pensava: “Como assim?”

    Ler é das coisas mais fantásticas do mundo — conto, crônica, romance ou poesia. Dizer que leio só porque gosto é atrevido, eu sei, mas é a mais pura verdade.

    O melhor livro é aquele que a gente escolhe sozinho, sem resenhas e sem recomendações. Entrar numa livraria e deixar a vontade decidir. Aí, nunca tem erro. Comigo, sempre deu certo.

  • Poema #36: Nu

    O teu corpo,
    pássaro esculpido
    no assento do
    sofá da sala
    de visitas,
    é uma ampla sala
    onde te visito
    (abolida a noção
    de sonho
    sob o teu vestido),
    sempre que o desejo
    do corpo desenha
    a moldura de um
    pássaro
    em teu assento

    Inventário de Sombras

  • Poema #07: Ressaca

    onda mortiça,
    que oculta em seu manto de espuma?
    pérola ou lixo?
    fragmento de concha ou ponta de vidro?
    cobertor de areia
    espelho de estrela
    poça onde a sereia afônica afunda os pés sem dedos

    O corpo inteiro afogado no poço sem fundo.
    A memória em desordem de molho no sal.
    O olhar que vacila

    (à procura de terra firme?)
    vê diluir-se um segredo na força da água.

    no avanço
    no refluxo
    o vaivém ritmado
    pinta no chão
    uma sombra ondulada
    que apaga

    São suas ondas, maré postiça,
    que trazem não mais que pistas
    embaralhadas pelo mar,
    que tragam o passo na amarra dura
    da areia úmida de outro lugar.

  • Acaso e correlações à brasileira

    Não há o nostálgico soar do ‘tic tac’ de relógios analógicos, mas a tela mágica do meu notebook indica que já ultrapassa a meia-noite. Desato nós de uma miríade de tarefas quando um barulhinho agudo e oco ecoa por cima da lauda da peça teatral que em breve encenarei, em minha improvisada mesa de home office:

    Uma joaninha.

    O corpinho vermelho hesita em emergir por entre asas a se debater, incessantemente. As características pintas pretas estão lá, e eis uma joaninha dentro da minha casa, a pousar sobre os intrincados nós da minha vida presente! Que auspicioso!, reflito comigo mesma. O exíguo inseto caminha um tanto quanto tremelicante sobre o título do espetáculo, passa pelo meu nome artístico, assinado à caneta (como se eu fosse alguém de prestígio na vida) e desliza para fora dos papéis, alcançando a laminação melamínica da chapa de MDF, o improviso de uma superfície de trabalho. Acima, nas paredes com tinta desbotada pelo tempo, veem-se adesivados o cartaz do espetáculo vindouro, desenhos, rabiscos, várias anotações e medidas que, à primeira vista, não fazem sentido. O ventilador às minhas costas tenta assoprar para longe o calor deste ‘pré-verão’, que veremos, sem dúvida, muito mais forte na próxima estação. A primavera já anuncia sua partida, ela que é a mais bonita e majestosa de todos os quatro ciclos, e soma mais um ano à minha vida – 2023 tem se revelado, especialmente, um ano desafiador e habilidoso na criação de emaranhados labirintos.

    Minha cabeça, que estava a mil há pouquíssimos segundos, reseta a si mesma enquanto observa o inseto — que cai por entre o espaço do MDF e da parede, e retorna, triunfante à marcação cênica iluminada pelos holofotes que são meus olhos.

    Joaninha…, mas… Por quê?

    Por qual motivo este minúsculo ser alado carrega o nome de uma dama? Fosse o início do ano, dirigiria a pergunta ao Google, mas temos o ChatGPT — que a esta hora se configura como uma das mais ilustres companhias, sem externar qualquer traço de cansaço; prontamente recebo um breve relato sobre a afinidade de São João e a dama sobre a minha mesa, Joana (peço desculpas pelo apelo ao vocativo, se o inseto em questão for do gênero masculino): geralmente a Coccinellidae aparece em 24 de junho, onomástico de São João Batista. Em outras culturas é ainda conhecida por “vaquinha de Deus” ou “vaca louca” — mais condizente com seu pouso em minha noite.

    Vaca por conta das manchas/ pintas, sublinha o resumo. E ainda compartilha o nome científico de sua linhagem com outros artrópodes, a exemplo das “marias-fedidas”. E ainda assim é associada a um presságio positivo, vai entender. O fato é que, vermelha como a nova tendência nas passarelas milanesas, “Jo” velozmente se adequa ao layout dos meus dilemas, conferindo elegância à minha noite repleta de inquietações. O silêncio da madrugada amplifica cada movimento, tornando os passos desajeitados da pobre criatura ainda mais evidentes e perceptíveis.

    Se a esta hora, em meio ao meu inferno astral, surpreendida sou pela visita de toda a sorte do mundo, bem…, é como acertar os números na loteria! Persigo os mais próximos, mais emblemáticos e percebo apenas letras. Construo uma lógica e uma contrária, e ainda outra que transforma o alfabeto em uma equação matemática. No entanto, passa da meia noite; a loteria federal sorteia aos sábados e quartas-feiras, já é domingo… Me resta o jogo do bicho, sorteio único domingueiro, na banca do Chico.

    Hoje vai dar vaca na cabeça!

    *Texto escrito originalmente em 12/11/2023 para o Crônicas Cariocas.

  • Por aí

    Todo mortal que se preze já experimentou, em algum momento da existência, o desejo profundo de sumir sem deixar rastros. Não me refiro aqui a nenhum tipo de ideação suicida. No caso em questão, a pessoa deseja apenas evaporar, ela não quer morrer. Pelo contrário, intenciona viver plenamente, começar do zero, porém, longe do cenário no qual se encontra inserida seja por não suportar as pressões familiares, as cobranças sociais, as relações abusivas, as dívidas, a decepção amorosa, seja simplesmente por sentir o esgotamento psicológico que algumas relações provocam ao exigir muito e retribuir quase nada.

    Na maioria das vezes, o desejo de desaparecer nos invade e, depois, catequizados pelas circunstâncias, pelo afeto restante ou pela impossibilidade do feito, ele se esvai. Então, cientes da sazonalidade desse querer, seguimos em frente. Afinal, para que dar espaço ao que não vai acontecer? 

    Acontece que os japoneses decidiram levar isso a sério, e, pelo visto, já dispõem de empresas especializadas no desaparecimento voluntário chamado por eles de “johatsu”.

    O processo é simples: você contrata o serviço e a empresa cuida de tudo para que o sumiço seja bem-sucedido: mudança de nome, de endereço, nova documentação, tudo que for preciso para nunca mais ser localizado pelos indesejáveis.

    É fato que até para escafeder-se com estilo é preciso dinheiro. Caso contrário, o jeito é fazer umas gambiarras com o destino, simular umas saídas à francesa, quando possível, inventar umas desculpas para evitar encontros, mas sem muitas garantias de sucesso na empreitada.

    Por mais que a proposta possa parecer tentadora, confesso que não tenho esse desprendimento. Continuo acreditando que a melhor forma de resolver é ter a coragem de cortar o que não nos faz bem, treinar a arte de dar limites aos sem-noção e construir as fronteiras necessárias à saúde mental. 

    Agora já sabemos: se alguém sumir do mapa, contou com a ajuda dos japoneses.

  • Módicos Médicos

    A discussão em torno da presença de médicos cubanos no Programa Mais Médicos, alvo de retaliações do governo americano sob a alegação de que se encontrariam sob “regime escravo” e a serviço de uma ditadura, é um exemplo infeliz de como o clima de debate ideológico contamina até programas sociais que mereciam uma análise isenta e menos apaixonada.

    Para os apoiadores brasileiros de Trump, por ter sido instituído durante a gestão Dilma e por abranger profissionais originários da ‘execrável’ pátria de Fidel, o programa padece de um pecado original irreparável. Os ‘doutores’ seriam na verdade perigosos agentes infiltrados dedicados a expandir os tentáculos do comunismo internacional.

    Em meio a esse transcendente embate epistêmico-doutrinário, submeto uma banal questão: “A presença de médicos cubanos no programa está dando bons frutos?” Pelo que me informei de fontes fidedignas, os resultados têm sido bons. Se não por outra razão, uma oportunidade única de levar profissionais da saúde a regiões carentes.

    Os cubanos (que representam 10% do total dos médicos do programa), muitos portadores de cidadania brasileira, estão diligentemente cumprindo a missão de promover assistência a tais áreas, propiciando êxito ao programa. Seu objetivo não é fomentar doutrinação marxista. Os coitados emigraram ao Brasil com um objetivo bem mais despretensioso (mas não menos ‘revolucionário’): prestar auxílio clínico a pessoas necessitadas. Não prescrevem panfletos incitando a revolução, apenas receitas de medicamentos e xaropes. São ‘módicos médicos’.

    Por mais que resistamos em admitir, a medicina em Cuba é bastante avançada, e sua excelência é internacionalmente reconhecida, até pela OMS. Deveria ser um privilégio contar com pessoas com boa formação prestando auxílio suplementar a um país que conta com um médico para cada 400 habitantes.

    Considere-se ainda que tais profissionais, em troca de um salário líquido de 12 mil reais, são conduzidos aos mais longínquos rincões, aos quais os ‘filhinhos de papai’, formados nas boas (e caras) faculdades de Medicina, recusam-se a atender, preferindo cuidar de madames hipocondríacas nas regiões nobres das grandes cidades.

    Em 12 anos de vigência do programa com milhares de profissionais atuantes, não se tem notícia de um caso notório sequer envolvendo negligência ou falta grave no atendimento. Deveríamos nos preocupar isso sim com os recorrentes casos de pessoas não habilitadas praticando cirurgias plásticas mal sucedidas em dondocas narcisistas ou com as centenas de casos de pacientes esquecidos em filas de espera de hospitais públicos, à espera de médicos displicentes que não cumprem o horário.

    O programa Mais Médicos tem atendido com louvor aos propósitos dos países signatários. Serve a Cuba que tem a possibilidade de empregar profissionais formados em suas faculdades de Medicina, obtendo uma remuneração adequada para os padrões daquele país. E serve ao Brasil que consegue oferecer serviços de saúde a populações abandonadas pelo poder público. Não há qualquer razão plausível para rever esse acordo, benéfico a ambas as partes.

    Milhões de brasileiros seriam prejudicados pela saída desses médicos. São pessoas simples de comunidades afastadas que sentirão saudades dos cubanos.  Não sabem onde fica o Caribe e não entendem nada de política. Se privados do atendimento, talvez comecem a pensar a respeito.

    Talvez se fizesse melhor se, ao invés de questionar a presença desses humildes profissionais que estão exercendo uma relevante função social, empenhasse-se em nos livrar de políticos cuja ausência ninguém iria notar, a não ser pela melhora na situação das contas públicas.

    Somos vítimas de uma incurável epidemia de insensatez. Deve haver realmente algo muito doente nesse país insano que assiste impotente à evasão de milhares de cérebros privilegiados em busca de melhores condições de trabalho no exterior, enquanto discute dispensar serviços de médicos apenas por sua nacionalidade.

  • O Que Serei Quando Eu Crescer?

    Não… não vou escrever sobre os influencers… nem falar da infância usurpada… tampouco dos “responsáveis” pais… nem se o assunto da semana atende à pauta X ou Y.

    Como bem disse uma colega escritora: “tudo parece ser mais do mesmo.”

    Também não vou falar sobre coisas insanas, ou assuntos pavorosos. 

    Mas a minha inquietude em ver as letrinhas uma atrás das outras, formando palavras, enfileirando emoções, causando aflições, não é fácil de ser administrada.

    Sendo assim, fui lá em meus escritos antigos buscar algo inusitado ou diferente, um “achado”, talvez.

    Minha mente-esponja absorve muito, e dessas memórias escrevo contos: às vezes bobos, outros nem tanto.

    Portanto, a minha crônica semanal será um desses contos singelos, da idosa atual olhando a menina ingênua e curiosa do passado:

    O Menino

    Na missa, ajoelhado, mãos postas, olhos fechados, ele rezava.

    A cena se repetia todos os domingos. Roupa branquinha, cabelos pretos cacheados, olhos pintados, ele rezava.

    A garota se encantava com a sua postura e imaginava qual seria o seu pedido. Não, ela não tinha alcance para se comover com a prece em si, pois tinha uns sete ou oito anos. E, nessa idade, apesar da beleza da cena, o que mais a impressionava eram seus olhos. 

    Por sobre as pálpebras fechadas, ela via o risco preto do lápis.

    E durante a semana o esquecia.

    No domingo seguinte, lá estava ele outra vez: olhos fechados, olhos pintados.

    Com a curiosidade própria das crianças, a garota tentou saber com a irmã por que ele usava “coisas de moças”.

    Levou um pito e foi mandada calar a boca. Nenhuma resposta, nenhum crédito.

    Passaram-se os anos, e ela nunca mais o viu.

    Era meados dos anos 60, em uma cidadezinha provinciana.

    O tempo passou, e a cena foi ficando guardada em um canto chamado memória…

    Em uma cidade pequena, na única igreja local, frequentada pelos idosos de famílias tradicionais, pais e mães jovens com suas barulhentas crianças, mocinhas faceiras, beatas e solteironas, um rapazinho ia à missa de domingo, com os olhos maquiados…

    Era uma grande demonstração de coragem, numa época tão longínqua e num interior tão conservador!

    Anos depois a garota soube que o menino audacioso e corajoso se tornou um ótimo professor e diretor da escola pública do município.

    E a curiosidade da garota se transformou em respeito e admiração.

    Fim.

    Pronto! Com esse pequeno conto minhas palavras voltaram. Não sobre os modismos, as pautas repetidas, nem o que se diz nas redes sociais. 

    Foram lembranças que, ao surgirem como um “serendipity” iluminaram o presente e deram novo fôlego à minha escrita.

    Confesso, porém, que não há como apenas contar algo do passado, sem fazer um paralelo com os jovens que hoje ocupam os noticiários.

    A ousadia e a inquietude da juventude são normais, até necessárias.

    Mas entendo que a formação e os valores recebidos em família são os alicerces para formar um adulto saudável e responsável.

    O dever, a consciência moral , o respeito não são modismos dispensáveis. 

    Há muito tumulto, no que estamos vendo e vivendo, pois o ser humano parece ter se esquecido de que a dimensão da vida é muito maior do que o sucesso instantâneo e a aprovação midiática.

    Nesse papel apenas nos tornamos marionetes, ávidos por validação, a qualquer preço.

    E penso, olhando para trás e para frente, que talvez a resposta à velha pergunta “O que serei quando eu crescer?” esteja menos em escolher uma profissão e mais em perguntar: “alguém um dia contaria a história da minha vida, com admiração e carinho?”

  • Uma Noite Alucinante

    zzzzzzzzzzzzz…..

    zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…….

    Júlio mexeu na cama enquanto se recusava a abrir os olhos. “Pernilongo maldito.” Pensou tentando não despertar por completo.

    SLAP! Uma batida de palma na escuridão, inútil. O diabo do mosquito pousou em seu nariz. “Isso é um despeito.” SLAP!

    “Aí!” Gritou enquanto massageava o nariz e abria os olhos contra sua vontade. Tateou ao lado da cama em busca da raquete. “Agora vocês vão ver seus filhos da puta.” 

    VUSH, VUSH, VUSH. Nenhum barulho; nada…

    zzzzzzzzzzz, Júlio pula da cama irritado e acende a luz. Seus cinco graus de miopia o impediam de distinguir qualquer coisa além dos móveis, ele se arrasta até o banheiro, resmungando enquanto coloca sua lente. Vlad, seu buldogue o encara sonolento, se levanta sacudindo o corpo e desce pela escada recém comprada pela internet seguindo o papai.

    A lente úmida encontra a retina e Júlio se olha no espelho, dezenas de pequenas marquinhas vermelhas cobrem todo seu rosto enquanto a veia da sua testa começa a pulsar, o ódio surgindo de suas entranhas. Ele olha as horas.

    03:15 cedo demais para acordar, tarde demais para voltar a dormir, levantava às seis para passear com Vlad antes do trabalho. Toda sua rotina arruinada por aqueles malditos sanguessugas barulhentos. 

    Furioso, irrompe pelo quarto buscando a raquete, mas seus olhos se arregalaram entre a surpresa e o medo. Milhares de pernilongos vagueavam pelo ar, outros parados na parede, alguns pousados sobre os móveis. Seus dedos se fecham ao redor do cabo e ele começa a balançar a esmo a raquete elétrica, como se estivesse segurando uma espada em um campo de batalha medieval. 

    Vlad corre pela escada, subindo na cama e se juntando no que acredita ser uma nova brincadeira. VUSH, VUSH. NHAC!

    Os olhos de Júlio arregalam ao perceber que Vlad acabara de abocanhar um pernilongo, os dois se olham nos olhos encarando-se por alguns segundos antes do pequeno animal abrir um sorriso e colocar a língua pra fora. Estava inchada.

    O ódio atravessa pelos poros do homem que grita de raiva enquanto continua a matar os mosquitos até que  a bateria da raquete acaba. Furioso, ele começa a usá-la como um martelo, esmagando os pernilongos ao invés de fritá-los com a eletricidade. Um sorriso sádico começa a se formar em seu rosto, uma crueldade que nem mesmo Vlad, sempre tão próximo e tão atento a cada expressão e tom, nunca vira.

    Assustado, o buldogue sai do quarto, deixando Júlio e seu ódio sozinhos com o inimigo. “Morram malditos!” Ele grita em plenos pulmões enquanto esmaga mais uma dezena de pernilongos. “Vai dormir filho da puta!” Uma voz aguda de outro apartamento no prédio urra.

    Percebendo um pernilongo perigosamente perto de seu rosto, Júlio abre a boca e usando a técnica ensinada por Vlad o abocanha. Sente um gostinho de sangue, gosta. Abandonando a raquete ele começa a pular atrás dos mosquitos, caçando-os com seus dentes, engolindo seus corpos inteiros, dois, três, cinco, dez por vez. O sangue se misturando a saliva em seu sorriso macabro.

    Ele arranha a própria pele se coçando cada vez mais, as unhas ferindo a pele, rasgando a carne. NHAC! Júlio abocanha mais uma dezena de pernilongos. Coça a pele, rasga a carne, morde o bicho, o sangue deles se misturando ao seu.

    “Ahhhhhhhhh” Ele urra arrancando um pedaço de seu braço revelando uma outra pele, uma outra forma, ao invés de um braço, uma pata. Seus olhos arregalam aterrorizados.

    Ele senta uma coceira nas costas e não conseguindo se segurar usa a grade da raquete para coçá-la, esfrega e esfrega, com força, violência, ódio.

    Um par de asas rompe por suas omoplatas, elas batem 

    zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

    seus pés saem do chão, ele flutua. Sorri. Engole mais pernilongos enquanto se despe de sua carne e forma, arrancando por último seu rosto, nenhum outro vestígio de humanidade.

    Vlad volta ao quarto, preocupado, apenas para encontrar um enorme mosquito, o encarando com aqueles olhos gigantes, aquelas presas prontas para consumir sangue. Ele late, uma, duas, três vezes.

    O que era Júlio olha o buldogue à sua frente e pousa ao chão. 

    Silêncio, não haviam mais pernilongos no quarto. Vlad late novamente subindo a escada até a cama, calmamente deitando em seu lugar favorito. 

    Ele vê a pata gigante daquele ser se aproximar de sua cabeça, fazer-lhe um carinho. Ele arfa antes de se ajeitar novamente para dormir. Seu olhar acompanhando aquela figura que encarava a janela como se questionasse seu destino.

    Vlad late e o enorme pernilongo vira aquela cabeça com olhos muito grandes para ele. Late novamente.

    O pernilongo então fecha a janela e se espreguiça ao lado do buldogue. Talvez ainda conseguisse dormir uma horinha antes de acordar.

    FIM

  • “Influencers” e que tais

    O ser humano tem dificuldade de pensar ou agir por conta própria. Necessita de quem o oriente, sugira um roteiro seguro nos descaminhos da vida. Essa característica da nossa espécie é que propicia o aparecimento de orientadores espirituais ou guias de comportamento.

    Não falta quem se aproveite do nosso natural desemparo para nos vender fórmulas ou manuais de conduta, nos quais estaria a chave para a conquista da felicidade. Só que esse caminho não existe fora de nós; deve ser construído por cada um. Nenhum guru conhece das pessoas o que elas intimamente são, por isso não pode apontar a ninguém o caminho que as faça felizes.

    Geralmente os que se dispõem a isso cobram bem pelos conselhos — o que é compreensível; ninguém, afinal, valoriza o que lhe é dado de graça. O problema é que eles ganham por vender aos outros ilusões. Pode-se alegar que muitos preferem mesmo se iludir a enfrentar a dura crueza da vida. Querem que lhes ditem os caminhos, livrando-os da difícil tarefa de fazer escolhas. Há nisso, porém, um grande risco; o medo de se perder pode acabar deixando-os na dependência de algum perdido.

    O mundo digital fez aparecer uma nova modalidade de guru — o “influencer” (grafado em inglês para dar mais prestígio). Que vem a ser ele (ou ela)? Como o nome diz, é uma pessoa que se propõe a nos influenciar em algum domínio do saber ou do comportamento. Também (ou sobretudo) pretende nos orientar quanto às escolhas de consumo — o que comprar, de que marca, quando enjoar de um produto e partir para outro. O “influencer” se aparelha para nos ditar o que devemos fazer (e como) a fim de adquirir habilidade em determinado setor e conquistar o almejado sucesso.

    “Sucesso” é uma palavra-chave no vocabulário deles. Não bem-estar, ou felicidade, mas esse termo que bem resume os anseios de quem vive numa sociedade competitiva e marcada por signos de ostentação como a nossa. O sucesso é um emblema exterior; dimensiona-se mais pelo que o indivíduo aparenta do que pelo que ele é.

    A internet, se não criou, multiplicou o número de indivíduos com essa função. Há “influencers” para todos os gostos (e desgostos). Eles querem sentir por nós, mostrar que a insatisfação com a qual levamos a vida
    decorre de não termos despertado para as atitudes corretas a tomar — atitudes essas que só eles conhecem.

    Não descarto a possibilidade de que haja entre pessoas dessa estirpe as bem-intencionados. As que se comprometem com uma causa, mesmo sendo ela a do enfadonho politicamente correto. Mas fico com o pé atrás. Não suporto a ideia de que tirem do homem a maior riqueza que ele tem — a de pensar por si mesmo.

  • Comer, morar e sobreviver!

    Vivi minha primeira vez em muitas descobertas, durante essa existência por vezes cansada de novas buscas. 

    A primeira viagem, a visita ao Museu, o primeiro castelo na areia, a roupa nova no verão. A primeira comunhão, e a festa de minha formatura na faculdade, foi inesquecível.

    Porém, muitos rostos que talvez tenham cruzado em nossa calçada, nem sequer sabem o que tudo isso significa, ou como poderia ser realizado. Porque ainda vivem em condições análogas à escravidão. Não consigo acreditar que escrevo essa frase em 2023, após Cristo nascer. São pessoas que não tiveram oportunidade em participar em nada similar a uma das sete gerações de uma família feliz e efervescente como foram os Buendía, descritos no livro “Cem anos de solidão”, por Gabriel Garcia Marques. Os escravizados levaram vidas lamentadas pelo isolamento, descaso e algo muito mais doído além do desumano. Alguns encontrados nessa condição são quase idosos, e com frequência acabam em abrigos públicos, onde iniciam sua vida social na busca de laços para uma reconstrução emocional. Quando são jovens e de centros urbanos, recebem cursos profissionalizantes na tentativa de encaminhar uma carreira.

    O rosto do trabalho escravo contemporâneo no Brasil, ainda é masculino e predominantemente da zona rural Brasileira. Existe uma coordenação Nacional de erradicação do trabalho escravo e enfrentamento ao tráfico de pessoas (Conaete); pertence ao Ministério Público do Trabalho. Somente em 2022, foram encontrados pela fiscalização, 2600 trabalhadores no Brasil, em condições degradantes de trabalho ou em jornadas exaustivas. Imaginei que somente os babuínos-sagrados, que vivem no Zoológico de Melbourne na Austrália, fossem as únicas criaturas capazes de cometer crueldades uns com os outros. Os pedidos de ajuda vem inesperadamente de ambos os lados, e um fio de esperança se mostra como sendo a única saída onde essas pessoas se agarram, cheias de fé de que uma boa alma possa colaborar com seu novo destino. Ter uma profissão, uma nova família, amigos, um sonho que muitos que se soltaram das garras de um caminho cruel, puderam usufruir como cidadãos de bem. A abolição ainda não encerrou, ela aconteceu apenas legalmente, é muito recente, e o Brasil ainda não reparou os 380 anos de escravidão; há muitos resquícios, e as necessidades em comer, morar e sobreviver levam o indivíduo a se submeter. Uma lástima que não resolvemos isso antes, e também não erradicamos a fome.

  • Minha luta

    Não sei se ainda estou perdida. As guerras de minha mãe e de meu pai devem ter afetado o meu psicológico severamente. Eles digladiavam com tudo, entre si, com o mundo. Tinham trabalhos que odiavam. Chegavam a casa resmungando ou gritando. Quase sempre eu era bucha de canhão. E olhe lá quando não me chamavam de menina mimada, sem ver para quê, e eu pensava que era justamente pelo fato de não me meter nessas tragédias diárias. Até que se separaram e eu dei graças a Deus. Pensei que as brigas iam cessar. Mas morar com minha mãe não foi a melhor opção — aliás, não tive opção. Minha mãe me pegava para Cristo e me impunha mais obrigações com a casa: arrumar, limpar, deixá-la brilhando. Eu era uma verdadeira cinderela, uma filha bastarda, só pode. Logo meu pai se amigou com uma gentinha e sumiu. Pelo menos ele não dava as caras para me aporrinhar com mais demandas. Se ligava, era uma vez perdida, para perguntar como eu estava, mas eu sentia que a pergunta era clichê, de praxe, só para demonstrar preocupação. Eu estava exausta e desamparada. Minha mãe ficou solteirona, reclamando da vida, culpando o meu pai por tudo que lhe acontecia. E o pior, foi mal-acostumada: não sabia mexer no computador, não sabia fazer compras virtuais, mal sabia usar o celular. Então, para tudo demandava a minha presença, e eu era obrigada a reparar as suas deficiências. Aos dezessete, tive a oportunidade de morar com a minha avó, e agarrei com unhas e dentes. Foi o momento para descansar e estudar. Minha avó, sim, foi minha mãe, cuidava da minha alimentação, se preocupava realmente comigo, com o meu bem-estar, com meus estudos. Inclusive, nessa época, me lembro, ganhei peso, e fui obrigada a me inscrever numa academia — no fim, foi bom porque me desopilava e via os gatinhos do bairro a que acabara de chegar. Não passei de primeira no vestibular para Odonto. Teria que fazer numa universidade pública. Tive mais tempo de estudar e, enfim, passei no ano seguinte. Mas ao longo da faculdade sentia um vazio, uma inadequação, como se tivesse feito a escolha errada. Seguiria a sina dos meus pais? Fiquei com medo de mudar de curso. Sempre gostei de literatura e tinha uma vontade velada de fazer Letras. Mas primeiro devia me formar em Odonto, por pura vaidade minha e pelo que os outros iriam dizer. Formei-me e trabalhei seriamente no ramo por dez anos. Depois resolvi fazer Letras, era uma paixão. O tempo estava escasso, a vida cansativa, mas eu me divertia. Meus pais só tinham orgulho da filha cirurgiã dentista — enchiam a boca para falar —, mas, de resto: nada. Não contribuíram com a minha formação. Pensando melhor, acho que me encontrei. Foram anos de luta até me formar em Odonto e em Letras. Por enquanto, Letras é um hobby. De uma coisa eu sei: os caminhos ainda estão abertos. Esqueci-me do amor, de amar. Talvez ainda haja chance para isso.

  • O Prazer de Desviar

    Não sei quanto a vocês, mas há palavras que me cansam só de ouvir. “Focar”, por exemplo. Palavra querida de coachs e gurus, parece um cabresto moderno: manda olhar sempre na mesma direção, quando é das distrações que a vida se enche de beleza.

    É como se, nos últimos tempos, quiséssemos eliminar do mundo todos os imprevistos: o botão da camisa que arrebenta, o carro que passa veloz numa poça d’água, molhando nossa roupa de lama, o outro que fala alto no ônibus e desconcentra a leitura. A vida, nessas horas, parece mostrar quem manda — que a gente não a controla, apenas se adapta, improvisa.

    Outro dia, num vídeo no YouTube, um psicólogo dizia para o espectador: “Você não pode namorar agora. Está ‘casado com seu mestrado’, tem que renunciar.” O rapaz estava com uma moça, mas era claro para quem assistia que ele estava sem tesão, que a mulher não o empolgava, que o coração não batia. Ele se enganava: “Estou casado com meu mestrado.” Mal sabia que o coração não conhece foco, o tesão menos ainda; é ele quem manda — e as surpresas da vida que dão as cartas.

    E aquela gente que programa as leituras para o próximo ano, para a próxima década, para as outras duas: “Agora, estou focado em ler os contemporâneos, agora, nos clássicos.” E se surgir algo mais interessante? Não pode?

    Tem também a pessoa que decidiu, sei lá por que cargas d’água, que precisa emagrecer. Você a convida para um restaurante novo, quer apresentar um sabor diferente, um vinho, um prato… e ela responde: “Mas agora, estou focada em emagrecer, perder peso, é minha meta do ano.”

    É como se, dentro dela, houvesse um Galvão Bueno gritando: “Foco, campeão! Não perca sua meta, não desista dos seus sonhos, dos seus objetivos.”

    Mas, como disse antes, a vida tem sempre razão. Ela muda, é imprevisível, escapa do nosso controle. Só que também traz surpresas boas. Um amor que surge de repente, a possibilidade de uma viagem, uma torta de chocolate que enche a boca d’água, um cheiro delicioso de café. Nesses momentos, pelo menos eu me permito gritar: “Dane-se esse tal de foco.”

    Um cheiro delicioso de café que a gente sente do outro lado da rua.

    Claro, na vida, precisamos fazer escolhas. “Ou isto ou aquilo”, como naquele poema de Cecília Meireles. Nem sempre dá para fazer tudo; escolher uma coisa é, às vezes, desistir da outra. Mas que saibamos que escolhemos — e, se quisermos, possamos chutar tudo para o alto se um caminho mais interessante surgir. Não precisamos que ninguém buzine no nosso ouvido: “Foco, foco.”

    Fazemos escolhas, sim. Sempre. Mas sempre temos a oportunidade de mudar, de fazer diferente, de deixar o coração querer outra coisa. É essa liberdade que torna a vida tão bonita.

  • Poema #06: Eco

    talvez uma nota só
    surge avulso na meia luz
    monótono feito o canto
    que se destina a embalar
    o teto o chão as paredes

    a coreografia do pó
    projeta no espaço em branco
    o sonho de não morrer
    o ritmo é a bolha que estoura
    no silêncio da distância

    rebate elástico o nó
    duelo que prende a resposta
    ao mesmo som da pergunta
    na teia da repetição
    a voz desafia o infinito

  • Poema #35: BREVE E LONGÍNQUO

    “… você marcou a minha vida, viveu, morreu na minha história, chego a ter medo do futuro e da
    solidão que em minha porta bate… eu corro e fujo destas sombras, em sonhos vejo este passado, e
    na parede do meu quarto, ainda está o seu retrato, não quero ver pra não lembrar, pensei até em
    me mudar… lugar qualquer que não exista o pensamento em você”.

    Edson Trindade/Tim Maia

    Breve, como breve é a luz da lua cheia
    Durante o eclipse solar da vida humana.

    Breve, como breve é a sombra da noite
    Durante o sono da vida como um lençol.

    Breve, como breve é o sonho do amor
    Durante o intervalo das ilusões perdidas.

    Breve, como breve é a existência do corpo
    Durante o trajeto sobre o planeta terra.

    Breve, como breve é a presença do espírito
    Durante o convívio quando se pensa em anjos.

    Longínquo, como longínqua é a essência dos seres
    Durante o percurso no trafegar das ruas atribuladas.

    Longínquo, como longínquo é tudo o que se vê
    Durante o passeio da câmara em panorâmica no alto.

    Longínquo, como longínqua é a felicidade íntima
    Durante a procura pelo convívio ideal a mais de um.

    Longínquo, como longínqua é a música do Yes
    Durante o embalo da paixão não correspondida.

    Longínquo, como longínqua é a ideia de um Deus
    Durante o desespero batendo nas grades da prisão.

    O Jardim Simultâneo

  • Testemunho de um incêndio criminoso

    Eu não me lembro desde quando estou aqui. Não aprendi a medir o passar do tempo por calendários. Sei que é outra, a época, pela camada que veste apenas parte da minha pele, a que cobre o meu esqueleto. Essa é a que tem de estar a serviço da moda, das decisões políticas: minha pele é sempre da cor do momento. Enquanto isso, minha parte principal, a mais quente — e contraditoriamente, segundo minha natureza humana, a mais íntima e mais exposta, órgãos e sentimentos — segue descamadando, arranhada, soltando pedaços; Meu quinhão arcado e inflexível, frio inclusive ao toque, é o que parece rejuvenescer e ser digno de alguma coisa.

    De onde estou, vivo uma vida isolada, mesmo imerso no caos da vida, no burburinho. Minha principal alegria é o observar. Comportamentos, mudanças climáticas, o lugar tornando-se memória. Nada me envolve em regozijo mais profundo.

    Da mesma forma que me restrinjo na resposta sobre o advérbio temporal do aqui, não sei precisar a data em que iniciei o meu ofício. Muito novo, trabalho mais do que infantil, disto tenho certeza: prematuro. Cortaram minha ligação materna sem que eu tivesse a chance de compreender o básico da vida; me aventuraram por outras paragens, mesmo que minha sina seja sempre estar fixo. Sempre atento. Minha dádiva e, por vezes, castigo.

    Castigo como o que aconteceu recentemente. E me corta o coração, mesmo que física e até subjetivamente eu seja desprovido de um, eu tenho, sim, uma paixonite secreta por um vizinho. Sujeito intrigante, taciturno; todo conhecimento, todo em busca de atenção. É considerado ultrapassado, vive encardido, poerento. Há quem diga que parou no tempo, dono de um linguajar e um traje no mínimo vintage — eu o considero impecável. Nunca trocamos palavras, nem toques. Sonho com o dia em que alguém o escolherá e virá até mim, abrirá inebriado sua pele em camadas e, por um instante – que será todo o meu mundo —, o deixará sobre mim. O ápice da minha existência seria entendê-lo assim, aberto, nu, sua lombada roçando minha pele áspera, a espalhar letras e calor. Nesse toque, eu estremeceria inteiro; meu corpo de madeira se partiria em arrepios. Ouvir-se-ia o meu estalo íntimo, a dilatação do que me constitui, enquanto eu gozo no segredo que só os mobiliários públicos conhecem. Sou um banco, ele, um livro – quase acervo vitalício do sebo do seu Jorge. Vitalício.. quase…

    Por muito tempo meu deleite foi paquerá-lo de esguelha, seu perfil visível quando a barraca metálica estava aberta, ele sempre posto em uma posição, nem de destaque, nem de esconderijo.

    Cachorros marcaram-me como seu território. Compras foram descansadas sobre mim. Marginalizados sociais me tomaram como cama — mais de uma vez. Conversas animadas, mãos bobas, certas de que ninguém testemunhava as indiscrições do desejo humano — por vezes traições conjugais. Brigas, estilhaços de garrafas. A tinta que sempre vem marcando o fim dos mandatos de certos prefeitos, em busca de reciclagem de votos e de marcar fisicamente o que fizeram. As flatulências de crianças e idosos, que impregnam eternamente minhas fibras, chuvas e sol a pino. Tudo me marcou menos do que a existência daquele volume ameaçado de extinção.

    Até a madrugada mais fria que já presenciei. E se tratando de Nova Friburgo, esse relato é alguma coisa. Começou sem que eu entendesse o que acontecia, eu, sonolento, ainda processando a chuva de verão em pleno inverno, dias antes, repleta de raios e granizo. Quando compreendi que pernas passavam cheias de más intenções. As solas dos sapatos, ainda as vejo, como se fosse agora; as reconheceria instantaneamente.

    Em instantes, fui trazido ao momento presente ao ouvir o estalo que mais arrepia a alma de quem é feito de madeira: o crepitar do fogo. A barraca, fechada, brilhava com a luz crescente. Foi rápido demais. Foi intenso e maldoso demais. Eu tentei gritar por ajuda, mas, paralisado, não tenho voz. Senti meu livro agonizar. Eu agonizei. Minutos lentos e horripilantes que se intensificaram com labaredas bailarinas, o sorriso no olhar meliante, a fuga traiçoeira e o barulho das sirenes quando eu já quase desmaiava de pavor.

    Eu vi tudo, sob angulos melhores do que o das cameras, estas mais silenciosas quando solicitadas do que minha imobilidade de banco de calçada. Ninguém nunca me vê como testemunha. De mim, nádegas a declarar.

    *Imagem retirada do site: https://ecoserrano.com.br/tag/incendio-quiosque-de-livros/

  • Cuidado: mosca na sopa!

    Em 1974, Raul Seixas lançou a música “Eu sou a mosca que pousou na sua sopa”, marco de um período sombrio da ditadura no Brasil. Essa metáfora é genial, e tem sido aplicada a diferentes situações, nem sempre políticas.

    Quem não se lembra de moscas que pousaram em sua sopa para estragar a alegria, ou que estão sempre zumbindo no seu ouvido de forma desagradável?

    Pois é, eu aqui consegui identificar diferentes tipos de “mosca na sopa”. Um primeiro tipo é a mosca Desmancha-Prazeres. A inocente criatura vem contar que arranjou um novo emprego, depois de um bom tempo procurando, e está entusiasmada porque é numa boa posição e com ótimo salário.

    A Mosca:

    — Olha, fico feliz com a sua conquista, mas pensou bem antes de aceitar? Veja só: a empresa é longe, portanto vai ter que pegar três conduções. E o pior: Pelo horário que terá que entrar no trabalho, os ônibus estarão superlotados!

    — Não quero te assustar, mas o entorno é muito perigoso, se tiver que ficar até mais tarde trabalhando pode ser assaltada. E vai em frente no rol de desgraças, sempre com uma postura de quem está prestando um favor. Sem dúvida, uma mosca com alma de vespa, pica só para irritar.

    Outro tipo bastante comum é a Mosca Inconveniente. (o que, convenhamos, já é quase um pleonasmo).

    Reunião de família, todos à mesa, conversando sobre assuntos gerais, leves, próprios para um momento em que ninguém quer levantar temas polêmicos ou constranger alguém. A dona da casa preparou opções de cardápio, pois a sobrinha está levando o novo namorado que é vegano, e todos já estão cientes do fato.

    Eis que surge a Mosca:

    — Pois é, li recentemente em um artigo que veganos e vegetarianos têm maiores riscos de deficiência de ferro, e isso pode causar não só anemia como a diminuição da resistência às infecções por bactérias e vírus, como é o caso do Coronavírus. Pronto: a sopa azedou.

    Tem também aquela Mosca do Contra. Do tipo “Hay gobierno soy contra”. É aquele perfil de pessoa que não importa qual a sua colocação – ela vai sempre se posicionar ao contrário. Se o programa é, por exemplo, ir jantar em um restaurante italiano.

    A Mosca:

    — Ah não… italiano nem pensar. Por que não vamos a um japonês? Voto vencido, vai emburrada e dá um jeito de dizer que a comida estava péssima, implicar com o garçom e assim por diante. Se no dia seguinte, para agradá-la, o grupo propõe o japonês, ela então quer ir a um fast food. Se num passeio todos querem seguir pela trilha, ela diz que só participa se for caminhando pela estrada. Cuidado com essa, pois voa sempre na contramão!

    E tem a Mosca Negacionista…

    Se Raul fez da mosca na sopa uma bandeira contra a ditadura, eu faço dela um alerta para esses tipos que vivem zumbindo por aí, em ouvidos pouco dispostos à democracia.

    E você, qual mosca já pousou na sua sopa?

  • O Homem Perverso

    Esta é a história de um homem perverso! Mais um homem perverso…

    O que há de mais trágico na humanidade é que, de tempos em tempos, sempre um homem perverso assume o controle das coisas! 

    E, como todos os homens perversos, quer controlar todas as coisas!

    Como todos os homens perversos, não gosta de outros homens, seus semelhantes! Gosta de sua própria imagem! Gosta da adulação!

    Como todos os homens perversos, detesta livro, prefere queimá-los, comê-los, rasgá-los…

    A sua coerência é a bestialidade, por isso, odeia as palavras e o diálogo! Prefere sempre o monólogo!

    Como todos os homens perversos, dissolve melodias! O que interessa é apenas uma nota, a sua própria!

    Detesta arte e cultura, pois simplesmente, não aceita que a diversidade é essência de todo artista!

    Como todos os homens perversos, se sente superior mesmo aos outros, considerando toda e qualquer criatura que não possua o seu padrão, um ser fraco, inútil e, portanto, descartável!

    Assim, engolindo pessoas e ideias, atropelando bom senso e razão, este novo homem perverso estabelece mais um tempo de loucura! Mais um tempo de perseguição!

    Por fim, como todos os homens perversos, não sabe parar e não para!

    E, ao não saber ou não querer parar, leva o mundo para a estupidez da guerra, para a tragédia, para o caos…

  • Vovós tagarelas?

    Minha mãe chegou à velhice. Só pode! Anda muito pensativa e, se a gente pergunta, ela resmunga. Não quer ser interrompida em seu silêncio. Sabe por que eu sei? Porque me lembra a minha avó, a mãe dela. Ela também passou a ser econômica com as palavras.

    Poxa, ela era tão nossa amiga! Perguntava da escola, das bonecas, das colegas de sala. Contava coisas engraçadas, como quando pescou um peixe com o pai dela. Que o bicho se debatia no anzol e ela não sabia dizer como ,  mas o danado caiu em cima do seu pé. E ela falava que o peixe tinha furado o pé dela. A gente, com cara de espanto e sem acreditar, insistia: que peixe é esse, vó, que tinha bico?

    E ela ia lá dentro buscar um livro com um desenho de peixe espada, só pra dar efeito na história.

    — Olha aqui, Anita, como existe peixe com bico!

    Nisso, se passavam os dias, e era muita coisa que vovó contava. Como quando o neguinho do pastoreio salvou um menino que se perdeu em meio à boiada; 

    — O menino subiu na cerca e, depois, em cima da porteira pra ver a boiada passar.

    Ela começou:

    — Não tinha perigo, os peões passavam por ali sempre e sabiam bem dominar o gado, pra não estourar;

    — O que é estourar, vó?

    — É quando acontece alguma coisa que faz os animais se assustarem e sair daquela espécie de procissão por onde eles vão viajando. Estourar uma boiada é a pior coisa que pode acontecer! Esparramam, entram no mato, pisam em plantações, nem queira saber o quanto dá trabalho e problemas um estouro de boiada. Pois então… nesse dia não houve estouro. Mas houve um redemoinho de areia que tapou os olhos dos peões e o gado foi para o lado da cerca onde estava o menino. Quando passou essa espécie de ventania e os vaqueiros conferiram se estava tudo bem com o gado, deram falta do menino em cima da porteira. Peões são responsáveis por tudo que acontece no percurso do gado. Aí começaram os gritos pelo menino. Homens voltavam lá ao fim da boiada, outros iam para o lado da cerca, e nada do menino. O chefe da comitiva tocou o berrante, parou toda a tropa e a boiada, desceu do cavalo, ajoelhou-se no chão e pediu ao neguinho do pastoreio que mostrasse onde estava o menino. Mal terminou a oração, o gado saiu de um lado e abriu-se uma clareira. Bem ali, no mourão que segurava a grande placa de aroeira com o nome da fazenda ouviram o choro do garoto. Ele se desequilibrou e caiu de uma altura de três metros. Estava ali apavorado até que foi salvo pelo neguinho do pastoreio. Apavorados ficamos nós só de imaginar o acontecido!

    Contou também sobre existir galinhas tão felizes que botam  dois ovos por dia; e que ela aprendeu a ser costureira  fazendo à mão roupas de bonecas. 

    Nós tínhamos nela uma enciclopédia, uma contadora de histórias, uma defensora, uma amiga adulta. A diferença de idade não nos tornou estranhas.

    Com o tempo ela mudou. Ou nós mudamos. Sei que acabaram as conversas. Como um fogo vai perdendo as labaredas, depois o vermelho da brasa, até ficar tudo cinza, ela saiu de cena. 

    Agora parece que estou revendo esse filme. Um filme em que sinto minha mãe muito calada. Também não sou mais uma menina. Tenho filhas e filhos. Outra geração. Não olham ou cuidam, ou convivem com os idosos. Mas ela mora com minha irmã e temos ainda o costume antigo da família. Nos reunirmos à tarde para tomar um chimarrão e conversar.

    Como eu percebo agora, minha mãe não é mais a mesma; tornou-se coadjuvante.

    Fala pouco, como se não valesse a pena falar; como se ao calar-se ela ficasse melhor.

    Como se não houvesse nada a ser dito.

    — Que tá pensando, mãe?

    — Nada, ela responde.

    O médico nos aconselhou a estimular a conversação.

    Minha irmã Laura leva um vestido para pedir uma opinião, eu falo onde vamos no final da semana, e vamos colocando assuntos para mantê-la tagarelando com a gente.

    Eu a conheço bem. A busquei e levei ao médico  por muitos anos. E sabia quais assuntos a interessavam. Não falava de pessoas. Falava de mundo, de histórias, de imaginação. 

    Sentada na sala de costura de Laura, dando seguimento à profissão da terceira geração de mulheres da família, buscamos assuntos.

    — Mãe, já pensou as 24 horas serem só dia?

    — Eu gostava. 

    — É mesmo, mãe?

    — O dia é bonito, tem clareza, tem luz própria. Noites não me atraem. Escuro, barulhos característicos como o dos grilos, das corujas, os latidos dos cães no silêncio da escuridão. O amor dos gatos com miados, uivos, lamentos. Os desiludidos, bêbados, ou miseráveis saem mais à vontade no escuro da noite. A noite se dispõe às lembranças tristes, saudades longínquas, arrependimentos.

    Elas não têm belezas que possam tocar a alma. Quem diria da noite: “vamos ali ouvir os grilos”. Ela falava já com a voz mais baixa, como quem conta segredos.

    — Verdade, respondeu Laura, entre uma arrancada e outra nos pedais de sua máquina de costura.

    — As noites de luar são bonitas. Nos campos, então. Mas duram pouco. O dia convida a banhos de rios, passeios em jardins, pegar frutas em pomar e um mundo de coisas prazerosas. Poderia durar dias, e todos iam achar o que desfrutar. 

    E mesmo nesse dia eterno,  haveria horas certas para as pessoas dormirem. Vocês acham muito estranho? 

    Não respondemos. Era a vez dela falar. 

    — As noites, elas que me perdoem, continuou minha mãe, nunca me deram nada de bom. Só dormir, quando já não tinha mais crianças pequenas. Sem remédios, quando dormíamos o que diziam ser o sono dos justos. Ou o cansaço com a lida.

    — Até parece, digo, para provocar uma reação. 

    — Como se eu não conhecesse bem a senhora.

    — Ultimamente a senhora não quer mais nem sair. 

    Apenas ganhei um olhar gélido. Não retruco. Ela tem um gênio forte e não tenho a intenção de provocar briga.

  • Chupa que é de uva

    Ainda não me recuperei da moda do bebê reborn e já tenho que lidar com outra tendência que está bombando no momento: o uso de chupeta por adolescentes e adultos para diminuir o estresse e a ansiedade. Quanto aos adolescentes, entendo que a fase é de transição, e, por isso mesmo, sujeita a instabilidades e tentativas furtivas de não perder o trono da infância. Porém, quando penso nos adultos, o que me vem à cabeça é o tanto de manobras que as pessoas fazem para não enfrentar seus fantasmas num processo de análise. Vale todo tipo de proposta, das milagrosas às escandalosas. Tanto assim que o movimento vem ganhando adeptos no mundo todo.

    Os bebês reborn que se cuidem, pois correm o risco de perder o acalanto oral para seus pais que, em breve, serão apenas seus irmãos, tamanha a regressão.

    Sei que cada um tem o direito de fazer o que quiser, defendo a liberdade de expressão e de escolha, mas me questiono se essas novidades são apenas gozações passageiras ou se estamos diante de um pedido de socorro, de um grito coletivo a bradar que a vida adulta, tal qual temos preconizado “hiper produtiva e monetizável” é insuportavelmente chata e deprimente.

    Eu que usei chupeta até os onze anos, conheço bem a delícia apaziguadora que a danada oferece. Lembro dela com carinho e, assumo, com saudade também. Contudo, não consigo me ver usando o acessório novamente. Parece esquisito, deslocado no tempo. Será que é algum tipo de bloqueio? Não sei… talvez já seja pesado demais imaginar que, daqui a alguns anos, as fraldas estarão me rondando.

    Quero acreditar que tudo não passa de uma brincadeira. Ou quem sabe os novos tempos, com sua engenhosidade, tenham inventado as férias de fase inspirada nas crianças pequenas que se divertem usando os sapatos dos adultos. Nós nos regozijaremos pegando as chupetas delas.

    Eu só entrarei nessa se puder, além da chupeta, andar por aí carregando meu paninho encardido. Não só isso! Faço questão de uma retratação pública a respeito da existência de Papai Noel. Sua morte foi meu luto mais difícil. E, por favor, Fada do Dente, remunere melhor o dente dos aposentados.

    Volta a angústia: e se tudo isso for um sinal de que a nossa inabilidade para lidar com as frustrações, medos e fracassos está nos encarcerando no colo da infância? E se estamos todos adoecidos da modernidade ultra hightech?

    Nas férias de fase, nossos joelhos não se ralam nem têm cicatrizes; por outro lado, não desfrutaremos do riso que vem com o vento no rosto de quem aprende a correr.

    Eu preciso de ARte. 

  • O direito dos velhos

    É comum em saites de divertimento ou em redes sociais a exposição de pessoas quando estão novas e quando envelhecem. De forma por vezes maliciosa, os redatores expõem as fotos com legendas que enfatizam o contraste entre o rosto de ontem e o de hoje. O alvo é quase sempre alguém que pela beleza ganhou fama, admiração, suspiros apaixonados dos fãs. Como um contraste a isso, o autor das postagens parece lembrar: “Quem te viu, quem te vê”.

    O que está na base dessa atitude, mais do que a disposição de ferir ou depreciar figuras específicas, é um generalizado desprezo pela velhice. Embora se viva mais hoje, e os idosos ou mesmo os velhos cada vez mais frequentem locais como clubes e academias, há por parte de muita gente uma disposição hostil para com eles.

    Essa hostilização faz pensar, por antítese, no chamado “Poder Jovem”, expressão associada ao livro de Arthur José Poerner que exalta a disposição política dos estudantes brasileiros durante o período da ditadura militar (1964-1985). O livro de Poerner “narrava a história do movimento estudantil e sua atuação em momentos cruciais da história do País, ressaltando o potencial dos jovens como agentes de transformação social e política.”

    A obra destaca o idealismo da juventude e a sua vontade de contestar o status quo então vigente, marcado pela repressão aos movimentos sociais e pelo cerceamento de liberdades fundamentais ao indivíduo. Disso veio uma espécie de entronização dos jovens, considerados a partir daí como os principais agentes de transformação da sociedade. Chegou-se a dizer que não se devia confiar em ninguém com mais de 30 anos, como se a idade fosse um referencial de caráter.

    No poema “Velhice”, Olavo Bilac parece antecipar o que hoje é corriqueiro nas redes sociais. Sem meias palavras, escreve: “A velhice é cousa vil!/ Faz a alma informe e feia./ Desfaz a antiga ideia/ Da formosura juvenil.” São versos que pintam de forma nostálgica e sombria o envelhecimento. E tanto mais deprimem, quanto mais ressaltam a feiura da velhice em contraposição à beleza da juventude.

    Será mesmo a velhice uma “coisa vil”?  O que haveria de desprezível nas pessoas que estão nesse período da vida? Elas não têm mais a beleza da juventude e padecem de achaques que as tornam por vezes impacientes e difíceis de conviver. Por outro lado, têm a experiência, que segundo Sartre é mesmo um direito dos velhos.

    O parnasiano carregou nas tintas, sem dúvida. Há em favor dele, digamos assim, a ressalva que a esses versos faz Rubem Braga numa de suas antológicas crônicas. Lembra o cronista que, de fato, num poema Bilac considera “vil” a velhice — mas, num dos seus textos em prosa, afirma desejar “envelhecer sorrindo”. Tal expressão, longe de indicar ressentimento ou desconforto, sugere uma alegre resignação com a passagem do tempo.

    Talvez o verbo “sorrir” no verso bilaquiano indique mais do que a aceitação do inevitável ciclo vital. Indique também a percepção, trazida pela maturidade, do que a vida realmente é. E, sobretudo, traduza com algum ceticismo a desconfiança nos que se arrogam ter a verdade e deter o poder — tenha este o rótulo que tiver.

  • Cinco gravatas

    Cinco gravatas estavam sobre a cama. Ele as escolhera para aquela semana de trabalho. Fazia muito tempo que não vestia nada tão formal e curiosamente sentia saudade. Escolhera aquele quinteto cada uma por uma razão.

    A primeira era justamente como sua re-estréia no mundo formal. De cor sóbria, lembrou os momentos em que interagiu com pessoas sisudas e pouco afeitas aos sorrisos. Perfeita.

    Já a segunda evocou memórias mais doces. De alguém que um dia sorriu quando o viu com ela ao pescoço e disse que ele estava muito elegante. Só de lembrar seu rosto se alegrava ao ponto de sentir a doce fragrância de seu aroma de mulher recém saída do banho.

    A partir daí as portas de suas lembranças amorosas se escancararam.

    A terceira tinha sido presente de uma moça que gostava de dizer que tinha altura certa para ajustar sua gravata. E beijar seu queixo o que o fazia revirar os olhos.

    A seguinte ele comprara de impulso em um shopping. A maior parte das pessoas, em especial as mulheres, não aprovara sua compra. Os comentários iam de “é bonitinha mas..” até simplesmente detestarem a gravata. Mas nunca se desfizera dela porque um dia um alguém, antes de partir seu coração, dissera que a tal gravata caía muito bem nele.

    A quinta e última era o arremate para sua semana formal. Estilo sóbrio como a primeira mas atraente o suficiente para naquela ocasião a moça sair de onde estava e se postar à meia distância dele. O curioso é que ele demorou a perceber que ela estava ali diante dele. Ela olhava atenta mais para a gravata e menos para ele, verdade seja dita. Na conversa que se seguiu a moça disse que a gravata era linda e era igual a que ela vira em um filme clássico sobre aristocracia inglesa. Não lembrava mais do filme mas os momentos a dois nunca mais deixaram sua memória.

    Assim, gravatas postas lado a lado de suas memórias evocadas suspirou uma última vez. As lembranças de amores passados sempre o comoviam e, conforme o dia, o faziam pensar em hipóteses e histórias alternativas.

    Afastou os pensamentos. Eram só lembranças, mereciam seu lugar em sua memória afetiva e nada além disso. E ponto final. Pegou a primeira, olhou-se no espelho, preparou-se para dar o nó de Windsor, o único que ele sabia fazer na gravata e disse para si mesmo: hora do show.

  • Notícia primeira da morte

    Eu tinha quatro, talvez cinco anos. Lembro perfeitamente da situação, das pessoas, dos gestos, das reações, menos dos diálogos. Quanto a estes, o tempo fez questão de enterrar; minhas inúmeras tentativas de rememoração nunca lograram os exumar. Mas o que jamais se encaminhou para o esquecimento foi o efeito e o significado daquela conversa que tive com meu avô.

    Ninguém nasce sabendo, vai-se aprendendo. Do mesmo modo que, ao aparecermos para o mundo, somos incapazes de andar; não compreendemos uma série de fenômenos da vida, como o mais importante deles, a morte. Na verdade, nem sequer sabemos que ela existe.

    Foi no sítio de vovô Chico, em Bananeiras, que lhe fui apresentado; não ao seu inevitável efeito concreto, mas à ideia da sua existência. Até então, faltava-me qualquer noção do que seria isso, nem sei se já havia ouvido diretamente palavras referentes a ela. Porém, ali, tive sua primeira notícia.

    Minha mãe lavava os pratos e papeava com a cunhada. Enquanto parolavam, por algum motivo que desconheço ou apenas pela inexistência de um que fosse contrário à nossa estada, eu e meu avô também nos fazíamos presentes na cozinha. Surgindo a temática funesta e com a completa ignorância que eu detinha sobre o assunto, fiz o que parecia natural, perguntei.

    O que me foi respondido não ficou gravado; mas, evidentemente, desagradou-me, já que engatei um choro e, em seguida, corri. É difícil asseverar se foi uma fala muito crua para uma criança, sem que se realizasse um sopesamento na explicação para o filho ainda muito pequeno. Todavia, tenho certeza do que senti. Ao contrário do que as lágrimas poderiam levar a pensar, não foi tristeza. O sentimento era de indignação.

    No momento em que tomei conhecimento da finitude da vida, portanto, ao começar a entender ela própria, senti uma inconformidade enorme diante da percepção que tudo aquilo acabaria. Como, de repente, eu deixaria de existir e nada mais haveria? Como era possível aceitar que meus pais e avós, que eu acreditava serem eternos (como tudo parecia ser), iriam desaparecer? Era implausível admitir isso, não fazia sentido. Impotente, chorei um pranto de revolta.

    Encerrando a chispada no alpendre da casa, sentei-me. Ainda soluçava, tentando digerir a ideia que tinha acabado de me penetrar. Sem tardar, vô veio atrás de mim, sentando-se também no batente, onde me deu a primeira lição do que seria a morte e, o que é mais importante, o que é a vida perante ela.

    Certamente, a conversa possuiu os traços característicos dele, como o “pois bem” sempre a interligar as frases. Entretanto, não me recordo das palavras que ele utilizou, nem o conteúdo em si. O que sei é que foi o suficiente para estancar as lágrimas e aplacar a dor da consciência súbita.

    Ao iniciar o berreiro, mãe riu, deve ter achado ridícula a reação. Provavelmente, já havia passado pela mesma interlocução com seu pai, o que fazia com que o assunto não lhe fosse novidade e pudesse parecer mais banal. Para mim, era diferente, a morte só começava a existir naquele momento.

    Porém, seriam somente alguns anos depois que o decesso e o luto viriam a se mostrar para mim na prática, com o falecimento da minha avó. De certo modo, ao ir me ver na frente da casa, Chico também preparava o neto para a futura perda, que nenhum dos dois imaginava que iria ocorrer tão cedo.

    Minha memória guardou a lembrança do momento e a imagem de vovô ao meu lado. Mas não pôde preservar as falas. Sou incapaz de reproduzir um termo sequer que meu avô tenha utilizado. Mas foi na dita prosa (como ele gostava de chamar os diálogos), que eu pude começar a entender o que seria a morte e, portanto, o que é a vida.

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