Crônicas

  • Um trupicão blindado, é pênalti?

    No fim do ano passado eu havia decidido parar de palpitar sobre política. Não faltam assuntos mais aconchegantes, como o bafo dos Dragões de Komodo após o lanchinho da tarde. Aviso de antemão, não quero usar da ironia nem do sarcasmo, ainda que um comentário ou outro possa ser interpretado dessa forma. E, digo logo, se isso acontecer, a culpa é sua, leitor, não minha.

    Então, a verdade é que fiquei desanimado ao ver os nossos nobres vereadores correrem para aumentar os próprios salários antes das férias coletivas. Alguns dizem que nunca trabalharam com tanta voracidade. Outros dizem que só trabalham em causa própria. Eu discordo, claro. O fato é que o Natal teve gosto de imposto e não foi só no recheio.

    Não que eu acredite na honestidade deles, mas também não desacredito. Para mim, a honestidade política está no mesmo patamar dos Alienígenas. Não acredito nem desacredito; porém, precisamos considerar o seguinte: se aparecer um Disco Voador por aqui, você sabe, fica difícil desacreditar. Aí o problema é outro: convencer as pessoas sem parecer alienado.

    Eu também estava cansado daquela velha salada de frases feitas e discussões direita-esquerda, verdade-mentira, santo-criminoso, doce-salgado, vestido-pelado, dinheiro-cueca ou qualquer outra concepção maniqueísta que inflou a sociedade nos últimos anos. Convenhamos, em maior ou menor grau, falar de política havia se tornado algo como reafirmar a própria beleza para o espelho. Pois é. E nem sou tão bonito assim.

    Tenho de admitir que vez ou outra ainda me surpreendo, mesmo com expectativas negativas. A tão falada PEC da blindagem é um exemplo. Um texto inusual e magnífico. Ponto para nossos tão excelentíssimos representantes. Longe dos debates de menor valor, como a inflação, o saneamento básico e a emergência climática, a PEC da blindagem deu sinais de um respiro aliviado à política brasileira. Finalmente, ela poderia voltar para uma rota firme, bem encabeçada e sem devaneios. Sejamos sinceros, em pleno 2025, é de políticos assim que precisamos, só não vê quem não quer. Afinal, todos sabemos que um grande país é construído por homens e livros, mesmo que um tanto mambembe (mais pra lá do que pra cá). Só não vê quem não quer, repito.

    Indiferente à política, hoje não ponho o dedo na ferida nem questiono verdades absolutas. Figuro mais como um hamster domesticado do que como um comentador anônimo insatisfeito (vulgo sujeito-que-merece-uma-coça). Mas, considerando a bela proposta da PEC da blindagem, comecei a divagar sobre como aplicá-la em outras áreas. Resumindo, a PEC da blindagem pode até não ser a melhor proposição política do ano (está mais para um trupicão* bem dado, daqueles em que a cara alcança o chão bem antes do resto do corpo), mas baseará a minha sugestão de emenda.

    Alô CBF. Gostaria que os caríssimos dirigentes do esporte de preferência nacional levassem em consideração o meu projeto. Serei breve, não quero tomar o atribulado tempo de tão importantes autoridades. Então, sem mais delongas, com base na supracitada, proponho a criação da PEC do Cartão Vermelho. Explico: sempre que ocorrerem faltas violentas ou sequência de cartões amarelos, o VAR será chamado e os jogadores deverão votar pela expulsão ou pela anulação dos cartões do companheiro. Por obviedade, cada voto será individual e secreto. Só então o árbitro tomará as devidas providências, evidentemente, sem poder de veto. Aproveito para propor uma segunda emenda, como defluência da primeira: a Pequinha do Pênalti, seguindo os mesmos democráticos modelos da anterior. Chega das decisões autoritárias e imperativas do juiz.

    Preciso frisar, entretanto, que a proposta não nasceu da minha revolta com as expulsões indevidas sofridas pelo Grêmio no Campeonato Brasileiro. Os três pênaltis do último Grenal também não influenciaram, juro. Trata-se de uma sugestão de melhoria para todos (inclusive para o lado vermelho do Rio Grande do Sul**). Eu jamais usaria de tal subterfúgio para benefício próprio. Sou partidário da mais pura e transparente idoneidade.

    Estou certo de que teríamos grandes avanços e elevaríamos o futebol brasileiro a um nível mais equânime, responsável e organizado; porém, como toda boa ideia neste país, vai acabar esquecida e, mesmo na área, derrubada, sem pênalti. Entendo que o meu histórico como comentador insatisfeito e como integrante de torcida organizada também não contribua muito. Mas, com a proposta em mãos, pelo bem de todos e felicidade futebolística da nação, o que posso fazer***?

    *Sim, caros colegas, como vocês viram também no título, por vezes utilizo o linguajar erudito da política nacional, com a devida vênia.

    ** Aqui (só aqui), talvez, um pouco de ironia?

    *** Touché! Não falei de política.

  • Tem gente que é poeta e não sabe

    Estou no ônibus, indo para o centro, um compromisso banal que não vem ao caso agora. O ônibus está vazio. Não é horário de pico. Homens e mulheres, cada um no seu banco.

    Tarde tranquila.

    O ônibus cheira a café velho e plástico. Bancos azuis, gastos, alguns pichados. Todo mundo, de certa forma, parece querer escrever uma frase no ônibus, quer ser lido pelo próximo passageiro.

    Tem gente que cola chiclete no banco.

    Aí vejo duas meninas, bem no banco da frente. Elas conversam e eu presto atenção em cada gesto, em cada risada. De repente, uma delas solta uma frase mais ou menos assim:

    — Sabe o meu namorado? Quando ele começou a namorar comigo, ele não era bonito. Depois, fui conversando com ele e hoje ele é bonito.

    Amigos, tem frases que me pegam de jeito. Ele não era bonito. Era comum, ordinário, anônimo.

    Hoje, depois dela, ele é bonito.

    Ele não era bonito, mas depois de amar e ser amado, ficou. Ela não buscou um homem bonito o bastante para fazer inveja às amigas. Ela gostou de um, namorou com ele e o fez ficar bonito. Abri minha mochila. Peguei a caderneta. Peguei a caneta Bic.

    Anotei: “Tem gente que é poeta e nem sabe disso.”

    Fiquei pensando em quantas sacadas geniais a gente ouve que não têm nada a ver com livros. Gente que nunca pisou em museu, que não lê literatura, que não vai ao cinema, que não é leitora. Então quer dizer que a poesia está fora dos livros?

    Não perguntei o nome da menina, nem o da amiga dela. Mas, de certa forma, jamais a esqueceria. A frase pulsa dentro de mim até hoje. Acho-a excelente, muito bonita.

    Precisava escrevê-la para que não se perdesse por aí.

  • Por que os bons morrem cedo?

    Não sei por onde começar. Dói muito falar, lembrar de tudo isso. Gislane me contou de supetão, mulher sem coração: “Vá visitar logo, antes que ele morra!”. Disse assim, na bucha, que Renato estava doente, em fase terminal, nível quatro de cancro no cérebro. Renato é meu amigo de infância, estudamos juntos no Vinícius de Moraes. Um cara de coração imenso, me abrigou, com a sua humildade família, quando tive de sair de casa por conta das bebedeiras do meu pai. E não foi uma só vez. Ele me acudiu nos momentos mais difíceis, inclusive quando perdi minha mãe atropelada. Minha mãezinha morreu e nos deixou com o nosso pai, um homem desregrado, que só sabia de si. Fomos criados, na verdade, pelo meu irmão mais velho, o Valdemar, que já trabalhava e tinha o seu dinheirinho. Renato não media esforços para ficar ao meu lado, mesmo eu estando em crise, com depressão. Já adultos, tivemos um pequeno hiato; namoricos e turmas novas nos separaram. Soube que passou por uma trágica aventura em Portugal. Recebeu uma tentadora promessa de emprego de mecânico de automóveis. Trabalhou pesado, como um touro que era, mas muito acima de suas condições – Gislane me relatou, com lágrimas nos olhos. Não era bem como pensava. Foi explorado e voltou, depois de dois anos. Logo, por questões que desconheço, permanecemos afastados. Foi o destino cruel que nos puniu, pelo desleixo? Mas a verdade é que sempre pensava e desejava que estivesse bem. Acabei me casando e indo morar numa cidade da região metropolitana. A família de minha esposa é toda de Caucaia, e pudemos nos arranjar na casa de seus pais, onde construímos o nosso lar. Ele, ao contrário, procurou refúgio na serra; decerto queria uma vida mais tranquila. Gislane, que foi sua namorada – e sempre estava na expectativa de sê-lo outra vez –, falou que subitamente ele deixou de falar e de andar. Souberam por acaso, através dos vizinhos. Levaram-no ao hospital, e, de pronto, foi detectada a doença. Fui visitá-lo ontem. Não queira imaginar o aperto no coração que sinto até agora. Ele que era corpulento, um verdadeiro brutamontes, e estava cadavérico, na UTI, com a pele muito fina e o corpo encolhido, como uma criança desprotegida. Era mesmo um fiapo de gente. Chorei por meu irmão. Jamais imaginei vê-lo assim. É questão de dias ou horas para que decretem a sua morte. Amanhã retornarei para uma visita, se ele resistir. Tenho hora no emprego e não posso me ausentar por muito tempo, senão estaria ao seu lado, dia e noite. Pensei na fragilidade humana e na ousadia de tantos que se acham grande coisa. Renato é simples, um cara do bem. E a pergunta que fica é: por que os bons morrem cedo? Já não é o primeiro na minha lista de amados que se foram, sem dar o último adeus.

  • Dias quase perfeitos

    Recentemente assisti Perfect Days, uma coprodução entre Japão e Alemanha lançada em 2023. O filme é estrelado por Kōji Yakusho, no papel de um limpador de banheiros.

    Confesso que, no início, precisei de algum esforço para entrar no ritmo. A narrativa é lenta. O dia a dia do personagem, Hirayama, se repete quase como um ritual. Mas, aos poucos, essa repetição revela algo essencial: a beleza da simplicidade. Uma vida aparentemente pequena, quase claustrofóbica, que ao mesmo tempo transmite uma paz reconfortante.

    Hirayama encontra prazer em gestos banais. Escovar os dentes. Escolher uma música para ouvir no carro. Cumprir bem a tarefa de deixar os banheiros públicos impecáveis. Para ele, isso basta. Sua gentileza com os outros é sua forma de contribuir para o mundo.

    Esse olhar me tocou de maneira especial. Vivo, hoje, uma transição. De uma vida profissional acelerada para um momento mais introspectivo, mais contemplativo. Uma rotina menos marcada por obrigações. Mais aberta a atividades simples, corriqueiras, que se tornam fonte de prazer.

    Mas há um ponto que me inquieta. Para viver seus Perfect Days, Hirayama abandona quase tudo da vida anterior. Relações familiares, laços afetivos, responsabilidades. É como se tivesse optado por um isolamento absoluto. Isso levanta uma questão: até que ponto essa proposta não é uma utopia?

    Afinal, muitos não podem simplesmente abrir mão dos “dias úteis”. Da pressão do trabalho. Dos horários, das contas, das cobranças.

    Penso nas pessoas que encontro ao anoitecer, correndo para pegar um ônibus lotado depois de um dia exaustivo. Gente que, muitas vezes, nem sabe como vai pagar as contas do dia seguinte. E que, ainda assim, encontra espaço para sorrir e me oferecer um simples “boa noite”.

    Talvez esteja aí a maior lição. Não é preciso renunciar a tudo para viver dias perfeitos. Mesmo no meio das obrigações, é possível transformar os dias úteis em dias quase perfeitos.

  • Incomodada ficava a sua avó

    Há pouco tempo assisti a uma entrevista do ator Wagner Moura onde ele dizia que vivemos uma crise da verdade. Não há mais certeza ou garantia de que aquilo que se vê, lê, ouve ou se experiencia é real. Tudo pode não ser o que parece ou se afirma. Até o que constatamos com os nossos próprios olhos pode ser falso. A inteligência artificial, com sua produção de imagens e realidades, ao gosto do freguês, atende prontamente à nossa ânsia de completude e tamponamento dos buracos existenciais. Não existe mais falta! Tudo se remenda, disfarça, customiza. Viver, agora, é a arte de forjar. Em segundos, podemos colocar um ente querido, já falecido, na nossa foto de aniversário, formatura, batizado do filho. A morte não é mais definitiva. Também é possível postar foto abraçada com o ídolo (in)acessível, compartilhar os segredos mais íntimos, ou, até mesmo, se apaixonar pelo robô vestido de pessoa. “Nem dá pra notar diferença”, dizem por aí os mais experientes… De cá, me pergunto se o amor sempre foi tão artefato assim e só eu me enganei o achando artesanato.

    É assustador pensar que o príncipe encantado/inventado nos meus delírios adolescentes, hoje, teria rosto, olhar sedutor, nome próprio e ainda me faria juras de amor com o timbre que eu escolhesse.  Subiu um calafrio de horror.

    Nada mais tem garantia ou nos pertence, nem a nossa própria imagem e voz. Não é loucura pensar que com a IA, qualquer dia, posso estar na rede falando e defendendo ideias que nunca pensei ou refuto completamente. A crise da verdade é tão bizarra que li, recentemente, e chequei a veracidade da informação (ação indispensável atualmente), que a Dinamarca avalia conceder aos cidadãos direitos sobre sua imagem e voz para combater as deepfakes.

    Isso tudo me assombra tanto que até agora não consegui nem brincar com os famosos filtros na internet ou considerei entrar na moda e fazer harmonização facial. Tenho medo de quem posso me tornar. Sim, porque passando a ser aquela que sonhei ser, mesmo que às custas de ser totalmente outra de mim, o que se construiu por dentro não vai servir de jeito nenhum. Tenho certeza de que, se eu fizer harmonização facial, preenchimento, bariátrica, abdominoplastia e uso de lente verde vou precisar de harmonização emocional e espiritual. Sim, porque para ser outra não poderei ser essa que me tornei. Ah, sei não, talvez perfeita eu me torne insuportável. Melhor deixar como está. Verdade seja dita, eu sou muito apegada a essa que eu reconheço quando me olho no espelho.

    Também não vejo jeito de namorar robô. A temperatura do corpo, os pequenos equívocos do cotidiano me conquistam demais.

    Vou ficando por aqui. Sei que verdade absoluta não existe, mas ilusão tecnológica não me convence. Deve ser porque não acredito em perfeição ou porque, quando a esmola é demais, eu me belisco.

  • Ultimo café

    Contemplou em silêncio o burburinho alegre à sua frente. Da mesa de canto no terraço onde estava sentado espiava as demais espalhadas.

    A maioria com casais, fora uma grande com seis pessoas. Na sua, permanecia só.

    O sol da tarde era ameno e com luz leve. Escondido atrás do telhado da cafeteria, fazia sombra em sua mesa. Enquanto todos tricotavam alegremente sob o sol gentil, ele permanecia silencioso na penumbra.

    Uma variedade de sucos, doces, chás e cafés ocupavam os tampos espalhados pelos terraços e eram consumidos distraidamente pelas pessoas. Na sua mesa, seu café duplo demorou a chegar. Veio acompanhado de um biscoitinho de sabor neutro e sem entusiasmo. Melhor se estivesse só, como ele.

    Não esperava ninguém, para ser honesto. Estava sozinho, bebendo devagar o café para não queimar a língua.

    Estava ali porque se convencera a conhecer o lugarzinho charmoso que abrira há pouco numa rua transversal à sua, ou melhor, aonde ele mora porque não era dono de rua alguma.

    Usou a desculpa de conhecer a cafeteria para sair de casa porque decidira que precisava ver a vida em movimento.

    E estava vendo. Espectador da alegria alheia, ouvinte de pedaços de conversas que nada lhe diziam. Flashes da vida mundana. Nada além.

    Por um momento imaginou que poderia ter alguma companhia para esse café à tarde.

    Mas a mínima hipótese de pensar em chamar alguém o fazia mudar de ideia. Suas amizades eram poucas, a despeito de conhecer bastante gente. Conhecimentos que não iam além do mais profundo “alô”.

    Suspirou, a tarde terminou de escoar, as mesas próximas ficaram vazias.

    A sua, em breve, seria a próxima porque iria embora. Não estava frustrado porque ninguém lhe fizera companhia. Não tinha de se queixar porque ela se atrasou ou não apareceu. Simplesmente, porque não chamara ninguém.

    Pensou, mas desistiu. Não queria ninguém para um alô. Nem para um último café.

  • História arcaica

    Essa história aconteceu no tempo do ronca, quando o recato das moçoilas era-lhes o maior trunfo para os casórios. Quanto mais pudibundas, mais candidatas à celebração nupcial. Daí que se esmeravam em ostentar um ilibado comportamento em sociedade; quando iam às tertúlias, era na companhia das genitoras ou de alguém a quem incumbia vigiá-las.      

    Conta-se que um mancebo sem eira nem beira intentava namorar uma dessas donzelas de truz. Para isso usava toda a sua léria, mas o pai da moça se opunha por achar que ele era um mandrião. Não se ocupava em nada que lhe trouxesse algum tipo de estipêndio.  O moço pretendia convolar de estado civil – mas como, se mais parecia um mequetrefe?

    O pai então lançou-lhe um repto: ele casaria com a sua filha se jungisse a tal desiderato a demonstração de que não era um soez.

    – E o que devo fazer? – quis saber o rapaz. 

    – Deves dar-me a prova de que tens futuro. 

    Em meio a tão escorchante desafio, o moço foi aos poucos sentindo gorarem-se-lhe as pretensões. Não era nenhum abilolado e percebeu que o queriam apartar da contenda.  Caminhou a esmo na noite até que, esfalfado, resolveu tomar um pifão. Quando a ebriedade lhe turvou o bestunto, dirigiu-se à casa da moça.   

    Postado em frente à alcova onde ela dormia, encetou uma elocução:

    – Não tenho prebenda, mas não sou nenhum sorrelfa. Juntos viveríamos com parcimônia, mas não à míngua. Juro-to.

    A moça, já adormecida, despertou num sobressalto. Colocou furibunda o corselete, que preferia ao califom, e foi até a janela:

    – Arreda-te, doidivanas. Não vês que nada ganhas com tais ululações? Além disso, tiraste-me dos braços de Morfeu.

    – Morfeu?! Então tens outro… Por que não me falaste? – gorgolejou o rapaz, já pensando em cascar a marreta. Mas logo tirou da cabeça essa ideia, pois no fundo era um poltrão.   

    – Se não sabes quem é Morfeu, com isso apenas provas a tua estultice. E dás razão a meu pai… – continuou a moça. Dito isso, fechou com estrépito a janela.

    O rapaz foi embora achando-se um alarve. Ainda pensou em ir até uma botica comprar um sanativo que lhe diminuísse a coita. Ao mesmo tempo, contudo, sentia-se ditoso por haver descoberto a traição. Melhor saber-se guampudo agora do que depois.

  • Febre de sentir!

    Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas.

    São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos.

    Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com sintomas doentios, sem regras saudáveis e com grande efeito dolorido após um encontro, que mais parece um embate competitivo.

    Os invejosos, que são os que tem satisfação com o fracasso alheio, guardam em si o prazer secreto em oferecer um alívio para sua responsabilidade em buscar o melhor de si. 

    Mas que, na verdade, seus medos, os mantém distantes de qualquer crescimento que perceba facilmente ao seu redor.

    Para quem sofre esse ataque emocional, por vezes não permite ter o ato de exteriorizar o que machuca ou incomoda, de transformar experiências difíceis – físicas, mentais ou emocionais – em palavras, ou linguagem escrita, sem receios ou filtros, o que poderia trazer alívio, clareza e serenidade.

    Uma oportunidade singular de colocar pensamentos, medos, angústias e anseios em perspectiva, é transformar experiências em palavras escritas, dando um passo adiante no reconhecimento de problemas e na busca pelo melhor modo de lidar com eles.

    Segundo a psicanalista Daisy Dalmáz, a escrita por si só é um sinal de evolução. “Sabemos que o mundo das ideias pode tudo, mas quando colocamos todo nesse universo interno na escrita, ocorre um salto de qualidade, pois, ele precisa ser organizado, precisa adquirir sentido, expressando um encadeamento de ideias e sentimentos”.

    O processo precisa ser direcionado para um conteúdo que expresse SENTIMENTOS, e não SITUAÇÕES (por exemplo: “senti raiva” ao invés de “gritei muito” ou “senti tristeza” ao invés de “chorei”).

    Aos poucos, as pessoas que seguem com a prática vão se familiarizando com a elaboração dos textos, além de aguçar a criatividade e a percepção de suas emoções mais profundas, num belo processo de autoconhecimento e fortalecimento interno.

    Como escreveu Fernando Pessoa “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”.

  • A tarde e a crase

    Quando Carlos Emilio Faraco disse: “Se você me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase”, não falava apenas de gramática. Ele nos oferecia um jogo perigoso, desses em que uma vírgula é um abismo e um acento decide o destino de uma frase. Um duplo sentido que escancara a língua como ela é: erótica, sedutora, quase obscena.

    Sem a crase, “a tarde” é um corpo inteiro: pedaço de vida, presente concreto, quase palpável. Algo que se pode dar: como se alguém entregasse ao outro um tempo, uma presença, um encontro. Com a crase, “à tarde” muda completamente: já não se trata de um presente ou de uma posse, mas de um tempo em que algo acontece (“marcar um encontro à tarde para se entregar ao sexo”).

    Assim, ao propor a troca, Faraco mostra como a ausência ou a presença da crase altera radicalmente o sentido. Ele brinca com a ideia de que alguém poderia lhe dar a própria tarde (um pedaço da vida, um corpo, um tempo), mas ao mesmo tempo, revela a importância de escrever corretamente para não perder o sentido pretendido. A frase ganha, então, um perfume de sedução, transformando uma lição gramatical em jogo sensual de linguagem.

    É nesse risco invisível que mora a diferença: de um lado, o desejo; do outro, a obrigação. De um lado, carne; do outro, horário. A língua portuguesa tem dessas perversões: uma partícula mínima, expletiva para uns, é capaz de acender ou apagar a chama de um texto inteiro.

    Faraco sabia disso. Jogava com a ambiguidade, mas também nos alertava: escrever errado é perder o sentido; escrever certo é ganhar vertigem. Entre a gramática e o erotismo, mostrou-nos que a língua é também um corpo que respira.

    Porque a vida é feita desses detalhes. Uma oração subordinada mal compreendida pode roubar o sentido de um texto. Um pronome possessivo mal colocado pode alterar a intenção de quem ama. Um verbo bitransitivo mal conduzido pode inverter agente e paciente da ação. E, nesse descuido, a pressa nos engole.

    No fim, Faraco nos lembra que a gramática não é um conjunto de regras mortas, mas um organismo pulsante. É corpo e é espírito. É rotina e é vertigem.

    Eu, se pudesse escolher, ficaria com as duas coisas:
    — A tarde, para viver com ela.
    — A crase, para possuí-la.

  • Não basta ser leitor, é preciso parecer também

    De uns tempos pra cá, virou moda fingir-se leitor ou leitora. De fachada, claro. Nas fotos do Instagram, o rapaz ou a moça é visto ou vista lendo clássicos, carregando ecobags com estampas de livros e autores. Querem posar de inteligentes, eruditos, atraentes.

    Vejo um rapaz, na academia, com corpo escultural e músculos definidos, lendo No Caminho de Swann, de Proust. As memórias de um escritor francês que ele nem sabe quem foi.

    No metrô, uma moça carrega um exemplar de Dom Quixote, de Cervantes, primeiro volume. Cruza e descruza as pernas, mexe no cabelo, ostenta a ecobag.

    Camisetas de Clarice Lispector, bolsas com frases de Machado de Assis, fotos com uma xícara de café ao lado de As Confissões de Santo Agostinho. A leitura virou adereço.

    Mas será que fingir que lê é útil?

    Na verdade, isso não é novidade. Há muitos anos, numa crônica famosa intitulada Consulta e Receita, Paulo Mendes Campos — este sim, um verdadeiro leitor e erudito — dizia que, para fazer sucesso em um coquetel, um certo leitor que escreveu para ele não precisava ter lido livro algum. O cronista desmascarava festas chiques, a cultura ostentada, com ironia e bom humor.

    O problema do coquetel era justamente esse: o fingimento tinha efeito apenas dentro do círculo fechado, para impressionar apenas os presentes. Não gerava interesse real por livros; era vaidade pura.

    No Instagram, porém, a história é outra. Se o bonitão ou a bonitona finge que lê, o seguidor pode se apaixonar pelo livro e ler de verdade. A mentira passa a ser propaganda. O livro circula, chega a quem talvez nunca o tivesse descoberto. O fingimento, então, pode gerar algo positivo: leitores de verdade.

    Na verdade, enquanto as pessoas “chiques” fingiam ser leitoras apenas entre elas, era algo meio besta. Agora, com a internet, tirar uma foto com um livro que você não leu pode ser uma ótima propaganda. Afinal, um livro que você não leu pode ser o livro da vida de alguém que te segue nas redes sociais. Continuem, meninos e meninas, continuem.

  • Avarias

    Na sala do apartamento que dividia com Mila Cox, Zími cantava e tocava no teclado dela uma versão de ‘Always the sun’, dos Stranglers.

    Usando apenas acordes rudimentares, executou a canção de maneira belíssima.

    A rouquidão de sua voz, a falta de técnica vocal e a embriaguez tiveram efeito favorável para o resultado apresentado.

    Mila Cox e Silvano observavam.

    A visceralidade mostrada ali, do nada, com Zími alcoolizado, improvisando, era algo tão raro  atualmente, que os fez pensar imediatamente na vergonha que tinham das pessoas que se arriscam a ser artistas, e que eles eventualmente presenciavam se apresentando sozinhas ou com outras pessoas em bares da cidade, com repertório constrangedor e interpretação ainda pior.

    Cox, que apareceu quando ele já havia começado a música, olhava fixamente, encostada na lateral da porta de seu quarto.

    Estava vestindo apenas uma camiseta cinza, muito grande para ela, como se fosse um vestido, com a cara da Anette Peacock na frente.

    Silvano estava na sala com Zími, e alternava o foco de seu olhar entre ele e Mila Cox.

    A cara que Cox fazia enquanto olhava Zími e ouvia a música era a mesma que ela fez numa das fotos que estavam coladas na porta de seu quarto , em que ela, ainda criança, segurava e olhava a capa do primeiro disco da Suzi Quatro.

    Talvez a ideia de se tornar contrabaixista tenho surgido naquele momento.

    Ela também tinha o teclado e o sintetizador, para sanar a falta de um guitarrista na banda.

    Antes de Zími começar a tocar a música, Cox estava dentro do quarto ouvindo outra música ,enquanto ele falava na sala sem parar e às vezes tocava sons aleatórios no teclado.

    Ele falava sobre como são as pessoas que estão distópicas, e não os ambientes ou as paisagens.

    Contava sobre o desprezo que sente pelo sistema de um modo geral, focando naquilo que havia feito dele a pessoa que se tornou.

    Mencionou as dinâmicas de grupo para selecionar funcionários em empresas.

    Em seu monólogo semiembriagado, ele levantou uma questão.

    Questionou  o porque de, entre o desespero causado pelo capitalismo, que obriga milhões de pessoas a buscar um salário baixo em troca de uma carga horária de trabalho alta (além de ter que passar eventualmente pelo constrangimento das abomináveis dinâmicas de grupo), há pessoas, que vivendo exatamente no mesmo contexto, que simplesmente acham que as coisas são assim mesmo?

    Essas pessoas também dizem que se deve agradecer no caso de conseguirem uma oportunidade dada por corporações bilionárias, que irão sugar toda a energia vital de cada um dos escravos assalariados, cuspindo depois o caroço deles no limbo.

    Vivem acreditando que todo o sofrimento e humilhação diários serão recompensados depois da morte com a vida eterna num paraíso.

    Mila Cox tinha ido para a sala assim que ele parou de falar e começou a tocar a música.

    Quando Zími terminou, Cox olhou para Silvano e sabia o que ele estava pensando.

    Silvano estava pensando em como seria se Zími desencanasse da banda Crop Circles (que é um duo formado por Cox e Zími) e seguisse carreira solo.

    E Mila Cox sabia que Silvano estava pensando isso porque ela às vezes dizia que caso se cansasse da parceria musical com Zími,  iria substituí-lo por uma bateria eletrônica e seguiria com o nome da banda, mesmo tocando sozinha.

    Ela estava com vinte e um anos e provavelmente teria tempo para acertar e errar.

    Mas Silvano também tinha pensado em como Zími era cool e exercia influência sobre ele, mesmo tendo estilos e ideais musicais diferentes.

    Zími, que é baterista e vocalista dos Crop Circles, tem mais estofo musical, mas Silvano é mais determinado.

    Silvano é uruguaio, mas falava português quase sem sotaque, pois vivia em São Paulo desde os três anos de idade. Tem agora quarenta e nove.

    É vizinho de porta de Zími e Mila Cox,e tem uma Kombi para fazer carretos e pagar as contas.

    Cox e Zími pagam as contas trabalhando como copywriters, geralmente fazendo publicidade para corporações que não aprovavam.

    Antes de Mila Cox e Zími mudarem para lá, Silvano já morava naquele prédio havia onze anos.

    Ele parece o Pappo Napolitano, e também era guitarrista e cantor. Canta em inglês por opção estética, fazendo uma mistura de rock a billy, blues e punk rock.

    Se apresentava tocando guitarra sentado para fazer a parte percussiva com uma gambiarra de chimbal e bumbo, que ele tocava com os pés.

    Mila Cox sabia que Zími não seguiria carreira solo.

    Mas ele também dizia brincando que caso fosse despedido por Cox, juntaria outras três pessoas mais jovens que ele e montaria outra banda.

    E seria uma banda de apoio, para que ele se tornasse um crooner.

    Elaboraria um repertório primoroso de músicas autorais, misturadas com pérolas obscuras da música mundial do século vinte.

    Ambos sabem que isso nunca aconteceria, porque Zími sabe da falta de glamour que isso significaria em sua vida pessoal.

    Faria shows esporádicos, e gravaria em casa, também esporadicamente

    Estaria satisfeito. Estava com quarenta e sete anos e pensava mesmo era em preservar sua saúde mental e viver com o mínimo de conforto.

    Mas ele não sairia mesmo em carreira solo, porque seria um trabalho duro para ele fazer sozinho, considerando seu entusiasmo para ser artista, que somente aparece por causa da motivação constante por parte de Mila Cox.

    Zími entendia esse sentimento como a superação de sua necessidade de autoafirmação, e não como falta de entusiasmo pela arte.

    Afinal, mesmo que ele não fosse parte de uma banda, ainda assim, seria um apreciador e de alguma outra forma, um apoiador das artes.

    Zím terminou a música e alguns segundos depois Mila Cox falou: “Você deveria gravar essa do jeito que você tocou agora, deixar eu completar a gravação e a gente lançaria como single.”

    Zími respondeu: “Agora seria melhor lançar uma música autoral. Pra lançar cover, eu já estava pensando em uma outra, que é ‘Baby’s on fire’, do Brian Eno. Aproveitar que é uma música legal e é obscura o suficiente pras massas. Embora essa dos Stranglers também tenha essas características. Toquei porque ela me veio à cabeça sem que eu tivesse pensado nela. Eu te enviei a letra de uma música inédita, mas ainda não pensei na parte musical dela, então te mandei pra ver se você tinha alguma ideia.”

    Mila Cox havia mesmo recebido a letra da música, mas não havia começado a trabalhar na canção.

    Naquele momento se lembrava apenas que a letra era em inglês e definia o amor moderno como uma transação bancária em peças publicitárias de bancos.

    Numa outra parte, dizia que quem precisa ser liderado por um pastor, tem a inteligência de uma ovelha.

    Em outro trecho, a letra dizia em primeira pessoa que uma grande parte da humanidade é composta por pessoas com as quais ele jamais se envolveria, em qualquer nível e em quaisquer que fossem as circunstâncias.

    Exaltava ainda a desobediência às convenções.

    Então o interfone tocou e ninguém foi atender.

    Não estavam esperando ninguém, e menos ainda uma notícia minimamente razoável sendo dada pelo interfone naquele momento.

    O toque do interfone não foi persistente, tocou apenas uma vez.

    Então Zími disse que atenderia, mas que fumaria um cigarro na janela antes.

    Olhou para baixo, e nada acontecia na frente de seu prédio, nada que pudesse anunciar algo realmente ruim a ser comunicado.

    Não havia incêndio e nem invasão. A Rua da Glória estava normal.

    Zími tomava o vinho uruguaio direto da garrafa e fumou três cigarros.

    Então ele finalmente  foi atender o interfone, e o porteiro disse que havia ligado para avisar que a água do banheiro seria fechada por meia hora, mas que naquele momento o reparo já havia sido resolvido.

    Zími explicou a situação para Mila Cox e Silvano.

    Fizeram silêncio e pensaram na chateação que haviam evitado, apenas por deixar de ouvir o que um outro humano tinha para lhes dizer.

    Alguém iria querer usar o banheiro só porque estava sem água.

    A preguiça coletiva de comentar pairava densa.

    Uma pequena chateação evitada que causou um bem estar enorme naquele momento.

    As famílias tradicionais e conservadoras muitas vezes começam a ruir com esses pequenos aborrecimentos, que viram ataques de fúria quando a frustração por uma vida farsante pesa mais do que tentar manter aparências.

    Sossego é uma premissa para a felicidade, e a felicidade não é algo para durar incessantemente, pois assim perderia seu sentido.

    Eles tentavam  eliminar as chateações gratuitas, para aguentarem aquelas que são inevitáveis, e que tem alguma razão decente para surgir.

    Silvano voltou para seu apartamento, Mila Cox voltou para seu quarto e Zími ficou na sala, sabendo que a solidão é um luxo e a desobediência às vezes é a ordem de uma intuição que não costuma falhar.

    O aluguel pago fazia agora com que Zími não quisesse estar em nenhum outro lugar.

    Houve um tempo  em que ele dormia num armário no corredor de uma pensão no centro da cidade.

    Ele não tem filhos porque sabe que não daria conta de ser um pai aprovado pelo status quo, então mais tarde poderia dormir bêbado no sofá.

    Gostava de crianças, mas odiava playgrounds de condomínio.

  • Metacrítica

    Como uma sugestão literária pode desencadear reflexões íntimas

    A taça agora reflete um leve nuance púrpuro, apenas; eu, nesta fria estadia serrana, pretendia perder-me entre os dois novos volumes machadianos, ou, quem sabe, afogar-me nos sentimentos mais belos e tristes que só um romance épico da literatura infanto-juvenil de Budapeste apresenta-nos. Mas é fim de setembro, principia o inverno e a neve não virá, como sempre. Minhas mãos voltam-se para as teclas do computador, são obrigações da vida adulta que por ora me prendem a esta tela. Entre análises gráficas, e-mails e discussões acadêmicas, presenteio-me com a possibilidade de libertar meu eu lírico em pequenas doses de literatura singela. Crio, pois, meu próprio grund, dentro de um edifício que talvez já tenha tido seu espaço defendido por heróicos meninos do antigo primário. Sinto-me resfriada, e a dúvida oscila entre a mudança de temperatura e banhos frios em águas inimigas. E ponho-me a chorar, silenciosamente, pela morte de um grande soldado raso (agora capitão). E ponho-me a gritar interiormente pela vitória de um espaço que perderei em breve. E ponho-me a pensar em todas as injustiças que acontecem ao meu redor. E sinto, pois, que crescer é deveras dolorido, mas que, por fim, minha infância não foi só um belo conto-de-fadas.

    Ao fundo, nenhum acorde ousa quebrar este silêncio honrado. Nenhuma cor sobressai perante o cinza nostálgico dos meus dias de “Os Meninos da Rua Paulo”. Só o vinho do liquido aventura-se a atravessar a garganta, amolecendo o peito e aquecendo o corpo contra os graus fajutos que lá fora brincam com o vento cortante.

    Eis a história que não podem deixar de ler. Bia Mies indica “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Mónar, reeditado recentemente pela editora Cosac Naify.

  • O botox da Monalisa. Quando a estética paralisa também os sentimentos

    O sorriso é universal e uma das únicas expressões que já nascemos sabendo fazer e reconhecer, não importa o lugar do mundo onde estejamos. 
     
    Segundo o dicionário, é uma expressão em que os lábios se curvam nos cantos, e é essa curvatura que acaba dando o tom do sorriso. Normalmente, com os cantos voltados para cima expressam alegria, contentamento, felicidade. Ao contrário, se fizerem uma curvatura ligeiramente para baixo ou de forma assimétrica podem expressar ironia, malícia e, até mesmo, loucura ou maldade.
     
    Interpretar o sorriso de alguém é uma tarefa para o nosso córtex frontal, que pode processar essas informações e dar um feedback emocional positivo ou negativo, dependendo do tipo de sorriso captado. Nesse sentido, a neurociência veio ao nosso auxílio com uma descoberta que pode minimizar o efeito de qualquer sorriso maldoso que recebemos – o retorno com um sorriso largo, mesmo que não sincero.
     
    Falso? Sim, mas o resultado dessa falsidade traz um benefício incrível, segundo os estudiosos Kraft & Pressman da Universidade do Texas. Segundo eles, sorrir pode realmente enganar nosso cérebro e impulsionar o humor. Quando sorrimos, mesmo que não estejamos genuinamente felizes, engajamos regiões cerebrais que desencadeiam uma resposta de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, associados à sensação de prazer e bem-estar.
     
    Os resultados desses estudos sugerem que o feedback facial não apenas amplifica sentimentos de felicidade preexistentes, mas também pode iniciar um ciclo virtuoso. Assim, forçar um sorriso pode ser o primeiro passo para iniciar sentimentos de felicidade, mesmo em contextos não favoráveis.
     
    Tudo muito interessante, mas…atenção! a ausência de expressões faciais pode reduzir a intensidade do feedback emocional e, nesse sentido, criou-se um problema para quem é adepto de aplicações de Botox.
     
    Pesquisas mais recentes (Vannini et al., 2018) revelaram que a interação entre a toxina botulínica e o embodiment, ao paralisar os músculos faciais altera a maneira como nosso cérebro percebe e experimenta as emoções, o que pode reduzir o impacto direto do sorriso em nosso estado emocional geral.
     
    Isso nos coloca frente a um dilema digamos estético-emocional: sorrir às bandeiras e rugas desfraldadas, ou emparedar a serotonina num sorriso de Monalisa?

  • As voltas que o mundo dá

    Cada dia mais me convenço de que o universo se comunica com a humanidade por sinais sutis e precisos. Essa linguagem delicada costuma ser nomeada, por muitos de nós, como coincidência ou intuição. Eu, de minha parte, acredito tratar-se de um idioma ancestral, com o qual perdemos o contato, há muito tempo, mas permanece cifrado no nosso íntimo. Vez por outra, algo reconecta a sintonia perdida e decodifica a mensagem. Exemplo disso aconteceu hoje: estava me preparando para escrever essa crônica, cujo tema seria a importância de se estabelecer limites na relação eu/outro para preservação da saúde mental, quando me deparei com a notícia de que a terra ultrapassou 7 dos 9 limites planetários necessários à manutenção do equilíbrio ambiental no planeta. Coincidência? Com certeza, não! Certamente, foi um sinal do universo para quem precisa refletir. Vou fazer uma tradução livre da situação do planeta e vamos ver quem de nós se identifica:

    Por mais que oferte o meu melhor com empenho, me desdobre para atender às necessidades e expectativas dos que me cercam, trabalhe exaustivamente para garantir amparo e proteção aos que amo, sem reclamar vantagens ou prioridade, cedendo quase sempre a minha vez, sem deixar faltar nada para ninguém, no final do dia, me sinto só. Sem cuidado, afago ou reconhecimento. 

    Eu preciso aprender a dar limites aos outros e valor a mim.

  • Dia dos amantes

    Outrora eram somente os santos e as figuras históricas. Hoje praticamente todo profissional tem o seu dia. Mesmo fora das profissões, basta alguém pertencer a uma categoria para ter a sua data especial, tornando-se alvo de homenagens cujo objetivo não é outro senão incrementar o comércio. Há um dia para tudo e para todos, do faxineiro ao vendedor de picolé – o que, quanto a este, é muito justo. Num país quente como o nosso, o picolezeiro tem a nobre função de refrigerar os corpos e desentorpecer as almas, deixando-nos mais dispostos para enfrentar estações como o verão.

    A prova de que o hábito se disseminou é que no dia 22 de setembro comemorou-se o Dia dos Amantes. Catei nos jornais alguma referência mais extensa a tão curiosa efeméride, e nada encontrei; mas os amantes bem que mereciam uma crônica. Vejam que a data não se refere aos amados, ou às amadas, que são entidades nobres e gozam do prestígio da sociedade. Refere-se aos que amam com ímpeto transgressivo, o mais das vezes burlando normas e atropelando os papéis sociais. Os amantes são “os outros”, que por razões óbvias não podem se declarar. Daí a curiosidade que um dia dedicado a eles provoca.

    Machado não os tinha em alta conta – certamente pelo bom casamento que fizera com D. Carolina. Vejam o que ele diz no breve Capítulo XXXVIII de “Quincas Borba”, capítulo esse que antecede o da confissão amorosa do ingênuo Rubião à sagaz e interesseira Sofia: “Rubião estava resoluto. Nunca a alma de Sofia pareceu convidar a dele, com tamanha instância, a voarem juntas até às terras clandestinas, donde elas tornam, em geral, velhas e cansadas. Algumas não tornam. Outras param a meio caminho. Grande número não passa da beira dos telhados…”. Se os envolvidos retornam com as almas velhas e cansadas das “terras clandestinas”, melhor seria que por elas não se aventurassem… Mas não vai ser esse reparo, típico do Bruxo quanto a essa e outras falhas humanas, que vai enfraquecer o nosso registro.

    Fala-se que amantes são todos os que amam com paixão, sejam eles namorados ou esposos. Haverá nesse argumento um eufemismo interesseiro, cujo objetivo seria descaracterizar os homenageados a fim de incluí-los mais amplamente, e sem remorso, entre os que merecem os mimos adequados à ocasião. Tudo para vender mais. Os amantes habitam mesmo o “outro lado”, não são os parceiros institucionalizados do amor. São antes cúmplices, por isso não deixa de ser curioso escolher para eles um dia, à semelhança do que se faz com os santos, os avós, os pais e as mães.

    Notei que pouco se falou na data, mas certamente ela foi comemorada. Por meio não de cartões ou telegramas explícitos, mas de e-mails cifrados que atravessaram a Internet levando o apelo ansioso e triste de dois corpos solitários. Talvez em encontros furtivos num desses motéis promocionais, que além do preço módico prometem sigilo absoluto. Pois esse é o tipo do dia para se comemorar na surdina, à meia-luz, por debaixo do pano.

    Enfim, leitor, sem hipocrisia nem cinismo enalteçamos os amantes no seu dia. Deles é a glória da indústria de perfumes e lingeries. Sem falar de quanto faturam os sex shops numa ocasião como essa. Se hoje as datas valem sobretudo pelo que vendem, e os amantes têm lá a sua fatia de mercado, comemoremos sem preconceito a data a eles dedicada. Sem preconceito e com a sinceridade de reconhecer: que ser humano já não se deixou tocar pelo tentador mistério das “terras clandestinas”?

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se encher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • O que há por trás do movimento antivacina em cães?

    Um burburinho crescente nas redes sociais revela que muitos donos têm evitado vacinar seus cães. Como jornalista, pesquisei e apurei relatos de especialistas, estudos e depoimentos de famílias, e concluí que o preço também está embutido nessa crítica. À primeira vista, porém, a explicação mais repetida remete a ecos de movimentos políticos que já conhecemos. Foi assim na pandemia, quando a incerteza sobre a eficácia das vacinas abriu espaço para a desconfiança. Essa sombra ainda paira sobre parte da população.

    Na internet, o termo “antivax” ganhou força. Designa os que rejeitam vacinas ou diminuem sua importância. Uma pesquisa do portal IG mostrou um dado alarmante: cerca de 40% dos responsáveis temem que a vacinação cause autismo em cães. É uma crença sem base científica, mas que se espalha com rapidez, como rumor em feira livre. No Instagram,também circulam frases de efeito como “pet que não sai não precisa vacinar”, “vacina é só para gripe”. Mensagens curtas, fáceis de compartilhar, que acabam banalizando uma medida vital para a saúde animal e, por consequência, também para a nossa.

    Para conter essa onda de desinformação, a Associação Britânica de Veterinária (BVA, na sigla em inglês), antecipou-se e divulgou uma nota posicionando-se contra os movimentos antivacina. O tom foi direto: não há qualquer evidência científica que relacione vacinas a casos de autismo em cães. Portanto, podem levar seus animais ao veterinário sem medo.

    Entretanto, atribuir a resistência às vacinas apenas à ideologia é uma visão simplista. Acompanhei, ao longo dos anos, a relação entre cães e pessoas e percebi fatores mais concretos nesse movimento. O custo das vacinas, por exemplo, é um dos grandes obstáculos. Ainda que alguns veterinários se esforcem para oferecer preços acessíveis, para muitas famílias a imunização tornou-se inviável.

    Há também a questão da exigência de várias doses antes de liberar o filhote para passear. Em certos casos, entre cinco e sete. Isso compromete severamente o desenvolvimento social dos cães, sobretudo na fase inicial da vida. Quando barreiras financeiras e práticas se acumulam, muitos donos ignoram as recomendações e acabam levando seus cães às ruas antes do fim do ciclo vacinal completo. E, uma vez quebrada a regra, a lógica se impõe: se o filhote já pode ter contato com o ambiente externo, por que continuar arcando com tantas vacinas caras? O resultado é um efeito dominó que mina a confiança.

    Não se trata de condenar a prática veterinária, mas é impossível ignorar a engrenagem maior que sustenta esse cenário. Quanto mais vacinas, maior o lucro da indústria farmacêutica. Reconhecer esse fato não é aderir a teorias conspiratórias, nem enfraquecer o valor da imunização. Pelo contrário: vacinar continua sendo indispensável para a saúde e a longevidade dos cães. O desafio real está em outro ponto: tornar o processo viável, transparente e acessível, para que ninguém precise escolher entre proteger o animal ou pagar as próprias contas.

    Politizar o debate é perigoso. Cães fazem parte de todas as camadas sociais, e muitos responsáveis simplesmente não conseguem arcar com o custo de certos imunizantes. Em um país onde famílias esperam meses por atendimento médico, não surpreende que os animais também sofram os efeitos do sucateamento da saúde pública.

    Mesmo assim, não faltam histórias de donos que se sacrificam, abrindo mão do próprio cuidado para garantir a proteção de seus cães. Esse gesto, ao mesmo tempo nobre e doloroso, revela o tamanho do vínculo que une pessoas e animais, mas também expõe, com clareza, as falhas de um sistema que deixa ambos desassistidos.

    No fim, a matemática é implacável: quando o dinheiro falta, meus caros leitores, não há retórica que resolva. Não é descuido, tampouco crença, mas realidade que nenhum afeto consegue ultrapassar. A conta não fecha. Entre pagar um boleto, comprar o gás ou investir em vacinas, muitos acabam escolhendo o imediato. É duro reconhecer, mas a verdade se impõe com a frieza dos números: amor não basta quando a sobrevivência está em jogo.

    Como dizia meu pai, com a sabedoria de quem viveu de tudo: “Se não tem remédio para a situação, remediado está.”

  • Mano velho

    Já não tenho tempo para nada, com oitenta e nove anos. Ele, o dono de tudo, se esvai, mais lento que outrora. Não suporto os achaques e as dores, que me atacam diuturnamente. A velhice é uma covardia, uma falsa esperança. O que posso esperar daqui para a frente? Muita coisa mudou. Minha amada esposa, Salete, se foi muito cedo – mais cedo do que eu previa, com sessenta e cinco anos. Ela, como quase todas as mulheres de sua família, teve câncer de mama. Um pouco descuidada, permitiu que a doença se espalhasse e, por fim, a metástase tomou quase todo o seu corpinho miúdo.

    Ela deixou, desde aí, uma lacuna muito grande em minha vida, a ponto de eu abandonar muitas das atividades que fazíamos juntos, de que tanto gostava, como passeios no parque, idas aos bailes, ou mesmo um almoço ou jantar num restaurante de nossa preferência. Como disse Chico Anysio, a morte, a consequência, é uma pena – mesmo eu querendo viver com saúde; doente é um sofrimento desnecessário. Devia me nutrir de ânimo pelos meus netos, mas como posso se estão grandes e mal me dão importância?! Têm seus interesses particulares: um se aventura no cinema, outro na tecnologia, e a mais nova na medicina. Quando eram pequenos, iam para o sítio que tínhamos e amavam ficar brincando colados com o vovô. Íamos à lagoa, fazíamos fogueira à noite, para brincar de floresta; acampávamos para ver o luar e as estrelas.

    Tudo isso se perdeu com o tempo. Parece que têm vergonha de andar com o vovô. Maurício, o mais velho, é quem ainda faz algumas coisas comigo, como ir ao supermercado, ao médico ou algo do tipo. Mas faz um pouco a contragosto, às vezes vai à força – noto, sem ele me dizer nadinha. Nem com os filhos posso contar tanto, não pela má vontade, mas porque trabalham demais, e sou a última opção de atenção. Para complicar mais, meus dois filhos não se entendem, depois de uma briga danada de herança, então, quando temos encontros de família, tenho de chamá-los separadamente, em horários ou dias diferentes. Onde já se viu?! O Natal, de que tanto gostava, na época em que estávamos com a minha amada esposa, é agora um momento triste e enfadonho.

    Os dois filhos e netos passam rapidinho para dar “um alô” e vão curtir em outras famílias, na casa das sogras etc. Salete parece que agregava tudo, era o nosso elo, porque depois de sua ida à casa do Pai a vida se fragmentou em cacos pungentes, inservíveis. Isso não é viagem de um velho louco, mas, sim, de um velho que não tem tanta força para resistir aos acontecimentos. Veja, pedi tanto que meus filhos se entendessem, que cheguei ao ponto de me desligar completamente dessa arenga, para o meu bem. Que se fodam, falando a sério! Imagine quando eu morrer… Tudo irá pelos ares! É um horror viver assim. Suplico a Deus que abrevie a minha dor. Mas estou seguro de que Deus se esqueceu de mim.

  • Reencontros

    Reencontrar alguém é como ganhar presente de Natal antecipado, de aniversário ou de amigo oculto. É como se, de certa forma, fosse possível voltar ao passado, reviver um tempo antigo de alegrias e ingenuidade.

    Outro dia reencontrei uma amiga que não via há três ou quatro anos. Ela é médica e, há vinte anos, ajudou a criar um grupo de teatro para adolescentes. Na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, naquele campus cheio de árvores e flores, vivi alguns dos momentos mais lindos da minha adolescência. Uma vez por semana, às terças, sentávamo-nos no chão com folhas de papel A4 e canetas, escrevendo juntos peças de teatro. Duas vezes por ano, apresentávamos as peças — podia ser no campus da Alfredo Balena, podia ser na Pampulha. Foi ali, no final do ano, na Escola de Enfermagem, depois de uma apresentação, que essa médica fez algo que nunca esqueci: leu poemas em voz alta e nos inspirou a fazer o mesmo.

    Anos depois, num sarau em Santa Tereza, aqui em Belo Horizonte, revi essa médica. Cheguei cedo, escolhi uma mesa e esperei. De repente, a vi entrar com a irmã, que também é poeta. Fui até elas. Nos abraçamos. Sentamos juntos. Foi como se tudo voltasse: escrever peças, apresentações de fim de ano, rodas de conversa — e eu ali, menino de novo.

    Aí pude dizer, como um personagem antigo de Machado de Assis, o José Dias, de Dom Casmurro: “A vida é lindíssima”.

  • Um beijo é só um beijo ou qual é o filme?

    “Um beijo é só um beijo”. Esse é titulo do livro do crítico literário e cinematográfico João Batista de Brito. Editado pela Manufatura, aqui mesmo nestas plagas parahybanas, o livro foi lançado em 2001. Pois é. Eu conheço muito bem o seu autor. Somos, talvez eu mais do que ele, jaguaribenses, do bairro de Jaguraibe, capital da Parayhyba.

    Sabia há muito, uma noticia passada por ele mesmo, que o livro havia sido lançado e muitos cinéfilos e não cinéfilos correram para comprar o dito cujo. Mas, infelizmente, andando por aí, presente no meio dessa gente eu não estava.

     Anos depois, mas precisamente 15 anos após o seu lançamento, por acaso, visitando um dos nossos sebos culturais encontrei o seu – dele – “Um beijo é só um beijo”.

    Antes, só não me lembro de quando nem onde, em papo com o autor, perguntei-lhe onde encontrar o referido, pois, não o tendo até aquela oportunidade, cinéfilo de carteirinha que sou, queria adquiri-lo. A resposta? Esgotou. Nem em casa tenho em duplicidade. Mas, como disse neste parágrafo, depois de muito procurar, finalmente, encontrei o procurado em um de nossos “sebos culturais”.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro fininho, apenas 129 páginas, como deve ser todos os livros lançados em nossos dias. Isso tudo considerando o fato de que o brasileiro ler apenas 4 livros por ano, sem conseguir, por incrível que possa parecer, chegar ao fim dos 4 livros que resolveu ler. Ah, mesmo considerando aqueles considerar aqueles que “caem” no vestibular. Tem mais; desses chegam ao fim de apenas 2,1 livros. Está na pesquisa.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro de pequenas 28 histórias, espécies de miniconto, com cada uma delas, como o autor faz questão de esclarecer na sua apresentação, relacionada a um filme.  Diz mais: é fiel ao filme, mas encontra uma forma criativa de narrar, sem entregar o filme (no sentido do conto) ao leitor.

    Li-o de uma só tirada. É assim que costumo me referir a uma leitura primeira e prazerosa. Ele, porém, o autor, por mais que diga não “entregar o filme” nos seus minicontos, para o cinéfilo, aquele mesmo viciado, a “charada” morre logo nas primeiras linhas. Nenhuma dúvida que o livro intitulado de “um beijo é só um beijo”, também poderia ser muito bem chamado, sem deixar de despertar a curiosidade do leitor, de “Qual é o filme”?

    Uma coisa, porém, mais que ululante e mais ainda que o óbvio que o antecede, é que não assistindo ao filme, por mais que se esforce o cinéfilo, ele não conseguirá “adivinhar” o filme ali transformado em miniconto pelo autor. Verdade. Por outro lado, esse fora da tela, qualquer pequeno cinéfilo tendo assistido ao filme “mincontado”, logo nas primeiras linhas, prestando atenção ao que o “narrador oculto” conta, a charada ou mesmo filme estará resolvido.

    E não é nem pela forma de contar do autor, pois, ma vez que ele, João Batista, tudo faz para esconder o filme “camuflado” nos seus minicontos.  Por outro lado, esse do lado de fora da tela, alguns elementos que ele usa para dar vida a sua narrativa, por mais que se esforce em escondê-los, acaba entregando o filme sem perdão.

    Um exemplo é o conto que deságua no filme Casablanca, “Um beijo e só um beijo”, titulo do livro. Nele, Rick – esse em especial – e Victor, esses dois fortes personagens do drama dirigido por Michael Curtiz, que trazem o nome de Casablanca na pele como tatuagem. E agora?  Só faltou Ilsa. Mas, sendo ela quem narra o conto, seria demais pedir que a própria se identificasse.  Assim a entrega seria, como dizemos por aqui, de bandeja!

    No caso do miniconto “Palavras Cruzadas”, apesar de “suas viagens semanais a Milford”, é a trilha sonora que entrega o nome do filme. E o “marido traído” e perguntando, enquanto faz as suas palavras cruzadas, “Ela gosta de Rachmaninoff, mas por que por a música tão alta?” E a citação do médico que encontra em Milford e com ele jantara?

    Pois é, mesmo sendo um breve encontro, esse ficará na sua memória. Conclusão: só poderia ser Desencontro (Brief Encounter), o filme de David Lean, do ano 1945. Por sinal um excelente e belo filme. O título desse miniconto é um achado -“Palavras Cruzadas”. Um título meio assim como “vidas cruzadas”. Não dá pra esquecer. Fazer palavras cruzadas é uma das manias do marido de Laura (ah, sim, “Laura” também é uma entrega).

    Mas, para ficar por aqui, pois afinal são 28 deliciosas histórias ou minicontos, como ele deseja asism chamar, não se esquecer do Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninoff, acelerado, lembrando o trem da partida do personagem. Em síntese, o livro e João Batista, os minicontos por ele escritos são deliciosos.  O cinéfilo que se preza, mesmo com o “produto” em falta no mercado, como vocês viram, deve procurar. Eu procurei e achei.

  • Sobre vida, arte, educação, democracia, anistia, blindagem…

    Além da crônica ou do conto, hoje vou com um texto de opinião que, perdoem o pleonasmo, vem em primeira pessoa. Tenho acompanhado com bastante curiosidade os últimos acontecimentos políticos que tem ganhado destaque neste país lindo, e controverso, chamado Brasil. Como roteirista amador e apaixonado por cinema, acho incrível como a realidade brasileira consegue igualar, ou até mesmo superar, a criatividade dos maiores escritores mundiais desse gênero. É tanto plot twist que eles devem ter inveja. Agora, pensando em todos esses acontecimentos em relação a minha trajetória de vida, não posso deixar de fazer algumas considerações que deixarei soltas neste singelo texto.

    Minha primeira graduação foi em Direito. Desde então, tenho convivido com muitos questionamentos pessoais em relação a essa profissão. Entretanto, apesar desses, eu não tenho como diminuir a importância que essa ciência tem para a sociedade e para a democracia. O direito é um instrumento essencial para a garantia desse termo hoje tão falado, mas cujo real significado poucos realmente conhecem. Será que os jovens não aprendem sobre seu significado nas escolas? Ou será que nosso ensino se tornou tão mercadológico e finalista que seu significado se perde dentre outras milhares de exigências? Essa é uma discussão que poderia gerar teses sobre educação e que não vale o aprofundamento aqui. Polemizando um pouco, talvez falte um pouco mais de Paulo Freire, apesar de muitos dizerem que esse é o grande problema da nossa educação.

    Voltando ao tema democracia, talvez ela não seja um modo perfeito de governo. Aliás, será que a perfeição existe fora do seu significado? Apesar disso, considero que ela seja o melhor modelo, pois permite que a pluralidade humana coexista em espaços comuns. Ou seja, somos seres plurais e, por isso, precisamos respeitar o que cada um pensa. Não importa se uma pessoa é de direita ou esquerda, heterossexual ou homossexual, conservadora ou liberal ou qualquer outra coisa, o que deve sempre prevalecer é o respeito. Além dele, a liberdade de todo o indivíduo se expressar livremente, desde que isso não prejudique os direitos de outro. Seguindo, nesse regime todos são iguais perante a lei, ainda que as vezes seja preciso garantir que, aqueles que são prejudicados pelo sistema, possam usufruir de políticas para minimizar desigualdades, como a política de quotas, por exemplo. Somos iguais nos direitos e nos deveres.

    Todo esse brainstorm de características remete a questões tão obvias que, certamente, o leitor desse texto está se perguntando o porquê estou falando tudo isso. Talvez eu volte a questão dos roteiros do primeiro parágrafo para entrar na seguinte questão, o absurdo. Pensando em um contexto sem nenhum tipo de ideologia de esquerda ou de direita. Será que alguém concordaria que nossa democracia pode ser colocada em risco por qualquer pessoa que tente um golpe de estado? Será que seria razoável permitir que alguém, junto com seus pares e colegas, decida se ele(a) mesmo irá decidir sobre um crime que cometeu? Acho que a resposta para ambas é negativa. Ao menos, espero que seja. Se o é, por qual motivo alguns tem aceitado renunciar a elementos tão caros e importantes a nossa democracia pelo fato de defender certo posicionamento político? Será que isso vale a pena?

    Não se trata aqui de ser de esquerda ou de direita. Hoje, apesar de qualquer posicionamento político, eu me considero um fã da democracia. Talvez essa tenha sido uma das principais lições que aprendi ao cursar direito. Precisamos defender esse modelo para que possamos realmente conservar nossa liberdade de expressão para opinar, seja lá como for, dentro dos limites que exigem a legalidade. Não existe ditadura benéfica aos humanos, sejam elas de direita ou de esquerda. Qualquer tipo de restrição ao ser livre é burro.

    Finalmente, chego aos atos realizados no dia 21 de setembro de 2025 em todo o Brasil. É muito bom ver que, independente de correntes ideológicas, tivemos milhares de pessoas lutando por um objetivo tão nobre, ou seja, defender a nossa democracia. O ato mostra como o Brasil é lindo e gigantesco culturalmente, como temos talentos que fazem ter orgulho real por sermos brasileiros. precisamos cuidar desse país para que toda essa pluralidade floresça cada vez mais. Nisso consiste o real patriotismo.

    *Textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião do Crônicas Cariocas.

  • O retratista fiel

    Folhear álbuns de fotografias antigas — em papel ou digitais — tem me causado um certo estranhamento, uma sensação de que os ambientes, as pessoas, as fisionomias não eram bem assim como estão retratadas.

    Na foto do meu aniversário de 15 anos, o vestido que, à época, me fez sentir uma princesa hoje mais parece um tule de cobrir bolo. Difícil acreditar que fui eu mesma quem escolheu aquela roupa, que em nada me valorizava.

    Na varanda da casa onde morei com meus filhos pequenos — e que, aos meus olhos, parecia abrigar a família inteira —, a foto mostra um espaço em que mal cabiam quatro cadeiras. E nada tinham a ver com os móveis charmosos de jardim que eu havia comprado.

    Meu bolo de aniversário com cobertura de chocolate, que à luz das velas me pareceu brilhante e festivo, aparece seco, simples demais para a importância daquela comemoração.

    No começo, pensei que a culpa fosse das fotos: iluminação ruim, ângulo errado, talvez o dia nublado tivesse apagado as cores. Mas, aos poucos, percebi que não eram elas que me traíam — era minha memória, minha lente afetiva, que guardou lembranças muito além dos flagrantes de uma máquina, seja ela qual for.

    Minha memória registrou o que foi captado pelos sentidos: o olhar de admiração que me fez feliz naquele vestido, o som das risadas gostosas que ampliaram a varanda, o gosto de chocolate do beijo depois do bolo que iluminou minha boca.

    Sabem de uma coisa? Aprendi que é melhor confiar no que ficou registrado em mim: a memória é o mais generoso dos retratistas.

  • QUARENTENA

    Com um sobressalto, fui arrancado da cama por um sonho apocalíptico. Ainda grogue e alarmado, abri as cortinas e meu humor logo mudou. Lá fora, me acenava um maravilhoso céu azul. Era sábado de aleluia. Aleluia! Que lindo sol! Um dia claro com temperatura amena, típico do início de outono. Perfeito para uma caminhadinha ao ar livre.

    Os gerânios do jardim do vizinho pareciam mais vivazes do que nunca. Um par de borboletas azuis bailava graciosamente a seu redor. Era a vida que pulsava mais forte ou meu bom humor que fazia tudo parecer belo? Até o ar parecia mais leve hoje, com menor presença de gases tóxicos produzidos por automóveis. Nem mesmo consigo perceber o azucrinante ruído rotineiro do ronco de motores, buzinas e motos turbinadas.

    Falando nisso, cadê os carros? Só vislumbro alguns estacionados a meio fio, como se tivessem sido abandonados há séculos por seus donos como peças de um museu a céu aberto. Suas pálidas cores metálicas contrastam com o verde vívido emanado pelas imponentes seringueiras que protegem o passeio com sua centenária serenidade vegetal.

    Andei até o final da quadra. Nenhuma alma viva. Um silêncio austero, quebrado apenas pelo alegre gorjeio dos passarinhos que pareciam mais felizes hoje, cantarolando com maior vigor do que o habitual. Aquela quietude (na verdade, apenas a ausência dos irritantes ruídos urbanos) deveria ser celebrada mas, nas circunstâncias, tornou-se perturbadora.

    10h15min. A esse horário, o vai-e-vem costuma ser intenso. Ok, sábado o movimento é menor. Uns 20% menos gente. Mas… ninguém na rua! Muito esquisito!

    O mais estranho é o comércio fechado. A loja de armarinhos da esquina. Fechada. O pet shop que aos sábados fervilha de cães latindo e donos tagarelando. Fechada também. Será que emendaram o feriado de sexta-feira da Paixão com o domingo de Páscoa?  E a vendinha do ‘seu’ Josué? Abre até mesmo aos domingos e feriados no período da manhã. Fechada também. Não! Definitivamente, há alguma coisa muito errada por aqui.

    Veio-me à memória um daqueles episódios sinistros da antiga série Além da Imaginação (“Onde estão Todos?” era o título), em que o personagem principal se vê vagando pelas ruas de uma cidade com casas e estabelecimentos comerciais perfeitamente conservados mas não encontra nenhum habitante. E baixa o desespero. O mesmo que começo a experimentar agora.

    Teríamos sido vitimados durante a noite por uma maciça invasão de naves extraterrestres que, em pouco tempo, dizimaram a população com seus artefatos de destruição em massa? Isso explicaria o pesadelo tenebroso dessa noite…

    Enquanto meu cérebro maquinava elucubrações cada vez mais catastróficas, vislumbrei, ao longe, adiante, alguém caminhando. Ufa! Não estou só no mundo. O vulto do que parecia ser um solitário homem se desloca, com uma aparência suspeita, em minha direção com passadas rápidas e estridentes que reverberavam tetricamente na calada daquela inusitada manhã.

    Seria mesmo uma pessoa? Ou talvez um alienígena, perscrutando os meandros do planeta desabitado, em busca de terráqueos sobreviventes (eu, por exemplo) para concluir a ação de extermínio? Já o imaginei, sacando de seu arsenal intergaláctico, uma arma letal e me abatendo impiedosamente.

    Ele continua se aproximando ameaçador. Pensei em furtivamente atravessar a rua para evitar que nossos caminhos se cruzassem, o que parecia, em função das trajetórias em curso, inexorável. Mas abandonei essa estratégia ingênua de fuga pois o expediente não seria capaz de afastar o perigo eminente nem me manteria fora do alcance de seus braços de plasma dilatável. Sua visão de raio X e sua arma mortífera me convertiam em presa fácil.  

    Ao chegar mais próximo, uma constatação terrível aumentou ainda mais meu pânico. Ele vestia no rosto uma sinistra máscara negra que cobria a maior parte de seu semblante!! E luvas plásticas envolviam suas mãos (ou seriam ganchos?). Não restava dúvida. Estava eu à mercê da criatura, e nada poderia mudar meu destino. Prossegui titubeante como um boi rumo ao matadouro, resignado ante o desígnio cruel que me aguardava.

    Ao chegar a poucos metros, verifiquei com um misto de alívio e decepção, que se tratava tão-somente de um reles rapaz de carne e osso de seus 30 anos, o qual ignorava minha presença, entretido que estava com seu celular (sua única ‘arma’, ao que parecia) e ia passando indiferente, sem sequer encarar minha expressão de pavor que, aos poucos, se dissipava.

    Mais calmo mas ainda sob tensão, procurei aquietar meu coração acelerado. Quando a curiosidade superou o medo, resolvi, num ato de bravura, a ele indagar:

    – Me desculpe. Poderia me dizer por que as ruas estão vazias e está tudo fechado?

    – Ué, o senhor não está sabendo da pandemia de coronavírus?

    – Hã. Corona… o quê?

    Minha vida estava salva. Acho. Pelo menos momentaneamente. 

    Uma pandemia? O que isso significa? Devia ser algo grave pra tirar todo mundo assim de circulação naquele sábado reluzente de outono.

    Seja lá o que for, melhor voltar pra casa que, pelo visto, é o lugar mais seguro.

    Mas quem vai salvar as seringueiras, os passarinhos, os gerânios, as borboletas?

  • Enxurrada

    Quem morou em cidades do interior, em tempos idos, vai se lembrar da enxurrada. Do barulho, da intensidade, da cor, do tempo que durava.

    Hoje, talvez, poucas crianças tenham visto, ou até mesmo ouvido falar dela. Esse fenômeno da natureza não era o evento em si, mas a consequência. Ainda assim, tinha tanta força que me deixava suspensa na janela, olhando. A causa era a chuva torrencial.

    Quando amainava, virava pingos esparsos, ou garoa fininha. Só então poderíamos sair de casa. Quando a enxurrada já tivesse diminuído, até se tornar uma fina lâmina de água que seguia em busca de seu destino final.

    Do qual eu não fazia ideia. Mas sabia que levava tudo em seu roldão: gravetos, brinquedos esquecidos na porta das casas, pintinhos distraídos, caso a galinha não tivesse tempo de protegê-los.

    E toda sorte de tralhas e sujeiras que encontrava pelo caminho.

    Por que me veio essa memória?

    Pelo cuidado.

    O cuidado e a responsabilidade que devo ter ao escrever as crônicas do meu cotidiano.

    Escrever é ato solitário.

    Mas, ao soltar o texto, ele deixa de ser meu e toma vários caminhos, pode circular pelo mundo virtual, ficar estagnado em uma gaveta, virar papel de embrulhar…

    Essa é a razão que me fez pensar no cuidado… ao escrever não devo me comportar como a enxurrada: bela, intensa, mas misturada ao lixo que recolheu pelo trajeto.

    Quero ser o fio de água que desce pela rua depois da tormenta.

    Manso.

    Sob a leveza da garoa fina.

  • Eu vejo flores em você

    Não tem nesse mundo quem nunca escutou falar que as palavras têm poder, seja para tornar realidade o que estava no campo dos sonhos, seja para elevar ou destruir alguém. Eu mesma lembro de algumas palavras que, atiradas contra mim, me fizeram sangrar por um tempo, assim como guardo na memória outras que funcionaram como unguento.

    Além do poder que lhes é peculiar, acredito, que elas também possuem altura, largura e profundidade, mas nem sempre nos damos conta.

    Exemplo disso acontece quando, ditas numa conversa, são capazes de inaugurar sentidos (largura), iluminar e fomentar ideias (altura) ou promover conexões, interpretações que abrem estradas para as emoções (profundidade).

    Mesmo cientes do seu poder de cura, não devemos esquecer de que, no bolso, as palavras carregam uma lâmina de corte afiada.

    Quantas vezes usamos a navalha sem intenção? Porém, para quem escuta, a ausência de motivação para a hostilidade não diminui a gravidade do ferimento. Daí a importância de se ter cuidado ao manipular a faca afiada.

    É comum ouvirmos o álibi: “esse é o meu jeito de falar, foi sem querer, não me leve a mal.” Levamos sim! Ninguém merece arcar com o custo da falta de coragem de mudar, seja de quem for. Fala sério!

    A palavra não é o pijama velho que vestimos para dormir.  Não, ela é tecido delicado, fino, requer cuidado e manutenção. Senão, encarde e perde seu encanto e beleza.

    Toda palavra é feita de pétalas e espinhos. Prestemos atenção na forma com que entregamos cada rosa no nosso dia a dia.

  • A verdade e o sonho

    Ele estava seriamente desconfiado de que Papai Noel não existia. Os pais protestavam, não queriam que se despedisse tão cedo da infância (como se não houvesse razões mais fortes que levavam a isso!), mas ele achava que o estavam tapeando. Enganavam-no além do tempo em que deveria ser enganado. De qualquer modo, com os seus onze anos, não tinha certeza.

    Valtinho, o melhor amigo, garantia que Papai Noel era uma invenção dos adultos para fazer as crianças irem para a cama mais cedo. E Valtinho sabia das coisas – foi ele quem lhe disse, por exemplo, que não existia cegonha. Se existisse, como explicar a barriga enorme das mulheres grávidas antes de descansar? Munido desse argumento ele interpelou a mãe, que desarmada lhe confessou a verdade. A cegonha era uma fantasia para enganar as crianças muito pequenas… Ao ouvir isso, ele se sentiu vaidoso. Estava se aproximando do mundo dos adultos, e um dia seria um adulto pleno, ou seja, alguém para o qual a vida não tinha segredos. “Ser adulto, saber tudo” – essa era a grande conquista que faria no futuro.

    No entanto a mãe, que desistira tão fácil da mentira da cegonha, insistia que Papai Noel não era uma fantasia. Vinha nas noites de Natal e deixava os presentes que as crianças pediam (anos depois, já adulto, ele criticaria a “irresponsabilidade social” dessa versão). O pai confirmava tudo, mas atualizava o contexto da história – em vez de trenó puxado por renas, por exemplo, falava num pequeno veículo movido a turbinas que permitia ao velhinho visitar numa noite todas as crianças do mundo. Era uma pequena concessão à inteligência do garoto, que ainda assim desconfiava da conversa.

    Por isso resolveu fazer um teste. Se Papai Noel vinha mesmo de noite, ou de madrugada, queria estar acordado para vê-lo entrar no quarto. Faria um esforço para não dormir e desvendar o enigma. Nos anos anteriores adormecia logo para abreviar o tempo e chegar a manhã do dia seguinte – mas essa era uma atitude de criança. Agora que estava se tornando adulto, e queria saber tudo, a melhor estratégia era fugir do sono… e do engano. Foi com essa disposição que se deitou na hora que os pais estabeleceram (não convinha resistir, para não despertar suspeitas) e ficou ali, de olhos arregalados, acompanhando o movimento da casa.

    Risos, fragmentos de conversas, barulho de talheres… De início tudo isso chegava ao seu quarto com uma intensidade que o incomodava; depois foi-se tornando distante, virando surdina, parecendo por fim uma cantiga de ninar. Ele aguentou o quanto pôde, mas terminou adormecendo. E teve um sonho. Sonhou que a porta se abria, aos poucos, e alguém entrava no aposento com o presente que ele pedira. Silenciosamente, para não o acordar, deixava o videogame ao lado da cama e se retirava depois de o beijar de manso na testa. Pelo vulto, e sobretudo pelo beijo, ele percebeu que era sua mãe.

    No dia seguinte, mal abriu os olhos, deu-se conta do seu fracasso. O propósito era manter-se acordado, mas não tivera forças para isso. Adormeceu como uma criança e teve aquele sonho… No sonho revelava-se o embuste, mas sonho é diferente de realidade. Sonhou com o que queria que acontecesse, pois desejava muito ser grande. Certamente não vira a mãe real, vira a mãe com que tinha sonhado. E como ficava a questão de Papai Noel? Existia ou não?

    No próximo ano ficaria “mesmo” acordado e descobriria a verdade. Com esse pensamento animador, ele começou a desfazer o embrulho do videogame novo.

  • Com um tirano na barriga

    “Fulano tem um rei na barriga”, todos conhecem o dito e, sem dúvida, ao menos uma pessoa que se enquadra no tipo que ele procura representar. De igual maneira, há quem possua um tirano na barriga. Mesmo que nunca tenha ouvido a expressão, tenho certeza de que o leitor conseguirá apontar alguém com essa característica.

    Esse tirano é também rei. Por vezes, crê ser um deus. O certo é que sempre corresponde a um déspota, mas nunca esclarecido (especialmente sobre si). Todavia, essa tirania só possui fundamento na mente do próprio indivíduo, repleta de megalomanias e delírios de poder.

    Ele está em todo lugar, no trabalho, dentro de casa, nas repartições públicas, na direção das empresas privadas, pode até ser você. Só há um lugar em que não é capaz de o encontrar: no consultório de psicologia. Aí, jamais! O divã se transforma em uma verdadeira maca cirúrgica, a partir de onde o tirano será extraído.

    Para comandar, não precisa da opinião alheia; afinal, se difere da dele, você está errado e é um ignorante. Em nenhuma hipótese, ouse discordar de Sua Alteza, a detentora da verdade universal e absoluta. Aliás, se há quem ainda acredite nesse tipo de verdade, são esses senhores, que não a veem na ciência ou em qualquer entidade religiosa, mas em si.

    O ideal de humano, claro, é ele próprio, o arquétipo da perfeição. Os outros habitantes da Terra, vis e repletos de defeitos, são hierarquizados de acordo com a proximidade ou distância das características divinas representadas nele. Casos de flagrante diferença não serão aceitos pacificamente em seu reino; pelo contrário, o anormal e problemático terá de ser açoitado e inferiorizado cotidianamente.

    Detentor do poder sobre tudo (poder outorgado e aclamado por ele mesmo), buscará reger o mundo, governando pela ordem e pelo arbítrio, como um autocrata. Casos de desobediência são julgados como lesa majestade. Quem tentar seguir um caminho diferente do decretado, estará sujeito à fúria do tirano.

    Sabedor de todas as verdades, não se equivoca nas suas ordens, que devem ser acatadas e cumpridas. Quem tem um tirano na barriga cobra obediência. Não é para menos, imagina-se em uma posição de direção e mando. Anda como um capataz a vigiar os subordinados; com estes, só se comunica de cima.

    Nada pode se suceder no espaço sob sua jurisdição sem que passe por ele. No seu domínio, tudo precisa estar nos conformes (vale dizer, nos seus conformes). Não espirre quando o ser supremo não quiser, ainda que não saiba da indisposição desse sujeito para tão pequeno e incontrolável ato.

    O cuidado é sempre necessário e deve ser constante, não se sabe o que pode despertar aquela ira. Todavia, isso não basta, a nação vive ao sabor das flutuações do ânimo da potestade. Ao acordar, reze para que ele tenha despertado bem.

    Não é só o referido procedimento cirúrgico que corresponde ao motivo pelo qual não vemos esses sujeitos no psicólogo. Quem carrega um tirano na barriga nunca irá aceitar a necessidade de ser acompanhado por um profissional dessa área. Aliada ao preconceito que ainda existe em torno da terapia, a empáfia dessas pessoas não permite isso.

    Admitir que possui problemas, aceitar que carece de ajuda? De maneira nenhuma. No tirano, abunda a sobranceria. Seus devaneios de superioridade não permitem qualquer ato que possa parecer fraqueza ou rebaixamento ao nível dos mortais. Aquela suposta posição cimeira precisa ser defendida a qualquer custo e a todo momento, inclusive diante dos casos mais fúteis e que não trazem nenhum questionamento.

    No fundo, o tirano todo-poderoso sente sua enorme fragilidade.

  • Ruptura

    Toda vez que olhava pela janela era em busca de distração. A vista não era de frente para o mar mas também não era para alguma parede. Do alto de sua janela avistava a cidade com sua arquitetura confusa e mista. Prédios clássicos que evocavam o passado de glória do bairro resistiam em meio a edifícios decadentes e lançamentos imobiliários de residências claustrofóbicas.

    Durava pouco a tentativa de desviar a atenção. Invariavelmente algo a puxava pelo pé e seus olhos voltavam para as obrigações. Agora, chamadas de obrigações mas que um dia foram recebidas com entusiasmo porque faziam parte de sua escolha.

    A opção por essa vida tinha sido sua há 20 anos. Era mais jovem do que hoje, naturalmente, mas ainda estava em boa forma. Toda manhã se olhava no espelho e sorria constatando: ainda sou um mulherão.
    Mesmo com sua rotina pesada e complexa, não abria mão dos cuidados essenciais. Unhas toda semana, para citar somente um aspecto, em nome do que ela chamava ser seu pacote básico feminino.

    Por dentro, mantinha alguns hábitos de higiene intelectual, como cinema e encontros com as amigas. Ver um filme, como ela sempre falava, era a forma de enxaguar seu cérebro. E encontrar as amigas era para deixar a gargalhada em forma. Mulherão por dentro e por fora, era assim que se definia.

    Por conta do seu cotidiano hiper atarefado era chamada de guerreira. Houve uma época em que sorria envaidecida quando escutava isso. Nos últimos anos, no entanto, esse suposto elogio a tirava do sério. Não era mal criada, longe disso, mas não deixava passar em branco.

    Toda vez que escutava que era “guerreira” respondia: guerreira não, sou sobrecarregada. Intimamente sempre soube que um dia teria que dar um fim a isso tudo. Aquela vida que um dia fora boa hoje se tornara um tormento. O problema estava em pegar a faca e cortar as cordas. Romper é um processo doloroso e necessário. Para ela, se desvincular e seguir adiante se tornaram situações que um dia ela teria que vivenciar.

    Só não imaginava que romperiam por ela. Doeu fundo quando escutou as palavras duras. Por fora manteve a postura corajosa, afinal é uma mulher adulta e independente. Mas por dentro escorreram lágrimas por sua alma que por pouco não transbordaram.

    Dedicara mais de 20 anos de sua vida para ser dispensada sem mais nem menos. Mas honestamente, ela esperava o que? Um número musical? Mãozinhas dadas e palavras doces?

    Sem chance. A vida era dura e isso fazia parte dela.

    Ergueu-se, ajeitou o vestido e olhou em volta para ver se faltava algo a ser levado. Parecia que estava tudo encaixotado, mas talvez ainda precisasse dar mais uma olhada. No coração, as mágoas que sentia pela ruptura ainda pulsavam. Arqueou as sobrancelhas e disse para si mesma: pode doer agora mas nada disso vai me abalar.

    Nesse instante lembrou-se das sábias palavras de uma amiga do tempo de escola. Sorriu para si e concluiu que naquele instante aquele conselho se tornara um imperativo em sua vida.

    A amiga disse certa vez: Para estar sempre preparada tenha à mão um bom advogado…trabalhista!

    Suspirou fundo e pensou: sem emprego mas isso não vai me abalar porque ainda sou um mulherão. E foi em busca de mais uma caixa de papelão.

  • Mundo Além das Quinas!

    Há uma caixa no centro da mesa. Você a conhece bem: é quadrada, de paredes rígidas, com cantos precisos. Dentro dela cabem todas as respostas que você aprendeu a repetir, os “porquês” que não precisam mais ser questionados e os caminhos que todos já pisaram. O pensamento dentro da caixa é seguro, previsível, quase um ritual. Mas e se, em um dia comum, você resolvesse escalar suas paredes e olhar para além das quinas?

    Acontece que o “fora da caixa” não é um lugar, mas um verbo. É o ato de duvidar da primeira resposta, de inverter a pergunta, de perguntar ao invés de responder. Lembro-me de uma vez em que uma criança, em uma sala cheia de adultos sérios, apontou para um quadro na parede e disse: “Por que aquele homem está triste?”. Todos riram, porque o quadro era abstrato, apenas formas e cores. Mas a pergunta permaneceu, como um convite a ver o invisível. Talvez pensar fora da caixa seja manter essa coragem de enxergar rostos onde outros veem apenas linhas.

    A história humana é uma coleção de escapes de caixas. Quando alguém duvidou que à Terra fosse plana, quando outro imaginou que máquinas poderiam voar, ou quando uma mulher decidiu que sua voz merecia ecoar além da cozinha. Acreditamos no que está escrito nos manuais, nos hábitos, nas tradições, no que é imutável. Há quem diga que “pensar fora da caixa” é uma habilidade rara, um dom para iluminados. Discordo. Basta observar os artistas de rua que transformam lixo em esculturas, os feirantes que improvisam soluções com arame e criatividade, ou a avó que reinventa a receita do bolo porque faltou um ingrediente. O difícil, na verdade, é resistir à tentação de voltar para a caixa quando o vento lá fora parece frio demais.

    No fim das contas, a caixa não é inimiga, ela existe para ser desmontada, remendada, ou abandonada. Porque lá fora, onde não há cantos definidos, há espaço para riscos, para erros que se tornam acertos, e para ideias que nascem frágeis. Talvez pensar fora da caixa seja lembrar que somos maiores que qualquer quina.

    E você, já olhou para além da sua caixa hoje?

  • Brazilzão

    Não falo de Clarisse, pelo contrário, ela se mostra ser uma pessoa de bem, engajada, fervorosa com os princípios das “quatro linhas da Constituição”. Falo de Sérgio, que se debandou para lá, pro lado comunista. É um tremendo de um traidor e vacilão. O casamento deles está um pandemônio. Imagine conviver com um comunista, que está pronto para matar um adversário a qualquer hora; que está repleto de ideais do mal; que quer ver a desgraça de toda uma sociedade de bem. Clarisse não tolera a virada de casaca de Sérgio, que hoje condena Bolsonaro – que ironia terrível. Até pouco tempo atrás, Sérgio dormia em acampamento em frente ao quartel, manifestava – até com certo excesso, que nós tínhamos de contê-lo –, idolatrava mesmo o nosso chefe maior, como um ser divino, enviado dos céus. Tudo que ele falava era lei. Hoje está do lado de Xandão. Disse que foi iluminado por um sonho tresloucado, só pode. Viu Jesus caminhando com os pobres, os vagabundos, os bêbados, os viados e os nordestinos. Onde já se viu?! A Bíblia não diz nada disso. Ao contrário, a Bíblia é santa, é o nosso guia e de Bolsonaro, declarando as palavras certas e duras, para o nosso bem e santidade. Não prega, jamais, a balbúrdia, que esse povo baixo prolifera. Você já viu o comportamento desses infiéis? Vi uma vez aquele Pablo Vittar e me escandalizei, e determinei que minha neta nunca mais assistisse a qualquer coisa dele. É um demônio disfarçado de gente. Foi preparado para destruir a cabeça dos jovens, para se virarem contra as leis de Deus. Veja só a inscrição do nome de Bolsonaro: Jair Messias Bolsonaro. Messias, viu aí?! Ele foi chamado por Deus para livrar o Brazil do comunismo. Voltando ao Sérgio, ele está absolutamente errado, se vendeu por nada. Fico perplexa com a desfaçatez do sujeito, que até outro dia se dizia ser nosso amigo. Chegou a frequentar a minha casa, justamente na comemoração daquele fatídico ano de 2018, quando o chefão se tornou presidente, para a honra e glória do nosso País. Observe como as coisas são bem articuladas: tudo que Bolsonaro está passando é somente uma prova para, com a ajuda dos alienígenas, refundar a nova ordem XWO. O que é Xandão na frente de criaturas superiores?! Deus e Elon Musk mandarão logo, logo, antes de uma inventada prisão de Bolsonaro, seres celestiais, de outras galáxias, para limpar o Brasil, e deixar nessa terra dourada somente os brazileiros de estirpe. Vão fazer uma limpa como jamais se viu! Os primeiros a serem exterminados serão Lula, Alckmin, Xandão e todo o STF. E Trump está intermediando esse plano, que começará no Brasil e passará por Venezuela, Cuba e afins – já viram os indícios de ataque a Maduro? São sinais dos novos tempos. Claro que agora vai dar certo. Só tenho pena de Sérgio, antes tão aguerrido; será dizimado junto com os comunistas.

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