Domingo

  • Poema #16: Poema ao vento

    Poema ao vento
    Cesto vazio em pouso certo
    Cascalho de ilusões
    Sem tempo.

    Poema ao vento
    E nenhuma certeza das coisas
    Nenhuma certeza.

    De repente uma linha intrometida atrapalha o poema, como um rio conquista com ajuda das águas a terra branca, areia, alguma coisa separando os versos e construindo as margens. Há um menino do outro lado e ele abana um boné vermelho para o poeta. O poeta não se sente muito bem no meio de um parágrafo, mas, mesmo assim, acena para o menino…

    Poema ao vento
    Um contratempo
    Mapa e ponte
    Descaminho
    Novo tempo

  • O que fica fora da foto

    Já repararam como a gente anda vivendo tudo… com o braço esticado?

    O pôr do sol acontece — e lá estamos nós, tentando enquadrá-lo. Uma risada explode — e alguém já procura o celular. O momento chega inteiro, mas a gente o recebe pela metade.

    Não é que faltem sentidos. Eles continuam todos aqui: ver, ouvir, tocar, sentir cheiro, provar. Mas, na prática, parece que elegemos um só — e ainda assim, mediado por uma lente.

    A cena não passa mais direto pela gente. Antes, precisa caber na tela. E aí acontece uma coisa curiosa: quanto mais a gente tenta guardar o momento, menos ele parece nos atravessar de verdade. O pôr do sol vira registro. O sorriso vira conteúdo. O encontro vira material.

    A gente não olha — enquadra.

    Não presencia — captura.

    Não participa — publica.

    E, nesse movimento quase automático, alguma coisa se perde. Talvez a distração do vento, o calor do instante, o detalhe que não caberia na foto, mas que era justamente o que fazia tudo valer a pena.

    Há sempre um ajuste a fazer: o ângulo, a luz, a pose, a versão de nós mesmos que vai aparecer depois. Porque, no fim, a imagem não é só do momento — é também sobre quem a gente parece ser dentro dele.

    E assim, aos poucos, vamos nos afastando. Sem sair do lugar.

    Viramos uma espécie de intermediários da própria experiência. Nem totalmente dentro, nem completamente fora. Apenas ocupados em garantir que tudo fique… registrável.

    E curioso: pelas lentes do celular, quase sempre saímos bem. Talvez melhor do que estávamos.

    Mas fica a dúvida — em que momento foi que começamos a preferir a lembrança editada à experiência vivida?

  • Os brincos

    1.
    Adriana recebeu um forte golpe na cabeça. O sangue escorreu, e, em alguns minutos, o piso da cozinha se transformou num tapete escarlate. Rastejando pelo chão, conseguiu deixar o local. No corredor, ouviu uma porta bem lá no fundo ser batida com violência. Escutou miados e sentiu algo semelhante a um conjunto amorfo de pelos roçar sua perna. Arrastou-se até o elevador. Apertou o botão térreo e lembrou que Pedro havia ficado no berço. Saiu do elevador e correu de volta ao apartamento. Dirigiu-se ao quarto do filho, ele não estava lá. Levou outra pancada, desta vez na face esquerda.

    2.
    Alguns dias – ela não tem a menor noção de quantos – haviam se passado. Deitada num quarto de hospital, Adriana tinha diante de si a mãe, olhos vermelhos de tanto chorar. Pensou em como essa situação sempre constituíra fonte de desconforto para Amália. Desde que tinha cinco anos, Adriana havia aprendido em casa que gente crescida não chorava. Só crianças podiam fazê-lo, crianças choravam por qualquer motivo, era natural que agissem assim. Quando um adulto chorava, era por uma razão muito grave,invariavelmente relacionada a morte, doença séria, falência ou ruína.

    – Minha filha…

    – Onde está o Pedro?

    – Calma, ele está bem. Vicente está cuidando dele.

    – Eu quero vê-lo.

    – Você não pode fazer esforço… Por favor, não se levante.

    – Eu preciso vê-lo.

    – Olha, vem cá, eu tenho uma coisa pra você, sei que vai gostar. Eram da minha avó. Quando você for embora, vai estar linda.

    3.
    No dia em que deveria deixar o hospital, Vicente foi encontrá-la. Havia ficado acertado que Adriana não voltaria para o apartamento onde o pesadelo havia começado. Na recepção, burocracia resolvida num tempo surpreendentemente curto, ela preparava-se para ir embora com o ex-marido quando uma enfermeira veio lhe avisar que tinha esquecido um par de brincos no quarto. Ela agradeceu e em seguida colocou-os. Achou que lhe assentaram bem, mesmo não tendo conferido o resultado num espelho. Poderia ter perguntado a Vicente se eram bonitos ou mesmo adequados, se combinavam com sua roupa ou com sua personalidade. Bobagem. Momento nada oportuno para esse tipo de futilidade. Além do mais, talvez ele só prestasse atenção nas feridas de seu rosto e nem conseguisse enxergar a joia direito. Era muito estranho o fato de jamais ter furado as orelhas àquela altura da vida. Isso limitava bastante os modelos de brinco que poderia vir a usar. Adriana começou então a recordar as mulheres da família: a mãe, as avós, as duas irmãs mais novas, as primas mais chegadas, tia Hilda e tia Helena, velhas solteironas que bem poderiam ter sido criadas pela mente libidinosa de algum escritor pervertido. Cláudia, Valéria e Márcia, amigas queridas, todas elas de orelha furada.

    4.
    Vicente não estava de carro. Na porta do hospital, com Pedro no colo, tentava conseguir um táxi. Uma obra quase em frente à saída dificultava a circulação de veículos, obrigando os motoristas a realizar desvios. Ele afastou-se um pouco à caça de condução. Adriana resolveu dar alguns passos na direção do ex-marido. Fraca e um pouco tonta, escorregou. Caiu. Sua nuca encontra o meio-fio. Deitada no chão, é vista por um senhor que passava claudicante apoiando-se numa bengala. Junto ao corpo imóvel de Adriana, na altura da orelha esquerda, antes que pudesse esboçar qualquer reação, ele reparou bem: uma pedra vermelha, fina e delicada, reluzia.

  • Esquisito Íntimo – parte II: origem x vertigem

    Eu também tinha visto aqueles lábios torcidos em uma expressão de humor irônico. Parecia quase desnecessário, mas a presença do “quase” – termozinho safado! – faz toda a diferença.

    Traja o tipo de humor que eu gosto, do tipo que não se importa em zombar de si mesmo, verdadeira leveza e certificação de se estar vivo.

    Mesmo que a milhas náuticas de distância, poética unidade que mede o mar a partir do céu, um belo dia, num domingo posterior ao original, o Domingos contestou-me:

    Por acaso você foi ao dicionário pesquisar o significado da palavra esquisito?

    Então aqui nasce a parte II de “Esquisito Íntimo” – é deselegante deixar um leitor sem respostas.


    “Esquisito:
    Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels* preto e branco dançantes. Uma quase hipnose”.

    Ela estala na língua e, agora, reverbera no paladar. Em italiano, squisito escorre, redondo, como um elogio que desliza fácil. Sinto-o na boca como quem descreve um prato raro, delicado, escolhido a dedo. O dedo indicador, então, sem pedir licença, desenha pequenos círculos na bochecha — gesto “tutto buono” de quem prova algo bom demais para ser apenas cotidiano.

    E então, como quem puxa um fio antigo, chegamos ao latim: exquisitus.

    Aquilo que foi procurado com cuidado.

    Escolhido. Refinado. Raro.

    Esquisito, portanto, já foi elogio. E ainda é, na Itália. Também na Espanha.

    E talvez na nossa língua faceira ainda seja — em alguma versão paralela de universo onde as palavras não se apressam em caber no mundo. Aqui, neste português nosso de cada dia, esquisito virou outra coisa.

    Escorregou.

    Sofreu uma leve torção de sentido, sem fazer barulho, mas alterando destinos:

    1. O que era raro passou a incomum;
    2. O que era incomum, estranho;
    3. O estranho, caros leitores, por fim, tornou-se esquisito.

    Há algo de profundamente humano nessa queda semântica.

    Aquilo que exige mais olhar, incomoda quem não quer ver.

    Assisti Passageiros e, pela primeira vez, não me senti exquisita — no sentido latino da palavra. Não me senti escolhida, nem rara, nem lapidada pelo cuidado do mundo.

    Senti-me… esquisita.

    Nada elegante.
    Nada refinada.
    Nada desses termos que se provam com deleite.

    Mais próxima da apropriação brasileira do termo.
    Mais próxima de um desalinho.
    Mais próxima de todas as dúvidas.

    Houve um instante — curto, mas inteiro — em que me perguntei, com uma seriedade quase infantil:

    E se eu não estiver mais aqui?

    Não morta, no sentido dramático que os vivos gostam de dar às coisas. Deslocada. Imprecisa.

    Como se a minha existência escapasse um centímetro para fora do enquadro — o suficiente para que eu ainda me enxergue, mas não me reconheça.

    Lembrei de uma senhora em uma pegadinha televisionada. Do susto genuíno ao não encontrar o próprio reflexo num espelho que não era espelho. Da gargalhada que me tomou em São Paulo, livre, despreocupada, viva, espontânea.

    E, ainda assim, eis-me agora, dias depoiss, tocando a mesma ideia — mas por dentro, intimamente. De um jeito… esquisito íntimo.

    Quiçá o esquisito íntimo seja isso: não aquilo que o mundo estranha em nós, mas sim o ponto exato em que deixamos de coincidir conosco.

    Entre o que fomos escolhidos para ser e o que nos tornamos ao longo de travessias.

    Há distâncias que não se medem em quilômetros. Sequer em milhas náuticas: medem-se em pequenas falhas de percepção.

    Em lapsos de presença.

    Em segundos em que o real vacila — e vacilamos, com ele.

    Ainda assim, há uma beleza quase indevida nisso tudo.

    Ser esquisito — no sentido primeiro — talvez seja justamente não caber.

    Não se deixar reduzir.

    Não se tornar tão comum a ponto de desaparecer dentro do próprio reflexo.

    Talvez eu esteja, afinal, perigosamente viva.

  • O alfinete

    Fátima sentou-se ao pé da cama da pequena Pérola. A penumbra do quarto, o perfume de lavanda dos cachos recém-lavados e o calor que subia do corpinho sob o edredom florido a envolviam num torpor doce. Era seu momento preferido — quando tudo se calava, menos o amor.

    O tilintar de louça na cozinha a trouxe de volta. A dor reapareceu — fina, precisa, como a ponta de um alfinete invisível, cravado em algum lugar que não sabia nomear.

    Olhou mais uma vez para a filha, que ressonava baixo, e desceu.

    Cândido a esperava com a mesa posta e o mesmo sorriso tranquilo. Um homem de gestos simples, de amor constante. Às vezes, ela invejava a facilidade com que ele atravessava as coisas.

    Falaram do dia. Da escola. Do tempo. Das contas. E, por fim, de Pérola.

    Fátima comentou da festa de São João na escolinha. Disse que já estava tudo pronto: pés de moleque, cocada cremosa, pipoca caramelada.

    — E o vestido? — ele perguntou.

    Ela trouxe dois vestidos iguais, azul-claro, lisos.

    — Não era xadrez? — ele estranhou.

    A fisgada.

    — Xadrez de chita, Cândido? Não… — hesitou — assim é melhor. Mais discreto.

    Ele sustentou o olhar por um instante, como quem procura alguma coisa, mas não insiste. Depois cedeu, em silêncio.

    Mais tarde, Fátima foi para o terraço. A lua cheia clareava o quintal.

    Pensou no hospital, nos papéis assinados, na primeira vez em que segurou Pérola. Pequena, quente, os olhos escuros, os fios ralos. Amor imediato. Sem dúvida.

    Com o tempo, vieram os olhares.

    Nos parques. Nas lojas. Nas festas.

    Vieram as perguntas que sorriam antes de ferir.

    — É sua mesmo?

    — Que mistura linda…

    — Puxou a quem?

    E, com elas, algo começou a se deslocar.

    Pérola crescia. O cabelo ganhava volume. Os cachos se fechavam. A pele escurecia.

    Fátima começou a desejar — e odiou-se por isso — que ninguém reparasse.

    Passou a ajustar pequenas coisas. O tempo de sol. Os penteados. As roupas.

    O alfinete.

    Chamaram-na de dentro.

    Pérola estava em pé no berço, um brinquedo na mão, os olhos ainda pesados de sono.

    — Mamãe, posso ir com o cabelo solto amanhã? Igual o da Laurinha?

    Fátima hesitou. Laurinha — Cabelo cheio, solto, laços coloridos.

    — Melhor preso, filha… — disse, evitando o próprio reflexo no espelho — fica mais arrumado.

    A menina assentiu, devagar. Deitou-se.

    O alfinete.

    Na sala, Cândido folheava um álbum.

    — Lembra? — disse, mostrando a foto.

    Os três. O começo. O sorriso inteiro.

    Fátima sentou-se ao lado dele. Não disse nada. Chorou em silêncio. Ele também não perguntou. Apenas a envolveu.

    Na manhã seguinte, Pérola foi à festa com o cabelo solto, preso aqui e ali por pequenos laços azuis.

    O vestido era o mesmo.

    Mas sem o alfinete

  • Altruísmo

    Magda era o seu nome. Juliette, o de guerra.

    Sempre chamara a atenção, desde pequena, com seu corpo bem feito e precoce. Na adolescência dera problemas. Tinha as pernas da Virgínia Lane, a avó comentava. A mãe não sabia quem era Virgínia Lane. Magda gostava de ser comparada a uma vedete. Ainda mais uma vedete que arrebatara o coração de um presidente.

    Molestada por um tio, agarrada no elevador por um vizinho taradão, sem freios e ingênua, não demorou para perder a virgindade com um colega do colégio. Sem dor, sem sangue, sem prazer. Com a inexperiência e o mau jeito do tal colega, tinha sido ela quem, quase todo o tempo, conduzira a relação. Puro instinto. Magda parecia talhada para o sexo.

    Filha única e com o pai ausente, não tivera nenhum irmão a tomar-lhe conta e nem um pai para lhe encher o saco. A mãe dava-lhe toda a liberdade, mais preocupada com ela própria. A avó, a essa altura, já dava sinais de demência.

    Agora, o corpo de Magda se destacava ainda mais. Quase um acinte. Sua beleza saltava aos olhos. E ela nem era assim tão vaidosa. Quase sem maquiagem, cabelos escorridos após o banho, blusa com decote e uma calça jeans, e ela angariava cada vez mais fãs e olhares de cobiça.

    A mãe a acusava de vulgar e de fazer de propósito para virar a cabeça dos homens; a avó não via nada demais; e Magda não ligava para o que as duas pensavam.

    Não concluiu o segundo grau. Magda não gostava de estudar. Colecionava namorados e admiradores. Não fazia questão de resistir às cantadas e, com um ou dois drinques, topava logo ir para cama.

    Com um deles, engravidou. Optou pelo aborto clandestino e as consequências de uma infecção uterina custaram-lhe a impossibilidade de ter filhos. Além das sequelas físicas, um trauma: nunca pensara em se casar, mas sonhava um dia ser mãe. No mínimo, dois filhos.

    Com a morte da avó e o descaso da mãe, Magda começou a busca por emprego. Não foi difícil. A cada entrevista, uma saia mais curta e alguns sorrisos bastavam. O currículo ficava para depois. Inúmeras promessas, sexo interesseiro e nada de emprego na prática.

    Foi quando uma amiga sugeriu que ela fizesse alguns programas com gringos. Pagavam em dólar. Dinheiro fácil. Já estava dando mesmo, por que não cobrar? Daí para se organizar e passar a ganhar a vida vendendo o corpo foi um pulo.

    Como Juliette, cobrava alto e não ficava sem clientes. A vida melhorou rapidamente e ela chegou a dar entrada num carro novo.

    Até a mãe, que havia cortado relações com ela, voltou a se aproximar. Tudo parecia estar indo bem.

    Um detalhe, no entanto, intrigava Juliette: por mais que tentasse evitar, quando estava trabalhando gozava quase multiplamente. Um contrassenso clássico.

    Os clientes desconfiavam que ela estivesse atuando. E exagerando na dose. Alguns chegavam até a reclamar que aquela farsa incomodava e que ela não ia conseguir enganar ninguém. Desfaçatez tinha limite.

    Mas Juliette não conseguia se controlar. E o pior, os orgasmos mais intensos vinham com aqueles mais improváveis.

    Eram senhores caquéticos, com barrigas enormes, carecas (alguns com peruca), e lá ia Juliette com seus orgasmos escandalosos. Quanto mais desprovidos fisicamente e com aparência desagradável, mais Juliette se sentia atraída.

    Ela, então, decidiu que aquilo tinha de parar. Precisava ser profissional. De agora em diante, se gozasse não ia demonstrar. Ninguém iria saber de suas sensações, preferências ou manias.

    No íntimo Juliette amava o que fazia. Podia ser sua vontade de ajudar o próximo, incontrolável atração pelo oposto, teratologia ou alguma consciência social. Não sabia explicar. O certo era que Magda havia nascido para ser puta.

  • A Bomba

    São tantas as guerras que a gente pensa que é assim mesmo…
    Que o ser humano é bélico por natureza… Pensando bem, o ser
    humano se parece com uma bomba…

    A bomba está prestes a explodir!

    Dentro do coração, do pensamento, num aceno, num senão.

    A bomba está prestes a explodir qualquer nação!

    Atenta e experiente na ganância dos seres, ela está prestes a explodir uma rua, uma vila, uma cidade inteira!

    Na televisão, vozes inflamadas pedem a bomba!

    Nos discursos raivosos das redes, vozes sem razão pedem mais bombas!

    A bomba esteve, está e estará na boca das gentes porque entendeu como funciona a coisa: divisão, ressentimento, validação, inveja e ambição a alimentam!

    Ao longo do tempo, a bomba está sendo muito bem alimentada!

    A bomba aprendeu que uma parte das criaturas humanas deseja a destruição, por isso, ela está prestes a explodir.

    Numa briga de trânsito, ela explode.

    Numa esquina incerta, ela explode.

    Numa discussão em família, ela explode!

    Na briga entre torcidas de futebol, ela explode!

    Na discussão política, ela explode!

    Nos discursos de ódio, ela explode!

    A bomba explode em todos os lugares e em várias situações para explodir de novo e de novo e de novo…

    A bomba será a nossa essência? Somos inevitavelmente explosivos?

    À espera de um simples deslize, a bomba aguarda a próxima explosão e nos aprisiona num ciclo interminável de poeira, cinzas e lamentação!

    A bomba está prestes a explodir!

    Em todas as guerras, sem exceção, a bomba explode… Seus fragmentos se tornam memórias ambulantes daqueles que sobrevivem…

  • Tudo começa com “veja bem…”

    Nada me irrita mais do que fazer uma pergunta simples e não receber uma resposta simples.

    Não estou falando de questões filosóficas ou existenciais. Falo de coisas objetivas mesmo.

    O mais comum é a pessoa simplesmente olhar para você e repassar a sua pergunta. É o típico eco humano:

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: O que achei da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    Tem também o contador de causos genealógicos, que sente uma necessidade irresistível de demonstrar sua prodigiosa memória — que começa em Adão e Eva e termina em lugar nenhum.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: Bem… ele me fez lembrar de uma tia minha, sabe, tia Cotinha? Então, ela tinha uma funcionária que fazia uns bolinhos de chuva deliciosos. Eram de comer rezando! Ao final da tarde, bla, bla, bla…Mas, voltando ao que achei dessa trama, infelizmente, enquanto comia os bolinhos de chuva não prestei muita atenção.

    E ainda existe o professor involuntário. Fácil identificar: Se começar com “Veja bem…”, pode se sentar e esperar.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? Gostou?

    R: Veja bem…Em se tratando da ambientação, acredito que reproduziu fielmente a época.

    Isso sem falar na escada de madeira bastante íngreme que subia para o segundo piso e fazia uma curva acentuada, típica das residências antigas. Agora, em relação à trama, considerando o contexto em que se desenrola, eu gostei bastante, e lá vem de novo: “veja bem…”

    Sou vítima frequente dessas três modalidades.

    E vocês, o que acham?

    Mas, por favor, respondam sem começar com “veja bem”.

  • Psicose

    Helenice costumava sonhar. Dormindo ou acordada. Desde mocinha. Seus pais contavam que ela adorava narrar seus sonhos, bons ou ruins.

    Os pesadelos mesmo começaram a partir dos vinte e poucos anos. Clássicos, como cair em buracos, despencar de prédios, ficar presa em recintos escuros, afogar-se ou assombrada entre fantasmas.

    No início não se deu tanta importância, Helenice era assim mesmo, pessoa ansiosa e com muita imaginação.

    Com o passar dos sonhos, um pesadelo se tornava recorrente: era possuída por um homem sem face que lhe morria em cima. Sem conseguir se desvencilhar do corpo, aflita, quase sem respirar, acordava coberta de suor e medo.

    Procurou ajuda na terapia. Havia teorias diversas sobre os sonhos, expressão do inconsciente e de experiências mal ou bem resolvidas.

    A terapeuta ouvia o relato dos seus pesadelos, procedendo com algumas anotações num bloco.

    — Talvez eu tenha medo do invisível, quem sabe bloqueio sexual, ansiedade ou algum tipo de sufocamento psíquico.

    A terapeuta ouvia calada e, quando comentava algo, era sucinta.

    — Os sonhos podem traduzir insatisfações e memórias de fatos ocorridos.

    Helenice aceitava as insatisfações, embora discordasse do “memória de fatos ocorridos”. Nunca ninguém morrera em cima dela. Ainda mais, durante uma relação sexual.

    O que incomodava mais Helenice era a aterradora sensação de não conseguir respirar com o peso de um morto sobre ela.

    — O que você pensa sobre a morte?

    Helenice não entendeu a associação dos pesadelos com a morte. Mas a terapeuta deveria saber o que dizia. Admitiu nunca ter parado para pensar sobre a finitude humana.

    A cada sessão, Helenice trazia uma novidade. Os pesadelos traziam agora sobre ela um gorila. Helenice sentia-se menos aflita. Adorava animais. Escondeu de todos, até da terapeuta, mas simpatizava mais com o gorila do que com o tal homem sem face. O gorila parecia mais humano.

    Helenice começou a se acostumar com seu pesadelo. O gorila em cima já não lhe pesava tanto. Afastava sua cabeçorra inerte e conseguia respirar um fiapo de ar. Ainda assim, acordava sempre nessa hora.

    A terapeuta seguia calada e anotava os possíveis significados inconscientes daqueles pesadelos.

    Helenice notou que ela passou a olhá-la de forma estranha. Temeu que a terapeuta lhe perguntasse se já havia transado com um macaco.

    — Você consegue ter orgasmos?

    Não eram múltiplos, se encaixavam mais no grupo de raros ou ocasionais.

    — Se masturba com frequência?

    Tinha um vibrador, cujo nome era Otávio.

    As sessões prosseguiam. Na noite anterior em que tinha exagerado na vodca, Helenice sonhou que transava com uma espécie de lagarto asqueroso, enorme.

    — Posso lhe receitar alguns remédios.

    Helenice começou a cogitar a hipótese de encerrar o tratamento.

    Mudou de ideia após o retorno dos pesadelos. Agora, um extra-terrestre a penetrava com um pênis longo e verde, para depois morrer sobre ela, emitindo sons agudos e inarticulados. Helenice destacou que sentira a ejaculação do ET. Era quase real.

    A terapeuta ponderou que o membro longo e esverdeado do alienígena podia revelar mecanismos intrínsecos do imaginário sobre prazer e sexo. O esperma do alienígena podia ressignificar seu desejo de engravidar.

    Helenice concluía que a terapeuta também tinha problemas.

    — Interessante, há aqui uma coincidente sucessão de filmes: “Homem Sem Face”, “Na Montanha com os Gorilas”, “Godzilla”, agora um ET…

    Com certeza a terapeuta devia achar que ela estivesse inventando tudo aquilo. Uma cinéfila pervertida ou debochada.

    A cada sessão, Helenice vinha com novos pesadelos. Agora era com o Homem-Aranha. Menos mal que não ejaculava. A terapeuta pareceu estar perdendo a paciência.

    — Se eu fosse você parava de ir tanto ao cinema.

    Helenice abandonaria o tratamento. Lidaria sozinha com seus pesadelos e transtornos. Antes só que mal analisada.

    Passado um tempo, numa noite sonhou com a terapeuta por cima dela, segurando uma faca, como no filme de Hitchcock. Era Helenice que agora perdia a vida.

  • Saída de emergência

    Trepida.

    Me vem, primeiro pelo barulho externo que pelo chacoalhar do corpo.

    Depois, o conforto de um ambiente climatizado.

    Estou em trânsito, como gosto, dormindo a caminho de um novo horizonte [muito embora, seja o mesmo de um momento anterior, que não é esse].

    Minha quilometragem fortalece os sorrisos que virão.

    Quero gozar do tempo que ainda tenho. Quero me dar o sabor de estar comigo mesma. Passear comigo. Tomar sorvete no parque, como se eu estivesse de mãos dadas com outras mãos, que não as minhas.

    O silêncio é extremamente necessário na vida.

    As desilusões, saídas de emergência.

  • Vênus sob cerco

    Diz-se, desde muito tempo, que somos de Vênus — a deusa romana do amor, da beleza, da fertilidade, da paixão.

    Talvez por isso tenhamos sido educadas, durante séculos, para preservar o vínculo a qualquer custo. Para compreender antes de julgar. Para acolher antes de confrontar. Para duvidar de nós mesmas antes de duvidar do outro.

    Essa disposição para o cuidado, que também é uma das maiores forças da experiência feminina, pode ser manipulada por quem aprende a explorá-la.

    O agressor raramente começa com a violência explícita. Ele começa com pequenas fissuras na realidade: uma frase que não foi dita, um fato que teria sido imaginado, uma lembrança que, segundo ele, está errada. Aos poucos, o chão da mulher vai sendo retirado sob seus próprios pés.

    Quando ela já não confia totalmente na própria memória, na própria percepção, na própria lucidez, torna-se mais fácil aceitar o inaceitável.

    Esse tipo de manipulação tem um nome: gaslighting.

    O termo vem do filme Gaslight (1944), estrelado por Ingrid Bergman. Na história, um marido manipula pequenos acontecimentos do cotidiano para convencer a esposa de que ela está enlouquecendo.

    Entre as formas de violência psicológica contra a mulher estão o isolamento, a vigilância constante, os insultos e essa distorção deliberada da realidade que corrói lentamente o amor-próprio, a autoconfiança e a sanidade psicológica — bases mínimas para uma vida digna.

    A violência nem sempre termina em morte física. Muitas vezes ela opera lentamente, em silêncio, antes de chegar ao seu desfecho mais brutal.

    E talvez seja por isso que o Dia Internacional da Mulher ainda seja menos uma data de comemoração e mais um momento de alerta.

    Segundo estimativas globais da ONU Mulheres, 85.000 mulheres e meninas foram mortas intencionalmente em 2023. Desses homicídios, cerca de 60% — 51.000 casos — foram cometidos por parceiros íntimos ou outros membros da família.

    Isso significa que 140 mulheres e meninas são mortas todos os dias por pessoas do próprio convívio. Em média, uma mulher ou menina assassinada a cada dez minutos.

    No Brasil, os dados mais recentes indicam que 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, o equivalente a cerca de quatro assassinatos por dia. Levantamentos divulgados em 2026 apontam que o número pode ter chegado a 1.568 casos em 2025, o maior já registrado desde que o crime foi tipificado no país, em 2015.

    Diante desses números, talvez a pergunta inevitável neste Dia Internacional da Mulher seja: o que exatamente estamos celebrando?

  • Ai, minhas orelhas!

    Ando com muita pena das minhas orelhas porque as pobres estão ficando de abano. Daqui a pouco vou precisar de uma plástica.

    Eu já havia detectado o problema por causa dos óculos que as coitadas são obrigadas a suportar e dos brincos que uso desde sempre. Mesmo tentando que ambas as coisas se tornassem cada vez mais leves, sentia que minhas orelhas se vergavam aos poucos, com uma contribuição nada desprezível da facilidade com que as cartilagens, e quase todo o resto do corpo, vêm abaixo com o passar do tempo. E a agravante de que na família há vários casos de surdez por velhice, o que torna grande a chance de no futuro acrescentar um aparelho auditivo a tudo isso.

    Para completar o quadro, agora as orelhas ainda têm que aguentar os elásticos e o peso das máscaras que usaremos permanentemente até sabe-se lá quando. É penduricalho demais para as frágeis orelhas.

    Médicos e outros profissionais de saúde vão dizer que isso não é nada comparado com a situação deles, forçados a usar máscaras durante horas. Compreendo que seja difícil, mas há uma grande diferença: tais pessoas escolheram a profissão e já sabiam das desvantagens. No nosso caso foi o tal do corona, com quem já estou perdendo a paciência, que nos trouxe esse sacrifício extra.

    Aguentem firme, orelhinhas! Vai passar.

  • Esquisito íntimo

    Esquisito:

    Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels preto e branco dançantes. Uma quase hipnose.

    Quando não sabemos o significado de certas palavras, é fácil abstrair-nos de seus valores agregados e nos prendermos aos seus odores.

    Esquisito quase fede.

    Esquisito, em si, é um quase. É preconceito, em primeira instância. Algo que, à primeira vista — ou ao primeiro ouvido — soa ruim. Pode, entretanto, o esquisito ser apenas diferente; e o diferente é condição sine qua non para sairmos de nossos rótulos e padrões, muitas vezes nem sequer nossos.

    Esquisito, no final das contas, sempre é bom.

    Como é boa toda primeira vez — depois que vira memória.

    A primeira vez é esquisita por ser território novo: gotas de suor descendo pelas têmporas, respiração em ritmo de taquicardia, suspensão do tempo que, congelado, torna-se projeto à luz da recordação.

    Esquisita e sempre inesquecível: a primeira vez que saímos sozinhos, a primeira escolinha; o primeiro beijo, o primeiro emprego — e, consequentemente, o primeiro salário —, a primeira briga, a morte de um ente querido. Sentir-se só após um divórcio, a viúvez, a perda do próprio chão. A primeira medalha. A primeira vez que se faz algo errado, a primeira gota de álcool.

    E há também a primeira vez da primeira vez — aquela que inaugura o próprio corpo: a perda da virgindade, quando descobrimos que o amor, o medo, a curiosidade e a coragem podem caber todos no mesmo instante.

    O primeiro amor. Conhecer a família do namorado ou da namorada. A primeira vez que alguém sai do armário. O primeiro ato de liberdade. O primeiro “eu te amo” que alguém lhe diz sem ser família. A primeira vez que você vê o mar.

    Sempre é esquisito. Sempre um território novo. Sempre transformador — sensação sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz.

    A primeira vez é um vocábulo inquieto: dito depressa, parece o chiado das TVs antigas que saíam do ar e enchiam a tela de pixels preto e branco dançantes.

    A primeira vez é sempre hipnose.

  • Tempos modernos

    Eu procuro entender um pouco sobre as máquinas. Procuro mesmo. É verdade! Não sou muito simpático a elas não! Sabe qual o problema? É o apertar de botões! Aperta aqui, aperta ali! Imagino Carlitos em Tempos Modernos, enlouquecido entre as engrenagens.

    Aperta aqui, aperta ali e as imagens vão se acumulando na tela do computador, uma após outra, sucessivamente. Não reparo muito em imagem alguma. O que importa nesse jogo não é o conteúdo, mas a velocidade. Minha cabeça parece enlouquecer! Mas a pergunta que me faço e que repasso a cada um de vocês é: qual será o futuro disso tudo?

    Estamos comprometendo uma parcela importante do nosso tempo e de nossas vidas ao maquinário, à tecnologia. Deixamos de viver, de beber, de comer, de sorrir, enfim, deixamos tudo de lado para olharmos fixamente o monitor.

    Seremos deletados porque nosso programa possui falhas! Adquirimos vírus! É absurdo, patético e irônico: as máquinas têm vírus! E como sofrem! Sofrem como nós! E nós, sofremos ainda? Não! Não mais. Estamos muito ocupados com o computador para pensarmos nisso!

    Quando o sistema cai o mundo inteiro também cai: não há banco, não há dinheiro, não há negócio, não há emprego, não há sonho. Ficamos à espera da manutenção! E esperamos horas e horas! Muitas horas!

    Há pessoas que não vivem sem verificar religiosamente os e-mails (caso não o façam há a possibilidade de entrarem em depressão). Há aqueles que deixam a vida toda registrada (fatos e fotos íntimos demais para serem compartilhados com qualquer um) nos sites de relacionamento para que o planeta todo veja e pense qualquer coisa a respeito. Ou não pense absolutamente nada. Há, ainda, os que se apaixonam e se encantam por namorados virtuais. Nada contra isso. Mas existe muito exagero!

    Eu realmente procuro entender um pouco sobre as máquinas. Escrevendo esta crônica agora vou levando os meus dedos sobre o teclado (e que diferença para a máquina de escrever) e pensando nas comodidades e na praticidade da vida moderna. Você pode acessar (olha aí, na linguagem também) qualquer informação sobre qualquer assunto na Internet. Pode, aliás, conversar com o mundo todo, literalmente. Mas há que se ter um cuidado, um cuidado apenas: não ser escravo desse aparato tecnológico.

    Posso andar despreocupado sem o fone no ouvido, sem o MP3 (e já inventaram o MP4 e, com certeza virão 5, 6, 7…), sem o iphone, sem a câmera digital, sem o notebook, sem o GPS, sem… Opa! Peraí! Acho que perdi… Perdi…

    Deixei tanta coisa pelo caminho que não sei mais o que é humano…

    A minha identidade. Aquilo que me marcava como ser único e pensante se perdeu. Em algum lugar entre o mouse e a webcam

  • Beijos

    Em Belo Horizonte, foliões reclamam: beija-se muito pouco no carnaval atual. Mulheres solteiras, gays, homens desempregados no “mapa da fome do amor” – todos declaram urgência no coração. Não dá para se iludir: você pode sambar na ponta do pé no Bainas Ozadas, curtir a vibe romântica e antiga do beiço do Wando, se jogar no Bloco da Calixto ou sensualizar na Corte Devassa. Mas passar um carnaval sem beijo algum é como um feriado tão guardado cair num domingo sem graça.

    Há beijos de vários tipos. Algumas mulheres, fazendo charme, premiam o folião corajoso – ou pela cantada ensaiada no espelho – com uma bitoquinha, um selinho, um toque fugaz de lábios. Outro é o beijo de língua ardente, intenso mas efêmero: o rapaz fecha os olhos em paixão, mas logo se desvencilha e volta pro bloco. Os mais ousados trocam Instagram, telefone, combinam um depois – que pode rolar ou virar ghost. Afinal, o que vale mais: o beijo ou o flerte? O beijo tem gosto de sedução, adrenalina misturada a música, alegria e muita fantasia.

    Ah, e tem o beijo transgressor: de padre fantasiado, homem de freira, Homem-Aranha ou  Mulher-Maravilha. Estamos beijando a pessoa ou a imaginação solta na folia?

    Mas os beijos escasseiam entre pierrots e colombinas, virando desespero. Gays exigem corpo perfeito e status; mulheres solteiras dizem “não há homem no mercado”; homens reclamam do “jogo duro”. Culpa da pandemia: o Covid trancou o mundo, e desaprendemos o outro. Celular virou melhor amigo – home office, família no Zoom, sexo por câmera. Na volta da folia, ficamos virtuais demais, sérios, até caretas.

    Agora, os memes do “placar de beijo” capturam isso genial: foliões desfilam com cartazes irônicos como “Beijos: zero de dez” ou “Meta diária: um (falhou)“, zombando da escassez romântica pós-pandemia em BH e SP – placas de “Beijômetro: menos dois” ou desafios virais no Instagram, como a jovem com “valores” pra beijo, virando hit na folia mineira.

    Pra reacender, pensemos em Auguste Rodin, o escultor que eternizou o beijo em mármore: em “O Beijo”, um casal nu se entrega num êxtase fluido, esculpido num bloco único, exposto no Musée Rodin – desejo proibido em pedra. Ou  “A Catedral”, mãos entrelaçadas em tensão erótica, quase se tocando. Contrastando com nosso “placar zero”, Rodin sussurra: o beijo verdadeiro é marmóreo, eterno, não um like esquecido.

    Há um lado bom: se tanta gente reclama, é sinal que clamamos pela volta do beijo na boca – na folia e depois. Juntos, chegamos lá. Um bom beijo na boca ainda é santo remédio pros dissabores da vida.

  • Poema #03: Em branco

  • De quando não havia internet

    Você sabia que já existiu uma vida completamente diferente da que temos hoje sem internet? Sim, conseguíamos viver sem internet!

    O telefone servia simplesmente para que pudéssemos falar com alguém! Falar de fato! Falar diretamente com alguém! Estranho falar com alguém hoje pelo celular! Muitos preferem os intermináveis áudios ou a já consagrada mensagem de texto!

    Tudo hoje é urgente! A resposta precisa ser imediata! Caso contrário, pode acontecer a terceira guerra mundial!

    Antes, a gente esperava e tinha que esperar de qualquer jeito! Exercitávamos a paciência! Escrever uma carta e esperar semanas ou meses pela resposta! Esperar aquela revista incrível chegar nas bancas para ler as novidades! Acompanhar o ritual da compra do jornal do final de semana e ler os vários cadernos sossegadamente! Pacientemente!

    Tudo hoje é urgente! Você marca uma coisa e depois de uns dez minutos, desmarca e torna a marcar e, por fim, o encontro, a reunião e a ida ao cinema acabam não acontecendo.

    Antes, se marcássemos alguma coisa, palavra dada, a presença era certa, a menos que, a terceira guerra mundial tivesse começado literalmente e impedisse alguém de ir ao local combinado! Simples assim!

    Tudo hoje é urgente! Falar com pressa! Amar com pressa! Assistir alguma coisa, com os olhos na tela do celular, com muita pressa!

    Antes, ficávamos sentados com os amigos em uma calçada conversando e rindo horas e horas sobre os mais variados assuntos!

    Tudo hoje é urgente! O tempo é dividido e subdividido para que todos os segundos sejam ocupados com alguma coisa! Na maioria das vezes, esse precioso tempo é gasto com horas e horas rolando a bendita tela do celular!

    Antes, ficávamos horas sem fazer nada! E isso era bom! Na verdade, era ótimo! Sabe a ideia do ócio criativo?

    Voltando ao telefone… Ah! Que saudade do chamado orelhão! Sim, orelhão! Uma cabine pública em que qualquer pessoa com as desejadas fichas poderia falar com outra! Colocava-se uma ficha atrás da outra para conseguir falar! Cada ficha representava um pouquinho de tempo (eu não vou lembrar agora exatamente quanto tempo, o que sei é que se fosse uma conversa mais longa, você deveria comprar muitas, muitas fichas…)

    E o ritual da música? Pegar um álbum (o chamado LP – Long Play) e curtir a capa, o encarte com as letras, as fotos… Ouvir o lado A, geralmente mais comercial, e ouvir o lado B, geralmente mais conceitual… Aguardar o próximo álbum sair em alguns meses ou anos! Esperar!

    E aqui fica mais evidente a crítica a estes tempos, a falta de espera! A impaciência, a correria e a urgência destruíram o importante e necessário processo das coisas e das gentes!

    O humano precisa esperar!

    É o tempo pra maturar os sentimentos, os olhares, os gostos, as conquistas e os fracassos, os compassos e as histórias.

    A nossa história é toda ela feita de esperas!

    Quando não respeitamos o tempo de tudo, somos atropelados!

    Tudo hoje é frenético, performance, lacração, engajamento…

    Antes, era a própria vida nas suas insinuações e contradições!

  • Pé ante [o sisal e a sombra do outro] pé

    Um vulto de cerca um metro e vinte e cinco se esquiva por trás da cadeira de balanço. Gabriel move um pé depois do outro, tentando elevar seu peso acima dos ombros. Primeiro, o indicador do pé esquerdo toca o assoalho de madeira, um marrom rosado escurecido pelos anos. Pisa com cautela para evitar o rangido. Quase não respira. Sua avó, sentada à cadeira, move apenas as mãos. Faz crochê. Há semanas se senta ali para tricotar não se sabe o quê. Faz algo, desmancha. Ao final do dia, quando a luz externa abandona o recinto, ela recolhe as agulhas, estica as pernas, boceja e se levanta devagar. São quatro e treze da tarde. Não vai demorar muito.

    Gabriel continua seus passos lentos e desoxigenados. Um beija-flor entra pela janela e flana um pouco por sobre a Costela-de-Adão, próxima à cortina em linhão branco, recolhida ao vértice da esquadria com a parede vizinha. O pássaro não causa sequer curiosidade à avó, mas o menino quase se faz perceber através de um vocalize. O peito se enche num impulso que retém o pé direito no ar e fica ali, suspenso. Um som redondo começa a subir pela garganta, mas é engolido no momento em que o pássaro faz o percurso contrário, retornando ao pátio. Na sala, apenas o barulho do atrito das agulhas e do pêndulo do cuco antigo, nada apressado.

    Minutos depois, Gabriel está quase em frente a sua avó. Fica ali, alguns metros de distância, a observá-la. Os olhos dela descansam sobre o vai-e-vem das mãos, mas não parecem presentes. São duas jabuticabas dentro de ostras velhas, semiabertas: abrem-se pouco e devagar, deixando entrever o brilho castanho que ainda existe num corpo de mais de oitenta primaveras. Mesmo sem grandes distrações no recinto, tudo além do conteúdo daquela cadeira parece se desfazer. O canto superior dos lábios de Gabriel levanta-se. O neto tem todos os olhares fixos na avó. Suas mãos brincam de mímica, espelhando gerações. A sombra da araucária cresce dentro da sala. De soslaio, ele foca o relógio, dá um último e contido meio suspiro em direção à avó, registrando na memória cada dobra da pele, cada curva dos cabelos grisalhos, cada detalhe do macacão preto de pequenas flores rosas que ela veste. Setenta anos separam uma vida da outra, e são o fio que as liga.

    Quando a sombra alcança o sisal, Gabriel veste seu peso corporal como quem coloca uma mochila e retoma o caminho às avessas, pé ante pé. Sua expressão é outra. “Vovó ainda está aqui”, reverbera em seus pensamentos de criança. Ao quase posicionar-se na porta de seu quarto, o piso de peroba rosa denuncia-o. A cabeça da avó levanta, percebe-se o ondular das madeixas gris. Ela recolhe as agulhas, estica as pernas e boceja. Olha para o negativo dançante de sua árvore favorita, no limiar do grosso do tecido e do liso do piso.

    — Gabriel?

    Sem mover as pernas, a esquerda novamente no ar, o menino leva a mão em concha à boca, como quem finge estar dentro do quarto.

    — Sim, vovó.

    — Que tal uma história?

    O menino instantaneamente corre até a avó, abraçando-a pela cintura ainda encostada à palha do encosto da cadeira. Diz, quando do encontro entre suas castanhas pupilas com as pérolas negras da avó:

    — Me conta de novo como você e o vovô Gomes se conheceram?

  • In-cels ou In-hells?

    Numa conversa de bar, ouvi, na mesa ao lado, alguém chamar um colega de trabalho de “incel”.

    A palavra me chegou torta. Pensei ter escutado “in céu” — algo estrangeiro mal pronunciado, desses modismos que sobem à cabeça depois do segundo chope.

    Nada disso.

    As amigas se entreolharam com um susto breve — desses que duram menos que a espuma no copo.

    — Justo ele? Bonito, cargo alto, vida ajeitada… um pouco inseguro, talvez. Mas isso?

    — Escuta o que ele anda dizendo — respondeu a outra. — No cafezinho começou a atacar uma colega.

    Disse que as mulheres estão “com poder demais”. Que ela recusou sair com um amigo dele porque o rapaz não é um “Chad”.

    A mesa quase tremeu.

    — Chad?

    Risadas curtas.

    — Esses machos-alfa de fórum. Os eleitos. Os que, segundo eles, monopolizam as mulheres.

    A palavra incel voltou a circular como uma moeda gasta.

    Celibatários involuntários. Homens que transformam rejeição em tese. Frustração em teoria.

    Desapontamento em trincheira.

    O bar seguia alto, indiferente. Mas ali, naquela mesa, algo tinha escurecido. Não era apenas a falta de encontros amorosos — era a construção paciente de um ressentimento com gramática própria.

    Disseram que há fóruns, comunidades, códigos. Que o Brasil figura entre os que mais alimentam essas conversas. Que às vezes o discurso não fica só na tela.

    O copo bateu no mármore com um som seco.

    Pensei na minha audição equivocada do início da noite.

    Não era “no céu”.

    Era um outro lugar.

    E agora me pergunto: estamos falando de incels — ou de pequenos infernos cultivados em silêncio, mesa a mesa, tela a tela?

  • Uma crônica fora da lata

    A polêmica no carnaval (entre tantas e recorrentes polêmicas de carnavais e redes sociais) tem a ver com uma lata. Mas não uma lata qualquer, uma lata física e, ao mesmo tempo, metafórica. Coisas de nossos tempos tão absurdos! Não vou explicar o desfile e tampouco descrever a escola de samba, personagem ímpar de um ano que se inicia. Há muita agressividade nas redes e o assunto foi dito e redito centenas de vezes… Não sou eu que vou repetir mais uma vez! O que eu quero aqui é uma boa provocação literária!

    Liberto as palavras de qualquer lata para escrever esta crônica. E, pra começo de conversa, as três primeiras palavras são justamente conservantes, enlatado e conservador…

    CONSERVANTES, de acordo com o dicionário, diz respeito a substâncias adicionadas a produtos alimentícios para prevenir a oxidação.

    ENLATADO, por sua vez, significa “que se enlatou” ou “guardado ou conservado em lata”

    CONSERVADOR significa “que ou o que, em princípio, é contrário a mudanças ou adaptações de caráter moral, social, político, religioso, etc…

    Postas as palavras, vamos para a crônica!

    Tem gente que vive enlatada e não tem ideia e não respira…

    Tem gente que enlata os outros e não abre mão de impor suas latas e não abrir lata nenhuma!

    Tem gente que conserva o rancor, o desamor, a mágoa e a tristeza!

    Tem também sonhos enlatados, pensamentos enlatados, sentimentos enlatados…

    Assim como são enlatadas muitas canções…

    E assim, essa gente que não gosta muito da vida, vai conservando ódio e preconceito, violência e desprezo…

    Essa mesma gente que não curte dissonâncias, vai enlatando tudo o que vê pela frente e, quando se vê, não há mais cores e sabores e odores, ao contrário, há apenas uma única verdade, absoluta, imponente, intransigente…

    Sabemos que muitos conservantes mantém os alimentos dentro da validade a custa de nossa saúde!

    Sabemos também que muitos enlatados possuem alto teor de sódio e que latas amassadas, enferrujadas ou estufadas devem ser evitadas!

    Por esta razão, é importante pensar: ser conservador é necessariamente conservar apenas o que é bom?

    Sabemos que não!

    Os que gritam pelo conservadorismo querem conservar preconceitos enraizados, conservar privilégios indecentes e conservar o clima de guerra constante…

    Quero, pela minha parte, conservar o riso e a alegria, não o cinismo. Quero conservar a malemolência da língua portuguesa, não a desigualdade. Quero conservar o abraço e a amizade, não a hipocrisia! Quero conservar a poesia e não a cara carracunda de quem não gosta de arte! Quero conservar a imaginação, o voo do balão, as bolhas de sabão, não a frieza e a falta de compaixão!

    Quero conservar a essência de humanidade e não a barbaridade!

    Quero conservar a crônica solta, livre, fora da lata… para que ela, a incrível crônica, possa, pelo poder das palavras, abrir outras latas!

  • Boiar nas águas, atravessar os morros: menos Catherine, mais Rita – mais minha

    Quantas vidas vivemos em uma vida – você, eu?

    Eu, por exemplo, não sou mais a mesma do casamento.

    Nem poderia ser. Seria falta de educação comigo mesma.

    Tampouco sou a mesma que realizou, ainda nova, seu sono de morar no exterior. Ou a que ambicionava um prêmio de arquitetura, recebido na categoria sustentável antes dos 30.

    Hoje sou a única criatura — ao menos aparentemente — que sai aos prantos da sessão de terça-feira de Carnaval de O Morro dos Ventos Uivantes. Quase uma sessão matinê, e a cidade pulsando lá fora, confetes aderindo aos cabelos alheios e se esbaldando, bêbados e desequilibristas, pelo chão. Batuques. Bebidas vendidas em isopores. E eu chorando por ingleses que insistem em amar como quem cava a própria cova.

    Mudaram o destino do filme. Encurtaram silêncios, ajustaram gerações; embelezaram a dor com fotografias impecáveis, figurinos de tirar o fôlego; cenários e sentimentos antagônicos: pobreza e a opulência – esta convertida em excesso de desejo e intensidade, como se cada cena precisasse gritar para não desaparecer na sucessão incessante de imagens que disputam o mundo de hoje.

    A sala azul… Trechos de paredes brilhantes. O almofadado do quarto de Cathy na cor de sua própria pele, com manchas que traziam suas sardas – mais discretas que as minhas – aos holofotes.

    Diante de tanto impacto visual e emocional, ali estava eu, soluçando discretamente – ou nem tão discretamente assim -, com meu livro da Emily Brontë sobre os joelhos, acariciado cena após cena.

    Percebi, entre uma lágrima e outra, algo que me pareceu escandalosamente maduro: já não tenho idade para viver e morrer de amor.

    Meu primeiro amor morreu. Ou talvez tenha morrido apenas a menina que achava beleza no morrer por alguém.

    É, minha querida, diria meu falecido primeiro amor – poeta de obra, sombra e medida involuntária, para desgraça do meu eu adolescente e dos amores que vieram depois – morrer é sempre um gesto dramático demais para quem ainda precisa pagar boletos.

    Concordo. Hoje. Com a ironia aprendida, equilibrando os deslizes do peito.

    Há versões nossas que saem de moda. Como certas ideias românticas que já não combinam com o rumo e a velocidade do mundo atual.

    Catherine me comoveu, mas não me seduziu. Heathcliff fez meu coração palpitar por sua beleza, seus cuidados e maldades com a amada, seus traumas infantis – mas me alertou. Amor que precisa destruir e magoar para provar que existe… Isso não me interessa mais.

    Lá fora, batuques aleatórios. Pedra portuguesa sob os pés. Piso urbano novo, intertravado. Descobri, ali, que havia pedras portuguesas em Nova Friburgo — eu, arquiteta quase nunca distraída, atravessando a cidade sem notar o desenho do chão.

    É curioso como podemos viver anos sem perceber o que sustenta nossos passos. Há quem nunca tenha notado a cor do piso à frente de casa.

    Prefiro, agora, a atenção e a presença dos amores que nascem e morrem para fazer sentido. Não os que implodem casas e almas. Não os que confundem posse com poesia. Talvez mais os que atravessem do que os que fiquem.

    Chorei lágrimas de equilíbrio outra vez. Chorei por ter amado com ferocidade quando foi preciso. Chorei pelas versões minhas que já caducaram. Chorei porque estou viva – e isso, convenhamos, é um privilégio maior que qualquer paixão homérica ou borboletas no estômago, essas criaturas inconvenientemente instáveis.

    Somos compostos prioritariamente por água e sais: há líquido demais em mim para fingir secura. Sou mais mar e onda do que constância.

    Estou aprendendo a nadar em águas salgadas e mais profundas. A boiar sem afundar. E é até reconfortante tomar uns caldos e tossir entupida de sal, de quando em quando.

    Na mesma manhã do cinema, ainda carnaval, sentei-me ao sol na praça da minha cidade. Blusa semi-transparente e dourada. Top igualmente dourado. Abri uma garrafa de vidro de cerveja às dez da manhã, como quem inaugura um livro com cheiro de novo.

    Zeca bebia seu copinho d’água recém-saído da geladeira da padaria.

    Minha mãe torceu o nariz:

    — Uma menina tão bonita bebendo assim, na rua…

    O pior é que havia outra garrafa para ela, na sacola. Ela, fã da intrépida Rita Lee.

    E então percebi o que a Rita entendera antes de todas nós: a liberdade feminina ainda é um escândalo para quem depende de permissão alheia.

    Minha querida, talvez cochichassem os artistas devidamente enterrados, escândalo é só o nome que dão às mulheres que respiram sem pedir licença.

    Pois então respiro.

    Senti, naquele banco de praça, algo sereno e perigoso: se filhos vierem, bem-vindos. Se não vierem, tudo bem igualmente. Zeca já dá conta de parte da minha vocação maternal. Se o amor ficar, que fique inteiro. Se for embora, que vá sem levar minhas estruturas.

    Não tenho mais idade para morrer de amor.

    Platão me sopra uma frase, como quem salva uma atriz de um branco em pleno palco: todo homem apaixonado é um poeta. Eis que a poesia desce do pedestal e volta ao gesto humano de amar.

    Percebo, então, que tenho idade para atravessá-lo — com humor, com verdade, consciência e uma cerveja — ou um vinho — na mão.

    Se houver (mais) outras vidas dentro desta, que elas me encontrem menos trágica que Catherine e tanto ou mais insolente que Rita.

    E que, quando eu ameaçar dramatizar demais, haja sempre um eco, a sussurrar:

    — Querida, ame. Mas conserve o seu sobrenome.

    Tal qual fez minha mãe, com um casamento exemplar. Tal qual eu já fiz uma vez, diante do padre e do

    cartório, com uma lição bem aprendida:

    nunca tome decisões em pandemias.

    Deixe o tempo no comando.
    Aproveite as ondas.
    Aprenda a não enjoar em alto-mar.
    Respire.

  • A cuíca, a ruivez e o smartwatch – sexta-feira 13 como comissão de frente

    Comprou um relógio para controlar seus batimentos cardíacos. Descobriu que, ao ter o combo de medições de oxigenação, estresse, sono e ciclo menstrual, tornava seu pulso um criador de conteúdo.

    Dados. Gráficos. Percentuais.
    O coração, finalmente, auditável.

    As notificações de redes sociais, e-mails ou o contar do tempo passaram a ser meros gadgets. O que importava era o número que subia e descia como se fosse destino. O corpo, agora, tinha analytics.

    Com o intuito — primeiro e quase exclusivo — de mapear o próprio coração, passou a utilizar a pulseira flexível de cor laranja (também havia a opção preta, mas… quem quer ser discreta em fevereiro?). Dormia com o apetrecho; acordava com um vibrar incessante no punho, notificações piscando como quem dá bom dia e já cobra produtividade emocional.

    Os picos de estresse reinavam entre a hora do levantar — rush de mensagens — e o fim do expediente, que, por ser autônoma, oscilava entre as 18h e as 2h40 da manhã. Raras vezes sua “rotina” não mudava. Aliás, rotina era uma palavra que lhe caía grande demais — como vestido emprestado, sobra um pouco no busto, aperta no quadril. Num confortável marca-passo, aprendeu a desconfortar-se da realidade.

    Tudo passou a ser normal enquanto durasse a bateria do smartwatch.
    O mundo cabia nos 67% restantes.

    O acessório laranja combinava perfeitamente com seus óculos de ciclista urbana. A cidade, que desde as novas lentes, em um tempo outrora, se enferrujara de sol e desejo, agora fazia do verão o agente ruivificante: rubicundou-se em pleno fevereiro; enrusbeceu não de vergonha, mas de coragem.

    Cortou as pontas dos cabelos e converteu-se.
    O laranja passou a ser sua segunda cor favorita — a que a identificava, a que gritava antes dela.

    Nos cinco dias de carnaval, ruiçou aos poucos, como quem aceita arder. Ardeu seu desconforto onde antes calava. Arder é uma forma sofisticada de não adoecer.

    Concentrou-se no encontro fugaz dos corpos fantasiados: as máscaras injetam uma pseudo-coragem pelas veias — um placebo de liberdade. Teatro de verdade, no rés do chão do espaço público. Deixou-se boiar nos braços de um passado transfigurado de pessoa comum, mais magra, olhos mais sinceros, vigilante e contábil de afetos, mesma leveza sustentada por um viés infantil e escorregadio.

    Liberdades hoje em dia confundem-se com libertinagens — diria alguém com sobrancelha arqueada, talvez do século XIX.

    Há um choque entre gerações jamais visto antes. Há um colapso das formas sociais estabelecidas. E isso pode ser bom. Ou pode ser apenas inevitável. Desconforto sentido, interiorizado e meditado.

    E foi então que tudo começou por uma intrépida sexta-feira 13.
    Pleno carnaval.

    Comprou um ticket de cinema para uma sessão vazia. Enquanto a cidade, lá fora, ensaiava gargalhadas com cuícas e paetês, ela escolheu o escuro climatizado. O coração — balde de pipoca à mão — ocupando uma fileira inteira de si mesma. No topo de um Mirante, na Tonelero, horas antes, era horizonte.

    Agora era plateia.
    O smartwatch marcava batimentos estáveis. Mas… e a alma? Entre a piscina do topo e o mar do térreo, como estabilizar uma coisa qualquer?!

    Purpurina everywhere. A cuíca rindo com os dentes cerrados. Um riso friccionado ecoando pelas finas paredes, soníferas de um cansaço acumulado. Um fingimento alegre. Um som que nasce do atrito — como quase tudo que importa.

    Ao tensionar sinapses, ao se permitir solitude e pausa, colapsou com quem acha que a entende e já a julga. Mas não se jogou do parapeito. Desceu de lá com graça.

    Aprendeu que pulsar não é performar.
    Abraçar as mudanças vem de um movimento corporal que envolve mente e coração.

    E talvez — só talvez — desligar as notificações seja o primeiro ato verdadeiramente revolucionário de fevereiro. Mesmo que a pulseira ainda a identifique na multidão.

  • 8ª Escola a Desfilar: Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus

    “Meu quarto foi despejo de agonia / a palavra é arma contra a tirania’’. Essa frase do samba da Unidos da Tijuca revela muito bem como sua homenageada utilizou a palavra como uma arma denunciando as desigualdades brasileiras e dando voz a pessoas esquecidas. Trata-se de Carolina Maria de Jesus, como o próprio título do enredo já revela.

    Pela sinopse de seu enredo, a Tijuca fará uma homenagem ao estilo tradicional. Ou seja, ela pretende contar a história de Carolina que começa no cerrado de Minas Gerais, onde a gigantesca mulher, ainda criança, aprendeu com os ensinamentos de seus ancestrais. Dentre eles, está o seu avó Benedito, o tal “preto velho que lhe ensinou os mistérios” como o próprio samba enredo já diz.

    Desse jeito, o enredo vai acontecendo em capítulos. Entre eles, está aquele em que ela vai trabalhar na roça e acaba presa e humilhada por portar um dicionário! Além disso, foi acusada de feiticeira e de ser uma mulher que queria causar prejuízos aos brancos, os donos do local (ou melhor, que achavam ser isso). Pensar em uma Carolina acusada de bruxaria é pensar no destino de várias mulheres que, ao se indignarem com as injustiças que o mundo lhes impunha, foram acusadas do mesmo.

    Infelizmente, vivemos uma realidade em que cada característica física de uma pessoa faz com que ela desça um degrau na escala social. Aí, quem é homem e branco fica lá em cima, já uma mulher, preta, que mora na periferia fica lá embaixo nessa escala que impõe diversas dificuldades para que essas pessoas sejam vistas.

    Carolina não só viveu essa realidade, ela se indignou com ela e resolveu contar. Isso porque, tinha uma arma muito mais barulhenta e potente que qualquer calibre que só se presta para calar vozes. Assim, fez de seu lápis megafone e falou para a sociedade sobre sua realidade, ainda que tenha tentado ser calada.

    Por todos esses motivos, fica claro que a Tijuca acertou muito em seu enredo. É necessário homenagear a coragem de uma mulher que nunca se calou diante de sua situação. Que a força de Carolina Maria de Jesus se espalhe para outras mulheres de fibra como ela, pois serão capazes de mudar esse país.

  • Pierrô e Colombina


    Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.

    Bom, o carnaval chegou e o ano, enfim, começa a partir daí. Quantos não vivem dizendo isso a cada novo carnaval, a cada novo fevereiro? Todos ficam em compasso de espera. Tudo parece inerte. A expectativa é enorme, assim como as filas e a falta de paciência. E eis que a festa da pretensa liberdade dá o seu tom. Os carros alegóricos que transitam pela avenida e levam cores e delírios e gritos histéricos, além das notas dos jurados, formam um comboio de fantasia. Uma cara fantasia! A melodia é difícil? A letra é sofrível? A voz do ‘puxador’ falseia? Não importa, é carnaval!


    Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.

    Engarrafamentos e arrastão. Praias com águas mornas e sol acima dos 40ºC. “Aquecimento” é isso aí! Há muito gringo para ver o desfile limpo e organizado e delimitado e amordaçado e bonitinho. É a festa da liberdade, diga-se de passagem! Mas cuidado com o cronômetro!

    Há muito dinheiro envolvido na grande festa popular. Muito brilho. Negociações e aplausos e apertos de mão. Não esqueçamos as fotos com os políticos: sorrisos e acenos. Não esqueçamos também dos famosos: uma imagem é tudo! E as notas então? Beleza! Beleza! Silicones e músculos: força em ação! Mas a festa é de libertação! Olha o flanelinha aí! Não tem vaga não!

    Bandeira branca amor não posso mais… Ô abre-alas eu quero passar… Mamãe eu quero mamar… Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é?

    O ano, de fato, levanta e sacode a poeira (não sei se dá a volta por cima) e tudo segue como sempre. E mais fotos e escândalos, mais flanelinhas, mais arrastões, mais filas e filas… E o calor que derrete o asfalto? E as chuvas que atormentam a cidade? O preço do leite e do pão e da carne e do açúcar?

    O poeta olha para o relógio e escuta as marchinhas do seu tempo. O cronista transcreve. Mas o carnaval passa, não passa? E passa para mais um carnaval passar… A crônica não está atrasada, não é? Palavras ao vento. Palavras como serpentinas. Palavras e o tempo…

    E o velho tempo ri dos homens e das coisas porque a maior fantasia, o maior carnaval é a própria vida. Às vezes, a gente se esquece…

  • Poema #03: Habitar o intervalo

    “A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *

    Os emaranhados da vida
    tapeçaria mal tecida
    De palavras sufocadas por amarras
    por nós
    Arremates enrijecidos do tempo
    entre as costuras

    Vida vivida
    em monobloco

    Esgarçar a tessitura
    do tempo mal vivido

    Esburacar a trama
    de pontos suturados

    Criar um circulador
    de silêncios no espaço

    Arear lembranças
    do que resta calado

    (*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar

  • Nas alturas, um café com o Redentor

    Próximo ao céu, onde nenhum obstáculo além de uma escada de marinheiro me separa do Cristo Redentor, a certeza de que nada é estável me invade. A mutabilidade da paisagem, colorida a cada noite por nuances de distintos pigmentos primitivos — esparsas, turvas, momentâneas — fere um órgão qualquer, apertado entre oxigênio, responsabilidades e preocupações.

    (— Não dói porque é frágil, diz uma voz que não vem de mim. Dói porque ainda sente.)

    Vejo, a princípio, uma face altiva e quase saudosa, a guardar uma das sete maravilhas do mundo moderno. Nada mais importa, por toda a eternidade. Eis o grandioso que se inclina, curioso, diante do que é genuíno, ainda quando o rosto é o morro dos Cabritos.

    (— Eternidade também cabe no intervalo de um gole, murmura Ele, sem mover os braços.)

    Telhas sombrias e arbustos naturais, adornados por flores hipotéticas, transbordam sabedoria a respeito da irrealidade do tempo presente. A noite tem cor de um veludo azul, feito em máquina de tinta de catálogo. Parece reproduzível, parece transportável — mas não é; depende da base.

    (— Depende de quem olha, suspira o corpo ao lado, em repouso confiado. Eu entendo.)

    Damos sentido às coisas pelo breve capricho de acharmos que tudo tem de fazer sentido. O mundo não faz sentido: respira, sente, reage, morre e nasce todos os dias. Ainda que luzes vigilantes enrubesçam os céus para que humanos notívagos brinquem de ser pássaros – cruzem altitudes, pulem de um país para outro, de uma cidade para outra, de um parapeito no térreo de uma serra para um na cobertura de uma praia.

    E então, como se quisesse confirmar a metáfora, um pássaro atravessa a noite e pousa quase ao meu lado. Assusta. Meu corpo reage. O coração dispara. Mas o reflexo vem mais leve do que antes. O medo passa rápido. O alívio afrouxado em um riso maduro vem depois.

    (— Ainda há espaço para o inesperado.)

    Grilos cantam em um e em outro lugar. A brisa é mais fresca nas horas adormecidas, embora janelas sem cortinas — ou pessoas calorentas — permitam que suas intimidades sejam mais soltas quando quase todos dormem. Prédios inteiros estão sem luz; alguns se destacam por suas temperaturas de cor muito particulares: branco quente, branco neutro e tantas cores possíveis pela tecnologia em que células programadas para telefonar transfiguraram-se em extensões de nós.

    Ouço música clássica pela saída do áudio do celular, cigarras nas matas dos arredores, motores de máquinas que se dizem silenciosos, conversas ininteligíveis ao longe, motos, carros e um pingar compassado de alguma torneira, não muito distante. Repousa ao meu lado uma xícara de café e uma presença que reconhece meu tempo — não pede explicações, não exige permanência.

    Com ela atravesso sinais fechados sem perder impulso: sigo na garupa da bicicleta enquanto as rodas descrevem círculos breves, atentos, até que o mundo permita a passagem. De madrugada, numa avenida larga e quase vazia, o som alto ocupa o espaço e o volante vira dança. A cidade se abre como se fosse só nossa — não por posse; coincidência rara. Existem encontros que não pedem promessa, só
    reconhecimento.

    O tempo é relativo. As pessoas são relativas. E as pessoas são as mesmas de antes: sorrisos que despertam sentimentos de nós mesmos, tão endurecidos pelo correr dos dias.

    Choro, sentada no parapeito. Me sinto uma coruja com minha cafeína líquida. Um pouco de mim se desfaz a cada segundo e tenho medo de o mundo acabar num instante — como acabou para o meu pai, para o meu avô, e há de acabar para o meu cachorro, e para meus filhos, se um dia existirem.

    Tenho em mim a sede genuína de um viver desembestado, um cavalo selvagem em meio a um descampado. Livre. Leve. Vivo. Sem destino pré-concebido.

    De esguelha, entrescondo a pergunta que Ele já sabe que aflige meu peito:

    Quanto tempo?

    Quanto até que meus olhos se fechem pela última vez, aqui?

    Quanto até o último café, o último beijo, o último êxtase, a última visão, a última palavra?

    Quanto de tempo hão meus cabelos, pele, sangue e respiro de testemunhar, para que minha mente se aquiete com tanto a se fazer e conhecer?

    Sentada nesse parapeito, em conversa honesta e silenciosa com o Redentor, choro.

    Não sei se de tristeza, de felicidade, ou apenas de equilíbrio — nessa minha vida em que as energias poderiam se carregar por um apetrecho qualquer, desenvolvido para me manter desperta. A todo momento.

    Que pode ser o derradeiro.
    E também o único.
    E o primeiro.

  • Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!

    Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro

    Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena conferir as comidas de rua do Japão — barraca 71, próxima ao portão da Lapa, na Praça Paris.

    Outra ocasião foi num domingo em que me lancei à capital para celebrar o aniversário da minha afilhada Lulu, quatro aninhos. Unindo encontros familiares a agendas profissionais, estiquei meus dias no meu Rio de Janeiro. No domingo passado, encontrei a Marcela no Flamengo, onde, no Planalto, nos unimos às palmas de um parabéns com glitter, estandarte, sorrisos largos e corpos carnavalescos espalhados pelas calçadas.

    Antes de retornar à minha serra, tomei café da manhã no quiosque Ginga, na praia do Leme — um ponto aberto 24 horas por dia. Algo inacreditavelmente maravilhoso para alguém cosmopolita e do mundo como eu, que se acostumou a não encontrar nada aberto depois das dez da noite, durante a semana. Domingo, então…

    No aguardo de uma carona prevista para as nove, caminhei pelas areias de calça jeans, cruzando os limites com Copacabana. Ah, a princesinha do mar — que hoje verei novamente. E novamente a Glória, os agitos da Praça Paris, os corredores da maratona no Aterro, o bloco da Ivete no centro e a rotina dos moradores que circulam pelas redondezas: o cotidiano de quem sai cedo para montar barracas e vender até o fim da tarde.

    Em meio ao percurso ainda escurecido da partida, me espanta o amanhecer da serra: a troca de azuis, o passar espaçado dos carros, a felicidade solta na voz dos amigos no carro. Nasceres e pores do sol sempre mexeram comigo de forma arrebatadora.

    São sete da manhã. Vejo o Cristo da janela.

    Da janela do carona, sobre a ponte Rio–Niterói, fecho esta primeira crônica brindando ao Rio de Janeiro, a fevereiro e a março. Algo do Rio ainda pulsa em mim — um pulsar que antecede o retorno e já carrega a saudade. Como se o caminho não fosse uma linha, mas um estado.

    Talvez eu viva assim — é bem provável, eu diria: chegando ao que sou agora, partindo sempre de algo que me ensinou a ficar.

    Bom dia, caro leitor!

  • Meu relógio é de borracha

    Às vezes, me canso um pouco de ler as crônicas do cotidiano publicadas nos inúmeros sites e veículos de comunicação (logo eu, que sou uma delas?). E não é por conta da qualidade literária dos textos — que, na maioria dos casos, é inquestionável —, mas por sentir que estou sempre comendo aquele mesmo pudim que retorna à mesa depois de congelado.

    Por isso mesmo, me deliciei com um texto novo que falava sobre os Tidsoptimistas. O termo é difícil até de pronunciar, mas desperta curiosidade — tanta que fui em frente para descobrir seu significado.

    E qual não foi minha surpresa ao perceber que o texto falava exatamente de mim! Será que a autora me conhecia de alguma reunião em que ficou claro ser eu uma Tidsoptimista clássica? Ou teria captado as vibrações do meu ser de luz, sempre pronto a ajudar outras criaturas afortunadas que têm uma visão otimista do tempo, como eu?

    Senti um estranho calor, como se — imagino — estivesse tomando um chá fumegante de Santo Daime, à medida que me reconhecia nas situações expostas. Estou vingada! (pensava, ticando cada uma delas). Assim que compartilhar esse texto, todos vão entender que minha intenção sempre foi boa; que o problema é apenas uma diferença de visão sobre o tempo — a deles é objetiva, a minha, subjetiva!

    Para que não reste dúvida de que a autora, Becky S. Korich, se inspirou na minha pessoa para psicografar esse texto, seguem aqui algumas situações citadas:

    O encontro é às 20h. Às 19h55, saindo de casa e ajeitando o cabelo no espelho do elevador, manda a clássica: “Chegando.”

    A reunião é às 14h. São 13h40. Calcula: “Trânsito, 25 min; me troco em 5; dou tchau em 2; saio em 10… dá tranquilo.”

    Tem um voo às 10h. Decide sair às 8h10, confiante de que tudo vai colaborar: o Uber vai chegar em 2 minutos, os faróis abrirão em sincronia, não haverá fila no check-in e o portão será logo ali.

    Quem já conviveu comigo certamente poderá engrossar essa lista com muitas outras situações optimistic e… me perdoar!

  • Comunismo na prática

    São Petersburgo é uma das cidades mais espetaculares do mundo. Estive lá em três ocasiões, as duas primeiras quando ainda atendia pelo nome de Leningrado, em pleno regime comunista. Naquela época, se o visitante não tivesse incluído todas as refeições no pacote cuidadosamente preparado pela única agência de turismo que os estrangeiros podiam utilizar, a estatal Intourist, enfrentaria muitos obstáculos para encontrar um restaurante que o atendesse.

    As opções eram escassas e os funcionários não se esforçavam para agradar os clientes, afinal pouco ou nada lucravam com isso. Eu e meu marido nos deparamos com restaurantes quase vazios, com garçons batendo papo, onde fomos impedidos de entrar sob a alegação de que todas as mesas estavam reservadas. Fazer uma reserva seria a solução óbvia, mas, quando solicitávamos ao hotel que a fizesse, diziam que era cedo demais para isso e pediam para voltar mais tarde. Quando voltávamos, respondiam que as reservas estavam esgotadas.

    Os hotéis dispunham de restaurantes que na hora do jantar ficavam abarrotados de estrangeiros tentando conseguir uma refeição decente. Era difícil arranjar mesa, mas uma gorjeta antecipada, principalmente em moeda estrangeira, facilitava as coisas. Mesmo assim, o serviço era ineficiente e os hóspedes tinham que se conformar com o que eles pudessem servir. Boa mesmo, só a vodca.

    Vimos hotéis onde existiam, espalhados pelos pavimentos, pequenos bares para lanches, igualmente lotados, mas onde era mais fácil ser atendido. Dispunham de um menu bastante limitado: pão, manteiga, caviar fresco (esqueça o Beluga, e não se iluda: há uma variedade de peixes cujas ovas se rotulam como caviar), café com leite e doces. Depois de duas ou três refeições dessas, e sem conseguir entrar nos restaurantes, você se perguntava se não seria o caso de pedir socorro à embaixada brasileira.

    Numa segunda viagem a Leningrado descobrimos que, convidando os guias de turismo para almoçar, eles davam um jeitinho de resolver o problema dos restaurantes. O convite era recebido como uma oportunidade de compartilhar um ambiente que lhes era normalmente vetado por questões financeiras. Contudo nem todos ousavam aceitá-lo: dava para sentir no ar o patrulhamento ideológico, e deduzir como era perigoso ter contato demais com o mundo exterior.

    Uma das guias, uma senhora mais idosa, não só recusou enfaticamente o convite, como se afastou de nós tão rápido quanto pôde. Quando nos deixou no hotel no intervalo para o almoço, vimos um pequeno caminhão vendendo bolos (inteiros) na calçada em frente. Já escaldados, achamos prudente comprar um. Havia fila e, quando chegou a nossa vez, as pessoas foram extremamente amáveis: por gestos, ajudaram-nos a escolher o sabor do bolo e a efetuar o pagamento, que, aliás, foi bem pequeno se comparado aos preços que costumavam cobrar dos turistas. Naquele dia, esgotadas todas as tentativas de conseguir lugar em algum restaurante, o almoço foi água e o bolo comprado com a ajuda do povo russo. Não sei se a culpa é da fome, mas esse bolo é uma das poucas coisas boas que me lembro de ter comido por lá.

    Quando estivemos em São Petersburgo pela terceira vez, e esperamos que não tenha sido a última, a Rússia estava em processo de abertura política. No entanto, como costumes não se mudam radicalmente de um dia para o outro, ainda havia problemas com os restaurantes.

    Essa terceira viagem foi realizada em um navio que ficou ancorado na cidade por dois ou três dias. Já não éramos obrigados a utilizar os serviços da Intourist, se é que ela ainda existia, mas, por precaução, achamos mais conveniente comprar duas excursões de dia inteiro organizadas pela companhia do cruzeiro. Nesses casos, era praxe do navio incluir o almoço em um restaurante local. Não na Rússia: eles providenciaram farnéis para os passageiros que iam passar o dia fora. Sinal de que, apesar das mudanças já visíveis, refeições em restaurantes continuavam sendo pontos fracos.

    Agora, já soube por várias fontes, que os russos têm excelentes restaurantes, vinhos e cardápios. Todos os viajantes recentes com quem tive contato falam maravilhas da comida e do atendimento. É por essas e outras que gosto tanto da iniciativa privada. E não pensem que o povo soviético prefere como era antes.

  • Solas

    Me apaixonei, ou pelo menos acho que me apaixonei; fui a uma festa e perdi a cabeça. Comprei um cavalo que não preciso de jeito nenhum. Regras. Não ofereça preço por algo que você não precisa. Ao chegar a um baile, convide alguém para dançar imediatamente e dance uma valsa ou uma polca com essa pessoa. Pense em maneiras de organizar meus assuntos esta noite. Fique em casa.

    25 de Janeiro de 1851

    Mormaço em Copacabana; brunch no Leme e um copo suado me espera pelas entranhas do Flamengo. A luz é perfeita; Jobim canta ao pé do meu ouvido, sua respiração quase roça minha nuca, numa versão acústica em que o som se propaga, encontra os meus poros e traduz-se em arrepio. Meus olhos observam o entorno, meus sentimentos exalam bossa nova e transformam o banal nessa crônica (não sei se haverá fôlego para chegar ao final):

    Os sapatos, importam

    Desde sempre.
    As solas se aprimoraram ao longo dos tempos para que, integralmente, a pele do peito do pé não endureça. Engenharia, borracha, costura, cálculo. Os sapatos importam tanto ou mais que os relacionamentos, que acabam por endurecer os corações. Não protegemos nosso centro vital com a mesma engenharia obsessiva dedicada às solas.

    Me deparei, por acaso — dessas coincidências que fingem surpresa, ou não passam de meros algorítimos— com um diário de Tolstói. A data do registro é a mesma deste domingo. As palavras não envelhecem nem obedecem à finalidade de quem as trouxe ao mundo; apenas se deslocam. Cento e setenta e cinco anos depois, arrebentam como ondas inesperadas no asfalto carioca.

    “Fique em casa”. Reverbera enquanto entro no Uber, ar climatizado e motorista sisudo. À primeira vista.

    Comprar um cavalo.
    Fazer as malas.
    Esperar quem não volta.

    Tolstói faria disso um erro juvenil.
    Eu, com algum acúmulo de maturidade gasto na sola dos sapatos, chamo de insistir no que já deu sinais de fracasso. Meu uber me guia para caminhos com cheiro de casa. Avançava devagar. Chovia daquele jeito que não é chuva — é o teste de humor do carioca. Tudo ficou cinza. A expectativa do por do sol nubla.

    Anteontem choveu muito. Quando chove assim, a gente aumenta a atenção, ele disse. Um carro passou na minha frente, bem aqui perto. Era tudo água. Do nada, uma onda engoliu o carro. Pense no desespero.

    Fiquei em silêncio.
    Era exatamente o tipo de coisa que Vinícius diria, apoiando o cotovelo numa mesa da Glória, antes do segundo chope.

    A vida acontece nesses momentos, eu continuei. Do nada, um carro surge na contramão; um pedestre corre fugindo de um assalto; um motorista cauteloso tem a esposa a parir no banco de trás. A vida não é planejamento. A gente se ilude achando que tem controle sobre uma coisa qualquer. Nem sobre o mundo, nem sobre o que existe dentro da gente. Às vezes, nem sobre a própria pele. Do nada aparece uma gripe.

    Mas sempre podemos fazer uma tatuagem a nossa maneira, sorriu o astuto motorista. Desci.

    Jobim cantaria isso com um piano manso, como quem sabe que não há solução — só caminho. E o caminho, meus caros, só serve aos pés.

    Já escrevi diários prometendo preenchê-los até o fim. Hoje prefiro anotações em folhas avulsas, presas por argolas metálicas: a ilusão honesta de que posso reorganizar tudo depois. A arquitetura me ensinou que o processo de criação não é linear. O Chico parece ter aprendido isso cedo, quando desgarrou de arquiteto para artista. Eu ando experimentando o mesmo tipo de sapatos. A vida acabou me sinalizando que os pensamentos também não são lineares, tampouco unidimensionais. Sequer o tempo é regido por algo que seja levemente parecido.

    Logo pela manhã, ao despertar ao lado de Copacabana, em inércia horizontal, a pele é nua; os pés nem chegam a sentir o peso do lençol. Há preguiça, há coerência, há segurança. Levantar é sempre um risco. O encerado do piso chega antes à cabeça que ao toque dos pés. Por isso calçamos sapatos, sejam eles despojadas havaianas: para atravessar o dia enganando-nos de algum controle.

    Se Tolstói não trajasse sapatos, talvez o registro fosse outro. Protegendo as solas para chegar às festas, perdeu a cabeça — e quem sofreu, coitado, foi o peito. Qual não seria o estrago se os pés sentissem sem amortecer o impacto?

    Há paixões que são lindos girassóis. Há encontros que despertam uma das partes mais bonitas que temos dentro de nós, honestamente livres, que vivem apenas de chinelo nos pés. Não pesam nada, não prometem nada. Destravam a intensidade, a vontade de viver e excesso de medo que trazemos dentro. Tiram nossos sapatos e fazem a conexão instantânea dos pés à cabeça. Não protegem. E cumprem exatamente isso: vida. Há quem chame esses tipos carioca. Não é o gentílico, mas um tipo cultural de se existir. Podemos encontrar cariocas por todo o mundo. A liberdade alheia não é o problema; é a insistência de um turista em levar adiante idealizações alimentadas promessas regadas a pele bronzeada e sorrisos com sabor de água de coco. Amores que vivem melhor no papel do que no chão, porque no chão, a sola protege. Na espera, no entremeio, na possibilidade há segurança.

    Comprar um cavalo.
    Fazer as malas.
    Esperar quem não volta.

    O sentimento é o mesmo de se ver, da janela, o Corcovado e o Redentor. Que lindo.

    Existe esse conselho antigo — e suspeito — de que o poeta só é grande quando sofre. Sofrer e gastar muitas solas de sapato. Antônio acreditava nisso. Um exímio amante dos sapatos. Eu desconfio: a grandeza, quem sabe, não esteja no sofrimento, mas na travessia. Em se saber quando não comprar o
    cavalo. Em desfazer a mala. Em não confundir chuva com destino.

    Nossa casa querida, que não é o Rio de Janeiro, em si, nas as entranhas desprovidas de segurança do nosso corpo, é como amendoeiras à espera de jacarandás. Vida e sonho.

    Achegue-se, meu bem.
    O mundo é mal, mas leva — se levar — outra vez a um caminho que pede solas novas. Me abrace simplesmente, diz a árvore, sábia com seus troncos largos. Não fale. Não lembre.

    Porque eu sei — e você sabe — que a distância não existe.
    O que existe é o chão.

    E todo grande amor só parece grande quando é triste porque, no fundo, nos obriga a caminhar descalços por territórios para os quais não nos preparamos. O poeta sofre, dizem, porque anda demais. Talvez sofra porque insiste em proteger os pés quando o corpo inteiro pede impacto.

    Se é para doer, que doa sem amortecedor.
    Se é para seguir, que seja com as solas nas mãos.

    Há caminhos que não pedem sapatos, pedem presença.
    E o coração vai sentir — de um jeito ou de outro.

    Que ao menos sinta inteiro.

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