Crônicas

Coisas de vento para prosa

Coisas de vento, bola no chão, areia, rosto no campo e suor. Pedras. Pedradas. Horizonte longe e nada. Mais nada além da bola e da vontade do jogo entre os moleques. Sol a sol e coisas de vento, sem tempo. Momento.

Momento de pensar nas coisas do tempo que passou. O menino que fui um dia joga na estrada. Pedras nas janelas. Pedradas. E corre, corre. As pernas tremem de tanto correr sem direção. Sol a sol. Horizonte muito. Dispersão.

Coisas de vento que nos pega e nos prende em um tempo. O tempo único do coração. O tempo em que tudo é permitido e, com as próprias mãos, desenhamos os sonhos e, também, os enxergamos. Contenção.

O vento cessa e a bola e os moleques não estão mais lá… Não estão mais no chão. A poeira e os meninos desapareceram assim como as pedras, as pedradas.

O horizonte continua intacto e mudo. E sol a sol. O tempo. São coisas de vento…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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