Crônicas

Amor

Movimento I – Primeiros passos.

Uma noite, à beira mar em um bar numa cidade no vasto litoral brasileiro…

Ele disse: um centavo por seus pensamentos.

Ela disse: valem menos do que isso.

Ele disse: um verso por seus pensamentos.

Ela disse: de quem?

Ele disse: meu.

Ela disse rindo: passo.

Ele disse sorrindo: de um poeta maior.

Ela disse: mais alto que você?

Ele disse: em estatura poética, um gigante.

Ela disse: e quem é esse que você vai em busca?

Ele disse: um que nunca me faltou.

Ela disse: nunca te faltou nas suas cantadas por ai?

Ele disse: nunca me faltou quando a poesia se faz necessária.

Ela disse: agora por exemplo?

Ele disse: precisamente.

Ela disse: e por que a poesia se faz necessária?

Ele disse: para traduzir o sentimento.

Ela sorriu e disse: e quem é o seu salvador?

Ele disse: Tom Jobim.

Ela disse: ah sim…

Ele disse: me permite?

Ela ameaçou rindo: se vier com Desafinado eu desapareço.

Ele disse: fujo do óbvio.

Ela disse: será que o óbvio foge de você?

Ele disse: ele não sabe onde eu ando.

Ela disse: mas o óbvio é ardiloso, engana os jovens aspirantes a poetas.

Ele disse: mas não sou aspirante a poeta.

Ela disse: além dos declamadores profissionais.

Ele disse: declamo porque gosto não para viver.

Ela disse: ao menos é habilidoso na retórica.

Ele disse: ao contrário do óbvio, ela é minha amiga faz tempo.

Ela disse: convencido.

Ele disse: sincero.

Ela disse: me diga então o que tem em sua manga poética?

Ele disse: ah, minha bela…

Ela disse: estou escutando meu belo…

Ele disse cantarolando: eu você, nós dois, aqui nesse terraço à beira mar.

Ela disse admirada: mas não é que o moço não é óbvio.

Ele sorriu vitorioso e disse: sozinhos neste bar à meia-luz.

E uma grande lua saiu do mar.

Ela ronronou sorrindo: huuumm.

Ele continuou contente: Parece que este bar, Já vai fechar, E há sempre uma canção para contar.

Ela olhou em volta sorrindo e voltou a mira-lo em silêncio.

Ele prosseguiu confiante: Aquela velha história de um desejo, Que todas as canções têm pra contar.

Ela olhou firme nos olhos dele.

Ele se aproximou e completou sussurrando: E veio aquele beijo.

E se beijaram muitas vezes naquela noite.

Movimento II – Descompasso virtual.

Há quilômetros e meses de distância…

Ele escreveu: tudo bem?

Ela escreveu: sim mas quem é você?

Ele escreveu: esqueceu de mim?

Ela escreveu: seu número não está salvo no meu telefone.

Ele escreveu: então não é sua memória?

Ela escreveu: não é a do aparelho.

Ele escreveu: vou dar uma dica.

Ela escreveu: por favor.

Ele escreveu: Tom Jobim.

Ela escreveu: o que tem ele?

Ele escreveu: ué, em nosso encontro citei Tom Jobim.

Ela escreveu: sem ofensa mas sabe quantas vezes eu ouço alguém soprar no meu ouvido letra do Tom achando que é original?

Ele escreveu: são tantos assim?

Ela escreveu: mais do que minha paciência suporta.

Ele escreveu: não sabia que era assim tão requisitada.

Ela escreveu: pois é né?

Ele escreveu: ah tá, então pelo visto não causei impressão alguma.

Ela escreveu: seu bobo, sempre causa.

Ele escreveu: todos causam.

Ela escreveu: todos não, só os mais sutis.

Ele escreveu: mas se tem tanta gente citando Tom Jobim para você, seus ouvidos nem dão mais atenção.

Ela escreveu: ah mas aí é que você se engana sobre um aspecto.

Ele escreveu: e posso saber qual?

Ela escreveu: nem só com ouvidos se escuta Tom Jobim.

Ele escreveu: e com o que mais se escuta?

Ela escreveu: ah..deixa ver..com o coração.

Ele escreveu: ah..sim com o coração..entendo.

Ela escreveu: então se meu coração tiver percebido você, mesmo que tenha soprado algum Tom Jobim bem manjado, você acaba se sobressaindo.

Ele escreveu: mas o que seria um Tom bem manjado?

Ela escreveu:  algo fora do compasso.

Ele escreveu: ou desafinado você quer dizer?

Ela escreveu: por aí mesmo.

Ele escreveu: ah então ponto para mim.

Ela escreveu: posso saber por que, mocinho?

Ele escreveu: porque não cometi o pecado da obviedade e não citei Desafinado.

Ela escreveu: salvou-se uma alma no purgatório.

Ele escreveu: também não é para tanto.

Ela escreveu: mas quase.

Ele escreveu: então pelo visto o que te disse deve ter sido escutado pelo seu coração.

Ela escreveu: pode ser que sim.

Ele escreveu: claro, naturalmente, entre tantos.

Ela escreveu: entretanto só poucos fizeram meu coração palpitar.

Ele escreveu: e o seu palpitou?

Ela escreveu: não.

Ele escreveu: descompassou?

Ela escreveu: é, dá para dizer que o ritmo ficou comprometido.

Ele escreveu: bom saber.

Ela escreveu: por que?

Ele escreveu: e diria que ele, o seu coração, nesse movimento sutil de alteração de ritmo poderia ter entrado em outra sintonia?

Ela escreveu: possivelmente.

Ele escreveu: e poderia ter sintonizado no meu?

Ela escreveu: dependendo do que ele tiver escutado, quem sabe.

Ele escreveu: mas quanta incerteza.

Ela escreveu: mas meu lindo, o amor é incerto.

Ele escreveu: é estou vendo mesmo.

Ela escreveu: vendo o que?

Ele escreveu: como o amor é incerto.

Ela escreveu: não exagere.

Ele escreveu: sem exagero, é só simples constatação.

Ela escreveu: mas o que mais..me diga…

Ele escreveu: mais nada porque ao que parece minhas intenções românticas se perderam entre outras de outros.

Ela escreveu: não diga isso.

Ele escreveu: é a pura verdade.

Ela escreveu: não peraí, calma.

Ele escreveu: fique bem.

Ela escreveu: não faz assim, fala comigo.

Ele – :

Ela escreveu: eu estava brincando.

Ele -:

Ela escreveu: puxa…

Movimento III – Dança romanceada.

Um tempo incerto depois…

Ela disse: onde estava esse tempo todo?

Ele disse: longe de você.

Ela disse: por vontade própria?

Ele disse: por escolha infeliz.

Ela disse: sua ou minha?

Ele disse: de ambos.

Ela disse: sentiu minha falta?

Ele disse: o tempo todo.

Ela disse: por que não me procurou?

Ele disse: porque te perdi profundamente.

Ela disse: como decidiu me achar?

Ele disse: no dia em que respirei fundo e subi à superfície.

Ela disse: e foi difícil saber para onde ir?

Ele disse: encontrei seu rastro em toda parte.

Ela disse: era forte assim?

Ele disse: ao contrário, muito sutil.

Ela disse: então foi difícil me distinguir entre outras?

Ele disse: não foi difícil, mas exigiu atenção e dedicação.

Ela disse: e onde me encontrou?

Ele disse: curiosamente não tão distante quanto eu achava.

Ela disse: lembro de ver você ao longe.

Ele disse: te contemplava.

Ela disse: teve medo de se aproximar?

Ele disse: medo de me atrapalhar.

Ela disse: bastava vir em linha reta.

Ele disse:  prefiro fazer curvas.

Ela disse: a menor distância entre dois pontos é uma reta, não sabia?

Ele disse: pode ser a menor mas não é a melhor.

Ela disse: demorou por que escolheu o melhor caminho ao invés do menor?

Ele disse: demorei porque meu caminho não foi reto mas sinuoso.

Ela disse: sinuoso como o quê?

Ele disse: como suas curvas.

Ela disse: minhas curvas tiram você do rumo?

Ele disse: suas curvas me põem na direção certa.

Ela disse: e se estiver escuro?

Ele disse: na noite mais escura, seu olhar ilumina meu caminho até você.

E nunca mais se desencontraram.

Fernando Neves

Fernando Neves é carioca, nascido em 24 de setembro de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mora na cidade de São Paulo, continua Tricolor de Coração, é separado duas vezes e tem filhas gêmeas do segundo casamento. Jornalista profissional, desde os tempos no Colégio Pedro II sempre se interessou pelas letras, seja como leitor ávido seja como aprendiz de escritor. O jornalismo abriu a oportunidade de escrever e praticar mas não foi suficiente para seu desejo de escrever cada vez mais. As opções de forma são a mininovela e o conto. O estilo adotado pelo autor compreende um arco que inclui suspense, humor, conspiração e realismo fantástico. Semanalmente ele exercita sua paixão pela crônica e poesia publicando em seu instagram @fernandonevesescritor.

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