Crônicas Cariocas

  • Tempos modernos

    Eu procuro entender um pouco sobre as máquinas. Procuro mesmo. É verdade! Não sou muito simpático a elas não! Sabe qual o problema? É o apertar de botões! Aperta aqui, aperta ali! Imagino Carlitos em Tempos Modernos, enlouquecido entre as engrenagens.

    Aperta aqui, aperta ali e as imagens vão se acumulando na tela do computador, uma após outra, sucessivamente. Não reparo muito em imagem alguma. O que importa nesse jogo não é o conteúdo, mas a velocidade. Minha cabeça parece enlouquecer! Mas a pergunta que me faço e que repasso a cada um de vocês é: qual será o futuro disso tudo?

    Estamos comprometendo uma parcela importante do nosso tempo e de nossas vidas ao maquinário, à tecnologia. Deixamos de viver, de beber, de comer, de sorrir, enfim, deixamos tudo de lado para olharmos fixamente o monitor.

    Seremos deletados porque nosso programa possui falhas! Adquirimos vírus! É absurdo, patético e irônico: as máquinas têm vírus! E como sofrem! Sofrem como nós! E nós, sofremos ainda? Não! Não mais. Estamos muito ocupados com o computador para pensarmos nisso!

    Quando o sistema cai o mundo inteiro também cai: não há banco, não há dinheiro, não há negócio, não há emprego, não há sonho. Ficamos à espera da manutenção! E esperamos horas e horas! Muitas horas!

    Há pessoas que não vivem sem verificar religiosamente os e-mails (caso não o façam há a possibilidade de entrarem em depressão). Há aqueles que deixam a vida toda registrada (fatos e fotos íntimos demais para serem compartilhados com qualquer um) nos sites de relacionamento para que o planeta todo veja e pense qualquer coisa a respeito. Ou não pense absolutamente nada. Há, ainda, os que se apaixonam e se encantam por namorados virtuais. Nada contra isso. Mas existe muito exagero!

    Eu realmente procuro entender um pouco sobre as máquinas. Escrevendo esta crônica agora vou levando os meus dedos sobre o teclado (e que diferença para a máquina de escrever) e pensando nas comodidades e na praticidade da vida moderna. Você pode acessar (olha aí, na linguagem também) qualquer informação sobre qualquer assunto na Internet. Pode, aliás, conversar com o mundo todo, literalmente. Mas há que se ter um cuidado, um cuidado apenas: não ser escravo desse aparato tecnológico.

    Posso andar despreocupado sem o fone no ouvido, sem o MP3 (e já inventaram o MP4 e, com certeza virão 5, 6, 7…), sem o iphone, sem a câmera digital, sem o notebook, sem o GPS, sem… Opa! Peraí! Acho que perdi… Perdi…

    Deixei tanta coisa pelo caminho que não sei mais o que é humano…

    A minha identidade. Aquilo que me marcava como ser único e pensante se perdeu. Em algum lugar entre o mouse e a webcam

  • Genival Lacerda

    Não se sabe se ‘forró’ deriva de ‘forrobodó’ (festança) como dizem alguns etimólogos ou se é uma corruptela da expressão em inglês ‘for all’ como sustenta outra ala, em que se inclui, por exemplo, Geraldo Azevedo. O que é certo, no forró, é que, como diz a canção de Dominguinhos, “quem tá fora quer entrar mas quem tá dentro não sai”. 

    Controvérsias à parte, o forró é consensualmente uma autêntica manifestação cultural do Nordeste como a literatura de cordel, a capoeira e o acarajé, havendo inclusive uma iniciativa junto ao IPHAN para torná-lo patrimônio imaterial do Brasil.

    Através de sua vertente ‘forró universitário’, conquistou a juventude dos grandes centros do Sudeste, com conjuntos de sucesso baseados no eixo SP/RJ como Falamansa, Rastapé, Bicho de Pé, Circuladô de Fulô, Trio Virgulino, Trio Forrozão, Forroçacana. A despeito das reservas dos puristas, esse movimento musical urbano, que teve seu auge nos anos 90, nunca deixou de se conectar aos grandes nomes tradicionais do forró e afins (xote, baião, xaxado, arrasta-pé).

    Percebendo esse potencial, a indústria cultural criou mais recentemente uma versão estilizada, o ‘forró eletrônico’ ou ‘tecnobrega’ (apelidada por Chico César de ‘forró de plástico’). Grupos como Mastruz com Leite, Limão com Mel, Calcinha Preta, Aviões do Forró e Os Magníficos (curiosamente, todos sediados no Nordeste) arrastavam multidões a seus shows pirotécnicos cujas performances glamourizadas pouco lembram a coreografia singela do “forró pé de serra” de Luiz Gonzaga. A soberana sanfona foi destronada e substituída pelo órgão eletrônico e às imprescindíveis picardias foram adicionadas fúteis temáticas românticas.

    Nesse universo, o som de Genival Lacerda soava extemporâneo, assim como suas apresentações, onde estavam presentes o indefectível chapéu coco, a roupa multicolorida e a maneira singular de se requebrar desengonçado no palco, carregando o barrigão saliente. Suas letras eram carregadas de deboche e ressaltavam a malícia e o duplo sentido. Devido a isso, alguns tachavam sua música de porno-xote, pecha que o artista, ofendido, rejeitava, alegando, por exemplo, jamais ter lançado mão de palavrões.

    Conforme explica o músico Silvério Pessoa (da banda Cascabulho), “Genival fez parte de um clã que está em extinção, o forró ligeiro quebrado, dividido, lúdico.” Tendo como suporte o trio básico acordeon/zabumba/triângulo que caracteriza o forró de raiz, bebeu direto das fontes originais que moldaram seus álbuns iniciais quando ainda não dava tanto espaço para as brejeirices que viriam a marcar a segunda metade da sua carreira.

    Enfim, um genuíno representante da primeira geração do forró que inclui nomes emblemáticos como Ary Lobo, Gordurinha, Marinês, Clemilda, Anastácia, Trio Nordestino e sobretudo os gigantes Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Em sua discografia, constam aliás um tributo a Jackson do Pandeiro (que era aliás seu concunhado) e outro em que revisa a obra de Luiz Gonzaga (participação de Fagner, Elba Ramalho e Chico César).

    Embora tenha gravado mais de 70 álbuns, consagrou-se mesmo com a música SEVERINA XIQUE XIQUE (co-autoria com João Gonçalves) de 1975 com o famoso refrão “ele tá de olho na butique dela” que se tornou sua marca registrada e estendeu seu prestígio para todo o país. A canção ganhou releitura de uma pá de artistas de renome: Zeca Pagodinho, Marisa Monte, Nando Reis, Zeca Baleiro, MPB-4, Pato Fu.

    A faixa puxou as vendas do álbum AQUI TEM CATIMBERÊ, selo Copacabana. Curioso que essa gravadora, sediada em São Paulo, embora tivesse em seu elenco muitos intérpretes populares, não era especializada em música nordestina e resistiu em bancar o projeto de Genival, cujo lançamento acabaria por lhe render 800 mil cópias vendidas.

    O álbum NÃO DESPREZE O SEU COROA (1979) denota outro ponto alto na carreira do artista paraibano. Com arranjos de Sivuca e a presença de Dominguinhos, esse disco traz os hits ROCK DO JEGUE (referenciado em uma faixa do único disco dos Mamonas Assassinas) e RADINHO DE PILHA (regravada pelo grupo Camisa de Vênus).

    Descontando suas capas de gosto duvidoso em que aparece ao lado de mulheres de biquíni, e as letras com tom machista (“tem mulher que só aprende quando o coro desce” in RADINHO DE PILHA), que retratam os preconceitos e os valores de grande parte do seu público, Genival é um exímio cronista de costumes que carrega o espírito original do forró voltado ao indivíduo das classes menos favorecidas e aos contratempos dos imigrantes, amenizados com humor.

    Como diz Marcelo D2: “(ele) faz lembrar a alegria do Brasil, me conecta com meus antepassados e traz uma sensação boa de felicidade. Descanse em paz”.

  • Conversar ou “zapear”?

    Alguém ainda tem comadres?

    Conheceu algumas? Elas eram parte do cotidiano das famílias.

    Eram respeitadas, ouvidas, esperadas. “Vamos cortar o bolo quando a comadre chegar.” Tinha também as enxeridas, aquelas que sempre sabiam mais ou fariam melhor. Com um detalhe: entre comadres perdoa-se tudo! 

    Mas o principal atributo delas era conversar.

    Lembro-me de que, quando criança, ao final da tarde era o nosso horário de lazer, de brincar, correr… Nossas mães sentavam-se à sombra das árvores ou nas varandas para nos cuidar e ter um “dedo de prosa” com suas comadres. Esse momento do dia as fazia espairecer, esquecer as dificuldades que houvesse e, renovadas, crianças e adultos, preparavam-se para o dia seguinte. Falavam muito, é verdade, mas também escutavam. Havia tempo, havia presença.

    Tempo que já não temos. Ou nem precisamos. Crianças brincam e jogam dentro de seus quartos, umas com as outras, em jogos virtuais. Que não as atrapalhemos, elas estão “brincando”.

    Adultos? Encontram-se, com certeza, mas nos ambientes de trabalho, em restaurantes ou em compromissos sociais. Conversam, sim. Digitam, enviam, respondem. Tudo rápido, tudo imediato. A comunicação é instantânea, os assuntos são variados, as opiniões são dadas sem nenhum constrangimento. Para isso estão as redes sociais, os grupos de amigos e os da família.

    Estamos sem tempo… Falamos muito. Escutamos pouco.

    No entanto, o colóquio, a conversa, o olhar nos olhos, o cuidado ao falar, tudo isso vai ficando mais escasso. A interação deixou de ser genuína, afetuosa, despretensiosa, leve. A presença tornou-se rara, embora estejamos permanentemente conectados.

    É muito estranho isso. Comunicamo-nos veementemente pelo WhatsApp, mas não temos o que conversar se estivermos presencialmente, pois a impessoalidade e a indiferença dominam o cenário atual.

    Qual será o futuro da humanidade? Onde ficará a solidariedade, o estender a mão, os olhos nos olhos, a atenção real, o jogar conversa fora das antigas comadres?

    E o sorriso feliz da criança ao receber o presente de aniversário da madrinha, afoita para desmanchar o laço e arregalar os olhos de surpresa? Como se hoje o presente viesse por “pix”?

    Deixo aqui essa reflexão e não me estendo mais, porque a amiga está me chamando no WhatsApp.

  • A bateria

    Semana passada a bateria do meu carro pifou. Como eu estava no subsolo de uma agência bancária, tive que ligar para o seguro a fim de solicitar um mecânico. Uns 30 minutos depois o rapaz veio, examinou o artefato avariado e o condenou.

    — Aqui só outra.

    — E agora? Onde posso mandar buscar uma?

    — O senhor liga para a loja Tal e me passou o telefone. Quando eu lhe pedi uma sugestão de marca, ele me perguntou se eu pretendia vender o carro.

    — Não. Por quê?

    — Se for vender compre esta, que é mais barata (e me indicou o nome). Agora, se for ficar com o carro por mais um tempo, leve esta (citou outro nome). É um pouco cara, porém bem mais econômica e difícil de quebrar. Duvido que deixe o senhor no prego.

    Escolhi a segunda, pois não pretendia tão cedo vender o automóvel. Bateria instalada, voltei para casa pensando na alternativa que o mecânico tinha me apresentado. A escolha fora fácil pois, como disse, o carro ainda iria ficar comigo por um bom tempo. Mas… e se eu fosse me desfazer dele? Qual das marcas teria escolhido?

    Comecei a pensar nisso e senti um arrepio. A pergunta do rapaz tinha implicações profundas; envolvia um dilema moral. Pensei em Kant, que fundamenta sua ética na máxima: “Não faças a outrem o que não queres que te façam.” Se eu escolhesse a bateria mais barata e dispendiosa, que além disso podia quebrar, estaria fazendo a outrem (o eventual comprador do meu carro) o que não queria que me fizessem.

    O curioso foi a maneira objetiva, prática, direta, com que o mecânico me fizera a pergunta. Não havia hesitação nem escrúpulo, como se a proposta fosse muito natural. Ele sempre devia apresentar essa opção aos clientes. Alguns até lhe dariam uma gorjeta pela dica, mesmo que isso reduzisse a vantagem obtida com a escolha do produto ruim. O importante era o pequeno lucro imediato, acrescido do indizível prazer de enganar o outro. Pois esse tipo de escolha não vale só pelo dinheiro; vale também (ou sobretudo) pela sensação de ter sido esperto.

    Já chegando em casa, me dei conta de que a sugestão do rapaz diz muito de nós. No trabalho, no comércio, na política e mesmo nas relações interpessoais, nos comportamos como o sujeito que passa a bateria ruim sem considerar o que isso pode trazer para o outro.

    Tudo fica ótimo até o momento em que somos nós esse outro. E quando nosso carro quebra no meio de uma viagem noturna e ficamos com a família ao relento, protestamos contra o egoísmo do ser humano e lamentamos pertencer a espécie tão mesquinha. Esquecemo-nos de que dela fazemos parte e não raro somos nós a protagonizar a trapaça.

    Talvez seja por isso que este carrão chamado Brasil não anda – ou anda muito desigual. Falta em sua “bateria” a corrente do interesse pelo bem comum. Somos antikantianos por atavismo e convicção, fazendo sempre que possível aos outros o que nunca desejamos para nós.

  • Solidão nos olhos

    Saio de casa para me encontrar sozinho. Em meio a tantas pessoas, nenhum olhar se prende ao meu. Nenhum par de olhos me atrai.

    Uma nesga de rosto permitida pela máscara é insuficiente para perceber outra pessoa. Tenho dificuldade em interagir assim.

    Sem a máscara os olhos adquirem outra forma, outra capacidade de interação. Só os percebo em sua plenitude se consigo ver o conjunto do rosto. Acompanhar as mínimas expressões é para mim essencial. São gestos milimetricamente orquestrados que são capazes de revelar um universo inteiro de intenções e emoções.

    Com a máscara sobre a boca e o nariz, nada disso é,para mim, possível. Por mais próxima que a pessoa se permita estar, temos entre nós uma barreira, como uma névoa, que me impede de saber quem é ela, com quem estou conversando.

    Minha atenção fica prejudicada, me disperso. A janela da alma para mim é uma parede de tijolos. Inexpressiva e distante porque não tenho capacidade de ler esta pequena parte visível do outro.

    Não há palavras nem gestos que compensem o que de outra pessoa está escondido. Em nome do bem maior, a necessidade sanitária, os olhos ficam mudos para mim.

    Não se discute a importância da medida. Mas a perda imposta por essa pequena barreira, para pessoas como eu, é imensa.

    A pequena cobertura de tecido me afasta ainda mais dos demais seres humanos. O isolamento fica mais profundo. Os olhos se tornam subitamente inexpressivos para mim.

    Nada entendo dos que me fitam. Nada transmito a eles a meu respeito.

    Me sinto completamente isolado em frente às pessoas que me fitam.

    Meu par de olhos é incapaz de ler o que os outros pares tentam me mostrar.

    Nada alivia a distância.

    A todo lado olhos desconhecidos vêem meus olhos solitários.

  • O leito do hospital

    O leito do hospital era alto de muitos metros. Eu olhava o mundo de cima, com galhardia. Eu olhava o mundo como quem não olha. Eu não olhava o mundo: a vida passava. Era noite alta. O leito alto era um leito de muitos ruídos: motos, carros, ônibus, tratores, uma bomba atômica, meu Deus! Todos os barulhos do mundo chegavam ao meu leito. Era escuro. Eu estava alto, ouvindo todos os barulhos do mundo, e alheio.

    Doía. Em algum lugar do mundo doía. Doía em mim. Em algum lugar de mim. No pulso cortado, no lado direito do corpo, no esquerdo? Em algum lugar de mim, doía. Carros passavam. Na rua, no mundo, nos corredores do hospital. O enfermeiro estava ausente, presente, outra vez ausente. O enfermeiro era um zumbi esvoaçante pelas portas e janelas do quarto.

    E a dor? O que é a dor? O corpo tenso. O corpo ferve. Não há nada e há uma tensão no ar, no corpo. Pior: você não sabe que está sofrendo. Você está sofrendo. Como se estivesse levitando: e sofrendo. Você está atento. Sente todos os ruídos do mundo. Brecadas, um motor, os motores, mudanças de marcha. Sopros, sopros, como se um carro respirasse com o outro. Os carros entravam pelos corredores do hospital a dentro

    Nós, doentes, moribundos, não existimos. Lembrem-se: quem está doente num hospital é um moribundo. A vida é um fio. Você está vivo. Você está mais vivo que nunca. Você sente que está vivo. Você está vivo numa tumba de mortos. O enfermeiro a dois metros de sua porta é um guardião da sua tumba. E que tumba fria. Você fervendo. Você não se importa, mas está fervendo. Você está fora de perigo, é eterno, mas está fervendo. O que está sentindo? Milhares de vezes lhe vem à cabeça a mesma ideia: Não estou sentindo nada. O corpo fervendo.

    Folhas verdes no chão. Folhas verdes e vermelhas. A morte que deveria ter sido e não foi. Você está morto? Vivo? As flores murcham nos vasos, não têm raízes. Eu tenho raízes? Vruum, vroom, vooom, in, ein, iin, voom, vruum, vrooom. As minhas raízes nos ruídos, de fora, de dentro do hospital. O que existe fora, dentro de mim? Que história devo contar? Devo contar alguma história? Quem sou? Sou? Fui já alguma coisa? Ser? Que é ser? Existe um presente de ser? Existe um passado? O ser tem história? Que fazer do meu corpo ilusório? As flores murcham nos vasos, ilusórias.

    A noite prossegue, a noite é infinita. Há um braço negro se estendendo sobre você, um braço enorme, um braço de sombra, pingando sangue. Tudo são perguntas. O que acontece? Até quando? Eu existo? Por quê? Para quê? Um anjo de sombra paira sobre você. A vida é um vaso com um pouco d’água e uma flor dentro. Alguém pergunta: – Quem conspira? Ninguém? Sim? Não?

    A flor é executada. A beleza fenece no devido tempo: antes do tempo. A beleza é perene: mas fenece. A beleza é eterna, mas como uma ideia. A beleza vai morrer. Nós não somos nada. A permanência não existe. Pétala murcha. Pó. A cinza espalhada sobre a terra, a permanência, meu corpo vão. Que me queres? Ó mundo, ó demônios, o nada me espera. Eu sempre soube: o nada me espera. Eu não sou nada. Nada me prende a nada, a não ser este leito de hospital. Estou feliz. Não espero nada. Existe uma dor, mas eu não defino essa dor. Eu não distingo essa dor. Nem sei se dói. Ó vida, para que viver? Eu nem sei se quero viver ou morrer. Quantas vezes mergulhei do alto precipício e era uma visão sem fundo e era o vácuo, era o vácuo, o vácuo. No fim, não caía mais. Assim a vida. Estamos caindo? Cairemos mais? E o vácuo? Quem não sentiu o vácuo de viver? Morrer não é nada, viver não é nada. Que fazer? O leito do hospital me prende. Algemas de aço, estou preso, estou preso. Tenho as mãos e os pés presos em algemas de aço, e o pescoço, a língua, os olhos, o sexo.

    Existir, que é existir? Existo como um morto-vivo existe. O que é realmente viver, morrer? Nem sei se estou sofrendo. Um século algemado a este leito de hospital. Os pulsos sangrando, os tornozelos, o pescoço. A fronte é azul. A fronte é vermelha de sangue e azul, azul, azul fosforescendo no escuro. Como brilha, esse escuro. E o dia não vem, o dia não vem. Por que queremos a presença do dia? O que é o dia? Morrer, viver, alguma diferença? Deuses, acorrentado a este catre negro. Acorrentado num porão de navio que sacoleja, aderna com a tempestade – vamos afundar? Tenho a certeza de que não vou afundar. Tudo é certo neste mundo. Por que sofro? Nada se acaba, a história continua, ninguém tem importância nenhuma. O homem sofre diante do universo, mas que é o universo? Que é o homem? Nada versus nada. Estrelas brincam de cabra-cega, esconde-esconde, mãe-da-rua. O que é a vida? Pirulito nas mãos de uma criança, chupou, acabou-se. Por que, então, viver? Resta, do pirulito, o sabor. Para quem? A criança? Por quanto tempo? Resta do pirulito o sabor. As algemas me roem o pulso. Estou preso a este leito de hospital. Estou preso à vida e olho meus companheiros, que são ninguém. Um coitado com dor de estômago resmunga e vomita no leito ao lado. O enfermeiro cochila na cadeira ao lado da porta. Meus companheiros não nutrem grandes esperanças.

    Sei que vou morrer. Mas não agora. Hoje, nesta noite escura, não penso na morte. Hoje vivo a minha morte. Que longa, a morte. E, no entanto, sei que não vou morrer. Hoje, não penso na minha morte. Estou vivo como o diabo. Sabem o que é isso, estar vivo como o diabo? O diabo abana a cauda no meio do redemunho. Escorregando na vida como o diabo, liso como o diabo, com aquela baba gosmenta do diabo. A vida me escorrega por entre os dedos como o diabo. E eu sei que não vou morrer.

    Não. Hoje não. É dia. Gente entra e sai. Vivi um século sem saber que doía. Sem saber que não estava morrendo muito devagar. Uma aranha me sobe pela cara. Uma aranha se gruda na minha cara. Estou limpo. Estou assustadoramente limpo. Um banho, lençóis limpos, pijama limpo e o mesmo corpo inerme. Inerme? Eu nem sabia que doía. Eu doía. Uma injeção me salva. Dormi. Dormi como um homem dorme. Como um anjo. Muito de leve. Como um morto. O morto que eu fui e sou.

  • A loja de despedidas

    Na estação rodoviária da cidade, entre um quiosque que vende lembranças para turistas e uma lanchonete, há uma loja de despedidas. Ali, os viajantes solitários — aqueles seres que transitam de um lugar para outro sem que haja ninguém que se despeça deles — podem escolher a melhor forma de partir da cidade. Há despedidas para todos os gostos, ânimos e possibilidades financeiras. Os atores contratados pela loja, de todas as idades, são muito experientes e treinados nesse mister, e sabem demonstrar a dose exata de emoção que momentos como esses pedem.

    A um preço bem camarada pode-se comprar um aperto de mão, daqueles que acontecem entre dois conhecidos cordiais, pulso firme e olhos nos olhos. Ou então um abraço sincero de um amigo querido, de quem se sentirá muita saudade. Outra despedida bastante procurada é aquela que envolve a família toda, com direito a lágrimas e a recomendações como “ligue quando chegar lá” e “proteja-se do frio”. Esse tipo de despedida tem como bônus um abraço coletivo e emocionado entre pais, filhos, tios e sobrinhos do viajante.

    A despedida mais solicitada é, sem dúvida, a do beijo e abraço da namorada. É o produto mais caro da loja, mas os viajantes solitários não se importam com o preço. Acreditam que é um dinheiro bem gasto aspirar o perfume que sai dos cabelos da moça quando ela se aproxima sorrindo e de braços abertos. Sua voz sussurrada no ouvido do viajante, dizendo o quanto sentirá a falta dele, o quanto o ama e o quanto sofrerá com sua ausência, é música para quem está sozinho na rodoviária, cercado por desconhecidos. Por um pequeno valor adicional, o viajante poderá ainda desfrutar de uma caminhada de braços dados com a namorada pela plataforma, com direito a olhares de amor, carinhos no rosto e um último abraço apertado pouco antes do ônibus arrancar.

    A lembrança das despedidas compradas pelos viajantes solitários costuma acompanhá-los durante boa parte da viagem, confortando seu coração e seus pensamentos. Assim, fica um pouco menos dolorosa a sensação de exílio que experimentam a cada partida.

  • Futuro do pretérito!

    As cores revelam significados marcantes e frequentes na demonstração de nossos atos, e alguns desejos mais enfáticos associam intensidade única para estruturar aquela manifestação ativa que transborda em um ato contra outro indivíduo, ou por vezes, a nós mesmos.

    Pode ser quando estamos à beira de um ataque de nervos, ou enchendo os olhos de lágrimas, e nossa solidão repudia qualquer um que queira adentrar em nossas vidas e trazer medo e tristeza.

    Eventualmente não são pessoas do mau que nos cercam, como não o foram aqueles estrangeiros a cavalo, agentes do faraó do Egito, Alexandre.

    Por insistência deste, aqueles homens atravessaram fronteiras e grandes distâncias, correndo riscos de ataques dos punhais de ladrões, ou contágio com doenças doloridas e mortais, na busca por objetos secretos mais bem guardados pela corte egípcia. Os camponeses os observavam com desconfiança e medo, porque a experiência lhes ensinara que somente gente perigosa viajava, ou seja, soldados, mercenários e traficantes de escravos. Naquele caso, em meio a tanta dúvida e maledicência, os homens de confiança do rei tinham outra missão, muito mais nobre para a época, eles procuravam livros por ordem de sua majestade. Esses usavam a enorme vantagem de seu poder absoluto para enriquecer sua coleção. O que não podiam comprar, confiscavam. Se fosse preciso fatiar pescoços dariam tal ordem justificando que o esplendor do país era mais importante que os pequenos escrúpulos. Na época daquele grande projeto alexandrino, não existia nada parecido com o comércio internacional de livros. O Senhor das Duas Terras, um dos homens mais poderosos da época, daria a vida (a dos outros é claro; com os Reis sempre foi assim) para reunir todos os livros do mundo em sua Grande Biblioteca de Alexandria. Ele perseguia o sonho de construir uma biblioteca absoluta e perfeita, a coleção que conteria todas as obras de todos os autores desde o princípio dos tempos.

    Esses objetos especiais nos levam ao ponto de partida e ao coração agitado pelo evento da primeira leitura, como definiu Marguerite Duras, passando o infinito ao futuro do pretérito e depois ao subjuntivo, como se sentisse o solo rachando sob seus pés.

    Nada mais humano do que flutuar pensamentos de divagam em nossas redes neurais mais agitadas. O que nos vale ter em mãos é a sensação de que se no ano passado morremos, no atual estamos bem vivos.

  • Consciência econômica

    Não tenho mais medo do futuro. Minha mulher sempre me falou para curtir o presente, que “a vida é o agora!”. Mas, filho de um pai escrupuloso, tive a tendência de seguir os seus passos seguros. Criado por ele, devia ter uma “consciência econômica” – esta frase ecoa ainda hoje – quanto aos gastos, inclusive com a alimentação. Não se podia tomar mais de dois copos de café por dia.

    Não se podia comer mais de um pão francês. Tudo era racionado, fracionado, e nos regalávamos de migalhas. Havia momentos, claro, em que ele não estava em casa, e eu comia um pouco mais de açúcar, com o maior prazer do mundo, porque um adolescente em crescimento, hoje eu sei, precisa se alimentar muito bem – e fui privado disso, pela bendita consciência econômica de um pai contador, alucinado por números.

    Meu pobre pai faleceu na pandemia, aos setenta e cinco anos, e mal aproveitou a aposentadoria. Um fato inusitado é que encontrei, um dia depois de sua morte, ao arrumar a casa com a Gerusa, a antiga empregada, embaixo de sua cama, um monte de dinheiro vivo, inclusive dinheiro que nem valia mais, como cruzeiros-novos. Era absurdamente uma cena que só se ouve falar ou se vê em filme.

    Nessa brincadeira, ele deixou uma herança monstruosa de quase meio milhão – havia, ainda, seis contas em bancos, e eu não imagino o porquê; perguntei a alguns gerentes se ele movimentava, e a resposta era quase óbvia: “Não!”. Poderia ter usufruído. Poderia ter viajado, comprado um carro bom, mas tudo para ele era seguir a régua da “simplicidade”.

    Tinha um carro velhinho, bem cuidado, é verdade, mas muito fora de moda, com pelo menos vinte anos de uso. Seguir a trilha do meu pai me fez, por muito tempo, um homem nervoso, preocupado e irritadiço. Lembro-me, por exemplo, de jantar muitas vezes banana na faculdade, com medo de acabar o reles dinheiro que meu pai me dava todos os dias, como se fossem dez reais. Lanna, minha esposa, foi quem me tirou desse perrengue eterno. Ela não suporta avareza. E eu, apaixonado, tive de segui-la – de início foi muito doloroso. Fui abraçando (e sendo abraçado) e me libertando.

    A imagem de meu amado pai passou a ficar escassa, jamais esquecida. Até os vinte e sete anos, data em que conheci a minha mulher, me sentia extremamente reprimido – exatamente quando foi lançada aquela música homônima dos Menudos. Nós ríamos disso; ainda hoje ela canta quando dou sinais de pão-durismo. Hoje, com a pequena bolada do meu pai, ao invés de investir em imóveis, como boa parte das pessoas faz, invisto no meu tempo de qualidade, com meus filhos e minha esposa.

    Amamos Buenos Aires, então viajamos regularmente para passarmos as “vacaciones”. Quem dera pudesse ter levado meu pai a Buenos Aires. Ele amava Carlos Gardel. Queria ter proporcionado a ele uma vida de alforria – embora, é bem verdade, ele pudesse tê-lo feito por si próprio.

  • Você sacrificaria o próprio cão por ele ser agressivo?

    Foi o que fez o ator americano Max Emerson, de 37 anos, ao autorizar a eutanásia de seu cão, Sarge, depois de ser mordido no rosto e precisar levar pontos. A decisão veio acompanhada de justificativas públicas no Instagram. Ele afirmou que já não havia como reverter o comportamento do animal e que, desde filhote, Sarge apresentava sinais de reatividade, sobretudo nas interações com outros cães.

    Disse que tentou adestramento, que conversou com veterinários e que, após explorar todas as opções, concluiu que “a coisa mais humana” a fazer por Sarge seria pôr fim à sua vida.

    Li o máximo que pude sobre o caso para tentar construir um argumento minimamente defensável para Max. Não consegui. Torna-se difícil respeitar e sustentar sua decisão com base em alegações tão frágeis, ainda que eu compreenda a frustração e a angústia de quem não consegue conviver com o próprio cão — um animal que, pelas imagens divulgadas, era tratado com carinho e afeto.

    É evidente que nem todas as alternativas foram exploradas.

    Já estive diante de casos extremos. Cães de grande porte, com histórico de ataques, como um rottweiler que me marcou pelo risco real que representava. Depois de tentativas frustradas de adaptação com seus donos, a solução não foi a morte, mas a mudança. Concordamos que encontrar alguém com perfil, experiência e condições adequadas para adotá-lo seria o melhor caminho. O cão não apenas encontrou equilíbrio como nunca mais apresentou episódios de agressão.

    Sacrificar um cão é uma medida extrema. Deve ser considerada apenas quando não há mais o que fazer, quando o animal já não tem qualquer possibilidade de recuperação ou de sobrevivência digna. Estatisticamente, a eutanásia é mais frequente em casos de câncer terminal e sofrimento irreversível.

    Na minha opinião, esse caso revela um cenário em que a fragilidade humana cede lugar a decisões precipitadas. Há um fenômeno contemporâneo que vem alterando profundamente a relação entre cães e humanos. Casos como esse tornam-se mais frequentes. De um lado, a desinformação; de outro, o ativismo ideológico. Desde que os cães passaram a ocupar lugar de destaque dentro das nossas casas, o romantismo passou a se sobrepor à realidade. Criar, educar e treinar são dimensões complementares, mas distintas.

    Quando falo em desinformação, refiro-me à pressão social para que tratemos cães sob um prisma exclusivamente humano. Não é permitir que o cão suba ao sofá que o humaniza. Isso, por si só, não significa nada. Mas, sem critérios claros, pequenas concessões podem abrir espaço para conflitos. Deixar o cão deitar na cama não é o problema; o problema é não estabelecer regras claras de convivência e hierárquica dentro da própria casa.

    A primeira regra de uma boa convivência é construir um padrão de confiança, segurança, intimidade e autoridade. Há quem defenda que não existe dominância na relação entre cães e humanos. Essa negação, sim, é um passo decisivo rumo à humanização ingênua.

    Desde sempre, em qualquer grupo social, há hierarquias. Se o humano abdica de seu papel de autoridade, é natural que o cão, com suas próprias habilidades e instintos, tente ocupar esse espaço.

    No caso do ator, pelos próprios relatos, a escolha foi pela saída mais rápida. E, talvez por isso mesmo, a mais previsivelmente humana.

    Não faltou a Max Emerson amou ao seu cão, faltou entender como gerar intimidade sem perder o controle das coisas.

  • Poema #58: Passagem das horas

    Fica de nós este resíduo
    do que ainda não fomos.
    Este abismo a se superar
    e uma certa disponibilidade.
    Fica esta in/compreensão mútua
    e a dificuldade em se comunicar.

    Fica de nós este fragmento
    do que ainda podemos ser.
    Este relacionamento a se elaborar
    e uma parcela de interesse recíproco.
    Fica esta identificação de caráter simultâneo
    e o desejo de que tudo não se perca.

    Fica de nós este sentimento reticente
    ainda não de todo vivido/compartilhado.
    este completo des/conhecimento do outro
    e uma necessidade de maior diálogo.
    Fica esta in/definição de objetivos comuns
    e o sentido da procura.

    Fica de nós este silêncio inédito
    devido ao medo em acreditar.
    Esta complexa/frágil vontade
    de querer sobrepor-nos negando a intuição.
    Fica este receio de se expor e viver o espontâneo
    e o que isto nos tem custado.

    Fica de nós esta intransigência
    e a falta de coragem para admitir.
    Este impulso em dizer coisas secretas
    e a sensação de ferir dizendo.
    Fica esta recusa em se confessar
    em defesa de uma estúpida integridade.

    Fica de nós esta passividade
    e o distanciamento decorrente dela.
    Este eterno ficar na espera sonhando
    e o recolhimento implícito que nega.
    Fica este gostar que desconhece convenções
    e o raciocínio estragando tudo.

    O Acaso das Manhãs

  • Beiça

    Beiça era o apelido de César Albuquerque Valladares.  

    Vestia-se como tivesse sido arrumado pela mãe para ir à escola, mesmo com quase cinquenta anos de idade, mas de sua boca qualquer narrativa sobre problemas do cotidiano ganhava uma dimensão épica e fazia quem estivesse por perto pensar e muitas vezes ter vergonha de si mesmo em algum aspecto.

    À primeira vista, parecia ter saído de um retrato de família de 1890.  

    Era designer gráfico. 

    Trabalhava em casa e bem, mas não gastava muito de seu tempo trabalhando. O fazia para as despesas corriqueiras e saía aleatoriamente pela cidade durante o dia, sem uma rotina fixa.

    Era vizinho de Zimi, baterista da banda Crop Circles, no bairro da Liberdade, perto da estação de metrô.

    Viviam no lugar que, segundo eles, mais se aproximava do que um dia foi o Chelsea Hotel, antes de se tornar icônico.  

    Um totem sagrado em meio ao caos diurno e o abandono noturno da região central da cidade.

    Era sagrado apenas para eles, na verdade.

    Zími o conheceu porque frequentavam diariamente a mesma padaria.

    Um dia, Beiça havia bebido durante um jogo de futebol que era transmitido na televisão da padaria e na sequência de um comentário sobre a partida, emendou uma ideia sobre como o que o rebanho mais odeia em quem pensa diferente não é a opinião divergente em si, mas a audácia de querer pensar por si mesmo, sendo essa uma atividade para a qual esse rebanho é inapto.

    Dizia que “a parte das massas sem educação e cultura prefere fazer merda a vida toda do que aprender a fazer o correto, da forma correta. 

    Negam-se a aprender por um tipo de orgulho, e uma estranha repulsa a mudar de opinião, onde a mácula, na cabeça dessa gente, é abrir mão de uma convicção burra e admitir o equívoco, implantado por intuição deficiente, falta de informação, ou por informação falsa.”

    Um dia, na véspera do show do Renaissance e do Curved Air, em São Paulo, Zími  lamentava a falta de dinheiro para esse rolê.

    Tinha pago o aluguel três dias antes, e embora estivesse acostumado à falta de dinheiro nos dias que sucedem o pagamento do aluguel, perder esses shows seria triste.

    Mas Beiça, que tinha em seu quarto um poster da Annie Haslam, mas também não tinha dinheiro para o ingresso, entrou em ação.

    Foram de metrô até os arredores da casa de show, chegando duas horas antes do início, e tendo combinado entre eles no caminho que seria necessário algum teatro, que ficaria a cargo de Beiça, enquanto Zími apenas acompanharia quieto ou falaria o mínimo possível.

    Logicamente, a nata do público alvo tinha meia idade e aparentemente, boa condição financeira.

    Beiça, próximo da bilheteria, simulava uma conversa ao celular, enquanto Zími, ao seu lado apenas ouvia e observava até onde ele poderia chegar.

    Toda vez que alguém, mas de preferência um grupo de pessoas se aproximava para entrar na casa, Beiça se desesperava ao celular, dizendo para alguém que não estava do outro lado, que ele havia esquecido os ingressos em casa.

    Haviam chegado ao consenso, ainda no metrô, que as chances de sucesso na operação eram pequenas, mas ao menos tentariam algo em nome da apreciação de arte.

    Mas não demorou muito, nem foram necessárias muitas tentativas, até que uma família chegou com um ingresso a mais, e um rapaz entre eles abriu mão do ingresso e partiu para outro rolê, pois não tinha interesse no show, e nem ao menos sabia do que se tratava.

    Assim, os dois conseguiram assistir aos shows, lembrando que vinte anos, o Renaissance já era visto nos sebos e feiras de discos com seus álbuns clássicos estampando o que para eles era algo de uma nostalgia que havia muito tempo já era antiga.

    Um evento de valor sentimental inestimável para Zími e Beiça, e que já havia sido adiado pela pandemia. 

    Parecia algo que nunca aconteceria.

    Entraram e logo se separaram, se encontrando novamente apenas na tarde do dia seguinte, na padaria, quando a conversa sobre a noite anterior consumiria a noite seguinte.

    Beiça sempre mencionava que continuava a fazer tudo o que fazia quando jovem, mas que a recuperação física agora era mais penosa.

    Nessas horas, encontrava conforto espiritual trabalhando em seu computador e ganhando o dinheiro do mês seguinte até que estivesse saudável e disposto para começar a gastá-lo com algum critério.

    Para Zími,  cuja cara ostentava as marcas de muitas batalhas perdidas, e que viu aos onze anos o pai ser preso em casa, de pijama, numa manhã em que se preparava para ir à escola, e se tornou músico do underground que se sustenta com biscates, Beiça era um folclórico pregador de utopias permeadas de realismo, mas autônomo e até certo ponto, divertido, e que destoava um pouco em uma sociedade que busca formar apenas consumidores sem alma.

    Estavam de olho na mesma mulher, uma garçonete da padaria que frequentavam, mas não havia rivalidade agressiva, pois nenhum dos dois a havia chamado para uma abordagem mais franca sobre o assunto.

    Coexistiam num mundo em que pareciam ser expectadores de um espetáculo deprimente, em que quase todas as outras pessoas estavam num palco, em que triunfam as nulidades e onde a virtude é motivo de piada.

    Viviam um dia de cada vez, pois sabiam que fenômenos naturais muito mais fortes que a humanidade, e que chegam através de ambientalistas sérios que não são ouvidos podem destroçar planos futuros que não correspondam às imposições da natureza.

    Cada um ao seu modo passou pelo período agudo da pandemia sem terem suas rotinas muito abaladas, pois antes dela já não almejavam superar limites humanos de consumo ou comportamentais.

    E no fim de cada dia, podiam olhar de cima, cada um de sua janela, a cidade em repouso, se preparando para um possível novo amanhecer, cheio de caos, correria e baixa qualidade de vida, no espetáculo humano oferecido pela multidão nas ruas do centro paulistano, em que todos são coadjuvantes escravizados sem nem ao menos saberem disso.

  • Beijos

    Em Belo Horizonte, foliões reclamam: beija-se muito pouco no carnaval atual. Mulheres solteiras, gays, homens desempregados no “mapa da fome do amor” – todos declaram urgência no coração. Não dá para se iludir: você pode sambar na ponta do pé no Bainas Ozadas, curtir a vibe romântica e antiga do beiço do Wando, se jogar no Bloco da Calixto ou sensualizar na Corte Devassa. Mas passar um carnaval sem beijo algum é como um feriado tão guardado cair num domingo sem graça.

    Há beijos de vários tipos. Algumas mulheres, fazendo charme, premiam o folião corajoso – ou pela cantada ensaiada no espelho – com uma bitoquinha, um selinho, um toque fugaz de lábios. Outro é o beijo de língua ardente, intenso mas efêmero: o rapaz fecha os olhos em paixão, mas logo se desvencilha e volta pro bloco. Os mais ousados trocam Instagram, telefone, combinam um depois – que pode rolar ou virar ghost. Afinal, o que vale mais: o beijo ou o flerte? O beijo tem gosto de sedução, adrenalina misturada a música, alegria e muita fantasia.

    Ah, e tem o beijo transgressor: de padre fantasiado, homem de freira, Homem-Aranha ou  Mulher-Maravilha. Estamos beijando a pessoa ou a imaginação solta na folia?

    Mas os beijos escasseiam entre pierrots e colombinas, virando desespero. Gays exigem corpo perfeito e status; mulheres solteiras dizem “não há homem no mercado”; homens reclamam do “jogo duro”. Culpa da pandemia: o Covid trancou o mundo, e desaprendemos o outro. Celular virou melhor amigo – home office, família no Zoom, sexo por câmera. Na volta da folia, ficamos virtuais demais, sérios, até caretas.

    Agora, os memes do “placar de beijo” capturam isso genial: foliões desfilam com cartazes irônicos como “Beijos: zero de dez” ou “Meta diária: um (falhou)“, zombando da escassez romântica pós-pandemia em BH e SP – placas de “Beijômetro: menos dois” ou desafios virais no Instagram, como a jovem com “valores” pra beijo, virando hit na folia mineira.

    Pra reacender, pensemos em Auguste Rodin, o escultor que eternizou o beijo em mármore: em “O Beijo”, um casal nu se entrega num êxtase fluido, esculpido num bloco único, exposto no Musée Rodin – desejo proibido em pedra. Ou  “A Catedral”, mãos entrelaçadas em tensão erótica, quase se tocando. Contrastando com nosso “placar zero”, Rodin sussurra: o beijo verdadeiro é marmóreo, eterno, não um like esquecido.

    Há um lado bom: se tanta gente reclama, é sinal que clamamos pela volta do beijo na boca – na folia e depois. Juntos, chegamos lá. Um bom beijo na boca ainda é santo remédio pros dissabores da vida.

  • Poema #03: Em branco

  • De quando não havia internet

    Você sabia que já existiu uma vida completamente diferente da que temos hoje sem internet? Sim, conseguíamos viver sem internet!

    O telefone servia simplesmente para que pudéssemos falar com alguém! Falar de fato! Falar diretamente com alguém! Estranho falar com alguém hoje pelo celular! Muitos preferem os intermináveis áudios ou a já consagrada mensagem de texto!

    Tudo hoje é urgente! A resposta precisa ser imediata! Caso contrário, pode acontecer a terceira guerra mundial!

    Antes, a gente esperava e tinha que esperar de qualquer jeito! Exercitávamos a paciência! Escrever uma carta e esperar semanas ou meses pela resposta! Esperar aquela revista incrível chegar nas bancas para ler as novidades! Acompanhar o ritual da compra do jornal do final de semana e ler os vários cadernos sossegadamente! Pacientemente!

    Tudo hoje é urgente! Você marca uma coisa e depois de uns dez minutos, desmarca e torna a marcar e, por fim, o encontro, a reunião e a ida ao cinema acabam não acontecendo.

    Antes, se marcássemos alguma coisa, palavra dada, a presença era certa, a menos que, a terceira guerra mundial tivesse começado literalmente e impedisse alguém de ir ao local combinado! Simples assim!

    Tudo hoje é urgente! Falar com pressa! Amar com pressa! Assistir alguma coisa, com os olhos na tela do celular, com muita pressa!

    Antes, ficávamos sentados com os amigos em uma calçada conversando e rindo horas e horas sobre os mais variados assuntos!

    Tudo hoje é urgente! O tempo é dividido e subdividido para que todos os segundos sejam ocupados com alguma coisa! Na maioria das vezes, esse precioso tempo é gasto com horas e horas rolando a bendita tela do celular!

    Antes, ficávamos horas sem fazer nada! E isso era bom! Na verdade, era ótimo! Sabe a ideia do ócio criativo?

    Voltando ao telefone… Ah! Que saudade do chamado orelhão! Sim, orelhão! Uma cabine pública em que qualquer pessoa com as desejadas fichas poderia falar com outra! Colocava-se uma ficha atrás da outra para conseguir falar! Cada ficha representava um pouquinho de tempo (eu não vou lembrar agora exatamente quanto tempo, o que sei é que se fosse uma conversa mais longa, você deveria comprar muitas, muitas fichas…)

    E o ritual da música? Pegar um álbum (o chamado LP – Long Play) e curtir a capa, o encarte com as letras, as fotos… Ouvir o lado A, geralmente mais comercial, e ouvir o lado B, geralmente mais conceitual… Aguardar o próximo álbum sair em alguns meses ou anos! Esperar!

    E aqui fica mais evidente a crítica a estes tempos, a falta de espera! A impaciência, a correria e a urgência destruíram o importante e necessário processo das coisas e das gentes!

    O humano precisa esperar!

    É o tempo pra maturar os sentimentos, os olhares, os gostos, as conquistas e os fracassos, os compassos e as histórias.

    A nossa história é toda ela feita de esperas!

    Quando não respeitamos o tempo de tudo, somos atropelados!

    Tudo hoje é frenético, performance, lacração, engajamento…

    Antes, era a própria vida nas suas insinuações e contradições!

  • Pé ante [o sisal e a sombra do outro] pé

    Um vulto de cerca um metro e vinte e cinco se esquiva por trás da cadeira de balanço. Gabriel move um pé depois do outro, tentando elevar seu peso acima dos ombros. Primeiro, o indicador do pé esquerdo toca o assoalho de madeira, um marrom rosado escurecido pelos anos. Pisa com cautela para evitar o rangido. Quase não respira. Sua avó, sentada à cadeira, move apenas as mãos. Faz crochê. Há semanas se senta ali para tricotar não se sabe o quê. Faz algo, desmancha. Ao final do dia, quando a luz externa abandona o recinto, ela recolhe as agulhas, estica as pernas, boceja e se levanta devagar. São quatro e treze da tarde. Não vai demorar muito.

    Gabriel continua seus passos lentos e desoxigenados. Um beija-flor entra pela janela e flana um pouco por sobre a Costela-de-Adão, próxima à cortina em linhão branco, recolhida ao vértice da esquadria com a parede vizinha. O pássaro não causa sequer curiosidade à avó, mas o menino quase se faz perceber através de um vocalize. O peito se enche num impulso que retém o pé direito no ar e fica ali, suspenso. Um som redondo começa a subir pela garganta, mas é engolido no momento em que o pássaro faz o percurso contrário, retornando ao pátio. Na sala, apenas o barulho do atrito das agulhas e do pêndulo do cuco antigo, nada apressado.

    Minutos depois, Gabriel está quase em frente a sua avó. Fica ali, alguns metros de distância, a observá-la. Os olhos dela descansam sobre o vai-e-vem das mãos, mas não parecem presentes. São duas jabuticabas dentro de ostras velhas, semiabertas: abrem-se pouco e devagar, deixando entrever o brilho castanho que ainda existe num corpo de mais de oitenta primaveras. Mesmo sem grandes distrações no recinto, tudo além do conteúdo daquela cadeira parece se desfazer. O canto superior dos lábios de Gabriel levanta-se. O neto tem todos os olhares fixos na avó. Suas mãos brincam de mímica, espelhando gerações. A sombra da araucária cresce dentro da sala. De soslaio, ele foca o relógio, dá um último e contido meio suspiro em direção à avó, registrando na memória cada dobra da pele, cada curva dos cabelos grisalhos, cada detalhe do macacão preto de pequenas flores rosas que ela veste. Setenta anos separam uma vida da outra, e são o fio que as liga.

    Quando a sombra alcança o sisal, Gabriel veste seu peso corporal como quem coloca uma mochila e retoma o caminho às avessas, pé ante pé. Sua expressão é outra. “Vovó ainda está aqui”, reverbera em seus pensamentos de criança. Ao quase posicionar-se na porta de seu quarto, o piso de peroba rosa denuncia-o. A cabeça da avó levanta, percebe-se o ondular das madeixas gris. Ela recolhe as agulhas, estica as pernas e boceja. Olha para o negativo dançante de sua árvore favorita, no limiar do grosso do tecido e do liso do piso.

    — Gabriel?

    Sem mover as pernas, a esquerda novamente no ar, o menino leva a mão em concha à boca, como quem finge estar dentro do quarto.

    — Sim, vovó.

    — Que tal uma história?

    O menino instantaneamente corre até a avó, abraçando-a pela cintura ainda encostada à palha do encosto da cadeira. Diz, quando do encontro entre suas castanhas pupilas com as pérolas negras da avó:

    — Me conta de novo como você e o vovô Gomes se conheceram?

  • Agora eu era herói

    Quando eu era criança, deixava-me levar pela fantasia de ser um super herói que tudo podia. Mas, ao contrário do Batman, não agia apenas no combate aos folclóricos criminosos de Gotham City. Minha área de atuação era mais abrangente. Ocupava o cargo de presidente, ou talvez imperador, do Brasil. Não, do mundo! Pois as fronteiras nacionais não seriam suficientes para barrar meu desejo infinito de servir a cada um dos habitantes, até os das regiões mais remotas e inóspitas do planeta. E não havia nada nem ninguém que pudesse limitar meu poder absoluto nem minha disposição de cumprir esse desígnio.

    Mas, isso não me fazia um ditador autocrático. Governava em sintonia com o que pensava a maioria das pessoas ou, pelo menos, aquelas ‘de bem’, as que, como eu, ansiavam por um mundo melhor para se viver.

    Um compromisso firmado entre mim, minha imaginação e o resto da humanidade estabelecera que jamais faria uso de minha condição de liderança para punir quem discordasse de minhas iniciativas nem cogitaria em calar meus criticos, sobretudo os bem intencionados, merecedores de todo o respeito.

    Capitanearia eu uma legião de subordinados (ou melhor, colaboradores) que cuidariam de manter a paz e a harmonia social, sem precisar ferir ninguém, nem usar armas letais. Sua função seria apenas a de colocar em prática determinações cujo propósito era tornar todos mais felizes.

    Eu firmara um contrato juramentado em que constava uma declaração de que eu jamais valeria de minha posição de liderança para me locupletar ou obter benesses, já que não seria movido por ambições pessoais. Meu objetivo era apenas o de consertar o que estava errado para bem da coletividade. 

    A compensação que me bastava para esse árduo trabalho voluntário era a de ser amado pelo povo por tornar nosso mundinho comum um lugar mais agradável de se habitar, para mim e todos os demais seres humanos, a quem, indistintamente considerava entes queridos. Não esquecendo dos demais seres viventes, animais e plantas.

     No meu mundo, o sofrimento, ao menos aquele causado por outros seres humanos, seria banido da face da Terra e todos levariam uma vida digna sem privações.

    Os super ricos, movidos por inaceitáveis impulsos de ambição, seriam contidos em seu furor cumulativo por regras que impedissem abusos,  para que os demais tivessem direito a seu quinhão.

    Os policiais deveriam ser corretos e prestativos, sem deixar de combater o crime com rigor. Os homens maus iriam para a cadeia e cumpririam a sentença integralmente. Os reincidentes teriam  severas sanções. Nada de condescendência com os mal intencionados.

    Os delegados e juízes corruptos ou que saíssem da linha, seriam sumariamente afastados, sem quaisquer honorários. Tais cargos seriam ocupados por homens e mulheres íntegros com salários dignos mas modestos, sem penduricalhos. A justiça seria rápida e eficaz, regida por um enxuto conjunto de leis que todos entendessem.

    Cessariam também os benefícios concedidos a políticos, cujos vencimentos seriam compatíveis com os da população em geral, sem mordomias e auxílios indiretos. Quem escolhesse a vida pública, o faria por vocação sem possibilidade de usufruir materialmente de sua posição. 

    A melhor remuneração seria a do professor, a função mais nobre da comunidade, a de formar através da educação de qualidade, cidadãos éticos, responsáveis social e ambientalmente. 

    No plano internacional,  um simples decreto mundial poria fim em todas guerras e conflitos. As divergências seriam resolvidas civilizadamente, em torno de uma mesa de negociação. As demandas e divergências seriam apreciadas por equipes competentes e imparciais com poder decisório. 

    A miséria e a fome, como num passe de mágica, seriam extintas. Alcançar isso é muito mais fácil do que parece.  Bastaria redirecionar os recursos orçamentários antes desperdiçados em inúteis armamentos, destinando-os a melhorar a saúde, a educação e promover a melhoria na qualidade de vida.

    Enfim, tudo o que o senso comum reconhece como desejável, seria implementado com a força de minha varinha de condão  aliás, minha caneta justiceira. 

    Essa carta de intenções, submetida às pessoas de todas as nacionalidades, raças e religiões, certamente seria aprovada com louvor pois atenderia ao clamor universal.

    No fundo, o que eu propunha era o que todo mundo queria. “É tudo tão simples. Por que os adultos complicam tanto?” pensava eu. Se me colocassem lá em cima e me dessem condições, eu me comprometeria a realizar  tudo isso… e muito mais.

    Na minha inocente onipotência, não  compreendia por que ações tão óbvias, aparentemente consensuais, enfrentam tanta resistência.

    À  medida que fui galgando na idade e no conhecimento de como as coisas funcionam, tomei um choque de realidade, passei a devanear cada vez menos e tomei consciência de minha insignificância ante a tarefa hercúlea a que me propusera e da incapacidade de mudar mesmo as coisas mais banais e próximas.

    Hoje,  quando vejo tantas inexplicáveis brutalidades sendo cometidas ao meu redor, invoco com saudade o super herói aposentado que, empoderado pelos sonhos de uma criança, acreditou que podia transformar um mundo dominado por um bando de adultos sem graça.  

  • 10 para 14

    Se você é um dos seis leitores que caridosamente escolhem ler o que eu escrevo às sextas-feiras aqui nesse nobre espaço saiba que, hoje, 27 de fevereiro de 2026, faltam 10 para 14.

    10 dias para minhas filhas completarem 14 anos. (Suspiro, sorrio e continuo.)

    14 anos… Que aventura!

    Pintam os cabelos. Pintam as unhas. Pintam os olhos. Pintam o caneco. Mas não quebram a louça.

    Se vestem de preto. Usam coturno. Amam blusinhas. E adoram chaveiros de K-pop.

    Se xingam. Se amam. Se riem. Se conversam. Se encantam. Se fofocam. Se protegem.

    Andam de mãos dadas na rua.

    Olham cada uma para um lado. Mas atravessam na faixa.

    Sonham acordadas. Voam pela Liberdade. Se enroscam nos meandros da galeria Sogo.

    Conhecem tudo como a palma das mãos.

    São curiosas. São entediadas. São impacientes. São presentes. Mesmo de fone de ouvido.

    Questionam. Respondem. Afirmam. Teorizam. Reafirmam. Defendem. Atacam.

    Concluem.

    Sempre tem razão mas amam saber mais.

    Têm certeza que são, que estão e que serão.

    E nisso tudo eu, o espectador privilegiado, sorrio e aperto os olhos espremendo uma lágrima pequena em nome da mais pura contemplação.

  • Lição

    Antes de sair, ouviu as recomendações da mulher: “Não beba muito, não se afaste dos amigos, não entre em bloco de mal-encarados… E sobretudo não se meta com nenhuma periguete” — arrematou ela com um sorriso entre malicioso e repreensivo.

    — Tudo bem… Não vou fazer nada disso.

    Lá fora, a turma o esperava para cair na folia. Etiquetou um beijo nos lábios da mulher e, saltitante, deixou a casa. Com os amigos, sentia-se mais animado. Iriam não se sabia para onde, pois no Carnaval ninguém tem rumo certo. Seguiriam os blocos, parando vez por outra para entrar nos bares. Sempre se encontravam por essa época e aproveitavam para matar as saudades. A turma era de velho conhecidos e havia muito o que lembrar.

    Passou o tempo em que eles se permitiam loucuras numa ocasião como essa, mas ainda assim era bom estar juntos. Divertiam-se falando das estripulias de anos atrás: “O dia em que Pedrinho vestiu calcinha em vez de cueca e mostrou pra rodo o mundo…”; “E quando Lopes, de tão bêbado, entrou no banheiro das mulheres… Lembra?”.

    Ao embalo da conversa, ele começou a esquecer o que a mulher lhe pedira. Bebia além da conta. Também, ela era meio exagerada! Mantinha-o na regra o ano todo. Que custava no Carnaval dar uma relaxada? Pediu outra caipirinha, ao mesmo tempo que recitava para os outros a sua máxima preferida: “A noite é criança”. Nunca entendeu bem a lógica dessa frase, que lhe soava como uma justificativa para os excessos. Era o “carpe diem” dos boêmios, alguma coisa como: “é preciso aproveitar a vida, e a vida está na noite”.

    Vinha um bloco. Ele começou a tamborilar na mesa, depois ficou em pé e se pôs a pular. Não resistia ao apelo da música e dos corpos que se comprimiam dentro do cordão. Tanto é assim que aproveitou o pretexto de ir ao banheiro e se deixou levar pela turba. Aderia à festa com uma inexplicável ânsia de fugir, perder-se, romper as amarras.

    Quando os amigos deram pela sua falta, ele já havia enlaçado uma morena de bustiê e saia curta que pareceu lhe dar bola. Pelo menos foi isso que o atordoamento do álcool o fez supor. Só percebeu que se enganara quando, ao tentar dar um abraço na garota, sentiu nas costas uma pancada aguda. Ao se virar, levou no rosto um soco que o faria cambalear se houvesse espaço para isso. Nunca soube como conseguiu se desvencilhar da massa e voltar à mesa, onde os amigos o esperavam com ar preocupado.  

    — Onde você estava, cara? E o que foi isso no seu rosto? 

    — Nada — respondeu, estranhamente sóbrio. — Um sujeito, em vez de acertar a baqueta no tambor, acertou na minha cara.

    — A gente já estava pensando como ia dizer a Leonor que você sumiu.

    Leonor era a sua mulher. Se ele demorasse mais, certamente teriam tido a ideia de ligar para ela. A mulher ia então querer saber por que ele não seguira suas recomendações. E o diabo é que ela estava com a razão! Passou a mão no rosto, que ainda doía, e pediu mais uma dose. Queria se embriagar de novo, e dessa vez não haveria bloco que o levasse dali.

  • Somos filhos da rua e da noite

    O Zé Preto se acomodou, ajeitando o cobertor. O Espanhol deu um puxão:

    — Esse cobertor é meu.

    O Zé Preto empurrou o outro com a bunda. Riram.

    — Vai tomar no “cu” — um disse para o outro. E riram.

    Passou um carro numa poça e jogou água nos dois.

    — Vai se foder — o Espanhol gritou, se levantou e ficou esbracejando contra o carro, que já tinha virado a esquina da rua Brás Cubas. O Zé Preto correu pegar uma pedra. O Espanhol avançou contra ele com uma barra de concreto na mão.

    — Esse carro —, explicou o Zé Preto.

    — Ia me dar uma pedrada? — disse o Espanhol.

    Saiu uma leva de gente da boate Estrela do Oriente para ver os dois amigos se estranhando.

    — Nós somos filhos da rua e da noite — disse o Espanhol, que era preto como o Zé Preto. Por isso os dois se voltaram para os homens e as mulheres do cais, e sorriram.

    Mas, quando o Espanhol se virou para deitar, o Zé Preto viu aquele porrete na mão dele e pegou outro para se defender.

    — Calma, cara, nós somos irmãos — disse o Espanhol.

    Nisso, a Cida Vermelha saiu da boate correndo atrás de um cliente, que entrou no carro e acendeu a luz.

    O Zé Preto, cego, brandiu o porrete. Acertou o ombro do Espanhol, que correu de encontro ao Zé Preto, abraçando-o. Os dois caíram no chão abraçados.

    — Apaga a porra dessa luz, gritou o Zé Preto. A Cida Vermelha ainda viu o Espanhol erguer o porrete com as mãos ensanguentadas.

    — Meu sangue — disse o Zé Preto.

    — Meu sangue — disse o Espanhol, e deu uma porretada.

    As barras de cimento se ergueram e abaixaram sete vezes. A Cida vermelha viu a cabeça do Espanhol aberta ao meio. Sangue e pus na calçada. O Zé Preto geme ao lado: ainda não está morto.

    — Meus amores — disse a Cida Vermelha, olhando o Zé Preto agonizando abraçado ao amigo morto.

  • O magro, o gordo e o miúdo

    Os três dividiam a cela. Um era alto, magro de olhos pequenos e negros, outro era gordo e de corpo nervoso, o terceiro era miúdo e de pouco espírito. Foram condenados à morte por um tribunal improvisado. Isso era tudo o que sabiam a respeito de seu destino. Nem se preocuparam em ler a sentença, conteúdo já sabido pelos três. Também não lhes disseram quando seria a data fatal. Eles só esperavam, jogando baralho e alguma conversa fora. De vez em quando interrompiam o jogo e apuravam os ouvidos para escutar as vozes e os gritos vindos do pátio, e em seguida o barulho dos tiros. Assim que o silêncio se impunha, eles voltavam às cartas.

    Passou o tempo e a rotina da espera da morte entrou nos ossos dos três como uma febre que os deixava inquietos. Os nervos gritavam, e por pouco não chegaram às agressões físicas. Não seria bom para nenhum deles. Sossegavam depois de uns minutos e logo cada um ia para um canto. O gordo às vezes lambia o reboco da parede em busca de outro sabor que não o da comida rançosa que serviam ou da saliva grossa de tabaco que inundava sua língua. O miúdo estacionava os olhos no muro alto na frente da janela; tinha ouvido falar que um tal Leonardo da Vinci fazia isso quando precisava de inspiração: olhar para um ponto e deixar os olhos esquecidos lá até… O magro escrevia um romance; não num papel, que isso não tinha na cela, nem lápis ou caneta ou giz: escrevia na mente. Construía as frases com cuidado, corrigia, lia os parágrafos em voz alta, comentava o enredo com os companheiros, corrigia de novo. O romance progrediu junto com os dias e as horas e chegou a quase trezentas páginas, duzentas e oitenta e nove em conta certa, com espaço dois entre as linhas e fonte Times New Roman. Bem memorizado, uma noite o magro o leu de uma só vez para os outros dois, que gostaram muito da história.

    Mas que inferno se torna a vida quando a espera brinca com a exasperação! O magro, o mais sensato deles, propõe que os três leiam o livro que escreveu. Foi tanta leitura, que o gordo conseguiu memorizar todas as páginas. Fez correções e sugeriu alterações no rumo do enredo. O autor acatou e corrigiu o original. E teve uma ideia: se algum deles se salvasse da morte, deveria publicar o romance em papel. Os três concordaram que aquela era a melhor história que já tinham lido na vida, e o mundo merecia saber disso. O romance ficou ainda melhor com as leituras e correções seguintes, até o ponto em que, quando vieram buscá-los para a execução, nenhum deles duvidava de que se tratava de uma obra-prima.

    O primeiro a ser levado foi o magro, e era um dia de sol quente; bastou um tiro. Depois foi a vez do gordo, e no dia em que o mataram chovia; foram necessários dois tiros porque o corpo dele era grande e a gordura, espessa. O miúdo e de pouco espírito foi indultado. Saiu da prisão e foi para casa, onde ninguém o esperava. Não se lembrou do romance que o magro tinha escrito. Sua memória, tão rachada quanto o muro em que costumava deitar os olhos, nas longas horas dentro da cela, foi incapaz de reter todas as palavras, todos os parágrafos, todos os capítulos da história. Não se lembrava sequer do fio do enredo. Mas afirmava, para quem quisesse ouvir, que era uma obra-prima, o melhor romance que alguém já escrevera. E repete isso até hoje, trinta anos depois do tempo em que dividiu a cela com o magro de olhos pequenos e negros e com o gordo de corpo nervoso.

  • Mais lúdicos e sutis!

    Na história do Reino Unido, a era vitoriana foi o período do reinado da Rainha Vitória, de Junho de 1837 até sua morte em Janeiro de 1901. 

    Aqueles foram árduos anos para o povo famélico que andava pelas ruas difíceis e vazias. 

    Muitos homens não tinham casa para dormir e se reuniam com outros, em espaços exíguos, para respirar e descansar. 

    A pobreza da época em Londres fazia com que o povo optasse por dormir em caixões do tamanho de seu corpo, caso tivesse como pagar quatro centavos por noite, e ganhavam cobertores feitos de plástico. 

    Se o cidadão tivesse em seu bolso, somente dois centavos, a única opção seria sentar em um banquinho e pendurar-se com os braços, em uma longa corda, que impediria de cair caso adormecesse. 

    A mesma corda segurava outros pobretões esfomeados que tinham tão pouca saúde, quanto dinheiro em seus casacos rasgados.

    De qual lamúria ou incômodo você se compara com aqueles que tentavam sobreviver em tempos onde pouco se tinha, inclusive esperanças?

    Vivemos embriagados com ofertas consumistas e estéticas da última moda, com intenso apego ao valor monetário das vidas que cruzam nas redes sociais ou com os carrões coloridos que se mostram nas esquinas mais limpas, parecendo desfile de Carnaval fora de época.

    A geração da ressaca de dois centavos, assistiu a palavra tornar-se associada ao álcool no século passado. 

    Ela apareceu pela primeira vez no vocabulário inglês no século XIX como uma expressão para descrever negócios inacabados de reuniões, mas foi somente em 1904 que a palavra começou a surgir em referência ao álcool. 

    Na realidade, o significado relacionado ao álcool é um desdobramento de seu conceito anterior, para se referir a negócios ruins ou às consequências de outros eventos.

    Há uma expressão em inglês que diz o seguinte: “he could sleep on a clothesline”, que significa que uma pessoa pode dormir em qualquer lugar. 

    Podendo ser daqueles lugares para passar a noite que a expressão se originou.

    Diferente daquele povo, ao despertar todos os dias, poderíamos ter a mesma sensação de um garoto cigano que vive num vilarejo das colinas da Transilvânia. 

    Que assiste cavalos e carroças descerem a estrada, vacas voltando devagar para o vilarejo no cair da noite, e durante o dia perseguir patos e filhotes.

    Histórias como essas de momentos sanguíneos, merecem consternação, assim como os mais lúdicos e sutis, que nos servem para exercitar a vida entre um respirar e outro.

  • Tempo não é dinheiro

    Mãe: “Meu filho, você está indo pra onde?”

    Filho: “Estou indo pra minha nova casa.”

    Mãe: “Você não tem outra casa! Largue de ser ridículo!”

    Filho: “Eu não tinha, mas agora eu tenho dezoito anos e terei. Vou morar com a minha tia.”

    Mãe: “Com que dinheiro você vai viver?”

    Filho: “Sou copywriter, economizei uma grana, ainda que pouca para os padrões burgueses. E minha tia, que pra mim é como irmã mais velha, já tem o apartamento dela, que será dividido comigo. Além disso, fui aprovado na Federal, e se houver algum futuro pra humanidade, eu terei algum tipo de futuro também.”

    Mãe: ”Seu cretino! Mal agradecido! Hoje é seu aniversário e eu convidei seus amigos pra virem aqui!”

    Filho: “Quem vai trazer a maconha?”

    Mãe: “Vou ligar pro seu pai e contar tudo que você me falou!”

    Filho: “Agora eu não moro mais na casa dele. Já tenho outra. Estava tudo programado desde o ano passado.”

    Mãe: “Você vai morar com aquela maloqueira que não acredita em Deus!”

    Filho: “Se ela acreditasse, eu preferiria continuar morando aqui mesmo. Você e meu pai são cristãos não praticantes. Tem só a parte ruim desse negócio. Não me pergunte qual é a parte boa, porque não tenho essa resposta. Vejo só hipocrisia. Já que acreditam nesse tipo de coisa, deveriam ter medo de estarem sendo observados pra futuramente serem punidos pela série de pecados descritos na cartilha. É que no fim das contas, nem acho que vocês acreditam nisso de verdade.”

    Mãe: “O que eu falo pros seus amigos quando chegarem?”

    Filho: “Não sei. Não combinei nada com ninguém. A não ser com a minha tia. Combinei que mudaria pra lá hoje.”

    Mãe: “Seu maconheiro do inferno!”

    Filho: “Fumar maconha é de menos. Tem um desses aí que você convidou pra vir que toma pico no pé. Ele toma o baque no pé pra mãe dele não descobrir através das veias do braço. De repente você pode presenciar isso hoje.”

    Mãe: “Meu deus! Qual deles?”

    Filho: “Eu não vou cagüetar o cara. Francamente!”

    Mãe: “Imagine você morando com aquela doida da minha irmã! Na verdade, não passa de uma criança também! Mas você é ainda mais pirralho que ela!”

    Filho: “Será uma vida de consumo racional. Nascemos de famílias que nos tiveram sem levar em conta que não há futuro pra espécie humana no planeta.  As gerações anteriores conseguiram foder com tudo de maneira irreversível, e agora estão mortos ou caquéticos, em estado semicomatoso. O mais louco é ver gente fazendo planos de redução de danos para 2050! É de uma bizarrice incrível, mesmo se tratando de governantes.”

    Mãe: ”Por falar nisso, cadê o seu título de eleitor?”

    Filho: “Está aqui comigo, mas só será usado quando eu precisar acertar contas com a justiça eleitoral.”

    Mãe: “Como assim?”

    Filho: “Não sou do tipo que vota. Isso é coisa de corno eleitoral. Aquela gente que sabe que está sendo enganada, e sabe que vai continuar sendo enganada, e não só vai votar novamente como pode até mesmo, em alguns casos, fazer propaganda gratuita pra políticos. Eu não consigo encontrar palavras adequadas pra descrever o quão baixo e vil esse tipo de coisa é.”

    Mãe: “Seu animal! Você precisa estar em dia com a justiça eleitoral pra fazer qualquer coisa relativa à vida em sociedade!”

    Filho: “Eu estarei em dia, ainda que pagando multa pra regularizar a situação. Mas comparecer às urnas e escolher algum daqueles picaretas que ficam piores a cada eleição já é descer baixo demais. Sou antifascista. Tanto a direita como a esquerda cheiram a merda.”

    Mãe: “Você pode simplesmente votar nulo, então!”

    Filho: “Minha escolha é a abstenção e sempre será. Se votar mudasse alguma coisa pra melhor, você pode apostar que não seria permitido. A abstenção do voto não tem nada a ver com abstenção política, embora as massas sejam manipuladas pra interpretar dessa forma, sendo assim cúmplices desse circo de horrores, acionando a máquina que nos esmaga dia após dia. Não votar é uma escolha mais do que legítima em meio à falta de alternativas viáveis que se apresentam historicamente em eleições brasileiras. Todos os candidatos estão sempre comprometidos, antes de mais nada, com a manutenção de um sistema corrupto e perverso que se sobrepõe à individualidade desses candidatos, que por sua vez só se esforçam pra garantir ambições pessoais.”

    Mãe: “Mas eu e seu pai sentiremos a sua falta!”

    Filho: “Não sentirão. Terão mais espaço e menos despesas. Conversaremos através de inúmeros meios de comunicação que existem hoje, e virei visitar vocês, e então nesses dias, logo, lembraremos as razões pelas quais estou saindo. Aí renovaremos a saudade através da vivência de nossas próprias vidas, e então virei visitar novamente, e seguiremos esse ciclo saudável. De qualquer forma, estarei morando na casa de uma parente.”

    Mãe: “Você vai se arrepender! Tem muito o que aprender sobre a vida!”

    Filho: “Uma pequena parte disso eu aprenderei na faculdade, enquanto estiver lá. O resto aprenderei com a convivência humana em várias esferas, e sei muito sobre o quão terrível é essa parte. O resto é relativo a pagar boletos. Pra isso existe o trabalho, que sei que muitas vezes é escravo, como o do meu pai. A escravidão dele tem um agravante, que é o fato dele pensar que é livre. Quanto a mim, sei que liberdade é um conceito muito abrangente, que requer sacrifícios. As brigas por causa de boletos e chateações que ele carrega pra casa são meu sacrifício atual. Nessa próxima fase, uma parte do sacrifício será ter alguns boletos no meu nome. Como trabalho de forma autônoma, não carregarei chateações inerentes à convivência humana forçada no trabalho. A minha tia é suficientemente antissocial para que em casa não tenhamos esse problema. É uma relação que reduzirá nossos problemas com boletos vindouros, e mesmo dentro da mesma casa, cada um estará vivendo a própria vida, compartilhando cultura e bom gosto musical, algo que, convenhamos, não é possível aqui.”

    Mãe: “Nós pagamos a sua escola até hoje!”

    Filho: “É um gasto que faz parte do seu planejamento familiar. Estarei em universidade pública e esse gasto cessou. De qualquer maneira, muito obrigado.”

    Mãe: “E essa camiseta horrorosa? Foi você quem fez a estampa! Você anda assim na rua sem ser tirado de mendigo?”

    Filho: “É que nunca encontrei pra vender uma camiseta do Guided By Voices, essa banda maravilhosa. Conheci através da minha tia, que é sua irmã mais nova e com a qual você nunca aprendeu nada. Por causa da camiseta, eu conheci uma garota mais velha, outro dia, no metrô. Ela me abordou dizendo que gosta da banda. Então por tudo isso, minha tia é a pessoa apropriada pra eu morar junto atualmente. Ela sempre esteve muito à sua frente em qualquer aspecto que possamos abordar. A coleção de discos que ela tem valeu cada centavo que ela diz ter economizado desde que era criança pra comprar. Os livros dela também são foda.”

    Mãe: “Você vai levar só isso?”

    Filho: “Computador, roupas e bicicleta.”

    Mãe: “Sua vida se restringe a isso?”

    Filho: “A vida material, sim. Pelas previsões mais lógicas e pelos alertas feitos por gente séria que nunca é ouvida pelas massas, há coisas muito mais importantes pra se prezar, e muitas consequências vindouras por séculos de devastação pra se preocupar, então esses poucos bens materiais, são suficientes por enquanto. Eu lamento profundamente ser obrigado a confessar que sinto falta de dinheiro, mas levando em conta que tem gente que mata por causa disso, não devo me sentir culpado. Até porque não fui quem inventou essa merda toda.”

    Mãe: “Você é um moleque cheio de soberba!”

    Filho: “Isso é porque você nem imagina quais são meus planos pro futuro!”

    Mãe: “Quais são?”

    Filho: “Ver o mundo acabar, seja da maneira que for, estar presente pra presenciar o fim da farsa da humanidade, vendo o desespero de quem teme por esse momento, e ver o que realmente acontece depois do fim, sem medo, culpa, recompensa ou castigo.” 

  • Enfim, Carnaval…

    Já sei bem que é Carnaval. Os sons da rua anunciam a jornada – repare que até os pássaros são proibidos de cantar, com a arruaça que se desorganiza pelo Centro da cidade. Ronaldo, meu vizinho, saiu cedo, às 5h, e me deu notas de como serão as suas aventuras pelas praias do Ceará. Falou que iria de Beberibe a Paracuru, com os detalhes de ser uma grande viagem em família. Parariam nas praias para curtir um pouco do que tinham para dar. “Sou folião nato, Inojosa, desde que era pequenininho seguia o meu pai nessa trilha!”. Ele sabe que não gosto de festa nem nada, e mesmo assim, por educação, me chamou, num carro lotado com filhos, esposa e bugigangas. Onde já se viu eu participar de um fuá desse?! Coisa de gente maluca! Na verdade, na mente, eu pedia que ele fosse logo e me deixasse em paz – ele conversa pra burro, além do mais. Nem quando Lourdes era viva gostávamos de carnaval. Uma vez ou outra íamos para um bloquinho, mais por ela, e eu fazia a sua vontade. Víamos, no Centro, o passeio das escolas mixurucas daqui, onde os carnavalescos passavam bêbados e desinteressados na beleza. Hoje, me escondo, até mesmo de meus filhos. Eles também não são muito chegados a Carnaval, mas topam ir a uma praia desfrutar, coisa que jamais tenho ânimo de fazer. Carnaval é período de tristeza infernal, não sei bem o porquê. Fico mais depressivo se vejo na televisão o passeio das escolas de samba. A alegria dos outros me incomoda? Não é bem isso, não gosto de ver pessoas mais tristes do que eu; tampouco a felicidade exagerada me atrai. Todo o drama deve ter a ver com o meu pai, que era muito farrista, e minha mãe que ficava em casa chorando, “cuidando” dos filhos, também chorosos por causa da mãe. Era um desastre. Uma lamúria que fazia a minha avó passar os dias de Carnaval enfurnada em nossa casa, para pelo menos fazer a nossa comida, para se preocupar com a casa e com as criancinhas desprotegidas – enquanto minha mãe, como disse, se acabava de chorar; por isso não gosto de pessoas mais tristes do que eu. Ah, sim, deve ser por isso que odeio Carnaval. Não suporto Sapucaí e seus afins. A Bahia, então, tão linda, para mim, no Carnaval, vira o buraco do cão. Por isso eu me circundo, me enclausuro. Mando até Mariana, a minha filhinha mais querida, pastar. Ela veio me pedir para passar este Carnaval com ela, em casa, enquanto o marido se “distraía” em uma praia qualquer – olha a história se repetindo. Cada qual que cuide do seu Carnaval. No meu apartamento não há espaço para som, especialmente no meu quarto, com janelas contra ruídos. Aqui está tudo pronto para o fim. E, assim, deixo o Carnaval passar – simplesmente passar –, como todos os vendavais.

  • Valeu, Mestre Ciça!

    João Pedro é um menino de 9 anos nascido na cidade de Niterói. Como todo garoto, costuma ocupar seu tempo fazendo coisas que outros de sua idade também fazem. Estuda, vai ao colégio, joga videogame, usa seu celular para ver o que acontece nas redes sociais e passar o tempo se distraindo com games.

    O menino sempre acompanhou a paixão de seus pais pela escola de samba de coração, a Viradouro. Os sambas da escola sempre fizeram parte dos churrascos de domingo com sua família. Durante a cerimônia familiar, o garoto sempre ficava se perguntando por qual motivo aqueles que o trouxeram ao mundo amavam tanto esse tipo de música que ele nunca conseguiu gostar.

    No ano de 2026, Pedro sentiu uma euforia além do normal em sua casa, ele via seu pai bradando pelos quatro cantos sua empolgação pelo enredo que homenagearia Mestre Ciça. Até então, o garoto não fazia a mínima ideia de quem se tratava. Resolveu, então, então perguntar a Roberto, seu genitor, que tentou explicar de todas as formas, mas, ainda assim. o garoto não conseguia compreender tamanha empolgação.

    Seu pai, então, resolveu fazer um convite, o chamou para assistir ao desfile da Unidos do Viradouro que aconteceria na madrugada do dia de segunda para terça. Cansado, após fazer muitas coisas ao longo do dia, João dormiu, mas foi acordado no horário por Silvia, sua mãe. Um pouco contrariado, foi ele assistir ao tão aguardado desfile.

    No início, pouco entendeu sobre o que estava acontecendo. No entanto, ao ver a comissão de frente que trazia um garoto com idade semelhante, ele começou a se interessar. Daquele menino, surgiu a figura homenageada içada ao ponto mais alto de um tripé da comissão de frente que parecia visivelmente emocionado ao ser saudado por todo o Brasil. Naquele instante, o garoto entendeu que algo diferente estava acontecendo e passou a assistir vidrado a tudo o que acontecia na avenida.

    Cada figura que aparecia, fazia o curioso Pedro perguntar aos pais de quem se tratava. Desse modo, o menino conseguiu entender o inexplicável. Percebeu que a mágica dos desfiles acontece dentro da avenida. Dali para frente, assim como seus pais, Pedro se tornaria mais um apaixonado pelo samba e quis assistir a todos os desfiles seguintes.

    Nesse texto, o menino João é apenas um nome fictício para representar as milhares de crianças que, assim como o garoto Ciça, se apaixonaram pelo carnaval e pelos desfiles das escolas de samba em algum momento da vida.

    Eu mesmo, sou um deles.

    O sambódromo é um local onde o inimaginável se materializa em forma de emoção e faz a mágica acontecer. Coisa que pouquíssimas experiências conseguem realizar de forma tão eficiente como ocorre no carnaval. Ciça, após a Viradouro ganhar o título, disse que esse não é um título próprio, mas um título que cada sambista e apaixonado pelo carnaval carrega junto com o mestre. Essa frase demonstra um espírito de solidariedade que raramente pode ser vislumbrado em uma sociedade capitalista como a que vivemos. Mais do que nunca, precisamos não só viver o carnaval das escolas de samba, precisamos ser o carnaval das escolas de samba.

    Que mais crianças como João Pedro possam entender a magia dessa festa e que o espírito do carnaval seja proliferado.

    Valeu Viradouro! Valeu Mestre Ciça! E. por último, um valeu especial a todos os sambistas antigos e os novos que ainda surgirão!

  • Poema #57: História Concisa

    Quando em meu peito rebentar-se a
    Que o espírito enlaça à dor vivente”.
      Álvares de Azevedo(1831-1852)

    O poeta dobra a esquina
    com uma sacola de plástico:
    pão, bife de hambúrguer e solidão.
    Não vale a pena chorar por ele:
    se fez as opções erradas,
    se tombou pelo caminho,
    nada fica além do fato
    de um dia ter existido
    e comido aquele sanduíche
    barato.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • In-cels ou In-hells?

    Numa conversa de bar, ouvi, na mesa ao lado, alguém chamar um colega de trabalho de “incel”.

    A palavra me chegou torta. Pensei ter escutado “in céu” — algo estrangeiro mal pronunciado, desses modismos que sobem à cabeça depois do segundo chope.

    Nada disso.

    As amigas se entreolharam com um susto breve — desses que duram menos que a espuma no copo.

    — Justo ele? Bonito, cargo alto, vida ajeitada… um pouco inseguro, talvez. Mas isso?

    — Escuta o que ele anda dizendo — respondeu a outra. — No cafezinho começou a atacar uma colega.

    Disse que as mulheres estão “com poder demais”. Que ela recusou sair com um amigo dele porque o rapaz não é um “Chad”.

    A mesa quase tremeu.

    — Chad?

    Risadas curtas.

    — Esses machos-alfa de fórum. Os eleitos. Os que, segundo eles, monopolizam as mulheres.

    A palavra incel voltou a circular como uma moeda gasta.

    Celibatários involuntários. Homens que transformam rejeição em tese. Frustração em teoria.

    Desapontamento em trincheira.

    O bar seguia alto, indiferente. Mas ali, naquela mesa, algo tinha escurecido. Não era apenas a falta de encontros amorosos — era a construção paciente de um ressentimento com gramática própria.

    Disseram que há fóruns, comunidades, códigos. Que o Brasil figura entre os que mais alimentam essas conversas. Que às vezes o discurso não fica só na tela.

    O copo bateu no mármore com um som seco.

    Pensei na minha audição equivocada do início da noite.

    Não era “no céu”.

    Era um outro lugar.

    E agora me pergunto: estamos falando de incels — ou de pequenos infernos cultivados em silêncio, mesa a mesa, tela a tela?

  • Uma crônica fora da lata

    A polêmica no carnaval (entre tantas e recorrentes polêmicas de carnavais e redes sociais) tem a ver com uma lata. Mas não uma lata qualquer, uma lata física e, ao mesmo tempo, metafórica. Coisas de nossos tempos tão absurdos! Não vou explicar o desfile e tampouco descrever a escola de samba, personagem ímpar de um ano que se inicia. Há muita agressividade nas redes e o assunto foi dito e redito centenas de vezes… Não sou eu que vou repetir mais uma vez! O que eu quero aqui é uma boa provocação literária!

    Liberto as palavras de qualquer lata para escrever esta crônica. E, pra começo de conversa, as três primeiras palavras são justamente conservantes, enlatado e conservador…

    CONSERVANTES, de acordo com o dicionário, diz respeito a substâncias adicionadas a produtos alimentícios para prevenir a oxidação.

    ENLATADO, por sua vez, significa “que se enlatou” ou “guardado ou conservado em lata”

    CONSERVADOR significa “que ou o que, em princípio, é contrário a mudanças ou adaptações de caráter moral, social, político, religioso, etc…

    Postas as palavras, vamos para a crônica!

    Tem gente que vive enlatada e não tem ideia e não respira…

    Tem gente que enlata os outros e não abre mão de impor suas latas e não abrir lata nenhuma!

    Tem gente que conserva o rancor, o desamor, a mágoa e a tristeza!

    Tem também sonhos enlatados, pensamentos enlatados, sentimentos enlatados…

    Assim como são enlatadas muitas canções…

    E assim, essa gente que não gosta muito da vida, vai conservando ódio e preconceito, violência e desprezo…

    Essa mesma gente que não curte dissonâncias, vai enlatando tudo o que vê pela frente e, quando se vê, não há mais cores e sabores e odores, ao contrário, há apenas uma única verdade, absoluta, imponente, intransigente…

    Sabemos que muitos conservantes mantém os alimentos dentro da validade a custa de nossa saúde!

    Sabemos também que muitos enlatados possuem alto teor de sódio e que latas amassadas, enferrujadas ou estufadas devem ser evitadas!

    Por esta razão, é importante pensar: ser conservador é necessariamente conservar apenas o que é bom?

    Sabemos que não!

    Os que gritam pelo conservadorismo querem conservar preconceitos enraizados, conservar privilégios indecentes e conservar o clima de guerra constante…

    Quero, pela minha parte, conservar o riso e a alegria, não o cinismo. Quero conservar a malemolência da língua portuguesa, não a desigualdade. Quero conservar o abraço e a amizade, não a hipocrisia! Quero conservar a poesia e não a cara carracunda de quem não gosta de arte! Quero conservar a imaginação, o voo do balão, as bolhas de sabão, não a frieza e a falta de compaixão!

    Quero conservar a essência de humanidade e não a barbaridade!

    Quero conservar a crônica solta, livre, fora da lata… para que ela, a incrível crônica, possa, pelo poder das palavras, abrir outras latas!

  • Boiar nas águas, atravessar os morros: menos Catherine, mais Rita – mais minha

    Quantas vidas vivemos em uma vida – você, eu?

    Eu, por exemplo, não sou mais a mesma do casamento.

    Nem poderia ser. Seria falta de educação comigo mesma.

    Tampouco sou a mesma que realizou, ainda nova, seu sono de morar no exterior. Ou a que ambicionava um prêmio de arquitetura, recebido na categoria sustentável antes dos 30.

    Hoje sou a única criatura — ao menos aparentemente — que sai aos prantos da sessão de terça-feira de Carnaval de O Morro dos Ventos Uivantes. Quase uma sessão matinê, e a cidade pulsando lá fora, confetes aderindo aos cabelos alheios e se esbaldando, bêbados e desequilibristas, pelo chão. Batuques. Bebidas vendidas em isopores. E eu chorando por ingleses que insistem em amar como quem cava a própria cova.

    Mudaram o destino do filme. Encurtaram silêncios, ajustaram gerações; embelezaram a dor com fotografias impecáveis, figurinos de tirar o fôlego; cenários e sentimentos antagônicos: pobreza e a opulência – esta convertida em excesso de desejo e intensidade, como se cada cena precisasse gritar para não desaparecer na sucessão incessante de imagens que disputam o mundo de hoje.

    A sala azul… Trechos de paredes brilhantes. O almofadado do quarto de Cathy na cor de sua própria pele, com manchas que traziam suas sardas – mais discretas que as minhas – aos holofotes.

    Diante de tanto impacto visual e emocional, ali estava eu, soluçando discretamente – ou nem tão discretamente assim -, com meu livro da Emily Brontë sobre os joelhos, acariciado cena após cena.

    Percebi, entre uma lágrima e outra, algo que me pareceu escandalosamente maduro: já não tenho idade para viver e morrer de amor.

    Meu primeiro amor morreu. Ou talvez tenha morrido apenas a menina que achava beleza no morrer por alguém.

    É, minha querida, diria meu falecido primeiro amor – poeta de obra, sombra e medida involuntária, para desgraça do meu eu adolescente e dos amores que vieram depois – morrer é sempre um gesto dramático demais para quem ainda precisa pagar boletos.

    Concordo. Hoje. Com a ironia aprendida, equilibrando os deslizes do peito.

    Há versões nossas que saem de moda. Como certas ideias românticas que já não combinam com o rumo e a velocidade do mundo atual.

    Catherine me comoveu, mas não me seduziu. Heathcliff fez meu coração palpitar por sua beleza, seus cuidados e maldades com a amada, seus traumas infantis – mas me alertou. Amor que precisa destruir e magoar para provar que existe… Isso não me interessa mais.

    Lá fora, batuques aleatórios. Pedra portuguesa sob os pés. Piso urbano novo, intertravado. Descobri, ali, que havia pedras portuguesas em Nova Friburgo — eu, arquiteta quase nunca distraída, atravessando a cidade sem notar o desenho do chão.

    É curioso como podemos viver anos sem perceber o que sustenta nossos passos. Há quem nunca tenha notado a cor do piso à frente de casa.

    Prefiro, agora, a atenção e a presença dos amores que nascem e morrem para fazer sentido. Não os que implodem casas e almas. Não os que confundem posse com poesia. Talvez mais os que atravessem do que os que fiquem.

    Chorei lágrimas de equilíbrio outra vez. Chorei por ter amado com ferocidade quando foi preciso. Chorei pelas versões minhas que já caducaram. Chorei porque estou viva – e isso, convenhamos, é um privilégio maior que qualquer paixão homérica ou borboletas no estômago, essas criaturas inconvenientemente instáveis.

    Somos compostos prioritariamente por água e sais: há líquido demais em mim para fingir secura. Sou mais mar e onda do que constância.

    Estou aprendendo a nadar em águas salgadas e mais profundas. A boiar sem afundar. E é até reconfortante tomar uns caldos e tossir entupida de sal, de quando em quando.

    Na mesma manhã do cinema, ainda carnaval, sentei-me ao sol na praça da minha cidade. Blusa semi-transparente e dourada. Top igualmente dourado. Abri uma garrafa de vidro de cerveja às dez da manhã, como quem inaugura um livro com cheiro de novo.

    Zeca bebia seu copinho d’água recém-saído da geladeira da padaria.

    Minha mãe torceu o nariz:

    — Uma menina tão bonita bebendo assim, na rua…

    O pior é que havia outra garrafa para ela, na sacola. Ela, fã da intrépida Rita Lee.

    E então percebi o que a Rita entendera antes de todas nós: a liberdade feminina ainda é um escândalo para quem depende de permissão alheia.

    Minha querida, talvez cochichassem os artistas devidamente enterrados, escândalo é só o nome que dão às mulheres que respiram sem pedir licença.

    Pois então respiro.

    Senti, naquele banco de praça, algo sereno e perigoso: se filhos vierem, bem-vindos. Se não vierem, tudo bem igualmente. Zeca já dá conta de parte da minha vocação maternal. Se o amor ficar, que fique inteiro. Se for embora, que vá sem levar minhas estruturas.

    Não tenho mais idade para morrer de amor.

    Platão me sopra uma frase, como quem salva uma atriz de um branco em pleno palco: todo homem apaixonado é um poeta. Eis que a poesia desce do pedestal e volta ao gesto humano de amar.

    Percebo, então, que tenho idade para atravessá-lo — com humor, com verdade, consciência e uma cerveja — ou um vinho — na mão.

    Se houver (mais) outras vidas dentro desta, que elas me encontrem menos trágica que Catherine e tanto ou mais insolente que Rita.

    E que, quando eu ameaçar dramatizar demais, haja sempre um eco, a sussurrar:

    — Querida, ame. Mas conserve o seu sobrenome.

    Tal qual fez minha mãe, com um casamento exemplar. Tal qual eu já fiz uma vez, diante do padre e do

    cartório, com uma lição bem aprendida:

    nunca tome decisões em pandemias.

    Deixe o tempo no comando.
    Aproveite as ondas.
    Aprenda a não enjoar em alto-mar.
    Respire.

  • CRISES

    As crises são produtivas e mesmo desejáveis. Precisa-se delas para crescer. Isso é verdade tanto para a História quanto para os indivíduos. Historicamente, a períodos de crise sucedem outros de euforia e progresso (os pós-guerras atestam essa verdade). No que diz respeito às pessoas, há relatos de crises que ensejaram profundas mudanças existenciais.

    O problema é quando elas se tornam frequentes e mesmo viciosas. Há quem se acostume a viver em conflito consigo mesmo e cultive com certa morbidez o mal-estar que isso traz. Para gente assim, os momentos críticos não são estágios para o amadurecimento pessoal; persistem como uma espécie de segunda natureza. 

    Tenho um amigo assim. Sempre que conversamos, ele diz que está insatisfeito com a vida e se preparando para mudanças radicais. Ora pretende largar o emprego, ora se dispõe a deixar a mulher (que nunca deixa, por medo de ficar sozinho). Quando lhe pergunto quais seriam os novos planos, ele não sabe responder. Quer dar uma guinada na vida, mas ignora em que direção.

    As conversas com ele me lembram o adolescente que fui – cheio de dúvidas e temeroso do futuro. Com quem namorar? Que carreira seguir? Que amigos cultivar? Questões como essas não raro me tiravam o sono, mas na adolescência isso é natural. Está-se numa encruzilhada quanto a escolhas que vão repercutir no restante da vida – e sabendo muito pouco do que a vida é. Vivenciar tal paradoxo, convenhamos, precipita qualquer um no torvelinho da crise.     

    Às vezes esse emaranhado de indecisões persiste em estágios posteriores, chegando à idade adulta e se projetando na velhice. Geralmente quem passa por isso diz que ainda não se encontrou (é tão longo esse “ainda”, que faz pensar em “nunca”). Quando enfim se dará esse encontro, para o qual a pessoa parece não estar (ou não ser) preparada?

    Meu amigo fez análise, mas depois de algum tempo desistiu. Espirituoso, me disse que seu problema não é o inconsciente, mas excesso de consciência. Esse diagnóstico pode ser interessante como jogo de palavras, mas encobre um ceticismo que beira a desesperança. Se ele rejeita a análise mas não consegue se livrar do pessimismo renitente, que procure outra alternativa. No limite, mesmo autojuda pode servir – desde que seja com fé.

    Faz dias que não nos vemos, mas sei que ao reencontrá-lo vou me deparar com o mesmo semblante sombrio e as velhas queixas. Ele me falará de suas novas deliberações e me pedirá que opine sobre elas. De que adiantaria opinar? Quem não consegue ouvir a si mesmo não vai querer ouvir os outros. Mas serei complacente quando ele começar, como das outras vezes: “Rapaz, agora é sério! Nunca estive tão mal…”.  

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