Vamos esclarecer esse negócio de musa inspiradora. Para início de conversa na tradição clássica ocidental eram nove as musas, todas filhas de Mnemósine, divindade grega da Memória, com o todo poderoso Zeus. Elas eram Calíope, Clio, Érato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Terpsícore, Talia e Urânia.
Cada uma inspirava a arte nos homens e nas mulheres, sempre de alguma maneira direta ou indireta como é próprio nas relações do divino com nós mortais. Por conta de suas qualidades é impossível dizer que quem escreve se inspira em uma musa só.
Calíope era a musa da eloquência e de certa forma está presente em tudo que se escreve ou fala. As vezes se confunde com verborragia mas para essa não há divindade determinada. Ao menos não para os gregos. Calíope é uma das musas inspiradoras mais presentes na minha vida, admito, porque já escutei e li que sei usar bem as palavras, com desenvoltura e quando há motivo mais ainda. Isso dito inclusive por você.
Culpada, meu escriba! Mas siga.
Vamos lá, quando alguém ou alguma coisa é citada, pode se atribuir a inspiração a Clio. Ela era a musa da História, a que conferia fama às pessoas. A fama aqui está subentendida como algo bacana, a despeito de atualmente se relativizar a idéia lembrando que existe boa e má fama. Mas no tempo da Grécia clássica fama era coisa boa. Daí ter sua musa.
Para aqueles momentos mais leves e mais amorosos ninguém escapa da influência das musas Érato, inspiradora da poesia lírica; e Polímnia, da poesia amorosa. São elas, as vezes em separado as vezes juntas quem fazem os escribas escolherem aquelas palavras mais adocicadas e que eventualmente tem poder de envolver e encantar quem as lê.
A da música é Euterpe e ela é para poucos haja visto a quantidade de gente desafinada que agride as mais belas canções já compostas. Fora os que acham que são inspirados por ela e insistem em escrever e musicar uns pseudo-versinhos para lá de sem vergonhas. Daqueles que só a claque aplaude, sabe?
Na sequência vem Terpsícore, musa da dança. Mesmo no ofício de juntar letras para formar palavras ela traz inspiração pois nada mais gracioso que um texto que se move aos nossos olhos.
Há a dupla de musas que parecem se opor: Melpômene, a tragédia; e Talia, a comédia. Essas duas usualmente não estão presentes ao mesmo tempo para inspirar. Mas há exceções. As vezes elas se conjugam com outras, como Érato ou Polímnia, o que traz bastante sabor ao que se escreve e explica o amor trágico ou a comédia romântica. Tudo obra da conjunção delas.
Por fim a última e para mim ainda inexplicável musa é Urânia.
Por que inexplicável?
Porque ela é musa da astronomia e da astrologia.
Sério?
Sim enquanto astronomia é ciência astrologia está mais para…
Não fala, sei sua opinião a respeito da astrologia.
Tá bom.
Devo entender depois de sua vasta explanação que é por isso que não sou sua única musa?
Mais ou menos.
Mais ou menos?
Sim, porque isso de ser musa não é assim algo tão exato.
Então me explica mas por favor vê se me enrola pouco.
Olha, eventualmente você é a única musa. Por outras vezes a inspiração é diversa, vem de várias musas ao mesmo tempo que se apresentam a me inspirar e o que escrevo é resultado dessas múltiplas influências. Mas há também aquelas situações em que uma única musa se mostra para mim com diversas formas. Isso é mais comum do que parece dado o caráter multifacetado dessas musas.
Pode ser mais claro com esse negócio de “caráter multifacetado dessas musas”?
Claro. Eu quero dizer que por vezes a mesma pessoa pode me apresentar a inspiração de mais de uma musa. Como se combinasse …
Calíope e Polímnia?
Sim, como se combinasse a inspiração essas duas musas. Daí ser a musa multifacetada.
Uma dessas pessoas seria euzinha aqui?
Sim, você.
Mas tem outras na sua vida.
Ao redor de mim você quer dizer. Sim é natural porque a convivência permite beber em fontes variadas.
Você bebe muito?
Com moderação, você sabe.
Hum, sei. E como é viver sob a influência de tantas musas?
Tem dias que vai bem, em especial quando estão calmas. Mas tem outros em que elas estão encapetadas.
Ah é, tem isso de musa endiabrada?
Tem sim, aí é um Deus nos acuda delas querendo inspirar a todo custo, eventualmente até impondo sua inspiração sobre as demais. É uma luta.
E como você resolve?
Respiro fundo e deixo fluir. Naturalmente a que estiver mais presente, mais conectada com o que penso e sinto no momento leva a melhor sobre as demais.
E quem costuma levar a melhor mais vezes? As musas de face única ou as multifacetadas?
É fácil, basta ver o que eu escrevo.
Nem sempre, porque as vezes suas palavras simples escondem emoções herméticas.
Mas para senti-las e entende-las não é difícil.
Ah não? O que é preciso, meu querido escriba?
A receita vem de longe, de um escriba anos-luz maior do que eu.
De pé na frente do último cinema de rua da cidade, Seu Alírio leu mais uma vez, com vagar, o cartaz que anunciava a demolição daquele edifício. Do seu edifício, hoje mais decadente que ele próprio e tão velho quanto. Aquele lugar tinha sido sua casa por quase oitenta anos e não podia permitir que viesse abaixo sem se despedir. Triste, respirou fundo e entrou.
Percorreu os corredores escuros já conhecidos de memória, abriu a cortina que dava acesso à sala de projeção e avançou. O ruído estrondoso dos aplausos fez com que encolhesse os ombros, tão pesado era. Olhou em volta e reconheceu os amigos com quem convivera ao longo dos anos. Todos estavam ali por ele, e sorriam, e Seu Alírio lhes devolveu o sorriso, comovido. Não faltou ninguém: os elegantes Rhett Butler e Scarlet O’Hara o cumprimentaram com um aceno de cabeça; Don Corleone, sempre fiel a seus amigos, fez-lhe um gesto gentil com a mão; Norman Bates e sua adorada mãezinha apenas o olharam com discreta admiração; Gilda, a mais bela de todas, tirou as luvas antes de mandar-lhe um beijo com os dedos; o senhor Charles Foster Kane deu-lhe uma piscadela e apontou para Rosebud, encostado num canto da parede, como se dissesse: “Viu só o que eu quis dizer?”; Ilsa Lund, vestida como se fosse viajar de avião pra muito longe, sussurrou: “You must remember this, a kiss is still a kiss…”; a senhorita Mary Poppins veio até ele levitando sobre as poltronas e o conduziu a seu lugar de honra, no centro da sala. As luzes se apagaram, a grande tela se iluminou e Don Lockwood apareceu dançando e cantando debaixo do maior toró que já houve naquela cidade.
Horas depois, quando as lembranças já não cabiam em sua memória e a saudade iria a qualquer momento fazer seu coração explodir, Seu Alírio deixou a sala, percorreu de volta os corredores escuros e ganhou a rua. Foi devagar para casa, arrastando o peso quase centenário de seu corpo. Ia cruzar a avenida quando um homem baixinho, vestindo um terno preto muito sujo e amarrotado, lhe ofereceu uma flor. Não disse nada. Apenas sorriu, coçou o bigodinho, virou as costas e saiu com seu andar desajeitado, fazendo piruetas no ar com a bengala. Seu Alírio aproximou a flor do nariz e aspirou. Fechou os olhos e compreendeu que a vida pode ser, sim, como no cinema: basta que se acredite nisso. E ele acreditava. Entrou em casa assoviando baixinho a canção Smile.
Laura é do tipo cismada e encabulada. Quando quer as coisas, vem logo no colo do pai pedir para que eu resolva. Desde pequenininha é assim, manhosa. No começo, eu aceitava, por ser tão pequena e não ter condições de resolver suas questões. Agora, com dez anos, isso me incomoda profundamente, porque eu mesmo fui criado para me virar por mim mesmo: desde cedo morando no interior, com parcas condições de vida, arranjava trabalho do que se pudesse imaginar. Na idade que ela tem, eu já roçava, capinava, fazia de tudo, só para ter o de comer no dia. Meu pai se debandou com um rabo de saia e deixou uma família de sete pessoas, contando com a minha mãe, coitada, que mal sabia limpar a casa. Mamãe tinha algum problema mental, não diagnosticado – hoje eu entendo porque ela passava o dia zanzando pela cidade e deixava os filhos ao deus-dará. Era uma mulher de poucas palavras. Já eu, jurei sair de casa quando ela estava barriguda de um novo filho; se lhe perguntássemos de quem era, ela não dizia – ou, de fato, não o sabia. Em outras palavras, a situação se complicava dia após dia, e por isso tive de me virar ainda mais. Não fosse meu irmão Airton, teria ficado no interior, só que, como gostava muito de mim – eu era o caçula –, me trouxe junto para a cidade. Ele já tinha mais de quinze anos, podia trabalhar naquela época, e foi ser engraxate no Fórum; acompanhei-o, para aprender o ofício. Logo sabíamos que tínhamos de estudar, e voltamos às primeiras letras. Foi duro, sofrido, mas conseguimos avançar rápido, principalmente com o curso de madureza – como se fosse o supletivo de hoje. Dormíamos de primeiro nas ruas, mas, depois, uma senhora bondosa, dona Rita, permitiu que passássemos um tempo em sua hospedagem, e em contrapartida eu arrumava a casa e lavava a louça, para ela se sentir agradada. Mais adiante, arranjamos um local insalubre para alugar. Era na favela do Dedê, mas dava direitinho para as nossas necessidades. Lá também tive de provar que era homem, mesmo sendo criança, porque um rapaz que morava ao lado queria abusar de mim. Não tive opção: esfaqueei-o com um canivete que tinha. Não deu em nada. Segui a vida no mesmo ritmo, e foi dura a batalha até chegar aqui. Por isso minha preocupação com Laura. Sempre pensei que iria criar filhos independentes, mas Laura veio para me provocar. Semana passada, no restaurante, disse que pedisse o seu prato, e ela quase se recusou a comer. O garçom perguntava, e Laura não respondia, só de birra. Muitos pensam que é uma menina mimada, mas não é nada disso; ela não tem tudo o que quer. Lúcia, minha esposa, deseja que ela faça uma avaliação cognitiva, para saber se isso tem a ver com autismo. De início, não dei bola, mas pensei e vi que tem fundamento. Nossa filha pode ser assim justamente por conta de uma condição inata. Ou seja, não tem culpa. E eu que a forcei tantas vezes a se virar sozinha, fico com peso na consciência. Se for, Laurinha será o resto da vida protegida por mim, fiz essa promessa.
Pois é: eu ali, de carona com um amigo que não via fazia um tempo, recém-chegado da Europa, que me chamou para um chope — e eu aceitei. Só que, infelizmente, não sei se tinha tomado iogurte vencido, ou algo parecido, mas a playlist do meu amigo estava horrível.
No caminho, “Beija Eu”, da Marisa Monte; depois, “Já Sei Namorar”, dos Tribalistas. Até que, de uma hora para outra, me toca Ivo Pessoa, com “Quando Eu Te Vi”.
— Linda, né? — É…!
Ouvir Ivo Pessoa, para ser mais generoso, é como ouvir a vizinha do apartamento de cima andar de um lado para o outro, de salto alto. Pior que barulho de furadeira, pernilongo em noite de calor ou a empregada da vizinha cantando louvor.
— Falta muito para esta música acabar? — Três minutos. — O quê? Não tem como tirar? — Não.
E começou, ali mesmo, a cantarolar, numa espécie de karaokê involuntário. Uma música que fala de anjos, outras vidas, aves, aquele romantismo boboca de adolescente apaixonado, espinhento, virgem.
Prefiro mil vezes A Hora do Brasil ou as músicas do Padre Marcelo.
— Nossa. Mas que trânsito, hein!? — Pois é. — Falta muito pra chegar?
A todo momento eu perguntava: “Tá chegando?”. Tem gente que luta para sobreviver a um amigo com TOC; outros pelejam com um amigo de tique nervoso; alguns tentam tolerar o boca-livre, o que pede dinheiro emprestado, o que assalta a geladeira, o pessimista, o ruim de bola. Mas um que realmente merece o Nobel da Paz é aquele que sobrevive — resignado e mudo — à playlist pavorosa do amigo.
— Mas você não gostou mesmo, não é? — Meus ouvidos já viveram tempos melhores.
Ivo Pessoa é aquela música besta que mistura vibe de novela das seis, barulho de obra e o som de um caco de vidro arranhando o capô do carro.
Minha alma queria descer, pegar carona em outro carro, com outras pessoas, outra playlist.
Quando finalmente desci, falei pra ele:
— Da próxima vez coloca outra coisa. Até barulho de obra.
Meu amigo riu. Eu não.
Fomos tomar um chope que, numa hora dessas, é só o que se pode fazer.
Zími saiu para comprar cigarros e desceu pela escada porque o elevador estava demorando.
Morava no sexto andar, e quando passava pelo terceiro, parou para pegar, perto da lixeira, um suplemento de cultura do jornal do dia anterior, com a Patti Smith na primeira página.
O assinante daquele jornal leu apenas o caderno de esportes, que estava desmembrado, deixando o resto dos suplementos intocados.
Antes de guardar o jornal na mochila e sair, estava lendo uma parte da matéria principal, enquanto havia uma conversa alta naquele andar, dentro do apartamento que ficava mais perto da escada.
Um cara falou para uma mulher: “Eu me casei com a sua filha só pra destruir o seu marido”.
Zími morava naquele prédio com Mila Cox havia cinco meses, mas ainda não conhecia todos os vizinhos.
Não soube identificar a voz do sujeito, e sem esperar para ver se conseguiria contextualizar aquela fala com o desenrolar do diálogo, desceu o resto das escadas até o térreo.
Então foi buscar o cigarro e na volta lá estava Mila Cox, sua parceira musical, na sala do apartamento parcialmente isolado acusticamente, em concentração obsessiva para uma missão que ela mesmo tornou árdua.
Precisavam terminar mais uma música naquele dia, para que a faixa entrasse no split que lançariam com a banda Major Flops.
O disco teria duas músicas de cada lado, um lado para cada banda, com a duração de um EP.
Já estavam demorando porque uma das músicas já havia sido gravada antes. Nela Zími apresentou o esboço, Mila Cox concluiu, então foi logo depois gravada num único take concluído ainda pela manhã.
Na música a ser gravada à tarde, a ideia partiu de Mila Cox, que se recusava a dar a gravação como concluída. Segundo ela, a canção era sobre desinventar tudo o que era desprezível, tanto na música como na vida.
Tinham sorte por não precisarem pagar em estúdios mais profissionais.
Zími sabia que quando isso acontecia, a pessoa acaba desistindo sem que considere que o trabalho teve resultado pleno, ou que foi realmente finalizado. Mas para aquela ocasião, havia um prazo que estava por vencer.
Ele já havia gravado a sua parte de bateria e poderia até sair dali até que ela terminasse, mas ele jamais perderia as coisas que ela falaria ao longo do processo.
Ela havia dito logo no começo do projeto, que dividir o disco com outra banda aumenta ainda mais a responsabilidade do lançamento.
Seria a estreia dos Major Flops em disco. Zími gostou do que viu sobre eles, mas nada lhe faria parar de pensar que em alguns momentos havia uma influência exagerada de Cabareth Voltaire.
Zími gostava de Cabareth Voltaire, mas naquele caso, a semelhança era proporcional à que havia entre o Mighty Lemon Drops e o Echo and the Bunnymen.
Ele sabia que provavelmente Mila Cox percebeu essa semelhança, mas sabia também que para ela isso pouco ou nada os desabonava, e haveria benevolência com uma banda que estava começando.
Mas Mila Cox estava furiosa porque Zími escolheu colocar uma cover como sendo uma das músicas dos Crop Circles no split. Ela só admitia isso para lado b de singles, e ainda assim com ressalvas.
Mas para aquele caso, a música era ‘Fixin to die’, de Bukka White.
Zími passou os dias anteriores fazendo carretos com Silvano e também passando horas no Sebo do Messias, e não teve como fazer uma música, mesmo porque Mila Cox combinou esse split de última hora.
Mila Cox fez a guitarra, que aprendeu rapidamente, ouvindo a música original duas vezes.
Antes, repudiou a ideia de chamar o guitarrista virtuose que conheciam e que morava no mesmo quarteirão que eles.
Ele andava na rua com um estojo retangular da Gibson.
Mas ele não seria necessário porque era uma música simples.
A rapidez com que ela gravou sua parte naquela faixa lhe deu confiança e credibilidade para seguir sem chamar músicos convidados, principalmente para a guitarra.
Ela gostava de tocar e gravar guitarra, mas ao vivo prefere ser baixista e se desdobra até com instrumentos de brinquedo adaptados para preencher a falta de um guitarrista nos shows.
Já fizeram isso mantes, mas a principal ideia a ser seguida é a de trabalhar com o que há disponível.
Os dedos de duas mãos eram suficientes para contar os shows que fizeram com participação de guitarristas.
Mila Cox não chegava a repudiar esses episódios, mas prefere não falar sobre as lembranças que tem dessas ocasiões.
Havia algo nos guitarristas que ela conhecia, desde o mais virtuoso até o mais tosco, que parecia travar o processo criativo para compor ou gravar uma música.
Talvez fosse algo relativo ao ego deles.
Ela também tinha vontade de ter controle sobre o direcionamento artístico da banda, mas curte fazer parcerias.
Zími era importante para não deixar que ela fique eternamente tentando finalizar uma única música.
Ele fazia intervenções importantes.
Os Major Flops eram uma banda de Taubaté, e o baterista é neto da ex- vizinha de Mila Cox no bairro da Penha, onde ela até meses antes vivia com a mãe e a avó, que vivem lá até hoje.
Fariam um show em São Paulo dois dias depois, e chegariam na cidade no dia seguinte, se hospedando na casa da avó do baterista, que é a vizinha da avó de Mila Cox.
Os Crop Circles enfim terminaram a música, chamada ‘When monday comes’.
No dia seguinte iriam buscar os Majos Flops na rodoviária, ao meio-dia, na Kombi do vizinho uruguaio Silvano, que os levaria para a Penha.
Eram dez e meia, quando Zími, Mila Cox e Silvano entraram no elevador, no sexto andar, onde moravam. Iam para a garagem, sair com a Kombi, a caminho da rodoviária.
O elevador parou no terceiro andar, e um sujeito incrivelmente parecido com o Brian Ferry entrou e deu bom dia.
Quando ouviu aquela voz, Zími ainda processava em seu cérebro qual seria a zoeira sobre a semelhança do sujeito com o Brian Ferry.
Foi quando soube que aquele era o cara que se casou com a filha de alguém para destruir o marido dessa pessoa.
Mila Cox já saiu do elevador segurando uma risada, e Zími agora pensava que o fato do cara parecido com o Brian Ferry provavelmente ser um canalha merecia ser mencionado.
Já estavam ouvindo o primeiro álbum do Roxy Music quando a Kombi saía do prédio.
Na rua, durante a música ‘If there is something’, Zími contou sobre o que o vizinho parecido com o Brian Ferry falou, e ninguém falou mais nada até chegarem à rodoviária.
A outra é impulsiva, agitada, desobediente, uma doida…
Um é devagar, sonolento, brincalhão.
A outra é rápida em tudo e uma excelente saltadora! Parece um canguru!
Ambos são carinhosos e demonstram uma lealdade sem igual!
Para fechar a sequência dessas crônicas caninas, não poderia deixar de falar dos meus cães! Todd, um golden retriever, e Chiara, uma vira-lata de dar nó em pingo d´água!
Todd vem de uma linhagem de nobres e educados cães das montanhas friburguenses.
Chiara veio de uma feira de adoção que o meu filho insistiu duzentas vezes para que eu ficasse. Detalhe: eu morava em um apartamento e, a julgar pelo tamanho do filhote que ele me apresentou, parecia que eu estava prestes a adotar um rottweiler
É difícil adequar um espaço pequeno e um cão grande ou médio! Pelo menos pra mim! E assim foi a aventura de ter mais uma vez um cachorro em casa!
Chinelos e móveis mordidos, pé em cocô, reclamações dos vizinhos… Enfim, uma loucura só! Até que conseguimos nos mudar para uma casa e o tão sonhado quintal!
Pronto! Agora podíamos ficar com os dois cães!
Outro detalhe: Todd tem guarda compartilhada! Ele fica um período comigo e depois volta para Friburgo na casa dos meus sogros!
Todd fica dentro de casa! Chiara fica fora! Todd pede para ir ao banheiro! Chiara não precisa pedir! Todd passa quase o dia todo dormindo! Chiara passa quase o dia todo correndo e latindo para o nada!
E você pode me perguntar: como eles conseguem ficar juntos? Eles ficam! E se respeitam quase sempre!
Passeiam muitas vezes juntos. Se alguém estiver com algum alimento na mão (não importa o que seja), os dois vão abrir bem os olhos! Os dois vão ficar olhando até você dar um pedaço (ou não)!
Todd tem uma mansidão quase budista. Chiara parece em ebulição!
Mas o curioso disso tudo é ver que, mesmo tão diferentes, possuem a graça e a simplicidade que todo cão tem!
Hoje, entre latidos e muitos pelos, vejo que a felicidade está realmente nas pequenas coisas…
Termino esta sequência de crônicas caninas com a certeza de que os cães sabem mais da vida do que nós…
Por tudo se paga um preço nessa vida. Inclusive, pelo saber. Minha vó costumava afirmar: “a ignorância é uma benção.” Certamente, esse era seu jeito de dizer que certas verdades são difíceis de digerir. Na época, eu ouvia suas frases enigmáticas, mas o sentido íntimo desses ditos não me tocava a pele. Hoje, voltam à mente vestidos de significado. Cada vez mais, percebo que saber é temer. Listo a seguir as descobertas divulgadas na internet, nessa última semana, que balizam minha afirmação: o consumo diário de refrigerante dietético aumenta o risco de demência e acidente vascular cerebral; o presunto e a salsicha (que eu amo) são tão cancerígenos quanto o cigarro (que já abandonei); não existe nível seguro para o consumo de álcool; as noites insones, seja pelos efeitos da menopausa, noitada, maratona de filmes ou por qualquer outro motivo, são prejudiciais à saúde física e mental. E para completar a chuva de lamentos: o docinho depois da refeição, o bolo da tarde, o chocolate amado, não é tão inofensivo quanto parece. O açúcar, agora, é um veneno que inflama o corpo.
Diante disso tudo, acabei por concluir que tenho, como dizia minha mãe: “dedo podre para escolhas”, ou melhor dizendo, tenho muita afinidade com o rei, Roberto Carlos: “tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda.”
Talvez a saída seja ressignificar o desejo, ampliar os horizontes, mudar perspectivas, se aventurar em lugares ainda desconhecidos e apostar nos benefícios de uma vida bem cuidada.
Mas, como o Diabo sempre atenta, acabei de receber de uma amiga, pelo Instagram, um vídeo em que o cara canta um pagode que diz mais ou menos assim: “Você pode parar de beber whisky, conhaque, vodka ou cerveja, você pode fazer exercícios e se alimentar direito…. Não vai adiantar p. nenhuma, você vai morrer de qualquer jeito.”
Depois dessa, quase me entreguei ao pote de Nutella. Mas, por sorte, um pouco antes, tinha lido um artigo sobre envelhecimento ativo. Aí, ponderei (bônus da maturidade), avaliei minhas chances, tracei perspectivas, e, por fim, decidi vestir a roupa da caminhada.
Sempre que fico tentada a chutar o balde, penso naquela plaquinha de vaga para idoso (injusta e inapropriada) que mostra um velhinho de bengala, bem curvado. É só fazer isso e já me vem uma vontade imensa de cuidar no presente do futuro.
“Sou a favor da pena de vida, se o sujeito cagou, pisou na bola, tem que resolver aqui, não pode sair fora” (Pedro Luís e a Parede)
É assustadora a frequência com que ocorrem nos EUA massacres perpetrados por armas de fogo em escolas, que deveriam ser ambientes seguros de sociabilidade e aprendizado. Famílias são destroçadas, crianças com uma vida pela frente são executadas friamente por razões fúteis.
As motivações para tais atos bárbaros podem ser racismo, ódio, terrorismo, paranoia… Mas há um fator que perpassa esses trágicos eventos: a facilidade com que os americanos têm acesso a armas de fogo.
É uma chaga americana que explica por que o país mais rico do planeta, o único onde o número de armas supera o de habitantes, continua sendo o mais violento e um dos que têm os maiores índices de criminalidade, campeão nas taxas de homicídios, suicídios e acidentes fatais provocados por artefatos bélicos.
O que impressiona é que nada parece indicar que isso vá mudar. A indignação após a consumação desses atos de selvageria não é suficiente para provocar mudança e, passada a comoção, o assunto cai no esquecimento.
A solução que se propõe para as carnificinas é armar professores e funcionários das escolas. Poderiam também, quem sabe, permitir que as crianças andassem com pistolas nas mochilas para aumentar sua proteção. O problema causado pela liberação das armas seria resolvido armando mais gente. Cômico se não fosse trágico.
Mas há também um componente ancestral que dificulta a modificação dessa fixação doentia, enraizada na cultura ianque, herdada dos tempos do faroeste, que faz com que ser contra armas represente perda de votos.
Um exemplo pode ser verificado nos filmes de ação que inundam cinemas e lares. Havendo um vilão malvado, o enredo sempre se livra desse personagem incômodo fazendo com que tome um tiro letal que o tire definitivamente de cena. São raros os casos onde a sorte do malfeitor é determinada por um julgamento onde fique comprovada sua culpa e definido seu encarceramento. Seu destino não é resolvido nos tribunais mas por uma pistola justiceira. A mensagem é que, como a justiça não funciona, a solução é que lhe seja metido um balaço. A ‘sentença’ de pena de morte é definida e aplicada pelos ‘mocinhos’, à revelia dos trâmites processuais.
Através da eliminação física do malfeitor, supõe-se que suas culpas foram expiadas. O espectador pode dormir o sono dos justiçados pois o meliante não voltará a ameaçar a pobre vítima nem abalar sua certeza de que a justiça foi aplicada e o delinquente teve o fim que merecia. Morto, não corre o risco de escapar das grades e voltar às ruas para vingar-se.
É como se os cidadãos da autoproclamada maior democracia do mundo confiassem menos em suas próprias leis do que no poder mortífero de um atirador, detentor do direito divino de fazer justiça com as próprias mãos.
Resta a pergunta: com a morte os crimes foram de fato redimidos? Minha opinião é um enfático NÃO! Uma vez que um preciso projétil arrancou-lhe a vida numa fração de segundo, sem que ele vivenciasse qualquer sofrimento, ele não teve oportunidade de ponderar sobre suas ações maléficas ou arrepender-se, pagando efetivamente por seus pecados através da perda da liberdade e da triste sina de ter parte de sua vida enclausurado no inferno de um cárcere. A verdadeira justiça só seria aplicada se o criminoso, ao invés de ter sua carcaça inerte levada a um cemitério, fosse conduzido em vida para a cadeia, amargando anos de tormenta por seus crimes atrás das grades de uma soturna cela, tendo oportunidade de avaliar se seus atos insanos valeram a pena.
Àqueles que argumentam que penitenciária não regenera ninguém, que pensem no aprimoramento do código penal de maneira que a prisão cumpra seu requisito não apenas de recuperar o criminoso para a sociedade como fazê-lo efetivamente pagar pelo crime. Não na outra vida, mas aqui mesmo. É isso que a sociedade espera do sistema jurídico.
Não é essa a lição que Hollywood passa. Perpetua a visão de que é somente através das armas que resolveremos o problema da injustiça e da criminalidade. Com isso fortalece um sentimento de incredulidade nas instituições em promover a segurança do cidadão.
O direito ‘sagrado’ de ter uma arma é considerado tão básico que consta expressamente da Constituição americana, associado a um sentimento de liberdade, proteção do patrimônio e segurança individual. Triste é constatar que se traga para cá essa deficiência dos nossos irmãos do Norte.
Num país onde questões mais graves como a fome, a miséria e a desigualdade social imperam, importar o bangue-bangue da cultura americana é uma boa maneira de lançar uma cortina de fumaça sobre as verdadeiras mazelas do nosso país.
Ao invés de investir num futuro melhor para nossos jovens, estamos, com essa obtusa política armamentista, cultivando a morte e a violência, transformando ruas e parques, não em espaços comunitários de convivência, mas em arenas de combate, onde o outro é visto como ameaça em potencial.
Graças a Deus, sou forte. Sou guerreira. Sou abençoada.
E por isso, os retalhos das minhas memórias não pesam. Não me ferem. Não me entristecem. Sou apenas espectadora deles.
É bom quando se olha para uma casa velha, caindo aos pedaços, e o que vem à mente não é a ruína, mas o gramado verde na frente, as cadeiras onde eu me sentava para observar as meninas brincando, os cachorros correndo soltos, o picolezeiro passando com sua buzina, e as tardes que se esvaíam lentamente…
Revejo meu cotidiano simples e humilde com muitas cores.
Os olhos azuis, cor do céu, do meu bebê.
O vestido vermelho de bolinhas brancas da mais velha.
Os cabelos cacheados e dourados da filha do meio.
O verde da grama.
O bege do pelo do cachorro.
Quantas lembranças!
Em quarenta e oito horas, revive-se meia vida.
Foi assim o meu passeio neste feriado de Finados.
Mas não foi só isso.
Vi também a pequenez dos grandes túmulos de mármore. A vaidade inútil das letras douradas. A ostentação póstuma com que os vivos tentam driblar o esquecimento. E pensei: debaixo de sete palmos de terra, todos somos iguais: não importa a lápide que se erga sobre a cova.
E, por fim, uma última constatação: como o tempo transforma nossas medidas!
O coreto da praça de Jardim é lindo… mas tão menor do que me recordava!
Virar na vida uma página é mostrar atitude. Existem páginas mais pesadas, outras que quase se rasgam no manuseio e aquelas que praticamente pedem para ser viradas. Mas tenha certeza que na vida sempre há alguma página a ser virada. Quer você queira, quer não.
As razões para se virar uma página em nossas vidas existem e nunca são poucas. Deixar para trás uma parte da própria história é um momento forte, de decisão firme que não permite vacilo.
As motivações que nos fazem mover a mão e mandar aquela página para o passado são várias. Algumas boas, outras ruins, as vezes alternadas, as vezes misturadas.
Se houvesse uma receita para se virar uma página na vida talvez ela começasse pela leitura da própria página. Se o que foi escrito ali perdeu o sentido não adianta lamentar. Se a leitura do episódio incomoda, rápida irá a mão à folha para vira-la.
Nem sempre virar a página significa se livrar de um problema.
Problemas todos têm. Eu tenho os meus, você tem os seus. Eu sei a medida que os meus me afetam e quão difíceis eles podem ser. Da mesma forma, você conhece os pesos dos que te afligem. Por isso não entro em competição de problemas por diversas razões. A primeira porque é uma grande imbecilidade, o que dispensa citar as demais.
Assim as páginas viradas de cada um são suas páginas, incomparáveis porque elas trazem sua história gravada. Boas anedotas ao lado de momentos difíceis, alegrias, amores, tristezas, corações partidos e por aí vai formando o mosaico de nossas vidas.
Elas não vão sumir, tenha certeza. Até porque continuam por ali, encadernadas juntas as demais, inclusive aquelas que ainda estão em branco. As páginas viradas simplesmente foram empurradas para o passado. Se der vontade de rememorar, basta procurar com calma.
Afinal, página virada não é página rasgada. As rasgadas são outra estória. E requerem o dobro de coragem.
Argumentar é apresentar evidências para sustentar uma tese. Esse procedimento remonta à retórica clássica, que codificou os principais recursos capazes de promover a adesão ao ponto de vista do orador. Aprendemos dos gregos que tais recursos consistem basicamente de provas e razões. À língua cabia servir de suporte ao pensamento e conferir beleza à expressão por meio das figuras (flores retóricas), que constituíam uma espécie de acréscimo.
Essa maneira de avaliar o papel da linguagem no texto argumentativo mudou. Hoje não se considera o material linguístico como algo que “se acrescenta” ao discurso, e sim como um dos componentes fundamentais da argumentação. O processo de argumentar “depende de nossas escolhas linguísticas para obter sua eficácia” (Ana Lúcia Tinoco Cabral, em “A força das palavras: dizer e argumentar”).
Uma pequena ilustração disso está na historinha que circulou há algum tempo na internet envolvendo um cego e um publicitário. O cego pedia esmola numa manhã ensolarada de Paris; junto dele havia um cartaz com os dizeres: “Por favor, ajude-me, sou cego.”
Ninguém pingava uma moeda em seu pires. Vendo isso, um publicitário que passava alterou os dizeres e foi embora. Quando voltou, horas mais tarde, percebeu que o pires estava cheio de dinheiro. O cego o reconheceu e perguntou o que ele havia escrito. “Nada diferente do antigo anúncio”, disse-lhe o publicitário, “mas com outras palavras.” No novo cartaz, aparecia: “Hoje é Primavera em Paris, mas eu não posso vê-la”.
O que mudou? Na versão do publicitário, a condição do cego não é explicitada, mas depreendida por metalepse (efeito pela causa) da afirmação “não posso ver” (bem mais apelativa). Essa afirmação constitui um doloroso contraste com o que está expresso antes: a beleza da primavera parisiense, que os transeuntes tinham o privilégio de contemplar. As alterações aumentaram a eficácia do texto, que enfim conseguiu despertar a piedade das pessoas.
Como se vê, o bom argumento é o que produz empatia, identificação. E a melhor maneira de conseguir isto é envolver pela linguagem o destinatário.
Não estavam cômodos nem se sentiam confortáveis naquele lugar, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa de se levantar e sair dali. Olhavam, cheiravam, procuravam com a ponta dos dedos a origem do desconforto, tudo em vão. Não era a temperatura (que estava apropriada), nem a cor das paredes (que era acolhedora), nem as poltronas (que eram adequadas e anatômicas). A razão não era outra senão eles mesmos. Mas isso eles não admitiam, ainda. Sabiam, no fundo, que quem sentia o incômodo eram a temperatura, as paredes e as poltronas — se tivessem vida e pudessem, sairiam dali e deixariam os dois no meio do nada, até que se consumissem no vazio de sua última respiração e do seu silêncio, como a fruta que apodrece debaixo do sol.
Eram eles que incomodavam tudo ao redor e, embora soubessem disso, fingiam que não. Eles eram os observados com desdém e até repugnância pelas poltronas e pelas paredes daquela sala, pelas praias ensolaradas do Nordeste e pelas ruas geladas de Londres — onde quer que estivessem, incomodariam o entorno. Nas páginas dos livros que milhões de pessoas leem, há duas pessoas que se sentem desconfortáveis dentro de uma casa e não adivinham a origem desse desconforto. Mas a história impressa nas páginas tem que prosseguir, então eles permanecem como sempre estiveram e fingem que procuram a razão que justifique tanta melancolia. Fingem até chegarem ao ponto de se matarem de ódio e angústia, perto da página 250. Até lá, até esse desfecho trágico, seguirão dissimulando e, em voz alta dirão, na última linha, que a culpa é sempre do lugar, nunca deles.
Ana me sensibilizou. Foram só cinco ou seis palavras para ela mostrar a que veio. Num dia gris, apareceu em minha casa. Chamei por intermédio de uma colega, para a qual ela já era diarista e muito bem recomendada como uma “exímia profissional”. À primeira vista, Ana não parecia carente ou necessitada de bens materiais, pobretona – foi essa a imagem preconceituosa que fiz dela e de que me arrependo profundamente. Foi, no entanto, uma surpresa encontrá-la, vista pela janela, com um carrinho velho, mas em bom estado de conservação. Chegou no horário marcado. Veio só e com alguns apetrechos para limpeza, para facilitar o seu trabalho, como um aspirador de pó e vassouras. Pelo visto, ela contava só com os materiais de limpeza que o dono do apartamento devia comprar, como desinfetante, água sanitária e afins. Quando insinuei perguntar se era mesmo diarista, ela, adivinhando, me disse que entrou nas diárias por opção. Já que gostava de limpar a sua casa, preferiu incrementar no serviço e indicar para as pessoas. Simplesmente Ana, ela pede para chamá-la assim. Não adentrei muito em sua vida, deixei que a contasse, se fosse conveniente, se se sentisse em paz para isso. Moro sozinho, com os meus gatos, e acho que também ela sentiu pena de mim. Não há motivo para pena, tentei demonstrar, sem que perdêssemos o rumo da conversa. Estava interessante saber sobre a sua vida – fato é que sou frustrado por não ser antropólogo ou psicólogo, por gostar tanto de saber das histórias das pessoas. Ela me disse que tinha um único filho doente, com síndrome de down e outras complicações, como problemas cardíacos, e que talvez fosse preciso, às vezes, trazê-lo em alguma diária ou levá-lo ao médico… O tempo foi passando e me acostumei ao sorriso envergonhado de Luan, seu filho – além disso, ele não esboçava muita reação, só um certo enjoo à mãe, que o paparicava. Ele não dá um pingo de trabalho, fica sentadinho na sala assistindo à televisão. Ana disse que, quando não está nas diárias, leva o filho à APAE. Que ele adora o lugar, como se fosse a sua segunda casa. Há dias em que Luan não vem, e sinto sua falta. “Por você não trouxe o Luan, Ana?!”. Ela me respondeu que o filho fica uns dias com o pai e outros com sua irmã, também Ana, que ela chama de D’Lourdes. Faz duas semanas que Ana não vem, está doente dos rins, vai precisar ficar em casa e fazer exames, para ver o quadro. Não deixei de passar o valor das suas diárias. Combinamos que, depois, quando isso tudo passar, ela irá repor – mas jamais vou cobrar isso. Fiz assim para que ela recebesse. É muito cavilosa, como minha avó chamava as pessoas escrupulosas demais. Espero que ela venha logo. No apartamento, nos viramos, eu e os gatos; não tenho tanta fixação por limpeza. Só quero que minha amiga volte bem.
Seu Paventino, um idoso aposentado e viúvo, não gosta de ficar em casa. Por isso, seu maior passatempo é passar os dias no boteco do João, na esquina de sua casa. Lá ele é figura tão presente que já faz parte do folclore local.
O maior divertimento de Paventino é abordar novos clientes de João e fazer uma pergunta bem clássica:
— Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Esse senhor possui um ritual próprio. Sai de sua casa assim que o boteco abre pela manhã, vai até a banquinha do Seu Altair comprar o jornal do dia, para depois ir bater ponto na sua segunda morada. Lá, ele coloca o jornal no balcão, pede um chopp gelado e fica a espreita. Quando percebe a entrada de alguém novo, lá vai ele fazer sua pergunta. Se a pessoa responde que foi a galinha, ele pergunta: e quem foi que chocou o ovo? Se responde o contrário, de onde veio esse ovo? Ou seja, independente da resposta, a diversão de Paventino estaria garantida.
Um dos seus únicos desgostos era não conseguir fazer sua piada com os clientes costumeiros do bar. Como todos eles já conheciam muito bem seu costume, ninguém dava muita bola. Restava esperar por novos alvos.
Um certo dia, ele fez exatamente tudo igual. Já deviam ser quase três horas da tarde e entrou no bar um senhor de cabelo bem branco, com uma camisa florida, bermudão e papete de couro. Ele logo pediu um chopp. Paventino, então, se aproximou, puxou assunto e indagou se o outro idoso seria capaz de responder uma pergunta. Ele respondeu positivamente. Esse era o momento de consolidar sua alegria e então perguntou:
— Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
O senhor parou por poucos segundos (que soaram como horas) e respondeu:
Os ovos, que são estruturas reprodutivas amniotas, existiam há milhões de anos antes da galinha. O primeiro indivíduo da espécie Gallus, o gallus domesticus, chocou de um ovo posto por um animal de uma espécie ligeiramente diferente.
Dessa resposta, surgiu um silêncio apavorante no Boteco de João. Todos que ali estavam pareciam olhar para aqueles dois senhores que ali conversavam. Na realidade, o olhar era voltado para o novo cliente que ousou dar aquela resposta a Paventino. Esse, por sua vez, ficou branco, mais branco do que costumava ser e durante um tempo ficou sem resposta. No entanto, não poderia deixar aquilo barato. Sentindo vontade de dar um grande brado retumbante, ele decidiu ser um pouco mais elegante e só falou:
— Pombas, meu camarada, ciência? Não vem com essa que não quero saber disso não.
Paventino, então, levantou e foi se sentar em uma outra mesa onde acabava de chegar ao bar um jovem que, provavelmente, veio se refugiar daquele calor infernal que fazia na cidade naqueles dias. Então puxou assunto e fez a pergunta clássica:
— Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
E assim se passava mais um dia na vizinhança e no Boteco do João.
Quando ia escrever seus livros, o escritor Moacyr Scliar aproveitava, como dizia nas entrevistas, os intervalos da vida: a poltrona de um avião, a palestra do fulano, o aeroporto — qualquer brecha que, entre um compromisso e outro, a rotina oferecesse.
Para nós, leitores, não é diferente. Lemos na sala de espera do médico, no sacolejo de uma viagem de ônibus, no aeroporto, esperando um amigo no shopping. Quem lê há muito tempo sabe bem o que é isso. Tenho amigos que, apenas para me causar inveja, juram que não se incomodam com barulho; eu, ao contrário, acho que o silêncio virou um artigo de luxo — e pagaria qualquer coisa por ele.
Como grande parte dos leitores, tudo o que quero é um refúgio. Que, como já disse, anda cada vez mais raro.
Se abro um livro em casa, num domingo à tarde, o vizinho resolve comemorar o aniversário da esposa, com direito a karaokê, música alta (quando estou lendo, odeio qualquer tipo de música; qualquer uma, até as minhas preferidas) e aquelas palmas estrondosas. Tento ser tolerante. Tento.
Aí aproveito a sala de espera da dentista, abro o livro, começo a minha viagem… mas alguém liga o WhatsApp, manda e recebe áudios, depois desliza o dedo pelo feed do Instagram. Lá se vai o meu silêncio outra vez.
Outro dia, no parque, procurei um lugar com sombra, longe dos casais, das crianças, dos grupos com violão. De repente, um sujeito para perto de mim, diz “bom dia”, começa a se alongar e — adivinhem — está acompanhado do seu inseparável radinho de pilha.
Não sei se você reparou, mas, atualmente, ninguém faz nada em silêncio: academia, caminhada, natação, estudos, dirigir. Só resta ao leitor a sua luta diária por um pouco de sossego.
Outro dia, sentado num banco bem no centro da cidade, minha viagem pela imaginação era frequentemente interrompida pelo flanelinha: “Aí, gente boa!”, “Aqui, gente boa!”.
Abro o livro, fecho. Torno a abrir, fecho de novo. E assim, sem sucesso, vou tentando.
Tento a sala de espera do teatro, do dentista, a praça, a biblioteca, o pronto-socorro, as gôndolas do supermercado, um lugar debaixo da árvore do estacionamento. Às vezes — como já me aconteceu — vou ler em frente aos hospitais, onde não se pode buzinar, falar alto ou fazer festa.
Exageros à parte, é maravilhoso quando, em meio a este mundo tão barulhento, encontro um lugar quieto e posso saborear, finalmente, o livro. Só a imaginação me ajuda a suportar a vida. Tudo o que peço é que me deixem em paz.
De cotidianos resíduos arrancados na solidão de prisioneiro em que todo o meu ser se devora, tento compor uma imagem humana que me faça aceitável a mim mesmo.
No silêncio da morte aparente na qual me recolho ao túmulo previsto não sei com que ânsia mórbida de calma, procuro juntar os cacos de culpa diária que reunidos formam um apelo ao suicídio.
E não é só o remorso das manhãs doentias pelo que na noite se desfez em delírios de humana fraqueza cansada de si mesma, é todo um saldo de perdas que tenho que fazer e lançar no cômputo geral das misérias minhas.
De cotidianos resíduos recolhidos no isolamento mental de indivíduo em que todo o meu ser se liberta, tento compor uma imagem poética que se faça de ideias e despreze a vida.
Sabe aquela habilidade de reagir rápido, com graça, esperteza e a frase perfeita? Pois é… não veio no meu pacote. Diante de situações inesperadas, viro uma estátua com sorriso de paisagem. Meia hora depois, claro, surgem respostas brilhantes — todas atrasadas, todas inúteis. E eu fico furiosa comigo mesma.
Por isso admiro profundamente quem tem presença de espírito. Aquela gente que rebate na hora, cria na hora, brilha na hora. E dois casos sempre me vêm à mente.
O primeiro é de um político das antigas, mestre em se safar de qualquer saia-justa — e com memória prodigiosa (ou assessores eficientes soprando nomes). Em um evento, aproximou-se um sujeito que a equipe rapidamente identificou como “filho de fulano”. O político abriu um sorriso:
— Que prazer em vê-lo! Como vai seu pai, o nobre…?
— Deputado… meu pai morreu há cinco anos!
Ele nem piscou:
— Morreu pra você, filho ingrato! Para mim segue vivíssimo na lembrança.
Sério, quem pensa tão rápido? Outro exemplo é de uma conhecida que recebeu aquele clássico telefonema do “sequestro da filha”. Sem perder o fôlego — nem a fé — ela respondeu:
— Irmão, não tenho dinheiro nem filha! Sou irmã de caridade. Largue essa vida, venha para o bem, vamos orar juntos.
Bip bip. Golpista convertido ou, no mínimo, arrependido.
E aí fico pensando: o que esse povo tem que eu não tenho? Fui atrás de explicações sérias.
Resumindo o que aprendi: algumas pessoas conseguem aproveitar o microsegundo entre ouvir e responder para inventar alternativas inesperadas. É o tal do pensamento “fora da caixa”, que não se contenta com o óbvio e prefere o caminho criativo — às vezes absurdo, às vezes genial.
Ou seja: quem tem presença de espírito escolhe se divertir com a própria inteligência.
No fim das contas, presença de espírito é isso: um talento raro, quase uma arte marcial da criatividade. Alguns já nascem com cinturão preto. Eu, por enquanto, sigo no nível iniciante — procurando o tal manual que ninguém escreveu, mas que bem poderia existir. Até lá, sigo treinando. Vai que um dia o timing e eu finalmente combinamos um encontro. No caso deles… fazendo acrobacias. No meu, talvez só uma caminhada leve. Mas seguimos tentando.
Na última crônica escrita, a primeira crônica canina, eu falei um pouco das minhas experiências com cães: Apolo e Baggio. Um vira-lata e um setter irlandês!
Depois que Baggio partiu (dezessete anos de muitas brincadeiras), meus pais relutaram bastante em ter um novo cão. A fala que ambos sempre diziam: a gente se apega muito a eles!
No entanto, minha irmã… Aqui eu preciso abrir um parágrafo para falar da minha irmã. Sabe aquela pessoa que simplesmente ama cães? Pois é… Minha irmã, se pudesse, levaria para casa todos os cachorros que porventura encontrasse na rua. Uma cara de pidão e um rabo abanando seriam o suficiente!
Parágrafo escrito. Continuemos…
Meus pais não conseguiram manter a promessa de não ter outro cachorro. Minha irmã levou para eles um cocker spaniel comedor de melão: Thor!
Pense em um cão super carinhoso e que não desgruda de você por nada… Pensou? Thor é exatamente assim! Pense em um cão mimado, dengoso, metódico e cheio de manias… Pensou? Thor é exatamente assim!
Thor vai receber você com uma cara de quem não recebe atenção de ninguém!
Thor obriga o meu pai ou a minha mãe (depende de quem esteja na cozinha) a ir para a varanda metodicamente após o café!
Se você estiver com uma fatia de melão nas mãos, vai observar que os olhos de Thor se abrem de maneira expressiva e sobrenatural! Melão acima de tudo!
Mas brincadeiras à parte, o que sei é que Thor tem alegrado a vida dos meus pais já idosos.
Um cão é companhia, leveza, cumplicidade e o clichê de todos os que possuem um amigo peludo: um amor incondicional!
Thor é já um senhor. No acumulado dos seus pelos brancos, ainda corre atrás das coisas e pede carinho a quem quer que chegue!
Penso em todos os momentos bons que um cão pode nos dar e Thor tem feito um excelente trabalho!
Bem… ainda falta falar de uma dupla que parece óleo e água, mas isso fica para a última crônica…
“Vou ter que gastar meu décimo terceiro”, pensa o pai. Ou a mãe.
“O serviço vai dobrar”, lamentam a vendedora, a empregada, o patrão, o carteiro.
“Preciso variar e garantir o estoque”, diz o quitandeiro gourmet.
Ovos, uvas, pêssegos e toda a sorte de frutas ditas natalinas.
Ah, sem esquecer da famigerada e hilária uva-passa.
Os avós, os tios ricos, os pais de primeira viagem, os de última ou até os de ocasião fazem uma vistoria geral na casa. Afinal, Natal é festa da família.
É hora de mandar lavar os tapetes, consertar cadeiras, fazer inventário de copos, pratos e talheres.
Hum… chegou a hora da decisão: vai mesmo ter amigo-oculto?
Aquele costume sem autor conhecido, o verdadeiro elefante branco na sala, ou no espaço-cenário onde a família vai se reunir.
A tal brincadeira que não brinca, mas insiste em aparecer.
Apesar de todos, e cada um , jurarem que detestam.
Ou não?
Ah, sei bem…
Presentes úteis, inúteis, indefinidos, caros, errados, “nada a ver”.
Comprados com ou sem boa vontade. Com antecedência ou de última hora, em lojas cheias, vendedores apressados, cuja maior preocupação, no momento, é a comissão de venda.
Esse é um assunto tabu.
Assim como o tio inconveniente que bebe e conta a mesma piadinha de sempre;
a prima de nariz empinado que vai dar “só uma passadinha”;
o décimo namorado que a irmã leva às festas de família .
E que ela jura que desta vez “é prá valer!”
E assim se tem a festa de Natal.
O Menino Jesus?
Dorme, cercado de ovelhinhas e reis magos, debaixo da árvore pisca-pisca comprada na promoção relâmpago do site da Shein.
E o espírito natalino? Ah…
Esse talvez esteja embrulhado, sem etiqueta,
perdido entre os papéis de presente e as sobras do peru.
Para mim, segunda era igual a prima chata que a família faz questão de enaltecer na sua frente, porque é obediente e comportada, ou aquele irmão mais velho que serve de referência para tudo o que você não faz direito, ou aquela amiga da escola muito boazinha, que por isso mesmo não servia como companhia para as aventuras da adolescência.
Segunda sempre funcionou como aquela régua social que mede os procrastinadores, os menos abastados de disciplina e engajamento nos projetos de futuro.
Eu realmente tinha pinimba com a coitada. Ficava na espreita só sacando seus defeitos e se, por ventura, não tivesse, eu inventava. Como a gente faz quando não gosta de alguém de cara, sabe?
O abrir dos olhos no pós-domingo era batizado com o desabafo: maldita segunda-feira! Sempre chega para tirar o gosto do fim de semana. Parece pai na porta da festa antes da meia-noite. Trabalho que surge no final do expediente de sexta. Email de chefe cobrando relatório.
O curioso era esbravejar essa reclamação para o universo, ainda que o final de semana fosse tedioso pela falta de ânimo para sair da cama.
No final do domingo, aquele enjoo de véspera aumentava até chegar um certo refluxo no pensamento. Logo invadia aquela indisposição de existir, igual a gente sente quando chega visita em casa e não se estava esperando.
Acontece que o tempo é um homem espirituoso, provocador, que gosta de fazer graça com as nossas convicções, e, pelo visto, tem um certo apreço pelos dias mais injustiçados.
Só pode ser essa a explicação para o que vou contar aqui ou simplesmente sou a prova de que a lei do retorno existe e vocês foram as testemunhas escolhidas pelo destino.
Há vinte e cinco anos, grávida do meu único filho, e na necessidade de realizar uma cesárea devido a quadro hipertensivo, fiz um único pedido ao obstetra: marque qualquer dia menos segunda-feira.
Tudo certo, meu herdeiro de alma nasceria numa terça-feira, cinco de novembro.
Assim seria, se o Senhor Tempo não estivesse disposto a vingar toda minha implicância com uma de suas filhas.
Comecei com as contrações no domingo. Minha mãe, pela contagem das luas, alertava que havia chegado a hora. Eu rogava aos minutos que me deixassem alcançar a terça, que até de nome me parecia mais simpática.
Nada feito, Bernardo nasceu em uma estonteante segunda-feira. Trouxe com ele uma advertência da vida em relação ao desperdício de cinco dias na espera de um sábado e meio domingo para ser feliz. Sim, porque depois do almoço, era só preguiça e angústia.
Desde então, as segundas têm um gosto especial, um sabor de brigadeiro com refrigerante, um lançar de dados na esperança do seis, uma mensagem desejada no celular.
Não tem como ignorar, o tempo é um piadista insistente e a vida uma mocinha muito surpreendente.
Lembram que falei que vocês seriam testestemunhas de uma certa lei do retorno? Pois bem, acabo de nascer como cronista nesta segunda-feira ensolarada de paixão. Vocês são cúmplices dessa traquinagem jocosa do destino.
Sou mãe e filha desse dia tão primoroso que deveria se chamar Primeira-feira.
Quem diria que a donzela rejeitada passaria à condição de mulher amada.
O mundo dá muitas voltas e, pelo visto, prefere as segundas-feiras.
Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida. Segue a 5ª e última parte:
Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.
81) GREASE (Randal Kleiser), 1978
GREASE NOS TEMPOS DA BRILHANTINA, o musical adolescente estrelado por Olivia Newton John e John Travolta, dirigido pelo estreante Randal Kleiser, foi um dos mais bem sucedidos da história. As músicas trazem rock’n’roll cinquentista com uma pegada pop dos anos 70. O álbum foi um dos mais vendidos de 1978 (disputando liderança com outro musical de Travolta, OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE), com destaque para YOU’RE THE ONE THAT I AM e SUMMER NIGHTS, ambas interpretadas pelo casal de atores, além da música-tema com Frankie Valli de autoria de Barry Gibb (Bee Gees).
82) A SUMMER PLACE (Delmer Daves), 1959
O diretor Daves, especializado em faroestes, alcançou o pico do sucesso com um melodrama, A SUMMER PLACE (no Brasil, AMORES CLANDESTINOS), que se sobressaiu pelo tema musical composto por Max Steiner, estrondoso sucesso na interpretação da orquestra de Percy Faith, firmando-se como a canção instrumental que mais tempo permaneceu no top 1 da Billboard! O austríaco Steiner é um dos gigantes de Hollywood, assinando mais de 300 trilhas, 24 delas indicadas ao Oscar, destacando-se os clássicos CASABLANCA e E O VENTO LEVOU, além do primeiro (e melhor) KING KONG, o de 1933.
83) AO MESTRE COM CARINHO (James Clavell), 1967
Esse filme britânico de orçamento modesto sobre um professor imigrante negro (Sidney Poitier), encarando uma turma de alunos rebeldes de uma escola do subúrbio de Londres, foi um fenômeno arrecadando na bilheteria 70 vezes o valor de seu custo. Mais surpreendente foi a música-tema interpretada pela cantora escocesa Lulu (uma das alunas) que, apesar de se tornar o single mais vendido do ano nos EUA (puxando as vendas da trilha sonora), sequer mereceu indicação ao Oscar. A canção se consagrou como homenagem ao Dia do Professor.
84) LISBELA E O PRISIONEIRO (Guel Arraes), 2003
A elogiada produção nacional protagonizada por Selton Mello e Débora Falabella recebeu uma trilha assumidamente kitsch e pouco convencional compilada pelo roqueiro André Matos. O músico trabalhou com o grupo Sepultura que participou de duas faixas, uma das quais ao lado de Zé Ramalho, numa insólita união, interpretando A DANÇA DAS BORBOLETAS de Alceu Valença. Outra pérola é VOCÊ NÃO ME ENSINOU A TE ESQUECER, canção brega de Fernando Mendes, lapidada por Caetano Veloso. Participam ainda Elza Soares, Los Hermanos e Yamandú Costa. Foi uma das trilhas de filmes nacionais mais vendidas de todos os tempos.
85) A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (Martin Scorsese), 1988
Scorsese é apaixonado por rock em especial pelos Rolling Stones, cujas canções comparecem com frequência em suas películas, como em OS BONS COMPANHEIROS, CASSINO e OS INFILTRADOS. Sem falar nos inúmeros documentários musicais (The Band, Stones, Dylan, George Harrison e uma série sobre blues). A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO se diferencia, não apenas por se afastar dos recorrentes temas americanos e da Máfia, mas por contar com uma trilha de world music com sons étnicos, de autoria de Peter Gabriel, ex-vocalista do Genesis (registrada no álbum PASSION), com participação de músicos do Oriente Médio, Ásia e África, como o violinista indiano L Shankar, o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e os senegaleses Youssou N’Dour e Baaba Maal.
86) BELEZA AMERICANA (Sam Mendes), 1999
Estreia do diretor do aclamado drama de guerra 1917 e de dois dos 007’s mais recentes, AMERICAN BEAUTY com Kevin Spacey valeu-lhe 3 Oscars, incluindo melhor filme. A trilha minimalista e introspectiva de Thomas Newman que usa instrumentos de percussão não convencionais também se notabilizou, com destaque para a bela e reflexiva ANY OTHER NAME, executada com um suave e emotivo piano. Thomas (que é filho do campeão das trilhas, Alfred Newman, 9 Oscars), musicou outras películas marcantes como UM SONHO DE LIBERDADE, À ESPERA DE UM MILAGRE e PROCURANDO NEMO,
87) BATMAN (Tim Burton), 1989
Tim Burton é um cineasta sui generis de terror gótico com uma dose de humor e visual caricatural. BATMAN, BATMAN RETURNS, A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES, BEETLEJUICE, EDWARD MÃOS DE TESOURA, MARTE ATACA, PEIXE GRANDE, GRANDES OLHOS e as animações NOIVA CADÁVER e O ESTRANHO MUNDO DE JACK são algumas de suas principais obras. Grande parte de sua filmografia foi musicada por Danny Elfman, compositor proveniente do grupo new wave Oingo Boingo, que derivou do rock para o mundo das trilhas sonoras. BATMAN, estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson, ganhou de Elfman uma música-tema instrumental que se tornou famosa. Paralelamente, foi lançada uma segunda trilha com músicas de Prince que alcançou sucesso comercial.
88) TOMMY (Ken Russell), 1975
A celebrada ópera-rock TOMMY do grupo The Who, lançada num álbum duplo em 1969, ganhou uma badalada versão cinematográfica. O enredo conta com o próprio vocalista Roger Daltrey, como um garoto cego que desenvolveu habilidade em jogar pinball. O elenco, traz também Ann Margareth e Oliver Reed, além de astros do rock como Elton John, Tina Turner e Eric Clapton que incrementaram a trilha sonora. Daltrey atuou como ator em outro filme do diretor, LISZTOMANIA, trilha do tecladista Rick Wakeman. Russell tem em seu currículo o provocativo MULHERES APAIXONADAS (1969) com cenas eróticas ousadas para a época.
89) BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (Michel Gondry), 2004
Drama surrealista, uma das atuações mais elogiados de Jim Carrey que sai de seu estereótipo de fanfarrão, contracenando com seriedade com Kate Winslet. O casal se submete a um experimento para apagar a memória, gerando um conflito emocional com o procedimento. A trilha foi composta por Jon Brion, mais afeito ao pop alternativo. O grande diferencial fica por conta do cantor Beck que ‘roubou a cena’ com sua magistral interpretação de EVERYBODY ‘S GOTTA GET LEARN SOMETHING, único hit do grupo britânico The Korgis.
90) I AM SAM, UMA LIÇÃO DE AMOR (Jessie Nelson), 2001
A sensível diretora Jessie Nelson aborda aqui um tema espinhoso: a relação entre um pai amoroso, mas intelectualmente deficiente, representado por Sean Penn, e sua esperta filha de 7 anos, Dakota Fanning. O personagem vivido por Penn era fã ardoroso dos Beatles, o que originou uma trilha sonora curiosa, que alcançou grande sucesso: canções do quarteto de Liverpool cantadas por uma nova geração de intérpretes (Aimee Mann, Eddie Vedder, Stereophonics, Sheryl Crow, Sarah McLachlan, Black Crowes, Nick Cave etc.)
91) CORRA, LOLA, CORRA (Tom Tykwer), 1998
O cineasta alemão Tykwer, diretor da superprodução PERFUME A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO, também assinou a direção desse singular drama, digno exemplar do cinema europeu contemporâneo, sobre uma frenética jovem que em 20 minutos necessita dispor de uma vultosa quantia em dinheiro para salvar seu namorado de ser assassinado devido a uma dívida contraída com traficantes. A história é contada diversas vezes com pequenas nuances nos detalhes. A aventura é embalada por uma pulsante trilha sonora techno, composta pelo próprio diretor, mais colaboradores. Franka Potente, a principal atriz, interpreta diversas canções.
92) HELLO DOLLY (Gene Kelly), 1969
Gene Kelly, mais conhecido como ator e dançarino, dirigiu esta superprodução, adaptação para a telona do homônimo espetáculo da Broadway de 1964, mantendo-se as músicas compostas por Jerry Herman, com algumas adaptações. No filme, a personagem principal é vivida por Barbra Streisand, que representa uma viúva à procura de um novo marido. A canção-tema interpretada por Barbra já era bem conhecida na voz de Louis Armstrong, o maior hit da carreira do trompetista (seu single tornou-se célebre por ter derrubado a liderança dos Beatles que dominavam as paradas).
93) O GUARDA-COSTAS (Mick Jackson), 1992
Ainda que tenha recebido críticas desfavoráveis, esse suspense romântico estrelado por Kevin Costner e pela cantora Whitney Houston (em sua estreia no cinema) foi a segunda maior bilheteria de 1992. Fenômeno ainda maior foi a trilha sonora que alcançou impressionantes vendas de quase 50 milhões de cópias, o terceiro álbum mais vendido de todos os tempos. O êxito foi catapultado por I WILL ALWAYS LOVE YOU, interpretada por Whitney (original de 1973 com Dolly Parton). O tema instrumental é de Alan Silvestri que tem uma longa parceria com o diretor Robert Zemeckis (DE VOLTA PARA O FUTURO, FORREST GUMP, CONTATO, O NÁUFRAGO, A MORTE LHE CAI BEM), afora produções da Disney e da franquia Marvel.
94) PICNIC (Joshua Longan), 1955
Intitulada no Brasil FÉRIAS DE AMOR, essa comédia romântica tornou-se famosa pela dança carregada de sensualidade (nada explícita, apenas sugerida pelos lentos movimentos), protagonizada pela dupla central William Holden / Kim Novak durante um piquenique numa pequena cidade do Texas, uma das cenas mais icônicas do cinema. A canção que embalou o par tornou-se hit, atingindo a liderança na Billboard numa versão orquestrada (coisa rara). Na verdade, tratava-se de um medley combinando uma composição de George Duning, responsável pela trilha do filme, com MOONGLOW, um standard de jazz dos anos 30.
95) PHILADELPHIA (Jonathan Demme), 1993
Demme tem em seu currículo filmes de peso como O SILÊNCIO DOS INOCENTES e PHILADELPHIA. Esse último, interpretado por Tom Hanks, trata de um tema amargo: o preconceito contra portadores do vírus HIV e homofobia. Recebeu uma trilha marcante com intérpretes do quilate de Peter Gabriel, Neil Young e Maria Callas. A canção STREETS OF PHILADELPHIA interpretada por Bruce Springsteen (vencedora do Oscar), aclamada por crítica e público, teve seu videoclipe dirigido pelo próprio Demme. O cineasta teve forte conexão com a música pop, dirigindo também STOP MAKING SENSE (com canções do Talking Heads) e TOTALMENTE SELVAGEM (com uma seleção musical de primeira).
96) DANÇANDO NO ESCURO (Lars Von Trier), 2000
O controverso diretor dinamarquês Lars Von Trier de filmes como DOGVILLE, MELANCOLIA, ANTICRISTO e NINFOMANÍACA (I e II) costuma utilizar em suas trilhas peças de música clássica ou rocks (Bowie, Deep Purple, Metallica). No caso do musical DANÇANDO NO ESCURO, a cantora Björk, além de atuar (surpreendendo com uma performance bastante elogiada no papel de uma imigrante tcheca), compôs e interpretou as músicas, agrupadas em seu álbum SELMASONGS. A mais conhecida é I’VE SEEN IT ALL, concorrente ao Oscar, contou (mas não na versão do filme) com a participação de Thom Yorke, vocalista do Radiohead.
97) HAWAII CINCO-0 (Leonard Freeman), 1968
A longeva série policial ambientada no Hawaii (o 50º estado dos EUA, daí o título), de grande sucesso, teve duas versões: a primeira com 12 temporadas durou de 1968 a 1980 e a segunda de 2010 a 2020 com 10 temporadas. A conhecidíssima música-tema instrumental, composta por Morton Stevens para a série inicial, foi mantida na continuação (reboot), com arranjo mais moderno. Lançada em single pelo grupo de surf rock The Ventures, alcançou o topo das paradas.
98) LOVE ME TENDER (Robert Webb), 1956
Temos aqui um caso incomum em que a música determinou a trajetória do filme (no Brasil intitulado AMA-ME COM TERNURA). A balada LOVE ME TENDER já havia sido lançada por Elvis Presley, com enorme sucesso, quando este faroeste estava sendo rodado com o título provisório de THE RENO BROTHERS, tendo sido rebatizado com o nome da canção para aproveitar sua exposição. O filme marca a estreia do ‘rei do rock’ no cinema, não como ator principal, embora, devido à sua condição de superastro, tenha roubado as atenções, especialmente quando interpretou as 4 músicas escaladas, lançadas num EP (que passou a ser informalmente a ‘soundtrack’ do filme).
99) BICHO DE SETE CABEÇAS (Laís Bodanzky), 2000
Protagonizado por Rodrigo Santoro, o premiado filme nacional narra o drama vivido por um jovem internado à força num hospital psiquiátrico após ser flagrado pelo pai com um baseado, passando por momentos de horror na instituição. Contando com diversas composições do ex-Titã Arnaldo Antunes, a trilha composta por André Abujamra (do grupo Karnak) fez mais sucesso do que o filme, com destaque para a canção homônima, composta por Geraldo Azevedo e Zé Ramalho interpretada por Zeca Baleiro.
100) ASSASSINOS POR NATUREZA (Oliver Stone), 1994
Oliver Stone é um dos diretores mais provocativos e politicamente engajados do cinema, com trabalhos relevantes como PLATOON, NASCIDO A 4 DE JULHO, WALL STREET e THE DOORS (com músicas da famosa banda capitaneada por Jim Morrison). No sanguinolento NATURAL BORN KILLERS, faixas de artistas como Leonard Cohen, L7 e Bob Dylan compiladas e arranjadas por Trent Reznor, líder do grupo de rock industrial NIN. Trent também compôs (sendo laureado com o Oscar) para a animação SOUL (Pixar/Disney) e REDE SOCIAL de David Fincher (CLUBE DA LUTA, SEVEN) com quem, aliás, estabeleceu exitosa parceria.
Sair da vida de alguém é uma decisão unilateral. Não há consulta nem aviso prévio. Às vezes, se o processo é lento, a outra pessoa percebe. Às vezes, não.
Os motivos para a ruptura na convivência podem ser vários. O mais comum é dar um basta em uma relação tóxica. Depois dos mais variados episódios, das pequenas descortesias até insultos de diferentes graduações, finalmente se toma a decisão. Para alguns ela vem logo, para outros muito além do tempo razoável.
A toxidade tem seus graus. Ela é mais percebida nas situações extremas. Mas nos graus mais leves é igualmente nociva.
Seu efeito contaminante não é imediato e arrasador. Ao contrário, é suave porque envenena pouco a pouco. Os bons momentos convivem lado a lado com as situações ruins, mascarando-as.
Por isso é difícil de detectar que há uma intoxicação em andamento mas ela está lá. Dia a pós dia criando depósitos de substâncias nocivas dentro de nós. Minando nossa vontade, nos transformando em algo que não somos.
O que viramos? Um pouco de tudo e menos de nós. O basta é o ponto de ruptura da relação e da existência daquela persona que permitimos que surgisse. Uma representação simplória do nosso “eu” que pode ser tudo menos “nós”. Nossa vasta complexidade de faces foram submergidas enquanto nadávamos no lago frio e parado dessa relação tóxica. Mais um pouco e nos afogamos.
O “basta” traz à toa quem somos e andávamos esquecidos. Não à toa, a leveza se acomoda a partir do dia em que decidimos negar a outra pessoa nossa companhia, desatando as cordas gastas dos restos insistentes do afeto que estava moribundo.
Cria-se distância entre os dois.
Pela natureza desse tipo de relação tóxica, suave em seu cotidiano contaminante, o rompimento é semelhante. Não há rompantes, discursos, choros, recriminações ou gritos. As poucas palavras ditas são suaves e que pouco a pouco vão ficando desprovidas de calor. A antiga intimidade é coberta por camadas de superficialidade.
Aos poucos, no sentido inverso do envenenamento, vai se criando a capa de proteção. O silêncio ocasional oculta as intenções, as palavras vagas mascaram os pensamentos e os clichês tomam o espaço onde antes habitou a originalidade. Pouco a pouco vão se tornando estranhos um ao outro.
Ocasionalmente, é verdade, a antiga convivência volta a memória. A persona tóxica pensará na outra com saudade e se perguntará onde ela anda e o que faz. Quem se desintoxicou suspirará um instante sorrindo em homenagem aos momentos felizes mas afastará logo do pensamento a lembrança. Aquele cotidiano contaminado deixou avisos em sua memória.
A lembrança daqueles tempos afastará seu olhar para longe. Lá, onde quero estar.
O hábito começou muito cedo. Dizia “papá” e “mamã” com um prazer especial em jogar com as sílabas. “Pa… pá”, “mã… mã” – os sons iam e voltavam até que ele os guardava para depois, quando quisesse, brincar de novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas (“bu… bu”, “pi… pi”, “tó…tó”). Um dia teve febre e ouviu “dodói”; enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a união lhe parecia perfeita, como em “croque” (sentia o atrito de um fonema no outro), “bafo” (a palavra terminava num sopro) ou “empecilho” (pronunciar essa foi um obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram como estranhos. “Erisipela”, por exemplo. Ficaria bem para designar um metal precioso (“Usava um colar de erisipela legítima”), mas não para indicar uma doença. O mesmo se diga de “faniquito”, que mais parecia nome de passarinho (“Na manhã clara e ensolarada, faniquitos em bando cortavam o azul do céu”). Teve pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não combinava em nada com as ulcerações que havia em suas pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas, assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso. O mais das vezes – foi aprendendo – o nome era uma falsa aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir as palavras conforme a semelhança que tinham com os objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, “sanfona”, “crocodilo”, “miosótis”, “turmalina” (se bem que essa mais parecesse nome de mulher) – e do outro “presidente”, “cadeira”, “promotor”, “recurso” (palavras que não excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do baú. Uma das primeiras que jogou fora foi “jucundo”, cuja hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste, mas significava “alegre”). Trocou “jucundo” por “meditabundo”, palavra mais honesta e de acordo com seu atual estado de espírito. Jogou fora também “vagar”, “flanar”, “leviano”, e por pouco não se livrava de “paciente” (“prudência”, que ia substituir a outra, aconselhou-o a esperar mais um pouco).
A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos, mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar, morria). Um dos novos termos foi “achaque”, que vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação poética). Outro foi “próstata”, que lhe pareceu o som de uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi “tumor”, que ele sem graça botou no lugar de “humor”.
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e nada encontraram em seu interior. “Ele era meio tantã”, comentou a mulher. “Passava horas diante desse baú vazio.” Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
Escrevo-te estas mal traçadas pra me despedir. Não me culpe, não me leve a mal nem me mande catar coquinho. Fiz, sim, e não me arrependo, e tu sabe por quê? Pra te ajudar, homem. Não faça juízo errado da minha pessoa nem me deseje má sorte, porque isso não vai ser bonito. E depois tu me conhece, sabe que eu não sou dessas, mesmo que pareça.
Fui embora do cafofo, tu já deve ter percebido que peguei umas mudas de roupa e caí fora. Foi para o teu bem, Negro. Algum dia tu vai compreender todo o tremendo sacrifício que fiz para que tu fizesse sucesso como compositor de samba. Sabe quando tu chega num lugar e todo mundo começa a cantarolar o sambinha que tu fez? Então. Isso tu nunca teve, nunca provou dessa cereja, nunca encostou a língua nesse manjar. Eu te via na dificuldade de inventar uma música para o gosto da comunidade e ganhar algum dinheiro, eu sofria junto de ti, pode acreditar. Então resolvi ajudar te dando um motivo pra ganhar inspiração. Sou boa ou não sou?
Perdida por ti já fui, que maluca não seria? Tu foi o homem que me deu felicidade, Negro, e isso é coisa que ninguém pode negar. Mas lata d’água já deu, não quero mais. Quero o teu samba, e que tu seja realizado. Faz o teu samba, homem, motivo eu te dou: tua mulher deu o fora. Satisfeito?
Não pense que te deixei por que ficando do teu lado eu estaria condenada a uma vida de pobreza eterna, e que se eu continuasse no cafofo acabaria me acostumando a comer o reboco das paredes. Não, Negro, não é nada disso, credo! Fui embora porque queria te ver sozinho, triste e abandonado, sem nada ter de teu mais que o violão velho e lascado, porque só assim tu sofreria e conseguiria fazer um samba precioso, e na letra tu falaria sobre a malandra ingrata e cruel, traidora, que só te fez mal. Garanto pra ti que não vou me ofender por isso. Porque o samba só nasce do sofrimento, não é? Então, te faço sofrer pra florescer. Sabe a carta de alforria que o teu avozinho ganhou no passado? Agora sou eu que te dou alforria, Negro. Se quiser, pode me chamar de Isabel, a princesa. Sou a tua princesa que tá te fazendo um bem maior que o mundo, pra que tu conquiste esse mundo mesmo. E agora tu me diz: sou boa ou não sou?
Ainda, se quiser mais motivo pra incrementar a tua composição, comunico que fui embora na companhia de um cavalheiro que conheci outro dia no Largo da Carioca. Estava vendo vitrine e pensando se aquela saia vermelha ficaria muito justa no meu quadril quando ele se chegou e me disse “Senhorita tão simpática merece ganhar um sorvete duplo de baunilha com morango e um colar de pérolas.” Arrepiei, sabe como? Aí eu respondi “É mesmo? Quero ver se tu não tá mentindo, bonitão de paletó branco. Pode ser framboesa no lugar do morango? Gosto de fruta chique. Tanto calor, não? Ando morrendo pelas tabelas com tanta quentura, Jesus Cristo!” Ele beijou a minha mão e sorriu, o dente de ouro bem na frente. “Evilásio, um seu criado, para servi-la.” Eu não me fiz de rogada: “Marlene, para ser servida.” E beijou mais a minha mão. Escute bem, Negro: beijou a minha mão, igual se beija a mão de uma senhora de respeito. E como uma palavra puxa a outra e as duas lavam as mãos e a cara, no final concordamos que eu iria viver com ele e seria tratada como uma rainha. Sabe rainha? Então. Ele até prometeu me comprar um ventilador pra suportar esse verão, que disseram que esse ano o calor vem pra abrasar a gente. Um ventilador, viu só que luxo? E a francesinha também, toda semana, no pé e na mão. Tu sabe que eu sempre adorei uma francesinha.
Bota isso no teu samba. Diga que tua negra se vendeu. Não é verdade, mas pode dizer mesmo assim, não levo como ofensa. Não é uma alforria? Eu dei a tua liberdade, Negro. Fala pra todo mundo que eu fui a tua Isabel, te deixei livre pra que tu brilhasse. E agora tu me diz se eu não sou boa. Sou ou não sou boa? Anda, fala!
Sei que tu deve tá aí chorando as tuas mágoas sobre o violão, e é assim que deve ser: chora tua saudade, tua dor de corno, chora a falta que tu sente de mim. Chora na melodia, molha as cordas do teu instrumento e tira daí a canção mais linda, aquela que te fará famoso. Tu consegue, o motivo tu já tem. Depois descansa e pensa na tua Negra. É assim que tem que ser.
Adeus, Negro, não jogue a culpa em mim e pensa que tudo o que fiz foi pra que tu conhecesse um pouco de sucesso com uma canção contra mim, contra a tua Negra… Falando mal de mim, ah, que bonita vai ser tua música! E cuida de pagar o aluguel pro seu Vicentino, senão vem ordem de despejo e ele te tira do cafofo. Tem dois meses de atraso, o terceiro ele não deixa passar. Tu não quer morar embaixo do viaduto, quer? Te manda um beijo e um abraço esta companheira que é capaz de tudo pra te ajudar.
A imagem dos demônios dos cristãos foi desenvolvida a partir da figura dos sátiros.
Eles foram semideuses da Mitologia Grega e viveram como devassos, libertinos de carteirinha.
A Bíblia sagrada costuma apresentar os sátiros como sinônimos de demônios, principalmente pelo corpo parecido com bodes.
Não que fossem criaturas que promovessem o mal, mas sim pela aparência associada à quem veio para te levar para o inferno.
O escritor Javier Marías conseguiu descrever com poesia uma associação terminal levada ao cabo em seu livro “Assim começa o mal”:
— Não faz muito tempo que aquela história aconteceu, menos do que costuma durar uma vida, e quão pouco é uma vida quando ela já está terminada, e já se pode contá-la em poucas frases, e só ficam na memória, cinzas que se soltam à menor sacudida e voam à menor lufada, que no entanto, hoje ela seria impossível.
Com os olhos sem maldade, se torna poética uma trajetória humana ao cruzar por uma generosa mente.
O mais famoso dos sátiros foi Mársias, que era uma criatura meio humana com chifres curtos, orelhas pontiagudas, patas de bode e mãos em forma de taça ou de um instrumento musical.
Foi uma divindade grega dos bosques e das montanhas, por vezes também chamado Sileno.
Esse nome lhe foi dado principalmente quando atingia a velhice, ficava barrigudo, feio e andando de burro.
Nota-se que o etarismo já era praticado com ênfase desde bem cedo em nossa existência.
Entre os Romanos, os sátiros eram conhecidos por Faunos, e sua participação nas lendas era quase sempre secundária e pouco decisiva.
Demônios da natureza, companheiros dos deuses, simbolizavam a capacidade criadora dos seres vivos, vegetais ou animais.
Em termos gerais, eram uma mistura de homem, cavalo e bode, variando de acordo com as versões das lendas. No entanto, a expressão “o juízo de sátiro” pode ser vista como uma forma de negativismo ou pessimismo. Quando alguém está constantemente cético em relação à beleza e ao amor, pode perder a capacidade de apreciar a vida em sua plenitude, e deixar de aproveitar as oportunidades que surgem.
A vida perene deve ser compreendida; encontrar o prazer sem azedume faz com que a filosofia exerça uma ginástica objetiva para lhe mostrar um caminho factível, com admiração na maioria de seus momentos.
Compreendido esse capítulo, reza a lenda que a pergunta a ser respondida é por que teimas em manter uma queixa frequente sobre seus dias, por que esperas que somente o amanhã lhe traga a felicidade.
Cuide-se no agora, bem antes que o entardecer lhe mostre que perdeste mais um precioso dia.
Durante muito tempo, sempre que a mídia destacava um ataque envolvendo pitbulls, sobretudo quando havia feridos graves ou mortes, eu me via quase instintivamente na defesa da raça, devolvendo a responsabilidade aos donos. Essa convicção, de fato, não se alterou. No entanto, diante da sucessão de episódios recentes, muitos deles de extrema gravidade, incluindo o ataque mais recente a uma criança de quatro anos que perdeu a vida, sinto-me obrigado a revisar e aprofundar o meu posicionamento.
Não deposito culpa no cão, jamais. Mas é inegável que a raça entrou num estágio crítico provocado pela irresponsabilidade de alguns donos. Eu não gostaria que tivéssemos chegado a este ponto; era para termos mais controle sobre tantas tragédias. A realidade, contudo, se impõe. E ela exige que abandonemos certas ilusões regulatórias: não adianta criar novas leis quando não existe fiscalização capaz de sustentá-las.
É verdade que qualquer apaixonado pela raça pode desejar ter um pitbull. Mas desejar não é o mesmo que estar preparado. A raça demanda conhecimento, equilíbrio emocional, senso de responsabilidade e humildade para aprender. Como treinador, reafirmo o que sempre disse: um cão só se torna perigoso quando cai nas mãos de pessoas despreparadas, muitas delas movidas por vaidade, impulso ou fantasia de poder.
Sempre defendi que todo interessado em ter um cão da raça deveria obrigatoriamente passar por um treinamento sério, capaz de oferecer compreensão real sobre o temperamento, as necessidades e os riscos envolvidos. Hoje, reconheço que isso não basta. É preciso algo mais: leis mais rigorosas, fiscalização presente, punições claras e multas severas para quem desrespeitar as normas.
O problema — e aqui se revela uma ferida antiga — é que a fiscalização raramente alcança os criadores clandestinos. É nesse subterrâneo que a raiz do desastre se instala. Ali, multiplicam-se cães sem critério, sem ética, sem qualquer responsabilidade. Enquanto isso, os criadores sérios, que trabalham com transparência e compromisso, acabam carregando um peso que não lhes pertence. No Brasil, infelizmente, a lógica costuma ser essa: pune-se quem faz certo, ignora-se quem faz errado.
E quem perde com isso? Perde o cão, que não tem voz para se defender. Perde a raça, marcada injustamente por estigmas que não nasceu para carregar. Perde a sociedade, que desperdiça a chance de aprender com as tragédias e impedir que se repitam. Perdem também aqueles que sempre amaram o pitbull com consciência, respeito e responsabilidade. Se existe algo a salvar, começa por admitir o óbvio: o problema não é o pitbull. O problema é o caminho torto que alguns humanos insistem em trilhar.
É por isso que deixo aqui um alerta que não nasce de teorias, nem de exageros, tampouco de histeria coletiva. É constatação dolorosa de quem convive com cães todos os dias: estamos colocando o pitbull à beira de um abismo que ele não cavou. Se continuarmos tratando a raça como vilã, permitindo que criadores clandestinos se multipliquem impunemente, entregando cães potentes a pessoas despreparadas e fingindo que leis sem fiscalização resolvem alguma coisa, teremos um fim irreversível.
O pitbull precisa de nós agora. Não de capas de jornal inflamadas, nem de discursos vazios, muito menos de ondas de ódio ou de um sensacionalismo que o confunda com qualquer outro cão de cabeça larga e focinho profundo. Isso, sim, é injusto. O que ele precisa é de responsabilidade, educação, vigilância e coragem pública para enfrentar o problema onde ele realmente nasce.
Se nada for feito, poderemos ter mais mortes. Ou perderemos a chance de corrigir um erro que não é deles. Este texto é, ao mesmo tempo, um alerta e um pedido de socorro. Salvemos a raça antes que a ignorância a condene definitivamente.
Menino de quatro anos morre após ser atacado por pitbull na zona norte do Rio
A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha intactos álbuns de figurinha e ficava lendo e observando cada uma delas na hora do recreio. Tinha, por isso, todas as mais raras, que eram objeto de troca, literalmente, somente para dar aos coleguinhas mais chegados a figura que lhes faltava. Uma vez meus pais viajaram com meu avô materno, para Uruguai, Argentina e Paraguai, em um passeio muito realizado à época, pela empresa Soletur, de ônibus, que saía exatamente do Rio de Janeiro com direção ao Sul do País e adjacências. Não conto as vezes em que chorei amalgamado às perturbações e tristezas provocadas pela solidão e abandono. Não entedia que meu pai e minha mãe fossem voltar. Minha avó, já idosa, não dava muita bola, mas me deixava escutar as canções que passavam no rádio. Uma bem famosa era Hunting High and Low, do a-ha, que me fazia chorar em desabalada desesperança. Talvez por isso, na vida adulta, tenha me apegado às músicas desse gênero, que trazem uma dorzinha no coração, como as da banda Toto também. Para falar mais sobre a melancolia, devo dizer que não me esqueço das palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, que dizia ter a melancolia entranhada – e parece que já se acostumara com isso; relatara o fato a seu psiquiatra, que já não sabia o que fazer. De fato, com o tempo, aprendi, a partir de estudos aprofundados, que a melancolia é diferente da depressão. Na Psicanálise, a depressão é a perda da experiência, do desejo, da vontade, enquanto a melancolia é possuir um corpo sensível muito aguçado, para o bem ou para o mal. Mas não vim aqui falar de teorias. As pessoas não entendem que nasci assim, e que não é culpa minha ser melancólico. Já perdi amizades por isso, pela minha introspecção, por não entenderem que não estou sempre à disposição, que tenho meus momentos de angústia e solidão, necessários à minha sobrevivência. Quando criança, fui tido como depressivo e, pasmem, “um projeto de homossexual”, dada a minha hipersensibilidade. Nunca liguei. Coisa de gente pequena. Meu pai mesmo comprava revista de mulher pelada para um menino de cerca de dez anos e me dava, para me “divertir”; sem nem eu saber o porquê disso. Descobri tantas coisas, como a minha capacidade para as Artes… E não há nada que me impeça de viver da minha forma, neurodivergente, pois que, além do mais, sou autista, nível 1 de suporte. Levei tempo para me acostumar comigo. Agora quero ser feliz assim.
Engraçado: sou fã de carteirinha de muita gente séria e focada que vejo pelas ruas. Parece que, de tão preocupadas, vão resolver o problema da humanidade, todas as injustiças do mundo. Gente que não se distrai nunca, não perde tempo, não olha pro lado.
Queria ser assim, mas não sou.
Estou mais preocupado, claro, com coisas que se passam dentro de mim: uma música que ouvi e não me saiu da cabeça, uma piada que me faz rir sozinho na rua, uma saudade de um amor que passou, um filme que eu vi.
Aí, naturalmente, quando saio de casa, não me lembro se minha ideia era ir no açougue ou no hortifruti do bairro. Se era pra comprar pão ou alpiste do passarinho.
Outras coisas que, invariavelmente, eu esqueço: horários de compromisso, datas, aniversários — a vida organizada dos outros.
Mas, quer saber?
Acaba dando tudo muito certo.
Se eu deixo passar a data de um concurso, as inscrições são prorrogadas.
— “Você viu que as inscrições foram prorrogadaa?” — me avisa um amigo.
Se eu perco o horário de um ônibus, um conhecido passa e me dá carona. Se eu perco um documento de RG, alguém acha e me liga.
Acho que, de certa forma, o acaso gosta dos distraídos. Vive dando uma forcinha, arrumando um atalho, uma saída de emergência qualquer.
Como aquele motorista de ônibus que, solidário com a minha pressa, desviou a rota só pra me deixar no trabalho. Ele disse que não podia. Mas fez.
Acho que o mundo tem pena dos distraídos. Ou, quem sabe, simpatia.
O mundo está cheio de gente certinha demais, preto no branco demais. Talvez seja por isso que ele ajuda tanto gente distraída como eu.
As nuvens tecem uma história diária e sem antecedentes. Não sei se pode chamar de trabalho (o trabalho das nuvens) o que parece ser mais um deslizar contínuo de um sonho que não se sabe a si mesmo e apenas escorre para um vazio profundo.
Eu, que estou na janela, vejo as nuvens e não enxergo a razão de se estar a vê-las sem que se possa interferir ou sustar a sua indiferença. A vida humana é mesmo esse estar-sempre-dependurado a uma janela da inércia fechada para o infinito.
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