Crônicas Cariocas

  • Eternidade

    Quanta solidão. A todo tempo me vejo irremediavelmente só. O meu quarto é o meu abrigo, de onde vejo o céu escasso, tetos e paredes rachadas. Ainda me pergunto, qual foi o grande mal que fiz? Não sei. Mariazinha, minha irmã, muito preocupada, se derretia em atendimentos a mim, seu único irmão, doente. Vinha pelo menos umas três vezes na semana para me visitar. Ficou doente, de uma hora para outra, e eu que ia lhe visitar aos sábados ou domingos, pois na semana não costumo sair. Meus sobrinhos a enchiam de mimos, porque, realmente, ela era uma mulher muito digna e boa. Mas a doença logo se espalhou e Mariazinha morreu se vendo de dor. Ela não merecia isso. Pedi tanto a Deus para me dar o sofrimento dela. Quando ela se foi, me vi mais perdido. Passei meses em casa sem receber uma visita sequer, a não ser de Raimunda, a empregada da casa vizinha, que vez ou outra se compadecia de mim e deixava uma sopinha. Não fui capaz de amar, eis a questão crucial. Todos os meus relacionamentos foram baldados, curtos e ínfimos. Logo eu me enjoava dos pedidos de amor eterno, etc e tal. Podia ter suportado mais a Anna, que era a mais cautelosa, de poucas palavras, mas, com minha ira sem nome, me fartei de sua palidez. Ela foi boa, até demais, a ponto de me impregnar de desejo de ter um filho. Mas ela saiu muda, e para sempre se foi de mim, nunca mais tive notícias. Mariazinha, que parece que mantinha ainda contato, disse que ela, de desgosto, teria ido morar no interior, em Mauriti, voltado ao aconchego dos pais. Agora estou aqui, velho, doente, sem um socorro. Não tive filho algum. Era o meu sonho, mas em nenhuma barriga a minha semente vingou. Foi assim que pensei por anos. Até que na terça-feira passada me surgiu um homem de seus quarenta e tantos anos. Disse que me conhecia por fotos. Pediu para entrar. Não permiti, dado que não o conhecia e que a casa estava uma bagunça. Então, soltou que era meu filho e queria me conhecer melhor; que sua mãe Anna o teria prevenido de que eu era uma pessoa muito difícil de lidar; que tivesse cuidado para não ser escorraçado de sua casa. Na hora, chorei feito uma criança. Mostrei a ele o meu lado sensível, humano, escondido há anos, que só ele merecia ter e ver. Teria um colo e um abrigo, quando precisasse. A minha fome era tanta, de ter alguém ao meu lado, que não pedi exame de DNA, já o considerei aí meu filho. Agora estamos buscando aplacar o tempo, porque, além de tudo, sou avô de duas crianças lindas. Tenho fé de que teremos condições de recuperar o nosso processo, inacabado. Falei a ele, ali, ainda do outro lado da porta, que o amava muito; que tinha pena dele, de não poder ter tido tempo de me conhecer antes, para eu paparicá-lo. Veja, não sou um homem mal, mas iracundo, ranzinza, pela crueza da vida. Pedi que entrasse e me desse um abraço. Um abraço que durou a eternidade.

  • Feliz Natal

    Sempre achei que, embora viver com gente dê trabalho, viver sozinho simplesmente não funciona. Somos seres de comunicação. Precisamos de gente por perto — pais, mães, amigos, irmãos, colegas de trabalho, professores, clientes, fregueses, marido, mulher, namorado, crush — Todos nós. Precisamos. De gente.

    Mesmo quando temos dinheiro, mesmo quando achamos que já resolvemos tudo. Viver sozinho? Não dá. Talvez por isso a vida nos obrigue a nos renovar o tempo todo — a repensar atitudes —. Porque, convenhamos, todo mundo é um pouco egoísta, de vez em quando. Ninguém acorda todos os dias disposto a dar bom dia a um desconhecido, muito menos numa segunda-feira.

    A vida é feita de pequenas provas de resistência: chefes que tiram nossa paciência; trânsito engarrafado, quando estamos atrasados; telefone que resolve dar problema justo no dia em que guarda todas as nossas senhas e dados bancários. A vida testa e, quando estamos no limite, qualquer um pode ser grosseiro. Ainda assim, é reconfortante quando percebemos que dá para tentar de novo, se renovar.

    Renovar-se é um exercício diário. Sem glamour. Como não somos perfeitos, passamos a vida tentando ser pais melhores; filhos melhores; parceiros melhores. Às vezes, passamos anos tentando aprender algo básico: ser amigo. Cuidar das amizades dá trabalho — e dá trabalho para sempre.

    Pensei nisso esta semana, ao assistir a “O Natal dos Muppets”. Um filme americano — bonito, delicado —. A história acompanha Ebenezer Scrooge, um homem que mede tudo em dinheiro; não se importa em demitir pessoas nem em cobrar dívidas altas, mesmo no Natal. Um sujeito que acredita não precisar de ninguém.

    E é impossível não se reconhecer um pouco nele. No corre-corre do cotidiano, a gente se ocupa demais em ganhar dinheiro, comprar coisas, acumular. O filme, no entanto, lembra algo simples: é possível ser feliz com pouco. E, quando isso acontece, a gente ama melhor quem está ao nosso lado. A gente se renova, um pouco a cada dia.

    Talvez esse seja o verdadeiro sentido do Natal. Não apenas a troca de presentes, a ceia farta ou os abraços. Há quem trabalhe na noite de Natal, há quem sinta a falta de quem já se foi. O espírito natalino tem mais a ver com sair um pouco de si e enxergar o outro. Com se renovar.

    Gostando ou não da data comemorativa, aproveito para agradecer aos leitores do Crônicas Cariocas por um ano generoso. Esta casa me acolheu muito bem. Desejo a todos os leitores, amigos e colegas cronistas um Feliz Natal, cada um celebrando à sua maneira.

  • Poema #49: Identificação

    Identifico-me com a noite
    e com o que ela traz
    de específico a si mesma,
    e assim fazendo, aceito
    o convívio de seres opacos
    e da nova ordem e estado de coisas
    que o escuro inaugura.
    Identifico-me com o avesso
    sou aliás o próprio avesso de mim,
    e assim sendo, conheço
    as esquinas sombrias
    nas quais se disfarça
    a inexorável nulidade.
    Volto de manhã para casa,
    e num balanço isento da noite
    nenhum acréscimo se me acrescentou
    de forma permanente.
    Voltei eu mesmo sozinho e íntegro,
    apesar das concessões necessárias
    ao convívio comum entre os homens.
    Nada ganhei e também nada de mim
    se perdeu, exceto esta vida
    que amanhece mais velha.

    O Acaso das Manhãs

  • Errância

    Os parceiros musicais Mila Cox e Zími haviam conversado sobre adotarem ou não temas mais políticos em suas músicas.

    Para ela, as músicas tinham abordagem política, mesmo com letras minimalistas e sem serem panfletárias, mas sempre enfatizando, entre outras coisas, uma posição antifascista.

    Ela falou: “Não precisamos ser chatos como o Bono”.

    Mas para Zími, era preciso amplificar essa abordagem, pois estavam passando por um período perigoso e ameaçador, num país que nasceu de um projeto que podia ser chamado de proto-fascista, com invasão das terras e extermínio de uma civilização.

    A conversa se deu na volta de um show que fizeram como o duo Crop Circles numa festa junina em Catanduva que deu espaço para quatro bandas de rock, de diferentes subgêneros.

    Ele já tinha quase cinquenta anos e começou um outro dia praguejando sobre quanta merda uma pessoa tem que aguentar apenas para se manter viva.  

    Dessa vez a queixa era por conta de um pagamento não realizado por um trabalho que realizou como freelancer, como porteiro substituto num prédio residencial na Rua Aurora.

    Então enfiou a mão entre o assento e o encosto do sofá, onde havia dormido à noite.  

    Correu-a por ali e encontrou uma moeda de dez centavos, um pente e uma tampa de caneta.

    Logo tomou algum ânimo para procurar se atualizar um pouco sobre a situação do resto do mundo, através de fontes que ele confiava, para que isso melhorasse sua estima, pois isso o fazia lembrar que não tinha tantos motivos para lamúrias.

    Era estranho, mas em dias ruins, ele ganhava sobrevida ao se deparar com notícias tristes, outras trágicas e outras constrangedoras, lembrando que problemas do cotidiano são para todos, mesmo que em diferentes circunstâncias.

    Cada uma dessas notícias, um resultado crônico de repetidas ações que ele repudiava, idealizadas e comandadas por gente que ele também repudiava. Tudo isso seguido e praticado por um imenso rebanho humano cego, burro e passivo, desprovido de qualquer autonomia intelectual.

    Nativo de um país agora regredido ao agrarismo da soja, sob ameaça de fascismo, e com o planeta à beira de um colapso climático.

    Entendia a razão de poder ser considerado um fracassado, pois só seria vencedor no sistema excludente e perverso em que vive se não fosse a pessoa que é.  

    Apesar de estar cansado de lembrar que a falência do sistema é a origem de muitas mazelas humanas e saber que utopias não o tirariam daquela miséria existencial, sabia também que elas serviam ao menos para que não mandasse tudo às favas de uma vez, entrando propositadamente numa overdose letal.

    O sistema educacional estimula a todos que a ele tem acesso, a buscar por um tipo de vitória, que por questão de índole, nunca o estimulou.

    É necessário que haja milhares de derrotados para cada vencedor.

    Milhares de almas atormentadas com pensamentos suicidas que também se perguntam o porquê de tudo isso, apenas para adiar a morte, que levaria a um esquecimento absoluto, até para quem era próximo, e que provavelmente terá o mesmo destino.

    Isso tudo enquanto o que há de verdadeiramente heroico num ser humano é não pertencer a nenhum rebanho.

    Não há lugar algum para chegar, não ser a tumba, e para depois disso, talvez a distinção pós morte para aqueles que deixam na Terra algum legado que também não caia no esquecimento, caso de um entre milhares, sendo que muitos dos quais chegaram a sonhar com a tal vitória, buscada por uma fé cega que os moveu até lugar nenhum.

    Algo típico de quem é enganado durante muito tempo, e que tende a rejeitar qualquer prova de fraude, se desinteressando em descobrir a verdade, pois é doloroso reconhecer, ainda que para si mesmo, que fora enganado, às vezes por toda a vida.

    Pelo menos as manhãs não eram todas iguais, porque para ele também havia aquelas em que podia acordar calmo, com o apagamento das urgências, das angústias e dos receios de irrealização, resultado de alguma pequena vitória recente ou da própria insolubilidade de questões perturbadoras.  

    O dia anterior havia sido de derrota, com muito tempo na porta de um supermercado esperando pelo pagamento do freela, fumando e verificando a todo momento o aplicativo do banco do qual era cliente, para ver se finalmente o pagamento havia sido efetuado.

    Havia agora, na porta de qualquer mercado de toda a região central de São Paulo, um número cada dia maior de pessoas desesperadas de fome, pedindo algum tipo de ajuda, e olhadas com perplexidade e rancor pela maioria dos que ainda saiam de lá com sacolas de comida para levar para casa.

    Algumas dessas pessoas ainda são capazes de ostentar certos privilégios, em plena crise aguda numa terra sem deus nem lei.

    Sempre que ele saía de algum desses lugares depois de alguma compra, carregava com sua sacola de mantimentos um tipo de culpa bastante incômodo, ao ver tanta miséria.

    Nessas horas lembrava novamente do sistema, porque sabia que a miséria é culpa dele, e não de simples fracassos pessoais, como tanta gente está condicionada a acreditar.

    Foi obrigado a desistir da espera quando a bateria de seu celular vagabundo acabou, de tanto que verificava o aplicativo do banco à espera do dinheiro.  

    Então, voltou pra casa, abriu as bitucas de cigarro de sua lixeira e bolou o recheio delas em guardanapos de boteco, como se fossem baseados, e depois dormiu com fome.

    Nem mesmo esse tipo de perrengue era capaz de fazê-lo desistir de fazer esses bicos em vez de algum emprego com carteira assinada numa empresa que chama o empregado de “colaborador”, com longas jornadas de trabalho, baixa remuneração e assédio moral.

    Enquanto isso, Mila Cox apenas se lembrava da frase que ouviu dele certa vez, em que dizia ter se enganado apenas uma vez, ao pensar estar enganado sobre um tema menos importante que a conclusão tirada dele.

    Era um indício de que o problema dele não era falta de autoestima.

    E aquele dia seria bom para ele, que ao encontrá-la, sempre revive sua sociabilidade, tão comprometida por tempos de escassez de tempo e dinheiro, o que então lhe fazia ter que gastar energia, completando a tríade que tanto prezava, que era tempo, dinheiro e energia.

    Ela era muito mais jovem, e isso o levava, andando com ela, a fazer coisas que jamais faria sem sua influência.  

    Servia também, até certo ponto, como renovação no ânimo de viver.

    Sair de sua zona de “conforto” não era tão dramático para Zími, porque não havia ali, de fato, muito conforto.  

    Havia, sim, uma rotina razoavelmente previsível, até para se preparar com certa antecedência para a chegada de perrengues, que para ele, eram sempre financeiros.  

    Vivia sozinho num apartamento no centro da cidade, sendo um consumidor minimalista e praticante do desperdício zero.

    Já Cox tinha seus próprios problemas, e carregava bastante insatisfação, não exatamente pela vida que levava individualmente, mas pelas mazelas da conjuntura.

    Mas ainda era jovem o bastante para gritar um pouco mais, por causa do retrospecto de vida mais curto e por teoricamente ter mais tempo pela frente, para enfrentar desdobramentos malignos de eventuais tendências equivocadas dos dias atuais e anteriores.

    Tinha vinte e um anos, e apesar de ter um porte físico pequeno, era o tipo de pessoa que se reconhece de tão longe, quanto se possa enxergar, com o cabelo curto cuja cor era mudada quase semanalmente.

    Ela tem um Chevette Jeans 79 que chama atenção por onde passa, desde shows que faz pelo interior de São Paulo, até estacionamentos de supermercado.

    Quando questionada se era tímida ou premeditadamente antissocial, respondia que costumava conversar com quem realmente interessava, pois muitas pessoas hoje em dia vivem se sentindo insultadas, e quando não tem a resposta que querem ouvir, a tomam como uma afronta, e que a música a ajuda nessa questão, mesmo quando suas músicas geram dúvidas sobre o que realmente querem expressar.

    Estudava Letras e era uma copywriter freelancer, com ganhos sempre superiores aos de Zími, e mora com os pais numa boa casa na Penha.

    No atual momento, ambos apenas vivem, cada um à sua maneira, esperando o que há por vir para a humanidade, sem tanta esperança de dias melhores, mas com a certeza de que ainda não vimos nada em termos de tempos surreais, e que o pior ainda está por vir.

  • Onde mora o seu olhar

    Nunca havia pensado na morada dos olhos, e sua relação com a inspiração necessária para um bom escritor, até que me caiu no colo o texto magnífico de Rubem Alves – A arte de ver.

    Me encantou esse termo, morada dos olhos, pois ele dá uma outra dimensão à diferença entre o ver e o olhar, que está relacionada à morada onde guardamos aquilo que nossos olhos captam.

    Se captamos as imagens somente com a visão, elas são armazenadas em uma caixa de retratos.

    Colecionamos imagens que nos são úteis para referenciar, objetivamente, o mundo que nos cerca. Pensando na arte da escrita, essa caixa nos fornece material para descrever a forma, a cor, o tamanho dos objetos que vemos – um bolo de chocolate com cobertura, por exemplo. Se bem descrito, podemos até sentir na boca sua cremosidade.

    Mas, se captamos o que nos cerca com o olhar, se abrimos nossos escaninhos, conseguimos romper com a racionalidade objetiva e nos conectarmos com significados e emoções que vão muito além do objeto. E, aí, a morada desse olhar é uma porta aberta dentro de nós; o olhar nos habita, mas é livre, cigano, vagando por aqui e ali. É o olhar do escritor poeta, que ao pousar em um bolo de chocolate, é capaz de sentir e nos fazer sentir, em seu texto, a cremosidade de um beijo apaixonado.

    Como poeticamente colocou Alberto Caeiro (citado no texto de Rubem Alves), para isso é preciso “partejar olhos vagabundos”

  • A última crônica do ano – amanhã há de ser outro dia

    E terminamos mais um ano. Mais um ano que corre e corremos juntos para não perder a viagem! Empacotamos novos e velhos sonhos para o ano que virá…

    O mês de dezembro é assim: o último mês do ano é tão apressado, mas tão apressado que parece querer o novo calendário!

    E correm as pessoas com as festas de Natal e as festas da virada. Roupas, nomes, mensagens, sorrisos, promessas, presentes, viagens…

    E terminamos mais um ano.

    As velhas e repetidas canções de natal, de todos os natais, embalam as ruas e as casas, embalam a fraterna pressa tão típica de fim de ano, todos os anos…

    Mas…

    Mesmo que façamos as mesmas coisas (ou pelo menos, boa parte delas), guardamos dentro de nós mesmos uma certa urgência e uma necessidade verdadeira de acreditar que as coisas vão mudar, vão se acertar… E colocamos confiança, fé, esperança em um novo momento, como se fosse um presente, um bálsamo, um afago que nos dá força para continuarmos a grande aventura da vida…

    Assim, enfeitamos a casa, arrumamos a mesa, chamamos os amigos, colocamos luzes nas janelas, nas varandas, nos quintais…

    Assim, preparamos a melhor roupa, damos um trato no cabelo, organizamos a melhor ceia e colocamos no rosto o melhor sorriso.

    Seguir em frente é preciso… É preciso!

    Termino esta última crônica parafraseando o velho mestre Chico Buarque…

    Apesar das bombas, da cara feia, dos políticos e suas politicagens, dos malandros e das suas malandragens, amanhã há de ser outro dia!

    Apesar das intempéries da vida e dos sobressaltos diários, amanhã há de ser outro dia!

    E daqui a alguns dias, há de ser natal!

    E daqui mais alguns dias, há de ser um novo ano!

    Com toda certeza, será um outro dia!

  • Entre

    A arte salva momentos.
    A frase foi construída por Matilde Campilho, num vídeo brevíssimo — desses que carregam a tônica do fulgaz que uma gravação de Instagram faz reverberar por nossas pupilas. Prendeu-me num eco posterior ao instante do encontro com a postagem, enquanto eu dedilhava a tela com a ansiedade tão comum — e tão normalizada — no comportamento contemporâneo.

    A arte salva.
    E, às vezes, sem que sequer nos demos conta de que precisávamos ser salvos. Tomemos o exemplo da poetisa portuguesa Matilde,

    • que: contou a história de um dia em que, ainda criança, resolveu dar um passeio sozinha, desbravadora assim, acompanhada apenas por sua mochila — artista desde sempre;
    • entrou num museu e se estarreceu diante da enormidade de uma pintura imensa, instalada numa sala igualmente imensa;
    • não, não era apenas a diferença de escala entre a menina pequena e a obra monumental que fez seus joelhos fraquejarem;
    • ali ela se deixou ficar. “Trinta minutos, um quarto de hora”;
    • quando voltou para a família e contou, com os olhos brilhando, que havia visto algo incrível, não soube responder aos adultos o que exatamente era.

    A arte não precisa significar, propriamente.
    Ela é um todo que se percebe pelos sentidos, não pela razão. Racionalizar o mundo tende a retirar-lhe a beleza. Explicar demais, mostrar demais, produzir conteúdo a torto e a direito — numa onda que, inevitavelmente, vai quebrar mais adiante — também. A arte tem como propriedade o encantamento. E o encantamento se retém apenas por percepções: tato, olfato, visão, audição, paladar. E, sobretudo, na dimensão do tempo.

    O tempo.
    Ele vem regendo meu modo de encarar o mundo desde que meu pai se foi. Parece que se chocaram em mim — ou por mim — as três vertentes conhecidas: a do ontem, a do agora e a do amanhã de manhã, esse futuro imediato. O presente, então, pulsa em outra frequência. Acaricia meu rosto com mãos delicadas e, ao mesmo tempo, quando me olho com profundidade, faz com que eu me apaixone perdidamente pela vida, sem saber ao certo que rumo tomar.

    Estou viva.
    É final de 2025 — ano torto, ano obscuro, ano adoentado e, ainda assim, tão necessário no intramundo de cada um. A mente, como os livros, as pinturas, as instalações artísticas, os filmes, é uma máquina do tempo literal e literária.

    E alguém aqui já leu… H. G. Wells?

  • Reflexões em tempos de espanto

    Nas últimas semanas, tenho pensado a respeito de uma dúvida que sempre me ocorreu: as palavras têm, por si só, o poder de iludir ou é a paixão quem confere a elas esse dote?

    Quem não conhece a facilidade do sujeito apaixonado para confundir alô com amor? Não adianta defender que dessa leseira não sofreremos. Basta uma breve reflexão sobre antigas decepções amorosas e logo se apresenta a pergunta: Como não percebemos isso? Estava na cara que não valia nada…

    A bem da verdade, só vemos o que nos conforta ou suportamos ver. Essa é a raiz da cegueira afetiva. E a palavra, pelo visto, embaça a visão.

    A ideia de um encaixe perfeito ou de uma imaginária completude entre as pessoas, independentemente do tipo de relação em que se apoie, porta sempre uma ilusão, uma fala(cia). O discurso se faz tijolo na construção do trono mítico do amado. E mais, à medida que o apaixonamento avança para o campo da idolatria, situação na qual o objeto cultuado é aquele a quem nos entregamos como único salvador, mais ensebamos as palavras na tentativa de escamotear a verdade áspera da nossa própria escuridão.

    Se mais nos vestimos de encanto, mais nos despimos de realidade. É assim que os olhos perdem sua função, e as ações, sua significância. A razão, senhora justa e ponderada, é esculachada em praça pública. Quem quer saber dela? O próprio ditado insinua a ingenuidade desastrosa do sentimento: o que os olhos não veem o coração não sente. Faço aqui um adendo e uma advertência: Não importa se os olhos veem e o coração sente, isso não dá sustância. A paixão tem fome de doces promessas. Engole sem mastigar. Se farta e se lambuza de casadinhos feitos de palavras e ilusão. É perigosa, mas não necessariamente letal.

    Num dado momento, saciamos a fome e, por vezes até, vomitamos. A palavra recupera sua roupa de andar em casa.

    O mesmo não se pode dizer no enamoramento cego, típico da idolatria. Nele, acredito, há uma duplicação do sujeito e do seu dito.

    O objeto amado, venerado e enaltecido, ainda que em condições insalubres de afeto, é puro reflexo. Representa uma versão esmaltada e lustrosa desse sujeito que até então vagava desalmado de sentido. Faminto de importância, engole sem mastigar casadinhos de narcisismo e ostentação. Não enjoa, não
    cansa. Arrota insanidade.

    Nada importa. Ninguém.

    Nenhuma explicação é capaz de abarcar a submissão profana de um corpo ao seu reflexo, visto em carne e osso do lado de fora. Não nos enganemos.

    ]Ninguém venera a diferença.

    Só se idolatra a própria imagem, cifrada nas palavras e ações do outro idolatrado. Ambos se pertencem.

    E quanto à palavra, concluo que ela não é culpada. Para que a palavra iluda, alguém precisa dizê-la. Alguém precisa ouvi-la e querer validá-la.

  • Maria Quitéria

    Boca aberta, torta para um lado, os olhos para o outro, parados na morte.

    “Não faça isso comigo. Volte, Paizinho.”

    Olha para a esquerda, vesgo na eternidade.

    “Paizinho, eu prometo ser boazinha. Eu faço tudo.”

    A ponta da língua no canto da boca, quer sair. O safado.

    “Eu prometo, Paizinho. Nem na igreja, nunca mais.”

    – Na igreja, eu sei. Dava para o padre.

    – Olha, parece que vai rir. Morto mais sacana.

    – Perseguia a filha em tudo quanto era canto.

    – É. No bar, eu vi erguendo o vestido. A mão na bunda.

    – Boazuda, a Quitéria.

    – Boa moça. Trabalhadeira. Vivia na igreja.

    – Verdade que andava com o padre?

    – Bobagem. Andava é fugindo do pai.

    De mãos postas no centro do tapete, se faz de santo. O revólver do lado. As mãos rezando, debaixo o buraco da bala.

    “Eu não queria, juro que eu não queria. Você disse: Atira.”

    – O revólver não tinha bala. Decerto pensou que o revólver não tinha bala.

    – O diabo atenta, minha mãe dizia.

    – Um tiro só, bastou um, na barriga, e puf! O diabo murchou, se apagou.

    – Até soltava fumaça, tanto que bufava.

    – Está virando os olhos, está virando os olhos.

    – Que nada. Esse está longe, com os anjos e os santos.

    – Ou com os diabos amigos dele.

    “Paizinho, que eu faço da minha vida? Se o revólver tivesse mais bala, eu me matava.”

    – Não é uma lágrima que cai do olho?

    “Aguinha azul, vontade de beijar, beber essa aguinha da morte.”

    – Deve ser azul, a morte.

    – É negra. Preta que nem um urubu, um morcego.

    – Que frio! Um gelo o coração.

    – Um morcego te chupando o sangue. Só fica essa aguinha azul, morcego não gosta.

    “Pai, e se eu me enforcar? Tem uma corda na cozinha.”

    – O vestido rasgado, que vergonha! Não é um seio de fora? E esses dois lambendo carniça? Os dois, o contista bisbilhoteiro.

    “Feito louca pela casa. Tenho as mãos manchadas de sangue. Quero morrer, quero morrer.”

    “Você foi-se embora, Paizinho, por quê? Não dá para entender. Queria me violentar? O revólver estava tão pesado!”

    “Atira, sua cadela.”

    “Eu atirei, o revólver pesado.”

    Não tinha bala? Umazinha só, esquecida no tambor. A bala que o diabo pôs lá.

  • Morrer de amor

    Uma noite dessas tive a boa ideia de assistir a apresentação de um coral onde uma amiga querida canta. O programa foi todo dedicado à Rita Lee e, de repente, durante a apresentação algo me tocou e foi a letra de “Saúde”. A parte que acendeu uma lâmpada, ou chama se preferir, é a seguinte: Se por acaso morrer do coração/É sinal que amei demais. Confesso que sorri.

    Por que sorriu? Lembrou dos amores passados?

    Sabe que não. Eu sorri porque ali naquele teatro escutando o coral cantar eu me dei conta que morro do coração por amor desde que era adolescente. Não é exagero, é verdade. Eu sei que é difícil acreditar porque usualmente eu projeto uma imagem séria e bem controlada, até porque a grande maioria das pessoas que convivem comigo atualmente são do campo profissional. Portanto, a gente até sorri mas é algo mais corporativo.

    Tá, sem viagem por favor. Continua porque estou tentando te entender.

    Às vezes nem eu consigo isso. Mas enfim ai me veio à cabeça a ideia que nas multidões anônimas que se esbarram todos os dias pelas ruas existem aqueles cujos corações pararam. As razões são as mais variadas, isto é, as dores de amor são múltiplas. Tem pela pessoa amada, a mais comum, mas tem por filhos, animais de estimação, carros, casas, relíquias e até por livros que se perderam. Tudo pode provocar paixão ao mesmo tempo em que tudo pode partir o coração.

    Verdade, concordo com você.

    Então, nas noites com ou sem lua se fosse possivel escutar a frequência dos uivos de quem padece por amor seria ensurdecedor. Cada um, com sua dor, uivando aos prantos. Mas uivo de amor tem uma frequência tão alta que nem os cães captam. Toda noite, tão certo quanto há estrelas no firmamento, tem a sinfonia dos desesperados que morrem de amor.

    Ai quanta dor ao luar!

    Mas nada é para sempre muito menos as mortes de amor. O que vem avassalador, vai embora suavemente, escorrendo para fora dos corpos. Memórias são criadas, decisões são tomadas. Uma vida recomeça sobre as partes, as vezes até escombros, da anterior. Vida surge onde antes havia… vida. E assim, sem que se dê conta, levantamos da fria cripta e saímos andando ao calor do sol.

    Sou uma dessas almas que ressuscitam. E antes que eu em esqueça, como chama o coral onde sua amiga canta?

    Gogós.

    Gostei.

  • Nossa frágil condição humana!

    Histórias e piadas contadas por nossa família e amigos, invariavelmente nos fazem rir, mas se forem das boas. Observando no detalhe, elas contam histórias sobre o mal, ou de uma desgraça alheia. 

    A bondade não tem graça nenhuma, somente se ao final a história virar um desastre. 

    O filósofo francês Henri Bergson disse que o cômico exigia algo como uma momentânea anestesia do coração. “O riso não tem maior inimigo que o coração”, por isso rimos do mal para que ele não nos atinja.

    Uma das piadas que os judeus contavam na Alemanha nazista, era sobre o que um comandante da Gestapo dizia a um judeu: “Vou te dar uma oportunidade de viver, se adivinhar qual dos meus olhos é de vidro”. 

    O Judeu responde de imediato — É o esquerdo.

    O oficial admirado pergunta — Como é que descobrisse?

    E o Judeu respondeu — É o que parece menos humano. 

    Pode parecer surreal, no entanto, é uma manifestação bastante profunda nas mãos de todos que se confrontaram com o mau absoluto, que o fizeram mais por necessidade do que provocação. 

    Na União Soviética a piada frequentemente contada era a seguinte: “Sergei, arranjei um emprego, vou para o cimo daquela torre, e meu trabalho é tocar essa corneta quando a revolução triunfar. Pagam-me um rublo por dia”.

    “Ivan, isso é pouquíssimo “.

    “Eu sei, mas é um trabalho para a vida toda”. 

    Eles riem do mal, do bem, ninguém rí, para quê? 

    Mesmo histórias curiosas que resultaram num final trágico, por consequências em suas entrelinhas, parecem uma ironia do destino. 

    Como ocorreu com o Ditador, Ex Presidente da República Portuguesa, Antonio de Oliveira Salazar, apegado ao poder, de onde emanou ordens dramáticas e doloridas àquele povo sofrido, acabou por encontrar um final mortal inesperado, em sua trajetória humana. 

    Uma história com ares de ópera-bufa, se imaginarmos que o ditador foi derrotado por uma queda ao chão. 

    Em 1968, Salazar gozava férias em Santo António do Estoril, e sentado em uma cadeira que não se sabe se em falso ou quebrada, ou estrategicamente fora do lugar, levou o ditador ao chão, onde bateu a cabeça com violência no piso da pedra. Teve um hematoma cerebral e não se recuperou do trauma. Morreu dois anos depois. Conta-se que ele jamais soube que não era mais o presidente do Conselho de Ministros e que a equipe de governo se reunia em sua presença, para encenar reuniões e decisões. 

    Nossa frágil condição humana limita uma rota a todos, muito similar a fraqueza de seus pares e a finitude que nos acompanha. 

    Mas o dolorido é quando os meses e anos escorrem pelos dedos, e chegando a velhice, se vê que não saiu do lugar.

  • Peregrinação

    Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro. E olhe que mal ando no bairro, a não ser para ir ao trabalho e comprar alguma coisa na bodega do senhor Assis. Evito passear com os meus filhos, porque a pracinha, à tarde ou à noite, é ambiente escuro e arriscado; há bastante consumo de droga e malfeitos, como pequenos furtos. Melhor não dar sorte para o azar. Tenho evitado visitar a minha mãe, que mora num bairro próximo, porque ambos os lados não estão para brincadeira. Antes de comprar o imóvel, conversei com uma porrada de amigos, e eles foram unânimes em dizer que não era uma boa; que, para chegar num bairro assim, do nada, deveria ter contato com alguns moradores, para ser protegido. Pequei, como sempre peco, com a minha ansiedade, com a minha vontade acaçapante. Sou um cara impulsivo, devo admitir. Já entrei em algumas roubadas, fazendo negócios escusos, não por minha culpa (achava que tudo isso era normal), mas porque era influenciado para ganhar dinheiro fácil vendendo motos adulteradas. Felizmente nunca fui pego pela polícia. Saí do ramo quando Roberval foi preso, por receptação de moto roubada. O pobre do meu amigo comeu o pato sozinho, e senti uma sensação forte de me entregar, mas não consegui pela covardia, e porque pensei nos meus filhos e na minha esposa. Voltando à nova morada, quando cheguei aqui, Nikita só me olhava atravessado, botando a mão no cós das calças, dando a “sugesta” de estar armado. Ele me colocava no outro extremo do bairro, como se me enxotasse só no olhar; sentia ódio a mim. Sei que Nikita é um velho policial, com fama de matador – Leozinho me informou com detalhes, e eu fiquei cabreiro por dias, sem dormir direito, porque o cara é, além de mau, frio. Depois da pandemia e da aposentadoria, o dito cujo montou uma bodega, mas nunca pisei lá, claro – e nem pisaria nas minhas piores necessidades. Sei que o sujeito não gosta de mim, não quero afrontar. Ainda fico matutando pra saber o que eu fiz para ser perseguido. Leozinho, meu vizinho, diz que “eu tenho as coisas”, carro, moto, e o velho é invejoso. Além do mais, o que me dá medo, é que parece ser metido em milícia e quer ser o dono do bairro. Segundo Leozinho, volta e meia ele cobra uma cota de “segurança” do bairro – ainda não fui atingido. Vou me adiantar e pegar o beco, antes que seja tarde demais. Terei de vender a casa, que ainda estou pagando. Era meu sonho ter uma casinha como a minha. Não posso botar a vida da minha família em risco. Devia ter averiguado essas coisas antes, mas não conhecia ninguém aqui. O fracasso é a pior das sensações. Estou sendo, veladamente, mandado embora, sob o risco de perder a vida. Melhor sair e viver em paz.

  • Está tão difícil ser eu

    Uma das coisas mais surreais que me ocorreram foi, sem dúvida, ser confundido com outra pessoa. Gente mais nova não sabe bem o que é isso, mas, na época do telefone fixo, quando sequer existia WhatsApp, quando redes sociais eram ficção científica, a pessoa te ligava insistindo que você não era você.

    — Você sabe quem está falando?
    — Não faço a menor ideia.
    — Ah, sabe sim.
    — Sei não.

    A voz era de mulher, eu não fazia a menor ideia de quem fosse, mas ela não se dava por vencida. Rebatia, insistia, falava com este outro que não era eu, mas que, para ela, era.

    — Vai ficar me tratando assim?
    — Assim como?
    — Fingindo que não se lembra de mim. Depois de tudo.
    — Tudo o quê, minha senhora?
    — Ah, faça-me um favor.

    Desligou.

    Até hoje, eu insistindo que sou Leandro, tem gente que me chama de Leonardo. Vizinhos, amigos, médicos, enfim, todo mundo. Eu adoro ser Leandro, sempre gostei, mas, no meu caso, ou a pessoa abrevia, ou muda.

    Ou fala Leonardo, ou abrevia para Léo, mas o que eu adoro mesmo, de verdade, é ser simplesmente Leandro.

    Sofro, claro, também, com homônimos. Uma vez, quando fui tirar um documento, arrumaram um Leandro em São Paulo, com sobrenome igualzinho ao meu. Custei a resolver.

    Já fui confundido, em rede social, com um ficante de outra moça, quando meu lance, na verdade, era com a prima dela — o que, naturalmente, gerou uma confusão sem tamanho.

    Felizmente, nunca fui confundido com o pai desaparecido de ninguém, nem com um espião, nada disso.

    A vez mais divertida, confesso, foi quando, no interior do Rio de Janeiro, em Grussaí, numa pousada, fui confundido com o marido da moça que estava na minha frente.

    A gente ia pegar uma ficha, sei lá, para fazer o quê, não lembro, e a moça da frente, talvez por uma casualidade do destino, estava com uma camiseta verde — eu também estava de verde.

    — Agora pode vir o casal — disse a atendente.

    — Casal? Ele — ele, no caso, era eu — não é meu marido. Meu marido está no quarto, dormindo.

    Eu quis rir, mas achei melhor deixar para rir depois.

    A última vez foi ontem, quando fui à rodoviária, quando fui comprar uma passagem para o Rio de Janeiro, para uma viagem a trabalho estendida para passeio, quando o atendente, com meu RG e tudo, mesmo digitando o CPF corretamente, inventou que meu sobrenome não era Pereira, era Ferreira.

    Tentei mudar, mas o rapaz disse que o sistema não deixa mudar.

    — E eu deixo? — argumentei.

    Ele disse que eu não tinha problema, que o importante era o número do CPF, que, infelizmente, o jeito era viajar como Ferreira mesmo. Paciência.

    Aviso aos navegantes: eu adoro ser Leandro. Nunca quis ter outro nome. Até se voltasse em uma reencarnação, eu ia querer ser eu mesmo.

    Agora, se um desavisado me confundir com esse tal Ferreira e vier depositar um milhão de reais na minha conta, vou jurar, de pé junto, que sou o Ferreira. Fiquem avisados. Não devolvo. E pronto.

  • Na verdade, a verdade é Judicial

    Enquanto acordava comecei a pensar sobre uma palavra que tem sido bastante falada nesses últimos tempos, ou seja, “verdade”. O que seria verdade? Segundo o DICIO, essa palavra significa: “Que está em conformidade com os fatos ou com a realidade: as provas comprovavam a verdade sobre o crime”. Dada a significação, eu volto a perguntar: é possível dizer com precisão os fatos ou a realidade?

    Deixo esse primeiro parágrafo apenas como uma reflexão. Isso porque, nos últimos tempos estamos vivendo no mundo uma verdadeira disputa pelo que é verdadeiro. Acontecimentos históricos são reinterpretados de acordo com as ideologias de quem os conta. Dessa constatação, ganhou muito espaço o conceito de pós-verdade, que segundo o mesmo DICIO significa: “Contexto em que se desvaloriza a verdade objetiva, comprovada pelos fatos, aceitando qualquer discurso como correto”.

    Nesse sentido, será que existe verdade ou é tudo pós-verdade? Ou seja, será que é impossível chegar a uma versão verdadeira sobre um fato? Esse texto de perguntas e mais perguntas, no fundo, serve como uma mera reflexão, pois a intenção é dizer que se tem uma palavra cujo real significado ficou perdido, trata-se do termo “verdade”. Apesar disso, a busca por ela é uma constante na vida de todo o ser humano, seja qual ideologia ele segue.

    Por exemplo, o reconhecido pensador Walter Benjamin defende a ideia de “escovar a história a contrapelo”. Nesse sentido, diante da predominância da versão do vencedor sobre a do vencido, é importante que os historiadores se preocupem também em contar a história de quem perdeu. Esse autor faz pensar na perspectiva de um interessantíssimo ponto de vista. Agora, será que em um contexto de redes sociais podemos falar em um contexto de história do vencido e do perdedor?

    Quando eu falo isso, me refiro ao caráter extremamente plural das redes sociais. Até seu surgimento, muitas pessoas poderiam se sentir totalmente isoladas do que ocorre no mundo. Agora, com a possibilidade de conexão em escala global, até a pessoa com os hábitos socialmente mais esquisitos pode achar outras com quem se identifique. Em um contexto como esse, existe a possibilidade de existência de “múltiplas verdades”.

    Voltando ao conceito de verdade, para exemplificar, eu diria que ela, na realidade, não é definitiva, mas muito parecida com o objetivo de um processo judicial. Ou seja, nele partes opostas tentam provar seu ponto de vista sobre um fato trazendo provas que os favoreçam. Esses pontos de vista contarão com diversas figuras de apoio (advogados, promotores, testemunhas de defesa ou acusação, dentre outros). No final, tudo isso será decidido por um juiz que será o responsável por “estabelecer a verdade”.

    Como seria mágico se em nossas vidas tivesse um juiz que determinasse a verdade, não é mesmo? Dessa forma não precisaríamos nos preocupar e nem arrepiar os cabelos. Bastaria seguir o que o juiz determinou. Falou, está falado. Infelizmente, a vida não é assim, e sendo a verdade judicial (ou processual) é muito importante que estejamos sempre servindo como guardas ou vigias dela. Caso contrário, daqui a alguns anos estaremos sofrendo sérias consequências pela predominância de versões absurdas de fatos passados.

  • Sacripantas

    Zími acompanhou Silvano num sábado pela manhã, para que fizessem um serviço de carreto na Vila Mariana. Às oito horas saíram da garagem do prédio onde moravam, no centro de São Paulo.

    Era um trabalho rápido, e já estariam livres na hora do almoço.

    Zími, com uma camiseta dos Circles Jerks feita em casa, receberia um pagamento modesto, talvez simbólico, mas seria suficiente para as suas necessidades imediatas, até que recebesse mais algum dinheiro trabalhando como copy writer ao longo da semana seguinte.

    O trânsito estava esquisito, mas era perto e logo descarregaram da Kombi caixas de cosméticos para um salão de beleza.

    Naquela rua, numa distância pequena, três bares disputavam clientes entre as poucas pessoas que passavam ali, sob o sol forte que fazia naquele dia.

    Um dos bares tinha um bom público e era o maior deles. 

    Era também o mais novo dos três, tendo sido inaugurado semanas antes.

    O outro era intermediário e ainda assim grande, e havia ali um sujeito tomando cerveja junto ao balcão.

    O terceiro bar era o menor e mais modesto, e também o mais antigo entre eles, e estava vazio desde o momento em que Silvano estacionou a Kombi por perto.

    Fazia muito calor em São Paulo.

    Silvano disse que Zími precisava ver o show que aconteceria no bar intermediário às catorze horas. Silvano explicou que assistiu ao show do mesmo sujeito que tocaria ali naquela tarde, e talvez em todos os outros sábados.

    Disse que aquilo era uma inspiração e um encorajamento para começar uma carreira musical independente, como o duo Crop Circles, banda em que Zími é baterista e vocalista, junto de Mila Cox, que era baixista, vocalista e também usava sintetizadores.

    Eventualmente usavam guitarra nas gravações, mas não nos shows.

    Então estavam Zími e Silvano fumando um baseado encostados na Kombi depois de feita a entrega dos cosméticos.

    Terminaram o baseado e Silvano tirou de algum lugar de dentro da Kombi uma garrafa de cachaça de amora, que havia sobrado de um lote comprado no dia de um show em Itatiba.

    Por volta das catorze horas, sob calor excessivo, um cara estacionou uma Parati na frente do bar intermediário. 

    O sujeito que tomava cerveja desde cedo ainda estava lá. A kombi estava na mesma calçada, poucos metros adiante.

    Silvano pediu que Zími prestasse atenção a tudo que o sujeito fizesse.

    Ele montou o kit do banquinho, microfone e um amplificador, de onde saíam bases pré-gravadas, sobre as quais ele tocava violão.

    Zími pensou que Silvano estava fazendo piada com ele.

    O cantor nem havia começado o show e Zími já havia visto nele toda a canastrice e picaretagem possíveis.

    Do outro lado da rua, o bar menor e mais antigo continuava vazio, e o proprietário estava ali na frente, observando o cantor com a cara de quem sabia que uma presepada estava por vir.

    Oficialmente o público era de apenas uma pessoa, o sujeito que bebia ali sozinho desde a manhã. Ele parecia desinteressado.

    Zími entendeu na primeira música a razão pela qual Silvano havia pedido a ele para que assistisse àquilo. Pegou uma folha do caderno  que levava para onde quer que fosse, e escreveu algo.

    Ficaram ali encostados na Kombi sorvendo a cachaça, até que Silvano foi até o balcão do bar em que o cantor se apresentava, pegou duas latas de cerveja e voltou para a Kombi.

    Zími estava num ótimo momento, vadiando sábado à tarde, depois de trabalhar pela manhã.

    Silvano lhe deu a lata de cerveja, para se refrescarem da cachaça de amora, e disse a Zími que no fim de semana anterior o show do cantor também foi um fracasso, mas havia algumas pessoas a mais.

    Embusteiro que era, o cantor contava para quem estivesse em volta que tinha agenda lotada de shows, que vivia exclusivamente de música e já tinha tocado na Europa. Silvano ouviu as conversas, mas na ocasião não participou.

    Dessa vez só havia os dois ali para que o cantor puxasse conversa. O sujeito que bebia no balcão não demonstrava qualquer reação às tentativas do cantor para estimulá-lo.

    Depois que Silvano voltou com a cerveja para a Kombi, o cantor ainda tocou mais uma música, antes de dar uma pausa, que acabou sendo definitiva.

    E antes dessa pausa, Zími comentou com Silvano que o cantor estava bem cheirado. Comentou ainda que tinha certeza que ele mandava com a narina esquerda.

    Silvano constatou que o cara realmente parecia estar tentando morder a orelha.

    O cantor tirou o violão do colo, e se levantou tentando inutilmente disfarçar seu constrangimento.

    Pediu uma cerveja à garçonete, que do lado de dentro do balcão parecia estar lamentando demais por estar ali naquele sábado à tarde quente, ouvindo o sujeito cantar Legião Urbana em ritmo de pagode e outras aberrações, até que finalmente desistisse.

    Quando o cantor, com a cerveja na mão, fez menção de se dirigir á Kombi, Zími disse a Silvano: ‘Agora!’

    O sujeito então começou a falar, se apresentando como ‘o cantor’, e os dois apenas olhavam para ele, sem falar nenhuma palavra, e nem esboçar qualquer reação que não fosse fumar e se tomar goles de cerveja e do drink de amora.

    A garçonete observava do lado de dentro do balcão, tentando disfarçar o riso quando percebeu o que poderia estar acontecendo.

    O cantor repetiu a conversa ouvida por Silvano, sobre agenda de shows, ter tocado na Europa e sobreviver como músico.

    Até que mencionou alguns artistas que gostava, e quando citou a Janis Joplin, Zími se levantou, tirou a folha de caderno dobrada do bolso de trás e a entregou ao cantor.

    No papel estava escrito que a Janis Joplin é muito chata, e que a música ‘Mercedes Benz’ é a mais chata da história, dividindo o pódio com ‘Hotel California’ dos Eagles e ‘Sultans of Swing’, do Dire Straits.

    O cantor leu, e embasbacado, virou-se e foi de volta para o bar em que tocou. Encostou-se no balcão, sob o olhar não menos embasbacado da garçonete, que trabalhava olhando para o relógio sem parar.

    Antes de entrar na Kombi com Zími e voltar para casa, Silvano foi até a bela área de self-service do local, que estava vazio.

    Pegou um recipiente de isopor, para marmita e o encheu com todos os ovos de codorna que haviam ali.

    Então pegou mais uma lata de cerveja para ele e outra para Zími, pagou e então foram para a Kombi

    No caminho curto entre a Vila Mariana e a República, Silvano comunicou a Zími que se lançaria na música.

    Aquele cretino que eles haviam assistido tinha algo que Silvano não tinha até então, que era coragem de se apresentar em público.

    Como assistiram ao que de mais patético poderia acontecer numa tentativa mal sucedida de entretenimento, agora Silvano, sabendo que poderia contar com as estratégias de Mila Cox para se apresentar ao vivo deixando a timidez de lado, e os pitacos de Zími na produção do disco no estúdio caseiro, estava encorajado e poderia abrir os shows dos Crop Circles.

    Compor as músicas e gravá-las não seria problema, pois ele já tinha idealizado o que seria o primeiro disco Músicas de dois minutos, psicodelia dos anos sessenta, misturada com punk rock e alguma canastrice latina seriam suficientes para a estréia em disco.

    Dez faixas e menos de meia hora de duração.Sairia em vinil, cd e K7.

    Chegaram ao prédio em que moravam e cada um foi para sua casa.

    Zími contou para Mila Cox sobre o rolê.

    Ela falou que já tinha pensado em Silvano como músico, seguindo a linha de Bob Log lll ou Dead Elvis.

    Ela disse que estava apenas esperando o momento oportuno para dizer isso a ele.

    Zími começou a contar a história do cantor e ela começou a fazer café.

  • Nota de abertura

    (nota de abertura – curta, decisiva)

    Esta crônica acontece no intervalo.
    Quinze minutos entre um ato e outro.

    DIIIM.

    As cortinas estão abertas, mas ninguém está olhando para o palco.

    DIIIIIIM.

    Ando por esse tempo suspenso como quem flana: não chego, não parto — observo.

    DIIIIIIIIIIIIM.

    (Silêncio)

    Sura Berditchevsky parou por diversas vezes um ensaio do musical mais emblemático da minha carreira de atriz, sobre os anos 60 (60, O MUSICAL, texto da amada Bibiana Beurmann — Bibi, você ainda me deve meu papel de vilã!). Veio no dia a convite do diretor e também ator do elenco — que contracenava comigo em nosso dueto romântico de “Summer Nights” e, além disso, também é meu primo, Bernardo Dugin (<3).

    Aquela figura incrível e famosa, que nós — então quase todos jovens adultos e aspirantes à fama que prometem as artes cênicas — idolatrávamos por ser ela quem era, nos atravessou de vez. Reverenciamos quando tirou os sapatos para pisar na plateia em pleno ensaio, fez alguns de nós chorar e titubear sobre “ser ou não ser” possível apresentar o que já vínhamos fazendo no palco, em sessões anteriores.

    Fomos o primeiro grupo de atores friburguenses a pisar no então Teatro Municipal Ariano Suassuna. Ariano veio à inauguração do edifício teatral – infelizmente não nos viu ali, em cena; chegamos dias após -, foi homenageado, discursou, posou para fotos. Só mais tarde alguém lembrou – com a seriedade que costuma chegar extemporaneamente – que havia uma lei impedindo homenagens não póstumas. Que gafe, Friburgo. O teatro mudou de nome e passou a se chamar Teatro Municipal Laércio Rangel Ventura. Nós seguimos em cena. Sura marcou nossas vidas.

    Eu receava a vez em que ela faria algum comentário sobre mim. Quando pausou e disse:

    Sura: Garota…

    Eu tremi.
    Mas ela apenas comentou, séria:

    Sura: Você… você tem isso aqui…. — Sura faz marcações com os dedos sobre as próprias pálpebras — igual ao da Giovanna Antonelli…

    Eu me senti.
    Como diria minha mãe, em algum momento da vida:

    Minha mãe, Lucia Monnerat: “Está sissi..!”

    (Não confundam com vaidade: é apenas alegria bem ensaiada).

    Como me disse recentemente Claudecyr Duarte, meu parceiro de desafios inusitados nos campos da movelaria arquitetônica — que eu crio —, das estruturas de artes visuais luminosas — que também assino — e do que parece impossível, por orçamentos improváveis ou prazos irreais, constante no mundo da arquitetura:

    Claudecyr Duarte: Você não pode brincar de pique-esconde.
    Eu: Por quê?
    Claudecyr Duarte: Porque você se acha…

    (Pausa, de natureza “drama-cômica”)
    Ainda bem que, perrengues à parte — como diria o Clau:

    Claudecyr Duarte: …e o amor só aumentando…

    Humor e ironia são constantes entre as pessoas que me cercam. Tiramos sarro uns dos outros para exaltar boas características, de quando em quando, sem que o verbo achar, nesse contexto, traia a minha humildade. Eu acho, verdadeiramente, e curto tudo o que faço. E, sim, me senti quando fui comparada à Giovanna (quem não…).

    Miguel Toscano (procurem-no no Spotify – ou cliquem aqui), então o prodígio musical da nossa trupe, com seus 14 anos e um gogó incompatível com tão diminutas idade e estatura, surpreendia e fazia — ainda faz — qualquer um congelar ao evocar Frank Sinatra cantando “My Way”, me apelidou nessa época de “Gijou”

    Miguel Toscano: And now… the end is near…
    (corte abrupto. Ouvem-se passos)

    Miguel Toscano: Hey, Gijou!

    Eu sempre associei o apelido à Giovanna — o que não era bem por isso; ele me lembrou recentemente. A lembrança veio quando deixei nas coxias uma encomenda do Bernardo: um microfone cenográfico retrô, desses que parecem ter vivido mais do que a gente, realizado em parceria com Felipe Saippa e que ficou, modestamente – ou não – lindo.

    Era para O Homem da Montanha, musical escrito pelo querido David Massena, dirigido pelo meu primo e estrelado pelo Miguelito, sobre o nosso ilustre conterrâneo Benito de Paula. O apelido voltou inteiro, com voz e tudo.

    Esse tanto de nomes aparece nesta crônica não por vaidade, mas por método: são eles que abrem as cortinas de um marco da minha trajetória artística. Ontem, 13 de dezembro, estreei como diretora teatral na Usina Cultural Energisa de Nova Friburgo — o point cultural da cidade, minha segunda casa, lugar onde já aprendi a entrar e a sair sem pedir licença.

    Espaço que, neste mesmo ano, também acolheu duas obras minhas de artes visuais e luminosas na exposição Lux: luzes da memória, a convite do Resistência Artística — grupo de curadores-artistas formado pela dupla de Mários, Moreira e Massena, e por Tiago Vianna — encabeçados pelo produtor Wilton Neves e assistidos por Cherman, Luquinhas e Felipe, numa engrenagem que funciona, porque é feita de gente.

    Sem esquecer da incrível Mariana Pietrobon, que conduz com maestria as atividades culturais da Energisa em Nova Friburgo e também integra o World Creativity Day na cidade, como eu e um número crescente de criativos — evento que, em 2025, foi chefiado pelo incansável e onipresente Marcelo Verly, com o bastão devidamente passado ao emblemático e multifuncional Beto Grillo, que ontem, por coincidência ou dramaturgia do acaso, também assinou a luz da peça Sem verba, com drama!.

    Pois a peça… divaguei. Muitos nomes pedem passagem. Gabriel Cardoso (“O Paraíso dos Quase Lá”, Luva editora), à frente das aulas de Escrita Criativa e do Núcleo de Expressões Artísticas no Sesc Nova Friburgo, lendo crônicas incríveis para nós, sua turma da tarde comentou recentemente:

    Gabriel Cardoso: Esses figurões do meio artístico eram todos amigos, cara… Imaginem, passar os réveillons com Vinícius, o Braga, o Chico… era meio que essa parada, sacou? Isso já não acontece mais…

    Estou eu me achando de novo, com esse meu ato tão cronista de flanar por cenários
    culturais.


    (Voltando à peça)

    Antes, porém, falta citar meu saudoso povo d’ “os 60”– tão adepto dos pós-ensaios e dos encontros corriqueiros banhados a vinho; nosso “60, O vinho” tem promessa de reencontro para (ainda) este fim de ano.

    Anike Couto (bacharel em Artes Cênicas) e Lucas Braune (matemático com mestrado em Cambridge), um dos meus casais favoritos, são pais da linda e simpaticíssima Cecília e hoje vivem como cidadãos alemães; o outro Lucas, Veiga, que foi minha dupla nas canções da Disney, tornou-se psicólogo e, como acontece, a vida nos levou por caminhos distintos. Carmen Lúcia era uma amiga constante, apaixonada pelo universo das fofocas — trabalhou, inclusive, um tempo na Purepeople — e, em igual medida, por Fátima Bernardes e William Bonner; hoje é uma jornalista empoderadíssima. Gaori — então Tamires Braga, seu nome oficial — tinha voz doce e um poder quase hipnótico; hoje mora em um barco, navegando pelos oceanos da vida e atracando de quando em quando. Sua mãe, Ivana Valle Machado, maravilhosa, foi nossa estrela da Varig. O Miguel, eu já citei, e o Bernardo também. Éramos nove, um corpo cênico diminuto diante de um corpo de dança robusto, formado por bailarinos das escolas Cia. Marqui de Dança, Studio3 e da Academia Bibiana de Sá; pelo caminho, somamos participações especiais, como Yago Demier, meu par romântico em Time of My Life. As vozes de Paulo Carvalho (hoje in memoriam) e Cil Corrêa embalavam nossa rádio-guia. Atuei e também assinei a cenografia do espetáculo que cruzou palcos interestaduais por cinco anos: os cubos versáteis do Bê e o microfone cênico criado com meu parceiro de longa data, Hélcio Carlos Gomes – e não posso deixar a Carla Azevedo de fora, cuja indumentária venceu o Troféu Arlequim no Festival do Rio, em 2010. A direção vocal era de Lanúzia Pimentel.

    (Finalmente…. Sem verba, com drama)

    Texto de Matheus Emerich, encenado por ele, Lyvia Hottz e Dhara Freitas — três atores que me chegaram pelas aulas e montagens dirigidas pelo Bernardo. O Matheus me escreveu um dia desses pedindo opinião sobre um sofá cenográfico; de repente, me convidou para dirigi-los. O convite nasceu de um ensaio de cena em que contracenávamos, em 2023, na peça Vida (nada) privada. Eu os “dirigi” ali, mais por escuta do que por técnica, diante do nervosismo da pouca experiência dos dois.

    Aceitei dizendo:

    Eu: mas não sou diretora…

    Uma herpes-zóster – combo da tríade estresse, baixa imunidade e, pasmem, sol -, ápice do meu inferno astral e pessoal, além de presente grego inesperado dos meus 37 anos – limitou minha participação aos quarenta e cinco do segundo tempo. Ainda assim, foi simples. Eles são incríveis. E o espetáculo foi demais.

    Eu, que havia rascunhado escrever sobre um apanhado de considerações pescadas no algoritmo do Instagram — incluindo uma fala do Niemeyer em que nosso arquiteto mais conhecido se diz otimista ao mesmo tempo em que anuncia que tudo vai acabar e que a humanidade não tem jeito —, mudei de rota. As ideias pipocaram quando meu amigo arquiteto Diogo da Vinha postou o tal do vídeo do Oscar…

    Eu: valeu, Dioguex!
    (já adivinho a resposta)
    Diogo da Vinha: “de nada, Nublex!”

    massegui por outro caminho: o do estrelato compartilhado. Ainda caberiam muitos nomes aqui. Agradeço a presença na plateia de ontem dos escritores Gabriel (que permaneceu em Friburgo após o encerramento do NEA, e também para não perder o jogo do Mengão), minha mãe, Lucia Monnerat (a mais nova cronista do pedaço! <3) e a Rita Aguiar, representando nossa turma criativa, e Sabrina Coelho, futura arquiteta, minha estagiária mais recente e suplente, comigo, junto ao Conselho Municipal de Políticas Culturais.

    Já que falamos de teatro a maior parte do tempo, não posso deixar de citar Tânia Noguchi e Adriana Xavier, maravilhosas, responsáveis pelos preparos vocal e corporal das turmas do Bernardo; Antonio Guedes, diretor do grupo Pequenos Gestos, que me trouxe Guto Urbieta e papéis lindos que, infelizmente, não cheguei a encenar de fato; Fabio Samu, à frente do Jurisdrama da UFRJ – onde cheguei já como assistente, graças ao meu então registro de atriz – o DRT.

    Cito também Mirna Rubim e Menelick de Carvalho, diretores maravilhosos que tive o orgulho de encontrar na primeira turma do curso Mergulho no Musical, na Casa de Artes de Laranjeiras — turma inteira incrível e atuante, cuja lista completa exigiria outra crônica. Da CAL, não posso deixar de lembrar Lidhiane Lima (quase dividimos a TV Globo em Malhação ficamos só na memória dos testes), Rany Carneiro, Lorena Lima e Manu Rangel.

    Houve ainda Celso Garcia e Evelyn Junqueira, casal maravilhoso que transformou eu e o Be Dugin em Sara e Renan no que seria a trilogia Gravidez Precoce, mas acabou sendo só uma única história – e a do meio; Manuela Lacerda, presente do Parque Lage, que me levou pela mão a alguns de seus curtas; e, ainda na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rogério Emerson Magalhães e a iluminação como linguagem para a arte — que teve, em nossa turma, figuras assíduas, boêmias e inesquecíveis, não é não, Rogerinho? Domingos Netto, Renata Levy, Raquel Carvalho, Marinah Raposo, Emmanuele Rodrigues, Rodrigo Daniel, Ilana Majerowich, Thiago Ortman, Bruno Trindade e Rafael Coutinho. Os bares do centro e da zona sul nos aguardavam ansiosamente.

    Lembro também Rômulo Barros, que levou o “60” para a TV Aparecida na programação de Ano Novo; e José Henrique, coordenador da SUAT UFRJ, minha casa no fim da faculdade, onde tive bolsa de iniciação artística.

    E, não menos importante, José Dias — imortal e maior cenógrafo do nosso país — orientador do projeto que me consagrou arquiteta e urbanista pela UFRJ: uma proposta para um novo Canecão, há cerca de dez anos. José Dias ainda me fez sua assistente de cenografia em Anos Radicais e em projetos de arquitetura teatral, como a reforma do Teatro do Colégio da Divina Providência e estudos de readequação de espaços cênicos. Por conta dele e de Lincoln Vargas — friburguense, então conselheiro e presidente das Políticas Culturais —, no ano passado acabei levando algumas peças para compor o cenário de Dedé Show, do grande André Mattos, e me tornei parte do elenco, ao lado de sua filha Maria Repetto, de seu irmão Paulo Mattos, do próprio André e do Lincoln. Cantei e declamei, assim de supetão, o poema Primo Basílio, de Eça de Queirós. Valeu por toda a parte de som de sempre, Alexandre Concencio!

    Ano passado, também por intermédio do Bernardo, participei de duas leituras inesquecíveis do clássico de 1750 O Santo Inquérito,ao lado de Nilson Nunnes, Margarida Ferreira da Silva, Marisa Calheiros Alvarenga, Regene Britto e Leo Pontes. Leituras dramatizadas, com direito à indumentária, objetos cênicos e fogueira. Dar vida a Branca Dias — e ser queimada em praça pública — foi uma experiência das mais emocionantes.

    Em retrocesso, cabe um abraço apertado a Mariângela de Andrade Erthal, a Poesia, que dirigiu com maestria o Teatro da minha já extinta escola tão amada, o Teatro do Externato Santa Ignez. Também não pode faltar a inesquecível Daniela Santi, cujo palco da Usina Cultural leva o seu nome, com quem fiz aulas na infância e, por feliz jogada do destino, postumamente, agora, tenho a honra de reformar uma parte de sua antiga casa.

    Ouço o sinal.
    Três toques curtos.

    DIM. DIIM. DIIIM.

    Alguém ajeita o casaco.
    Outro larga o copo pela metade.
    Ainda estou falando — ou alguém ainda está falando comigo — quando o fluxo começa a andar.

    As luzes piscam.

    O segundo ato vai começar.

  • Só a bailarina que não tem

    Um dia desses, lendo uma crônica do Vinicius de Moraes — O estranho ofício de escrever — senti um alívio maior do que aquele que experimentava, na infância em colégio de freiras, ao sair do confessionário. Minha consciência, até então abalada pelos pecados veniais e mortais que vinha cometendo na escrita, se encheu de uma morna complacência. Afinal, se até Vinicius escorregava, por que não eu?

    Escrever, para mim, envolve uma dor de parto aguda e profunda. O texto vai vindo a cada contração e, por vezes, precisa da ajuda de fórceps para ganhar o mundo. Sempre acreditei que, como escritora, não era uma boa parideira.

    Lia os grandes cronistas e me encantava com a fluidez com que as palavras bailavam nas páginas: ora em plié, compondo sentidos flexíveis; ora em rond de jambe, mudando o rumo da narrativa; muitas vezes arrematadas com um inesperado grand jeté. Eu me consolava pensando que jamais havia treinado em sapatilha de ponta — requisito básico para integrar um corpo de baile como o daqueles escritores notáveis.

    Na tentativa de entender como se dava o processo criativo deles, resolvi bisbilhotar suas rotinas. Descobri um certo consenso: corpo em movimento, mente disciplinada, metas diárias e um caderno sempre à mão para capturar ideias fugidias. Adotei as caminhadas matinais e o inseparável caderninho — e continuei insegura. Meu relógio criativo insiste em funcionar à noite, e me permiti respeitá-lo, até porque método algum jamais garantiu inspiração. As crises criativas permaneceram, fiéis como velhas conhecidas.

    Foi então que me deparei com a confissão de Vinicius. Ele, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos escreviam para diferentes jornais e, num aperto, Rubem pediu a Vinicius uma crônica emprestada. Veio A Sopa. Rubem fez pequenos ajustes e publicou. Tempos depois, foi Vinicius quem, sem texto novo para o dia seguinte, recorreu a Rubem — e recebeu de volta justamente A Sopa. Protestou, claro. Mas não era pobre soberbo. Remendou aqui e ali e publicou.

    Foi minha absolvição definitiva. Se até os grandes reciclavam crônicas em dias de penúria criativa, por que não eu?

    Lembrei então da Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque e Edu Lobo:

    “Confessando bem, todo mundo faz pecado…
    Só a bailarina que não tem.”

    E só o escritor perfeito também não.

  • Uma crônica quase poesia

    Uma crônica leve bem leve. Uma crônica como se fosse um beijo. Isso. Como se fosse um beijo. Uma crônica limpa. Sem manchas de maldade ou de egoísmo.

    Ambição de conto? Nem pensar! Uma crônica suave e mansa. Dessas que o vento leva de tão leve e descontraída.

    Uma crônica bem medida de sol e mar e sal. Uma crônica desenhada e bem cuidada. Música ao fundo. Olhos de ressaca. Ressaca de mar que é pro Bruxo do Cosme Velho não ficar zangado.

    Uma crônica tão curtinha. Coitada! Não dá tempo de dizer um oi! Uma crônica assim bem simples deixando as coisas. Deixando tudo e todos. Uma crônica não para ficar intrigado e reflexivo. Não! Uma crônica para sorrir. Uma crônica para abraçar. Uma crônica para cheirar e apertar e acarinhar. Uma crônica leve, bem leve…

    Uma crônica de dezembro, voando no calendário já anunciando o Natal e o fim de mais um ano. Tudo passa tão rápido, não é? Imagina a crônica?

    Fica, então, esta crônica leve, ligeira, perfumada de palavras e mais palavras, quase poesia, quase nada…

  • Por que as pessoas gritam?

    Tenho pavor, trauma e medo de quem grita. O grito, para mim, é quase sempre a antecâmara da violência, do caos anunciado.

    A violência seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota“, já disse o filósofo

    A opressão, a intimidação e o medo, via de regra, começam pela voz antes de chegarem ao gesto, ao domínio ou à implantação de qualquer mecanismo de dominação. 

    Mas não falo aqui de política, de poderes instituídos ou de disputas explícitas por controle. Nesse campo, afirmo de forma simples, talvez até ingênua, que para um grito de alegria existem centenas de gritos opostos. 

    Falo do que vejo. Do cotidiano. Do convívio em sociedade. Onde a conversa comum, não precisaria ser compartilhada… aos gritos.

    Outro dia, vi uma influenciadora reclamar das pessoas que falam alto em restaurantes, salões de beleza e outros espaços públicos. Argumentava que o barulho natural do ambiente poderia exigir uma voz mais elevada. Mas não a ponto de tornar impossível manter uma conversação civilizada. Os clientes precisam falar alto, o pessoal dos serviços falam mais alto ainda, se houver crianças, elas aproveitam o ambiente para se soltar e correr entre as mesas e isso acaba formando um círculo sonoro, e o que deveria ser  prazeroso, se torna desconfortável e cansativo. 

    Por sua vez, isso me chamou a atenção e percebi que existem muitas situações onde impera o que eu chamo de “grito social”. 

    A voz alta na academia, por exemplo. Para quê? Por quê? A madame puxa o ferro do lado oposto àquele em que outra pessoa se alonga e, entre um movimento e outro, gritam entre si. Logo adiante, outra dupla, talvez um trio, repete a cena com entusiasmo semelhante. Ganha quem fala mais alto! 

    Já sei que foram à Disney, qual vinho costumam beber e o que pensam do padre da paróquia. Eu queria saber? Isso me acrescenta algo? Não.

    Mas gritar parece necessário. Às vezes penso que é a solidão, ou o vazio dos dias, que pede movimento com mais urgência do que os próprios glúteos. Falar alto torna-se, então, uma forma de existir no espaço. Uma comunicação de quem precisa tanto ser visto quanto ser ouvido.

    Preocupo-me com a minha própria percepção. Tenho medo de duas coisas: precisar recorrer a abafadores de ruído ou constatar que estou me transformando naquela figura clássica da “velha rabugenta”. Ambas as hipóteses me assustam.

    Por favor, que eu não precise que gritem comigo em nenhuma delas.

    Sejam gentis. Aproximem-se. Sentem-se ao meu lado. Olhem-me nos olhos e falem bem baixinho, de forma natural, quase doméstica: “por favor, não seja implicante…”

  • A ordem é amar?

    O parlamento da Dinamarca aprovou, recentemente, uma lei que proíbe o acesso de menores de quinze anos às redes sociais. Com essa atitude, o governo determina que a relação dos seus cidadãos com as plataformas digitais transcende o escopo da educação familiar e se torna um problema de saúde pública.

    A Austrália também adotou medidas semelhantes. Contudo, por lá, a idade mínima para acesso será dezesseis anos. Outros países da Europa estudam seguir nessa mesma direção.

    O velho discurso de que as redes sociais são espaços que promovem liberdade de expressão, diversão e conexões sociais importantes não se sustenta mais diante do alarmante crescimento da dependência emocional e da ansiedade coletiva entre crianças e adolescentes. Muito embora alguns críticos chamem a lei de moralista e paternalista, a Dinamarca afirma não se tratar de censura, mas de regulação preventiva.

    O projeto se baseou numa estatística preocupante: os índices de depressão e ansiedade entre jovens dobraram nos últimos dez anos e não se pode ignorar a correlação entre esse fato e o tempo das telas.

    Para além da discussão sobre quem deve ter o poder de cuidar do bem-estar e da saúde mental das crianças e jovens, é absolutamente necessário

    refletir sobre a invasão que os espaços afetivos têm sofrido por parte dos eletrônicos, das redes sociais e plataformas digitais. Não temos como negar que, muitas vezes, negligenciamos as pessoas que amamos e, até mesmo, a nós mesmos e aos nossos objetivos e planos, seduzidos pelo vagar solitário e despretensioso nas redes.

    As crianças e os adolescentes denunciam sua dependência e adoecimento com sinais cotidianos, muitas vezes, naturalizados por nós, como por exemplo: crises coléricas ao não poder acessar o eletrônico, resistência e desinteresse em relação a qualquer outra atividade que não envolva o celular ou o game, agressividade e descontrole diante da frustração no jogo ou por impedimento de acesso, isolamento no quarto, afastamento do contato familiar, entre tantas outras coisas.

    Os adultos também já experimentam, de forma explícita, as consequências dessa relação desmedida com as redes sociais. Quem nunca sentiu inveja da felicidade alheia e fake postada nas redes? Todo dia, ali, na nossa frente, tem alguém que parece ser mais feliz, mais bem-sucedido, mais amado, mais elegante, mais sortudo do que nós. E pior, assistimos e aplaudimos a vida dos outros enquanto a nossa fica parada na mesma estação. As relações amorosas também têm sofrido com a soberania virtual. Já ouviram falar sobre phubbing? Não? Eu posso apostar que, em algum momento, vocês já o experimentaram de forma ativa ou passiva. Phubbing é o ato de ignorar uma pessoa ou situação social para prestar atenção ao celular. O resultado? Prejuízo da conexão e da intimidade e, consequentemente, distanciamento emocional.

    A situação é tão bizarra que, mesmo quando escrevemos, lemos ou conversamos sobre o assunto, ainda assim, somos capazes de praticar o “crime”.

    Como desarmar o feitiço?

    Algo me diz que a solução está na arte, na literatura, na música…

    Lembrei da letra: “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus decidem se encontrar… Meu amor, juro por Deus que a luz dos olhos seus vence o meu celular”.

  • Falsa semelhança

    Eu estava numa loja de departamentos de um dos nossos shoppings, quando uma mulher se dirigiu a mim e fez a pergunta:

    — O senhor é de Jatobá?

    — Como?

    — De Jatobá?…

    — Não senhora.

    Ela riu sem graça:  

    — Pensei que fosse, pois se parece muito com Seu Edmundo da capotaria. Desculpe.

    Deu um suspiro e repetiu para si, perplexa:   

    — Se parece mesmo!

    Ainda pensei em lhe perguntar: “Em que sentido?” — pois há semelhanças e semelhanças. Umas são da fisionomia, outras da compleição, outras dizem respeito ao comportamento.

    Notei que ficou me olhando, desconfiada. Parecia não acreditar que eu não era quem ela queria que eu fosse. Antes de se afastar, ainda exclamou:

    — Puxa! 

    Vendo o seu desapontamento, tive um pouco de pena e até pensei em confirmar suas suspeitas. Não custava mentir para que ela se desse por satisfeita e me deixasse em paz. Há pessoas que não aceitam ser contrariadas nem nos seus enganos. 

    Enquanto eu esperava ser atendido pelo caixa preferencial (triste rótulo), notei que ela se detivera em frente a uma vitrine e furtivamente me observava. Imaginei com preocupação que poderia me abordar de novo.

    Chegada a minha vez, dirigi-me ao atendente sem olhar de lado. Ele me reteve mais tempo do que o necessário, propondo me passar o cartão da loja, que me daria cashback e outras pequenas vantagens. Até estimei essa conversa, que em outro momento me chatearia, pois enquanto me concentrava em recusar o assédio comercial eu me alheava dos olhares da mulher.

    Paguei e me preparei para deixar a loja. Vi que para chegar à porta passaria bem perto dela, que continuava me olhando. Tive receio de que mais uma vez me abordasse e, caso eu continuasse a negar o que me atribuía, me chamasse de mentiroso. Eu não estava com a Certidão de Nascimento nem com outro papel que revelasse o local onde nasci. Quanto à Identidade, ela poderia dizer que era falsa. 

    Antes de deixar a loja, dirigi-lhe um breve cumprimento; afinal, eu involuntariamente tinha frustrado duas de suas expectativas. Mal saí, ouvi atrás de mim uma voz chamar, num tom grave:

    — Edmundo!

    Virei-me, assustado, e o sujeito que falara isso pediu desculpas; confundira-me com alguém.  

    — Tudo bem — eu disse.

    Curiosamente, isso reforçou em mim a desagradável sensação de que um sujeito chamado Edmundo, e residente em Jatobá, se parecia muito comigo. Torço para que seja um homem correto e confeccione bem as suas capotas; que não dê calote nos clientes, não bata na mulher, não agrida os motoristas no trânsito, enfim, não faça nada que o leve a ser procurado pela polícia. A semelhança entre nós representaria para mim um risco.  

    Antes de seguir em frente, olhei meio sem querer para a mulher. Parece que ela não ouvira o pedido de desculpas, pois me fitava com um ar entre aliviado e triunfante. O ser humano procura em tudo um parceiro, um cúmplice, e ela parecia satisfeita por demonstrar que não fora a única a me confundir com outra pessoa.

  • O peregrino

    Levanta-te e anda!, disse aquele visionário de barba crespa e suja e olhos que anunciavam divindade. Lázaro, farto de mentiras sobre a vida e a morte, levantou-se e começou a caminhar. No meio da tarde estava já longe de tudo, do povoado coalhado de casebres, das hortas envelhecidas, de suas duas irmãs confusas e atônitas. Estava longe de si mesmo, e isso lhe deu algum alívio.

    No meio do caminho, parou e olhou para trás. De boa vontade teria dado graças e até beijado os pés daquele visionário maltrapilho, mas não tinha retrovisor em sua memória poeirenta. Além disso, o barbudo, àquela altura, estava ocupado em suster nos ombros um pesadíssimo pedaço de madeira e não poderia lhe dar atenção.

    Bebeu um gole d’água do cantil amarrado à cintura e contemplou o horizonte estendido como um tapete diante de seus pés. Chegou a novas terras, conheceu novas gentes. Ninguém o conhecia, porém. O tempo de quando estava morto e usava sudário já havia passado e não havia naquelas paragens ser vivente que tivesse ouvido falar dele. Para os outros, ele era só um viajante que tinha aparecido por lá. Percebeu que nunca se sentira tão leve como agora. Atravessou a nova terra e continuou a andar, seguindo seu destino e a ordem do visionário barbudo: Levanta-te e anda!

  • Um tom diferente na tinta da retina

    No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. 

    Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant.

    Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um cardápio onde o cliente pudesse escolher o prato que desejasse, tinham apenas a sopa restauradora.

    O Sr. Boulanger (em francês, padeiro), ganhava a vida como vendedor destes caldos, e colocou uma placa com dizeres em latim em seu estabelecimento (Rue des Poulies, em Paris), que dizia o seguinte: 

    — “Vinde a mim, vocês que têm o estômago em penúria, e eu os restaurarei”. 

    Ele foi o primeiro a anunciar a venda destes caldos fortificantes, que recompunham a saúde de quem tinha problemas de digestão, e assim se deu a origem da palavra restaurante. 

    Este estabelecimento se firmou na França após a Revolução destituir a aristocracia, e deixar sem emprego um contingente de serviçais hábeis no trato com os alimentos. 

    Com a chegada de muitos provincianos à cidade, e ninguém para cozinhar para eles, surgiu a oportunidade da criação do hábito de fazer refeições fora de casa, dando início ao surgimento do restaurante. 

    Foi o La Grande Taverne de Londres, fundada em 1782, de propriedade do senhor Antoine Beauvilliers, onde foi criado o padrão do restaurante moderno, ao combinar 4 pré-requisitos essenciais: um salão elegante, garçons bem treinados, uma adega bem escolhida e uma cozinha requintada. 

    Uma evolução maravilhosa que veio ao encontro do prazer em reunir pessoas e celebrar a vida.

    Cardápios orientais, a comida do Mediterrâneo, os festivais gastronômicos pelo mundo, as sobremesas e os banquetes, tudo envolto ao prazer em desfrutar momentos da Dolce Vita. 

    Da necessidade à formação profissional, surgiram mestres da culinária que desenharam um novo rumo a uma especialidade repleta de particularidades, que agregam um pouco da cultura de cada povo onde nasceram.

    A rua dá um tom diferente na tinta da retina, que não encontramos em casa, e a necessária convivência com o mundo nos faz gente para podermos saber o que somos, e o que podemos ser para o outro.

  • Nova idade

    Nunca imaginei que fosse me apegar. Não fui do tipo dado a animais. Não porque os odeie, mas, sim, porque achava que os bichos não deveriam ser criados como gente e por gente. Tia Beta trata os seus cachorros melhor que muita gente por aí, e isso nunca entendi. Ela tem para além de oito animais, juntando até papagaio, e os cria com roupinha, chazinho e tudo o mais. Achava um exagero sem tamanho, me enojava da paparicada. Onde já se viu dormir na cama com um gato? Pensava e a recriminava. “Titia, isso pode dar alguma doença para a senhora! A senhora não tem mais idade para brincar!”, e queria convencê-la de que lugar de bicho é na natureza. Penso que o trauma veio justamente por conta de meu pai, que criava inúmeros passarinhos silvestres e empestava a casa de gaiolas. Eu me sentia literalmente numa delas. O velho fazia questão de mostrar um a um às visitas que chegavam, e não se importava de deixá-los presos: “Se cantam, é porque estão gostando do tratamento…”, dizia mil e uma baboseiras como essa, para justificar sua sina de sacrificador. Naquela época eu era doido para ter um cachorro, e não conseguia, porque podia interferir nas relíquias de papai, machucá-los, e ele fazia de tudo para subordinar a minha mãe às suas vontades. Mamãe não se importava com os bichos, era indiferente, nem amava nem odiava, meio-termo. Uma vez, com raiva de papai, prometeu dar boa parte dos pássaros, aí o velho se empetecou, disse que era ele e os animais, que, se quisesse, era assim. Mamãe, a partir daí, criou uma aversão por bichos de qualquer tipo, nem um porquinho da índia, que ganhei do meu primo, pude criar; ela o soltou literalmente na rua. Até hoje não sei do seu paradeiro. Mas, voltando ao que eu queria contar: tudo mudou até Bem chegar. Ele veio para me fazer repensar a vida em suas minúcias. Foi amor à primeira vista. Ajuda a sarar as minhas feridas, depois da morte de Inara, minha esposa, que sofreu uma longa luta baldada contra o câncer – e talvez avalio que tenha sido ela quem colocou Bem no meu caminho. Encontrei-o na rua, num dia de chuva, embaixo do meu carro. Eu tinha ido ao supermercado. Ao sair, notei o vendaval e corri para o carro. Fiquei todo ensopado. Num lance, vi o pequeno saindo debaixo do veículo e vindo à minha direção, como se precisasse de socorro. Ele pedia, com os olhinhos brilhantes, para ter um lar. Pensei e resolvi em segundos. Levaria na condição de dá-lo à adoção. Mas, com um pouco mais de dois meses, se chegava manhoso, pequeno e frágil, para se aninhar nos meus braços. Dormia muitas vezes aos meus pés. O amor cresceu, naturalmente. E o que mais me anima são as suas brincadeiras, que me fazem rir leve e ir além dos problemas cotidianos. Hoje faço questão de tê-lo ao meu lado. Somos crianças, amantes da vida. Reaprendi a viver.

  • O mar é logo ali

    Na semana passada, fui ao Rio de Janeiro para o lançamento do livro “A reinvenção da metáfora: as bodas de Rogério Salgado”, publicado pela Ventura Editora, com organização do poeta Luiz Otávio Oliani, e que tive o orgulho de apresentar na orelha.

    Enquanto estive no Rio, uma frase não saía do meu pensamento: “Poxa vida, o mar está tão perto, é logo ali.” O carioca vive tão perto do mar que, às vezes, parece fingir que não se dá conta, fingir que não liga, fingir que desdenha. Mas é tudo aparência.

    O mar, no Rio, é uma espécie de arranjador, um maestro que comanda a música que toma conta da cidade. Onde quer que você esteja, é o mar quem dita o ritmo.

    Ao andar pelo Rio, tenho sempre a sensação de que as pessoas estão, de alguma forma, sempre prontas para pegar uma praia. Se você duvida, eu te provo.

    Basta reparar — você, que mora longe da praia — como tudo é diferente em lugares como Belo Horizonte, onde eu moro. Quem vive longe do mar passa a vida vestido, e acha que precisa escolher roupa para tudo. O carioca, não. Porque o mar está logo ali.

    Percebi isso quando fui curtir a noite numa boate de Copacabana, na Rua Raul Pompéia. Na farra, o carioca raiz não liga para roupa: se quiser ir de jeans, camiseta e pochete, ele vai; se a mulher quiser ir com um conjunto monocromático, ou com um vestido, ela vai também. Maquiada ou de cara limpa, com batom ou sem batom — tanto faz. O mar está a poucos metros dali.

    Se quiser sair de madrugada da boate e pular no mar, pula. Antes do café da manhã, pula também. Por ser uma cidade com mar, o Rio está sempre mais interessado em tirar a sua roupa do que em te ver vestido. Você me entende.

    A vida na praia é diferente da vida longe dela, e, mesmo quando não é, ainda assim você vive envolvido por essa música invisível do mar.

    Se você conhece São Paulo, sabe que, em algumas casas noturnas, você não entra de bermuda. Assim que a recepcionista percebe o turista desavisado, logo aparece um ambulante oferecendo uma calça para alugar, com maquininha de cartão e Pix.

    Se você se senta numa lanchonete usando boné, é provável que alguém peça para você tirar. No Rio, isso seria impensável.

    Sou mineiro. Moro em Belo Horizonte. Estou acostumado à calça comprida, a ficar vestido o tempo todo, a escolher a melhor roupa para cada ocasião, a combinar cores, a tentar parecer mais bonito, ou até a aparentar uma condição social melhor do que realmente tenho. Quem é mineiro sabe.

    O carioca, não. Usa bermuda para quase tudo: ir à praia, ao banco, ao mercado. Só coloca calça quando realmente precisa: museu, missa, casamento, show, concerto. De resto, roupa de calor, só se for leve.

    Um executivo carioca faz cooper em Ipanema de bermuda, tênis, e sem camisa. A mulher carioca, quando sai da praia, coloca um short por cima do biquíni e uma camiseta para entrar numa loja ou num restaurante.

    Quer reconhecer um estrangeiro em Ipanema? Olhe o Posto 9: é o cara de bermuda, camisa com a manga dobrada, e tênis. A estrangeira é a que veste uma bata por cima do biquíni, usa um chapéu Panamá, e óculos escuros.

    Tudo isso porque o mar é o maestro. Criou a música silenciosa que envolve o Rio, e a coreografia que encanta meus olhos de cronista.

    Mas eu fui mesmo para o lançamento da antologia dos melhores poemas de Rogério Salgado. Fui comemorar os 50 anos desse poeta mineiro radicado no Rio — e aproveitei para bater perna, confesso.

    No evento, na Lapa, pouca gente emperequetada além do necessário. Homens de bermuda, chapéu, camiseta floral, jeans, tênis. É impossível não notar o quanto o mar influenciava tudo aquilo: era uma música silenciosa, um poema, uma liberdade.

    Nem todo carioca gosta de mar, eu sei, mas, no fundo, eles sabem que é o mar quem manda — e nós obedecemos.

    Mesmo quem está no Rio só a passeio acaba entrando na atmosfera carioca. Ganha, sem perceber, uma pequena alminha carioca.

    Com o tempo, você passa a achar uma Havaiana mais charmosa que qualquer tênis caro; anda sem camisa; toma sol; percebe que cada corpo é único, quando está à vontade. O executivo troca o terno pela bermuda; a turista descobre que só precisa de um vestido para tudo.

    Quanto mais tempo você passa no Rio, mais carioca você fica. Gosta de mate, de biscoito Globo, de sorvete de pistache, de samba. Aprende as delícias de andar descalço, de entrar no mar, de esquecer da vida.

    Por isso, estou sempre arrumando uma desculpa para fugir para o Rio. Porque, ali, o mar está sempre por perto — e, acredite, isso faz toda a diferença.

  • Poema #48: Instante de delírio

    Olho para o vazio
    de meus olhos.
    O espelho
    não reflete mais o amor,
    outrora visível.

    Imagens tão nítidas
    se me afloram perdidas
    na incongruência do vidro,
    uma vez descascada sua tinta
    prateada de reflexão.

    E agora as manhãs
    trazem o hálito da perda,
    do que fui e que no meu delírio
    se esgotou em fome.

    Não a fome dos homens
    do nordeste, biológica.
    Tampouco a fome dos homens
    civilizados, que inventaram a fome
    para dois terços do mundo.

    Mas fome ela mesma,
    que não se come e me digere.
    Não se alimenta e me fez assim
    um antropófago de mim.

    Fome que se reverte em morte
    e não me assusta, pois construí
    a vida a partir dela.

    Sou um desses seres que acreditam
    que na sombra se esconde a morte,
    e se perde a vida e se ganha a vida.

    A vida ganha com a morte
    não é metafísica.
    Por isso eu me mato a cada dia,
    consciente de que um vazio com outro
    não se compatibiliza.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #09: Dominó

    Não escanda a minha fala.
    Escancarar uma tara
    nem sempre é um bom negócio.

    Esconda, miúdo, as manias que lhe movem.
    Um dia, quando nada sobrar,
    elas ainda farão o seu coração bater.

    É como diziam os romanos:
    tudo em latim.
    Ninguém entende, todo mundo concorda.

  • Obscuros

    No dia seguinte à festinha de lançamento do primeiro single da banda Hollow Clowns, Zími ficou sabendo por redes sociais que Samir, baterista da banda, havia morrido por overdose de cocaína.

    Era considerado grande baterista, pela força, influência e domínio técnico do instrumento.

    Samir tocava numa banda de punk rock, mas poderia tocar numa banda de rock progressivo.  

    Ele tinha trinta e oito anos.

    Samir era discreto e aparentava ter boa saúde, o que potencializou o impacto de sua partida.

    Foi apenas nesse momento, após uma sucessão de bizarrices na vida pessoal de Zími, e também no cenário mundial, que uma depressão se abateu sobre ele.

    Sabendo que é impossível se manter animado o tempo todo, Zími considera que o mercado motivacional vende uma farsa, e não uma utopia.

    Ele era movido por certas utopias, com ideais muito mais nobres do que tentar mudar essa característica comportamental humana.

    Quando acordava em frangalhos, o resto do mundo continuava funcionando da mesma maneira débil e acelerada em direção a um penhasco que se aproxima assustadoramente enquanto o rebanho humano devora a si mesmo para cumprir metas que enriquecem os verdadeiros patrões, ausentes da feiura cotidiana das cidades.  

    Muitas vezes estão, em plena terça-feira à tarde, em suas lanchas cheias de putas e garrafas de uísque, lamentando com razão a finitude de suas vidas.

    Eles têm alguns bonecos remunerados para dar as ordens e que são chamados de chefes, e que muitas vezes também são escravos.  

    Estão, no entanto, hierarquicamente acima do grande rebanho, cuja diferença em relação ao período oficial de escravidão está apenas nos nomes pelos quais são chamadas as respectivas condições, assim como o percentual de pessoas escravizadas, muitas das quais nem ao menos se dão conta disso.

    Muitos, inclusive gostam e agradecem a esse modelo contemporâneo de escravidão.

    Os bonecos acima deles servem de modelo para a massa, determinando o que vulgar e popularmente se chama de ‘vencer na vida’.

    Mas os capitães do mato, os feitores, as senzalas e as casas grandes também continuam presentes, com outros nomes.  

    O fato de noventa e oito por cento da população é composta por escravos, dando à massa uma impressão de nivelamento, ainda que sejam nivelados no fundo de um poço frio, sujo e úmido.

    O rebanho humano é passivo apenas na relação com esses patrões, mas é bastante selvagem e agressivo na relação com seus semelhantes, que na melhor das hipóteses acordam às cinco da manhã, enfrentam a saga do transporte público, depois cumprem as metas, voltam para casa enfrentando novamente o trânsito dentro de ônibus e vagões de metrô lotados, chegando em casa com a energia vital sugada, e às vezes até agradecem pelo dia.

    Essa massa anônima que devora a si mesma perece e é substituída facilmente, pois na fila por uma ‘oportunidade’ há milhões de desesperados.

    E Zími não escapará vivo dessa desgraça, pois não espera por uma vida melhor após a morte, despreza pastores picaretas que vendem terrenos no céu e exploram o rebanho através do medo.

    E as escolas sucateadas continuam a formar analfabetos que saem dali sem ler, escrever ou fazer contas, prontos para serem esmagados pela grande máquina de moer carne.

    Zími fez faculdade de Jornalismo e ali só recordou que está na mesma cilada que seus semelhantes, e essa consciência lhe serve apenas para tentar um caminho menos tortuoso, permeado pela arte, especialmente música e literatura, com predileção por gêneros que esclarecem essa condição humana precária.

    O suicídio não é solução para ele, pois sabe que a vida dará conta facilmente de matá-lo, e ele quer ver até onde consegue chegar vivo, e ver até que ponto as coisas podem chegar, e talvez presenciar o fim de toda essa farsa, por meio de uma iminente hecatombe.

    Sua fé e esperança consistem em viver até que isso aconteça, para que finalmente, pelo menos por um momento, sejamos todos iguais e nas mesmas condições.

    Zími considerava repugnante o fato de ter sido gerado, e consequentemente não teve filhos, o que o ajudava a lidar com tanta desgraça.

    Sabendo que a vida em si não tem sentido algum a ser descoberto filosoficamente, ele procurava dar a ela esse sentido.

    Ele trabalhava em casa, não enfrentava trânsito, nem chefes, nem colegas de trabalho.

    Sabia que era pobre, mas pagava aluguel, comprava comida e ia ao cinema.

    Podia viajar, porque tinha uma banda, o duo Crop Circles, que ia de chevette pelo interior para shows pequenos, em troca de cerveja e gasolina, e onde podiam vender algum merchandise, para pagar pela comida ao longo do rolê.

    Mila Cox era a parceira musical de Zími no projeto, e também sobrinha de Samir.

    Zími recebeu a notícia da morte de Samir e ainda não sabia como Cox havia reagido ao fato. 

    Sabia apenas que a partir de então, era mais importante do que nunca levar o projeto adiante.

    Conseguiam vender os cd’s e camisetas que levavam, o que parecia um sinal de aprovação por parte do público, embora durante as apresentações houvesse um silêncio causado por um misto de curiosidade e perplexidade, sem nenhum murmúrio de aprovação ou dissidência.

    Muitas vezes, nessas viagens, dormiam no carro, desde que arrumassem algum lugar para cagar e tomar banho.

    Não raro, o público era composto por gente que nunca viu uma guitarra na vida.

    Nos shows da banda eles continuavam ser ver guitarra, pois a banda era composta por ele na bateria e Mila Cox no baixo, no Moog e no sintetizador.

    Na fase embrionária da banda, tentaram vários guitarristas, mas por considerarem que todos pecavam pelo ego inflado, adaptaram o som para que a guitarra fosse substituída por efeitos sonoros do Moog.

    Seus temas eram destruição em massa, apocalipse, extinção, dor e o circo de horrores do cenário político, com letras minimalistas entre ruídos aparentemente aleatórios.

    Ele morava no centro de São Paulo, tinha uma bicicleta e além de trabalhos acadêmicos que fazia para os outros em troca de algum dinheiro, também comprava, trocava e vendia livros.

    Revoltava-se contra a arquitetura urbana da região em que morava, pois esta é bastante hostil para pessoas em condição de rua, que em número cada vez maior, ocupavam a região do centro.

    Era muito mais velho que Mila Cox, que nasceu no século vinte e um e usava a tecnologia que tinha disponível para fazer música, gravá-la e distribuí-la partir de um computador.

    Ela era copywriter e ainda nem sabia se cursaria alguma faculdade ou não. Morava com a avó no bairro da Penha, e fazia cookies de aveia e chocolate amargo nas horas vagas.

    Gostavam de Alex Chilton e Leonard Cohen, mas faziam um som completamente diferente desses artistas, que embora atemporais, não se enquadravam na realidade com a qual tinham que conviver, seja na vida prática do cotidiano ou na parte artística de suas existências.

    Tinham grande paixão pelos discos gravados entre 1966 e 1972 pelos Beach Boys.

    Álbuns que nunca são lembrados e permanecem quase obscuros, apesar da beleza das composições. 

    Essa quase obscuridade dentro da obra de uma banda famosa talvez seja uma das razões para o culto por parte deles.

    Para Zími, Mila Cox era uma espécie de Laurie Anderson. Para ela,  Zími era uma espécie de Slim Jim Phantom.

    Ela usava redes sociais para divulgar a banda e marcar shows, principalmente em cidades pequenas, e ele, que tinha grande desprezo pelas redes, tinha como foto de perfil uma 3×4 em que aparece com uma batata frita enfiada na narina esquerda.

    Zími agora estava preocupado com Mila Cox por causa da morte de Samir, e esperou que ela o procurasse para se manifestar, enquanto fazia a letra de uma música em homenagem ao amigo. 

  • Caos contraproducente

    Cheira à baunilha. Há banana e aveia em formato de osso e olhos ainda vacilantes e resistentes aos raios dominicais.

    Uma miríade de folhas, bocejos e pelos esparrama-se sobre o sofá-cama amarrotado pelas horas adormecidas. O sábado à noite fora um misto de contagem e revolta; em meio à desordem em percentual crescente do que também pode ser um ramo de gravetos1 , o caos é quase palpável. Percebi, ao procurar o volume no topo de rol das minhas leituras que, em dois mil e vinte e cinco, entre presentes e aquisições, cinquenta e oito novos livros passaram a habitar meu universo – fora aqueles que residem, do outro lado da rua de pedestres, com a minha mãe. Em meio a manuais de plantas nativas, guias
    arquitetônicos cariocas, história da arte, coletâneas de crônicas com dedicatórias de pares meus, ficções baseadas em fatos históricos reais, clássicos que ainda não conhecia intimamente, uma linda e antiga coleção em capa dura com detalhes em folha de ouro sobre o tempo perdido, livro em inglês sobre urbanismo contemporâneo, livros sobre os fins dos tempos, sobre design como atitude, sobre livros…Romances ocidentais repousam, à espreita: eis um autor japonês misterioso, como convém, a descrever plantas arquitetônicas que tramam estórias de terror; um outro, coreano, volume segundo, vem escoltado por uma promessa contemporânea tão minha e tão patética: uma bebida comprada pela Amazon que, citada no livro um, é destinada a degustação da continuação da narrativa, ambos ainda lacrados, no aguardo de uma experiência literária completa. Sobre ser antifrágil, sobre o ego ser o seu inimigo, sobre arquitetos conhecidos e apresentados através de disciplinas online da USP, livros sobre como viver em um mundo com participação do coletivo, sobre assassinato na Casa Branca – uma dupla literária que inspirou o homônimo na Netflix: recomendo se, por acaso, você deseja rechear seu domingo de mistério, inteligência e humor -, o quarto livro para se ler antes que o café esfrie, a coleção de xícaras sempre de prontidão no armário superior da cozinha. Em meio ao feliz espanto, a média aritmética do investimento de alguns mil reais em trezentos e sessenta e cinco dias, afirmo, categórica:

    Um lugar sem livros e vestígios de cachorro não é um ambiente feliz, sequer saudável.

    Sequer humano.

    O incenso continua consumindo-se a si mesmo para perfumar de baunilha a loucura mansa deste domingo. Mesmo após o sono,“O fim dos sussurros” não cessa; ecoa pela casa a ausência das páginas não lidas. Hoje, sete de dezembro, em Bucareste, romenos vão às ruas para eleger o novo prefeito da capital. A vacância do cargo deu-se pela assunção do antigo líder citadino, Nicușor Daniel Dan, como dirigente da nação. Ruta Sepetys, que eu conhecera em plena Novo Rio na noite da segunda-feira última, ao fechar da livraria sem limitações de paredes, em meio ao saguão, contara-me sobre um menino que, sem poder algum de escolha, tornara-se um informante do regime comunista na Bucareste da década de oitenta. Traidor por imposição, o adjetivo sussurrante rendia-lhe algumas regalias, como remédios para o câncer de seu “bunu” (“avô”, em romeno; que palavrinha fofa!). A falta de luz, comida, esperança e cor – tudo tinha tons de cinza, relatava-me Ruta – impunha a ironia como traço cultural de resistência. Tudo se mistura agora ao apartamento repleto de livros e bolas de pelo do meu spitz alemão em que estávamos no início do texto, quando o menino descobre que há bananas – dezenas -, em cima da bancada de uma cozinha norte americana. Ele, que desejava ardentemente uma única banana, contrapõe-se aos biscoitos de banana e aveia do Zeca, o spitz brasileiro, que brinca de mastigar um e outro em formato de osso. Enquanto em Bucareste os romenos vão às urnas exibir seu poder de escolha conquistado a muitas perdas e desolação, eu procuro meu livro que se perdeu ou no carro de aplicativo que me trouxera do pet shop, ou no próprio pet shop, que hoje está fechado, ou dentro da minha casa repleta de livros. Procurei até nos dicionários que estavam vacilantes de suas funções numa prateleira dentro do armário do quarto das visitas. A xícara de café espera impaciente na cozinha. Zeca me observa desejoso de rua. Eu penso no livro que está pela metade, perdido de mim e eu dele. É domingo. Em Bucareste, um novo prefeito será sancionado. Na Bucareste das páginas em sussurro, isso parece impraticável.

    1. desafio dominical:sacuda a poeira – metafórica ou literalmente, você escolhe – e folheie as páginas provavelmente amareladas e puídas do seu dicionário (se ainda houver um sobrevivente em sua honrada residência, no caso) em busca do termo que nomeia um modesto ramo de gravetos. Recorrer a Alexa, ao Google ou qualquer IA, será, além de covardia, contraproducente; o analógico anda pedindo migalhas de atenção, um gesto de misericórdia, então… vamos lá!

      PS.: aos preguiçosos de plantão, àqueles que preferem tudo mastigado, aviso que a resposta repousa na imagem desta crônica. ↩︎
  • A Leoa e o menino

    O menino sonha os seus sonhos de menino. Voar, cantar, adestrar leões!

    A leoa faz o que uma leoa sabe fazer, observar atentamente e esperar o momento certo para atacar, afinal, o que um leão faz de melhor a não ser atacar com precisão a sua presa?

    O menino foi esquecido pelo tempo, pelo relógio e pelos olhares. O menino esqueceu-se de si mesmo…

    Solto nas ruas, fechou-se em si mesmo nos seus sonhos e nos seus devaneios.

    A leoa treina e treina cada pulo, cada salto mais alto, observando e aprimorando.

    Afinal, é da natureza dos leões pular e saltar e aprimorar…

    O menino, ignorado pelos homens, refugiou-se em suas fantasias e pôs-se a acreditar que seria um treinador de leões! E treinadores de leões precisam treinar… leões!

    Quis os descaminhos da vida que o menino e a leoa se encontrassem em um zoológico.

    Quis os descaminhos da vida que a leoa e o menino ficassem frente a frente.

    O menino, como que no delírio do artista, se jogou na jaula num voo acrobático e a leoa, por sua vez, já experiente no seu senso de observação e paciência, só esperou o tempo certo e necessário para derrubar o menino.

    O menino, derrubado pela leoa, já não era mais menino… era pó, vento, pensamento distante.

    No entanto, para a grande perplexidade dos que vivem na cidade, o menino já havia sido derrubado bem antes.

    Pelo descaso, pelo abandono, pelas tristes e constantes adversidades da vida.

    O menino foi lançado aos leões, mas não aos leões de fato…

    Leões da covardia, da omissão, da sistemática corrupção, do preconceito, da solidão…

    A leoa, que não tem culpa de nada, presa também pelo insensato homo sapiens, segue sua curta vida enjaulada, como se criminosa fosse!

    Outros meninos entram também em jaulas todos os dias, mas simplesmente não olhamos…

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