Crônicas Cariocas

  • Saída de emergência

    Trepida.

    Me vem, primeiro pelo barulho externo que pelo chacoalhar do corpo.

    Depois, o conforto de um ambiente climatizado.

    Estou em trânsito, como gosto, dormindo a caminho de um novo horizonte [muito embora, seja o mesmo de um momento anterior, que não é esse].

    Minha quilometragem fortalece os sorrisos que virão.

    Quero gozar do tempo que ainda tenho. Quero me dar o sabor de estar comigo mesma. Passear comigo. Tomar sorvete no parque, como se eu estivesse de mãos dadas com outras mãos, que não as minhas.

    O silêncio é extremamente necessário na vida.

    As desilusões, saídas de emergência.

  • Crônica Canina – parte 5: Uma crônica de despedida

    Escrever crônicas de despedida não é uma boa experiência… Escrever crônicas de despedida, no fundo, tem o papel de confortar o coração, desabafar, cumprir um rito.

    No entanto, escrever uma crônica de despedida é sempre doloroso!

    Eu não pensei que escreveria esta crônica…

    Entre tantos assuntos e os assuntos que repetidamente viram crônica, não pensei que este seria o motivo…

    Há alguns dias, perdemos o nosso querido Todd! Um golden retriever amoroso e educadíssimo!

    Um gigante gentil!

    E tudo foi rápido demais! De maneira inesperada, num de repente que não prepara (e nunca estamos preparados mesmo)!

    E sempre perguntamos o porquê!

    Por que você se foi grandão?

    E agora? Quem vai ficar com os olhos grandes no pão, no tão desejado pedaço de bolo?

    Quem vai soltar quilos e mais quilos de pelos pra todo o lugar?

    Quem vai pular na água como se não houvesse amanhã?

    Lembro que levamos o Todd a última vez na Cachoeira dos Frades, um lugar muito bonito em Teresópolis. Todd não se fez de rogado, todo alegre, correu em direção às águas frias da montanha…

    Levamos a Chiara também! E não preciso dizer que ela não tinha o menor interesse em água!

    Aquele dia passou devagar (como os bons dias devem ser)! E vou guardar esse dia como uma boa fotografia na memória!

    Cada oportunidade, era um mergulho e uma satisfação!

    Todd viveu o que se espera de um bom cão: correu atrás de bolas, saltou, fez inúmeras festas quando voltávamos pra casa, dormiu em praticamente todos os cômodos e lugares possíveis e, acima de tudo, se fez presente com a sua doçura e lealdade sem igual!

    Nós, humanos, precisamos aprender o senso de lealdade com os cães! Eles são insuperáveis!

    Desde pequeno, já me despedi de vários amigos de quatro patas… Entretanto, é sempre difícil se despedir… A verdade é que não queremos essa despedida!

    Com o pouco tempo que passam aqui, os cães nos ensinam a ter urgência com o presente e com as horas preciosas do que chamamos vida!

    A urgência é esta: amar! Viver em cada gesto a gratidão e a lealdade!

    Obrigado Todd por nos ensinar mais um pouco disso!

    Antes que as lágrimas encerrem o texto, prefiro terminar por aqui… Imaginando nosso grandão pulando na piscina e sendo feliz aproveitando o dia, a vida como deve ser!

  • Laranja Mecânica

    Podemos dormir tranquilos, pois Big Daddy ‘is watching you’, direto da Casa Branca. Investido de ilimitados poderes imperiais, o supremo cowboy zela 24 horas por nossa integridade ideológica. Mr. Orange, autointitulado ‘xerife do mundo’, mentor do far west style, onde quer que as forças esquerdistas corrompedoras da moral e dos bons costumes impeçam a implantação da doutrina MAGA.

    Mr. Orange é um escudo inabalável contra a ação maléfica de negros, mestiços, latinos, islâmicos, abortistas, feministas, LGBT’s, ONGs e ambientalistas que ameaça a ascendência dos valores ocidentais, machistas, caucasianos e anglo-saxões que faz da América um exemplo de civilização bem sucedida, a ser alastrada pelas regiões selvagens onde a palavra de Cristo não chegou.

    Nos redutos tropicais brasílicos, escancarar-se-ão as portas dos casebres e barracos para que os ares insalubres do atraso sejam varridos pelo frescor dos ventos boreais do Vale do Silício. Serão abandonadas as banais referências tupiniquins, tais como o forró, o berimbau, o açaí, o afoxé e o ziriguidum para possibilitar a entrada triunfal de startups e legiões de nerds, geeks, hackers, techies e afins.

    Mr. Orange assegurará plena guarida aos leais bajuladores, Mileis, Bukeles e Delcys. que se mostrem convenientemente servis às instruções neoliberais e aos preceitos da propriedade privada, guiado em sua cruzada pela palavra da Bíblia, pelo mapa dos poços de petróleo e pela cotação das terras raras na bolsa Nasdaq.

    A abertura da Caixa de Pandora dos arquivos Epstein revelou uma indesejável faceta pecaminosa, convertida rapidamente pelos devotos em abençoada libidinagem, regada a água benta. Mr. Orange, travestido de representante pedófilo santificado da família tradicional protestante pôde então estender seus tentáculos implacáveis para nos salvar de nós mesmos em nossos próprios quintais. Enviando seus drones kamikaze, mísseis hipersônicos, caças de quinta geração e sistemas cibernéticos integrados em nosso socorro para impor aos ímpios, ateus e seres pensantes a moral pregada pelos neopentecostais do Alabama. Ainda que, nesse processo, escolas de meninas tivessem que ser explodidas.

    De onde quer que venha o perigo, democratas, jornalistas, estudantes, sociólogos, comunistas, imigrantes, aiatolás, e todos os que insistirem em se opor à expansão da microsoft, do big mac cheddar e do combustível fóssil, depuradores da raça humana, degenerada por teorias globalistas.

    Seja na Venezuela, no Irã, em Cuba, na Groenlândia, no Canadá, no Líbano, no México, na California, na faixa de Gaza, no estreito de Ormuz e onde mais for, cuida ele da segurança dos investimentos ianques em todo o planeta Terra. E no espaço sideral! Projetos espaciais financiados por Sir Musk e Sir Bezzos são direcionados a fincar a bandeira confederada neonazista e providenciar acesso ilimitado de wifi em todas as unidades do sistema solar, antes que desaforados asiáticos o façam com o Huawei 5G, a rede Tik Tok e o detestável dístico “made in china”.

    O ‘laranja mecânica’ não para. Diariamente inventa um inimigo imaginário num país aleatório para mobilizar sua indústria bélica e sua base de haters, ansiosa por inundar as redes sociais com fake news repugnantes referentes aos desafetos da vez. Façam suas apostas e deixem girar a roleta. Qual será o próximo alvo dos caprichos intervencionistas do Gengis Khan do século XXI?  Burundi? Liechtenstein? Bélgica? Turcomenistão? Uruguai? Quixeramobim? Rocinha? Em todos os cantos dessa Terra plana que Deus-Pai abençoou com o sistema capitalista e o dízimo sagrado.  

    Não tentem os detratores se ocultar nos ambientes furtivos de embaixadas, mesquitas, universidades ou aldeias yanomamis, pois poderosos algoritmos rastrearão as vozes dissonantes em todos os rincões onde houver uma tela de celular e uma torre provedora de internet.

    Autorizado pela prerrogativa de apertar o privativo botão vermelho do Juízo Final que o voto texano lhe conferiu, Mr. Orange busca pela força de seu arsenal nuclear e pelo vazio de suas ideias tirar leite das pedras, conquistar a liberdade das tiranias e a paz dos cemitérios.

  • Gênese

    Fui espiar o gato que miava no jardim, à noite, um miado esganiçado como se o estivessem estripando. Olhei as estrelas, a mancha branca da Via Láctea e a lua com suas manchas retorcidas. Pensei no que haveria por trás dessas estrelas, outras estrelas talvez, por trás da nossa galáxia talvez outras galáxias. Me lembro de Fernando Pessoa: “Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.”

    Foi Baudelaire quem falou da palavra que nomeou o mundo e que nomeou Deus. Foi Deus quem nomeou o mundo, mas foi a palavra quem nomeou Deus. Deus subjaz à palavra. Que frase, hein? Deus subjaz à palavra. Mas, como tudo começou? Com a palavra. Mas quem lançou a palavra, antes de Deus? Quem criou Deus? A palavra. Mas, quem antes da palavra?

    No princípio era o caos. Este é o verdadeiro princípio. O caos. Ou o nada. Impossível imaginar que antes do nada ou do caos surgisse o universo. Algo se moveu, do nada. É o que a ciência até hoje sabe. Algo se moveu. Não existia nada e algo se moveu. A explosão primordial. Há uma campânula, e o vácuo. Uma bola de papel é jogada nesse vácuo, como numa sala vazia. E é criado o universo. Uma explosão que quebra o caos ou o nada, e é criado o universo. Deus deu o petardo na bola de papel. Dizem que Deus é inteligente. Um belo jogador de futebol. Falam na ordem do universo. Um belo petardo nos colhões do universo. E instaurou-se o caos, se é que caos já não havia.

    Caos é o que sempre houve. Ingenuidade falar-se em ordem. Prova da existência de Deus. A ordem ou o caos? A ordem ou o caos, antes ou depois de Deus? Haverá um antes de Deus? Deus há porque há a ordem, mas se não há a ordem, se o que eu vejo é sempre caos?

    Olhe para as estrelas, a harmonia eterna das estrelas. Mas a astronomia nos ensina que não existe harmonia eterna. Existe o caos dos corpos celestes. O universo vive numa harmonia periclitante. Por um triz, e zás!, não existimos mais. Zás!, e nem deveríamos existir.

    Quem somos? Partículas ao acaso, dançando no vácuo. Um dia cairemos. Um dia? Não estamos já no vácuo? E estar no vácuo não é já não existir?

    Querer compreender quem sou, que infantilidade! Querer compreender qualquer coisa é infantilidade. Quem somos? E ainda mais, quem somos quando crianças.

    Quem seremos quando adultos. Crianças, somos obrigados a ser, no futuro. O homem é uma eterna criança.

    O futuro a Deus pertence, diz o ditado popular. Pois fiquemos com o ditado popular. O futuro a Deus pertence. Não às crianças. Deixem-nos a nós, crianças, em paz. Mesmo que já sejamos adultos. O homem é uma eterna criança.

    Eu não quero ser mais nada. Eu sou, ainda, uma criança. E eu, criança, já sou. Eu existo, e pronto.

    Lá fora o meu gato continua miando para a lua, a minha mulher suja os pés na
    lama do jardim para buscá-lo, entra com ele nos braços, resmungando. Olha para mim, como se eu fosse o responsável por tudo: o gato, a lama, a noite, as estrelas. É como se me dissesse: O que você conclui disso?

    Não me venham com conclusões. A única conclusão é morrer, disse o poeta.

  • Livraria do Luiz: espaço de cultura

    O que é uma livraria? Os incautos dirão que é onde se vendem livros. Não deixa de ser uma resposta verdadeira. Se recorrermos ao dicionário, é isso que estará lá, Aurélio e Caldas Aulete até a classificam como loja. Porém, como a vida não cabe nas definições lexicais e, do mesmo modo que os livros não se resumem à sua materialidade objetal, uma livraria é muito mais do que um estabelecimento comercial.

    Quem, após andar entre os negócios e os negociantes do centro de João Pessoa, adentra na Galeria Augusto dos Anjos e, nela, na Livraria do Luiz, facilmente constata o que acima afirmei.

    Cruzando a porta, já se apercebe que está em um universo próprio, dotado de uma aura especial, que inspira e expira cultura. Se as livrarias são mais do que meras casas de comércio, há as que conseguem ser mais do que livrarias. É o caso da Livraria do Luiz, como foi, em certa época, da José Olympio.

    E é isso que faz o encanto do lugar. Muito mais do que o café ou os exemplares à venda, é o ambiente, o que ele representa e o que traz. É aquela aura que se instaurou no número 88 da praça 1817.

    Para alguns, aquele local é um ponto de encontro. Combinam-se reuniões para discutir assuntos, resolver questões ou, simplesmente, prosear enquanto as horas correm. Para os escritores da cidade, funciona como uma verdadeira confraria. A literatura não está apenas nas estantes, mas também, entre um gole e outro, na boca das pessoas.

    Há quem vá para lá sem um encontro marcado. Acontece que, para muitos, esse ato já é algo do cotidiano. Vão, olham uma obra, sentam-se, tomam uma xícara, aparece um conhecido, a conversa se desenvolve, esse se vai, e o ciclo retorna ao início. Não é necessário um objetivo específico e determinado, o próprio estar na livraria possui um significado próprio.

    Conhecendo-a previamente ou não, existe, evidentemente, quem vai apenas comprar algo e, logo em seguida, sai. Geralmente, têm a aquisição já definida de antemão. Esses são os que não se dão o direito à doçura que o acaso fornece nos encontros e descobertas que ocorrem entre as prateleiras.

    Outros, sentados, pouco falam, mas tudo veem. Livro na mesa, xícara ao lado, observam e apreendem o movimento. Talvez, captem algo para a próxima crônica a ser publicada ou, de súbito, sejam tomados por um verso; pode ser até que saquem uma caneta e iniciem um bosquejo ali mesmo.

    Em uma de suas crônicas, a partir de fala em ocasião relacionada a esse mesmo local, Hildeberto Barbosa Filho asseverou: “não se faz história cultural de uma cidade, sem que se esse necessariamente por certos espaços.” Sem dúvida. Não se pode pensar na vida literária de João Pessoa, sem levar em conta a Livraria do Luiz, palco e agente da vivência cotidiana da cultura nesta cidade.

    Essa importância vai além dos lançamentos realizados e dos volumes expostos. Está também – e principalmente – pelo ambiente que se constituiu e que ela representa. Como o espaço que é, a Livraria do Luiz assume um papel de grande relevância para a cultura da cidade e do estado, especialmente para a literatura paraibana. Afinal, a vida literária também é feita disso. Além de leitura e escrita, há a vivência, sem a qual nenhuma daquelas vale.

  • Beber só

    A expressão “beber socialmente” tem um quê da correção política tão propagada hoje. Designa uma forma civilizada de beber (embora haja algum paradoxo nisso, pois bebemos para fugir à força coercitiva da civilização). Quando alguém diz que bebe socialmente, está querendo dizer que se controla, se policia, enfim, não se deixa dominar pelo “vício”.   

    Mas há outro sentido nessa dimensão social da bebida. Beber socialmente é também (e lá vai o óbvio) não beber só. É aproveitar o ensejo para conversar, rir com os outros, trocar impressões (e sobretudo imprecações) sobre a vida e o mundo. 

    Beber socialmente não exclui a possibilidade de alguém ser alcoólatra, assim como beber só não significa que a pessoa seja viciada. Existem alcoólatras que sempre procuram parceiros com quem beber (e quando não os encontram, se frustram, e bebem com mais intensidade ainda). E existem “bebedores sociais” que vez por outra não querem que ninguém lhes perturbe a comunhão que estabelecem com a bebida.

    Para mim, uma das imagens mais dolorosas da solidão é a de alguém bebendo sozinho. Beber só – sem ter com quem brindar, a quem fazer confidências ou mesmo sobre quem entornar o copo – é pior do que comer ou dormir só. A bebida pede expansão e pressupõe o outro. Está associada aos rituais báquicos, que sempre envolviam muita gente (e às vezes, é verdade, terminavam em agressões e assassinatos). Sozinho se lê, se pensa, se reza – mas não se bebe.

    O onanismo etílico é sinal de que falta à pessoa alguém com quem carnavalizar a vida. Embora ela possa fazer isso solitariamente (no Carnaval existem os blocos do eu-sozinho), nada mais estimulante para subverter as regras do que a presença de outras pessoas. O “indivíduo” é por natureza triste, ordeiro, temente às leis e a Deus. E quando está sóbrio, prefere a reflexão às atitudes que confirmam o instinto. Em grupo ele fica ousado, dribla o superego, deixa emergir a catadupa interior que os diques morais reprimem.

    Tão ruim quanto beber só é beber com alguém que não bebe. Mal comparando, é como fazer sexo com quem sofre de frigidez. A sobriedade do outro soa como uma falta de respeito, uma recusa de sintonia que acaba humilhando uma das partes (a parte que bebe, é claro). Comumente, nessas ocasiões, a parte sóbria assume um ar indulgente à proporção que o outro mergulha em seu delirante torpor.

    O companheiro ideal para um bêbado é outro bêbado. Quando se juntam, um não faz muita questão de entender o interlocutor porque também não está preocupado em se fazer entender. Caso estivesse, teria permanecido lúcido. O importante é que, na língua engrolada em que se expressam, sempre dizem o essencial.

    Existem no entanto aqueles para quem beber sozinho é mais produtivo. Os artistas, por exemplo, e entre esses os escritores. Gente como Vinicius de Moraes, Carlinhos Oliveira ou Paulo Mendes Campos não precisava de ninguém nessas ocasiões. Quando tinham diante de si uma garrafa, estavam em silencioso diálogo com as musas. E com elas faziam intermináveis brindes à eternidade.

  • Tem dias e mais dias

    Tem dias que enxergo o sol de forma terna e agradável, como um deus antigo que nos convida a desfrutar a vida.

    Tem dias que a mínima palavra ouvida me aborrece. Uma pergunta trivial chega aos meus ouvidos como a expressão máxima da estupidez.

    Tem dias que busco rostos sérios na rua e tento acende-los com um sorriso. Nem sempre dá certo. Meu sorriso vai e volta para mim e segue enfeitando meu dia.

    Tem dias em que tudo o que falo não é escutado ou compreendido. Me sinto como se falasse algum idioma alienígena. Ou pior: me sinto como se não existisse.

    Tem dias em que o menor gesto cortês me ilumina a vida. Ele fica reverberando na minha memória e suspiro tranquilo ante a boa natureza de algumas pessoas.

    Tem dias que prefiro falar sozinho porque não estou com paciência de traduzir.

    Tem dias que atravesso a rua só porque alguma interessante chamou minha atenção.

    Tem dias que adoro o isolamento completo, sem som e sem mensagens escritas.

    Tem dias que até faço piada na rua.

    Tem dias que parece que moro no circo. A cada volta pelo noticiário televisivo vejo malabaristas de palavras e ideias, domadores de feras e voz alheia, prestidigitadores que fazem a culpa se tornar inocência em menos de um piscar de olhos. E os palhaços? Esses somo nós.

  • Avidez e honra no tempo!

    Em épocas muito passadas, os abastados entediados, não aproveitavam suas vidas ocas, por que não existiam ofertas de lazer e compras atraentes aos olhos exigentes dessas criaturas bem nutridas. A massa de gente, seguia rumos cotidianos sem graça no viver e rotineiramente contavam suas desventuras aos olhos de todos, que em sua companhia vagavam pela próxima busca de motivação diária, surgida nas mãos de alguém mais genial. Os dias de plenitude de alguns séculos atrás, tornaram-se quase pó, mesmo tendo já sido uma deslumbrante idade de ouro. Nosso tempo se caracteriza por uma presunção estranha de ser mais que qualquer outro passado. Apesar das ofertas de compras e novas tecnologias, disponíveis a carteira de qualquer humanoide a solta no planeta azul. 

    Mas a performance  intelectual média, se aproximou de uma decadência rasa, passível de ser omitida pela envergadura descomunal do ter, em detrimento ao ser. Na verdade vivemos num tempo muito capaz de realizar, mas não se sabe o que, pois domina tantas coisas que se torna incapaz de ser dono de si mesmo, e se perde em sua própria abundância. Isso tudo é um pouco do mesmo pensamento escrito no livro “A Rebelião das Massas”, escrito pelo genial José Ortega Y Gasset, considerado de grande importância para o século XX, como foi Carl Marx para o século XIX.

    Os indivíduos fragilizam suas ideias proliferadas pela oferta no menu de escolhas diárias, e se tornam fracos pilares de si e de suas bases intelectuais, sempre á mercê de uma nova teoria que desfaz em breve o que era verdade concreta até então. 

    Nos tornamos criaturas bem mais frágeis que um ventifact, que é uma rocha desgastada, perfurada, gravada, sulcada por areia ou cristais de gelo, movidos pelo vento, por milhares de anos. Sofrem o mesmo grande ataque que recebemos nas ofertas mundanas de nosso viver atual, mas a nós fragiliza, nos deixa atrás do que surpreendentemente surge em instantes, nos envelhecendo e desligando do que é novo e aceito como melhor. 

    A liberdade nos coloca em contato com o desejo, e cria um medo de ser assumido pela incerteza da não aceitação e a provável infelicidade no final.

    As Ventifact são feições geomórficas encontradas em ambientes áridos onde há pouca vegetação para interferir no transporte de partículas eólicas, onde há ventos fortes com frequência e onde há um suprimento constante, esmagador, de areia. 

    Assim como nós, parece impossível essa rocha se manter de pé, mas a natureza tem seus mistérios e surpresas. Quem poderia retirar o suco dessa rocha que nasce dura para sorver em nosso sangue suas benesses. Ela que mesmo perdendo sua estrutura original, se torna outra pedra sem perder a beleza. A nós, cabe a inveja dessa manutenção da avidez e honra no tempo, esse mágico que sempre nos tira um pouco.

  • Os labirintos da noite

    Com o tempo, minha mulher se acostumou com meu sonambulismo. A convivência tem dessas coisas, entre elas o dom de converter nossos atos mais estranhos em aborrecida rotina e agora, quando me levanto no meio da madrugada, ela não mais se incomoda e continua dormindo.

    Há algumas noites uma novidade se incorporou à minha mania de caminhar de olhos abertos, embora estivesse dormindo: o alcance da minha ronda. Antes restritos ao espaço da sala, cozinha e área de serviço, meus passos agora me levam para lugares um pouco mais distantes. Acontece assim: pego a chave, abro a porta da frente, cruzo o jardim e entro na casa vizinha. É uma casa exatamente igual à minha, por dentro e por fora. Na entrada, há o mesmo cabideiro onde costumo pendurar o casaco de inverno; na sala, o televisor ocupa lugar idêntico e na frente dele há a mesma poltrona de veludo marrom. Na parede da direita, a mesma reprodução de um quadro de Volpi e, sobre a mesa de jantar, idêntico vaso de gerânios vermelhos. Igual tapete cobre o chão do corredor. Na cozinha, os armários e utensílios como se fosse cópia. No dormitório, reconheço a mesma cabeceira da cama, em carvalho maciço, as duas mesinhas, uma em cada lado, e o abajur sobre elas. Um casal dorme tranquilamente, e noto como ela é bonita, tão bonita quanto minha mulher.

    Dando um longo suspiro, o homem se levanta dormindo de olhos abertos e, tão natural quanto o amanhecer ou o pôr do sol, caminha quarto afora. Ele passa por mim sem me notar. Eu ocupo seu lugar na cama junto à mulher adormecida. Ela cheira a alfazema. Vejo pela porta entreaberta que o homem atravessa o corredor, entra no escritório e começa a digitar velozmente no computador. A impressora faz barulho quando cospe as folhas, mas nem assim ele desperta. Em seguida, ouço que ele abre a porta da frente e sai para o jardim, carregando nas mãos um maço de papéis. Pela janela, vejo que ele entra em minha casa, cuja porta eu tinha deixado aberta. A mulher ao meu lado de repente acorda, me abraça e mostra que deseja fazer sexo. Fazemos, entre o cheiro de alfazema, o dos lençóis recém-lavados e o do nosso corpo quente.

    Quando acordo, percebo que estou em minha casa de novo, deitado em minha cama e com minha mulher ao lado. Não pergunto nada a ela, pois não quero saber. Levanto-me e olho para a casa vizinha: as cortinas ainda estão fechadas, o carro segue estacionado na garagem e o jardim, como sempre, com a grama aparada.

    Eu ainda não conheço nossos vizinhos. Enquanto tomava café, perguntei, sem olhar para a minha mulher, de maneira dissimulada, se ela os conhecia. Ela respondeu que só de vista, um “bom dia” e nada mais, e mudou de assunto. Terminei o café na mesa do meu escritório onde encontrei, ao lado do teclado do computador, e como em todas as manhãs, o novo capítulo impresso de um romance. E eu não sou escritor.

  • Entre a lei e o ladrão: o que os cães ainda podem ensinar aos homens?

    Nas redes sociais, dois vídeos chamaram a atenção por uma curiosa semelhança, embora, nos fatos, sejam opostos. Em um deles, é o policial quem se derrete diante da presença de um vira-lata; no outro, é o ladrão.

    Começo com um aviso direto: não gosto de ladrão. Para mim, pertencem à escória da humanidade. Ainda assim, convém reconhecer que, por trás de qualquer bandido, há um ser humano e, às vezes, pode correr em suas veias algum vestígio de piedade.

    Peço, então, apenas que contemplem as cenas. Há algo nelas que desarmam o olhar. Mesmo diante da lei, o ladrão não se apavora; move-se e deixa escapar um gesto simples de humanidade ao afagar o cãozinho que se aproxima.

    Do lado do cão, há apenas inocência. Ele não julga, não investiga, não pergunta pelos motivos da prisão. Aproxima-se como os cães sempre fizeram desde o processo evolutivo: um movimento nobre para melhor compreender o ser humano. Talvez seja justamente isso que nos apazigua, porque, diante de um cão, até um ladrão ainda pode parecer um homem.

    Talvez por isso esses dois vídeos, embora contrários em seus papéis, acabem revelando a mesma coisa. O policial e o ladrão estão em lados opostos da lei, mas o cão, alheio, ignora essa divisão.

    Os filósofos antigos costumavam dizer que a natureza revela aquilo que as leis escondem. Diógenes, o velho cínico que preferia a companhia dos cães à dos homens, acreditava que a verdade se mostrava justamente nas coisas simples. Talvez haja algo disso nessa cena: o cão não absolve o crime nem condena o criminoso. Apenas se aproxima e, nesse gesto silencioso, faz aparecer aquilo que ainda resta de humano em nós, mesmo onde a vida já parece ter fracassado.

    Os cães apontam a salvação; o que falta a muitos é entender esse alerta.

    Assista ao vídeo:

  • Só se é de parar quando morrer

    Com dona Raimundinha não tem brincadeira. Mulher trabalhadora, venceu na vida a custo de muito suor, com o seu restaurante lá no centro. Tenho orgulho de minha mãe. Além de tudo, me ensinou a ler e a escrever, porque eu tinha certa dificuldade de decorar as letras, ou mesmo uma dislexia, algo não diagnosticado, porque nos anos oitenta não havia tratamento especial para neurodivergentes. E isso ela fazia quando chegava do trabalho, ia conferir as tarefas escolares minhas e dos meus irmãos, e levava horas, sem demonstrar cansaço. No fim do dia, já perto das 22h, ainda ia arrumar a casa, com a ajuda da Deusinha, a nossa cuidadora e faz-tudo do lar. Ela botou meu pai para correr quando soube que ele tinha um caso com uma funcionária do restaurante; daí você tira a sua dureza nas atitudes, não tinha conversa: “Escreveu, não leu, o pau comeu!”. Lógico, com a sua personalidade forte, quem mandava era ela, e sempre foi assim. Por outro lado, tinha uma delicadeza sem igual para a cozinha, era um verdadeiro milagre, ela se transformava, dedicada como era: a única pessoa que conheço com mãos de fada para a comida, muito melhor do que qualquer chefe. Muito melhor que eu, que segui os seus passos na gastronomia, sendo eu estudado, e ela não. Muito nova, Raimundinha veio para Fortaleza. Sabia, muito certa, que morar no interior, em Nova Russas, não traria o máximo de satisfação que pudesse ter. Decidida, deixou os pais e uma reca de irmãos para trás, deixando dona Lourdes, sua mãe, em polvorosa. “Genésio, não deixa essa menina ir, arruma um jeito de ela trabalhar, essa menina quer trabalho!”. E Genésio, meu avô, não tinha muito o que fazer, trabalhava numa fazenda com gados e pastagem, coisa que achava não ser para mulher, e deixou-a ir; que pegasse o seu rumo, porque não ficaria só, teria mais oito filhos aos seus pés. Quando chegou em Fortaleza, foi trabalhar em casa de família. Logo conheceu meu pai, que era do exército, se juntou e construiu a sua própria família. Era dura no trato, mas sabia a medida certa no amor. Quando eu ainda era criança, era dona de um restaurante, um apartamento e dois carros. Isso era muito para a realidade brasileira. E fazia questão de aproveitar as benesses de ser bem de vida. Viajava muito comigo e meus irmãos. Alugava casa de praia para passarmos os finais de semana – e quem nos acompanhava, para os cuidados diversos, era Deusinha, de cujo paradeiro, hoje, infelizmente não sei. Meu pai sempre ficava fora da jogada, porque atrapalhava com as suas habituais bebedeiras. Nunca tive apego ao meu pai, que foi e é um fracassado, e ainda, nas poucas vezes em que nos falamos, quis me botar moral. Sempre se referindo à Raimundinha como o grande amor de sua vida, algo inatingível: “Desencana, velho, ela não quer nada contigo!”. Hoje, moramos eu e Raimundinha, porque os demais se casaram e construíram as suas famílias. Raimundinha ainda continua dura na queda, não aceita desaforo e doma, como ninguém, seus cinco funcionários e uma casa de cinco quartos. “Mamãe, já está na idade de você parar, deixe que eu dou continuidade na cozinha e no trato da casa”. “Não! Só se é de parar quando morrer”. De certa forma ela tem razão, não a vejo parada, é um trator, desde as 5h da manhã até o final do dia. É assim a sua vida, nada mais o que fazer para mudar, senão seria outra, não seria minha mãe, não a vejo de outra maneira.

  • Oi, Mazzilli

    Certas coisas na vida não vêm de graça. Se você, por exemplo, tem o hábito de ir ao cinema toda semana, de se alimentar de filmes velhos e novos, tenho certeza de que alguém o levou ao cinema pela primeira vez. Um tio, um pai apaixonado por filmes, uma mãe, um professor, uma avó. Se você é do tipo leitor apaixonado, daqueles que leem por prazer até as placas das ruas, alguém na sua casa é assim. Ou, então, alguém o levou ao museu, ao teatro, lhe mostrou um disco. Paixão assim passa de pessoa para pessoa. E, se, como eu, você não teve uma família rica, a história fica ainda mais interessante.

    Quando eu era um menino, descobrindo a MPB, ainda não era o tempo dos streamings. Para saciar esse vício, eu pedia que gravassem discos para mim. Marcava com um amigo para almoçar, ou tomar um café, e lá estava ele, com aqueles CDs virgens que a gente comprava nas Lojas Americanas. Voltava para casa com músicas gravadas — jazz, MPB, coisas que eu ainda nem sabia direito de onde vinham.

    Eu era pobre, mas ia me virando com a ajuda daquele amigo.

    Às vezes, num fim de semana qualquer, ele marcava comigo na porta do cinema. A gente via um filme. Depois, ele me convidava para jantar. Pegávamos o carro, íamos para a Savassi, conversávamos sobre o filme e, quando eu voltava para casa, meus bolsos estavam cheios de guardanapos, todos rabiscados, com referências para eu procurar depois.

    Era um tempo em que eu ainda tinha telefone fixo em casa. Minha mãe dizia, da cozinha ou da sala:

    — O Mazzilli ligou.

    Eu retornava. A gente combinava um filme, uma pizza, e o ritual recomeçava.

    Foi ele quem me falou, pela primeira vez, de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Foi ele, também, quem me apresentou o cinema de Billy Wilder. E foi ele quem me fez ouvir discos que eu jamais teria dinheiro para comprar.

    Conheci o Mazzilli em 2007, numa exposição chamada “O tempo redescoberto”, na Biblioteca Pública. Dali em diante, a gente passou a se encontrar com frequência — para ir ao cinema, almoçar, tomar um café, conversar.

    Ele era um psiquiatra que se descobriu artista plástico. Eu era um menino pobre, da periferia de Belo Horizonte, que tinha lido Capitães da Areia, de Jorge Amado, e sonhava estudar Letras.

    Domingos Mazzilli Jr., o Mazzilli. Nunca vi ninguém gostar de gente como ele gostava. Gostava de conhecer gente simples, como eu era, e apresentar discos, filmes, livros. Dizia que cultura devia estar na cesta básica das pessoas. Cultura também é coisa do menino da periferia, do motorista de ônibus, da empregada doméstica.

    Quando ele fez a exposição na Biblioteca Pública, no dia do coquetel, você via professores de universidade misturados com leitores que estavam apenas passando por ali — e até moradores de rua. Assim era o Mazzilli.

    A vida foi passando. Eu me formei em Letras, aprendi inglês sozinho, virei cronista. Meus amores vieram, e foram. De certa forma, tudo isso teve um pouco do dedo dele.

    Foi ele, por exemplo, quem me levou ao Sementes de Poesia, da nossa amiga Regina Mello, nas manhãs de domingo. Um sarau que eu amei muito.

    Na segunda-feira passada, lendo uma postagem no Facebook da Regina, fiquei sabendo que o Mazzilli tinha morrido. Um AVC.

    Ele foi a ponte entre mim e muitos discos, filmes e livros que eu amo. Mas foi também o confidente dos meus primeiros amores, o leitor dos meus primeiros textos.

    A última gargalhada que dei na vida foi com ele.

    Mazzilli morava em Macacos, distrito de Nova Lima, perto de Belo Horizonte. Era natural de Muzambinho. Para mim, parecia um irmão mais velho ensinando o mais novo a andar de bicicleta.

    Eu descobria a arte.

    E aprendi uma coisa, dessas que ficam para sempre: sem amigos — e sem arte — a vida é impossível.

  • ‘Rio, Zona Norte’: de Nelson Pereira dos Santos

    Retornamos com os comentários sobre filmes brasileiros nesta página, falando sobre o filme “Rio, Zona Norte”, de 1957, dirigido por Nelson Pereira dos Santos. O filme se passa na cidade do Rio de Janeiro e conta com as atuações de Grande Otelo, Jece Valadão e Paulo Goulart.

    Ele conta a história do sambista Espírito da Luz que, após sofrer um acidente em uma linha de trem e ter um traumatismo craniano, tem sua história revelada para o público que assiste ao filme. A trama se desenvolve em dois momentos distintos. Em um deles, são contados os momentos após o acidente sofrido pelo protagonista. No outro, os acontecimentos anteriores a esse mesmo acidente.

    Nelson Pereira dos Santos é, sem dúvidas, um dos grandes expoentes do cinema brasileiro, se não for o maior. Nesse filme, ele faz uma junção da abordagem da arte, por meio do samba, com problemas sociais enfrentados por uma população que, apesar de ter muito potencial e evidente talento, fica à margem da sociedade.

    Espírito de Luz é a representação das injustiças dessa sociedade que não olha com olhos de interesse para quem vem da periferia. Um sambista que tem uma capacidade ímpar de compor sambas, de uma forma que comprova ter nascido para fazer aquilo. Apesar disso, com seu espírito esperançoso e alegre, é constantemente enganado por pessoas que se aproveitam de seu talento para faturar, deixando-o em uma situação de miséria. Quantos Espíritos existiram ou ainda existem nesse mundo?

    Dessa forma, o filme de Nelson se aproxima muito de uma realidade marcada pelas injustiças sociais. Nesse contexto, a fronteira entre ficção e realidade passa a ser uma mera questão de detalhe.

    Essa obra mostra como o cinema brasileiro é rico e pode abordar temas variados de diversas formas. Ainda mais do que isso, só comprova que o cinema brasileiro já tem uma qualidade enorme desde muito cedo. É necessário que valorizemos nossa cultura pretérita para que possamos construir um Brasil cada vez mais carregado de identidade. “Rio, Zona Norte” ajuda a fazê-lo.

    Ficha do filme:
    5 de maio de 1958 No cinema | 1h 30min | Drama.
    Direção: Nelson Pereira dos Santos | Roteiro Nelson Pereira dos Santos.
    Elenco: Grande Otelo, Jece Valadão, Paulo Goulart.

  • Antes da escalada nuclear

    Tuco se suicidou.

    Era vizinho de Zími.

    Encontravam-se eventualmente nu elevador do prédio em que moravam e raramente as conversas passaram do “bom dia, boa tarde, boa noite”.  

    Zími, no entanto, podia compará-lo a um repolho cheio de rancor. 

    Ou a uma balança moral com defeito.

    Sabia que eram ideologicamente antagônicos.

    Vizinhos do prédio contaram a Zími sobre a morte de Tuco pouco depois da polícia científica deixar a garagem do prédio.

    O que havia de consenso nas diferentes versões dos vizinhos sobre o fato era a ruína financeira de Tuco, que o atormentava.

    Ele jamais seguiu a lógica minimalista de Zími, que pregava viver com o suficiente e poupar quando possível. 

    Nem poderia, pois era divorciado com dois filhos, enquanto Zími era solteiro e sem filhos.

    Tuco não ostentava grandes bens ou uma vida cheia de conforto para que alguém pudesse supor que tivesse dívidas insolúveis. Talvez esse fosse o motivo de seu discreto desespero.

    Ele deixou duas crianças órfãs, sócios desesperados em meio a negócios escusos e um apartamento vago no prédio.

    Os filhos viviam com a mãe em outro lugar.

    Zími ouvia Tuco dizer sobre si que era um conservador capitalista convicto, em rodinhas de vizinhos na frente do prédio.

    Tuco tinha quarenta e três anos e Zími tinha quarenta e oito, mas Tuco parecia ser mais velho, tanto na aparência física como na parte comportamental.

    Zími, um antifascista que não vota e despreza todos os políticos, de qualquer tendência ou partido, pensava no que poderia significar, para Tuco, o termo ‘conservador’.  

    É impossível que haja qualquer progresso sem o desvio da norma, então esse foi provavelmente um ponto em que a cabeça de Tuco fundiu, e sua ideologia conservadora finalmente se revelou inviável.

    Era agora apenas a lembrança de um repolho rancoroso que não lidava bem com a verdade descoberta tardiamente e não suportou a sensação de ser enganado até uma idade madura.

    Ele foi enganado pela falsa ideia de que havia para ele alguma perspectiva de prosperidade, em detrimento à qualidade de vida de outros.  

    Para Tuco a competição era necessária, e a desgraça de muitos era necessária para o triunfo de poucos. 

    Ele próprio nunca chegou a triunfar em riqueza material, como sonhava.

    Nunca imaginava uma prosperidade comum, pois tinha inimigos imaginários que o abalavam muito, especialmente no auge da crise sanitária.

    Um negacionista amargurado, inflexível para mudanças coerentes de opinião, sempre implantadas por lavagem cerebral de fanatismo religioso.

    Tuco, de acordo com as pessoas mais próximas a ele, estava afundado em dívidas, e defensor ávido do capitalismo, morreu na ratoeira do sistema que defendia.

    Alguém poderia atribuir à sua morte algum drama passional e não financeiro, algo que só piora o quadro deixado pelo infeliz.

    No entanto, também não ostentava uma vida de riqueza ou diversão suficientes para justificar tamanho desespero financeiro.

    Morava num conjunto com 48 quitinetes, e talvez isso fosse degradante para seus delírios de pobre capitalista, talvez megalomaníacos.

    Os pesadelos relativos a problemas financeiros abalam todos os setores da vida, e o amor familiar é o setor mais castigado.  

    No caso de Tuco, isso já não existia mais, a partir de um divórcio atribulado.

    Disse a Zími certa vez, numa conversa rápida e aleatória, que um homem pode ser feliz com qualquer mulher, desde que não a ame.

    Da porta de Tuco vazava o som de sucessos popularescos contemporâneos com conteúdo sexista, machistas em linguajar grotesco.  

    O pequeno entusiasmo que o fazia seguir adiante era obtido através de pastores picaretas, políticos, televisão e outros escapismos.

    Ele morreu antes que Zími lhe perguntasse quem era a vizinha nova que ouvia Throwing Muses de madrugada.

    Zími nunca perguntou porque faltava assunto entre eles para que uma conversa se aprofundasse a ponto de oferecer essa oportunidade.  

    Falavam entre si apenas o imprescindível, mantendo certa cordialidade de vizinhos.

    Tuco passava muito tempo na frente do prédio fumando e aparentemente pensando, e conhecia os moradores.  

    Alguns paravam para conversar, os que seguiam a mesma linha ideológica de Tuco. Eram esses os mais perplexos com seu último ato.

    Certa vez, quando se encontraram numa agência bancária, Tuco disse a Zimi que era melhor ter uma renda permanente do que ser fascinante.

    Zími considerou apenas que a fase atual do país e do mundo, com guerra, peste e violência, além de ameaças fascistas, estivesse de acordo com a condição que Tuco idealizava, e por isso também ficou um pouco surpreso com o suicídio.

    O fato é que dada a sua ideologia de vida, estava individualmente derrotado no placar geral.

    Apesar disso, era surpreendente para Zími que Tuco não estivesse mais disposto a aguentar mais tempo, só para ver o que aconteceria com o mundo.

    O ambiente em que viviam tinha um efeito completamente diferente sobre cada um.

    Apartamento pequeno, mais fácil de limpar, bom para Zími trabalhar em seus freelas, salvando estudantes preguiçosos com a produção de trabalhos acadêmicos.

    Certo sufoco financeiro, especialmente na semana que sucedia o pagamento do aluguel, mas levando em conta que era solteiro e sem filhos, as dificuldades eram reduzidas.

    O que sobrava eram os perigos e a falta de glamour da existência, aos quais todos estão submetidos.

    Uma visão do desconhecido como perigoso, levando em conta os rumos obscuros a que bilhões são submetidos de acordo com interesses de poucos.

    Zími acreditava que se uma parcial do seu placar na vida lhe fosse mostrada naquele momento, não estaria ganhando, nem perdendo. O que importava era o caminho.

    Consciente de sua finitude, queria ver até onde podia chegar, com suficiente senso de ridículo para não passar vergonha por atitudes estúpidas para sua idade ou para alguém que preze minimamente por um mínimo de classe na existência.

    A morte de Tuco fez com que Zími revesse o que significa não estar mais aqui enquanto os ônibus continuam passando, a padaria funcionando normalmente e o esquecimento das pessoas que morrem sendo acelerado pela bizarra banalização da morte imposta a todos nos últimos anos.

    Para Zími, a maior das loucuras é saber que o mais louco ainda está por vir, provavelmente de surpresa e para todos que estiverem vivos.

    O apartamento de Tuco foi ocupado em menos de uma semana, por uma família peruana de quatro pessoas, entre eles um bebê, dividindo o apartamento de solteiro.

  • Poema #59: Perdas e Danos

    parece que perdi
    o dom de sonhar
    depois de tantas
    decepções.

    depois de tantas
    perdas
    parece que sonhei
    que já não tinha o dom.

    acordei e era tudo
    verdade ou pesadelo
    depois eu acho
    que dormi de novo.

    O Jardim Simultâneo

  • Vênus sob cerco

    Diz-se, desde muito tempo, que somos de Vênus — a deusa romana do amor, da beleza, da fertilidade, da paixão.

    Talvez por isso tenhamos sido educadas, durante séculos, para preservar o vínculo a qualquer custo. Para compreender antes de julgar. Para acolher antes de confrontar. Para duvidar de nós mesmas antes de duvidar do outro.

    Essa disposição para o cuidado, que também é uma das maiores forças da experiência feminina, pode ser manipulada por quem aprende a explorá-la.

    O agressor raramente começa com a violência explícita. Ele começa com pequenas fissuras na realidade: uma frase que não foi dita, um fato que teria sido imaginado, uma lembrança que, segundo ele, está errada. Aos poucos, o chão da mulher vai sendo retirado sob seus próprios pés.

    Quando ela já não confia totalmente na própria memória, na própria percepção, na própria lucidez, torna-se mais fácil aceitar o inaceitável.

    Esse tipo de manipulação tem um nome: gaslighting.

    O termo vem do filme Gaslight (1944), estrelado por Ingrid Bergman. Na história, um marido manipula pequenos acontecimentos do cotidiano para convencer a esposa de que ela está enlouquecendo.

    Entre as formas de violência psicológica contra a mulher estão o isolamento, a vigilância constante, os insultos e essa distorção deliberada da realidade que corrói lentamente o amor-próprio, a autoconfiança e a sanidade psicológica — bases mínimas para uma vida digna.

    A violência nem sempre termina em morte física. Muitas vezes ela opera lentamente, em silêncio, antes de chegar ao seu desfecho mais brutal.

    E talvez seja por isso que o Dia Internacional da Mulher ainda seja menos uma data de comemoração e mais um momento de alerta.

    Segundo estimativas globais da ONU Mulheres, 85.000 mulheres e meninas foram mortas intencionalmente em 2023. Desses homicídios, cerca de 60% — 51.000 casos — foram cometidos por parceiros íntimos ou outros membros da família.

    Isso significa que 140 mulheres e meninas são mortas todos os dias por pessoas do próprio convívio. Em média, uma mulher ou menina assassinada a cada dez minutos.

    No Brasil, os dados mais recentes indicam que 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, o equivalente a cerca de quatro assassinatos por dia. Levantamentos divulgados em 2026 apontam que o número pode ter chegado a 1.568 casos em 2025, o maior já registrado desde que o crime foi tipificado no país, em 2015.

    Diante desses números, talvez a pergunta inevitável neste Dia Internacional da Mulher seja: o que exatamente estamos celebrando?

  • Ai, minhas orelhas!

    Ando com muita pena das minhas orelhas porque as pobres estão ficando de abano. Daqui a pouco vou precisar de uma plástica.

    Eu já havia detectado o problema por causa dos óculos que as coitadas são obrigadas a suportar e dos brincos que uso desde sempre. Mesmo tentando que ambas as coisas se tornassem cada vez mais leves, sentia que minhas orelhas se vergavam aos poucos, com uma contribuição nada desprezível da facilidade com que as cartilagens, e quase todo o resto do corpo, vêm abaixo com o passar do tempo. E a agravante de que na família há vários casos de surdez por velhice, o que torna grande a chance de no futuro acrescentar um aparelho auditivo a tudo isso.

    Para completar o quadro, agora as orelhas ainda têm que aguentar os elásticos e o peso das máscaras que usaremos permanentemente até sabe-se lá quando. É penduricalho demais para as frágeis orelhas.

    Médicos e outros profissionais de saúde vão dizer que isso não é nada comparado com a situação deles, forçados a usar máscaras durante horas. Compreendo que seja difícil, mas há uma grande diferença: tais pessoas escolheram a profissão e já sabiam das desvantagens. No nosso caso foi o tal do corona, com quem já estou perdendo a paciência, que nos trouxe esse sacrifício extra.

    Aguentem firme, orelhinhas! Vai passar.

  • Esquisito íntimo

    Esquisito:

    Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels preto e branco dançantes. Uma quase hipnose.

    Quando não sabemos o significado de certas palavras, é fácil abstrair-nos de seus valores agregados e nos prendermos aos seus odores.

    Esquisito quase fede.

    Esquisito, em si, é um quase. É preconceito, em primeira instância. Algo que, à primeira vista — ou ao primeiro ouvido — soa ruim. Pode, entretanto, o esquisito ser apenas diferente; e o diferente é condição sine qua non para sairmos de nossos rótulos e padrões, muitas vezes nem sequer nossos.

    Esquisito, no final das contas, sempre é bom.

    Como é boa toda primeira vez — depois que vira memória.

    A primeira vez é esquisita por ser território novo: gotas de suor descendo pelas têmporas, respiração em ritmo de taquicardia, suspensão do tempo que, congelado, torna-se projeto à luz da recordação.

    Esquisita e sempre inesquecível: a primeira vez que saímos sozinhos, a primeira escolinha; o primeiro beijo, o primeiro emprego — e, consequentemente, o primeiro salário —, a primeira briga, a morte de um ente querido. Sentir-se só após um divórcio, a viúvez, a perda do próprio chão. A primeira medalha. A primeira vez que se faz algo errado, a primeira gota de álcool.

    E há também a primeira vez da primeira vez — aquela que inaugura o próprio corpo: a perda da virgindade, quando descobrimos que o amor, o medo, a curiosidade e a coragem podem caber todos no mesmo instante.

    O primeiro amor. Conhecer a família do namorado ou da namorada. A primeira vez que alguém sai do armário. O primeiro ato de liberdade. O primeiro “eu te amo” que alguém lhe diz sem ser família. A primeira vez que você vê o mar.

    Sempre é esquisito. Sempre um território novo. Sempre transformador — sensação sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz.

    A primeira vez é um vocábulo inquieto: dito depressa, parece o chiado das TVs antigas que saíam do ar e enchiam a tela de pixels preto e branco dançantes.

    A primeira vez é sempre hipnose.

  • Marta ainda não está morta

    Marta acordou e foi logo verificando sua respiração. Tudo em ordem, estava viva. O que fazer? Levantou-se resignada, bocejou, deu uns muxoxos e foi ao banheiro.

    Ultimamente esse ritual de despertar e continuar respirando se repetia. Perguntava-se por que não morria de vez. Sua memória fraquejava, as pernas doíam, as articulações tinham deixado de articular e o joelho esquerdo parecia fora do lugar, uma geleia. Sem contar a labirintite.

    Curiosamente ainda lembrava de passagens da sua infância: a primeira viagem, o primeiro milho cozido na espiga, o primeiro beijo roubado, tudo bem claro em sua mente.

    No entanto, não estava bem certa de quantos bisnetos tinha. E os netos? Sabia de um que nunca tinha visto. Podia ser alguma doença congênita, quem sabe até estivesse morto. Talvez a quisessem poupar.

    Exatamente isso que a incomodava: sempre a suspeita de comiseração familiar, como se todos, em conluio, planejassem esconder dela o que julgavam coisas ruins ou notícias tristes. Não seria ela capaz de entender, aceitar ou suportar as rudezas da vida?

    Agora, largada na cama, assistia de perto à menina, cuidadora contratada para ela. Sentia-se péssima naquela situação de dependência, necessitada de babá, um retrocesso ingrato, humilhação que ela pensava não merecer.

    O que Marta mais temia não era acordar e descobrir-se sem vida; nem eram as dúvidas sobre reencarnação, ou se o fim viesse a significar mesmo o fim de tudo. Detestava admitir e a ninguém confessava, mas tinha era pavor de morrer.

    E toda manhã, ao acordar, o mesmo ritual de verificar a respiração e constatar que vinha lá um novo e longo dia, cansativo e fastidioso.

    Os filhos raramente a visitavam. Justificavam afazeres e problemas diversos, e ela sentia-se mesmo um estorvo. Sem contar que os amigos andavam sumidos ou eram quase todos já falecidos. A monotonia carcomia pelas beiradas.

    Sua cuidadora, menina paciente e emburrada, dizia-se enfermeira. Parecia um daqueles robôs, sempre atrás dela para remédios e advertências. Levava-se a sério e achava a vida um desenrolamento de responsabilidades. Uma chata.

    As horas para Marta custavam a passar. Arrastadas. Um de seus prazeres, o café da manhã: fatia de mamão com açúcar, banana amassada com grãos, café com leite desnatado e o pão com manteiga ou requeijão. Era sagrado.

    Não comia muito no almoço, qualquer coisa servia desde que não faltasse arroz. Dormia uma hora à tarde e depois lia alguma coisa no jornal ou via televisão. Marta era assídua de novelas. À noite, na maioria das vezes, sopa. Exceção feita à de cebola. Detestava cebolas, forçavam lágrimas e Marta sempre odiou chorar.

    Matava seu tempo também no celular que recentemente aprendera a usar. Apenas o básico. Ligava especialmente para filha mais velha, a fim de saber as novidades. Somente as boas ou inúteis, porque as reais não lhe eram permitidas. Marta era cardíaca, tinha obstrução nas artérias e hipertensão controlada à base de comprimidos.

    Ainda fazia uso de fitoterápicos para dormir, que quase nada adiantavam. Dormia pouquíssimo. Ironia de vida que costumava repetir nas conversas “quando era jovem e amava a vida, sentia um sono irresistível, agora que odiava viver, dormia cada vez menos”.

    Seu pulmão era outro ponto fraco. Tossia sem parar. Logo ela que nunca havia posto um cigarro na boca. Tinha um único vício e que lhe deixara o fígado baleado: era chegada a umas cachacinhas. Ainda hoje, se
    dessem uma trégua ou nas comemorações em família, tomava uma taça de vinho ou encarava um a latinha de cerveja gelada. Só para amenizar o travo das saudades.

    E de que tinha saudades? Atualmente de nada. Talvez de manter-se animada para seguir vivendo. E o que a mantinha viva, respirando, tossindo, com as dores nas articulações, sem a cachaça e o joelho esquerdo destroçado? Simplesmente o medo paralisante de morrer.

    Marta ficava a imaginar sua morte, ela se despreendendo do corpo e escutando as pessoas “Dona Marta está morta! Partiu dessa pra outra! Descansou, enfim”. Quem fosse a seu enterro, e seriam poucos, que a
    velassem com respeito. Ao menos, evitassem as piadas e disfarçassem o incômodo de estarem ali.

    Estranhamente, naquela noite, ao se preparar para dormir, pressentiu no ar algo diferente. A hora da partida se acercava. Era quase palpável, Marta sabia. Deitou-se, então, com o melhor pijama, lingerie nova, até perfumou-se. Devia ser dessa vez.

    Demorou uma eternidade para dormir, ainda sem saber para aonde iria, se para o nada ou noutra vida, uma empersária milionária, uma atriz de televisão, uma flor num vaso ou um batráquio. Até imaginou-se reencarnando numa lagartixa. Acabou adormecendo, de tosse e cansaço.

  • Tempos modernos

    Eu procuro entender um pouco sobre as máquinas. Procuro mesmo. É verdade! Não sou muito simpático a elas não! Sabe qual o problema? É o apertar de botões! Aperta aqui, aperta ali! Imagino Carlitos em Tempos Modernos, enlouquecido entre as engrenagens.

    Aperta aqui, aperta ali e as imagens vão se acumulando na tela do computador, uma após outra, sucessivamente. Não reparo muito em imagem alguma. O que importa nesse jogo não é o conteúdo, mas a velocidade. Minha cabeça parece enlouquecer! Mas a pergunta que me faço e que repasso a cada um de vocês é: qual será o futuro disso tudo?

    Estamos comprometendo uma parcela importante do nosso tempo e de nossas vidas ao maquinário, à tecnologia. Deixamos de viver, de beber, de comer, de sorrir, enfim, deixamos tudo de lado para olharmos fixamente o monitor.

    Seremos deletados porque nosso programa possui falhas! Adquirimos vírus! É absurdo, patético e irônico: as máquinas têm vírus! E como sofrem! Sofrem como nós! E nós, sofremos ainda? Não! Não mais. Estamos muito ocupados com o computador para pensarmos nisso!

    Quando o sistema cai o mundo inteiro também cai: não há banco, não há dinheiro, não há negócio, não há emprego, não há sonho. Ficamos à espera da manutenção! E esperamos horas e horas! Muitas horas!

    Há pessoas que não vivem sem verificar religiosamente os e-mails (caso não o façam há a possibilidade de entrarem em depressão). Há aqueles que deixam a vida toda registrada (fatos e fotos íntimos demais para serem compartilhados com qualquer um) nos sites de relacionamento para que o planeta todo veja e pense qualquer coisa a respeito. Ou não pense absolutamente nada. Há, ainda, os que se apaixonam e se encantam por namorados virtuais. Nada contra isso. Mas existe muito exagero!

    Eu realmente procuro entender um pouco sobre as máquinas. Escrevendo esta crônica agora vou levando os meus dedos sobre o teclado (e que diferença para a máquina de escrever) e pensando nas comodidades e na praticidade da vida moderna. Você pode acessar (olha aí, na linguagem também) qualquer informação sobre qualquer assunto na Internet. Pode, aliás, conversar com o mundo todo, literalmente. Mas há que se ter um cuidado, um cuidado apenas: não ser escravo desse aparato tecnológico.

    Posso andar despreocupado sem o fone no ouvido, sem o MP3 (e já inventaram o MP4 e, com certeza virão 5, 6, 7…), sem o iphone, sem a câmera digital, sem o notebook, sem o GPS, sem… Opa! Peraí! Acho que perdi… Perdi…

    Deixei tanta coisa pelo caminho que não sei mais o que é humano…

    A minha identidade. Aquilo que me marcava como ser único e pensante se perdeu. Em algum lugar entre o mouse e a webcam

  • Genival Lacerda

    Não se sabe se ‘forró’ deriva de ‘forrobodó’ (festança) como dizem alguns etimólogos ou se é uma corruptela da expressão em inglês ‘for all’ como sustenta outra ala, em que se inclui, por exemplo, Geraldo Azevedo. O que é certo, no forró, é que, como diz a canção de Dominguinhos, “quem tá fora quer entrar mas quem tá dentro não sai”. 

    Controvérsias à parte, o forró é consensualmente uma autêntica manifestação cultural do Nordeste como a literatura de cordel, a capoeira e o acarajé, havendo inclusive uma iniciativa junto ao IPHAN para torná-lo patrimônio imaterial do Brasil.

    Através de sua vertente ‘forró universitário’, conquistou a juventude dos grandes centros do Sudeste, com conjuntos de sucesso baseados no eixo SP/RJ como Falamansa, Rastapé, Bicho de Pé, Circuladô de Fulô, Trio Virgulino, Trio Forrozão, Forroçacana. A despeito das reservas dos puristas, esse movimento musical urbano, que teve seu auge nos anos 90, nunca deixou de se conectar aos grandes nomes tradicionais do forró e afins (xote, baião, xaxado, arrasta-pé).

    Percebendo esse potencial, a indústria cultural criou mais recentemente uma versão estilizada, o ‘forró eletrônico’ ou ‘tecnobrega’ (apelidada por Chico César de ‘forró de plástico’). Grupos como Mastruz com Leite, Limão com Mel, Calcinha Preta, Aviões do Forró e Os Magníficos (curiosamente, todos sediados no Nordeste) arrastavam multidões a seus shows pirotécnicos cujas performances glamourizadas pouco lembram a coreografia singela do “forró pé de serra” de Luiz Gonzaga. A soberana sanfona foi destronada e substituída pelo órgão eletrônico e às imprescindíveis picardias foram adicionadas fúteis temáticas românticas.

    Nesse universo, o som de Genival Lacerda soava extemporâneo, assim como suas apresentações, onde estavam presentes o indefectível chapéu coco, a roupa multicolorida e a maneira singular de se requebrar desengonçado no palco, carregando o barrigão saliente. Suas letras eram carregadas de deboche e ressaltavam a malícia e o duplo sentido. Devido a isso, alguns tachavam sua música de porno-xote, pecha que o artista, ofendido, rejeitava, alegando, por exemplo, jamais ter lançado mão de palavrões.

    Conforme explica o músico Silvério Pessoa (da banda Cascabulho), “Genival fez parte de um clã que está em extinção, o forró ligeiro quebrado, dividido, lúdico.” Tendo como suporte o trio básico acordeon/zabumba/triângulo que caracteriza o forró de raiz, bebeu direto das fontes originais que moldaram seus álbuns iniciais quando ainda não dava tanto espaço para as brejeirices que viriam a marcar a segunda metade da sua carreira.

    Enfim, um genuíno representante da primeira geração do forró que inclui nomes emblemáticos como Ary Lobo, Gordurinha, Marinês, Clemilda, Anastácia, Trio Nordestino e sobretudo os gigantes Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Em sua discografia, constam aliás um tributo a Jackson do Pandeiro (que era aliás seu concunhado) e outro em que revisa a obra de Luiz Gonzaga (participação de Fagner, Elba Ramalho e Chico César).

    Embora tenha gravado mais de 70 álbuns, consagrou-se mesmo com a música SEVERINA XIQUE XIQUE (co-autoria com João Gonçalves) de 1975 com o famoso refrão “ele tá de olho na butique dela” que se tornou sua marca registrada e estendeu seu prestígio para todo o país. A canção ganhou releitura de uma pá de artistas de renome: Zeca Pagodinho, Marisa Monte, Nando Reis, Zeca Baleiro, MPB-4, Pato Fu.

    A faixa puxou as vendas do álbum AQUI TEM CATIMBERÊ, selo Copacabana. Curioso que essa gravadora, sediada em São Paulo, embora tivesse em seu elenco muitos intérpretes populares, não era especializada em música nordestina e resistiu em bancar o projeto de Genival, cujo lançamento acabaria por lhe render 800 mil cópias vendidas.

    O álbum NÃO DESPREZE O SEU COROA (1979) denota outro ponto alto na carreira do artista paraibano. Com arranjos de Sivuca e a presença de Dominguinhos, esse disco traz os hits ROCK DO JEGUE (referenciado em uma faixa do único disco dos Mamonas Assassinas) e RADINHO DE PILHA (regravada pelo grupo Camisa de Vênus).

    Descontando suas capas de gosto duvidoso em que aparece ao lado de mulheres de biquíni, e as letras com tom machista (“tem mulher que só aprende quando o coro desce” in RADINHO DE PILHA), que retratam os preconceitos e os valores de grande parte do seu público, Genival é um exímio cronista de costumes que carrega o espírito original do forró voltado ao indivíduo das classes menos favorecidas e aos contratempos dos imigrantes, amenizados com humor.

    Como diz Marcelo D2: “(ele) faz lembrar a alegria do Brasil, me conecta com meus antepassados e traz uma sensação boa de felicidade. Descanse em paz”.

  • Conversar ou “zapear”?

    Alguém ainda tem comadres?

    Conheceu algumas? Elas eram parte do cotidiano das famílias.

    Eram respeitadas, ouvidas, esperadas. “Vamos cortar o bolo quando a comadre chegar.” Tinha também as enxeridas, aquelas que sempre sabiam mais ou fariam melhor. Com um detalhe: entre comadres perdoa-se tudo! 

    Mas o principal atributo delas era conversar.

    Lembro-me de que, quando criança, ao final da tarde era o nosso horário de lazer, de brincar, correr… Nossas mães sentavam-se à sombra das árvores ou nas varandas para nos cuidar e ter um “dedo de prosa” com suas comadres. Esse momento do dia as fazia espairecer, esquecer as dificuldades que houvesse e, renovadas, crianças e adultos, preparavam-se para o dia seguinte. Falavam muito, é verdade, mas também escutavam. Havia tempo, havia presença.

    Tempo que já não temos. Ou nem precisamos. Crianças brincam e jogam dentro de seus quartos, umas com as outras, em jogos virtuais. Que não as atrapalhemos, elas estão “brincando”.

    Adultos? Encontram-se, com certeza, mas nos ambientes de trabalho, em restaurantes ou em compromissos sociais. Conversam, sim. Digitam, enviam, respondem. Tudo rápido, tudo imediato. A comunicação é instantânea, os assuntos são variados, as opiniões são dadas sem nenhum constrangimento. Para isso estão as redes sociais, os grupos de amigos e os da família.

    Estamos sem tempo… Falamos muito. Escutamos pouco.

    No entanto, o colóquio, a conversa, o olhar nos olhos, o cuidado ao falar, tudo isso vai ficando mais escasso. A interação deixou de ser genuína, afetuosa, despretensiosa, leve. A presença tornou-se rara, embora estejamos permanentemente conectados.

    É muito estranho isso. Comunicamo-nos veementemente pelo WhatsApp, mas não temos o que conversar se estivermos presencialmente, pois a impessoalidade e a indiferença dominam o cenário atual.

    Qual será o futuro da humanidade? Onde ficará a solidariedade, o estender a mão, os olhos nos olhos, a atenção real, o jogar conversa fora das antigas comadres?

    E o sorriso feliz da criança ao receber o presente de aniversário da madrinha, afoita para desmanchar o laço e arregalar os olhos de surpresa? Como se hoje o presente viesse por “pix”?

    Deixo aqui essa reflexão e não me estendo mais, porque a amiga está me chamando no WhatsApp.

  • A bateria

    Semana passada a bateria do meu carro pifou. Como eu estava no subsolo de uma agência bancária, tive que ligar para o seguro a fim de solicitar um mecânico. Uns 30 minutos depois o rapaz veio, examinou o artefato avariado e o condenou.

    — Aqui só outra.

    — E agora? Onde posso mandar buscar uma?

    — O senhor liga para a loja Tal e me passou o telefone. Quando eu lhe pedi uma sugestão de marca, ele me perguntou se eu pretendia vender o carro.

    — Não. Por quê?

    — Se for vender compre esta, que é mais barata (e me indicou o nome). Agora, se for ficar com o carro por mais um tempo, leve esta (citou outro nome). É um pouco cara, porém bem mais econômica e difícil de quebrar. Duvido que deixe o senhor no prego.

    Escolhi a segunda, pois não pretendia tão cedo vender o automóvel. Bateria instalada, voltei para casa pensando na alternativa que o mecânico tinha me apresentado. A escolha fora fácil pois, como disse, o carro ainda iria ficar comigo por um bom tempo. Mas… e se eu fosse me desfazer dele? Qual das marcas teria escolhido?

    Comecei a pensar nisso e senti um arrepio. A pergunta do rapaz tinha implicações profundas; envolvia um dilema moral. Pensei em Kant, que fundamenta sua ética na máxima: “Não faças a outrem o que não queres que te façam.” Se eu escolhesse a bateria mais barata e dispendiosa, que além disso podia quebrar, estaria fazendo a outrem (o eventual comprador do meu carro) o que não queria que me fizessem.

    O curioso foi a maneira objetiva, prática, direta, com que o mecânico me fizera a pergunta. Não havia hesitação nem escrúpulo, como se a proposta fosse muito natural. Ele sempre devia apresentar essa opção aos clientes. Alguns até lhe dariam uma gorjeta pela dica, mesmo que isso reduzisse a vantagem obtida com a escolha do produto ruim. O importante era o pequeno lucro imediato, acrescido do indizível prazer de enganar o outro. Pois esse tipo de escolha não vale só pelo dinheiro; vale também (ou sobretudo) pela sensação de ter sido esperto.

    Já chegando em casa, me dei conta de que a sugestão do rapaz diz muito de nós. No trabalho, no comércio, na política e mesmo nas relações interpessoais, nos comportamos como o sujeito que passa a bateria ruim sem considerar o que isso pode trazer para o outro.

    Tudo fica ótimo até o momento em que somos nós esse outro. E quando nosso carro quebra no meio de uma viagem noturna e ficamos com a família ao relento, protestamos contra o egoísmo do ser humano e lamentamos pertencer a espécie tão mesquinha. Esquecemo-nos de que dela fazemos parte e não raro somos nós a protagonizar a trapaça.

    Talvez seja por isso que este carrão chamado Brasil não anda – ou anda muito desigual. Falta em sua “bateria” a corrente do interesse pelo bem comum. Somos antikantianos por atavismo e convicção, fazendo sempre que possível aos outros o que nunca desejamos para nós.

  • Solidão nos olhos

    Saio de casa para me encontrar sozinho. Em meio a tantas pessoas, nenhum olhar se prende ao meu. Nenhum par de olhos me atrai.

    Uma nesga de rosto permitida pela máscara é insuficiente para perceber outra pessoa. Tenho dificuldade em interagir assim.

    Sem a máscara os olhos adquirem outra forma, outra capacidade de interação. Só os percebo em sua plenitude se consigo ver o conjunto do rosto. Acompanhar as mínimas expressões é para mim essencial. São gestos milimetricamente orquestrados que são capazes de revelar um universo inteiro de intenções e emoções.

    Com a máscara sobre a boca e o nariz, nada disso é,para mim, possível. Por mais próxima que a pessoa se permita estar, temos entre nós uma barreira, como uma névoa, que me impede de saber quem é ela, com quem estou conversando.

    Minha atenção fica prejudicada, me disperso. A janela da alma para mim é uma parede de tijolos. Inexpressiva e distante porque não tenho capacidade de ler esta pequena parte visível do outro.

    Não há palavras nem gestos que compensem o que de outra pessoa está escondido. Em nome do bem maior, a necessidade sanitária, os olhos ficam mudos para mim.

    Não se discute a importância da medida. Mas a perda imposta por essa pequena barreira, para pessoas como eu, é imensa.

    A pequena cobertura de tecido me afasta ainda mais dos demais seres humanos. O isolamento fica mais profundo. Os olhos se tornam subitamente inexpressivos para mim.

    Nada entendo dos que me fitam. Nada transmito a eles a meu respeito.

    Me sinto completamente isolado em frente às pessoas que me fitam.

    Meu par de olhos é incapaz de ler o que os outros pares tentam me mostrar.

    Nada alivia a distância.

    A todo lado olhos desconhecidos vêem meus olhos solitários.

  • O leito do hospital

    O leito do hospital era alto de muitos metros. Eu olhava o mundo de cima, com galhardia. Eu olhava o mundo como quem não olha. Eu não olhava o mundo: a vida passava. Era noite alta. O leito alto era um leito de muitos ruídos: motos, carros, ônibus, tratores, uma bomba atômica, meu Deus! Todos os barulhos do mundo chegavam ao meu leito. Era escuro. Eu estava alto, ouvindo todos os barulhos do mundo, e alheio.

    Doía. Em algum lugar do mundo doía. Doía em mim. Em algum lugar de mim. No pulso cortado, no lado direito do corpo, no esquerdo? Em algum lugar de mim, doía. Carros passavam. Na rua, no mundo, nos corredores do hospital. O enfermeiro estava ausente, presente, outra vez ausente. O enfermeiro era um zumbi esvoaçante pelas portas e janelas do quarto.

    E a dor? O que é a dor? O corpo tenso. O corpo ferve. Não há nada e há uma tensão no ar, no corpo. Pior: você não sabe que está sofrendo. Você está sofrendo. Como se estivesse levitando: e sofrendo. Você está atento. Sente todos os ruídos do mundo. Brecadas, um motor, os motores, mudanças de marcha. Sopros, sopros, como se um carro respirasse com o outro. Os carros entravam pelos corredores do hospital a dentro

    Nós, doentes, moribundos, não existimos. Lembrem-se: quem está doente num hospital é um moribundo. A vida é um fio. Você está vivo. Você está mais vivo que nunca. Você sente que está vivo. Você está vivo numa tumba de mortos. O enfermeiro a dois metros de sua porta é um guardião da sua tumba. E que tumba fria. Você fervendo. Você não se importa, mas está fervendo. Você está fora de perigo, é eterno, mas está fervendo. O que está sentindo? Milhares de vezes lhe vem à cabeça a mesma ideia: Não estou sentindo nada. O corpo fervendo.

    Folhas verdes no chão. Folhas verdes e vermelhas. A morte que deveria ter sido e não foi. Você está morto? Vivo? As flores murcham nos vasos, não têm raízes. Eu tenho raízes? Vruum, vroom, vooom, in, ein, iin, voom, vruum, vrooom. As minhas raízes nos ruídos, de fora, de dentro do hospital. O que existe fora, dentro de mim? Que história devo contar? Devo contar alguma história? Quem sou? Sou? Fui já alguma coisa? Ser? Que é ser? Existe um presente de ser? Existe um passado? O ser tem história? Que fazer do meu corpo ilusório? As flores murcham nos vasos, ilusórias.

    A noite prossegue, a noite é infinita. Há um braço negro se estendendo sobre você, um braço enorme, um braço de sombra, pingando sangue. Tudo são perguntas. O que acontece? Até quando? Eu existo? Por quê? Para quê? Um anjo de sombra paira sobre você. A vida é um vaso com um pouco d’água e uma flor dentro. Alguém pergunta: – Quem conspira? Ninguém? Sim? Não?

    A flor é executada. A beleza fenece no devido tempo: antes do tempo. A beleza é perene: mas fenece. A beleza é eterna, mas como uma ideia. A beleza vai morrer. Nós não somos nada. A permanência não existe. Pétala murcha. Pó. A cinza espalhada sobre a terra, a permanência, meu corpo vão. Que me queres? Ó mundo, ó demônios, o nada me espera. Eu sempre soube: o nada me espera. Eu não sou nada. Nada me prende a nada, a não ser este leito de hospital. Estou feliz. Não espero nada. Existe uma dor, mas eu não defino essa dor. Eu não distingo essa dor. Nem sei se dói. Ó vida, para que viver? Eu nem sei se quero viver ou morrer. Quantas vezes mergulhei do alto precipício e era uma visão sem fundo e era o vácuo, era o vácuo, o vácuo. No fim, não caía mais. Assim a vida. Estamos caindo? Cairemos mais? E o vácuo? Quem não sentiu o vácuo de viver? Morrer não é nada, viver não é nada. Que fazer? O leito do hospital me prende. Algemas de aço, estou preso, estou preso. Tenho as mãos e os pés presos em algemas de aço, e o pescoço, a língua, os olhos, o sexo.

    Existir, que é existir? Existo como um morto-vivo existe. O que é realmente viver, morrer? Nem sei se estou sofrendo. Um século algemado a este leito de hospital. Os pulsos sangrando, os tornozelos, o pescoço. A fronte é azul. A fronte é vermelha de sangue e azul, azul, azul fosforescendo no escuro. Como brilha, esse escuro. E o dia não vem, o dia não vem. Por que queremos a presença do dia? O que é o dia? Morrer, viver, alguma diferença? Deuses, acorrentado a este catre negro. Acorrentado num porão de navio que sacoleja, aderna com a tempestade – vamos afundar? Tenho a certeza de que não vou afundar. Tudo é certo neste mundo. Por que sofro? Nada se acaba, a história continua, ninguém tem importância nenhuma. O homem sofre diante do universo, mas que é o universo? Que é o homem? Nada versus nada. Estrelas brincam de cabra-cega, esconde-esconde, mãe-da-rua. O que é a vida? Pirulito nas mãos de uma criança, chupou, acabou-se. Por que, então, viver? Resta, do pirulito, o sabor. Para quem? A criança? Por quanto tempo? Resta do pirulito o sabor. As algemas me roem o pulso. Estou preso a este leito de hospital. Estou preso à vida e olho meus companheiros, que são ninguém. Um coitado com dor de estômago resmunga e vomita no leito ao lado. O enfermeiro cochila na cadeira ao lado da porta. Meus companheiros não nutrem grandes esperanças.

    Sei que vou morrer. Mas não agora. Hoje, nesta noite escura, não penso na morte. Hoje vivo a minha morte. Que longa, a morte. E, no entanto, sei que não vou morrer. Hoje, não penso na minha morte. Estou vivo como o diabo. Sabem o que é isso, estar vivo como o diabo? O diabo abana a cauda no meio do redemunho. Escorregando na vida como o diabo, liso como o diabo, com aquela baba gosmenta do diabo. A vida me escorrega por entre os dedos como o diabo. E eu sei que não vou morrer.

    Não. Hoje não. É dia. Gente entra e sai. Vivi um século sem saber que doía. Sem saber que não estava morrendo muito devagar. Uma aranha me sobe pela cara. Uma aranha se gruda na minha cara. Estou limpo. Estou assustadoramente limpo. Um banho, lençóis limpos, pijama limpo e o mesmo corpo inerme. Inerme? Eu nem sabia que doía. Eu doía. Uma injeção me salva. Dormi. Dormi como um homem dorme. Como um anjo. Muito de leve. Como um morto. O morto que eu fui e sou.

  • A loja de despedidas

    Na estação rodoviária da cidade, entre um quiosque que vende lembranças para turistas e uma lanchonete, há uma loja de despedidas. Ali, os viajantes solitários — aqueles seres que transitam de um lugar para outro sem que haja ninguém que se despeça deles — podem escolher a melhor forma de partir da cidade. Há despedidas para todos os gostos, ânimos e possibilidades financeiras. Os atores contratados pela loja, de todas as idades, são muito experientes e treinados nesse mister, e sabem demonstrar a dose exata de emoção que momentos como esses pedem.

    A um preço bem camarada pode-se comprar um aperto de mão, daqueles que acontecem entre dois conhecidos cordiais, pulso firme e olhos nos olhos. Ou então um abraço sincero de um amigo querido, de quem se sentirá muita saudade. Outra despedida bastante procurada é aquela que envolve a família toda, com direito a lágrimas e a recomendações como “ligue quando chegar lá” e “proteja-se do frio”. Esse tipo de despedida tem como bônus um abraço coletivo e emocionado entre pais, filhos, tios e sobrinhos do viajante.

    A despedida mais solicitada é, sem dúvida, a do beijo e abraço da namorada. É o produto mais caro da loja, mas os viajantes solitários não se importam com o preço. Acreditam que é um dinheiro bem gasto aspirar o perfume que sai dos cabelos da moça quando ela se aproxima sorrindo e de braços abertos. Sua voz sussurrada no ouvido do viajante, dizendo o quanto sentirá a falta dele, o quanto o ama e o quanto sofrerá com sua ausência, é música para quem está sozinho na rodoviária, cercado por desconhecidos. Por um pequeno valor adicional, o viajante poderá ainda desfrutar de uma caminhada de braços dados com a namorada pela plataforma, com direito a olhares de amor, carinhos no rosto e um último abraço apertado pouco antes do ônibus arrancar.

    A lembrança das despedidas compradas pelos viajantes solitários costuma acompanhá-los durante boa parte da viagem, confortando seu coração e seus pensamentos. Assim, fica um pouco menos dolorosa a sensação de exílio que experimentam a cada partida.

  • Futuro do pretérito!

    As cores revelam significados marcantes e frequentes na demonstração de nossos atos, e alguns desejos mais enfáticos associam intensidade única para estruturar aquela manifestação ativa que transborda em um ato contra outro indivíduo, ou por vezes, a nós mesmos.

    Pode ser quando estamos à beira de um ataque de nervos, ou enchendo os olhos de lágrimas, e nossa solidão repudia qualquer um que queira adentrar em nossas vidas e trazer medo e tristeza.

    Eventualmente não são pessoas do mau que nos cercam, como não o foram aqueles estrangeiros a cavalo, agentes do faraó do Egito, Alexandre.

    Por insistência deste, aqueles homens atravessaram fronteiras e grandes distâncias, correndo riscos de ataques dos punhais de ladrões, ou contágio com doenças doloridas e mortais, na busca por objetos secretos mais bem guardados pela corte egípcia. Os camponeses os observavam com desconfiança e medo, porque a experiência lhes ensinara que somente gente perigosa viajava, ou seja, soldados, mercenários e traficantes de escravos. Naquele caso, em meio a tanta dúvida e maledicência, os homens de confiança do rei tinham outra missão, muito mais nobre para a época, eles procuravam livros por ordem de sua majestade. Esses usavam a enorme vantagem de seu poder absoluto para enriquecer sua coleção. O que não podiam comprar, confiscavam. Se fosse preciso fatiar pescoços dariam tal ordem justificando que o esplendor do país era mais importante que os pequenos escrúpulos. Na época daquele grande projeto alexandrino, não existia nada parecido com o comércio internacional de livros. O Senhor das Duas Terras, um dos homens mais poderosos da época, daria a vida (a dos outros é claro; com os Reis sempre foi assim) para reunir todos os livros do mundo em sua Grande Biblioteca de Alexandria. Ele perseguia o sonho de construir uma biblioteca absoluta e perfeita, a coleção que conteria todas as obras de todos os autores desde o princípio dos tempos.

    Esses objetos especiais nos levam ao ponto de partida e ao coração agitado pelo evento da primeira leitura, como definiu Marguerite Duras, passando o infinito ao futuro do pretérito e depois ao subjuntivo, como se sentisse o solo rachando sob seus pés.

    Nada mais humano do que flutuar pensamentos de divagam em nossas redes neurais mais agitadas. O que nos vale ter em mãos é a sensação de que se no ano passado morremos, no atual estamos bem vivos.

  • Consciência econômica

    Não tenho mais medo do futuro. Minha mulher sempre me falou para curtir o presente, que “a vida é o agora!”. Mas, filho de um pai escrupuloso, tive a tendência de seguir os seus passos seguros. Criado por ele, devia ter uma “consciência econômica” – esta frase ecoa ainda hoje – quanto aos gastos, inclusive com a alimentação. Não se podia tomar mais de dois copos de café por dia.

    Não se podia comer mais de um pão francês. Tudo era racionado, fracionado, e nos regalávamos de migalhas. Havia momentos, claro, em que ele não estava em casa, e eu comia um pouco mais de açúcar, com o maior prazer do mundo, porque um adolescente em crescimento, hoje eu sei, precisa se alimentar muito bem – e fui privado disso, pela bendita consciência econômica de um pai contador, alucinado por números.

    Meu pobre pai faleceu na pandemia, aos setenta e cinco anos, e mal aproveitou a aposentadoria. Um fato inusitado é que encontrei, um dia depois de sua morte, ao arrumar a casa com a Gerusa, a antiga empregada, embaixo de sua cama, um monte de dinheiro vivo, inclusive dinheiro que nem valia mais, como cruzeiros-novos. Era absurdamente uma cena que só se ouve falar ou se vê em filme.

    Nessa brincadeira, ele deixou uma herança monstruosa de quase meio milhão – havia, ainda, seis contas em bancos, e eu não imagino o porquê; perguntei a alguns gerentes se ele movimentava, e a resposta era quase óbvia: “Não!”. Poderia ter usufruído. Poderia ter viajado, comprado um carro bom, mas tudo para ele era seguir a régua da “simplicidade”.

    Tinha um carro velhinho, bem cuidado, é verdade, mas muito fora de moda, com pelo menos vinte anos de uso. Seguir a trilha do meu pai me fez, por muito tempo, um homem nervoso, preocupado e irritadiço. Lembro-me, por exemplo, de jantar muitas vezes banana na faculdade, com medo de acabar o reles dinheiro que meu pai me dava todos os dias, como se fossem dez reais. Lanna, minha esposa, foi quem me tirou desse perrengue eterno. Ela não suporta avareza. E eu, apaixonado, tive de segui-la – de início foi muito doloroso. Fui abraçando (e sendo abraçado) e me libertando.

    A imagem de meu amado pai passou a ficar escassa, jamais esquecida. Até os vinte e sete anos, data em que conheci a minha mulher, me sentia extremamente reprimido – exatamente quando foi lançada aquela música homônima dos Menudos. Nós ríamos disso; ainda hoje ela canta quando dou sinais de pão-durismo. Hoje, com a pequena bolada do meu pai, ao invés de investir em imóveis, como boa parte das pessoas faz, invisto no meu tempo de qualidade, com meus filhos e minha esposa.

    Amamos Buenos Aires, então viajamos regularmente para passarmos as “vacaciones”. Quem dera pudesse ter levado meu pai a Buenos Aires. Ele amava Carlos Gardel. Queria ter proporcionado a ele uma vida de alforria – embora, é bem verdade, ele pudesse tê-lo feito por si próprio.

  • Você sacrificaria o próprio cão por ele ser agressivo?

    Foi o que fez o ator americano Max Emerson, de 37 anos, ao autorizar a eutanásia de seu cão, Sarge, depois de ser mordido no rosto e precisar levar pontos. A decisão veio acompanhada de justificativas públicas no Instagram. Ele afirmou que já não havia como reverter o comportamento do animal e que, desde filhote, Sarge apresentava sinais de reatividade, sobretudo nas interações com outros cães.

    Disse que tentou adestramento, que conversou com veterinários e que, após explorar todas as opções, concluiu que “a coisa mais humana” a fazer por Sarge seria pôr fim à sua vida.

    Li o máximo que pude sobre o caso para tentar construir um argumento minimamente defensável para Max. Não consegui. Torna-se difícil respeitar e sustentar sua decisão com base em alegações tão frágeis, ainda que eu compreenda a frustração e a angústia de quem não consegue conviver com o próprio cão — um animal que, pelas imagens divulgadas, era tratado com carinho e afeto.

    É evidente que nem todas as alternativas foram exploradas.

    Já estive diante de casos extremos. Cães de grande porte, com histórico de ataques, como um rottweiler que me marcou pelo risco real que representava. Depois de tentativas frustradas de adaptação com seus donos, a solução não foi a morte, mas a mudança. Concordamos que encontrar alguém com perfil, experiência e condições adequadas para adotá-lo seria o melhor caminho. O cão não apenas encontrou equilíbrio como nunca mais apresentou episódios de agressão.

    Sacrificar um cão é uma medida extrema. Deve ser considerada apenas quando não há mais o que fazer, quando o animal já não tem qualquer possibilidade de recuperação ou de sobrevivência digna. Estatisticamente, a eutanásia é mais frequente em casos de câncer terminal e sofrimento irreversível.

    Na minha opinião, esse caso revela um cenário em que a fragilidade humana cede lugar a decisões precipitadas. Há um fenômeno contemporâneo que vem alterando profundamente a relação entre cães e humanos. Casos como esse tornam-se mais frequentes. De um lado, a desinformação; de outro, o ativismo ideológico. Desde que os cães passaram a ocupar lugar de destaque dentro das nossas casas, o romantismo passou a se sobrepor à realidade. Criar, educar e treinar são dimensões complementares, mas distintas.

    Quando falo em desinformação, refiro-me à pressão social para que tratemos cães sob um prisma exclusivamente humano. Não é permitir que o cão suba ao sofá que o humaniza. Isso, por si só, não significa nada. Mas, sem critérios claros, pequenas concessões podem abrir espaço para conflitos. Deixar o cão deitar na cama não é o problema; o problema é não estabelecer regras claras de convivência e hierárquica dentro da própria casa.

    A primeira regra de uma boa convivência é construir um padrão de confiança, segurança, intimidade e autoridade. Há quem defenda que não existe dominância na relação entre cães e humanos. Essa negação, sim, é um passo decisivo rumo à humanização ingênua.

    Desde sempre, em qualquer grupo social, há hierarquias. Se o humano abdica de seu papel de autoridade, é natural que o cão, com suas próprias habilidades e instintos, tente ocupar esse espaço.

    No caso do ator, pelos próprios relatos, a escolha foi pela saída mais rápida. E, talvez por isso mesmo, a mais previsivelmente humana.

    Não faltou a Max Emerson amou ao seu cão, faltou entender como gerar intimidade sem perder o controle das coisas.

  • Poema #58: Passagem das horas

    Fica de nós este resíduo
    do que ainda não fomos.
    Este abismo a se superar
    e uma certa disponibilidade.
    Fica esta in/compreensão mútua
    e a dificuldade em se comunicar.

    Fica de nós este fragmento
    do que ainda podemos ser.
    Este relacionamento a se elaborar
    e uma parcela de interesse recíproco.
    Fica esta identificação de caráter simultâneo
    e o desejo de que tudo não se perca.

    Fica de nós este sentimento reticente
    ainda não de todo vivido/compartilhado.
    este completo des/conhecimento do outro
    e uma necessidade de maior diálogo.
    Fica esta in/definição de objetivos comuns
    e o sentido da procura.

    Fica de nós este silêncio inédito
    devido ao medo em acreditar.
    Esta complexa/frágil vontade
    de querer sobrepor-nos negando a intuição.
    Fica este receio de se expor e viver o espontâneo
    e o que isto nos tem custado.

    Fica de nós esta intransigência
    e a falta de coragem para admitir.
    Este impulso em dizer coisas secretas
    e a sensação de ferir dizendo.
    Fica esta recusa em se confessar
    em defesa de uma estúpida integridade.

    Fica de nós esta passividade
    e o distanciamento decorrente dela.
    Este eterno ficar na espera sonhando
    e o recolhimento implícito que nega.
    Fica este gostar que desconhece convenções
    e o raciocínio estragando tudo.

    O Acaso das Manhãs

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