Crônicas Cariocas

  • Pizza fria

    Zimi parecia debochar de tudo o que desprezava sem dizer uma palavra.

    Era algo em sua presença.

    Algo que se manifestava especialmente na inconveniência das filas.

    De mercado, de banco, qualquer uma.

    Ele estava com o título de eleitor cancelado por falta de uso, e dessa vez, a fila para regularizar o documento.

    A fila era monstruosa e havia gente ansiosa pelo título, especialmente jovens que votariam pela primeira vez.

    Eram divididos em duas bolhas tóxicas que chamavam de ideologia.

    Zími soube na véspera através de um noticiário televisivo que aquele seria o último dia para regularizar a situação.

    Enquanto ele esteve ali, ninguém da imprensa apareceu.

    Alguns daqueles jovens talvez soubessem que se votar mudasse alguma coisa, teriam essa possibilidade cortada imediatamente.

    Talvez soubessem que poder votar não faz de lugar nenhum uma democracia.

    Conheceu uma universitária que tentou fazê-lo gostar de MPB.

    Só conseguia pensar sobre como alguém daquela idade podia suportar músicas que ele abominava desde os anos setenta.

    Zími usava uma camiseta da banda Mission of Burma, e ela gostava de Gonzaguinha.

    Contou a ela que a última vez em que votou foi quando a urna eletrônica foi implantada.

    Ele gostava das cédulas de papel, para escrever palavrões.

    Nunca mais compareceu às urnas.

    Disse a ela: “Políticos dividem as pessoas em dois grupos: instrumentos e inimigos.”

    Lembrou do tempo em que na escola passava de ano no terceiro bimestre, só para passar o resto do tempo cabulando aula no Ibirapuera.

     Um recurso ingênuo que na época parecia fazê-lo reduzir o dano do tempo de vida perdido no colégio de freiras.

     Antes da internet e sem a bolha do celular.

    “Pensava que passaria sua vida vagando a esmo, com a pecha de perdedor, mas não me preocupava. Eu não era articulado o suficiente para explicar com clareza o que eu pensava, E se fosse articulado, tomaria porrada da repressão da época.” 

    Foi expulso da escola de freiras na sexta série.

    Na época, voltando à escola depois de três dias suspenso por insubordinação, foi pressionado pela freira na frente dos colegas.

    Foi perguntado sobre qual era o motivo de sua revolta.

    Zími respondeu: “A primeira revolta é contra a suprema tirania da teologia do fantasma deus. Enquanto as pessoas tiverem um mestre no céu, serão escravos na Terra. E sou contra o uso da religião para justificar hierarquias, obediência e dominação.”

    Apanhou em casa e foi então transferido para uma instituição não religiosa, onde se deu melhor e não teve problemas para concluir o segundo grau.

    Depois cursou jornalismo, concluindo o curso antes que tivesse internet em casa, na segunda metade dos anos noventa.

    Perguntou-se novamente se haveria sentido ter passado por aquilo depois da internet.

    O horário de funcionamento daquele cartório eleitoral chegou ao fim, e as pessoas ali eram avisadas que somente em novembro poderiam novamente ter suas situações regularizadas, caso não resolvessem suas pendências naquele dia.

    Zími foi embora sem regularizar nada.

    Estava ali porque tinha a tarde livre, e o barulho de uma reforma no apartamento de cima não lhe dava sossego.

  • Ontológico, hedonismo e deletério

    Nem tudo está perdido em matéria de palavras. Esta semana, em diferentes textos, encontrei ontológico, hedonismo e deletério. Uma delas, não confesso qual, me obrigou a ir ao dicionário. Não eram textos de filosofia profunda, apareceram como se fossem palavras corriqueiras. Não são. O dicionário está cheio delas, a maioria esquecidas e empoeiradas, talvez aguardando a ressurreição. Quando uma desaparece definitivamente leva consigo uma forma de ver o mundo.

    Admito que implico com algumas palavras. Se pudesse as baniria por lei. Uma delas é progenitora. Só serve para noticiário policial ou conversa com meliante. Neste último caso com a devida cautela: periga ele não entender.

    • Como vai sua progenitora?
    • Progenitora é a sua mãe.
    • Exatamente.

    Na mesma linha vai cônjuge. A única vantagem é não ter gênero definido, mas isso é vantagem recente em palavra antiga. Se o seu cônjuge apresentar você como ‘minha cônjuge’ peça divórcio. Trata-se de falsa erudição, nem sei por que casaram. Pode ser até que ele seja um adorador do gerúndio! Fuja igualmente de gente de vocabulário limitado ou deturpado tipo táuba, às vezes contagia e a cura é difícil.

    Implico com nubente, acho patíbulo triste e gáudio antiquada. Tenho sentimentos por cabotino e perspicaz. As palavras e eu somos realmente inseparáveis. Elas ajudam a moldar ideias: mais palavras, mais nuances de pensamento. Diversidade é tudo. Mas, se houver opção, prefiro as menos pretensiosas. Podem não acreditar, mas é complicado escrever simples.

    Outro dia quis descrever um árabe usando aquela túnica comprida comum entre eles. Escrevi caftan e o corretor de textos sublinhou a palavra em vermelho. Caftã também não deu certo. Tudo bem, vamos ver a tradução em português. É cafetã ou cafetão. Como? Não dá para dizer que o cara usava um cafetão! Optei pela palavra em inglês mesmo, escrevi kaftan. É claro que o corretor reclamou. Fazer o quê? Se não temos uma palavra adequada, roubamos de outra língua.

    E o que dizer quando, em conversa informal, um amigo diz valhacouto? A gente até para de respirar para aproveitar o momento porque uma coisa assim dificilmente se repetirá em nossa vida. Ouvir alguém utilizar palavras como amiúde, azêmola ou excelsa nos dá alguma esperança. Não a de que todas as palavras vão sobreviver – essa eu já perdi – mas a de que sempre existirão pessoas cuja conversa é um deleite.

  • Eu não devia me chamar BETHÂNIA

    Meus pais me deram esse nome porque se conheceram no show da cantora num teatro na Lagoa. Engraçado que nem gosto assim dela. Talvez por ter ouvido tanto minha mãe cantar. Após a morte de meu pai, então, era quase todo dia. Da Bethânia eu só gostava de “Olhos nos Olhos” do Chico Buarque. Ficou impregnada em mim, uma espécie de hino materno. Toda vez que ela ensaiava ficar melancólica, punha o disco com a música. A razão de eu gostar da canção era a letra, uma resposta feminina a um abandono. Para mim, a melhor versão de uma doce vingança.

    Pesquisei o nome. Bethânia vem do original hebraico que faz referência a uma pequena cidade no Monte das Oliveiras. Nada a ver comigo, meu sobrenome nem é Oliveira. Outra coisa irritante era, por causa do meu nome, me associarem a um determinado comportamento. Pela escolha sexual da cantora, alguns me viam como uma possível transgressora. Uma associação que nunca entendi bem. No meu caso, soava como uma antítese. Sou hetero convicta e tento disfarçar meu preconceito com lésbicas. Com gays também. Não devo ser uma pessoa razoável nesse aspecto, admito.

    Bethânia, a cantora, é feia demais. Eu sou linda, branca, loura e de olhos claros. E imodesta, claro. Cultivo a exteriorização do belo e deglutível, um mundo onde a fantasia não se oponha à realidade.

    Com o tempo, surgiram fortes crises de identidade e angústia. Muito do que eu sentia vinha do desgaste diário de esconder dos outros quem eu verdadeiramente era: uma burguesinha chata.

    Sem me esforçar, eu parecia o tipo da garota, cujo comportamento era considerado convencional. Devia ter sido chamada de Patrícia. Patricinha, em vez de Bethânia. Ao contrário do que pode sugerir o meu nome, sou vaidosa ao extremo, adepta de procedimentos estéticos e skincare. A maquiagem tem de ser impecável. Levo horas escolhendo roupa, mesmo para ir só na esquina. Coloquei silicone nos seios para aumentar o volume e botox a fim de suavizar minhas linhas de expressão. Posto fotos sensuais de biquíni no Instagram e não me importo de sexualizarem minha imagem. Não tenho orgulho disso, mas é mais forte do que eu.

    Não vou dizer a minha idade.

    Sou católica sem convicção e sem frequentar a igreja. Implico com padres, além de achar a missa um porre. Penso que Jesus foi um hippie revolucionário. Não sou ateia declarada por medo do desconhecido. Carrego bastante culpa dentro de mim.

    O corpo é minha doutrina filosófica. A existência humana é a matéria. Sigo dietas variadas, de low carb a zero lactose. Quando conveniente, alardeio veganismo, embora nunca abra mão de um churrasco se a carne for de primeira. Linguiça, coração de galinha e asa de frango fazem um estrago na pele. Evito. Já tentei jejum intermitente e não deu certo.

    Fiz análise durante um tempo e não consegui pôr para fora uma parte de quem eu era: uma pessoa vazia. Guardar dentro de mim aquilo que acreditava conseguir esconder me causou forte dependência a remédios. Ansiolíticos tarja preta. Minha analista deu a entender que eu tinha dupla personalidade. Preferi não levar a sério.

    Quando meu pai era vivo, costumava ouvir música erudita com ele. Se estou sozinha, gosto de escutar a Sinfonia Surpresa, de Haydn ou o Concerto para Piano em Lá Menor, de Schumann. Pouca gente sabe disso. Na minha playlist, Dylan, The Cure e Beto Guedes. Ecletismo musical é comigo.

    Quando posso, vou ao cinema. Herdei o gosto dos meus pais. Wim Wenders, Goddard, Pasolini e Bergman. Não perco os filmes do Woody Allen e do Almodóvar. Assisti umas cinco vezes ao Fitzcarraldo, do Herzog. Amo a cena em que Klaus Kinski cruza de barco o Amazonas ao som da ária “A Te, o Cara”, de Vincenzo Bellini. Minhas amigas temem tubarões assassinos, aliens e sextas-feiras treze, já meus medos têm mais a ver com o jogo de xadrez com a morte, no “Sétimo Selo”. Quando quero, sou um bocado cult.

    Vivo na Internet. Curto uma relação parassocial. Amar pessoalmente dá trabalho e causa desilusões. Evito interações profundas que me causem tédio imediato.

    Não posso ver um mendigo na rua que logo me enterneço. Empatia absoluta com a miséria alheia. Às vezes posso parecer até ingênua ou demagoga. Nem ligo.

    Sou contra as drogas. De alucinada, basta a vida. Prefiro estar consciente, embora deteste o concreto, o tangível. Fumo cigarros eletrônicos e, vez em quando, bebo gim tônica ou dry martini. Tomo creatina, malho na academia e faço bronzeamento artificial. Detesto ir à praia. Já peguei micose na areia. Piscina de clube nem pensar. Confesso que sofro com essa pressão social e midiática que impõe certos padrões estéticos. Ainda bem que sou bonita e magra.

    Tenho pavor da rejeição. De qualquer tipo.

    Sei que não combina com meu estilo de vida, mas gosto de ler. Tenho uma queda por escritores da contracultura que rejeitam os valores tradicionais. Talvez atração do que é contrário. Li Kerouac, tenho livros sobre a vida de Ginsberg e curto a poesia marginal de Leminski e alguma coisa do Bukowski. Para impressionar, levo sempre comigo um livro para ler no metrô. Nem leio, fico vendo se estão me notando. Gosto de passar essa imagem intelectual. Jovem socialite, colunável e cerebral. Repito, sou o próprio contrassenso. Adoro incongruências, a começar pelo meu nome. Bethânia. Não tem nada a ver comigo.

  • O homem que ouvia estrelas

    Pois só quem ama pode ter ouvido
    Capaz de ouvir e de entender estrelas.
    Olavo Bilac

    Havia um homem naquela cidade que buscava sempre os lugares mais altos e afastados. Depois de um dia cheio de trabalho, distrações e malcriações, ele subia morros, montanhas e prédios. Fosse onde fosse. Fosse como fosse…

    Depois de um tempo, um menino miudinho, mas vivo no olhar e nas ideias, decidiu acompanhá-lo.

    E, a partir daí, homem e menino subiam morros, montanhas e prédios toda noite.

    Espia! Ouve com atenção… Sempre dizia o homem!

    O menino, falante e curioso, também sempre perguntava o que é que as estrelas diziam!

    Com o tempo, aprendendo com o velho homem, o menino passou a ouvir e entender.

    E entendia de sonhos e memórias de outros tempos.

    E entendia de pessoas, sentimentos e sensações.

    E foi entendendo o porquê daquele homem, até então, viver só.

    A gente precisa fugir do barulho e da confusão pra poder ouvir certas coisas que não dá pra ouvir lá embaixo.

    E dizia sussurrando, quase que em uma oração.

    E dias e noites e tempos distintos levaram o homem para lugares ainda mais longínquos. E o menino o seguia e crescia.

    Até que o tempo, mandatário das coisas e das gentes, levou de forma definitiva o homem.

    O menino estava só, mas não estava.

    Dentro dele, as palavras do homem ressoavam, brilhavam, ressignificavam…

    O menino aprendeu que só precisava ficar em silêncio pra pode ouvir estrelas.

    E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo quando se tinha fome ou quando se sentia frio.

    E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo para um homem que voltava a ser menino…

  • O ocaso do macho

    A onda de feminicídios e a misoginia escancarada nas redes sociais costumam ser atribuídas à ação de influenciadores da machosfera e aos algoritmos raivosos da extrema direita. A explicação procede, mas pode ser ampliada.

    Numa abordagem, digamos, ‘psicossocial’, diria que se trata de uma reação de desespero do macho da espécie diante de um mundo que já não gira exclusivamente ao seu redor. Um último suspiro do velho sistema patriarcal que vem derretendo frente à crescente participação feminina na vida política e social.

    Freud explica: o comportamento hostil ante o sexo oposto decorre da ferida narcísica que vitimou o rapagão magoado, que exercia o papel de provedor, centro da casa, autoridade inquestionável. Com o ego machucado pela perda dessas prerrogativas, sente-se como um reizinho destronado e se volta com agressividade contra as ex-vassalas.

    Jung também daria seu pitaco: a cultura patriarcal superestimou valores associados ao masculino, como dureza e racionalidade, enquanto escondia sob o tapete dimensões ligadas à ‘anima’: intuição, sensibilidade, acolhimento. Sem saber lidar com a ‘porção feminina’ presente em si mesmo, o brutamontes partiu pra porrada.

    Psicologismos à parte, o fato é que o Clube do Bolinha entrou em estado de insolvência.

    As mudanças vêm em ritmo de tartaruga. Considere-se, por exemplo, o Congresso brasileiro: as mulheres ali reunidas não teriam quórum sequer para conter as bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia (redutos amplamente masculinos). Luta desigual: Barbie x Conan o Bárbaro.

    No STF, a pobre Carmen Lúcia segura as pontas do ‘bloco do eu sozinha’, no julgamento das pautas de interesse da parcela de 51% da população brasileira. Até o presidente ‘progressista’, ao tirar uma carta da manga para a nova vaga aberta na Corte, descarta a dama de copas e prefere o evangélico de confiança.

    Ainda assim, já houve progresso. Afinal, não há muito tempo, a discussão girava em torno de decidir se quem veste saia e soutien poderia ter direito a voto.

    Com o tempo, elas timidamente começaram a ocupar algumas cadeiras nas universidades. Depois chegaram aos escritórios, aos postos de chefia e aos concursos públicos. Quando se deram conta, estavam assinando contratos, coordenando equipes e ornamentando com plantas e objetos decorativos o ambiente cinza de trabalho.

    Se o fanfarrão tem a força, a dama tem a resiliência. Suporta em silêncio a dor do parto para cumprir o indispensável desígnio de gerar a vida que biologicamente lhe cabe. Já o bebezão beberrão choraminga por parir um novo mundo, no qual tem de partilhar decisões com a parceira, antes ignorada. Reclama, tadinho, do orgulho ferido. Mas minimiza a situação opressiva de quem dá à luz sem sequer poder abortar pois seu corpo é tratado como propriedade do Estado religioso varonil.

    Mas não adianta espernear, Zé Mané. Seu reino está sucumbindo em meio às garrafas de cerveja que você vira nas madrugadas de bar, falando de futebol e putaria, enquanto a patroa, sem receber um puto, rala pra não deixar desestruturar o lar e não desencaminhar os filhos que você botou no mundo ao dar vazão a seu instinto carnal.

    A força bruta já teve seus dias de glória quando era necessário colocar um sujeito parrudo portando um tacape na entrada da caverna para impedir o assalto de inimigos ou de feras que espreitavam ao redor.

    Mas não dá para reproduzir esse padrão paleolítico depois da invenção da vacina, da internet e do vaso sanitário. O que pode sustentar a estabilidade da sociedade do futuro não é a largura do bíceps nem o comprimento do pênis, mas a colaboração, a solidariedade, a preservação ambiental. E nesses quesitos o bicho-homem já mostrou historicamente sua inabilidade.

    Não seria justo generalizar: nem todos os varões sufocaram em si os aspectos sensíveis da personalidade. Não me refiro apenas aos gays, mas aos emotivos, os suscetíveis ao martírio dos necessitados que se mobilizam para melhorar o mundo, preferencialmente sem recorrer à violência.

    Na outra ponta, também há mulheres com posturas mão-de-ferro. Margaret Thatcher é o exemplo mais citado. Uma machona que tratou demandas sociais com cacetete. Modelo de mulher, segundo o manual dos homens.

    Há também aquelas acomodadas que obtêm benesses por sua apropriada condição de submissão. São as que só votam em homens pois os julgam mais capacitados para tomar decisões.

    Mas de uma maneira geral, recortes eleitorais comprovam diferenças de comportamento político entre os gêneros, com maior sensibilidade feminina a pautas sociais e humanitárias, enquanto o eleitorado masculino tende a se inclinar a discursos de ordem e segurança.

    Computando apenas votos femininos, teríamos nos livrado do estorvo trumpista, e os EUA teriam pela primeira vez uma presidente mulher (algo que teria um impacto mais disruptivo do que a eleição de um presidente negro, trauma já superado com Obama). De fato, a sociedade americana, mais do que o racismo, escancarou seu machismo.

    Escolha seu time. De um lado, os vilões que envergonham a raça humana: Nero, Calígula, Átila, Gengis Khan, Pizarro, Robespierre, Hitler, Mussolini, Stalin, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Franco, Salazar, Idi Amin, Pinochet, Garrastazu Médici, Kim Jong-Un, Bin Laden, Bashar Al Assad, Netanyahu, Putin. Só marmanjo.

    Do outro lado: Joana d’Arc, Teresa de Calcutá, Simone de Beauvoir, Hanna Arendt, Angela Merkel, Greta Thunberg, Malala, Claudia Sheinbaum, Julia Gillard, Michelle Bachelet, Mãe Stella de Oxóssi, Sônia Guajajara, Marina Silva, Djamila Ribeiro. Aquelas que, a partir de trajetórias distintas, ajudaram a construir um mundo mais justo, equitativo… e feminino. Para homens e mulheres.

  • O que sei de futebol?

    De futebol mesmo, sei apenas que a bola é redonda e que, se ela entrar na trave do adversário, é gol.

    Agora, de Copa do Mundo eu sei. Sei muito. E sinto saudades; quantas saudades!

    A vida era coletiva, colorida, exibida, assumida e feliz. Muito feliz.

    A Copa do Mundo daqueles tempos era um acontecimento inigualável. Não existia outro evento capaz de ofuscá-la.

    Imagine um bairro simples, na periferia de alguma cidade do interior do país, onde nunca faltava um campinho de terra e toda a gurizada era da seleção brasileira.

    Camisetas variadas, calções curtos, pés descalços, rostos vermelhos, suor misturado à poeira. Meninos jogando com a mesma paixão dos craques que, dali a poucos dias, entrariam em campo representando o Brasil.

    E a data da Copa se aproximando cada vez mais.

    Os locutores das rádios falavam animados, contagiando os ouvintes para a abertura do “maior espetáculo da Terra”.

    Bilhões de pessoas estariam diante das televisões, onde pretos e brancos se igualavam na transmissão ainda sem cores dos primeiros campeonatos.

    Outra maravilha daquele tempo era a cumplicidade. O desejo de estar junto. A casa cheia, cheiro de fritura vindo da cozinha, torresminho, cerveja, um olho no churrasco e outro na televisão.

    As bandeirolas verdes e amarelas atravessando as salas, ou o vizinho com a enorme bandeira espetada num cabo de vassoura, tremulando orgulhosa na janela.

    E o silêncio absoluto no instante do pênalti?

    A sinceridade do choro de homens, mulheres e crianças diante da perda de um gol ou da derrota do time.

    O grito único das pessoas explodindo na hora do gol. Depois, as carreatas, os buzinaços, as bandeiras se tocando pelas janelas dos automóveis.

    Que maravilha foram as Copas do Mundo daquele tempo.

    Que saudade tenho delas.

    Eu falharia se precisasse contar tudo isso aos meus netos; tamanha emoção não cabe em palavras…

    Meus amigos jogadores, não me deixem falhar.

    🌷

  • O Teste

    — Quantos quilos você tem?

    — Uns cento e dez.

    — Próxima! Mais rápido, minha filha. Anda um pouco. Desfila. Imagina que tem uma plateia aqui só pra te ver. Vamos logo, meu amor, não tenho o dia todo. Chega, pode sair. A gente entra em contato. Próxima! Próóóóxima! Quantos quilos você tem?

    — Cento e vinte e um.

    — Próxima! Uau, acho que você vai servir. Como se chama?

    — Zulmira.

    — Então, Zulmira, você tem problemas com nudez? Ainda estou pensando, não é nada certo, mas talvez alguma nudez venha a ser necessária. Só peitos, não se preocupe, tudo de muito bom gosto. E vai ser rápido. Na hora devo colocar uma luz fraca em cima de você… Seria um empecilho?

    — Não, tudo bem. Eu…

    — Agora anda um pouco, como se estivesse desfilando. Meio Gisele, entende? Meio Gisele, eu disse! Mais disposição, atitude de mulher empoderada. Solta o cabelo. Balança a cabeça. Plínio, joga o ventilador em cima dela. Pega aquele lençol e enrola no corpo. Bem sensual, não seja tímida. Anda, Zulmira, tá esperando o quê? Não precisa ficar com vergonha. Parece bom. Quantos quilos você tem?

    — Cento e trinta e sete, acho. Não fico me pesando toda hora.

    — Perfeito. Você não é muito alta, né? Um metro e… Idade?

    — Quarenta e nove.

    — Onde você mora?

    — Quintino.

    — Cruzes, onde fica isso? É longe, né? Você vai conseguir chegar na hora? Eu não tolero atrasos é bom que você saiba. Plínio, mais alguma?

    — Não, Daniel, essa aí é a última.

    — Você tá com sorte, Zulmira, vamos fechar com você. Alguém já te disse que você tem muito potencial? Contente, querida?

    — Claro. Sempre foi meu sonho. Olha, eu decoro rápido, tenho muita facilidade. E os ensaios quando começam?

    — Relaxa, Zulmira. Você não tem texto, não precisa decorar nada. Também não tem que participar de nenhum ensaio. Uns dois dias antes da estreia você passa aqui, a gente conversa sobre marcação, mas é tudo muito simples. Você fica uns trinta segundos em cena e sai. Vai dar tudo certo. Os caras querem ver as garotas, as gostosonas. A sua parte é mais um alívio cômico, entende?

    — Mas é só isso? E o contrato?

    — Não tem contrato, é cachê. Cinquenta reais por sessão, recebe no domingo.

    — Mas eu pensei que…

    — O que foi, Zulmira? Não tá satisfeita eu chamo outra.

    — Não é isso, é que eu pensei…

    — Pensou o quê? Meu bem, você não viu o anúncio? Tá claro no anúncio.

    — Eu não li o anúncio. Nem sabia que tinha um anúncio.

    — Veio pela agência?

    — Não, tava passando aqui na porta…

    — Então é isso, minha filha, já expliquei tudo. Conversa com o Plínio se tiver dúvida, mas o negócio é esse mesmo que eu falei. Plínio, tô atrasado, preciso correr. Liga pro elenco e avisa que os ensaios começam amanhã, tudo bem?

    — Pode deixar, Daniel.

    — Acho que lá pelas seis tá bom. Ah, e fecha o teatro pra mim, ok?

  • D. Henrique

    Se ouve lá de casa, uma légua de distância – diz o Tio Abílio.

    Canto mais belo não há – diz Tia Adélia.

    E a Mocinha sorri encantada. É um passarinho mágico, dentro dela.

    D. Henrique, tal se soubesse, modula o trinado leve no ar do meio-dia, trinado alegre se espiralando na varanda, nos pomares, nos campos sem fim.

    Era presente do Tio Juvenal, trazido de longe, do sítio do Fogo-Apagou, que se agacha numa furna de além da Serra-do-Meio, num lugar que se esconjura já no apelido: Deus-Me-Livre. O nome D. Henrique, homenagem ao audaz navegante. Não tinha cruzado os mares, arrostado perigos, tempestades, naufrágios? Certo que não: canário-da-terra, muito nosso, desta beiradinha de sertão. Amarelinho, o amarelo vivo, lindo, jamais visto – tirante a laranja, mas a gema do ovo, a gema do ouro. Com o cinza descendo nas costas, crescendo, até a cauda – manto real. E o canto, de maravilha. Certo que de um outro mundo, de sonho, da fábula.

    A Mocinha era a dona – por isso feliz, feliz como um passarinho. O gorjeio de D. Henrique, o sorriso nos olhos da Mocinha – um namorinho, às escondidas. Ah, ninguém não saberia dos trinados do seu coraçãozinho, a sua paixãozinha. Sabe, eu tenho um passarinho – queria contar. As palavras não dizem o sentimento – todo mundo tem um passarinho. A verdade se imagina – o coração no poleirinho, que balanga pra cá, pra lá.

    Ao Nando, o noivo, sentado sério na varanda – Sabe, eu tenho um passarinho. Os olhos dele, de surpresa – o que demais? D. Henrique sacode as asinhas, estufa o peito, as peninhas de ouro. Ah, sei – diz o moço: – É um passarinho de ouro. A Mocinha ofendida, lá com ela. Não é só isso não. Ele nem não existe, de tão bonito. O pensamento tão gravezinho, o Nando nem não entende. Consola – É muito lindo, sim, o canarinho. Não via quem não queria, só de brincadeira que falou. Se ela dissesse: Não se brinca com o sentimento dos outros, Nando. A cara morena dele tão perto – precisava que falasse de amor? E se fosse de brincadeira? Não pensava muito, não. Se encosta, dizendo, o que nem carecia: Nando – eu, você. D. Henrique pula que pula, o biquinho treme na melodia que só ela sabe – batendo palmas no jeito bem dele. E o Nando – Não é que esse passarinho canta bonito? É diferente, não tinha reparado. É até inteligente – ela pensa.

    Você põe o dedinho, provoca. D. Henrique vem com o biquinho, as bicadinhas. Bravinho, se arrepiando inteirinho – ou era só que estaria brinca-brincando? Os azuis do céu, a capricho – límpido, livre: a alegria do canarinho, mesmo se bravinho. A Mocinha treme os labiozinhos, estralozinhos, a lingüinha, arremedo de assobio – Assim que se canta, D. Henrique. E D. Henrique, garboso, vestido no seu manto do maior orgulho, trina que trina e trina – como que uma caçoada! – os mais belos trinados. Dedinho no pescoço, na cabecinha – num agrado, o elogio merecido? Não deixa não. De um a outro poleiro, o balanço arisquinho. Elogio? É o meu natural, não precisa não. Folhinha de almeirão? Ah, sim. Mas me ensinar? Isso não. Nasci sabendo, com o sangue. A longa viagem, escura – viu a luz, que lindos gorjeios! Que vida rebentava daquele peitinho! As peninhas de ouro brilhando no sol. Dona Mocinha, trocar minha agüinha? Um banho molhadinho, espanejar mil pozinhos d’água no ar. Esse beicinho, Dona Mocinha? Me dar um beijinho? Muito agradecido – o imaginado é já o sentido. Tri e tri e trinos de luz, claridade, suavidade! Nosso namorinho, Dona Mocinha.

    Seu Nando manda dizer que hoje demora mais – o recado, grave. Que novidade! Caçar um jeito de não ouvir o tempo, o de sempre – os dedos delicadíssimos no bordado do enxovalzinho. A calma tristeza sentada na varanda – só D. Henrique vê, solidário, distraído da cantoria que quer sair, explodir na lindeza da tarde clara. Horas sem fim bordando a solidão – tão monótona a espera! Por que será que o Nando demora tanto? Madornando, fecha os olhitos. Desperta com os cuidados – Que seria? Uma desgraça? Madornando, desperta: os trinos agudos, estridentes, tanta alegria, D. Henrique até desafina! Se fosse possível! A Mocinha abre um sorrisinho – Tenho você, D. Henrique. Mas repreende – Estou triste, D. Henrique! Tri, tri, triste? Tri de trinados e trinados, alegres embalando a tarde! Colorindo, perfumando a alegria – Teu noivo chegou! Teu noivo chegou! O Nando – sujo, suado – traz o seu sorriso bom. Cansado, o jeitão aborrecido, por trás o gosto do encontro, curto – Já são horas, logo vou chegando.

    O Nando implicava com D. Henrique – Como que vigia a gente, segurando vela, oras! Tem ciúmes – pensava a Mocinha. Uma pontinha de orgulho se acendia nos olhinhos – Tem ciúmes de mim, sim, sim! O Nando implicava, desimplicava – a Mocinha via os olhos dele bulindo: a mãe vinha surgindo na varanda, com café, bolinhos, ou o pai procurando, pretextando os dois dedos de prosa, as honras da casa – D. Henrique dava o aviso, apartava os dois pombinhos. Inteligente, sim senhor! E amigão! Pois é, o Nando nem se desgostava mais com o canarinho. Mas deu de inventar outra implicância: Não gosto de passarinho preso não – falou. A Mocinha até pensava: Fala com franqueza. Desgosta de verdade! Foi pensando. Com o pensamento, quem é que pode? Entra na ideia, sem nem pedir licença. Não sai mais não – preocupaçãozinha cresce que cresce: Meu D. Henrique, infeliz na prisão! Meu prisioneiro, coitadinho. Isso não se faz – desumano, cruel demais. Chorou sentida, magoada nas cordas mais doloridas da sua almazinha ingênua. Soltar D. Henrique – ficar tão sozinha! Um pedaço de mim! É tudo que eu tenho – minha fábula encantada! Não soltar? Não pode ser! Eu não sou tão má. Não tenho tanta ruindade. Como se matasse um pedaço de mim! A Mocinha balangou, balangou – a gangorra da indecisão, as rodas do monjolo plec, plec, a mão do pilão puf, puf! roendo o seu coraçãozinho.

    Soltou D. Henrique. Aberta a portinhola – um adeus choroso, demorado, engasgando as palavras na garganta, nem D. Henrique cantava. Vai, amorzinho. Vai, meu tesouro – antes que eu mude de ideia. A cabecinha fora da porta – D. Henrique olha à esquerda, à direita, assuntando. A Mocinha descuidou – lá se foi ele. Adeus! Adeus! Pousa na roseira florida, que lindo! Mas cuidado, D. Henrique – cuidado os espinhos. Ai, meu Deus! Ele não conhece o mundo lá fora. Tantos perigos! Não vai resistir. Meu Deus, o que eu fiz? Mandei D. Henrique para a morte? D. Henrique saltita na laranjeira, na cerca, na jabuticabeira – o trinado claro, nunca tão lindo! A Mocinha vê, de longe – os olhinhos marejados, a dor bulindo naquela aguinha. D. Henrique voa, avoa – some-se no azul. Livre – isto a liberdade! Ingrato – tanto que era amado! Ingrato nada – livre, é o que é. Liberdade, o dom precioso! A Mocinha abraça o Nando – tantas lágrimas, e contidas: inda um esforço de mostrar alegriazinha. Abraça a mãe, abraça o pai – Deixa, menina, que ele volta. Ah, pai: deixa ele ser livre – a Mocinha engole a lagrimazinha. Há uma dorzinha neste mundo, ninguém não vê, enorme, enorme.

    Quando D. Henrique voltou – Meu castelo, meu lar! – nunca mais porteirinha fechada. D. Henrique senhor do mundo, livre, trina, trina os límpidos cânticos da liberdade! A Mocinha não cabe em si, tão feliz! Um sorriso largo, livre – livre é uma palavra tão linda! A Mocinha casou, saiu da Fazenda Gabirova para a Fazenda Pau d’Alho, foi feliz. Há dessas histórias de amor, perfeitas, neste planeta. O Nando pegou amor no bichinho – preparava o ovo matutino, limpava a gaiolinha, na tardinha regava o canteirinho de almeirão: D. Henrique não tinha do que se queixar. Uma canarinha – que maravilha de canarinha! Quatro ovinhos, quatro! Nenhum vingou, D. Henrique nem viu. Governava o seu reino, navegante nas águas da alegria. A Mocinha vai se lembrar, por toda a vida! Houve tempos difíceis – os primeiros, depois melhoraram – mas foram tão bons! Ela sempre vai se lembrar. Nas bodas de ouro – rodeada dos muitos filhos, netos, bisnetos – ela vai se lembrar. Ela, o Nando! D. Henrique, Sua Majestade, a nobreza nas peninhas de ouro, penugenzinha, fino pozinho de ouro borrifadinho! O gorjeio de ouro tremulando claro, alto, léguas em redor, leve, livre, límpido – D. Henrique, a rica mágica: este mundo encantado!

  • A beleza requer medida

    As academias viraram moda. Digo “moda” porque nem sempre os que as procuram pensam na saúde; isso fica para o pessoal mais velho, que já não tem por que expandir ou tornear partes do corpo. Os novos frequentemente vão para lá em obediência ao narcisismo que impera em nossa época.

    Desse narcisismo faz parte o culto da imagem, a que não raro o indivíduo sacrifica a saúde física e psicológica. Vez por outra a mídia noticia o caso de alguém que, na busca pelo corpo ideal, se excede na prática de exercícios e mesmo na ingestão de anabolizantes que terminam por lhe comprometer funções essenciais do organismo.

    Para ter o corpo “malhado”, muitos se exercitam vários dias na semana ou até a semana inteira. As academias, que antes contavam apenas com instrutores humanos, hoje dispõem de máquinas sofisticadas que trabalham os músculos conforme a necessidade e o gosto – mais o gosto do que a necessidade – do freguês.   

    Há alguns meses frequento uma delas para tentar suprir ou pelo menos moderar os estragos que o tempo fatalmente produz em nosso corpo. Sou um dos poucos coroas entres rapazes atléticos e garotas “saradas”, que com a ajuda de seus personal trainers buscam adquirir, se não o corpo perfeito, pelo menos um que os torne atraentes ou, por que não?, invejados.

    Lá me deparo com latagões de tórax volumoso e garotas envolvidas em seus leggings de compressão para modelar quadris e bumbuns. Stanislaw Ponte Preta as chamaria de “certinhas”, já que no tempo dele não se falava em “malhadas”. É impressionante a intensidade com esse pessoal se entrega aos exercícios. Alguns não escondem a expressão de sofrimento no afã de realizar mais flexões e levantar mais pesos.

    É claro que adquirem beleza, se com esse termo queremos nos referir a vigor. Mas às vezes o excesso desfigura o corpo, promove uma espécie de deformação que lembra muito pouco o padrão narcísico que muitos perseguem. Beleza é medida, proporção, e nem sempre o inchamento de bíceps e glúteos propicia tais características.

    Outro dia eu observava duas garotas que costumam se esfalfar na flexão com os halteres e no levantamento de pesos. Olhando-as, não pude deixar de pensar em Rubem Braga. Em muitos de seus textos, o Sabiá da Crônica descreve com lirismo e encantamento as mulheres. Neles destaca a leveza e a doçura como atributos da feminilidade. Que diria o velho Braga diante de espécimes como aqueles, que por força de exercícios estrênuos dão ao corpo um aspecto viril?

    Sei que isso pode soar preconceituoso em tempos nos quais as mulheres adotam uma série de práticas antes associadas aos homens, como por exemplo jogar futebol. Tudo bem, é o progresso. Mas que nesse afã igualitário elas cuidem de não perder certos atributos que tradicionalmente as distinguem, como a delicadeza e a graça. É neles que está a sua força.

  • Viver não é estar vivo

    Não se pode chamar de viver o ato passivo de ver sem enxergar. Quase como um coadjuvante de si mesmo, um acessório da vida que corre aos seus olhos e você não estica a mão para encostar nela.

    Estar vivo nesse caso não é um ato de sobrevivência mas sim quase uma função controlada pelo Sistema Nervoso Autônomo. As coisas funcionam sem que você tome decisão alguma. Simplesmente você respira, seu sangue corre e seus intestinos, bem, fazem o que tem que fazer. Você, um ser passivo por completo. Está ali e mais nada, sem maior esforço.

    Viver é diferente. Exige decisão, esforço, visão. Escolhas certas e erradas, viver certezas e tremer com as incertezas.

    Viver é achar um livro de autora que não conhecia somente porque, sei lá, deu na sua telha. É ver um filme que parece ruim e de fato é uma droga, mas tudo bem.

    Viver é ficar calado e não revelar um mico desses pela Internet.

    Viver também é confessar as bolas-foras da vida. É bater boca por besteira, entrar em conversa non-sense pelo prazer de criar ideias que se engajam nas dos amigos formando um trem retórico desgovernado mas bem divertido.

    Viver é lembrar e é propor.

    É também passar seu olhar pelas pessoas e achar alguem interessante. Interessante não, muito interessante. Mas ficar quieto, observando, apreciando a paisagem humana.

    Assim como também é viver ser escaneado por algum olhar de desejo por você, mesmo que na maioria das vezes você não faça a mais pálida ideia porque atraiu a atenção daquele par de olhos. Talvez belos, talvez não. Profundos ou rasos. Mas certamente olhos bem atentos.

    Quem vive, aprecia. Quem vive, busca. Quem vive, se surpreende.

    E se decepciona, se volta e revolta e volteia na mesma proporção que a quantidade de sorrisos que deu menos a raiz quadrada das caras-amarradas seguidas de rosnado que soltou pela vida. Equação difícil de entender? Então esquece, vai viver que é melhor.

    Guimarães Rosa escreveu que viver é muito perigoso. Eu acrescentaria com minha pena atrevida: viver é muito perigoso mas mesmo assim pode ser bem divertido.

    Viver vai muito além de estar vivo.

  • Poema #03: na sacada do apê & um marlboro às 2 da manhã

    trago
    a pessoa amada
    aqui dentro

    mas amor não se prende

    sendo assim
    solto-o
    ao vento

  • Longe de ser triste

    O dia começa comum. Café passado, o jornal aberto na mesa da cozinha, o sol insistente atrás da cortina. É num intervalo banal, entre um gole e a leitura de uma manchete qualquer, que ela chega. Não é dor. É um silêncio que se instala no peito, um espaço quente e vazio que, paradoxalmente, se enche de uma presença.

    A saudade boa é isso: a certeza suave de uma falta que conforta. Ela não surge com o estardalhaço da tragédia, não rasga. Aparece como um visitante familiar que, sem bater, se acomoda no sofá da alma. E traz consigo o cheiro que era dele. Não um cheiro físico de loção ou de roupa passada, mas a essência da atmosfera. O jeito como a luz da tarde ficava mais amarela quando ele ria. O som seco da página de um livro sendo virada por seus dedos. O peso seguro de sua mão no meu ombro, em um momento de dúvida.

    Penso que a saudade é o contorno que o amor deixa quando a pessoa se vai. É o molde, em gesso macio, de uma estátua que não está mais na sala, mas cujo formato perfeito conhecemos de cor. E ao correr os dedos mentais por esse contorno, não sentimos o gesso frio. Sentimos o calor da memória do bronze que ali esteve.

    Lembro-me do seu todo. Não de gestos isolados, mas da sinfonia que ele era. A risada que começava nos olhos antes de chegar aos lábios. A paciência de ouvir até o fim. A teimosia gentil com que defendia um ponto de vista. A maneira como cortava um pão, com uma serenidade ritual. Cada fragmento, insignificante por si só, se encaixava num mosaico de humanidade tão completo, tão singular, que hoje entendo: não mais verei ninguém igual a ele.

    E eis o conforto secreto desse reconhecimento. A saudade que dói é a que lamenta o que poderia ter sido, as palavras não ditas, os abraços sonegados. A saudade que conforta é a que celebra o que foi. Foi completo. Foi único. Foi dado e recebido. Ela é a prova, guardada a sete chaves no coração, de que não se trata de idealização, mas de um fato: houve, na minha vida, uma obra-prima.

    Não quero ele de volta como era, pois isso seria roubar-lhe a paz e traí-lo com a nostalgia. Quero, sim, carregar esse contorno leve. Ele me ensina que a ausência não é um buraco, mas um vaso. E que esse vaso, moldado pela saudade boa, está sempre cheio do mel de que vivemos.

    O dia continua comum. Levanto-me, levo a xícara à pia. E eu sorrio, levemente. Porque a saudade boa não prende no passado. Ela é um abraço de longe, que aquece o presente e me sussurra, sem palavras: foste amado de uma maneira que nunca se repetirá. E isso, longe de ser triste, é o mais belo dos legados. É uma exclusividade afetiva para toda a vida. A certeza de que, em algum lugar do tempo, existiu um ser insubstituível que eu tive a sorte de conhecê-lo.

  • Aurora e o Sujeito Sentimental

    Arre, que não teve jeito! Nunca tem. Mente quem diz que tem.

    O chefe da Polícia Federal fala ao assistente sem tirar os olhos do cadáver esticado na cama do hospital, dentro de um saco grosso de plástico: Providencie o traslado do corpo do Pestana para Araraquara, a cidade dos pais, no interior de São Paulo. Já assinei o documento de autorização. O caso pra ele tá encerrado. Nós vamos continuar de onde ele parou. Ele trabalhou bem no começo, cagou no final. Otário!

    Quando não tinha mulher no meio, Pestana era ágil, resolvia tudo num dois por três. Levou poucos meses para investigar e explodir as entranhas do tráfico da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Rodou por Belo Horizonte, Recife, Cuiabá, São Paulo, Porto Alegre, eliminando as ramificações brasileiras dos traficantes de drogas. Morava mais em avião do que na própria casa. Trabalhou com eficiência. Era quase invisível e conseguiu se infiltrar. Tudo fácil, até que ela apareceu, presa por um colega policial. Ruiva, cabeleira ondulada igual à personagem do gibi, era um espécie de chefe de uma gangue obscura do Rio de Janeiro. Obscura sim, mas que vinha dando trabalho para a polícia: assassinatos, assaltos, conluio com a milícia, submissão de moradores das favelas cariocas. Pestana percebeu o tipo, a malemolência, a malícia. A boca. O olhar. O cheiro. Tinha um nome matador — Aurora —, que nunca mais sairia de sua cabeça. Soube que estava perdido assim que a viu. Ela prestou depoimento e o encarou como se perfurasse sua alma. Foi dispensada por falta de provas. Pestana se rendeu, agiu como um idiota. Ruiva esperta e dissimulada, deslizava feito bagre. Sempre tinha álibi. Nunca se deixou vincular com o tráfico, mas estava sempre por perto, pairando, rondando. Uma sombra difícil de agarrar.

    Desbaratada a rede brasileira, foi a vez de investigar o braço internacional. Barcelona, Lisboa, Zurique, Londres. A sombra da ruiva também estava espalhada por lá, a gangue crescia com rapidez. Pestana seguiu pistas, conferiu informações, foi atrás de supostos cúmplices na Europa. Nenhuma prova ainda que incriminasse Aurora, a cachorra sabia como escapar.

    Foram para a cama em Londres, no apartamento que ela tinha lá. Pestana sabia onde estava se metendo, mas não conseguia evitar. No sexo era Aurora quem dominava, ele obedecia, fascinado por aquela mulher perigosa que poderia matá-lo sem pensar muito. Ela gostava de ficar por cima. Abria as pernas sobre o corpo esticado dele e o olhava nos olhos. Ordenava: Quero uma enfiada só, de uma vez, ouviu? E ia se abaixando devagarinho, ficando de cócoras sobre o pau em riste. Dava um tranco rápido com as nádegas e se acomodava gostosamente, as pernas ao redor da cintura do policial e o membro dele inteiro dentro dela. Mexia os quadris como profissional experiente, devagar primeiro, acelerando o ritmo aos poucos e apertando e puxando para cima o bico dos seios. Isso deixava Pestana louco e ele tinha que se segurar para não gozar de imediato. Quando se separavam, cada um num lado da cama, suados e vazios, ele gastava minutos olhando a barriga redonda de Aurora, que subia e descia em movimento uniforme. Naquela noite, assim que ela se levantou para ir ao banheiro se lavar, Pestana grampeou o telefone do quarto. Cadela, que pena, agora te peguei, pensou o investigador. Não pegou. No dia seguinte ela descobriu o grampo, desativou a armadilha, pintou o cabelo de preto e sumiu. Semanas sem saber dela, Pestana quase enlouqueceu.

    Em Barcelona, pensou tê-la visto na rua. Não era, mas podia ser. Foi pra cama com a desconhecida e percebeu que não era mesmo a outra: não tinha o piercing no clitóris, nem o anjinho tatuado na nádega esquerda, nem gritou Drácula! na hora de gozar. Deu dinheiro e dispensou a falsa.

    Andou um tempo com medo. A Europa amedrontava, tinha a barreira da língua, o frio que endurecia os ossos, a comida que parecia cimento e ninguém em quem confiar. E a solidão, essa cachorra! E a cachorra da Aurora, que tinha sumido como fumaça? Estava desolado. Queria voltar e se torrar sob o sol do Leblon. Recebeu notícia do chefe: Aurora tinha sido vista num inferninho em Copacabana. A ordem foi que voltasse correndo. Pestana tomou o primeiro avião. De novo no Rio, recomeçou a perseguição. Maré, Rocinha, Alemão, Cidade de Deus, um sabonete chamado Aurora fazia muita espuma e desaparecia como se nunca tivesse existido.

    Até que um dia seus olhares se cruzaram de novo, e aquela foi a penúltima vez. A polícia foi avisada por um delator, vários investigadores deram flagrante, chamaram a televisão e os jornais: a ruiva, dólares e euros em dinheiro vivo, carregamento pesado de drogas, todos presos, ela também. Pestana pôs as algemas olhando para ela direto nos olhos. Quinze anos no xilindró, quando sair vai estar velha, gasta. Pena. Assim que a poeira baixou, Pestana foi para casa descansar, dormir e tentar esquecer.

    Com a ajuda de um rábula vesgo e corrupto, a ruiva conseguiu habeas corpus e, de novo na rua, foi cobrar o prejuízo. Soube que uma noite o Pestana estava bebendo no Golden Duck, em Copa. Ele ainda não estava completamente bêbado quando ela entrou e o encarou. Essa, sim, foi a última vez que cruzaram os olhares. Ela sorriu, se aproximou, colou o corpo no dele e o beijou na boca. Disparou cinco vezes com a automática silenciada enquanto o beijava. Saiu da boate sem ninguém impedir ou entender como, protegida por seus capangas.

    Pestana respirou uns dias por uma máquina. As agulhas nas veias providenciaram alimento e sobrevivência. Quis morrer, não agonizar. Quis morrer com a ruiva mordendo seus lábios, balançando a cabeleira como a moça do gibi. Morreu sem isso.

    O chefe da Polícia Federal entrega o documento ao assistente, autorizando o traslado do corpo. O Pestana disse que queria ser enterrado ao lado do papai e da mamãe dele. Coisa de sujeito sentimental. Otário! Despacha o corpo pra lá, anda. Alguma pista da cachorra da Aurora?

  • LAR

    Gilda não me dá descanso. Diz que aposentadoria não é meio de vida. “Homem aposentado é bom para não prestar”. Raro me deixa visitar os amigos, porque preciso, prioritariamente, e diuturnamente, faxinar, lavar as roupas (até dos netos), lavar a louça e arrumar o guarda-roupa. Não acho que homem deve estar em pedestal, imune aos trabalhos domésticos. Mas parece que ela quer me penalizar, por ter sido a vida inteira dona de casa profissional. Às vezes acho que ela não sabe o que fazer com um homem dentro de casa (nunca passei tanto tempo assim). Na pandemia, também, ela me botava moral, para fazer comida e o escambau. Além do medo insuportável da doença fatal, eu tinha de lidar com os melindres de Gilda. Foi, sem dúvida, a pior fase da minha vida, e a suportei porque tinha a mulher amada ao lado, apesar dos pesares. Sei que ela está farta da vida doméstica. Passa o tempo a reclamar das roupas “mal” lavadas, das mal-arrumações. “Que servicinho porco é esse, Sr. Genival?”. São quarenta anos de casados, dos quais noventa por cento ela se dedicou à casa e ao cuidado com as crianças. Gilda é um trator, mas da década de sessenta, já surrado, perto de virar sucata, quem sabe. Ela é mandona, mas não me incomodo com isso, porque aprendeu, com as adversidades, a ser assim, não é por mal. Trabalhou duro com o pai na lavoura, em Santa Quitéria. Eu a vi aí, linda, e esplêndida, e resolvi roubá-la, para, inclusive, lhe dar uma vida melhor. Ela cuida de casa, mas sempre teve o apoio de Lourdes, que ajuda nas tarefas domésticas – mas Gilda quer que eu faça isso e aquilo, para não “enferrujar”, não ficar “tantã”. Sou apaixonado por Gilda, e desde que me entendo por gente vivi com ela, nos casamos muito jovens. Logo arrumei um trabalho na metalúrgica e fiquei por longos trinta e cinco anos. Criamos três lindos filhos, educados, estudiosos. Marcílio, o mais velho, é médico cardiologista. Ludmila é arquiteta. Ferdinando é cirurgião-dentista. Gilda botou quente na criação. Até achei, por muitas vezes, que ela exagerava na dose. Devo a ela o rigor e a postura. Sempre fui um pai ameno, talvez tenha atrapalhado mais do que ajudado. Mas, enfim, tudo se resolveu. A minha queixa, para terminar, é somente ter um dia inteiro de descanso. Gilda não permite. Não pode me ver deitado na rede, depois do almoço, que logo arranja um serviço. Até curso de “marido de aluguel” fui forçado a fazer, com todas as limitações da idade. Ela não quer saber, deseja um trator velho de companhia. Vai ver que isso vem de algum trauma, dos tempos da brutalidade na roça, cuidando de mãe doente e tudo mais. Tenho orgulho da minha guerreira. Não vou mais tentar me livrar ou explicar os fatos. Se eu a amo, tem de ser assim. Que seja, para o bem dos que se amam.

  • Dente na garganta

    Os garotos atravessaram a ponte de concreto em direção ao campinho. Era o trajeto de todos os dias, a única passagem que ligava os dois estados. Finalzinho de tarde, separação dos times, alarido, escolha de quem ia na linha, quem ia no gol, os melhores já saíam logo da fila, e ficavam num canto debochando dos desajeitados e ansiosos ruins de bola, pernas-de-pau, o gordinho, o magrinho, o esquisito, o que não fala, o manco, o preto, o ferrugem, o sem pai, o filho da puta, puta mesmo, de um pardieiro antigo do outro lado do rio. Deu a saída, gol na primeira jogada, o garoto na lateral levou no meio das pernas, os parceiros de time abaixaram a cabeça inconformados, ele era um desastre, ruim para um caralho, diziam no particular quando ele não estava por perto, mas ali, era tudo meio disfarçado, ninguém tinha peito pra reclamar alto, ninguém tocava nele, era o dono da bola, do terreno onde ficava o campinho, dos barcos ancorados ao longo do rio, das áreas de concessão na beira da estrada dos dois lados, alugados para construção de postos de gasolina e outros serviços, era dono da metade da cidade, era dono de parte do estado junto com outros sócios, era quem pagava o lanche depois do jogo, comprava a simpatia dos amigos, ninguém bolia com o menino.

    A reunião fora nos fundos do galpão, todo mundo sem camisa, celulares do lado de fora dentro da tampa de um tambor, sem secretárias, sem auxiliares, só os donos do negócio, o prefeito, o vice, o secretário de obras do município e o do estado representando o governador, o dono da empreiteira vencedora da licitação, edital arranjado, único qualificado capaz de cumprir as regras impossíveis, um cala-a-boca pro resto, todo mundo teria sua vez nas próximas, pacto de silencio, fundão do Brasil, inalcançável, leis próprias, gente de Brasília no bolso, desembargador do estado no bolso, oposição no bolso, suados, caldinho escorrendo pelas dobras do pescoço, mãos feito garras, unhas sujas de sangue, olhos vermelhos, saliva, baba, dente na garganta, a gente dona da engrenagem, da massa do cimento, das ferragens, tudo de segunda e que ergueria a nova ponte para ligar os dois
    estados.

    Numa clareira entre arvores altas, mato cerrado, três urdiam um plano. Ele morre amanhã, é o único jeito. Mas já vamos pedir o dinheiro hoje, a gente mata ele depois, vamos ter que sumir, não podemos mais voltar pra este lugar, e quem quer isto aqui? Vamos pra São Paulo, lá a gente desaparece, vira um traço, a gente é traço aqui, não é por isto que estamos matando? Eles riem, fazemos justiça social, e riem de novo mais e mais. Teu neto tá com a gente, dizia o bilhete. O prefeito urrou, ergueu-se e ergueu com ele a mesa, tombou-a com os braços gordos e fortes, chama o Jeremias, descobre quem escreveu isto, vai atrás do garoto, que não posso agora, tenho reunião, vai na casa dele, o celular da maldita não responde, deve tá metendo, é só o que aqueles dois fazem o dia inteiro, vê se tá no campinho, essa hora eles tão lá, é todo dia de tarde lá, descobre isso aí, mata todo mundo e joga no rio, mas quero os nomes, varre a cidade, ameaça todo mundo, quero esses caras no chão, mas me chama antes, quero ver a cara desses filho da puta, deve ser gente querendo mudar as coisas, algum desgarrado, algum comunista querendo fazer arruaça, vai e me chama, vai, vai.

    Três motos seguiam os garotos. Voltavam do jogo, algazarra, risos, deboche uns dos outros, o neto do prefeito na frente, sempre ele na frente, a bola embaixo do braço, os outros já ansiosos, já sentiam o gostinho do sanduíche, do copão de coca, era no McDonalds, o único da cidade, presente do prefeito para o filho do presidente da Câmara, amigo velho, amigo do peito, irmão. Três carretas, quatro carros, cinco motocicletas e os garotos atravessavam a ponte, um tremor, dos dois lados do rio abriram-se duas rachaduras, que se alargaram e balançaram a ponte, e tudo se desgarrou, um segundo e era o vazio, o estrondo na água, o reboliço das ondas levantando os barcos nas margens, o espanto, os gritos, a correria, o estupor, o topo dos caminhões sumindo nas águas, o resto já era nas profundezas, nem sinal dos meninos. No ar, um oco, Jeremias chegou na ponte, gritou para o outro lado, era de lá que vinham os garotos? Alguém respondeu. Foram todos, o menino também? Todos, o menino também. Jeremias abaixou a cabeça, sorriu levemente sem que ninguém percebesse, a vida é um sopro, pensou.

  • Visagem

    A brisa da manhã invadiu seu quarto. Quase ninguém na rua. Ninguém em casa além dela.

    Desceu as escadas suavemente. O cheiro da manhã a entorpecia.

    Saiu a caminhar. Cabelos soltos, sonhos leves, pele arrepiada.

    Flutuando pelas ruas, não percebia os olhares atônitos. Sorvia a manhã.

    Andou até ter os cabelos umedecidos pelo suor, a camisola colada ao corpo…

    Os olhares cada vez mais atônitos!

    Novamente em casa, tomou um longo banho, pôs seus vinis na máxima altura, abriu as janelas e dançou. Sentia-se, então, menos só.

    Chovia, quando abriu os olhos. Uma chuva cor de prata inundava seus olhos, iludia seus ouvidos…

    Outra vez, as escadas, a porta, a rua…

    Alguns guarda-chuvas davam o tom sério à manhã de prata, enquanto os olhares transpareciam prazer.

    A manhã tornava-se bordada de renda.

    De braços abertos, ela experimentava a vida trazida pelo novo dia. Os guarda-chuvas a emolduravam. Silenciosamente, destacavam sua beleza.

    Comprou flores, trocou os lençóis, cuidou do jardim. Mais tarde recitou seus poemas favoritos em voz alta diante do espelho. Riu e dançou. Era uma menina! Uma estudante travessa no seu quarto de segredos.

    A manhã surpreendeu-a nua sob os lençóis bordados.

    Um arrepio! Seus pés sentiram a aspereza da calçada. Ela vibrava. O contato era surpreendente. Arriscou mais um, mais outro. E passo a passo cruzou a praça sob olhares novos e antigos: emudecidos, estupefatos. Era linda!

    Era menina, moleca, mulher. Nua! Envolta na densa neblina daquela manhã.

    Tudo a contemplava.

    Quando ele chegou de viagem, encontrou-a diferente. Sem amarras, sem medos, sem limites…

    Encantou-se. Amou-a ainda mais. Pelas ruas, ostentava a mulher com um sorriso de canto a canto.

    Os olhos da cidade agora se cruzavam, segredando o desejo de vê-lo novamente partir. Invejando-o cúmplices.

  • Poema #70: Trágica & Cômico

    A cada dia vai-se diminuindo
    o meu espaço vital.
    Isto porque quando comecei a sentir-me
    parte integrante do mundo
    eu já havia sido expulso do mundo.
    Toda uma vida
    todo um aprendizado
    adquirido na sombra e no silêncio de indivíduo
    é tão somente de conhecimento meu próprio.
    Só eu sei dos mecanismos mentais
    que implicam em cada gesto
    em cada palavra
    que ensaiando digo às paredes
    que ainda não foram construídas.
    Encenei para mim mesmo uma tragicomédia
    na qual sou o único personagem,
    e o teatro em que represento
    não é frequentado pelos homens
    e está prestes a se desabar sobre.

    O Acaso das Manhãs

  • Desobediência

    Zími tomou um ácido e saiu.

    Cidinha era caixa do mercado perto da casa dele.

    Ela era refém da escala 6×1 e sua gravidez estava avançada o suficiente para que o esforço e o desgaste daquele trabalho já parecessem excessivos.

    Zími, que mora na Rua da Glória, chega a pé ao mercado em sete minutos.

    Ele só saiu naquele horário porque os ítens que precisava comprar eram essenciais.

    Duas da tarde de uma terça-feira insanamente quente, que castigava as massas sem aliviar.

    Zími precisava de café, cigarro, sabão em pó e água sanitária.

    Chegou a vez de Zími no caixa para pagar a compra, e Cidinha, exausta pelo calor excessivo e pela rotina destrutiva, comentou com Zími: “Eu ainda rezo toda noite, mas cada amanhecer parece ainda pior que o anterior!”

    Zími respondeu: “Deus não existe. A religião é uma campanha publicitária de um produto que não existe.”

    Cidinha soluçou mas não respondeu, apenas deu a Zími a nota da compra, e chamou o próximo cliente.

    Zími ainda falou: “O mundo é comandado por uma elite esotérica, ocultista, que tem vínculo com as trevas.”

    Então voltou para casa e se deparou com a antítese de Cidinha.

    A juventude de Mila Cox não permitiu que fosse eleitora na época das cédulas de papel.

    Ela foi apenas uma vez à urna eletrônica anular seu voto só para ver como era. Mesmo tendo ouvido Zimi e sua tia Lola Cox repetindo à exaustão que a única resposta viável nas urnas era não ir até elas. 

    “Abster-se dessa patifaria é uma manifestação legítima!” — ele dizia, sempre que uma eleição se aproximava.

    Sem shows marcados e por isso sem precisarem de um guitarrista provisório, Zimi e Mila Cox surpreendiam um ao outro com a capacidade que tinham de não sentir solidão com o isolamento no apartamento no bairro da Liberdade.

    Ali preparavam outro disquinho de sete polegadas com uma música de cada lado para o duo Crop Circles, que eles montaram em 2017.

    Ele dizia que seria bom gravar uma canção cover para o Lado B enquanto ela era radicalmente contra covers e tributos, mas concordou apenas pelo fato da canção escolhida ser uma do Cheap Trick, que era uma das bandas preferidas de ambos, e também porque seria ele quem cantaria na faixa.

    Esse formato de disco evitava as ‘filers’ que enchiam tantos Lp’s com excessos, mas que seriam bons compactos ou singles. Para esse próximo lançamento, Cox preparou para o Lado A uma canção em português que tratava de uma conversa com pequenos ex-produtores rurais  que enfatizavam de forma unânime que o agro é medonho nas entranhas. Mudou um pouco sua temática, antes mais focada em intervenções alienígenas.

    Mas agora que Donald postou aquela foto, ela deixou de lado momentaneamente, porque aquele cretino entregou o meme pronto.

    Depois da pandemia, as pessoas não se assustam e nem se surpreendem mais com isso.

    Apesar de querer chocar de alguma forma, ela vetou para o clipe da música as imagens gravadas por Zimi, em que uma vizinha amiga dele dança pelada queimando uma bíblia.

    Trabalhar em casa era um sonho antigo para eles, mesmo num tempo em que já se dizia que copywriters já não servem para nada.

    Zimi parecia um Jay Reatard menos prolífico que a fez entender que era importante  observar como aqueles novos pseudoartistas pavorosos que eles descobriam do nada que eram famosos, e que apareciam em programas matutinos da TV aberta tinham tudo para afundar em suas aparições ocas de qualidade, enquanto ajudavam a desenvolver métodos de divulgação mesmo sem ter nada de relevante para apresentar.

    Num mundo mais coerente essa gente ruim abriria caminho para artistas genuínos, que tinham vidas reais e isso aconteceria por meio de um desvio consciente da história movido pela força da emergência em rever o que realmente importa na vida e na arte.

    Comeram cookies de aveia e chocolate amargo durante a visita de Lola Cox, que era tia de Mila, e que chegou sozinha dizendo que estava solteira novamente porque para ela o casamento tem validade de quatro anos e a principal causa dos divórcios são os próprios casamentos.

    Ela voltou para a cidade para ver da janela a Avenida São João à noite com o asfalto molhado.

    Alegou que achava que não viveria para ver isso novamente, enquanto Mila e Zimi ainda gostavam de ouvir a Voz do Brasil às sete da noite para aprender com aqueles políticos escrotos um português bem falado e NÃO aprender com eles a vender esperança às custas da ignorância das massas.

    As noções de decência que os dois procuraram cultivar em suas vidas deixariam de ser tratadas como utopias.

    E uma voz dizia a Zími que imperfeições podem ser vistas como virtude, pois elas a seu modo dão movimento a tudo que deve se mover.

    Enquanto isso, ele pensava no porquê de Cox buscar uma sonoridade influenciada pelo Ministry se ela agora ouvia Tim Buckley e Fleetwood Mac.

  • O futebol de hoje

    Bola na trave, bola na rede, bola no ar. Lençol, trivela, drible de calcanhar… Bola no canto e falta marcada esperando o juiz apitar…

    Bola ao alto, jogada aérea, empurra-empurra e mudança no placar… Os olhos vidrados do menino e do moço e do senhor sentado no sofá acompanham a bola. É o ser e o estar. O sorriso da menina e da moça e da senhora com o rosto colado na tevê é para a bola. É o querer e o ficar. Os aplausos, os gritos, os vivas, os xingamentos, a euforia e o contágio: futebol. Simplesmente amar ou odiar.

    Deixando de lado os interesses escusos, as artimanhas do poder e os escândalos da política, o fato é que brasileiro e futebol se parecem com feijão e arroz, café com leite, queijo e goiabada, praia e samba. Estereótipo? Figuração? Muitos detestam o jogo bretão.

    Alegam que o esporte é o ópio do povo. Ou como também se costuma dizer, o pão e o circo! Outros, entretanto, adoram. Adoram com paixão. Adoram com desespero. Desesperadamente torcem!

    Em tempos de copa do mundo, as camisas amarelas saem dos armários: cornetas, enfeites, bandeiras e muitas outras coisas. Em tempos de copa do mundo, a letra do hino nacional é cantada com vontade e com firmeza. Verso após verso vê-se o Brasil brasileiro e toda a sua poesia. Em tempos de copa do mundo, unhas são pintadas de verde e amarelo, ruas inteiras recebem desenhos coloridos e carros desfilam com pequenas bandeiras.

    Há um milagre, um movimento, uma catarse! Patriotismo de chuteiras? Há uma aclamação, um mistério, difícil análise! Complexidades e besteiras… Mas o futebol é isso! Exatamente isso: falar mais do mesmo, falar o que todos veem, falar o que todos sabem. O jogo está ruim. O zagueiro é um cabeça de bagre (expressão antiga, mas muito apropriada). O meio-campo não ata nem desata. A culpa é do técnico! O pênalti não foi marcado. A culpa é do juiz!

    Mas a seleção não está jogando bem! E o Brasil, por sua vez, também não está! O país mudou! Está mais dividido, agressivo, poluído com os seus ismos. O futebol também mudou! E como mudou! Meu Deus! O que fizeram com o futebol brasileiro? Brasileiro mesmo! Cadê esse infeliz de futebol?

    Jogo marcado daqui e marcado de lá! Marca-se tanto que, às vezes, a gente nem vê a bola! É um jogo robótico, pegado, malhado. Às vezes nem parece futebol!

    E ainda tem o tal de VAR, o chamado árbitro de vídeo! Este árbitro virtual revê cada jogada polêmica e conseguiu fazer a alegria do gol virar um suspense, uma novela, uma frustração!

    Imagina! O seu time marcou um gol e a torcida comemorou com todo o entusiasmo. Então… Para-se a partida! Alguns minutos de análise e o juiz anula o gol! Mas e o grito genuíno de gol? E a razão de ser do torcedor? A espontaneidade do momento único do gol? Não importa! Importa é que o vídeo mostrou um impedimento de 0,2 cm!

    Tempos pós-modernos!

    Que saudade do jogo bonito, do lance certeiro, do drible desconcertante!

    Que saudade da poesia no futebol!

    Que saudade do olé, do chapéu e chuveirinho!

    Saudade de acompanhar a seleção e torcer! Torcer de verdade!

    Nem as ruas são enfeitadas como antigamente!

    Depois do terrível 7×1 pra Alemanha, as coisas só pioraram!

    Jogadores saem muito cedo do Brasil e vão brilhar (ou não) em outro lugar. Ásia, Europa, África, enfim, em todo o lugar em que se paga muito bem para jogar!

    Perder faz parte eu sei! Chorar também. Jogou feio ou jogou bonito. Vitórias e derrotas nos ensinam e fazem bem. Às vezes, como dizem alguns, não era a hora. Às vezes, dizem outros, isso já era de se esperar. O problema é quando você desconfia do próprio time!

    Melhor dizendo, desconfia do futebol brasileiro como um todo!

    A performance vale mais que o gol! A dancinha vale mais que a vitória! Os cabelos e os cortes precisam estar bombando nas redes sociais, caso contrário, já viu!

    E as polêmicas então? Valem um campeonato inteiro! Dão engajamento na internet!

    Hoje tem jogador simulando cartão pra ganhar dinheiro nos sites de apostas! O cartão amarelo ou o vermelho foram combinados! Que jogo é esse?

    Até a camisa da seleção, a famosa amarelinha, não é mais a mesma, sequestrada, coitada, por uma seita de malucos, passou a significar outra coisa que não futebol! Uma pena!

    A camisa, as boas jogadas e o craque de verdade ficaram em algum lugar…

    Em que lugar ficou o nosso futebol? Eu, sinceramente, não sei!

    Vamos pra essa copa com a certeza de que não temos um bom time, mas somos brasileiros! Como se costuma dizer, brasileiro não desiste nunca! E não desistimos!

    Que Deus nos ajude (e Ele vai precisar ajudar muito)!

    Que saudade do Pelé, do Garrincha, do Didi, do Romário (como jogador) e dos Ronaldos!

    Mas fazer o que? Bora Brasil!!!!

  • Habitar o intervalo é preciso

    “(…) Depois da chegada vem sempre a partida”

    Essa lógica, que Vinícius e Toquinho traduziram em música, pode nos ajudar a compreender melhor os pesares da vida.

    A dimensão de tempo entre a chegada e a partida, em alguns casos, é algo que podemos controlar, programar; está em nossas mãos decidir quando vamos iniciar uma viagem, por exemplo, e quando pretendemos voltar. Assim, nos sentimos donos do nosso tempo, do nosso percurso.

    Para outras idas e vindas não estamos no controle, mas existe um intervalo previsível, como é o caso dos fenômenos naturais. Vemos com naturalidade o alvorecer e o entardecer, as idas e vindas das marés, o prenúncio de mudança na estação do ano. Seu fluxo é esperado e a repetição dos ciclos dá uma sensação de continuidade, traz sentido a esse movimento.

    Já no caso da vida, o tempo entre a chegada e a partida foge totalmente ao nosso controle e não é previsível. Especialmente na cultura ocidental, tendemos a ver a chegada como o polo positivo e a partida, o negativo. Recebemos com júbilo o que chega, pois é o novo, o que traz expectativa, e com angústia ou tristeza a partida, que é a despedida, a separação.

    A ideia de um novo ciclo depende da crença de cada um, mas existe uma lei maior que a natureza nos ensina e que foi captada pelo poeta.

    “(…) nada renasce antes que se acabe, e o sol que desponta tem que anoitecer”.

    Entre a chegada e a partida, resta-nos aprender a habitar o intervalo.

  • INCONVENIÊNCIAS

    Um homem para no posto de gasolina e entra na loja de conveniências para comprar cigarros. A menina que o atende chama atenção. É loura, bonita e tem um sorriso angelical. Ele olha para o crachá: Claudette. Tenta puxar assunto.

    — Não nos conhecemos de algum lugar?

    — Acho difícil.

    — Difícil, por quê?

    — Eu me lembraria de você.

    — É?

    — É.

    — Sou tão notável assim?

    — Ô…

    — Você também chama a atenção, de tão bonita.

    — Preferia que não.

    — Por timidez?

    — Por conveniência mesmo.

    — Não entendi.

    — Não estamos numa loja de conveniências, então…

    — Você tem ótimo humor, Claudette.

    — Como você sabe meu nome?

    — No crachá. Claudette com dois “t”.

    — Ah, é mesmo, tinha esquecido…

    — Claudette, bonito nome. Vem cá, que horas você sai do serviço?

    — Pra que quer saber?

    — Queria te convidar para uma cervejinha.

    — Não costumo beber com estranhos.

    — Posso me apresentar a você.

    — Estou falando de caras estranhos, esquisitos.

    — Como você é difícil, Claudette.

    — Só não gosto de enrolação.

    — Como assim?

    — Você está a fim de me comer, né?

    O hom em faz cara de espanto. Olha ao redor para se certificar de que ninguém está ouvindo. A loja está vazia. Melhor assim.

    — Se quer me comer, por que não fala logo?

    — Papo reto, Claudette?

    — Isso, não curto enrolação.

    — Ok. Quero te comer, sim.

    — E quem disse que eu quero?

    — Mas não foi você quem propôs?

    — O fato de propor não quer dizer que estou a fim.

    — E você está a fim, Claudette?

    — Sei lá, nem te conheço direito.

    — Foi você que disse que a gente tem de ser direto.

    — Sou assim. Mudo rápido de opinião.

    — O que você sugere, então?

    — Não sei, acho que tem de rolar uma conexão primeiro.

    — Ok. Podemos tentar. Vem cá, Claudette, nós não nos conhecemos de algum lugar?

  • Meu avô, o escritor

    Seguramente, este amor que nutro hoje pela Literatura se deve a meu avô Carlos, um advogado criminalista que gostava mesmo de inventar histórias. Tenho várias lembranças dele trabalhando no escritório da casa do Humaitá junto com sua inseparável Olivetti portátil. Quando não estava no escritório, podia ser visto no jardim observando as plantas, as flores e os insetos ou apenas contemplando o céu. Era a hora de se abastecer de inspiração, justificava ele, antes de se acomodar embaixo da mangueira ou de se sentar ao lado do viveiro para ler o jornal. Na sala de estar ouvindo música clássica, nos quartos meditando e olhando a paisagem ou mesmo na cozinha impregnando-se de cheiros e sabores, vivia espalhando metáforas, metonímias, sinestesias e hipérboles pelo ambiente. E sempre que estava para concluir um texto, dirigia-se ao terraço com as folhas datilografadas na mão. Então, tal qual bandeira desfraldada, estas eram sacudidas ao sabor do vento por alguns instantes. Se alguém presenciava a cena e se surpreendia com esse inusitado comportamento, ele logo explicava num tom meio professoral:

    — Trata-se de uma manobra crucial, meus caros, é só neste momento que os clichês se desprendem do texto…

  • QUASE CANTOR

    Além de quase médico, fui também quase cantor. Para entender como isto se deu é preciso remontar ao início da década de 1980, quando fiz o Mestrado no Rio de Janeiro. Como tinha tempo livre, pois fora liberado pela UFPB somente para estudar, resolvi fazer um curso de empostação vocal.

    Decisão tomada, consultei os classificados do “Jornal do Brasil”, onde me deparei com um anúncio: “Sílvia Lamounier – rejuvenescimento vocal”. Era mais do que eu desejava: não apenas empostar, arranjar direito as sílabas, controlar a emissão da voz, mas também rejuvenescê-la. A professora morava numa transversal da Av. Nossa Senhora de Copacabana. Tive que ir de ônibus até lá, pois a linha de metrô que liga o Flamengo a Copacabana ainda estava em construção.

    Recebeu-me uma simpática senhora de cabelos escuros e olhos vivos. Tinha um ar de prima-dona, o que me infundiu confiança. Quem sabe não teria cantado em alguma ópera e hoje, aposentada, se dedicava a passar parte da sua experiência a pessoas como eu? Comoveu-me a expectativa de partilhar daquele resto de glória, embeber-me da luz que dela ainda se irradiava.

    Devaneios à parte, perguntei o preço da aula. Não era nada de fazer perder a voz, mesmo porque naquela época vivia-se a Era Sarney e meu salário quase dobrava de um mês para o outro. Antes que a inflação o comesse, dava para fazer pequenas viagens e gastar com alguns extras.

    Definimos o horário, e passei a ter aulas duas vezes por semana. Dona Sílvia me instruía nos vocalises e me ensinava a respirar. A respirar, sim, pois até para esse ato simples, fisiológico, vital, precisamos de um aprendizado. Não respiramos bem e levamos pouca energia ao corpo. Sem energia, não há como soltar a voz. A professora mostrou que a minha estava presa, encaramujada em não sei que dobras do aparelho fonador, e era preciso libertá-la. Os instrumentos para isso eram técnica e respiração.

    Aos poucos a voz foi saindo, ou melhor, se esculpindo. Após algumas semanas me ouvi cantando canções cujas letras eu não compreendia bem, pois eram em italiano. Entendia melhor quando eram em francês. Vez por outra ainda cantarolo uma berceuse que eu executava em dueto com a professora… Foi o que ficou daquela época, pois as aulas não duraram muito. Fui percebendo que ao embalo da música eu começara a esquecer por que estava ali: aprender a usar a voz para não a desgastar em sala de aula. Era um professor, não um aprendiz de cantor lírico.

    Isso pedia realismo e objetividade. Fui de novo aos classificados e procurei uma fonoaudióloga. Essa era objetiva e tratou logo de corrigir minha respiração; o ar tinha que vir do abdômen e não do tórax… As aulas agora eram frias, sem duetos nem repertório musical.

    Não sei se fiz bem deixando as lições de canto. Dona Sílvia dizia que eu levava jeito. Poderia ser hoje um barítono, ou um tenor. Mas, enfim. Resolvi mesmo desafinar em outras áreas (e não “árias”) da vida.

  • Tristeza enrolada em lamento

    A conversa, afinal, foi breve. Ela chegou, falou, escutou, falou de novo, despediu-se e foi embora. Ficou ele ali, diante daquela inútil e maravilhosa paisagem, a belíssima curva da praia de Copacabana. O mar batendo mansamente na areia da praia e nas pedras abaixo dele e mais nada. Em silêncio, ali na mesa, agora sozinho, rememorou a conversa.

    Não havia mesmo mais alternativa para eles. “Nós” acabou. Eles quis ser presença no lugar de lembrança. Mas ela não deixou. Preferiu diferente. Ele escutou calado que sempre estaria em sua memória com muito afeto.

    Doeu. Mas ele manteve-se calmo apesar de tudo. Não se briga com quem pensa em nós com afeto mesmo que isso não nos baste. Procurar motivos para justificar uma ação irada carrega em si o perigo de resvalar em coisas mesquinhas. Maldade com a memória a dois.

    O certo é que ninguém é obrigado a nada além do que possa dar. Nessas horas o querer e o conseguir se submetem ao poder. Não posso mais do que consigo ou quero, foi o que ele entendeu do que ela disse.

    Então era mesmo o fim. Daí em diante, quem sabe? A terra é redonda e as vezes os caminhos se cruzam acidentalmente. Ou não. Quem sabe o que virá?

    Não iria reprimir um sorriso quando a visse. Quem sabe de onde viria esse gesto? Qual impulso fará ele brotar? Qual emoção parada em uma curva da memória? Uma saudade, um momento feliz a dois? Aquela canção sussurrada?

    Mas será só um sorriso, que será difícil de reprimir, e nada além. Sem sonhar, sem imaginar, sem pensar, sem cogitar. Sem nada adiante. Nada mais de expectativas. Nada de “e se…dessa vez…”

    Não. Chega. Basta.

    Mas também sem querer mal. Isso não se faz porque ofende o amor em si. “Sem me vingar que a vingança não tem valor”, ensinam Pixinguinha e Paulo Cesar Pinheiro em “Ingênuo”. No depois, por mais que se faça uma faxina sentimental sempre permanecerá alguma lembrança da pessoa que se foi. Talvez doa, talvez chame um sorriso solitário, até uma lágrima. Quem sabe?

    Não há tempo certo de duração no durante. Para uns se foi no tempo certo, porque nada mais havia a ser dito ou trocado. Para outros caiu cedo demais, porque muito ainda havia a ser vivido a dois, compartilhado e sentido. Para ele quanto tempo terá durado? Não importa porque não há mais, agora é passado.

    Enfim. Se a vontade de um se vai, a determinação do outro fica sem sentido. Perde força. No fim, sempre restará algo. Entre palavras ditas, expressões feitas e memórias vivenciadas, sempre haverá lá no fundo um pouco de tristeza enrolada em lamento.

  • O Bito

    Juca abriu a janela e olhou a noite – o cheiro úmido da noite. Aspirou fundo e sorriu: tinha que ser hoje. Puxou a cadeira, montou a cavalo na janela, num instante estava do lado de fora. Foi tateando a escuridão, até acostumar a vista. Os pés descalços afundavam na terra vermelha – uns poucos passos e estava junto à cerca.

    Deitou-se no chão – cuidado o arame! – e rolou para o pasto das vacas.

    Agora muita atenção, uma chifrada ia estragar tudo.

    Enxergava melhor – a noite até que clara, a lua um balão amarelo, manchas de fumaça, espargindo um halo de claridade, e as estrelas brilhantes, infinitas.

    Devia de haver mil estrelas no céu – Juca não sabia imaginar um número tão grande: um mil, um milhão. Abre a boca pasmado – quantas!

    Nenhuma luzinha na terra – o pai apagara o lampião de querosene, a última lamparina. No céu, uma festa – as estrelas, lamparinas trêmulas de alegria.

    Reconheceu as Três Marias, o Cruzeiro do Sul – Por que esses nomes? Precisava de conhecer mais nomes das estrelas? E das coisas? Não; não fazia falta.

    No pasto escuro, acariciando os nós do coqueiro – nem um tiquinho de medo.

    Tinha as vacas, um perigo a Mimosa, mas estava acostumado. O pai ralhava – inútil, homem não tem medo. Oito anos, calcinha curta, pé no chão – um homem.

    Não distinguia a copa do coqueiro, mancha balouçando lá no alto. Bom de trepar – impossível, as perninhas desajeitadas.

    Um barulho – a respiração das vacas ali perto, bufando, ruminando com prazer a cana da tardezinha.

    Deu uma corrida até a paineira.

    Se o touro Marrão? Fica apartado das vacas, mas – quem sabe? A casca grossa da paineira, o melado do leite dela – uma árvore bonita, florida como um jardim. E os espinhos? Se o Marrão, não dava para se proteger num galho.

    Também, nunca precisou correr de um boi. Estufou o peito e foi andando devagar até um outro coqueiro.

    A aragem fresca da noite, o capim molhado – uma sensação agradável. Afundou o pé num monte de bosta. Não era ruim – afundou o outro também. Diz que estrume de vaca é bom para curar frieira. Juca não tinha frieira, mas era quentinho – ele gostava. Um cheiro verde, forte, saudável.

    Saiu arrastando os pés, esfregando no escuro da grama, sem pressa. Abraçou o coqueiro – mais uma paradinha.

    Escutava o silêncio. Muito longe, um longe muito negro, a água clara – mal se ouve – gorgoleja. Uma rãzinha – serenata, quem sabe? – e um grilo fazendo coro. Podia que a cantiga das estrelinhas.

    As vacas resfolegam. É tudo uma paz, as vozes da noite modulando o silêncio. Por que não uma coruja? As corujas vivem de noite – compenetradas, todo um ar de sabedoria. Nunca uma coruja à noite – Juca viu de dia, num mourão à distância. O bichinho tão sério, dormindo, ou fechado em si, ruminando as imagens do mundo – a aparência de velhice, tão antigo, jeito de quem conhece.

    Medo nenhum. Um saci, gostaria de ver um saci. Não viu nem as tranças que o moleque faz nas éguas. Diz que ele aparece, chamando. Põe a cabeça de um lado e outro do coqueiro, se escondendo, e assobia. Duas, três vezes – saci, nada. Chama: Saci, ciriri… ci, ci!

    Ah, o pito do negrinho soltando estrelinha, no escuro – umas coisas que careciam de ser verdade.

    A mula-sem-cabeça – sem cabeça e abanando as orelhas no vento. O lobisomem – devia de ser bem engraçado. Da varanda se avista o telhado da casa do Tio Luís – a prima Isabel perseguida por um lobisomem, em cima da porteira e o bichão mordendo o vestido. Dia seguinte o noivo Zezão tinha fiapos de pano nos dentes? Ninguém não desconfiou – os dois noivaram demais, pularam cerca, se emaranharam nos espinheiros? Juca aprende com a mãe a duvidar – que as histórias eram bonitas, eram.

    Ufa, que estou perdendo tempo – dá uma corridinha. O Bito me esperando – desabala pasto a fora. Sobe na tábua na porteira, alcança a taramela grandona – mas, e se o pai escuta? Essa porteira velha ringe nos gonzos. Melhor não. Se esgueira pelo viradouro – enfim, no piquete dos bezerros.

    Qual o Bito? Só chamar, ele vem. Baixinho, que o pai – lonjão, mas o pai inventa de escutar até pensamento. Bito! Bito!

    Um vulto se aproxima – é o Bito? Maior, mais magro. Os bezerros, a maioria mansinhos – Juca vai passando a mão, um por um: conhecer pelo tato.

    O Bito é preto – como, no escuro? A estrela branca na testa – mas, e o escuro? O Bito é preto dum preto vivo, um preto que brilha de tão preto – perceberia o brilho?

    Peludão – fácil, com o tato. E eu não ia conhecer o meu Bito? Enfia o pé num buraco de tatu – que susto! Medo de tatu? Franze a testa, empina a cabeça – tenho medo, não.

    Ui! Novo susto – uma lambida na cara: Oi, Bito. Abraça o bicho – Saudade, negão. Nova lambida – Juca, um beijo na orelha, em resposta. E um tapa nas ancas, de amigo.

    Preocupado, Bito – a ameaça de uma lágrima, ele que nunca chorou. As mãos na cabeça do Bito, cabeça contra cabeça se esfregando. Amigão, perder você – não quero, não. Cada ideia – ouvira a mãe, que tinham que mudar para a cidade, não podiam esperar mais. E tudo por culpa dele, o Juca – Está crescendo esse menino, assim no mato, vira bugre.

    O pai ria, não fazendo caso. Mas tinha mais alguma coisa no ar: o sítio não produzia como antes, outra colheita perdida – não iam agüentar.

    O Juca não entendia desses assuntos – e não morar mais ali, ideia tão remota, invencionice, onde se viu?

    Mas porém uma outra preocupação começa a bailar na sua cabecinha: estava crescendo, o

    Bito cresce mais rápido ainda – breve, breve, ia perder o Bito. Breve, breve o Bito ia ser um garrote, um boi, um tourão. Já se viu um touro se chamar Bito? Até o nome – Bito, era uma vez.

    E se matassem, carneassem o Bito? Isso não – ali um tourão, o maioral, capaz de dar conta de todas as vacas do mundo.

    Mas tudo acontece. E ninguém podia impedir o Bito de crescer – cresceu, babau! Adeus, Bito. Nunca mais o seu bezerrinho.

    Por isso que tinha vindo essa noite. Não carecia, as coisas não iam ser assim de uma hora pra outra – mas se viu tão agoniado, um aperto no peito, desinfeliz como a morte.

    Pulou a janela do quarto – esqueceu tudo. Se sentia livre, sozinho dentro da noite, e fazendo coisa proibida, que bom.

    A noite e seus mistérios – Juca nem conhecia a palavra mistério, mas era todo envolvido de seu fascínio, solto na noite. Um molequinho desenxabido, carinha de bobo – que importante, reinando com esse brinquedo encantado, diferente de tudo, a noite.

    E aproveitar! Bito, amigão, você me leva? Só uma voltinha!

    Se gruda no bezerro, joga a perna direita pra cima, uma, duas vezes – de bunda no chão, embaixo do Bito. Que anda, devagar – Espera, Bito, espera. Bicho inteligente! – para junto de um tronco seco. O Juca – upa! – pula na garupa do Bito. Deita pra frente, se ajeitando. Upa, cavalinho. Upa, upa!

    Bito a passos bambos até a porteira – não vão sair? Volta a contragosto, depois de uma carreira – para na beirada do pasto, se encosta no pé-de-goiaba.

    Quietinho, Bito. Quietinho! O Juca – no cai, não-cai – fica em pé, em cima do Bito. Segura no galho da goiabeira, procura, esse escuro – olha que uma taturana!

    O Bito dá uma corcoveadinha, um passo de lado e – ai, o Juca pendurado na goiabeira.

    Tenta firmar o pé no lombo do Bito, que nada – o jeito é descer pelo tronco. Ah, não queria goiaba mesmo!

    O Bito procura os companheiros, o Juca atrás – Aqui, Bito, aqui. Bé – a resposta do Bito.

    Um bé preguiçoso, de sono – espojando-se ao lado dos outros bezerros.

    O Juca ofegando – Faz isso comigo, Bito! Cansado, deita-se também.

    Você sempre será o meu bezerrinho. A lembrança – Não quero que você cresça nunca! Eu não quero crescer nunca! Nem nunca que eu quero ir embora daqui.

    Aconchega-se abraçando o pescoço do bezerro – hum, tão bom!

    Friozinho, o sereno da noite – abraça bem apertadinho o pescoço do Bito. Quentinho!

    As estrelas lá no céu, que mundão de estrelas! Dorme, dorme, Bito.

    Os vagalumes aqui na terra, um mundão de vagalumes. Abre e fecha os olhos, apalpa o capim – uma coceguinha úmida.

    Gozado – como se estivesse no quarto, a janela aberta, os vagalumes sobre a cama, pousando no travesseiro. Corria fechar a janela, acender a lamparina – você aperta a bundinha do vagalume, trec! ele dá um pulo pro ar. Cinco, dez vezes – cuidado não matar o pobrezinho. Guardar numa caixa de fósforos, amanhã você brinca mais.

    Às vezes era daqueles pequenininhos, molinhos, chamado de um nome dos mais feinhos: luz-cu.

    Pirilampo tem-tem! Seu pai tá aqui, sua mãe também! Pirilampo tem-tem! Não, não estava com vontade de brincar. Dorme, dorme, Bito. Só nós dois, sozinhos no mundo. Já pensou – não existisse mais ninguém, só nós dois?

    O Bito olhando com uns olhões deste tamanho – assopra pelas ventas, esfrega a fuça no chão, de cá pra lá, de lá pra cá.

    Os vagalumes, estrelinhas – o Juca nem notara os vagalumes, custou. Foi notar – lembrou de casa. Ah, deixa a casa lá: a mãe está dormindo, o pai está dormindo – Vamos dormir também, Bito! Quentinho, que bom nós dois, a gente juntinho.

    A escuridão, que preto o mundo! Monstros? Assombração? Algum bicho – onça? cobra? O Juca fecha os olhos, aperta bem o Bito, peludão. Não tenho medo, não – um homem.

    Encolhe as perninhas, se aninha bem encostadinho no Bito – Não quero nunca ser um homem grande.

    As estrelinhas, esse pirilampo – sentar na ponta do meu nariz? Juca enterra o nariz nos pelos do Bito – Você é tão mansinho! Você sempre que vai ser o meu bezerrinho! E espera – o sono, o sono que logo, logo vem chegando.

  • Meu amigo Tibúrcio

    Não passa um dia sem que note sua presença silenciosa, o olhar doce acompanhando meus movimentos e o sorriso acolhedor que me dirige quando, sempre aos domingos, me disponho a ficar quieto no meu quarto e conversar sem palavras com ele. Se ando pela rua, cruzo um viaduto ou paro um pouco para respirar com os olhos fechados o cheiro do pão fresco que vem da padaria, sinto de repente que ele se agita no fundo da minha idade. Que, jovem e cheio de vida e de saúde, golpeia com suas mãos pequenas e ternas minhas paredes interiores. Que grita, ri e trata de pular pra fora, a todo custo, desse corpo envelhecido e cansado de tanta dor.

    Meu amigo Tibúrcio nunca me negou companhia nem consolo. Sinto alegria por ouvir, até hoje, quando sofro tanto, sua voz sussurrando vai passar, vai passar.

    Não raras vezes ele me desperta no meio da noite com o desejo de que o tome pela mão e o leve para ver o mar. Só ver, sem entrar na água ou quebrar as ondas. Só ver e não esquecer do quanto somos pequenos. Também me irrita um pouco quando tenta parecer mais inteligente do que eu numa conversa adulta, pondo-me em situação ridícula. Para quieto, eu digo com minha voz interior, mas não há maneira de calar o tagarela. Eu o perdoo mesmo assim.

    Ele me pede, sempre que volto da rua, que traga flores para enfeitar a casa. Intromete-se em meus problemas cotidianos e sempre inventa uma solução mágica. Me convence, enfim, a sair sem agasalho num dia frio e voltar para casa com os lábios roxos e morrendo de rir.

    Em outros dias sou eu quem saio em busca dele, estranhando seu silêncio mais demorado que o habitual. Temo que tenha ido para sempre e deixado um oco escuro em minhas entranhas. Por sorte, sei onde encontrá-lo: toco de leve o meu peito e pergunto ainda está aí?, ao que ele responde como não vou estar se sou um pedaço de você? Então saímos os dois para passear, tomar sorvete ou ler um livro.

    Costumo dizer ao meu amigo que não tenho certeza de nada a não ser do medo de, algum dia, não estar aqui. Ele costuma responder que somos como a cebola, que tem várias capas, e que só se chega ao centro dela depois de derrubadas todas as camadas. Que o mesmo acontece com as pessoas, que vão, voltam, vão e voltam novamente, eliminando suas capas até que seu centro seja revelado e então, como o voo breve de uma borboleta, fecham os olhos e dormem.

    Concordamos que a memória ficará. Um dia eu não serei eu, ele não será ele. Outros ocuparão os lugares que hoje ocupamos e a lembrança de nós ficará grudada no batente das portas, nos azulejos, nos muros, nas canções e no ar. E assim, de acordo, eu e meu amigo Tibúrcio saímos para o sol.

  • Poema #02: Música-Clássico

    a música no rádio
    toca
    um clássico rock anos 80

    — ainda não sei de quem —
    mas sei
    que toda vez
    que essa música-clássico
    toca

    todas as estações do rádio
    sintonizam
    tua imagem-clipe
    dando cores
    a um passado
    que ficou em branco.

    *

  • Esquinas da alma

    A casa não é mais minha, mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no mesmo lugar, invisível a todos, menos a mim.

    Tudo começa no ponto exato onde o poste da luz, um pouco mais inclinado agora, desenha sua sombra alongada ao entardecer. Era ali que minha mãe esperava as tardes, com o cheiro de pão fresco ainda grudado no avental. Sua sombra se fundia com a do poste, e eu, voltando da escola, sabia que casa era onde aquelas duas sombras se encontravam.

    Hoje, um poste mais moderno substituiu o antigo, mas se fecho os olhos, vejo a mancha de ferrugem em forma de flor que marcava sua base: “Vivo na casa da esquina com o poste da flor de ferro”. Ninguém mais via a flor. Só eu.

    Do lado oposto, a mercearia do seu Manuel, não existe mais. Transformou-se em uma loja de celulares com luzes azuis que piscam sem calor. Mas na minha esquina particular, seu Manuel ainda arruma as latas de goiabada na vitrine, e o sino da porta ainda tilinta quando entro para comprar bala de café com um tostão suado na mão.

    Às vezes, paro o carro ali, no ponto proibido agora, e olho. Os tijolos da casa foram pintados de um cinza frio. Mas na minha memória, as parreiras de maracujá ainda se enroscam no muro baixo, e o desenho que fiz com carvão, um sol com olhos de botão, ainda sorri de um tijolo perto da porta.

    O menino que fui não se foi. Ele está congelado naquele espaço-tempo. Está subindo no muro para pegar a bola que caiu no quintal do vizinho. Está sentado na calçada ainda quente, contando as estrelas que surgem timidamente entre os fios dos postes. Está esperando, com o coração batendo no pescoço, a primeira namorada que vinha encontrar com ele “na esquina”, ainda escondida dos pais.

    O passado não vive dentro das paredes que habitamos. Ele fica retido nos espaços de transição, nos limiares. Lugares onde se fica entre o dentro e o fora, entre o partir e o ficar.

    A nova dona da casa deve achar estranho quando, às vezes, vê um homem de quarenta anos parado em frente ao portão, imóvel, olhando para o nada. Não vê que ele está olhando para tudo. Para o fantasma da bicicleta com rodinhas laterais que faz uma curva desengonçada. Para o eco das risadas escondidas noturnas. Minha vida atual acontece em outros lugares, com outros códigos postais. Mas meu passado, teimoso, não quis se mudar. Para lembrar que, antes de ser quem sou, fui aquele menino que acreditava que o mundo começava e terminava no ponto onde a rua fazia curva.

    A cidade muda, as casas mudam de donos, as ruas se modernizam. Mas as esquinas da alma permanecem intocadas.

  • Liberdade última

    Sempre morei numa casinha construída ao lado da casa da minha avó. Foi um presente do meu avô à minha mãe. Ele queria todos os filhos próximos. Deu um duro danado para que isso se concretizasse. A bem da verdade, fui criada por minha avó, porque minha mãe viajava muito a trabalho e, quando estava em casa, nunca tinha tempo para ficar comigo – hoje suspeito que não tinha aptidão para ser mãe, para cuidar de outra pessoa. Sendo uma casa geminada, eu entrava e saía a hora que quisesse para a casa de vovó Cidinha. Uma coisa interessante é que ela não deixava ser chamada de mãe, porque queria preservar uma relação que não existia, entre mim e a minha mãe. Em um dado momento, quando tinha dezessete anos, minha mãe se juntou com um paulista e resolveu morar de vez na capital. Para falar a verdade, não senti muito, porque tinha a minha avó como referência, como sinônimo de amor. Me virei como pude, fui atendente da McDonald’s, por dois anos; depois, quando passei para contabilidade, fui contratada por uma grande empresa de cosméticos, onde fiquei por cinco anos. Tive de entregar os pontos para cuidar de vovó. Ela, aos poucos, mostrava sinais de esquecimento. Não lembrava sequer se tinha tomado os remédios, se tinha ido ao banheiro, essas coisas básicas. Parei tudo para cuidar dela. Fomos a diversas consultas até que a diagnosticaram com Alzheimer precoce. Foi uma dor monstruosa, perdi meu chão, minha referência. Em meses, passei a cuidar de uma criança. Vovô, mais velho que vovó, não tinha condições de cuidar dela. Então assumi toda a responsabilidade. Certo dia, depois de anos, Guiomar, minha mãe, resolveu visitar minha avó. Praticamente foi expulsa de casa. Minha avó não a reconhecia e queria bater nela. “Bote essa bruxa para fora daqui!”. Parece que algo de ruim estava guardado no seu inconsciente. Guiomar chorou pouco e logo pegou suas trouxas para voltar à rodoviária. Meu avô, pasmado, não pôde fazer nada. Realmente não tinha o que fazer ali. Só éramos nós duas. Cidinha me obedecia e me acompanhava para onde quer que eu fosse. Com perguntas infantis – “Por que que o céu é azul?” –, me fazia rir, e implicava com as minhas roupas, curtas demais para ela. Essa manhã vovó perguntou pelos filhos Guiomar e Sebastião. Disse a ela que Guiomar trabalhava fora, por isso não tinha tempo de vir vê-la. Sebastião, ou simplesmente Tião, meu tio, de fato trabalha muito, viajando, é caminhoneiro. Quando retorna de suas andanças, procura a mãe e o pai, para lhes dar um abraço, para lhes demonstrar todo o carinho e respeito. Me deu um dó danado quando soube que minha mãe estava hospitalizada, por conta de uma pneumonia mal curada – ela fumava muito.

    Mas jamais deixaria a minha avó para cuidar de mãe. Rezo para que tenha uma boa recuperação, é o que posso fazer, sinceramente. Mãe Guiomar pecou ao me abandonar. Não a culpo por nada, já a perdoei. Mas numa situação dessa devo privilegiar quem me educou, amou e me acarinhou nos momentos mais difíceis. Meu sonho é voltar a trabalhar, ter a minha independência. Meu avô tem posses, dá uma mesada boa para mim, mas não posso depender disso, não quero. A independência é o meu lema. Espero vó melhorar um pouco para poder trabalhar. Essa é minha liberdade última. Quero me jogar no horizonte de possibilidades, mas só e quando vó melhorar.

  • Gerô

    E foi quase tropeçando em sua própria cabeça que Gerô desceu a Brigadeiro no fim da madrugada. Um ruído insistente ecoando dentro do ouvido, devia ser o tapão do Negrão, a mão aberta e áspera encaixada em todo o lado direito da sua cabeça, o ouvido no meio. Parecia que o cérebro ia voar pelo outro lado.

    Ele sentou na calçada por um instante ali perto da saída pra Radial e olhou de volta para o alto da avenida. Se ainda tivesse pernas ele voltaria lá, com alguma coisa nas mãos pra dar um fim na rapaziada. Mas calculou que o dia ia nascer dali há pouco, já havia até algum movimento de ônibus lá na direção do Largo São Francisco. Parecia conveniente e o sussurro em seu ouvido dizia outro nome, covardia. “O mundo não acaba hoje, amanhã talvez, pra mim e pra eles”, concluiu, apaziguando a consciência.

    Capengou até o beco paralelo à avenida. Silêncio completo nos casarões, sinais de fogueira, restos de lixo, alguns carros velhos enfileirados, um caminhão passou com uma buzinada longa saindo para a 23 de maio, parecia um aviso. Ele desceu para o porão. A porta do banheiro estava fechada, o que não fazia sentido já que metade dela estava arrebentada.

    Ele viu a bunda de Nádia encaixada no vaso sanitário, um cheiro ácido espalhava-se pelo quarto. O fio de fumaça de cigarro saía pelo vão, no alto da porta, ela gemia entre uma tragada e outra.

    Gerô sentou-se no colchão no chão e deixou o corpo cair, o rosto se alinhou com uma poça de água que vinha do canto da parede, o cheiro de bolor e roupas úmidas ia formando uma mistura que aguçava a revolta, havia alguma coisa errada naquilo tudo. Mas a vontade de dormir era maior, então esqueceu.

    Três descargas seguidas e Nádia saiu na porta. Estacada de pé, olhava Gerô querendo fechar os olhos. Estava nua. Puxou um último trago e jogou a bituca já no osso para o alto de um resto de escada, Gerô abriu e fechou pesadamente os olhos. Ela veio e se deitou ao seu lado, em silêncio.

    Chegou o barulho de uma porta de bar erguendo-se. Alguém com um sotaque do norte perguntou alguma coisa do outro lado das folhas de compensado que dividiam o porão. E repetiu em seguida, o mesmo sotaque e a mesma pergunta. Nádia avisou “Gerô dormiu”. Silêncio.

    Um caminhão passou pela rua estreita e chacoalhou a casa. Um pedaço do reboco do teto se soltou e caiu na poça, trazendo ondas até perto da boca de Gerô, que roncava pesado, a orelha do tapão em fogo. Nádia observou tudo por um instante.

    Logo o barulho de uma porta raspando o chão veio do canto da parede de madeira. O homem do sotaque balbuciou alguma coisa e a lâmpada amarelada às suas costas desenhava as dobras nos dois lados do pescoço. Nádia levantou-se. “Aproveita que ele tá dormindo, nem vai sentir”, disse ela, antes de enfiar-se num vestido florido e sair.

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