Crônicas

  • Bethoven nos salvará

    Nos enredos de futuro catastrófico um dos temas mais recorrentes é a invasão da Terra por alguma raça alienígena ultra avançada. Os aliens chegam enfurecidos e destroem a humanidade e o que chamamos de civilização. Nem sempre por completo porque sobram alguns homo sapiens que se organizam e por fim derrotam o invasor mega tecnologicamente avançado.

    Bom, eu penso eventualmente nessa ideia. Não a extinção da raça humana mas a ameaça vinda de algum ponto do espaço. No livro “3001: A última odisséia”, do Arthur C. Clarke, ele trata dessa ideia usando personagens que conhecemos desde “2001: uma odisséia no espaço”. A saber, os astronautas, HAL 9000 e o monolito.

    O motivo dos extraterrestres no livro do Clarke para nos exterminar é bem conhecido de todos nós: nossa selvageria e capacidade crescente de eliminarmos uns aos outros. Não vou contar de quem parte a iniciativa de nos varrer do universo nem como termina tudo. Vai lá e lê o livro.

    Mas me pego pensando o seguinte: e se um dia nos depararmos com essa situação? Ali, diante da encruzilhada entre a vida e a extinção, o que ou quem nos salvará? Para mim a resposta é simples: Bethoven.

    O gênio alemão nos tirará do patíbulo, livrando nossos pescoços selvagens do cutelo alienígena.

    Por que? Basta que a missão punitiva extraterrestre escute “Ode a alegria”. Ela é o quarto movimento da Nona Sinfonia e tem um coro que entoa os versos de outro alemão, Friederich Schiler. O poema apela à fraternidade e busca o melhor lado do ser humano.

    Dito assim eu não disse nada a respeito dela. Porque ela é indescritivelmente bela. Confesso, diante da meia dúzia de leitores que gentilmente passeiam seus olhos por minhas crônicas, que eu choro quando escuto “Ode a alegria”.

    E minhas lágrimas se reuniriam as dos aliens que enxugando os olhos – ou algo de mesma função – diriam entre eles: são selvagens mas se fizeram música assim merecem uma segunda chance.

    Não a desperdicemos.

  • Atriz dentro da parede

    Era setembro. Estava ela diante do espelho a mirar-se. Já estava bem habituada a ouvir elogios mencionando a sua beleza, mas não era certo em suas formulações o que isso significava exatamente. De pé, frente ao espelho. Olhos grandes e bem abertos a olhar no vidro vivo e desafiador um rosto dotado de beleza semi-exótica – porém inquestionável – quase que como procurando pelo alheio. Estava séria e não caberiam sorrisos naquele momento. Na verdade, ninguém em seu estado normal ri diante do espelho. E ela era quase-normal. Quase.

    Ela dançava, lecionava, contava histórias e atuava. Mas sentia-se mais como atriz do que como qualquer outra coisa – ah, a legião de artistas que se alimentam dos seus míseros salários de funcionários públicos que parecem ter saído do poema “Não há vagas” de Ferreira Gular. E como atriz era uma excelente filósofa. Dessas que buscam o tempo todo o “algo além” perdido nas entrelinhas da vida. Seu corpo grande e intranqüilo buscava na dança acalmar-se. Sua voz macia buscava expressar-se – a si e a voz em si – para dar sua contribuição ao mundo em forma de som verdadeiro. Ela pretendia que tudo o que viesse a dizer fosse verdadeiro, mesmo que as palavras não fossem suas ou não pertencessem ao grupo das verdades absolutas. Ela autorizava palavras de outros, mas era criteriosa para essa autorização. As histórias que contava eram histórias para um mundo melhor. E atuar.

    Atuar completava sua paleta de busca por auto-conhecimento. Sua última peça, contudo, não havia tomado a direção do verdadeiro prático, ficando sua atuação presa no nível de intenção. E como quando sentimos que a nossa verdade não atingiu muitos metros além do nosso corpo – não porque não tenhamos sido verdadeiros, mas pelo fato triste de que interlocuções podem ser mais cabos de guerra ou muros, mais isso do que estradas retas.

    Dar um tempo com teatro seria necessário. Chegando em casa depois da última apresentação, olhou desconfiada para o velho companheiro de vidro reflexivo e tomou a decisão: “Preciso mudar um pouco”.

    Novo corte de cabelo. Nova cor. Feito. Olhos nos olhos no espelho mais uma vez – e isso era sempre meio constrangedor, pois não se confia em espelho. Os olhos do espelho pareciam-lhe mortos, como olhos de tubarão. Quase pediu conselho ao espelho, até lembrar que não se pode confiar neles – em nenhum deles. Abaixou a cabeça e virou-se, andando noutra direção, para poder assim melhor pensar. Pensou em viajar. Sair da cidade por uns dois dias. Talvez três. Talvez um primeiro passo para uma temporada bem maior que o imaginável. Fazer mala. Embrulhar-se para viagem. Mala feita. Ser físico devidamente embrulhado. Mulher devidamente embrulhada e estômago também. A essa altura já hesitava em dar uma última olhada no companheiro de vidro vivo. Medo dele. Saiu sem se conferir a beleza. Pés no corredor do prédio, trancou a porta. Elevador ou escada? Escada.

    Desceu. A descida foi longa, mais do que seria uma subida. Pensou dezenas de pensamentos por degrau, como uma metralhadora giratória cega. Chegando lá fora – no ante-começo de lá fora – perturbou-se com a monstruosa luz cinza da tempestade que se anunciava com suas músicas de vento. Parou. Pensou: “Esqueci algo. Não posso sair assim”. Voltava. Subiu com a mente menos cheia e menos giratória. Desta vez de elevador.

    Fechadura. Tapete. Portal a ser atravessado rumo ao espelho. Espelho triste pela ausência de sua dona. É isso. Ela era, sem que percebesse ou lembrasse, dona do espelho. Passou um batom vermelho. “Espelho. Meu espelho” – o chamou finalmente de seu. O vermelho do batom lhe trouxe uma súbita alegria. Quase sorria para o rosto que ficava mergulhado na parede, como mágica.

    Antropologicamente, entendeu porque os índios do século XVI foram vencidos pelos espelhos. Espelhos de mão nos aprisionam dentro do nada.

    Espelhos de parede aprisionam nossos dobros dentro da parede. Só bebês e animais sabem que quem vemos dentro da parede através do espelho não somos nós. Terminou então de passar seu batom vermelho e fez seu movimento louco: sorriu finalmente para o espelho, com os olhos felizes direcionados aos da outra na parede – a mulher bonita que mora dentro da parede.

    Alívio. Enxergou a beleza da mulher-gênio dentro da parede, e das belezas dentro de si como mulher pensante de carne, osso e desejo. Fome. Geladeira. Televisão. “Amanhã viajo”, pensou, desta vez alegre e em paz. Na última caverna da alma o doce som dos aplausos. O que houvera antes esquecido era a mulher que morava dentro da parede. Era setembro.

  • Fixação

    Daniele sabe me intimidar. É uma mulher sem par. Ela tem um quê de melindrosa, sarcástica, que eu adoro. O timbre de sua voz flutua até os meus ouvidos, é algo divino como uma canção de Debussy, e eu me sinto inebriado e confuso. Toda vez que a vejo é um desconcerto total, fico abestalhado, sem reação. Talvez seja porque ela não dá a menor bola pra mim. Não sou estragado, me considero mediano, “bem parecido”. Tenho me esforçado bastante para ter uma vida, até certo ponto, segura. (Ouvi de meu pai que mulher gosta de segurança e fiquei com essa frase cravada na cabeça). Ela já está estabilizada, “com a vida ganha”; é servidora pública federal, passou nova, ou seja, cedo sabia o que queria e correu atrás. A sua garra me dá ânimo para continuar na trilha do sucesso. Filha de dona Fátima, grande amiga de mamãe, frequentou muito a minha casa quando menina. Tivemos um namorico, coisa de adolescente, mas ela me dispensou, ou me trocou por um famosinho do bairro. Foi uma dor torturante. Chorava ouvindo as nossas músicas prediletas da banda The Cranberries. Era o auge do CD que tinha a música Animal Instinct. Ainda hoje me emociono ao escutá-la… Em sua defesa, digo que mudou muito de gosto: é refinada e exuberante em seus trajes minimalistas, e namorou homens maduros e educados. Conheci à distância um a um. Não a mereciam, fato! Eram miúdos para a sua bendita inteligência. Inclusive sei que Daniele Belfort é sapiossexual. Não há chance para quem não tenha o mínimo de intelectualidade. É por isso que me aperfeiçoo. Há dois anos está solteira, por vontade própria, porque, como disse, é extremamente bem resolvida, linda e inteligente. Interessante é que teve um rápido caso com Anna, sua colega de trabalho, mas viu que não era a sua praia. Ainda chegaram a se juntar, por dois meses, o que me atormentou profundamente, porque, assim, as minhas chances eram pouquíssimas. Acho, agora, que o que me desfavorece são a idade e as conquistas tardias. Em termos de estudo, ando bem, concluindo o doutorado em Psicologia e termino, neste semestre, meu curso de Psicanálise. Vou convidá-la para a minha formatura, se é que me dará ouvidos – certo, você já percebeu que sou inseguro, e isso me atrapalha muito. Ainda sonho com o dia em que ela irá olhar para mim de um jeito diferente. Vivo por isso. Sonho com isso a todo instante. Daniele é minha obsessão. Sei de todos os seus passos. Acompanho de longe. Não pretende ter filhos (eu também não). E, como disse, é bem resolvida financeiramente. Tem um apartamento lindo, em que nunca entrei montado; conheci, com o corretor de imóveis, antes de ela morar. Essa próxima semana será triste, porque ela viajará para Buenos Aires com as amigas. Estará longe de mim, mas nunca dos meus pensamentos.

  • Quase Real

    A internet é a cama desarrumada do mundo. Ou melhor: o quarto desarrumado do mundo. Dá na mesma, mas eu precisava começar minha crônica de hoje com alguma bobagem. Sinceramente, abrir um site hoje é como entrar na casa de um adolescente: panela suja, meia em cima do roteador e um cheiro indefinido de pizza com desespero. Cada link é uma gaveta aberta; cada anúncio, uma roupa esquecida da ex. E o pior: a gente fica à vontade nesse caos, como se fosse nosso.

    Recentemente, precisei do endereço de um médico antigo, que já tinha saído da clínica onde me consultava, mas, quando percebi, estava navegando por outros mundos: quatro lançamentos de livros que não pretendo ver — porque, se eu for comprar tudo que lançam, e meu Deus, como lançam, num país em que quase ninguém lê, meu orçamento não aguenta. Fora isso, a quantidade de coaches disso ou daquilo é insuportável. Cada página é uma palestra ambulante. Eu só queria um endereço e ganhei uma maratona de autoajuda e promoções que nem pedi.

    Navegar na internet é, muitas vezes, como ir ao supermercado e, no meio das compras, esquecer o item mais importante. É como sair com o guarda-chuva, passar no banco, engatar uma conversa com um estranho e, quando percebe, o guarda-chuva ficou lá, abandonado. Aí você sai molhado. Só que, na internet, o guarda-chuva perdido é a informação que você realmente queria, e a chuva é uma enxurrada de links inúteis, anúncios e distrações.

    Outro dia, abri meu direct do Instagram para ver uma mensagem de um amigo, alguém de quem estava com muita saudade, e me surge uma sugestão de “quem você talvez conheça”: uma ex-namorada. Eu ali, lembrando daquele pé na bunda horrível, dos pitis, dos bate-bocas, relembrando cada detalhe como se fosse replay de novela ruim. Fiquei um tempo atolado na memória até que, gato escaldado, removi a notificação. E pronto: paz de espírito instantânea — pelo menos até o próximo algoritmo me sacanear de novo.

    E quando, no meio de uma crônica, o teclado decide que sabe mais de gramática do que eu e escreve a palavra que eu mais queria errada? Eu reescrevo, ele muda de novo. Tento outra vez; ele insiste. Parece até que o teclado tem personalidade própria — e um prazer especial em me irritar.

    E quando eu vejo, já é de manhã; quando vejo, já é hora de almoçar; quando vejo, anoiteceu. Passou uma semana, duas, um mês, um ano. E eu ali, navegando, como se estivesse dentro de um looping infinito de distrações, com o mundo girando lá fora e eu preso na bagunça do meu próprio quarto virtual.

    Eu me lembro de que, antes da internet, o mundo era pequeno. Tão pequeno que cabia em dois amigos — três, se muito — que ligavam no fim de semana, chamando para um chope. Na falta de um celular na mão, sobrava tempo para bater papo com a moça do bandejão, o passageiro do banco ao lado no ônibus, o sujeito da fila do banco. A gente socializava mais. Afinal, conversas reais alimentavam mais que Wi-Fi.

    Sei que o que eu mais queria mesmo era que alguém desinventasse a internet, que as pessoas voltassem a ter mais conexões entre si do que esse monte de notificações que não servem para nada. Mas não vai dar. O jeito é cada um de nós — eu e você — decidir o papel que a vida real vai ocupar na nossa vida. E, principalmente, aprender a hora certa de silenciar as notificações.

  • No limbo

    Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro.

    Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes.  

    Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida.

    O LP era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação.

    A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que deixava claro que alguém ganhou o disco de presente e passou adiante sem remorsos.

    A dedicatória tomava quase a metade da contracapa, e Zími havia comprado por dois reais, por conta de depreciação.

    Zími havia esquecido a sacola na Kombi de Silvano no dia anterior, e a encontrou naquele momento, num compartimento oculto que há no banco traseiro.

    Zími falou: “Não é um disco raro, mas essa edição vem com um texto na contracapa.”

    Mila Cox: “Nossa! Dedicatória de 1985! Amei! Valeu!”

    Eram onze horas da noite do sábado, fazia frio e o camarim e ponto comercial dos Crop Circles era a kombi do camarada Silvano, uruguaio que morava no mesmo prédio que Mila Cox e Zími.  

    Mila Cox e Zími eram os Crop Circles.  Um duo, com baixo, sintetizador e bateria.

    Silvano definia o som deles como uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex.

    Ele era músico também e atuava como uma monobanda.  

    Tocava sentado, usando violão microfonado ou guitarra, e fazia a bateria com os pés, uma gambiarra com caixa, bumbo, chimbal e muita silver tape.

    Zími também usava um kit minimalista de bateria e tocava de pé. Era apenas caixa, prato e chimbal.

    Silvano falava português sem sotaque porque vivia em São Paulo desde os quatro anos de idade.

    Para pagarem suas contas, Mila Cox era copywriter, assim como Zími.  

    Silvano fazia carretos e entregas com sua kombi.

    Ambas as atrações se apresentaram numa festa junina nessa noite de sábado.  

    Silvano tocou antes. Os Crop Circles haviam encerrado seu show às dez horas. Ambos os shows agradaram o público.

    Esses shows aconteceram na casa de Miro, um agitador cultural do bairro da Casa Verde, que já teve uma banda de Hard Core chamada ‘Colaterais’, e queria fazer uma festa junina com rock alternativo.  

    Era uma casa grande, a última de uma rua curta e sem saída. Os demais moradores da rua endossaram a ideia e tudo correu dentro do previsto.

    Conheceram-se num show dos Crop Circles ocorrido meses antes, em Santo André.

    Tinham outro show marcado para o fim da tarde do domingo, em São Caetano.

    Era como se estivessem no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo de um jogo de futebol.  

    Mila Cox tinha vinte anos e sabia que a vitória só se consolidaria ao término do show do dia seguinte, caso tudo fosse mantido sob controle.

    Zími e Silvano tinham quase cinquenta.  

    Os dois sabiam que muitos artistas com a idade deles, nos dias de hoje, começam a se preocupar com excessos, especialmente naquele momento em que uma agenda estivesse apenas parcialmente cumprida.

    Quando bebiam, sempre repetiam um ao outro, em meio a gargalhadas, que só não eram completamente inúteis para o sistema, porque ainda faziam mercado e pagavam por gasolina.  

    Com medo de que os dois ficassem muito loucos e dessem milho no show de domingo, Mila Cox buzinava na kombi parada a cada vez que um deles cochilava de bêbado, enquanto ficavam vendendo camisetas dos Crop Circles por mais um tempo depois do show.

    Quando ela buzinava, o som era tão estrondoso dentro e próximo ao veículo, que os dois pulavam de susto e ela ria.  

    Zími e Silvano estavam felizes porque estavam com gasolina paga e alguma bonança financeira com o show de sábado. Tomavam Domecq, cada um com sua garrafa, bebendo no gargalo.  

    Era o dia de aniversário de Gene Vicent, e naquele dia Silvano tocou clássicos desse mestre e de alguns de seus contemporâneos, em versões mais aceleradas, para complementar seu repertório de músicas próprias.  

    Silvano falou para Mila Cox: “Você deveria ter paciência conosco, e entender que sair pra tocar num sábado sem ter prejuízo financeiro como muitos artistas que pagam pra tocar, e ainda lucrar com camisetas e discos, e além de tudo ter um show no dia seguinte, num ambiente completamente diferente, com o tanque da kombi cheio! Amanhã não tem cachê. Terá o pagamento do valor de um tanque de kombi cheio de gasolina, mesma coisa que foi hoje. Amanhã quando voltar pra São Paulo e estacionar na garagem do prédio, teremos lucrado com essa logística bem elementar. Eu e o Zími somos coroas, mas você sabe que mesmo que um de nós morrer hoje, vai levantar e fazer o show assim mesmo, zumbi. Então fique sossegada. A gente já vai voltar pra casa, quando miar o movimento aqui.”

    Zími falou: “Eu adoro a ideia de ter show amanhã. Eu descanso na segunda. Estou vivendo um momento sublime. Na segunda dormirei, enquanto algum escravo assalariado contemplará o próprio retrato na parede de alguma firma por ter sido eleito o funcionário do mês, enquanto seus verdadeiros superiores hierárquicos estarão em orgias, em plena manhã de segunda. E em seguida um gerente patético o chamará de mocorongo e o fará voltar ao trabalho. E nós poderemos lamentar essa condição social mórbida criando mais uma música.”

    Mila Cox: “Eu tenho paciência suficiente. Sei que a Carole King não gravou o ‘Tapestry’ do nada. Foi preciso passar por muita coisa antes de entrar definitivamente pra história. Está tudo bem, agora nós temos uma kombi. Antes de mudarmos pro apartamento e conhecermos o Silvano, foram dois anos com um Chevette 79, e naquele tempo o Zími tinha pavor de fazer shows em dias seguidos. Vocês já estão cozidos por essa bebida e nem sentem o frio que está fazendo. Mas eu não reclamo. Fazer merda virar adubo tem que ser um lema quando ainda se está construindo uma reputação.”

    Zími: “Alcançamos alguma prosperidade sem sucumbir a ideias megalomaníacas de estrelato. Seguirei com essa postura em tudo que eu fizer. Lembre-se sempre que se nós tivéssemos nos transformado naquilo que nossos pais sonharam pra gente, teríamos um destino tão diferente que nem é bom tentar imaginar. Então estar aqui é uma glória. Expectativas exageradas sobre o futuro diminuem a importância do nosso presente vitorioso. Além do mais, São Caetano é perto.”

    Mila Cox: “Você pelo menos fez faculdade. Pelo menos um de nós. Eu ainda sofro com esse tipo de pressão. A vida acadêmica me tomaria um tempo precioso.”

    Zími: “Fiz a faculdade de jornalismo apenas pra me livrar dessa pressão. Não reclamo daquele tempo. Hoje eu vejo no que meus colegas se transformaram e agradeço ainda mais pela minha sorte. Com diploma, ainda que inútil pra minha vida prática, sem filhos, com uma banda, e tentando prolongar a juventude sem fazer um papel ridículo.”

    Ao redor da kombi, estacionada na frente da casa de Miro, adultos conversavam e bebiam, crianças brincavam, cachorros passavam farejando alimentos que caíam no chão, e uma trilha sonora mais tradicional em festas juninas era o que se ouvia naquele momento.

    Pessoas que sabiam que a segunda feira chegaria rápida e impiedosamente, dançavam bêbadas sabendo com o sossego de estarem próximas de suas casas.  

    Eram cerca de duzentas pessoas.

    Silvano pensava secretamente se realmente valeria a pena voltarem para casa, ou se seria vantajoso dormir na kombi com os equipamentos, e na tarde seguinte seguir para São Caetano e fazer o show.

    Dessa vez, mais duas bandas tocariam: Silvícolas e Secreção.

    Zími falou: “Amanhã será outro dia de glória. Vamos tocar antes das duas bandas. É um jogo ganho. Há um sabor especial em fazer a nossa parte e ter mais dois shows pra assistir. Gosto de tocar domingo. A atmosfera não é carregada daquela urgência em se divertir a qualquer custo. Os Silvícolas são ‘posers’, certamente vai ser engraçado de assistir. Ouvi umas músicas na internet e não consegui entender se eles fazem sátira com o ‘hair metal’ ou se realmente se levam a sério. Espero que seja sátira. O Secreção tem umas músicas boas, mas vamos ver se ao vivo chamam a atenção. Mas gosto da forma como eles desprezam o sistema e todo tipo de estrelismo no comportamento de quem se torna afetado por ter uma banda e consegue agendar um show. Musicalmente são de uma linhagem derivada do Minor Threat.

    Eu não sei se a pessoa que chamou essas bandas tão diferentes fez de propósito ou se faltou critério. O antagonismo entre eles é brutal. Mas é bom misturar. Não é possível que vá rolar alguma treta. Mas se rolar, o Silvano vai filmar pra colocarmos num documentário futuro.”

    Silvano: “Ainda existe treta desse tipo? São moleques criados pela avó, não vai ter nada disso. Além do mais, será outra festa junina!”

    Mila Cox: “Existe gente cretina o suficiente pra tudo que se imaginar, mas eu conversei com eles pela internet, vai ser sossegado. O público que eles vão levar será as namoradas e meia dúzia de amigos também criados pela avó.”

    Zími: “Sim, são moleques da sua idade. Vão ficar com vergonha de fazer qualquer merda juvenil depois que o Silvano e nós tocarmos. Provavelmente eles têm grandes expectativas sobre o futuro, e como quase ninguém os conhece, não vão querer queimar o filme.”

    Por volta da meia noite, as pessoas começaram a se despedir e ir embora.

    Mila Cox falou: “Vamos embora, temos que atravessar o rio Tietê pra chegar no centro. É um rolê. Antes que fiquem ainda mais bêbados.”

    Ao ver abortada sua ideia secreta de estacionar perto de alguma loja de conveniência e dormir na kombi, Silvano se ajeitou ao volante resmungando sutilmente.

    Foram embora dormir em casa.

  • um outro sentido humano, não apenas sentimento

    O vazio é um lugar insuportável: fede à ausência.

    O vazio, cujo endereço é nômade (na pressa), é também essência humana — carrega-se como um caramujo.

    O vazio como morada, cuja forma é o fazer nada.

    O desespero da entrega que não afeta a vida do consumidor final.

    Tanto se fazer por nada.

    O suor total por um gesto que o mundo faz corriqueiramente: levar à boca e engolir, sem mastigar.

    O vazio é o que se encontra quando já se leu demais.

    Já fez demais.

    Já deu demais.

    E mesmo, ainda, depois de tanto, insiste.

    O vazio é o resultado de sustentar uma imagem de força, quando se pede, aos 

    mais próximos, por favor, um pouco de ajuda.

    É o troféu dos fortes: ninguém leva a sério a fraca franqueza de quem é visto como forte, porque o vazio é um canto de sereia rouca — estabilidade em vertigem.

    O vazio é ensurdecedor.

    O vazio é pesado, é surdo, é cheio, é muito, é tanto.

    É estática.

    E dói — dói ancestral. Dói além. Dói de dói pungentemente, palavra retrógrada, não é mesmo?

    Qual o problema em usá-la, se um dia fez sentido? Bonita, intensa, fora de moda. 

    À palavra cabe o espaço em que repousam as outrora vitórias, agora normal[t]izadas como excesso — o mesmo espaço dos erros ortográficos: lápides em um cemitério de condecorações.

    O vazio é um conjunto de excessos que ninguém quer mais.

    O vazio é o lixo — todo o lixo — o fundo fétido do lixo.

    O vazio é o que se encontra quando, após mil diferentes formas de se fazer estar presente — com amigos, familiares, relacionamentos profissionais —, se olha no espelho e se enxerga apenas as olheiras, a palidez, o opaco dos olhos, o silêncio.

    O vazio sangra.

    É onde estou agora.

    Os dias amanhecem lindos, indecentes de tão lindos.

    Permanecem lindos. Intocáveis, para mim.

    Música alguma é capaz de alterar a dinâmica.

    Todo e qualquer outro esforço, aqui, é dor e mais falta.

    O alcance do vazio é uma frequência do 

    tudo.

    Sintonizá-la não é tarefa simplória.

    No vazio não há oxigênio.

    Atmosfera rarefeita, há luz demais quando se quer dormir.

    A cabeça jamais pausa: desgasta o pouco de vida que resta tentando se calar.

    Vida como incontinência urinária: constante e desagradável, dominadora e… desfeita.

  • Pergunte ao Jacobina

    O reflexo da imagem sempre despertou curiosidade e encantou o ser humano. Ele é a metáfora perfeita para dizer a forma como nos vemos, qual a nossa autoimagem.

    Estima-se que ele tenha surgido, ainda que de forma rudimentar, há cerca de cinco mil anos, na antiga Suméria. De lá para cá, vem assombrando principalmente as mulheres, inconformadas com seu reflexo no Espelho de Cleópatra, símbolo da beleza e dos cuidados femininos, desde a antiguidade.

    Em O Espelho, um dos mais brilhantes contos de Machado de Assis, Jacobina lança uma tese de que as pessoas não teriam apenas uma alma, e sim duas: “Uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”.

    Sem entrar em uma discussão filosófica sobre a tese do autor,  talvez seja esse o motivo pelo qual a relação das pessoas com o espelho seja de amor e ódio.

    Vivemos cercados por esse olhar invertido. Não bastasse os exemplares que temos em casa, os espelhos proliferam também nos ambientes externos, expondo nossa imagem sem autorização, com a maior desfaçatez. Lojas, shopping centers, restaurantes, elevadores, a cada passo nos deparamos com um exemplar, normalmente gigantesco, a nos desnudar.

    Amamos quando eles nos favorecem, odiamos quando o que reproduzem está muito longe de nossa autoimagem. E, aí, não  podemos deixar de concordar com Jacobina que estamos frente ao embate entre duas almas: a de quem somos realmente, e a da aparência que pretendemos passar ao mundo.

    Raramente estamos satisfeitos com a versão que o espelho retrata. Por isso mesmo, os designers e arquitetos têm toda uma estratégia para tentar acariciar nossa autoestima. Tudo é estudado no momento de escolher um exemplar para colocar na parede, no teto, ou atrás daquela porta do armário que nos diz se devemos ou não sair com o visual escolhido. Uma inclinação de poucos milímetros pode ser suficiente para dar um comprimento extra para as pernas; vidros com corte côncavo afinam a imagem, luzes pelo lado de trás realçam o  brilho da pele. 

    Os subterfúgios são inúmeros, mas a realidade é que nunca estamos totalmente em paz com aquele que escancara o que nos esforçamos por disfarçar. Em casos extremos, a vontade é de, simplemente, quebrar o espelho para eliminar totalmente o algoz.

    Mas… todo o cuidado é pouco! A superstição popular, oriunda de uma crença dos gregos antigos, adverte que quebrar um espelho é destruir uma parte da própria alma, o que pode indicar mau agouro, ou mesmo a morte. Morte de qual de nossas duas almas? Só perguntando ao Jacobina.

  • Todo mundo conhece uma Odete

    Na última aula de Pilates, o assunto que movimentou os ânimos foi: quem matou Odete Roitman?

    Quando Beth trouxe a questão à baila, imediatamente, Tatiana revirou os olhos, fechou o sorriso e lançou:

    — Acho essa novela um lixo. Nem de longe se parece com a original. Não assisto. Me recuso.

    O clima pesou mais do que os halteres. Deu para perceber o mal-estar de Beth ao se dar conta de que puxou uma conversa que não despertou interesse, ou pior, causou nítido desagrado.

    Sabe aquele gosto amargoso da rejeição? Pela carinha dela, ela sentiu.

    Nilce, mais simpática e mais compreensiva com os pecados do cotidiano, amenizou o clima:

    — Também prefiro a novela original, mas tô gostando de Vale Tudo. Pra mim, quem matou foi a Celina. Ela sempre invejou a Odete.

    Beth, aliviada por encontrar eco para o seu interesse, mas ainda receosa de tomar outro golpe, disse quase sussurrando:

    — Eu desconfio da Maria de Fátima. Aquela é má de verdade.

    Tatiana, decidida a inundar o ambiente com seu mau humor ou apenas se aproveitando do disfarce da sinceridade para trucidar a colega do Pilates, soltou:

    — Essa novela é tão ruim que eu acho que a Odete se suicidou. — Um risinho debochado acompanhou a afirmativa.

    Eu, que até ali estava calada, resolvi me meter. Aquela gosma de superioridade já estava me incomodando. Mandei na lata:

    — Com um marido maravilhoso daquele, acho difícil ser suicídio.

    — Nunca achei o Cauã bonito.

    — Ah, Tatiana, aí já é um problema de mau gosto seu.

    A gargalhada da amiguinha oprimida rasgou a atmosfera da sala.

    Continuei:

    — Concordo com você, Tatiana, que a novela é fraca mesmo, mas adoro. Não perco um capítulo. A vida é assim, tem coisas que não prestam, mas a gente gosta.

    — O corpo dele é bonito, mas a cara é feia — confessou Tatiana, de forma menos árida.

    — Então, deixa ele para mim.

    Rimos todas juntas.

    Moral da história:

    1. A amargura tem poder de contágio, mas o humor é um antídoto potente.

    2. Algumas pessoas saem de casa dispostas a nublar o tempo de quem encontrar. Sejamos solares!

    3. Gente que gosta de se gabar do que é, ou tem, ou se acha dona da verdade, é desagradável, desinteressante e solitária. Se tiver que conviver, emane energia positiva, humor e criatividade. O bem precisa vencer.

    4. Convivência é lugar de troca, não de exibição. Podemos discordar, não se identificar, se opor, mas com responsabilidade emocional e respeito. Para palavras-espinhos, revide com palavras-pétalas.

    Só há treva se não houver luz.

  • Terapias

    Ele andava triste, sem ânimo, às vezes com vontade de morrer. Os amigos notaram o seu estado e o aconselharam a procurar um médico. Recusou com veemência, pois não acreditava em medicina para a alma. 

    Mas uma noite teve um sonho esquisito. Sonhou que era um macaco pequeno, o único macaco entre seus irmãos. A mãe o olhava com indisfarçável repugnância e hesitava entre alimentá-lo ou deixá-lo morrer de fome. Ele então chorava, gritando e agitando uma campainha. Isso provocava a raiva do pai, que abraçava a mulher e o ameaçava com um facão. Enciumado, ele procurava um canivete para matar o pai mas era impedido pelos irmãos, que resolviam levá-lo para um zoológico. Lá o enfiaram numa cela, onde ficou se debatendo até que um funcionário chegou junto dele e perguntou: “O que é que está havendo? Fale! Fale!”. Não conseguia dizer nada.  

    Ficou tão intrigado com o sonho, que decidiu vencer o preconceito e consultar um psicólogo. Mas quem? E, sobretudo, de que linha? Resolveu divulgar o sonho na internet e aguardar sugestões. Eis alguns e-mails que recebeu:

    1) Seu sonho reflete um complexo de Édipo mal resolvido. Você e o seu pai disputam o amor da sua mãe, daí o ódio que sente por ele e o desejo de matá-lo. A oposição entre o facão e o canivete é uma representação metafórica da inveja do pênis associada ao temor da castração. Sua terapia deve ser psicanalítica, e de base freudiana.

    2) Impressionou-me, no seu sonho, a repugnância da mãe ao constatar o aspecto simiesco do filho. A dúvida entre alimentá-lo ou não é uma clara metonímia do conflito entre o seio bom e o seio mau. Você ainda hoje não sabe se ela o ama ou o odeia, e precisa resolver esse conflito. Do contrário, a sensação de desmamado o acompanhará pelo resto da vida. Sugiro-lhe uma psicoterapia kleiniana.

    3) Seu sonho é carregado de significantes — a referência ao som da campainha, por exemplo. Uma das onomatopeias para esse objeto é “ding”, que remete à Coisa (Das Ding), ou seja, ao Objeto Perdido. Sintomaticamente, você não fala. Se não fala, não tem o falo, o que não é nenhuma falácia (talvez uma faloácia). A ausência da fala/falo o deixa fulo e mostra que você se encontra numa posição infantil diante do Nome do Pai. É preciso trabalhar isso. Procure já um terapeuta lacaniano.

    4) O sonho é claríssimo, ora. O macaco representa a porção animal que você se recusa a inibir diante do pai opressor. É preciso dar vazão a essa torrente de instinto por meio de uma terapia regressiva, que o reconduza à liberdade da horda primeva. É preciso soltar o grito primal.

    5) Esqueça qualquer tipo de simbolismo para esse sonho. O motivo do seu sofrimento são pensamentos errados. Posso acompanhá-lo a um zoológico, em cinco sessões, para mostrar que você não é macaco coisa nenhuma. Compararemos seu comportamento com o dos símios, e você se convencerá de que gosta de mais coisas além de banana e não consegue andar com tanta destreza sobre o tronco das árvores. Recomendo-lhe (e me apresento) um terapeuta cognitivo-comportamental.

  • Um dia na vida

    Era quinta-feira e Mila Cox marcou dois shows para os Crop Circles no fim de semana.  

    Duas festas juninas, uma delas raiz, na periferia de São Paulo, e a outra era mais gourmetizada.  

    Sexta na Casa Verde e sábado em São Caetano.  

    Na sexta seria sossegado, show deles com abertura do uruguaio Silvano.  

    No sábado foram quatro shows.

    Dessa vez deram sorte, porque a organização do evento os colocou para fazer o segundo show, logo depois que Silvano tocasse.

    Depois deles, mais duas bandas tocaram, os Silvícolas e o Secreção.  

    Nenhum dos dois tinha ouvido falar dessas bandas, mas prontamente pesquisaram ao verem o flayer do evento.  

    Zími falou: “O Secreção é banda punk com caras jovens e os Silvícolas são Glam, tem vocalista de penhasco e são espalhafatosos. Na pesquisa constatei relatos sugerindo que eles usam as cuecas uns dos outros sem problemas. Não vai haver nada de novo ali. Acho incrível que algumas bandas gostem de tocar por último. Espero que seja sempre assim, até mesmo se a nossa popularidade crescer com o tempo. Assistir ao último show com a sensação de missão cumprida e com um grande drink na mão é um momento glorioso. Não importa nem mesmo qual seja o último show.”

    Para eles, haveria mais necessidade de conhecer as bandas se o show dos Crop Circles fosse o último da noite.  

    Gostavam de tocar em festas juninas. Elas eram diferentes entre si, e eles quebravam por pouco mais de uma hora os protocolos desse tipo de evento.

    Então, Zími entrou no apartamento que dividia com Mila Cox, e ela estava na sala tratando dos detalhes desses shows, pelo computador.

    Ele fechou a porta e falou: “Devemos fazer uma música sobre o coach. Ele me abordou no elevador, e todas as suposições que tínhamos sobre o charlatanismo dele se confirmaram.”

    O ‘coach’ era um vizinho do prédio que treinava as pessoas para serem felizes.

    A cara que ela fez quando foi interrompida, lembrou a Zími a cara que a gata de sua avó fazia quando era tirada de cima de um travesseiro enquanto dormia.  

    Ela usava uma camiseta com a cara do Jello Biafra fazendo uma careta.

    Ela falou: “De qualquer maneira essa música só ficaria pronta na semana que vem. Não estamos atrasados em termos de lançamentos. Lançamos um single há dez dias.”

    Zími: “Então o tema já fica estabelecido pra próxima faixa. Ele me falou sobre como seus clientes tiveram resultados incríveis e agradecem a ele diariamente. Ele nunca teve banda, nunca jogou bola, talvez nunca tenha tido namorada. Ele gosta de Coldpay e Silverchair.”

    Mila Cox: “Que show de horror! É muita loucura que ele tenha te abordado tão rápido. Falamos dele ontem.”

    Zími: “Eu estava entrando no elevador, enquanto ele entrava no prédio. Eu fingi que não vi, e não esperei. Mas ele chegou a tempo e abriu a porta antes que o elevador subisse. Extraí o máximo de informação que pude, mas ele viu que viraria zoeira e deu fuga antes de responder mais perguntas.”

    Mila Cox: “Zoar o coach numa música pode gerar uma crise com a classe dos coachs, caso sejamos mal interpretados.”.

    Zími: “Se a música atingir essa repercussão, então será um single de sucesso. Mas não acho que seremos mal interpretados. Esse vizinho é o único coach para ensinar as pessoas a serem felizes que conhecemos com essa proximidade. Ele me abordou questionando minha insatisfação com o mundo sem nunca ter conversado comigo antes. Mas ele já me viu antes tomando cerveja na padaria, de manhã, no meio da semana, e ficou bege. Se a música estourar, as pessoas saberão que estamos falando do indivíduo e não necessariamente da classe. Quando eu perguntei do que ele gostava de música, ele se engasgou, respondendo sem saber se a resposta merecia ou não o constrangimento de ambos. Mas foi quando perguntei sobre a concepção que ele tem de felicidade, e qual era a felicidade que seus clientes atingiam, que ele se esquivou alegando pressa, desceu no quarto andar, e eu vim pra casa.”

    Mila Cox: “Essa gig de sábado em São Caetano vai ser louca, ainda estaremos na força do show de sexta.”

    Zími: “Eu tenho o dobro da sua idade e acho meio cansativo, mas são coisas da vida. Não é uma questão de resistência física. Eu tenho prática e sei que o artista tem que melhorar com o tempo, e não piorar. Mas o que eu não tenho mais é a urgência juvenil, de se jogar como se fosse a última chance sempre. E também fui ter internet pela primeira vez na minha casa quando eu já era mais velho do que você é hoje. A gente era obrigado a estar mais nas ruas por mais tempo, para tomar conhecimento de qualquer coisa que estivesse acontecendo. A telefonia naquele período anterior à internet era completamente precária não apenas pela falta de portabilidade dos telefones, mas pelos intermediários que atravessavam as chamadas, que muitas vezes eram atendidas por alguém que não era a pessoa com quem se desejava falar. A impressão que eu tenho é que apesar dessa tosquidão, havia a necessidade de mais compromisso com o que era combinado, especialmente se você tivesse uma banda. Mas esse rolê de São Caetano vai ser bom mesmo. Temos kombi pra levar e servir de acampamento. É uma vitória.”

    Então Silvano bateu à porta, foi chamado para entrar em coro por Mila Cox e Zími.

    Ele anunciou que vai comprar um gerador de gasolina para poder ligar amplificadores em lugares descampados e ermos. Seria bom para shows, ensaios e atividades experimentais.

    Disse também que a ideia do gerador já era antiga para outros fins.  Mas durante o ensaio para os dois shows do fim de semana, ocorreu-lhe que agora precisava do gerador também para ligar o amplificador da guitarra, já que se consolidava como artista monobanda que dá ênfase a esse instrumento.

    Oitenta por cento de sua prática é num violão uruguaio que comprou usado e que ficou encostado por anos, mas pelo qual tinha grande estima. Os outros vinte por cento era com uma Guibson ligada ao pequeno amplificador que usa em casa, para avacalhar um pouco menos com as regras do condomínio. Tinha um maior que leva a shows onde não há qualquer equipamento.Também falou que tem uma música nova pronta.

    Então Zími falou: “A gente lançou single há dez dias, mas já definimos o tema da próxima música.”

    Silvano: “Qual é o tema?”

    Zími: “É o coach, aquele vizinho que treina as pessoas para serem felizes.”

    Silvano: “Aquele sujeito do quarto andar? Aquele é um picareta de marca maior! Eu apenas tento me esquivar das abordagens. Já me fiz de louco pra escapar algumas vezes.”

    Zìmi: “Eu tentei escapar. O cara correu e abriu o elevador antes que ele subisse.”

    Silvano: “Aí você vai usar o estereótipo desse cretino pra dizer que quanto mais ignorante alguém seja, mais obediente esse alguém é. depositando a maior e mais absoluta confiança em quem o dirige. Pode ser um político de estimação, um pastor que vende terrenos no céu ou esse cretino que treina as pessoas pra que elas se tornem felizes.”

    Zími: “Isso mesmo! E a sonoridade vai soar como uma mistura de Ministry e B52’s!”.

    Mila Cox: “No lado B vai entrar uma música sobre ser livre na medida do possível. Sobre o transtorno de saber que não nascemos livres. E que a luta é por uma liberdade pelo menos parcial, já que a liberdade total é um conceito complexo que existe mais para que seja buscado, do que realmente alcançado. O rebanho não é livre, nem quer ser livre, porque nem sabe que não é livre. O rebanho é rancoroso, poque a única alegria que tem é quando o lobo come a ovelha ao lado. Essa faixa vai sair só no compacto em vinil de sete polegadas. E depois de anos será relançada numa caixa que lançaremos com tudo que gravamos.”

    Silvano: “E com e gerador, ao longo desses anos a gente vai poder fazer muito mais coisa, tocando até de graça em certos lugares. Levamos tudo na kombi, montamos nos lugares remotos e tocamos. Logicamente isso não é algo pioneiro, mas é tão viável que é exatamente o que faremos.”

    Do forno de padaria na cozinha de Mila Cox e de Zími saíram quatro pizzas naquela véspera de show. Zími guardava as bordas para comer com requeijão na manhã seguinte.

    Na televisão colocaram um show do Fugazi, que terminava e começava de novo, servindo como inspiração.

  • Um trupicão blindado, é pênalti?

    No fim do ano passado eu havia decidido parar de palpitar sobre política. Não faltam assuntos mais aconchegantes, como o bafo dos Dragões de Komodo após o lanchinho da tarde. Aviso de antemão, não quero usar da ironia nem do sarcasmo, ainda que um comentário ou outro possa ser interpretado dessa forma. E, digo logo, se isso acontecer, a culpa é sua, leitor, não minha.

    Então, a verdade é que fiquei desanimado ao ver os nossos nobres vereadores correrem para aumentar os próprios salários antes das férias coletivas. Alguns dizem que nunca trabalharam com tanta voracidade. Outros dizem que só trabalham em causa própria. Eu discordo, claro. O fato é que o Natal teve gosto de imposto e não foi só no recheio.

    Não que eu acredite na honestidade deles, mas também não desacredito. Para mim, a honestidade política está no mesmo patamar dos Alienígenas. Não acredito nem desacredito; porém, precisamos considerar o seguinte: se aparecer um Disco Voador por aqui, você sabe, fica difícil desacreditar. Aí o problema é outro: convencer as pessoas sem parecer alienado.

    Eu também estava cansado daquela velha salada de frases feitas e discussões direita-esquerda, verdade-mentira, santo-criminoso, doce-salgado, vestido-pelado, dinheiro-cueca ou qualquer outra concepção maniqueísta que inflou a sociedade nos últimos anos. Convenhamos, em maior ou menor grau, falar de política havia se tornado algo como reafirmar a própria beleza para o espelho. Pois é. E nem sou tão bonito assim.

    Tenho de admitir que vez ou outra ainda me surpreendo, mesmo com expectativas negativas. A tão falada PEC da blindagem é um exemplo. Um texto inusual e magnífico. Ponto para nossos tão excelentíssimos representantes. Longe dos debates de menor valor, como a inflação, o saneamento básico e a emergência climática, a PEC da blindagem deu sinais de um respiro aliviado à política brasileira. Finalmente, ela poderia voltar para uma rota firme, bem encabeçada e sem devaneios. Sejamos sinceros, em pleno 2025, é de políticos assim que precisamos, só não vê quem não quer. Afinal, todos sabemos que um grande país é construído por homens e livros, mesmo que um tanto mambembe (mais pra lá do que pra cá). Só não vê quem não quer, repito.

    Indiferente à política, hoje não ponho o dedo na ferida nem questiono verdades absolutas. Figuro mais como um hamster domesticado do que como um comentador anônimo insatisfeito (vulgo sujeito-que-merece-uma-coça). Mas, considerando a bela proposta da PEC da blindagem, comecei a divagar sobre como aplicá-la em outras áreas. Resumindo, a PEC da blindagem pode até não ser a melhor proposição política do ano (está mais para um trupicão* bem dado, daqueles em que a cara alcança o chão bem antes do resto do corpo), mas baseará a minha sugestão de emenda.

    Alô CBF. Gostaria que os caríssimos dirigentes do esporte de preferência nacional levassem em consideração o meu projeto. Serei breve, não quero tomar o atribulado tempo de tão importantes autoridades. Então, sem mais delongas, com base na supracitada, proponho a criação da PEC do Cartão Vermelho. Explico: sempre que ocorrerem faltas violentas ou sequência de cartões amarelos, o VAR será chamado e os jogadores deverão votar pela expulsão ou pela anulação dos cartões do companheiro. Por obviedade, cada voto será individual e secreto. Só então o árbitro tomará as devidas providências, evidentemente, sem poder de veto. Aproveito para propor uma segunda emenda, como defluência da primeira: a Pequinha do Pênalti, seguindo os mesmos democráticos modelos da anterior. Chega das decisões autoritárias e imperativas do juiz.

    Preciso frisar, entretanto, que a proposta não nasceu da minha revolta com as expulsões indevidas sofridas pelo Grêmio no Campeonato Brasileiro. Os três pênaltis do último Grenal também não influenciaram, juro. Trata-se de uma sugestão de melhoria para todos (inclusive para o lado vermelho do Rio Grande do Sul**). Eu jamais usaria de tal subterfúgio para benefício próprio. Sou partidário da mais pura e transparente idoneidade.

    Estou certo de que teríamos grandes avanços e elevaríamos o futebol brasileiro a um nível mais equânime, responsável e organizado; porém, como toda boa ideia neste país, vai acabar esquecida e, mesmo na área, derrubada, sem pênalti. Entendo que o meu histórico como comentador insatisfeito e como integrante de torcida organizada também não contribua muito. Mas, com a proposta em mãos, pelo bem de todos e felicidade futebolística da nação, o que posso fazer***?

    *Sim, caros colegas, como vocês viram também no título, por vezes utilizo o linguajar erudito da política nacional, com a devida vênia.

    ** Aqui (só aqui), talvez, um pouco de ironia?

    *** Touché! Não falei de política.

  • Tem gente que é poeta e não sabe

    Estou no ônibus, indo para o centro, um compromisso banal que não vem ao caso agora. O ônibus está vazio. Não é horário de pico. Homens e mulheres, cada um no seu banco.

    Tarde tranquila.

    O ônibus cheira a café velho e plástico. Bancos azuis, gastos, alguns pichados. Todo mundo, de certa forma, parece querer escrever uma frase no ônibus, quer ser lido pelo próximo passageiro.

    Tem gente que cola chiclete no banco.

    Aí vejo duas meninas, bem no banco da frente. Elas conversam e eu presto atenção em cada gesto, em cada risada. De repente, uma delas solta uma frase mais ou menos assim:

    — Sabe o meu namorado? Quando ele começou a namorar comigo, ele não era bonito. Depois, fui conversando com ele e hoje ele é bonito.

    Amigos, tem frases que me pegam de jeito. Ele não era bonito. Era comum, ordinário, anônimo.

    Hoje, depois dela, ele é bonito.

    Ele não era bonito, mas depois de amar e ser amado, ficou. Ela não buscou um homem bonito o bastante para fazer inveja às amigas. Ela gostou de um, namorou com ele e o fez ficar bonito. Abri minha mochila. Peguei a caderneta. Peguei a caneta Bic.

    Anotei: “Tem gente que é poeta e nem sabe disso.”

    Fiquei pensando em quantas sacadas geniais a gente ouve que não têm nada a ver com livros. Gente que nunca pisou em museu, que não lê literatura, que não vai ao cinema, que não é leitora. Então quer dizer que a poesia está fora dos livros?

    Não perguntei o nome da menina, nem o da amiga dela. Mas, de certa forma, jamais a esqueceria. A frase pulsa dentro de mim até hoje. Acho-a excelente, muito bonita.

    Precisava escrevê-la para que não se perdesse por aí.

  • Por que os bons morrem cedo?

    Não sei por onde começar. Dói muito falar, lembrar de tudo isso. Gislane me contou de supetão, mulher sem coração: “Vá visitar logo, antes que ele morra!”. Disse assim, na bucha, que Renato estava doente, em fase terminal, nível quatro de cancro no cérebro. Renato é meu amigo de infância, estudamos juntos no Vinícius de Moraes. Um cara de coração imenso, me abrigou, com a sua humildade família, quando tive de sair de casa por conta das bebedeiras do meu pai. E não foi uma só vez. Ele me acudiu nos momentos mais difíceis, inclusive quando perdi minha mãe atropelada. Minha mãezinha morreu e nos deixou com o nosso pai, um homem desregrado, que só sabia de si. Fomos criados, na verdade, pelo meu irmão mais velho, o Valdemar, que já trabalhava e tinha o seu dinheirinho. Renato não media esforços para ficar ao meu lado, mesmo eu estando em crise, com depressão. Já adultos, tivemos um pequeno hiato; namoricos e turmas novas nos separaram. Soube que passou por uma trágica aventura em Portugal. Recebeu uma tentadora promessa de emprego de mecânico de automóveis. Trabalhou pesado, como um touro que era, mas muito acima de suas condições – Gislane me relatou, com lágrimas nos olhos. Não era bem como pensava. Foi explorado e voltou, depois de dois anos. Logo, por questões que desconheço, permanecemos afastados. Foi o destino cruel que nos puniu, pelo desleixo? Mas a verdade é que sempre pensava e desejava que estivesse bem. Acabei me casando e indo morar numa cidade da região metropolitana. A família de minha esposa é toda de Caucaia, e pudemos nos arranjar na casa de seus pais, onde construímos o nosso lar. Ele, ao contrário, procurou refúgio na serra; decerto queria uma vida mais tranquila. Gislane, que foi sua namorada – e sempre estava na expectativa de sê-lo outra vez –, falou que subitamente ele deixou de falar e de andar. Souberam por acaso, através dos vizinhos. Levaram-no ao hospital, e, de pronto, foi detectada a doença. Fui visitá-lo ontem. Não queira imaginar o aperto no coração que sinto até agora. Ele que era corpulento, um verdadeiro brutamontes, e estava cadavérico, na UTI, com a pele muito fina e o corpo encolhido, como uma criança desprotegida. Era mesmo um fiapo de gente. Chorei por meu irmão. Jamais imaginei vê-lo assim. É questão de dias ou horas para que decretem a sua morte. Amanhã retornarei para uma visita, se ele resistir. Tenho hora no emprego e não posso me ausentar por muito tempo, senão estaria ao seu lado, dia e noite. Pensei na fragilidade humana e na ousadia de tantos que se acham grande coisa. Renato é simples, um cara do bem. E a pergunta que fica é: por que os bons morrem cedo? Já não é o primeiro na minha lista de amados que se foram, sem dar o último adeus.

  • Dias quase perfeitos

    Recentemente assisti Perfect Days, uma coprodução entre Japão e Alemanha lançada em 2023. O filme é estrelado por Kōji Yakusho, no papel de um limpador de banheiros.

    Confesso que, no início, precisei de algum esforço para entrar no ritmo. A narrativa é lenta. O dia a dia do personagem, Hirayama, se repete quase como um ritual. Mas, aos poucos, essa repetição revela algo essencial: a beleza da simplicidade. Uma vida aparentemente pequena, quase claustrofóbica, que ao mesmo tempo transmite uma paz reconfortante.

    Hirayama encontra prazer em gestos banais. Escovar os dentes. Escolher uma música para ouvir no carro. Cumprir bem a tarefa de deixar os banheiros públicos impecáveis. Para ele, isso basta. Sua gentileza com os outros é sua forma de contribuir para o mundo.

    Esse olhar me tocou de maneira especial. Vivo, hoje, uma transição. De uma vida profissional acelerada para um momento mais introspectivo, mais contemplativo. Uma rotina menos marcada por obrigações. Mais aberta a atividades simples, corriqueiras, que se tornam fonte de prazer.

    Mas há um ponto que me inquieta. Para viver seus Perfect Days, Hirayama abandona quase tudo da vida anterior. Relações familiares, laços afetivos, responsabilidades. É como se tivesse optado por um isolamento absoluto. Isso levanta uma questão: até que ponto essa proposta não é uma utopia?

    Afinal, muitos não podem simplesmente abrir mão dos “dias úteis”. Da pressão do trabalho. Dos horários, das contas, das cobranças.

    Penso nas pessoas que encontro ao anoitecer, correndo para pegar um ônibus lotado depois de um dia exaustivo. Gente que, muitas vezes, nem sabe como vai pagar as contas do dia seguinte. E que, ainda assim, encontra espaço para sorrir e me oferecer um simples “boa noite”.

    Talvez esteja aí a maior lição. Não é preciso renunciar a tudo para viver dias perfeitos. Mesmo no meio das obrigações, é possível transformar os dias úteis em dias quase perfeitos.

  • Incomodada ficava a sua avó

    Há pouco tempo assisti a uma entrevista do ator Wagner Moura onde ele dizia que vivemos uma crise da verdade. Não há mais certeza ou garantia de que aquilo que se vê, lê, ouve ou se experiencia é real. Tudo pode não ser o que parece ou se afirma. Até o que constatamos com os nossos próprios olhos pode ser falso. A inteligência artificial, com sua produção de imagens e realidades, ao gosto do freguês, atende prontamente à nossa ânsia de completude e tamponamento dos buracos existenciais. Não existe mais falta! Tudo se remenda, disfarça, customiza. Viver, agora, é a arte de forjar. Em segundos, podemos colocar um ente querido, já falecido, na nossa foto de aniversário, formatura, batizado do filho. A morte não é mais definitiva. Também é possível postar foto abraçada com o ídolo (in)acessível, compartilhar os segredos mais íntimos, ou, até mesmo, se apaixonar pelo robô vestido de pessoa. “Nem dá pra notar diferença”, dizem por aí os mais experientes… De cá, me pergunto se o amor sempre foi tão artefato assim e só eu me enganei o achando artesanato.

    É assustador pensar que o príncipe encantado/inventado nos meus delírios adolescentes, hoje, teria rosto, olhar sedutor, nome próprio e ainda me faria juras de amor com o timbre que eu escolhesse.  Subiu um calafrio de horror.

    Nada mais tem garantia ou nos pertence, nem a nossa própria imagem e voz. Não é loucura pensar que com a IA, qualquer dia, posso estar na rede falando e defendendo ideias que nunca pensei ou refuto completamente. A crise da verdade é tão bizarra que li, recentemente, e chequei a veracidade da informação (ação indispensável atualmente), que a Dinamarca avalia conceder aos cidadãos direitos sobre sua imagem e voz para combater as deepfakes.

    Isso tudo me assombra tanto que até agora não consegui nem brincar com os famosos filtros na internet ou considerei entrar na moda e fazer harmonização facial. Tenho medo de quem posso me tornar. Sim, porque passando a ser aquela que sonhei ser, mesmo que às custas de ser totalmente outra de mim, o que se construiu por dentro não vai servir de jeito nenhum. Tenho certeza de que, se eu fizer harmonização facial, preenchimento, bariátrica, abdominoplastia e uso de lente verde vou precisar de harmonização emocional e espiritual. Sim, porque para ser outra não poderei ser essa que me tornei. Ah, sei não, talvez perfeita eu me torne insuportável. Melhor deixar como está. Verdade seja dita, eu sou muito apegada a essa que eu reconheço quando me olho no espelho.

    Também não vejo jeito de namorar robô. A temperatura do corpo, os pequenos equívocos do cotidiano me conquistam demais.

    Vou ficando por aqui. Sei que verdade absoluta não existe, mas ilusão tecnológica não me convence. Deve ser porque não acredito em perfeição ou porque, quando a esmola é demais, eu me belisco.

  • Ultimo café

    Contemplou em silêncio o burburinho alegre à sua frente. Da mesa de canto no terraço onde estava sentado espiava as demais espalhadas.

    A maioria com casais, fora uma grande com seis pessoas. Na sua, permanecia só.

    O sol da tarde era ameno e com luz leve. Escondido atrás do telhado da cafeteria, fazia sombra em sua mesa. Enquanto todos tricotavam alegremente sob o sol gentil, ele permanecia silencioso na penumbra.

    Uma variedade de sucos, doces, chás e cafés ocupavam os tampos espalhados pelos terraços e eram consumidos distraidamente pelas pessoas. Na sua mesa, seu café duplo demorou a chegar. Veio acompanhado de um biscoitinho de sabor neutro e sem entusiasmo. Melhor se estivesse só, como ele.

    Não esperava ninguém, para ser honesto. Estava sozinho, bebendo devagar o café para não queimar a língua.

    Estava ali porque se convencera a conhecer o lugarzinho charmoso que abrira há pouco numa rua transversal à sua, ou melhor, aonde ele mora porque não era dono de rua alguma.

    Usou a desculpa de conhecer a cafeteria para sair de casa porque decidira que precisava ver a vida em movimento.

    E estava vendo. Espectador da alegria alheia, ouvinte de pedaços de conversas que nada lhe diziam. Flashes da vida mundana. Nada além.

    Por um momento imaginou que poderia ter alguma companhia para esse café à tarde.

    Mas a mínima hipótese de pensar em chamar alguém o fazia mudar de ideia. Suas amizades eram poucas, a despeito de conhecer bastante gente. Conhecimentos que não iam além do mais profundo “alô”.

    Suspirou, a tarde terminou de escoar, as mesas próximas ficaram vazias.

    A sua, em breve, seria a próxima porque iria embora. Não estava frustrado porque ninguém lhe fizera companhia. Não tinha de se queixar porque ela se atrasou ou não apareceu. Simplesmente, porque não chamara ninguém.

    Pensou, mas desistiu. Não queria ninguém para um alô. Nem para um último café.

  • História arcaica

    Essa história aconteceu no tempo do ronca, quando o recato das moçoilas era-lhes o maior trunfo para os casórios. Quanto mais pudibundas, mais candidatas à celebração nupcial. Daí que se esmeravam em ostentar um ilibado comportamento em sociedade; quando iam às tertúlias, era na companhia das genitoras ou de alguém a quem incumbia vigiá-las.      

    Conta-se que um mancebo sem eira nem beira intentava namorar uma dessas donzelas de truz. Para isso usava toda a sua léria, mas o pai da moça se opunha por achar que ele era um mandrião. Não se ocupava em nada que lhe trouxesse algum tipo de estipêndio.  O moço pretendia convolar de estado civil – mas como, se mais parecia um mequetrefe?

    O pai então lançou-lhe um repto: ele casaria com a sua filha se jungisse a tal desiderato a demonstração de que não era um soez.

    – E o que devo fazer? – quis saber o rapaz. 

    – Deves dar-me a prova de que tens futuro. 

    Em meio a tão escorchante desafio, o moço foi aos poucos sentindo gorarem-se-lhe as pretensões. Não era nenhum abilolado e percebeu que o queriam apartar da contenda.  Caminhou a esmo na noite até que, esfalfado, resolveu tomar um pifão. Quando a ebriedade lhe turvou o bestunto, dirigiu-se à casa da moça.   

    Postado em frente à alcova onde ela dormia, encetou uma elocução:

    – Não tenho prebenda, mas não sou nenhum sorrelfa. Juntos viveríamos com parcimônia, mas não à míngua. Juro-to.

    A moça, já adormecida, despertou num sobressalto. Colocou furibunda o corselete, que preferia ao califom, e foi até a janela:

    – Arreda-te, doidivanas. Não vês que nada ganhas com tais ululações? Além disso, tiraste-me dos braços de Morfeu.

    – Morfeu?! Então tens outro… Por que não me falaste? – gorgolejou o rapaz, já pensando em cascar a marreta. Mas logo tirou da cabeça essa ideia, pois no fundo era um poltrão.   

    – Se não sabes quem é Morfeu, com isso apenas provas a tua estultice. E dás razão a meu pai… – continuou a moça. Dito isso, fechou com estrépito a janela.

    O rapaz foi embora achando-se um alarve. Ainda pensou em ir até uma botica comprar um sanativo que lhe diminuísse a coita. Ao mesmo tempo, contudo, sentia-se ditoso por haver descoberto a traição. Melhor saber-se guampudo agora do que depois.

  • Febre de sentir!

    Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas.

    São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos.

    Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com sintomas doentios, sem regras saudáveis e com grande efeito dolorido após um encontro, que mais parece um embate competitivo.

    Os invejosos, que são os que tem satisfação com o fracasso alheio, guardam em si o prazer secreto em oferecer um alívio para sua responsabilidade em buscar o melhor de si. 

    Mas que, na verdade, seus medos, os mantém distantes de qualquer crescimento que perceba facilmente ao seu redor.

    Para quem sofre esse ataque emocional, por vezes não permite ter o ato de exteriorizar o que machuca ou incomoda, de transformar experiências difíceis – físicas, mentais ou emocionais – em palavras, ou linguagem escrita, sem receios ou filtros, o que poderia trazer alívio, clareza e serenidade.

    Uma oportunidade singular de colocar pensamentos, medos, angústias e anseios em perspectiva, é transformar experiências em palavras escritas, dando um passo adiante no reconhecimento de problemas e na busca pelo melhor modo de lidar com eles.

    Segundo a psicanalista Daisy Dalmáz, a escrita por si só é um sinal de evolução. “Sabemos que o mundo das ideias pode tudo, mas quando colocamos todo nesse universo interno na escrita, ocorre um salto de qualidade, pois, ele precisa ser organizado, precisa adquirir sentido, expressando um encadeamento de ideias e sentimentos”.

    O processo precisa ser direcionado para um conteúdo que expresse SENTIMENTOS, e não SITUAÇÕES (por exemplo: “senti raiva” ao invés de “gritei muito” ou “senti tristeza” ao invés de “chorei”).

    Aos poucos, as pessoas que seguem com a prática vão se familiarizando com a elaboração dos textos, além de aguçar a criatividade e a percepção de suas emoções mais profundas, num belo processo de autoconhecimento e fortalecimento interno.

    Como escreveu Fernando Pessoa “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”.

  • A tarde e a crase

    Quando Carlos Emilio Faraco disse: “Se você me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase”, não falava apenas de gramática. Ele nos oferecia um jogo perigoso, desses em que uma vírgula é um abismo e um acento decide o destino de uma frase. Um duplo sentido que escancara a língua como ela é: erótica, sedutora, quase obscena.

    Sem a crase, “a tarde” é um corpo inteiro: pedaço de vida, presente concreto, quase palpável. Algo que se pode dar: como se alguém entregasse ao outro um tempo, uma presença, um encontro. Com a crase, “à tarde” muda completamente: já não se trata de um presente ou de uma posse, mas de um tempo em que algo acontece (“marcar um encontro à tarde para se entregar ao sexo”).

    Assim, ao propor a troca, Faraco mostra como a ausência ou a presença da crase altera radicalmente o sentido. Ele brinca com a ideia de que alguém poderia lhe dar a própria tarde (um pedaço da vida, um corpo, um tempo), mas ao mesmo tempo, revela a importância de escrever corretamente para não perder o sentido pretendido. A frase ganha, então, um perfume de sedução, transformando uma lição gramatical em jogo sensual de linguagem.

    É nesse risco invisível que mora a diferença: de um lado, o desejo; do outro, a obrigação. De um lado, carne; do outro, horário. A língua portuguesa tem dessas perversões: uma partícula mínima, expletiva para uns, é capaz de acender ou apagar a chama de um texto inteiro.

    Faraco sabia disso. Jogava com a ambiguidade, mas também nos alertava: escrever errado é perder o sentido; escrever certo é ganhar vertigem. Entre a gramática e o erotismo, mostrou-nos que a língua é também um corpo que respira.

    Porque a vida é feita desses detalhes. Uma oração subordinada mal compreendida pode roubar o sentido de um texto. Um pronome possessivo mal colocado pode alterar a intenção de quem ama. Um verbo bitransitivo mal conduzido pode inverter agente e paciente da ação. E, nesse descuido, a pressa nos engole.

    No fim, Faraco nos lembra que a gramática não é um conjunto de regras mortas, mas um organismo pulsante. É corpo e é espírito. É rotina e é vertigem.

    Eu, se pudesse escolher, ficaria com as duas coisas:
    — A tarde, para viver com ela.
    — A crase, para possuí-la.

  • Não basta ser leitor, é preciso parecer também

    De uns tempos pra cá, virou moda fingir-se leitor ou leitora. De fachada, claro. Nas fotos do Instagram, o rapaz ou a moça é visto ou vista lendo clássicos, carregando ecobags com estampas de livros e autores. Querem posar de inteligentes, eruditos, atraentes.

    Vejo um rapaz, na academia, com corpo escultural e músculos definidos, lendo No Caminho de Swann, de Proust. As memórias de um escritor francês que ele nem sabe quem foi.

    No metrô, uma moça carrega um exemplar de Dom Quixote, de Cervantes, primeiro volume. Cruza e descruza as pernas, mexe no cabelo, ostenta a ecobag.

    Camisetas de Clarice Lispector, bolsas com frases de Machado de Assis, fotos com uma xícara de café ao lado de As Confissões de Santo Agostinho. A leitura virou adereço.

    Mas será que fingir que lê é útil?

    Na verdade, isso não é novidade. Há muitos anos, numa crônica famosa intitulada Consulta e Receita, Paulo Mendes Campos — este sim, um verdadeiro leitor e erudito — dizia que, para fazer sucesso em um coquetel, um certo leitor que escreveu para ele não precisava ter lido livro algum. O cronista desmascarava festas chiques, a cultura ostentada, com ironia e bom humor.

    O problema do coquetel era justamente esse: o fingimento tinha efeito apenas dentro do círculo fechado, para impressionar apenas os presentes. Não gerava interesse real por livros; era vaidade pura.

    No Instagram, porém, a história é outra. Se o bonitão ou a bonitona finge que lê, o seguidor pode se apaixonar pelo livro e ler de verdade. A mentira passa a ser propaganda. O livro circula, chega a quem talvez nunca o tivesse descoberto. O fingimento, então, pode gerar algo positivo: leitores de verdade.

    Na verdade, enquanto as pessoas “chiques” fingiam ser leitoras apenas entre elas, era algo meio besta. Agora, com a internet, tirar uma foto com um livro que você não leu pode ser uma ótima propaganda. Afinal, um livro que você não leu pode ser o livro da vida de alguém que te segue nas redes sociais. Continuem, meninos e meninas, continuem.

  • Avarias

    Na sala do apartamento que dividia com Mila Cox, Zími cantava e tocava no teclado dela uma versão de ‘Always the sun’, dos Stranglers.

    Usando apenas acordes rudimentares, executou a canção de maneira belíssima.

    A rouquidão de sua voz, a falta de técnica vocal e a embriaguez tiveram efeito favorável para o resultado apresentado.

    Mila Cox e Silvano observavam.

    A visceralidade mostrada ali, do nada, com Zími alcoolizado, improvisando, era algo tão raro  atualmente, que os fez pensar imediatamente na vergonha que tinham das pessoas que se arriscam a ser artistas, e que eles eventualmente presenciavam se apresentando sozinhas ou com outras pessoas em bares da cidade, com repertório constrangedor e interpretação ainda pior.

    Cox, que apareceu quando ele já havia começado a música, olhava fixamente, encostada na lateral da porta de seu quarto.

    Estava vestindo apenas uma camiseta cinza, muito grande para ela, como se fosse um vestido, com a cara da Anette Peacock na frente.

    Silvano estava na sala com Zími, e alternava o foco de seu olhar entre ele e Mila Cox.

    A cara que Cox fazia enquanto olhava Zími e ouvia a música era a mesma que ela fez numa das fotos que estavam coladas na porta de seu quarto , em que ela, ainda criança, segurava e olhava a capa do primeiro disco da Suzi Quatro.

    Talvez a ideia de se tornar contrabaixista tenho surgido naquele momento.

    Ela também tinha o teclado e o sintetizador, para sanar a falta de um guitarrista na banda.

    Antes de Zími começar a tocar a música, Cox estava dentro do quarto ouvindo outra música ,enquanto ele falava na sala sem parar e às vezes tocava sons aleatórios no teclado.

    Ele falava sobre como são as pessoas que estão distópicas, e não os ambientes ou as paisagens.

    Contava sobre o desprezo que sente pelo sistema de um modo geral, focando naquilo que havia feito dele a pessoa que se tornou.

    Mencionou as dinâmicas de grupo para selecionar funcionários em empresas.

    Em seu monólogo semiembriagado, ele levantou uma questão.

    Questionou  o porque de, entre o desespero causado pelo capitalismo, que obriga milhões de pessoas a buscar um salário baixo em troca de uma carga horária de trabalho alta (além de ter que passar eventualmente pelo constrangimento das abomináveis dinâmicas de grupo), há pessoas, que vivendo exatamente no mesmo contexto, que simplesmente acham que as coisas são assim mesmo?

    Essas pessoas também dizem que se deve agradecer no caso de conseguirem uma oportunidade dada por corporações bilionárias, que irão sugar toda a energia vital de cada um dos escravos assalariados, cuspindo depois o caroço deles no limbo.

    Vivem acreditando que todo o sofrimento e humilhação diários serão recompensados depois da morte com a vida eterna num paraíso.

    Mila Cox tinha ido para a sala assim que ele parou de falar e começou a tocar a música.

    Quando Zími terminou, Cox olhou para Silvano e sabia o que ele estava pensando.

    Silvano estava pensando em como seria se Zími desencanasse da banda Crop Circles (que é um duo formado por Cox e Zími) e seguisse carreira solo.

    E Mila Cox sabia que Silvano estava pensando isso porque ela às vezes dizia que caso se cansasse da parceria musical com Zími,  iria substituí-lo por uma bateria eletrônica e seguiria com o nome da banda, mesmo tocando sozinha.

    Ela estava com vinte e um anos e provavelmente teria tempo para acertar e errar.

    Mas Silvano também tinha pensado em como Zími era cool e exercia influência sobre ele, mesmo tendo estilos e ideais musicais diferentes.

    Zími, que é baterista e vocalista dos Crop Circles, tem mais estofo musical, mas Silvano é mais determinado.

    Silvano é uruguaio, mas falava português quase sem sotaque, pois vivia em São Paulo desde os três anos de idade. Tem agora quarenta e nove.

    É vizinho de porta de Zími e Mila Cox,e tem uma Kombi para fazer carretos e pagar as contas.

    Cox e Zími pagam as contas trabalhando como copywriters, geralmente fazendo publicidade para corporações que não aprovavam.

    Antes de Mila Cox e Zími mudarem para lá, Silvano já morava naquele prédio havia onze anos.

    Ele parece o Pappo Napolitano, e também era guitarrista e cantor. Canta em inglês por opção estética, fazendo uma mistura de rock a billy, blues e punk rock.

    Se apresentava tocando guitarra sentado para fazer a parte percussiva com uma gambiarra de chimbal e bumbo, que ele tocava com os pés.

    Mila Cox sabia que Zími não seguiria carreira solo.

    Mas ele também dizia brincando que caso fosse despedido por Cox, juntaria outras três pessoas mais jovens que ele e montaria outra banda.

    E seria uma banda de apoio, para que ele se tornasse um crooner.

    Elaboraria um repertório primoroso de músicas autorais, misturadas com pérolas obscuras da música mundial do século vinte.

    Ambos sabem que isso nunca aconteceria, porque Zími sabe da falta de glamour que isso significaria em sua vida pessoal.

    Faria shows esporádicos, e gravaria em casa, também esporadicamente

    Estaria satisfeito. Estava com quarenta e sete anos e pensava mesmo era em preservar sua saúde mental e viver com o mínimo de conforto.

    Mas ele não sairia mesmo em carreira solo, porque seria um trabalho duro para ele fazer sozinho, considerando seu entusiasmo para ser artista, que somente aparece por causa da motivação constante por parte de Mila Cox.

    Zími entendia esse sentimento como a superação de sua necessidade de autoafirmação, e não como falta de entusiasmo pela arte.

    Afinal, mesmo que ele não fosse parte de uma banda, ainda assim, seria um apreciador e de alguma outra forma, um apoiador das artes.

    Zím terminou a música e alguns segundos depois Mila Cox falou: “Você deveria gravar essa do jeito que você tocou agora, deixar eu completar a gravação e a gente lançaria como single.”

    Zími respondeu: “Agora seria melhor lançar uma música autoral. Pra lançar cover, eu já estava pensando em uma outra, que é ‘Baby’s on fire’, do Brian Eno. Aproveitar que é uma música legal e é obscura o suficiente pras massas. Embora essa dos Stranglers também tenha essas características. Toquei porque ela me veio à cabeça sem que eu tivesse pensado nela. Eu te enviei a letra de uma música inédita, mas ainda não pensei na parte musical dela, então te mandei pra ver se você tinha alguma ideia.”

    Mila Cox havia mesmo recebido a letra da música, mas não havia começado a trabalhar na canção.

    Naquele momento se lembrava apenas que a letra era em inglês e definia o amor moderno como uma transação bancária em peças publicitárias de bancos.

    Numa outra parte, dizia que quem precisa ser liderado por um pastor, tem a inteligência de uma ovelha.

    Em outro trecho, a letra dizia em primeira pessoa que uma grande parte da humanidade é composta por pessoas com as quais ele jamais se envolveria, em qualquer nível e em quaisquer que fossem as circunstâncias.

    Exaltava ainda a desobediência às convenções.

    Então o interfone tocou e ninguém foi atender.

    Não estavam esperando ninguém, e menos ainda uma notícia minimamente razoável sendo dada pelo interfone naquele momento.

    O toque do interfone não foi persistente, tocou apenas uma vez.

    Então Zími disse que atenderia, mas que fumaria um cigarro na janela antes.

    Olhou para baixo, e nada acontecia na frente de seu prédio, nada que pudesse anunciar algo realmente ruim a ser comunicado.

    Não havia incêndio e nem invasão. A Rua da Glória estava normal.

    Zími tomava o vinho uruguaio direto da garrafa e fumou três cigarros.

    Então ele finalmente  foi atender o interfone, e o porteiro disse que havia ligado para avisar que a água do banheiro seria fechada por meia hora, mas que naquele momento o reparo já havia sido resolvido.

    Zími explicou a situação para Mila Cox e Silvano.

    Fizeram silêncio e pensaram na chateação que haviam evitado, apenas por deixar de ouvir o que um outro humano tinha para lhes dizer.

    Alguém iria querer usar o banheiro só porque estava sem água.

    A preguiça coletiva de comentar pairava densa.

    Uma pequena chateação evitada que causou um bem estar enorme naquele momento.

    As famílias tradicionais e conservadoras muitas vezes começam a ruir com esses pequenos aborrecimentos, que viram ataques de fúria quando a frustração por uma vida farsante pesa mais do que tentar manter aparências.

    Sossego é uma premissa para a felicidade, e a felicidade não é algo para durar incessantemente, pois assim perderia seu sentido.

    Eles tentavam  eliminar as chateações gratuitas, para aguentarem aquelas que são inevitáveis, e que tem alguma razão decente para surgir.

    Silvano voltou para seu apartamento, Mila Cox voltou para seu quarto e Zími ficou na sala, sabendo que a solidão é um luxo e a desobediência às vezes é a ordem de uma intuição que não costuma falhar.

    O aluguel pago fazia agora com que Zími não quisesse estar em nenhum outro lugar.

    Houve um tempo  em que ele dormia num armário no corredor de uma pensão no centro da cidade.

    Ele não tem filhos porque sabe que não daria conta de ser um pai aprovado pelo status quo, então mais tarde poderia dormir bêbado no sofá.

    Gostava de crianças, mas odiava playgrounds de condomínio.

  • Metacrítica

    Como uma sugestão literária pode desencadear reflexões íntimas

    A taça agora reflete um leve nuance púrpuro, apenas; eu, nesta fria estadia serrana, pretendia perder-me entre os dois novos volumes machadianos, ou, quem sabe, afogar-me nos sentimentos mais belos e tristes que só um romance épico da literatura infanto-juvenil de Budapeste apresenta-nos. Mas é fim de setembro, principia o inverno e a neve não virá, como sempre. Minhas mãos voltam-se para as teclas do computador, são obrigações da vida adulta que por ora me prendem a esta tela. Entre análises gráficas, e-mails e discussões acadêmicas, presenteio-me com a possibilidade de libertar meu eu lírico em pequenas doses de literatura singela. Crio, pois, meu próprio grund, dentro de um edifício que talvez já tenha tido seu espaço defendido por heróicos meninos do antigo primário. Sinto-me resfriada, e a dúvida oscila entre a mudança de temperatura e banhos frios em águas inimigas. E ponho-me a chorar, silenciosamente, pela morte de um grande soldado raso (agora capitão). E ponho-me a gritar interiormente pela vitória de um espaço que perderei em breve. E ponho-me a pensar em todas as injustiças que acontecem ao meu redor. E sinto, pois, que crescer é deveras dolorido, mas que, por fim, minha infância não foi só um belo conto-de-fadas.

    Ao fundo, nenhum acorde ousa quebrar este silêncio honrado. Nenhuma cor sobressai perante o cinza nostálgico dos meus dias de “Os Meninos da Rua Paulo”. Só o vinho do liquido aventura-se a atravessar a garganta, amolecendo o peito e aquecendo o corpo contra os graus fajutos que lá fora brincam com o vento cortante.

    Eis a história que não podem deixar de ler. Bia Mies indica “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Mónar, reeditado recentemente pela editora Cosac Naify.

  • O botox da Monalisa. Quando a estética paralisa também os sentimentos

    O sorriso é universal e uma das únicas expressões que já nascemos sabendo fazer e reconhecer, não importa o lugar do mundo onde estejamos. 
     
    Segundo o dicionário, é uma expressão em que os lábios se curvam nos cantos, e é essa curvatura que acaba dando o tom do sorriso. Normalmente, com os cantos voltados para cima expressam alegria, contentamento, felicidade. Ao contrário, se fizerem uma curvatura ligeiramente para baixo ou de forma assimétrica podem expressar ironia, malícia e, até mesmo, loucura ou maldade.
     
    Interpretar o sorriso de alguém é uma tarefa para o nosso córtex frontal, que pode processar essas informações e dar um feedback emocional positivo ou negativo, dependendo do tipo de sorriso captado. Nesse sentido, a neurociência veio ao nosso auxílio com uma descoberta que pode minimizar o efeito de qualquer sorriso maldoso que recebemos – o retorno com um sorriso largo, mesmo que não sincero.
     
    Falso? Sim, mas o resultado dessa falsidade traz um benefício incrível, segundo os estudiosos Kraft & Pressman da Universidade do Texas. Segundo eles, sorrir pode realmente enganar nosso cérebro e impulsionar o humor. Quando sorrimos, mesmo que não estejamos genuinamente felizes, engajamos regiões cerebrais que desencadeiam uma resposta de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, associados à sensação de prazer e bem-estar.
     
    Os resultados desses estudos sugerem que o feedback facial não apenas amplifica sentimentos de felicidade preexistentes, mas também pode iniciar um ciclo virtuoso. Assim, forçar um sorriso pode ser o primeiro passo para iniciar sentimentos de felicidade, mesmo em contextos não favoráveis.
     
    Tudo muito interessante, mas…atenção! a ausência de expressões faciais pode reduzir a intensidade do feedback emocional e, nesse sentido, criou-se um problema para quem é adepto de aplicações de Botox.
     
    Pesquisas mais recentes (Vannini et al., 2018) revelaram que a interação entre a toxina botulínica e o embodiment, ao paralisar os músculos faciais altera a maneira como nosso cérebro percebe e experimenta as emoções, o que pode reduzir o impacto direto do sorriso em nosso estado emocional geral.
     
    Isso nos coloca frente a um dilema digamos estético-emocional: sorrir às bandeiras e rugas desfraldadas, ou emparedar a serotonina num sorriso de Monalisa?

  • As voltas que o mundo dá

    Cada dia mais me convenço de que o universo se comunica com a humanidade por sinais sutis e precisos. Essa linguagem delicada costuma ser nomeada, por muitos de nós, como coincidência ou intuição. Eu, de minha parte, acredito tratar-se de um idioma ancestral, com o qual perdemos o contato, há muito tempo, mas permanece cifrado no nosso íntimo. Vez por outra, algo reconecta a sintonia perdida e decodifica a mensagem. Exemplo disso aconteceu hoje: estava me preparando para escrever essa crônica, cujo tema seria a importância de se estabelecer limites na relação eu/outro para preservação da saúde mental, quando me deparei com a notícia de que a terra ultrapassou 7 dos 9 limites planetários necessários à manutenção do equilíbrio ambiental no planeta. Coincidência? Com certeza, não! Certamente, foi um sinal do universo para quem precisa refletir. Vou fazer uma tradução livre da situação do planeta e vamos ver quem de nós se identifica:

    Por mais que oferte o meu melhor com empenho, me desdobre para atender às necessidades e expectativas dos que me cercam, trabalhe exaustivamente para garantir amparo e proteção aos que amo, sem reclamar vantagens ou prioridade, cedendo quase sempre a minha vez, sem deixar faltar nada para ninguém, no final do dia, me sinto só. Sem cuidado, afago ou reconhecimento. 

    Eu preciso aprender a dar limites aos outros e valor a mim.

  • Dia dos amantes

    Outrora eram somente os santos e as figuras históricas. Hoje praticamente todo profissional tem o seu dia. Mesmo fora das profissões, basta alguém pertencer a uma categoria para ter a sua data especial, tornando-se alvo de homenagens cujo objetivo não é outro senão incrementar o comércio. Há um dia para tudo e para todos, do faxineiro ao vendedor de picolé – o que, quanto a este, é muito justo. Num país quente como o nosso, o picolezeiro tem a nobre função de refrigerar os corpos e desentorpecer as almas, deixando-nos mais dispostos para enfrentar estações como o verão.

    A prova de que o hábito se disseminou é que no dia 22 de setembro comemorou-se o Dia dos Amantes. Catei nos jornais alguma referência mais extensa a tão curiosa efeméride, e nada encontrei; mas os amantes bem que mereciam uma crônica. Vejam que a data não se refere aos amados, ou às amadas, que são entidades nobres e gozam do prestígio da sociedade. Refere-se aos que amam com ímpeto transgressivo, o mais das vezes burlando normas e atropelando os papéis sociais. Os amantes são “os outros”, que por razões óbvias não podem se declarar. Daí a curiosidade que um dia dedicado a eles provoca.

    Machado não os tinha em alta conta – certamente pelo bom casamento que fizera com D. Carolina. Vejam o que ele diz no breve Capítulo XXXVIII de “Quincas Borba”, capítulo esse que antecede o da confissão amorosa do ingênuo Rubião à sagaz e interesseira Sofia: “Rubião estava resoluto. Nunca a alma de Sofia pareceu convidar a dele, com tamanha instância, a voarem juntas até às terras clandestinas, donde elas tornam, em geral, velhas e cansadas. Algumas não tornam. Outras param a meio caminho. Grande número não passa da beira dos telhados…”. Se os envolvidos retornam com as almas velhas e cansadas das “terras clandestinas”, melhor seria que por elas não se aventurassem… Mas não vai ser esse reparo, típico do Bruxo quanto a essa e outras falhas humanas, que vai enfraquecer o nosso registro.

    Fala-se que amantes são todos os que amam com paixão, sejam eles namorados ou esposos. Haverá nesse argumento um eufemismo interesseiro, cujo objetivo seria descaracterizar os homenageados a fim de incluí-los mais amplamente, e sem remorso, entre os que merecem os mimos adequados à ocasião. Tudo para vender mais. Os amantes habitam mesmo o “outro lado”, não são os parceiros institucionalizados do amor. São antes cúmplices, por isso não deixa de ser curioso escolher para eles um dia, à semelhança do que se faz com os santos, os avós, os pais e as mães.

    Notei que pouco se falou na data, mas certamente ela foi comemorada. Por meio não de cartões ou telegramas explícitos, mas de e-mails cifrados que atravessaram a Internet levando o apelo ansioso e triste de dois corpos solitários. Talvez em encontros furtivos num desses motéis promocionais, que além do preço módico prometem sigilo absoluto. Pois esse é o tipo do dia para se comemorar na surdina, à meia-luz, por debaixo do pano.

    Enfim, leitor, sem hipocrisia nem cinismo enalteçamos os amantes no seu dia. Deles é a glória da indústria de perfumes e lingeries. Sem falar de quanto faturam os sex shops numa ocasião como essa. Se hoje as datas valem sobretudo pelo que vendem, e os amantes têm lá a sua fatia de mercado, comemoremos sem preconceito a data a eles dedicada. Sem preconceito e com a sinceridade de reconhecer: que ser humano já não se deixou tocar pelo tentador mistério das “terras clandestinas”?

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se encher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • O que há por trás do movimento antivacina em cães?

    Um burburinho crescente nas redes sociais revela que muitos donos têm evitado vacinar seus cães. Como jornalista, pesquisei e apurei relatos de especialistas, estudos e depoimentos de famílias, e concluí que o preço também está embutido nessa crítica. À primeira vista, porém, a explicação mais repetida remete a ecos de movimentos políticos que já conhecemos. Foi assim na pandemia, quando a incerteza sobre a eficácia das vacinas abriu espaço para a desconfiança. Essa sombra ainda paira sobre parte da população.

    Na internet, o termo “antivax” ganhou força. Designa os que rejeitam vacinas ou diminuem sua importância. Uma pesquisa do portal IG mostrou um dado alarmante: cerca de 40% dos responsáveis temem que a vacinação cause autismo em cães. É uma crença sem base científica, mas que se espalha com rapidez, como rumor em feira livre. No Instagram,também circulam frases de efeito como “pet que não sai não precisa vacinar”, “vacina é só para gripe”. Mensagens curtas, fáceis de compartilhar, que acabam banalizando uma medida vital para a saúde animal e, por consequência, também para a nossa.

    Para conter essa onda de desinformação, a Associação Britânica de Veterinária (BVA, na sigla em inglês), antecipou-se e divulgou uma nota posicionando-se contra os movimentos antivacina. O tom foi direto: não há qualquer evidência científica que relacione vacinas a casos de autismo em cães. Portanto, podem levar seus animais ao veterinário sem medo.

    Entretanto, atribuir a resistência às vacinas apenas à ideologia é uma visão simplista. Acompanhei, ao longo dos anos, a relação entre cães e pessoas e percebi fatores mais concretos nesse movimento. O custo das vacinas, por exemplo, é um dos grandes obstáculos. Ainda que alguns veterinários se esforcem para oferecer preços acessíveis, para muitas famílias a imunização tornou-se inviável.

    Há também a questão da exigência de várias doses antes de liberar o filhote para passear. Em certos casos, entre cinco e sete. Isso compromete severamente o desenvolvimento social dos cães, sobretudo na fase inicial da vida. Quando barreiras financeiras e práticas se acumulam, muitos donos ignoram as recomendações e acabam levando seus cães às ruas antes do fim do ciclo vacinal completo. E, uma vez quebrada a regra, a lógica se impõe: se o filhote já pode ter contato com o ambiente externo, por que continuar arcando com tantas vacinas caras? O resultado é um efeito dominó que mina a confiança.

    Não se trata de condenar a prática veterinária, mas é impossível ignorar a engrenagem maior que sustenta esse cenário. Quanto mais vacinas, maior o lucro da indústria farmacêutica. Reconhecer esse fato não é aderir a teorias conspiratórias, nem enfraquecer o valor da imunização. Pelo contrário: vacinar continua sendo indispensável para a saúde e a longevidade dos cães. O desafio real está em outro ponto: tornar o processo viável, transparente e acessível, para que ninguém precise escolher entre proteger o animal ou pagar as próprias contas.

    Politizar o debate é perigoso. Cães fazem parte de todas as camadas sociais, e muitos responsáveis simplesmente não conseguem arcar com o custo de certos imunizantes. Em um país onde famílias esperam meses por atendimento médico, não surpreende que os animais também sofram os efeitos do sucateamento da saúde pública.

    Mesmo assim, não faltam histórias de donos que se sacrificam, abrindo mão do próprio cuidado para garantir a proteção de seus cães. Esse gesto, ao mesmo tempo nobre e doloroso, revela o tamanho do vínculo que une pessoas e animais, mas também expõe, com clareza, as falhas de um sistema que deixa ambos desassistidos.

    No fim, a matemática é implacável: quando o dinheiro falta, meus caros leitores, não há retórica que resolva. Não é descuido, tampouco crença, mas realidade que nenhum afeto consegue ultrapassar. A conta não fecha. Entre pagar um boleto, comprar o gás ou investir em vacinas, muitos acabam escolhendo o imediato. É duro reconhecer, mas a verdade se impõe com a frieza dos números: amor não basta quando a sobrevivência está em jogo.

    Como dizia meu pai, com a sabedoria de quem viveu de tudo: “Se não tem remédio para a situação, remediado está.”

  • Mano velho

    Já não tenho tempo para nada, com oitenta e nove anos. Ele, o dono de tudo, se esvai, mais lento que outrora. Não suporto os achaques e as dores, que me atacam diuturnamente. A velhice é uma covardia, uma falsa esperança. O que posso esperar daqui para a frente? Muita coisa mudou. Minha amada esposa, Salete, se foi muito cedo – mais cedo do que eu previa, com sessenta e cinco anos. Ela, como quase todas as mulheres de sua família, teve câncer de mama. Um pouco descuidada, permitiu que a doença se espalhasse e, por fim, a metástase tomou quase todo o seu corpinho miúdo.

    Ela deixou, desde aí, uma lacuna muito grande em minha vida, a ponto de eu abandonar muitas das atividades que fazíamos juntos, de que tanto gostava, como passeios no parque, idas aos bailes, ou mesmo um almoço ou jantar num restaurante de nossa preferência. Como disse Chico Anysio, a morte, a consequência, é uma pena – mesmo eu querendo viver com saúde; doente é um sofrimento desnecessário. Devia me nutrir de ânimo pelos meus netos, mas como posso se estão grandes e mal me dão importância?! Têm seus interesses particulares: um se aventura no cinema, outro na tecnologia, e a mais nova na medicina. Quando eram pequenos, iam para o sítio que tínhamos e amavam ficar brincando colados com o vovô. Íamos à lagoa, fazíamos fogueira à noite, para brincar de floresta; acampávamos para ver o luar e as estrelas.

    Tudo isso se perdeu com o tempo. Parece que têm vergonha de andar com o vovô. Maurício, o mais velho, é quem ainda faz algumas coisas comigo, como ir ao supermercado, ao médico ou algo do tipo. Mas faz um pouco a contragosto, às vezes vai à força – noto, sem ele me dizer nadinha. Nem com os filhos posso contar tanto, não pela má vontade, mas porque trabalham demais, e sou a última opção de atenção. Para complicar mais, meus dois filhos não se entendem, depois de uma briga danada de herança, então, quando temos encontros de família, tenho de chamá-los separadamente, em horários ou dias diferentes. Onde já se viu?! O Natal, de que tanto gostava, na época em que estávamos com a minha amada esposa, é agora um momento triste e enfadonho.

    Os dois filhos e netos passam rapidinho para dar “um alô” e vão curtir em outras famílias, na casa das sogras etc. Salete parece que agregava tudo, era o nosso elo, porque depois de sua ida à casa do Pai a vida se fragmentou em cacos pungentes, inservíveis. Isso não é viagem de um velho louco, mas, sim, de um velho que não tem tanta força para resistir aos acontecimentos. Veja, pedi tanto que meus filhos se entendessem, que cheguei ao ponto de me desligar completamente dessa arenga, para o meu bem. Que se fodam, falando a sério! Imagine quando eu morrer… Tudo irá pelos ares! É um horror viver assim. Suplico a Deus que abrevie a minha dor. Mas estou seguro de que Deus se esqueceu de mim.

  • Reencontros

    Reencontrar alguém é como ganhar presente de Natal antecipado, de aniversário ou de amigo oculto. É como se, de certa forma, fosse possível voltar ao passado, reviver um tempo antigo de alegrias e ingenuidade.

    Outro dia reencontrei uma amiga que não via há três ou quatro anos. Ela é médica e, há vinte anos, ajudou a criar um grupo de teatro para adolescentes. Na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, naquele campus cheio de árvores e flores, vivi alguns dos momentos mais lindos da minha adolescência. Uma vez por semana, às terças, sentávamo-nos no chão com folhas de papel A4 e canetas, escrevendo juntos peças de teatro. Duas vezes por ano, apresentávamos as peças — podia ser no campus da Alfredo Balena, podia ser na Pampulha. Foi ali, no final do ano, na Escola de Enfermagem, depois de uma apresentação, que essa médica fez algo que nunca esqueci: leu poemas em voz alta e nos inspirou a fazer o mesmo.

    Anos depois, num sarau em Santa Tereza, aqui em Belo Horizonte, revi essa médica. Cheguei cedo, escolhi uma mesa e esperei. De repente, a vi entrar com a irmã, que também é poeta. Fui até elas. Nos abraçamos. Sentamos juntos. Foi como se tudo voltasse: escrever peças, apresentações de fim de ano, rodas de conversa — e eu ali, menino de novo.

    Aí pude dizer, como um personagem antigo de Machado de Assis, o José Dias, de Dom Casmurro: “A vida é lindíssima”.

  • Um beijo é só um beijo ou qual é o filme?

    “Um beijo é só um beijo”. Esse é titulo do livro do crítico literário e cinematográfico João Batista de Brito. Editado pela Manufatura, aqui mesmo nestas plagas parahybanas, o livro foi lançado em 2001. Pois é. Eu conheço muito bem o seu autor. Somos, talvez eu mais do que ele, jaguaribenses, do bairro de Jaguraibe, capital da Parayhyba.

    Sabia há muito, uma noticia passada por ele mesmo, que o livro havia sido lançado e muitos cinéfilos e não cinéfilos correram para comprar o dito cujo. Mas, infelizmente, andando por aí, presente no meio dessa gente eu não estava.

     Anos depois, mas precisamente 15 anos após o seu lançamento, por acaso, visitando um dos nossos sebos culturais encontrei o seu – dele – “Um beijo é só um beijo”.

    Antes, só não me lembro de quando nem onde, em papo com o autor, perguntei-lhe onde encontrar o referido, pois, não o tendo até aquela oportunidade, cinéfilo de carteirinha que sou, queria adquiri-lo. A resposta? Esgotou. Nem em casa tenho em duplicidade. Mas, como disse neste parágrafo, depois de muito procurar, finalmente, encontrei o procurado em um de nossos “sebos culturais”.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro fininho, apenas 129 páginas, como deve ser todos os livros lançados em nossos dias. Isso tudo considerando o fato de que o brasileiro ler apenas 4 livros por ano, sem conseguir, por incrível que possa parecer, chegar ao fim dos 4 livros que resolveu ler. Ah, mesmo considerando aqueles considerar aqueles que “caem” no vestibular. Tem mais; desses chegam ao fim de apenas 2,1 livros. Está na pesquisa.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro de pequenas 28 histórias, espécies de miniconto, com cada uma delas, como o autor faz questão de esclarecer na sua apresentação, relacionada a um filme.  Diz mais: é fiel ao filme, mas encontra uma forma criativa de narrar, sem entregar o filme (no sentido do conto) ao leitor.

    Li-o de uma só tirada. É assim que costumo me referir a uma leitura primeira e prazerosa. Ele, porém, o autor, por mais que diga não “entregar o filme” nos seus minicontos, para o cinéfilo, aquele mesmo viciado, a “charada” morre logo nas primeiras linhas. Nenhuma dúvida que o livro intitulado de “um beijo é só um beijo”, também poderia ser muito bem chamado, sem deixar de despertar a curiosidade do leitor, de “Qual é o filme”?

    Uma coisa, porém, mais que ululante e mais ainda que o óbvio que o antecede, é que não assistindo ao filme, por mais que se esforce o cinéfilo, ele não conseguirá “adivinhar” o filme ali transformado em miniconto pelo autor. Verdade. Por outro lado, esse fora da tela, qualquer pequeno cinéfilo tendo assistido ao filme “mincontado”, logo nas primeiras linhas, prestando atenção ao que o “narrador oculto” conta, a charada ou mesmo filme estará resolvido.

    E não é nem pela forma de contar do autor, pois, ma vez que ele, João Batista, tudo faz para esconder o filme “camuflado” nos seus minicontos.  Por outro lado, esse do lado de fora da tela, alguns elementos que ele usa para dar vida a sua narrativa, por mais que se esforce em escondê-los, acaba entregando o filme sem perdão.

    Um exemplo é o conto que deságua no filme Casablanca, “Um beijo e só um beijo”, titulo do livro. Nele, Rick – esse em especial – e Victor, esses dois fortes personagens do drama dirigido por Michael Curtiz, que trazem o nome de Casablanca na pele como tatuagem. E agora?  Só faltou Ilsa. Mas, sendo ela quem narra o conto, seria demais pedir que a própria se identificasse.  Assim a entrega seria, como dizemos por aqui, de bandeja!

    No caso do miniconto “Palavras Cruzadas”, apesar de “suas viagens semanais a Milford”, é a trilha sonora que entrega o nome do filme. E o “marido traído” e perguntando, enquanto faz as suas palavras cruzadas, “Ela gosta de Rachmaninoff, mas por que por a música tão alta?” E a citação do médico que encontra em Milford e com ele jantara?

    Pois é, mesmo sendo um breve encontro, esse ficará na sua memória. Conclusão: só poderia ser Desencontro (Brief Encounter), o filme de David Lean, do ano 1945. Por sinal um excelente e belo filme. O título desse miniconto é um achado -“Palavras Cruzadas”. Um título meio assim como “vidas cruzadas”. Não dá pra esquecer. Fazer palavras cruzadas é uma das manias do marido de Laura (ah, sim, “Laura” também é uma entrega).

    Mas, para ficar por aqui, pois afinal são 28 deliciosas histórias ou minicontos, como ele deseja asism chamar, não se esquecer do Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninoff, acelerado, lembrando o trem da partida do personagem. Em síntese, o livro e João Batista, os minicontos por ele escritos são deliciosos.  O cinéfilo que se preza, mesmo com o “produto” em falta no mercado, como vocês viram, deve procurar. Eu procurei e achei.

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