Crônicas

  • Acaso e correlações à brasileira

    Não há o nostálgico soar do ‘tic tac’ de relógios analógicos, mas a tela mágica do meu notebook indica que já ultrapassa a meia-noite. Desato nós de uma miríade de tarefas quando um barulhinho agudo e oco ecoa por cima da lauda da peça teatral que em breve encenarei, em minha improvisada mesa de home office:

    Uma joaninha.

    O corpinho vermelho hesita em emergir por entre asas a se debater, incessantemente. As características pintas pretas estão lá, e eis uma joaninha dentro da minha casa, a pousar sobre os intrincados nós da minha vida presente! Que auspicioso!, reflito comigo mesma. O exíguo inseto caminha um tanto quanto tremelicante sobre o título do espetáculo, passa pelo meu nome artístico, assinado à caneta (como se eu fosse alguém de prestígio na vida) e desliza para fora dos papéis, alcançando a laminação melamínica da chapa de MDF, o improviso de uma superfície de trabalho. Acima, nas paredes com tinta desbotada pelo tempo, veem-se adesivados o cartaz do espetáculo vindouro, desenhos, rabiscos, várias anotações e medidas que, à primeira vista, não fazem sentido. O ventilador às minhas costas tenta assoprar para longe o calor deste ‘pré-verão’, que veremos, sem dúvida, muito mais forte na próxima estação. A primavera já anuncia sua partida, ela que é a mais bonita e majestosa de todos os quatro ciclos, e soma mais um ano à minha vida – 2023 tem se revelado, especialmente, um ano desafiador e habilidoso na criação de emaranhados labirintos.

    Minha cabeça, que estava a mil há pouquíssimos segundos, reseta a si mesma enquanto observa o inseto — que cai por entre o espaço do MDF e da parede, e retorna, triunfante à marcação cênica iluminada pelos holofotes que são meus olhos.

    Joaninha…, mas… Por quê?

    Por qual motivo este minúsculo ser alado carrega o nome de uma dama? Fosse o início do ano, dirigiria a pergunta ao Google, mas temos o ChatGPT — que a esta hora se configura como uma das mais ilustres companhias, sem externar qualquer traço de cansaço; prontamente recebo um breve relato sobre a afinidade de São João e a dama sobre a minha mesa, Joana (peço desculpas pelo apelo ao vocativo, se o inseto em questão for do gênero masculino): geralmente a Coccinellidae aparece em 24 de junho, onomástico de São João Batista. Em outras culturas é ainda conhecida por “vaquinha de Deus” ou “vaca louca” — mais condizente com seu pouso em minha noite.

    Vaca por conta das manchas/ pintas, sublinha o resumo. E ainda compartilha o nome científico de sua linhagem com outros artrópodes, a exemplo das “marias-fedidas”. E ainda assim é associada a um presságio positivo, vai entender. O fato é que, vermelha como a nova tendência nas passarelas milanesas, “Jo” velozmente se adequa ao layout dos meus dilemas, conferindo elegância à minha noite repleta de inquietações. O silêncio da madrugada amplifica cada movimento, tornando os passos desajeitados da pobre criatura ainda mais evidentes e perceptíveis.

    Se a esta hora, em meio ao meu inferno astral, surpreendida sou pela visita de toda a sorte do mundo, bem…, é como acertar os números na loteria! Persigo os mais próximos, mais emblemáticos e percebo apenas letras. Construo uma lógica e uma contrária, e ainda outra que transforma o alfabeto em uma equação matemática. No entanto, passa da meia noite; a loteria federal sorteia aos sábados e quartas-feiras, já é domingo… Me resta o jogo do bicho, sorteio único domingueiro, na banca do Chico.

    Hoje vai dar vaca na cabeça!

    *Texto escrito originalmente em 12/11/2023 para o Crônicas Cariocas.

  • Por aí

    Todo mortal que se preze já experimentou, em algum momento da existência, o desejo profundo de sumir sem deixar rastros. Não me refiro aqui a nenhum tipo de ideação suicida. No caso em questão, a pessoa deseja apenas evaporar, ela não quer morrer. Pelo contrário, intenciona viver plenamente, começar do zero, porém, longe do cenário no qual se encontra inserida seja por não suportar as pressões familiares, as cobranças sociais, as relações abusivas, as dívidas, a decepção amorosa, seja simplesmente por sentir o esgotamento psicológico que algumas relações provocam ao exigir muito e retribuir quase nada.

    Na maioria das vezes, o desejo de desaparecer nos invade e, depois, catequizados pelas circunstâncias, pelo afeto restante ou pela impossibilidade do feito, ele se esvai. Então, cientes da sazonalidade desse querer, seguimos em frente. Afinal, para que dar espaço ao que não vai acontecer? 

    Acontece que os japoneses decidiram levar isso a sério, e, pelo visto, já dispõem de empresas especializadas no desaparecimento voluntário chamado por eles de “johatsu”.

    O processo é simples: você contrata o serviço e a empresa cuida de tudo para que o sumiço seja bem-sucedido: mudança de nome, de endereço, nova documentação, tudo que for preciso para nunca mais ser localizado pelos indesejáveis.

    É fato que até para escafeder-se com estilo é preciso dinheiro. Caso contrário, o jeito é fazer umas gambiarras com o destino, simular umas saídas à francesa, quando possível, inventar umas desculpas para evitar encontros, mas sem muitas garantias de sucesso na empreitada.

    Por mais que a proposta possa parecer tentadora, confesso que não tenho esse desprendimento. Continuo acreditando que a melhor forma de resolver é ter a coragem de cortar o que não nos faz bem, treinar a arte de dar limites aos sem-noção e construir as fronteiras necessárias à saúde mental. 

    Agora já sabemos: se alguém sumir do mapa, contou com a ajuda dos japoneses.

  • Módicos Médicos

    A discussão em torno da presença de médicos cubanos no Programa Mais Médicos, alvo de retaliações do governo americano sob a alegação de que se encontrariam sob “regime escravo” e a serviço de uma ditadura, é um exemplo infeliz de como o clima de debate ideológico contamina até programas sociais que mereciam uma análise isenta e menos apaixonada.

    Para os apoiadores brasileiros de Trump, por ter sido instituído durante a gestão Dilma e por abranger profissionais originários da ‘execrável’ pátria de Fidel, o programa padece de um pecado original irreparável. Os ‘doutores’ seriam na verdade perigosos agentes infiltrados dedicados a expandir os tentáculos do comunismo internacional.

    Em meio a esse transcendente embate epistêmico-doutrinário, submeto uma banal questão: “A presença de médicos cubanos no programa está dando bons frutos?” Pelo que me informei de fontes fidedignas, os resultados têm sido bons. Se não por outra razão, uma oportunidade única de levar profissionais da saúde a regiões carentes.

    Os cubanos (que representam 10% do total dos médicos do programa), muitos portadores de cidadania brasileira, estão diligentemente cumprindo a missão de promover assistência a tais áreas, propiciando êxito ao programa. Seu objetivo não é fomentar doutrinação marxista. Os coitados emigraram ao Brasil com um objetivo bem mais despretensioso (mas não menos ‘revolucionário’): prestar auxílio clínico a pessoas necessitadas. Não prescrevem panfletos incitando a revolução, apenas receitas de medicamentos e xaropes. São ‘módicos médicos’.

    Por mais que resistamos em admitir, a medicina em Cuba é bastante avançada, e sua excelência é internacionalmente reconhecida, até pela OMS. Deveria ser um privilégio contar com pessoas com boa formação prestando auxílio suplementar a um país que conta com um médico para cada 400 habitantes.

    Considere-se ainda que tais profissionais, em troca de um salário líquido de 12 mil reais, são conduzidos aos mais longínquos rincões, aos quais os ‘filhinhos de papai’, formados nas boas (e caras) faculdades de Medicina, recusam-se a atender, preferindo cuidar de madames hipocondríacas nas regiões nobres das grandes cidades.

    Em 12 anos de vigência do programa com milhares de profissionais atuantes, não se tem notícia de um caso notório sequer envolvendo negligência ou falta grave no atendimento. Deveríamos nos preocupar isso sim com os recorrentes casos de pessoas não habilitadas praticando cirurgias plásticas mal sucedidas em dondocas narcisistas ou com as centenas de casos de pacientes esquecidos em filas de espera de hospitais públicos, à espera de médicos displicentes que não cumprem o horário.

    O programa Mais Médicos tem atendido com louvor aos propósitos dos países signatários. Serve a Cuba que tem a possibilidade de empregar profissionais formados em suas faculdades de Medicina, obtendo uma remuneração adequada para os padrões daquele país. E serve ao Brasil que consegue oferecer serviços de saúde a populações abandonadas pelo poder público. Não há qualquer razão plausível para rever esse acordo, benéfico a ambas as partes.

    Milhões de brasileiros seriam prejudicados pela saída desses médicos. São pessoas simples de comunidades afastadas que sentirão saudades dos cubanos.  Não sabem onde fica o Caribe e não entendem nada de política. Se privados do atendimento, talvez comecem a pensar a respeito.

    Talvez se fizesse melhor se, ao invés de questionar a presença desses humildes profissionais que estão exercendo uma relevante função social, empenhasse-se em nos livrar de políticos cuja ausência ninguém iria notar, a não ser pela melhora na situação das contas públicas.

    Somos vítimas de uma incurável epidemia de insensatez. Deve haver realmente algo muito doente nesse país insano que assiste impotente à evasão de milhares de cérebros privilegiados em busca de melhores condições de trabalho no exterior, enquanto discute dispensar serviços de médicos apenas por sua nacionalidade.

  • O Que Serei Quando Eu Crescer?

    Não… não vou escrever sobre os influencers… nem falar da infância usurpada… tampouco dos “responsáveis” pais… nem se o assunto da semana atende à pauta X ou Y.

    Como bem disse uma colega escritora: “tudo parece ser mais do mesmo.”

    Também não vou falar sobre coisas insanas, ou assuntos pavorosos. 

    Mas a minha inquietude em ver as letrinhas uma atrás das outras, formando palavras, enfileirando emoções, causando aflições, não é fácil de ser administrada.

    Sendo assim, fui lá em meus escritos antigos buscar algo inusitado ou diferente, um “achado”, talvez.

    Minha mente-esponja absorve muito, e dessas memórias escrevo contos: às vezes bobos, outros nem tanto.

    Portanto, a minha crônica semanal será um desses contos singelos, da idosa atual olhando a menina ingênua e curiosa do passado:

    O Menino

    Na missa, ajoelhado, mãos postas, olhos fechados, ele rezava.

    A cena se repetia todos os domingos. Roupa branquinha, cabelos pretos cacheados, olhos pintados, ele rezava.

    A garota se encantava com a sua postura e imaginava qual seria o seu pedido. Não, ela não tinha alcance para se comover com a prece em si, pois tinha uns sete ou oito anos. E, nessa idade, apesar da beleza da cena, o que mais a impressionava eram seus olhos. 

    Por sobre as pálpebras fechadas, ela via o risco preto do lápis.

    E durante a semana o esquecia.

    No domingo seguinte, lá estava ele outra vez: olhos fechados, olhos pintados.

    Com a curiosidade própria das crianças, a garota tentou saber com a irmã por que ele usava “coisas de moças”.

    Levou um pito e foi mandada calar a boca. Nenhuma resposta, nenhum crédito.

    Passaram-se os anos, e ela nunca mais o viu.

    Era meados dos anos 60, em uma cidadezinha provinciana.

    O tempo passou, e a cena foi ficando guardada em um canto chamado memória…

    Em uma cidade pequena, na única igreja local, frequentada pelos idosos de famílias tradicionais, pais e mães jovens com suas barulhentas crianças, mocinhas faceiras, beatas e solteironas, um rapazinho ia à missa de domingo, com os olhos maquiados…

    Era uma grande demonstração de coragem, numa época tão longínqua e num interior tão conservador!

    Anos depois a garota soube que o menino audacioso e corajoso se tornou um ótimo professor e diretor da escola pública do município.

    E a curiosidade da garota se transformou em respeito e admiração.

    Fim.

    Pronto! Com esse pequeno conto minhas palavras voltaram. Não sobre os modismos, as pautas repetidas, nem o que se diz nas redes sociais. 

    Foram lembranças que, ao surgirem como um “serendipity” iluminaram o presente e deram novo fôlego à minha escrita.

    Confesso, porém, que não há como apenas contar algo do passado, sem fazer um paralelo com os jovens que hoje ocupam os noticiários.

    A ousadia e a inquietude da juventude são normais, até necessárias.

    Mas entendo que a formação e os valores recebidos em família são os alicerces para formar um adulto saudável e responsável.

    O dever, a consciência moral , o respeito não são modismos dispensáveis. 

    Há muito tumulto, no que estamos vendo e vivendo, pois o ser humano parece ter se esquecido de que a dimensão da vida é muito maior do que o sucesso instantâneo e a aprovação midiática.

    Nesse papel apenas nos tornamos marionetes, ávidos por validação, a qualquer preço.

    E penso, olhando para trás e para frente, que talvez a resposta à velha pergunta “O que serei quando eu crescer?” esteja menos em escolher uma profissão e mais em perguntar: “alguém um dia contaria a história da minha vida, com admiração e carinho?”

  • Uma Noite Alucinante

    zzzzzzzzzzzzz…..

    zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…….

    Júlio mexeu na cama enquanto se recusava a abrir os olhos. “Pernilongo maldito.” Pensou tentando não despertar por completo.

    SLAP! Uma batida de palma na escuridão, inútil. O diabo do mosquito pousou em seu nariz. “Isso é um despeito.” SLAP!

    “Aí!” Gritou enquanto massageava o nariz e abria os olhos contra sua vontade. Tateou ao lado da cama em busca da raquete. “Agora vocês vão ver seus filhos da puta.” 

    VUSH, VUSH, VUSH. Nenhum barulho; nada…

    zzzzzzzzzzz, Júlio pula da cama irritado e acende a luz. Seus cinco graus de miopia o impediam de distinguir qualquer coisa além dos móveis, ele se arrasta até o banheiro, resmungando enquanto coloca sua lente. Vlad, seu buldogue o encara sonolento, se levanta sacudindo o corpo e desce pela escada recém comprada pela internet seguindo o papai.

    A lente úmida encontra a retina e Júlio se olha no espelho, dezenas de pequenas marquinhas vermelhas cobrem todo seu rosto enquanto a veia da sua testa começa a pulsar, o ódio surgindo de suas entranhas. Ele olha as horas.

    03:15 cedo demais para acordar, tarde demais para voltar a dormir, levantava às seis para passear com Vlad antes do trabalho. Toda sua rotina arruinada por aqueles malditos sanguessugas barulhentos. 

    Furioso, irrompe pelo quarto buscando a raquete, mas seus olhos se arregalaram entre a surpresa e o medo. Milhares de pernilongos vagueavam pelo ar, outros parados na parede, alguns pousados sobre os móveis. Seus dedos se fecham ao redor do cabo e ele começa a balançar a esmo a raquete elétrica, como se estivesse segurando uma espada em um campo de batalha medieval. 

    Vlad corre pela escada, subindo na cama e se juntando no que acredita ser uma nova brincadeira. VUSH, VUSH. NHAC!

    Os olhos de Júlio arregalam ao perceber que Vlad acabara de abocanhar um pernilongo, os dois se olham nos olhos encarando-se por alguns segundos antes do pequeno animal abrir um sorriso e colocar a língua pra fora. Estava inchada.

    O ódio atravessa pelos poros do homem que grita de raiva enquanto continua a matar os mosquitos até que  a bateria da raquete acaba. Furioso, ele começa a usá-la como um martelo, esmagando os pernilongos ao invés de fritá-los com a eletricidade. Um sorriso sádico começa a se formar em seu rosto, uma crueldade que nem mesmo Vlad, sempre tão próximo e tão atento a cada expressão e tom, nunca vira.

    Assustado, o buldogue sai do quarto, deixando Júlio e seu ódio sozinhos com o inimigo. “Morram malditos!” Ele grita em plenos pulmões enquanto esmaga mais uma dezena de pernilongos. “Vai dormir filho da puta!” Uma voz aguda de outro apartamento no prédio urra.

    Percebendo um pernilongo perigosamente perto de seu rosto, Júlio abre a boca e usando a técnica ensinada por Vlad o abocanha. Sente um gostinho de sangue, gosta. Abandonando a raquete ele começa a pular atrás dos mosquitos, caçando-os com seus dentes, engolindo seus corpos inteiros, dois, três, cinco, dez por vez. O sangue se misturando a saliva em seu sorriso macabro.

    Ele arranha a própria pele se coçando cada vez mais, as unhas ferindo a pele, rasgando a carne. NHAC! Júlio abocanha mais uma dezena de pernilongos. Coça a pele, rasga a carne, morde o bicho, o sangue deles se misturando ao seu.

    “Ahhhhhhhhh” Ele urra arrancando um pedaço de seu braço revelando uma outra pele, uma outra forma, ao invés de um braço, uma pata. Seus olhos arregalam aterrorizados.

    Ele senta uma coceira nas costas e não conseguindo se segurar usa a grade da raquete para coçá-la, esfrega e esfrega, com força, violência, ódio.

    Um par de asas rompe por suas omoplatas, elas batem 

    zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

    seus pés saem do chão, ele flutua. Sorri. Engole mais pernilongos enquanto se despe de sua carne e forma, arrancando por último seu rosto, nenhum outro vestígio de humanidade.

    Vlad volta ao quarto, preocupado, apenas para encontrar um enorme mosquito, o encarando com aqueles olhos gigantes, aquelas presas prontas para consumir sangue. Ele late, uma, duas, três vezes.

    O que era Júlio olha o buldogue à sua frente e pousa ao chão. 

    Silêncio, não haviam mais pernilongos no quarto. Vlad late novamente subindo a escada até a cama, calmamente deitando em seu lugar favorito. 

    Ele vê a pata gigante daquele ser se aproximar de sua cabeça, fazer-lhe um carinho. Ele arfa antes de se ajeitar novamente para dormir. Seu olhar acompanhando aquela figura que encarava a janela como se questionasse seu destino.

    Vlad late e o enorme pernilongo vira aquela cabeça com olhos muito grandes para ele. Late novamente.

    O pernilongo então fecha a janela e se espreguiça ao lado do buldogue. Talvez ainda conseguisse dormir uma horinha antes de acordar.

    FIM

  • “Influencers” e que tais

    O ser humano tem dificuldade de pensar ou agir por conta própria. Necessita de quem o oriente, sugira um roteiro seguro nos descaminhos da vida. Essa característica da nossa espécie é que propicia o aparecimento de orientadores espirituais ou guias de comportamento.

    Não falta quem se aproveite do nosso natural desemparo para nos vender fórmulas ou manuais de conduta, nos quais estaria a chave para a conquista da felicidade. Só que esse caminho não existe fora de nós; deve ser construído por cada um. Nenhum guru conhece das pessoas o que elas intimamente são, por isso não pode apontar a ninguém o caminho que as faça felizes.

    Geralmente os que se dispõem a isso cobram bem pelos conselhos — o que é compreensível; ninguém, afinal, valoriza o que lhe é dado de graça. O problema é que eles ganham por vender aos outros ilusões. Pode-se alegar que muitos preferem mesmo se iludir a enfrentar a dura crueza da vida. Querem que lhes ditem os caminhos, livrando-os da difícil tarefa de fazer escolhas. Há nisso, porém, um grande risco; o medo de se perder pode acabar deixando-os na dependência de algum perdido.

    O mundo digital fez aparecer uma nova modalidade de guru — o “influencer” (grafado em inglês para dar mais prestígio). Que vem a ser ele (ou ela)? Como o nome diz, é uma pessoa que se propõe a nos influenciar em algum domínio do saber ou do comportamento. Também (ou sobretudo) pretende nos orientar quanto às escolhas de consumo — o que comprar, de que marca, quando enjoar de um produto e partir para outro. O “influencer” se aparelha para nos ditar o que devemos fazer (e como) a fim de adquirir habilidade em determinado setor e conquistar o almejado sucesso.

    “Sucesso” é uma palavra-chave no vocabulário deles. Não bem-estar, ou felicidade, mas esse termo que bem resume os anseios de quem vive numa sociedade competitiva e marcada por signos de ostentação como a nossa. O sucesso é um emblema exterior; dimensiona-se mais pelo que o indivíduo aparenta do que pelo que ele é.

    A internet, se não criou, multiplicou o número de indivíduos com essa função. Há “influencers” para todos os gostos (e desgostos). Eles querem sentir por nós, mostrar que a insatisfação com a qual levamos a vida
    decorre de não termos despertado para as atitudes corretas a tomar — atitudes essas que só eles conhecem.

    Não descarto a possibilidade de que haja entre pessoas dessa estirpe as bem-intencionados. As que se comprometem com uma causa, mesmo sendo ela a do enfadonho politicamente correto. Mas fico com o pé atrás. Não suporto a ideia de que tirem do homem a maior riqueza que ele tem — a de pensar por si mesmo.

  • Comer, morar e sobreviver!

    Vivi minha primeira vez em muitas descobertas, durante essa existência por vezes cansada de novas buscas. 

    A primeira viagem, a visita ao Museu, o primeiro castelo na areia, a roupa nova no verão. A primeira comunhão, e a festa de minha formatura na faculdade, foi inesquecível.

    Porém, muitos rostos que talvez tenham cruzado em nossa calçada, nem sequer sabem o que tudo isso significa, ou como poderia ser realizado. Porque ainda vivem em condições análogas à escravidão. Não consigo acreditar que escrevo essa frase em 2023, após Cristo nascer. São pessoas que não tiveram oportunidade em participar em nada similar a uma das sete gerações de uma família feliz e efervescente como foram os Buendía, descritos no livro “Cem anos de solidão”, por Gabriel Garcia Marques. Os escravizados levaram vidas lamentadas pelo isolamento, descaso e algo muito mais doído além do desumano. Alguns encontrados nessa condição são quase idosos, e com frequência acabam em abrigos públicos, onde iniciam sua vida social na busca de laços para uma reconstrução emocional. Quando são jovens e de centros urbanos, recebem cursos profissionalizantes na tentativa de encaminhar uma carreira.

    O rosto do trabalho escravo contemporâneo no Brasil, ainda é masculino e predominantemente da zona rural Brasileira. Existe uma coordenação Nacional de erradicação do trabalho escravo e enfrentamento ao tráfico de pessoas (Conaete); pertence ao Ministério Público do Trabalho. Somente em 2022, foram encontrados pela fiscalização, 2600 trabalhadores no Brasil, em condições degradantes de trabalho ou em jornadas exaustivas. Imaginei que somente os babuínos-sagrados, que vivem no Zoológico de Melbourne na Austrália, fossem as únicas criaturas capazes de cometer crueldades uns com os outros. Os pedidos de ajuda vem inesperadamente de ambos os lados, e um fio de esperança se mostra como sendo a única saída onde essas pessoas se agarram, cheias de fé de que uma boa alma possa colaborar com seu novo destino. Ter uma profissão, uma nova família, amigos, um sonho que muitos que se soltaram das garras de um caminho cruel, puderam usufruir como cidadãos de bem. A abolição ainda não encerrou, ela aconteceu apenas legalmente, é muito recente, e o Brasil ainda não reparou os 380 anos de escravidão; há muitos resquícios, e as necessidades em comer, morar e sobreviver levam o indivíduo a se submeter. Uma lástima que não resolvemos isso antes, e também não erradicamos a fome.

  • Minha luta

    Não sei se ainda estou perdida. As guerras de minha mãe e de meu pai devem ter afetado o meu psicológico severamente. Eles digladiavam com tudo, entre si, com o mundo. Tinham trabalhos que odiavam. Chegavam a casa resmungando ou gritando. Quase sempre eu era bucha de canhão. E olhe lá quando não me chamavam de menina mimada, sem ver para quê, e eu pensava que era justamente pelo fato de não me meter nessas tragédias diárias. Até que se separaram e eu dei graças a Deus. Pensei que as brigas iam cessar. Mas morar com minha mãe não foi a melhor opção — aliás, não tive opção. Minha mãe me pegava para Cristo e me impunha mais obrigações com a casa: arrumar, limpar, deixá-la brilhando. Eu era uma verdadeira cinderela, uma filha bastarda, só pode. Logo meu pai se amigou com uma gentinha e sumiu. Pelo menos ele não dava as caras para me aporrinhar com mais demandas. Se ligava, era uma vez perdida, para perguntar como eu estava, mas eu sentia que a pergunta era clichê, de praxe, só para demonstrar preocupação. Eu estava exausta e desamparada. Minha mãe ficou solteirona, reclamando da vida, culpando o meu pai por tudo que lhe acontecia. E o pior, foi mal-acostumada: não sabia mexer no computador, não sabia fazer compras virtuais, mal sabia usar o celular. Então, para tudo demandava a minha presença, e eu era obrigada a reparar as suas deficiências. Aos dezessete, tive a oportunidade de morar com a minha avó, e agarrei com unhas e dentes. Foi o momento para descansar e estudar. Minha avó, sim, foi minha mãe, cuidava da minha alimentação, se preocupava realmente comigo, com o meu bem-estar, com meus estudos. Inclusive, nessa época, me lembro, ganhei peso, e fui obrigada a me inscrever numa academia — no fim, foi bom porque me desopilava e via os gatinhos do bairro a que acabara de chegar. Não passei de primeira no vestibular para Odonto. Teria que fazer numa universidade pública. Tive mais tempo de estudar e, enfim, passei no ano seguinte. Mas ao longo da faculdade sentia um vazio, uma inadequação, como se tivesse feito a escolha errada. Seguiria a sina dos meus pais? Fiquei com medo de mudar de curso. Sempre gostei de literatura e tinha uma vontade velada de fazer Letras. Mas primeiro devia me formar em Odonto, por pura vaidade minha e pelo que os outros iriam dizer. Formei-me e trabalhei seriamente no ramo por dez anos. Depois resolvi fazer Letras, era uma paixão. O tempo estava escasso, a vida cansativa, mas eu me divertia. Meus pais só tinham orgulho da filha cirurgiã dentista — enchiam a boca para falar —, mas, de resto: nada. Não contribuíram com a minha formação. Pensando melhor, acho que me encontrei. Foram anos de luta até me formar em Odonto e em Letras. Por enquanto, Letras é um hobby. De uma coisa eu sei: os caminhos ainda estão abertos. Esqueci-me do amor, de amar. Talvez ainda haja chance para isso.

  • O Prazer de Desviar

    Não sei quanto a vocês, mas há palavras que me cansam só de ouvir. “Focar”, por exemplo. Palavra querida de coachs e gurus, parece um cabresto moderno: manda olhar sempre na mesma direção, quando é das distrações que a vida se enche de beleza.

    É como se, nos últimos tempos, quiséssemos eliminar do mundo todos os imprevistos: o botão da camisa que arrebenta, o carro que passa veloz numa poça d’água, molhando nossa roupa de lama, o outro que fala alto no ônibus e desconcentra a leitura. A vida, nessas horas, parece mostrar quem manda — que a gente não a controla, apenas se adapta, improvisa.

    Outro dia, num vídeo no YouTube, um psicólogo dizia para o espectador: “Você não pode namorar agora. Está ‘casado com seu mestrado’, tem que renunciar.” O rapaz estava com uma moça, mas era claro para quem assistia que ele estava sem tesão, que a mulher não o empolgava, que o coração não batia. Ele se enganava: “Estou casado com meu mestrado.” Mal sabia que o coração não conhece foco, o tesão menos ainda; é ele quem manda — e as surpresas da vida que dão as cartas.

    E aquela gente que programa as leituras para o próximo ano, para a próxima década, para as outras duas: “Agora, estou focado em ler os contemporâneos, agora, nos clássicos.” E se surgir algo mais interessante? Não pode?

    Tem também a pessoa que decidiu, sei lá por que cargas d’água, que precisa emagrecer. Você a convida para um restaurante novo, quer apresentar um sabor diferente, um vinho, um prato… e ela responde: “Mas agora, estou focada em emagrecer, perder peso, é minha meta do ano.”

    É como se, dentro dela, houvesse um Galvão Bueno gritando: “Foco, campeão! Não perca sua meta, não desista dos seus sonhos, dos seus objetivos.”

    Mas, como disse antes, a vida tem sempre razão. Ela muda, é imprevisível, escapa do nosso controle. Só que também traz surpresas boas. Um amor que surge de repente, a possibilidade de uma viagem, uma torta de chocolate que enche a boca d’água, um cheiro delicioso de café. Nesses momentos, pelo menos eu me permito gritar: “Dane-se esse tal de foco.”

    Um cheiro delicioso de café que a gente sente do outro lado da rua.

    Claro, na vida, precisamos fazer escolhas. “Ou isto ou aquilo”, como naquele poema de Cecília Meireles. Nem sempre dá para fazer tudo; escolher uma coisa é, às vezes, desistir da outra. Mas que saibamos que escolhemos — e, se quisermos, possamos chutar tudo para o alto se um caminho mais interessante surgir. Não precisamos que ninguém buzine no nosso ouvido: “Foco, foco.”

    Fazemos escolhas, sim. Sempre. Mas sempre temos a oportunidade de mudar, de fazer diferente, de deixar o coração querer outra coisa. É essa liberdade que torna a vida tão bonita.

  • Poema #06: Eco

    talvez uma nota só
    surge avulso na meia luz
    monótono feito o canto
    que se destina a embalar
    o teto o chão as paredes

    a coreografia do pó
    projeta no espaço em branco
    o sonho de não morrer
    o ritmo é a bolha que estoura
    no silêncio da distância

    rebate elástico o nó
    duelo que prende a resposta
    ao mesmo som da pergunta
    na teia da repetição
    a voz desafia o infinito

  • Poema #35: BREVE E LONGÍNQUO

    “… você marcou a minha vida, viveu, morreu na minha história, chego a ter medo do futuro e da
    solidão que em minha porta bate… eu corro e fujo destas sombras, em sonhos vejo este passado, e
    na parede do meu quarto, ainda está o seu retrato, não quero ver pra não lembrar, pensei até em
    me mudar… lugar qualquer que não exista o pensamento em você”.

    Edson Trindade/Tim Maia

    Breve, como breve é a luz da lua cheia
    Durante o eclipse solar da vida humana.

    Breve, como breve é a sombra da noite
    Durante o sono da vida como um lençol.

    Breve, como breve é o sonho do amor
    Durante o intervalo das ilusões perdidas.

    Breve, como breve é a existência do corpo
    Durante o trajeto sobre o planeta terra.

    Breve, como breve é a presença do espírito
    Durante o convívio quando se pensa em anjos.

    Longínquo, como longínqua é a essência dos seres
    Durante o percurso no trafegar das ruas atribuladas.

    Longínquo, como longínquo é tudo o que se vê
    Durante o passeio da câmara em panorâmica no alto.

    Longínquo, como longínqua é a felicidade íntima
    Durante a procura pelo convívio ideal a mais de um.

    Longínquo, como longínqua é a música do Yes
    Durante o embalo da paixão não correspondida.

    Longínquo, como longínqua é a ideia de um Deus
    Durante o desespero batendo nas grades da prisão.

    O Jardim Simultâneo

  • Testemunho de um incêndio criminoso

    Eu não me lembro desde quando estou aqui. Não aprendi a medir o passar do tempo por calendários. Sei que é outra, a época, pela camada que veste apenas parte da minha pele, a que cobre o meu esqueleto. Essa é a que tem de estar a serviço da moda, das decisões políticas: minha pele é sempre da cor do momento. Enquanto isso, minha parte principal, a mais quente — e contraditoriamente, segundo minha natureza humana, a mais íntima e mais exposta, órgãos e sentimentos — segue descamadando, arranhada, soltando pedaços; Meu quinhão arcado e inflexível, frio inclusive ao toque, é o que parece rejuvenescer e ser digno de alguma coisa.

    De onde estou, vivo uma vida isolada, mesmo imerso no caos da vida, no burburinho. Minha principal alegria é o observar. Comportamentos, mudanças climáticas, o lugar tornando-se memória. Nada me envolve em regozijo mais profundo.

    Da mesma forma que me restrinjo na resposta sobre o advérbio temporal do aqui, não sei precisar a data em que iniciei o meu ofício. Muito novo, trabalho mais do que infantil, disto tenho certeza: prematuro. Cortaram minha ligação materna sem que eu tivesse a chance de compreender o básico da vida; me aventuraram por outras paragens, mesmo que minha sina seja sempre estar fixo. Sempre atento. Minha dádiva e, por vezes, castigo.

    Castigo como o que aconteceu recentemente. E me corta o coração, mesmo que física e até subjetivamente eu seja desprovido de um, eu tenho, sim, uma paixonite secreta por um vizinho. Sujeito intrigante, taciturno; todo conhecimento, todo em busca de atenção. É considerado ultrapassado, vive encardido, poerento. Há quem diga que parou no tempo, dono de um linguajar e um traje no mínimo vintage — eu o considero impecável. Nunca trocamos palavras, nem toques. Sonho com o dia em que alguém o escolherá e virá até mim, abrirá inebriado sua pele em camadas e, por um instante – que será todo o meu mundo —, o deixará sobre mim. O ápice da minha existência seria entendê-lo assim, aberto, nu, sua lombada roçando minha pele áspera, a espalhar letras e calor. Nesse toque, eu estremeceria inteiro; meu corpo de madeira se partiria em arrepios. Ouvir-se-ia o meu estalo íntimo, a dilatação do que me constitui, enquanto eu gozo no segredo que só os mobiliários públicos conhecem. Sou um banco, ele, um livro – quase acervo vitalício do sebo do seu Jorge. Vitalício.. quase…

    Por muito tempo meu deleite foi paquerá-lo de esguelha, seu perfil visível quando a barraca metálica estava aberta, ele sempre posto em uma posição, nem de destaque, nem de esconderijo.

    Cachorros marcaram-me como seu território. Compras foram descansadas sobre mim. Marginalizados sociais me tomaram como cama — mais de uma vez. Conversas animadas, mãos bobas, certas de que ninguém testemunhava as indiscrições do desejo humano — por vezes traições conjugais. Brigas, estilhaços de garrafas. A tinta que sempre vem marcando o fim dos mandatos de certos prefeitos, em busca de reciclagem de votos e de marcar fisicamente o que fizeram. As flatulências de crianças e idosos, que impregnam eternamente minhas fibras, chuvas e sol a pino. Tudo me marcou menos do que a existência daquele volume ameaçado de extinção.

    Até a madrugada mais fria que já presenciei. E se tratando de Nova Friburgo, esse relato é alguma coisa. Começou sem que eu entendesse o que acontecia, eu, sonolento, ainda processando a chuva de verão em pleno inverno, dias antes, repleta de raios e granizo. Quando compreendi que pernas passavam cheias de más intenções. As solas dos sapatos, ainda as vejo, como se fosse agora; as reconheceria instantaneamente.

    Em instantes, fui trazido ao momento presente ao ouvir o estalo que mais arrepia a alma de quem é feito de madeira: o crepitar do fogo. A barraca, fechada, brilhava com a luz crescente. Foi rápido demais. Foi intenso e maldoso demais. Eu tentei gritar por ajuda, mas, paralisado, não tenho voz. Senti meu livro agonizar. Eu agonizei. Minutos lentos e horripilantes que se intensificaram com labaredas bailarinas, o sorriso no olhar meliante, a fuga traiçoeira e o barulho das sirenes quando eu já quase desmaiava de pavor.

    Eu vi tudo, sob angulos melhores do que o das cameras, estas mais silenciosas quando solicitadas do que minha imobilidade de banco de calçada. Ninguém nunca me vê como testemunha. De mim, nádegas a declarar.

    *Imagem retirada do site: https://ecoserrano.com.br/tag/incendio-quiosque-de-livros/

  • Cuidado: mosca na sopa!

    Em 1974, Raul Seixas lançou a música “Eu sou a mosca que pousou na sua sopa”, marco de um período sombrio da ditadura no Brasil. Essa metáfora é genial, e tem sido aplicada a diferentes situações, nem sempre políticas.

    Quem não se lembra de moscas que pousaram em sua sopa para estragar a alegria, ou que estão sempre zumbindo no seu ouvido de forma desagradável?

    Pois é, eu aqui consegui identificar diferentes tipos de “mosca na sopa”. Um primeiro tipo é a mosca Desmancha-Prazeres. A inocente criatura vem contar que arranjou um novo emprego, depois de um bom tempo procurando, e está entusiasmada porque é numa boa posição e com ótimo salário.

    A Mosca:

    — Olha, fico feliz com a sua conquista, mas pensou bem antes de aceitar? Veja só: a empresa é longe, portanto vai ter que pegar três conduções. E o pior: Pelo horário que terá que entrar no trabalho, os ônibus estarão superlotados!

    — Não quero te assustar, mas o entorno é muito perigoso, se tiver que ficar até mais tarde trabalhando pode ser assaltada. E vai em frente no rol de desgraças, sempre com uma postura de quem está prestando um favor. Sem dúvida, uma mosca com alma de vespa, pica só para irritar.

    Outro tipo bastante comum é a Mosca Inconveniente. (o que, convenhamos, já é quase um pleonasmo).

    Reunião de família, todos à mesa, conversando sobre assuntos gerais, leves, próprios para um momento em que ninguém quer levantar temas polêmicos ou constranger alguém. A dona da casa preparou opções de cardápio, pois a sobrinha está levando o novo namorado que é vegano, e todos já estão cientes do fato.

    Eis que surge a Mosca:

    — Pois é, li recentemente em um artigo que veganos e vegetarianos têm maiores riscos de deficiência de ferro, e isso pode causar não só anemia como a diminuição da resistência às infecções por bactérias e vírus, como é o caso do Coronavírus. Pronto: a sopa azedou.

    Tem também aquela Mosca do Contra. Do tipo “Hay gobierno soy contra”. É aquele perfil de pessoa que não importa qual a sua colocação – ela vai sempre se posicionar ao contrário. Se o programa é, por exemplo, ir jantar em um restaurante italiano.

    A Mosca:

    — Ah não… italiano nem pensar. Por que não vamos a um japonês? Voto vencido, vai emburrada e dá um jeito de dizer que a comida estava péssima, implicar com o garçom e assim por diante. Se no dia seguinte, para agradá-la, o grupo propõe o japonês, ela então quer ir a um fast food. Se num passeio todos querem seguir pela trilha, ela diz que só participa se for caminhando pela estrada. Cuidado com essa, pois voa sempre na contramão!

    E tem a Mosca Negacionista…

    Se Raul fez da mosca na sopa uma bandeira contra a ditadura, eu faço dela um alerta para esses tipos que vivem zumbindo por aí, em ouvidos pouco dispostos à democracia.

    E você, qual mosca já pousou na sua sopa?

  • O Homem Perverso

    Esta é a história de um homem perverso! Mais um homem perverso…

    O que há de mais trágico na humanidade é que, de tempos em tempos, sempre um homem perverso assume o controle das coisas! 

    E, como todos os homens perversos, quer controlar todas as coisas!

    Como todos os homens perversos, não gosta de outros homens, seus semelhantes! Gosta de sua própria imagem! Gosta da adulação!

    Como todos os homens perversos, detesta livro, prefere queimá-los, comê-los, rasgá-los…

    A sua coerência é a bestialidade, por isso, odeia as palavras e o diálogo! Prefere sempre o monólogo!

    Como todos os homens perversos, dissolve melodias! O que interessa é apenas uma nota, a sua própria!

    Detesta arte e cultura, pois simplesmente, não aceita que a diversidade é essência de todo artista!

    Como todos os homens perversos, se sente superior mesmo aos outros, considerando toda e qualquer criatura que não possua o seu padrão, um ser fraco, inútil e, portanto, descartável!

    Assim, engolindo pessoas e ideias, atropelando bom senso e razão, este novo homem perverso estabelece mais um tempo de loucura! Mais um tempo de perseguição!

    Por fim, como todos os homens perversos, não sabe parar e não para!

    E, ao não saber ou não querer parar, leva o mundo para a estupidez da guerra, para a tragédia, para o caos…

  • Vovós tagarelas?

    Minha mãe chegou à velhice. Só pode! Anda muito pensativa e, se a gente pergunta, ela resmunga. Não quer ser interrompida em seu silêncio. Sabe por que eu sei? Porque me lembra a minha avó, a mãe dela. Ela também passou a ser econômica com as palavras.

    Poxa, ela era tão nossa amiga! Perguntava da escola, das bonecas, das colegas de sala. Contava coisas engraçadas, como quando pescou um peixe com o pai dela. Que o bicho se debatia no anzol e ela não sabia dizer como ,  mas o danado caiu em cima do seu pé. E ela falava que o peixe tinha furado o pé dela. A gente, com cara de espanto e sem acreditar, insistia: que peixe é esse, vó, que tinha bico?

    E ela ia lá dentro buscar um livro com um desenho de peixe espada, só pra dar efeito na história.

    — Olha aqui, Anita, como existe peixe com bico!

    Nisso, se passavam os dias, e era muita coisa que vovó contava. Como quando o neguinho do pastoreio salvou um menino que se perdeu em meio à boiada; 

    — O menino subiu na cerca e, depois, em cima da porteira pra ver a boiada passar.

    Ela começou:

    — Não tinha perigo, os peões passavam por ali sempre e sabiam bem dominar o gado, pra não estourar;

    — O que é estourar, vó?

    — É quando acontece alguma coisa que faz os animais se assustarem e sair daquela espécie de procissão por onde eles vão viajando. Estourar uma boiada é a pior coisa que pode acontecer! Esparramam, entram no mato, pisam em plantações, nem queira saber o quanto dá trabalho e problemas um estouro de boiada. Pois então… nesse dia não houve estouro. Mas houve um redemoinho de areia que tapou os olhos dos peões e o gado foi para o lado da cerca onde estava o menino. Quando passou essa espécie de ventania e os vaqueiros conferiram se estava tudo bem com o gado, deram falta do menino em cima da porteira. Peões são responsáveis por tudo que acontece no percurso do gado. Aí começaram os gritos pelo menino. Homens voltavam lá ao fim da boiada, outros iam para o lado da cerca, e nada do menino. O chefe da comitiva tocou o berrante, parou toda a tropa e a boiada, desceu do cavalo, ajoelhou-se no chão e pediu ao neguinho do pastoreio que mostrasse onde estava o menino. Mal terminou a oração, o gado saiu de um lado e abriu-se uma clareira. Bem ali, no mourão que segurava a grande placa de aroeira com o nome da fazenda ouviram o choro do garoto. Ele se desequilibrou e caiu de uma altura de três metros. Estava ali apavorado até que foi salvo pelo neguinho do pastoreio. Apavorados ficamos nós só de imaginar o acontecido!

    Contou também sobre existir galinhas tão felizes que botam  dois ovos por dia; e que ela aprendeu a ser costureira  fazendo à mão roupas de bonecas. 

    Nós tínhamos nela uma enciclopédia, uma contadora de histórias, uma defensora, uma amiga adulta. A diferença de idade não nos tornou estranhas.

    Com o tempo ela mudou. Ou nós mudamos. Sei que acabaram as conversas. Como um fogo vai perdendo as labaredas, depois o vermelho da brasa, até ficar tudo cinza, ela saiu de cena. 

    Agora parece que estou revendo esse filme. Um filme em que sinto minha mãe muito calada. Também não sou mais uma menina. Tenho filhas e filhos. Outra geração. Não olham ou cuidam, ou convivem com os idosos. Mas ela mora com minha irmã e temos ainda o costume antigo da família. Nos reunirmos à tarde para tomar um chimarrão e conversar.

    Como eu percebo agora, minha mãe não é mais a mesma; tornou-se coadjuvante.

    Fala pouco, como se não valesse a pena falar; como se ao calar-se ela ficasse melhor.

    Como se não houvesse nada a ser dito.

    — Que tá pensando, mãe?

    — Nada, ela responde.

    O médico nos aconselhou a estimular a conversação.

    Minha irmã Laura leva um vestido para pedir uma opinião, eu falo onde vamos no final da semana, e vamos colocando assuntos para mantê-la tagarelando com a gente.

    Eu a conheço bem. A busquei e levei ao médico  por muitos anos. E sabia quais assuntos a interessavam. Não falava de pessoas. Falava de mundo, de histórias, de imaginação. 

    Sentada na sala de costura de Laura, dando seguimento à profissão da terceira geração de mulheres da família, buscamos assuntos.

    — Mãe, já pensou as 24 horas serem só dia?

    — Eu gostava. 

    — É mesmo, mãe?

    — O dia é bonito, tem clareza, tem luz própria. Noites não me atraem. Escuro, barulhos característicos como o dos grilos, das corujas, os latidos dos cães no silêncio da escuridão. O amor dos gatos com miados, uivos, lamentos. Os desiludidos, bêbados, ou miseráveis saem mais à vontade no escuro da noite. A noite se dispõe às lembranças tristes, saudades longínquas, arrependimentos.

    Elas não têm belezas que possam tocar a alma. Quem diria da noite: “vamos ali ouvir os grilos”. Ela falava já com a voz mais baixa, como quem conta segredos.

    — Verdade, respondeu Laura, entre uma arrancada e outra nos pedais de sua máquina de costura.

    — As noites de luar são bonitas. Nos campos, então. Mas duram pouco. O dia convida a banhos de rios, passeios em jardins, pegar frutas em pomar e um mundo de coisas prazerosas. Poderia durar dias, e todos iam achar o que desfrutar. 

    E mesmo nesse dia eterno,  haveria horas certas para as pessoas dormirem. Vocês acham muito estranho? 

    Não respondemos. Era a vez dela falar. 

    — As noites, elas que me perdoem, continuou minha mãe, nunca me deram nada de bom. Só dormir, quando já não tinha mais crianças pequenas. Sem remédios, quando dormíamos o que diziam ser o sono dos justos. Ou o cansaço com a lida.

    — Até parece, digo, para provocar uma reação. 

    — Como se eu não conhecesse bem a senhora.

    — Ultimamente a senhora não quer mais nem sair. 

    Apenas ganhei um olhar gélido. Não retruco. Ela tem um gênio forte e não tenho a intenção de provocar briga.

  • Chupa que é de uva

    Ainda não me recuperei da moda do bebê reborn e já tenho que lidar com outra tendência que está bombando no momento: o uso de chupeta por adolescentes e adultos para diminuir o estresse e a ansiedade. Quanto aos adolescentes, entendo que a fase é de transição, e, por isso mesmo, sujeita a instabilidades e tentativas furtivas de não perder o trono da infância. Porém, quando penso nos adultos, o que me vem à cabeça é o tanto de manobras que as pessoas fazem para não enfrentar seus fantasmas num processo de análise. Vale todo tipo de proposta, das milagrosas às escandalosas. Tanto assim que o movimento vem ganhando adeptos no mundo todo.

    Os bebês reborn que se cuidem, pois correm o risco de perder o acalanto oral para seus pais que, em breve, serão apenas seus irmãos, tamanha a regressão.

    Sei que cada um tem o direito de fazer o que quiser, defendo a liberdade de expressão e de escolha, mas me questiono se essas novidades são apenas gozações passageiras ou se estamos diante de um pedido de socorro, de um grito coletivo a bradar que a vida adulta, tal qual temos preconizado “hiper produtiva e monetizável” é insuportavelmente chata e deprimente.

    Eu que usei chupeta até os onze anos, conheço bem a delícia apaziguadora que a danada oferece. Lembro dela com carinho e, assumo, com saudade também. Contudo, não consigo me ver usando o acessório novamente. Parece esquisito, deslocado no tempo. Será que é algum tipo de bloqueio? Não sei… talvez já seja pesado demais imaginar que, daqui a alguns anos, as fraldas estarão me rondando.

    Quero acreditar que tudo não passa de uma brincadeira. Ou quem sabe os novos tempos, com sua engenhosidade, tenham inventado as férias de fase inspirada nas crianças pequenas que se divertem usando os sapatos dos adultos. Nós nos regozijaremos pegando as chupetas delas.

    Eu só entrarei nessa se puder, além da chupeta, andar por aí carregando meu paninho encardido. Não só isso! Faço questão de uma retratação pública a respeito da existência de Papai Noel. Sua morte foi meu luto mais difícil. E, por favor, Fada do Dente, remunere melhor o dente dos aposentados.

    Volta a angústia: e se tudo isso for um sinal de que a nossa inabilidade para lidar com as frustrações, medos e fracassos está nos encarcerando no colo da infância? E se estamos todos adoecidos da modernidade ultra hightech?

    Nas férias de fase, nossos joelhos não se ralam nem têm cicatrizes; por outro lado, não desfrutaremos do riso que vem com o vento no rosto de quem aprende a correr.

    Eu preciso de ARte. 

  • O direito dos velhos

    É comum em saites de divertimento ou em redes sociais a exposição de pessoas quando estão novas e quando envelhecem. De forma por vezes maliciosa, os redatores expõem as fotos com legendas que enfatizam o contraste entre o rosto de ontem e o de hoje. O alvo é quase sempre alguém que pela beleza ganhou fama, admiração, suspiros apaixonados dos fãs. Como um contraste a isso, o autor das postagens parece lembrar: “Quem te viu, quem te vê”.

    O que está na base dessa atitude, mais do que a disposição de ferir ou depreciar figuras específicas, é um generalizado desprezo pela velhice. Embora se viva mais hoje, e os idosos ou mesmo os velhos cada vez mais frequentem locais como clubes e academias, há por parte de muita gente uma disposição hostil para com eles.

    Essa hostilização faz pensar, por antítese, no chamado “Poder Jovem”, expressão associada ao livro de Arthur José Poerner que exalta a disposição política dos estudantes brasileiros durante o período da ditadura militar (1964-1985). O livro de Poerner “narrava a história do movimento estudantil e sua atuação em momentos cruciais da história do País, ressaltando o potencial dos jovens como agentes de transformação social e política.”

    A obra destaca o idealismo da juventude e a sua vontade de contestar o status quo então vigente, marcado pela repressão aos movimentos sociais e pelo cerceamento de liberdades fundamentais ao indivíduo. Disso veio uma espécie de entronização dos jovens, considerados a partir daí como os principais agentes de transformação da sociedade. Chegou-se a dizer que não se devia confiar em ninguém com mais de 30 anos, como se a idade fosse um referencial de caráter.

    No poema “Velhice”, Olavo Bilac parece antecipar o que hoje é corriqueiro nas redes sociais. Sem meias palavras, escreve: “A velhice é cousa vil!/ Faz a alma informe e feia./ Desfaz a antiga ideia/ Da formosura juvenil.” São versos que pintam de forma nostálgica e sombria o envelhecimento. E tanto mais deprimem, quanto mais ressaltam a feiura da velhice em contraposição à beleza da juventude.

    Será mesmo a velhice uma “coisa vil”?  O que haveria de desprezível nas pessoas que estão nesse período da vida? Elas não têm mais a beleza da juventude e padecem de achaques que as tornam por vezes impacientes e difíceis de conviver. Por outro lado, têm a experiência, que segundo Sartre é mesmo um direito dos velhos.

    O parnasiano carregou nas tintas, sem dúvida. Há em favor dele, digamos assim, a ressalva que a esses versos faz Rubem Braga numa de suas antológicas crônicas. Lembra o cronista que, de fato, num poema Bilac considera “vil” a velhice — mas, num dos seus textos em prosa, afirma desejar “envelhecer sorrindo”. Tal expressão, longe de indicar ressentimento ou desconforto, sugere uma alegre resignação com a passagem do tempo.

    Talvez o verbo “sorrir” no verso bilaquiano indique mais do que a aceitação do inevitável ciclo vital. Indique também a percepção, trazida pela maturidade, do que a vida realmente é. E, sobretudo, traduza com algum ceticismo a desconfiança nos que se arrogam ter a verdade e deter o poder — tenha este o rótulo que tiver.

  • Cinco gravatas

    Cinco gravatas estavam sobre a cama. Ele as escolhera para aquela semana de trabalho. Fazia muito tempo que não vestia nada tão formal e curiosamente sentia saudade. Escolhera aquele quinteto cada uma por uma razão.

    A primeira era justamente como sua re-estréia no mundo formal. De cor sóbria, lembrou os momentos em que interagiu com pessoas sisudas e pouco afeitas aos sorrisos. Perfeita.

    Já a segunda evocou memórias mais doces. De alguém que um dia sorriu quando o viu com ela ao pescoço e disse que ele estava muito elegante. Só de lembrar seu rosto se alegrava ao ponto de sentir a doce fragrância de seu aroma de mulher recém saída do banho.

    A partir daí as portas de suas lembranças amorosas se escancararam.

    A terceira tinha sido presente de uma moça que gostava de dizer que tinha altura certa para ajustar sua gravata. E beijar seu queixo o que o fazia revirar os olhos.

    A seguinte ele comprara de impulso em um shopping. A maior parte das pessoas, em especial as mulheres, não aprovara sua compra. Os comentários iam de “é bonitinha mas..” até simplesmente detestarem a gravata. Mas nunca se desfizera dela porque um dia um alguém, antes de partir seu coração, dissera que a tal gravata caía muito bem nele.

    A quinta e última era o arremate para sua semana formal. Estilo sóbrio como a primeira mas atraente o suficiente para naquela ocasião a moça sair de onde estava e se postar à meia distância dele. O curioso é que ele demorou a perceber que ela estava ali diante dele. Ela olhava atenta mais para a gravata e menos para ele, verdade seja dita. Na conversa que se seguiu a moça disse que a gravata era linda e era igual a que ela vira em um filme clássico sobre aristocracia inglesa. Não lembrava mais do filme mas os momentos a dois nunca mais deixaram sua memória.

    Assim, gravatas postas lado a lado de suas memórias evocadas suspirou uma última vez. As lembranças de amores passados sempre o comoviam e, conforme o dia, o faziam pensar em hipóteses e histórias alternativas.

    Afastou os pensamentos. Eram só lembranças, mereciam seu lugar em sua memória afetiva e nada além disso. E ponto final. Pegou a primeira, olhou-se no espelho, preparou-se para dar o nó de Windsor, o único que ele sabia fazer na gravata e disse para si mesmo: hora do show.

  • Notícia primeira da morte

    Eu tinha quatro, talvez cinco anos. Lembro perfeitamente da situação, das pessoas, dos gestos, das reações, menos dos diálogos. Quanto a estes, o tempo fez questão de enterrar; minhas inúmeras tentativas de rememoração nunca lograram os exumar. Mas o que jamais se encaminhou para o esquecimento foi o efeito e o significado daquela conversa que tive com meu avô.

    Ninguém nasce sabendo, vai-se aprendendo. Do mesmo modo que, ao aparecermos para o mundo, somos incapazes de andar; não compreendemos uma série de fenômenos da vida, como o mais importante deles, a morte. Na verdade, nem sequer sabemos que ela existe.

    Foi no sítio de vovô Chico, em Bananeiras, que lhe fui apresentado; não ao seu inevitável efeito concreto, mas à ideia da sua existência. Até então, faltava-me qualquer noção do que seria isso, nem sei se já havia ouvido diretamente palavras referentes a ela. Porém, ali, tive sua primeira notícia.

    Minha mãe lavava os pratos e papeava com a cunhada. Enquanto parolavam, por algum motivo que desconheço ou apenas pela inexistência de um que fosse contrário à nossa estada, eu e meu avô também nos fazíamos presentes na cozinha. Surgindo a temática funesta e com a completa ignorância que eu detinha sobre o assunto, fiz o que parecia natural, perguntei.

    O que me foi respondido não ficou gravado; mas, evidentemente, desagradou-me, já que engatei um choro e, em seguida, corri. É difícil asseverar se foi uma fala muito crua para uma criança, sem que se realizasse um sopesamento na explicação para o filho ainda muito pequeno. Todavia, tenho certeza do que senti. Ao contrário do que as lágrimas poderiam levar a pensar, não foi tristeza. O sentimento era de indignação.

    No momento em que tomei conhecimento da finitude da vida, portanto, ao começar a entender ela própria, senti uma inconformidade enorme diante da percepção que tudo aquilo acabaria. Como, de repente, eu deixaria de existir e nada mais haveria? Como era possível aceitar que meus pais e avós, que eu acreditava serem eternos (como tudo parecia ser), iriam desaparecer? Era implausível admitir isso, não fazia sentido. Impotente, chorei um pranto de revolta.

    Encerrando a chispada no alpendre da casa, sentei-me. Ainda soluçava, tentando digerir a ideia que tinha acabado de me penetrar. Sem tardar, vô veio atrás de mim, sentando-se também no batente, onde me deu a primeira lição do que seria a morte e, o que é mais importante, o que é a vida perante ela.

    Certamente, a conversa possuiu os traços característicos dele, como o “pois bem” sempre a interligar as frases. Entretanto, não me recordo das palavras que ele utilizou, nem o conteúdo em si. O que sei é que foi o suficiente para estancar as lágrimas e aplacar a dor da consciência súbita.

    Ao iniciar o berreiro, mãe riu, deve ter achado ridícula a reação. Provavelmente, já havia passado pela mesma interlocução com seu pai, o que fazia com que o assunto não lhe fosse novidade e pudesse parecer mais banal. Para mim, era diferente, a morte só começava a existir naquele momento.

    Porém, seriam somente alguns anos depois que o decesso e o luto viriam a se mostrar para mim na prática, com o falecimento da minha avó. De certo modo, ao ir me ver na frente da casa, Chico também preparava o neto para a futura perda, que nenhum dos dois imaginava que iria ocorrer tão cedo.

    Minha memória guardou a lembrança do momento e a imagem de vovô ao meu lado. Mas não pôde preservar as falas. Sou incapaz de reproduzir um termo sequer que meu avô tenha utilizado. Mas foi na dita prosa (como ele gostava de chamar os diálogos), que eu pude começar a entender o que seria a morte e, portanto, o que é a vida.

  • Em grupo sempre fomos imensos!

    Muitos propósitos acompanham nossa trajetória em vida, porque possuímos livre arbítrio no desenvolver de ideias e atitudes, similares com as de outros, porém, ficamos ansiosos em viver o máximo possível, no tempo que nos foi concedido.

    Porque inesperadamente pode encerrar o que chamamos de oportunidade em viver, num momento específico escolhido pelo dedo de Deus.

    Outros entusiasmados com frases de efeito, ou livros de auto ajuda, lamentam não terem se esforçado o suficiente, ou alimentado o que seria necessário, sem saber que no relógio biológico está escrito o início e o fim da história humana.

    Porém, no meio de um dos caminhos, surge um terremoto, frio calculista, com números objetivos para sua manifestação, com intuito de destruir milhares de sonhos, que já viviam em parcas condições, e caminhavam a beira de muitas oportunidades sem tocá-las. Um movimento brusco aleatório e destruidor, leva consigo fotos, objetos, roupas, móveis, testemunhos vivos de pessoas que foram felizes até então, sinais fáceis de pronta felicidade e muito amor aos seus mais próximos. O desfile da desgraça com morte e solidão, despejou no povo Sírio a palidez no olhar de choque, fria na entrega de um pesar doído pra quem busca nos escombros de pedras, restos de sua vida no local que anteriormente chamavam de lar. 

    A morte, essa sombria entidade, continua levando consigo gente de todos os lados, se exibindo das piores formas, marcando presença antes do tempo para alguns. Gritos sobre escombros nem sempre cessam após um resgate, mesmo que queiram entender como se safaram e ficaram a sós em meio ao nada. 

    Até porque o que sobrou em forma de areia não tem identificação de qual construção já foi uma vez. 

    Fica uma sensação de que alguns povos sofrem muito mais que outros. As forças da natureza impávidas e destemidas, não encontram adversários a sua altura, capazes de saírem ilesas após intenso embate corporal. 

    Há que respeitarmos e protegermos a contento as possíveis manifestações ditas da mão de Deus. Esse sábio que a muitos põem em teste para medir o valor de sua fé. Nem sempre fomos o mais fraco dos pregos na parede da existência.

     Mesmo os Neandertais, inexperientes, ignorantes em tudo ainda, viviam na região central da Alemanha, caçavam os maiores animais terrestres da Era do Gelo; os elefantes-de-presas-retas, que chegavam a 13 toneladas, o dobro dos elefantes africanos de hoje. Em grupo sempre fomos imensos, inteligentes e capazes de nos ajudar no tiro da lança no peito da fera, e com a mão que retira uma vida do escombro.

  • Sucesso ou o quê?

    Linete não tinha nada a perder, pensava. Ela jurava que conseguiria rápido um emprego melhor, apesar de sempre escutar que o mar não estava para peixe, que o certo mesmo, e garantido, era fazer um concurso público, como o seu pai dizia, sendo funcionário público e ganhando um salário de miséria. Linete sonhava que podia mais do que uma simples carreira pautada no ostracismo e na continuidade das coisas. De fato, no estado atual, não aguentava a cara de enjoo do chefe, todo dia ao chegar; que sequer dava bom-dia, sempre exigindo mais absurdos. Era bem instruída, tinha cursos e mais cursos de pós-graduação, e se achava, como era, uma boa conhecedora do mundo corporativo, afinal ela tinha construído uma carreira baseada nisso, era o seu sonho. Com cinco anos de empresa, mal vividos, pelas circunstâncias, foi o jeito arranjar o momento certo para pedir para sair, e esse momento, emblemático, para que o seu chefe sentisse, foi no dia de pagamento. O espanto foi geral. O chefe ofereceu uma mísera contraposta, de imediato descartada; não valia a pena. O que valia para ela era estar bem, se sentir bem e útil para a empresa. Nesse caso, a empresa não se importava com as suas imensas conquistas, que faziam o bolso do patrão ficar mais vultoso – mas ele não lembrava disso. O rigor era quase militar: trabalhar, rente à parede, sem conversar, e obter resultados. Planilhas inúteis eram feitas aos borbotões. Como disse, o chefe só se importava com o dinheiro que iria cair na conta, e, bem dizer, quem fazia a empresa rodar era Linete, com sua habilidade, com sua forma de tratar os clientes e, lógico, com o seu conhecimento. Roberto, seu colega, sem esperar, entrou em pânico: “Como será isto sem você, sem a sua alegria?!”. Roberto era um amigo para todas as horas. Linete até pensou em desistir por causa dele, só por ele, a quem tinha um carinho muito grande. Foi ele quem ensinou os primeiros passos na empresa, pegando praticamente na sua mão, apresentando os programas e as divisões de tarefas da empresa. Só que Roberto era acomodado, tinha dez anos de empresa e não pensava em sair porque tinha medo. Linete não poderia estar presa por causa do receio dos outros. Janice, insegura, não teria mais as suas orientações, sempre acertadas. Linete queria mais, sem dúvida. Em todas as suas atitudes foi ostensiva, intrépida. Mas o mercado estava difícil, Roberto avisou. Passou meses entregando currículo, sem sucesso. Chegou a entrar em leve depressão, que tentava reverter, determinada, com atividades físicas regulares. Foi chamada, enfim, para uma entrevista. Exigiram demais, mas ela deu o melhor de si e venceu a concorrência. Após os perrengues, continua a pensar que não se deve ter medo de buscar o melhor. Ainda se sente aliviada de não ter de olhar para a cara do antigo chefe. Que glória! Lembra-se e sorri. É um caso de vitória.

  • O Clube dos Poetas Amadores em Extinção

    Era madrugada, por volta de uma da manhã. M. faz um grande esforço para sair de seu apartamento sem fazer barulho. Precisava se fazer invisível. Caminha até a porta e observa o movimento da rua. Embora conhecesse todos os pontos não filmados por onde poderia passar, precisava ter o máximo de cuidado. Embora fosse ateu, caminhava sussurrando orações que nem sabia ao certo.

    As ruas estavam desertas. Escuras. Uma espécie de barulho contínuo assombrava seus ouvidos, não conseguia saber se era real ou mera fantasia causada pelo seu medo de ser descoberto. Andava rápido, mas silenciosamente, como se fosse um invasor no lugar onde nasceu e viveu ao longo de toda a sua vida.

    Após toda a tensão, conseguiu chegar ao local desejado. Era uma portinha, bem castigada pelo tempo, que somente uma pessoa muito observadora, ou um robô perfeitamente programado, poderia notar. O local perfeito para o obrigo de esquecidos.

    Seu interior era uma sala pequena com uma mesinha iluminada no meio que deixava escuros os cantos do ambiente. Quando chegou, viu os que já estavam presentes. Ao todo cinco. Cumprimentou a todos e perguntou:

    — Será que vem mais alguém?

    — Vamos esperar. Chegar até aqui virou tarefa para poucos. Os robôs de ronda estão cada vez melhores. Chegará o dia em que não conseguiremos mais nos encontrar. — disse J.

    Esperaram durante um tempo. Apenas mais três chegaram. Então W., o anfitrião da reunião, toma a palavra:

    — Vamos iniciar. Hoje são oito, ontem eram dez. Amanhã? Ninguém sabe. Vamos aproveitar este momento.

    G., um dos integrantes comenta:

    — Hoje quase fui pego ao tentar chegar aqui. Eles não sabem o que é errar, exigem que sejamos perfeitos, da mesma forma que foram criados para ser. Quando nos detectam nas ruas, nem perguntam. Em segundos, perdemos nossas vidas. Eles não têm coração — disse P.

    — Vamos a primeira leitura da noite. M., por favor.

    — O preto é preto/ O branco é branco/ Se o preto não é branco/ O branco nunca será preto.

    Todos os presentes naquela sala começam a gritar e a se abraçar com enorme euforia. Alguns extremamente emocionados abraçam M. Outros permanecem chorosos em seus lugares. F., sem conseguir se conter, grita:

    — Como é bom poder ouvir livremente poesias ruins!

    Emocionado, W. se prepara para chamar o responsável pelo próximo poema.

    Toda euforia ali vivenciada, era sinal de um novo tempo. O mundo já não era o que foi um dia. A Inteligência Artificial aprisionou os humanos e tentava reprimir sua humanidade. Valores como o amor, a solidariedade, a amizade e. até mesmo, o erro, não podiam ser tolerados. Algoritmos só funcionam se criados com perfeição. Nesse mundo, poder escrever poesias ruins era um privilégio. Aqueles homens, ao rirem da imperfeição, faziam uma revolução em busca da liberdade.

  • O gato subiu no telhado

    O gato subiu no telhado. Na sala. Na lareira. E na janela.

    Brigou com as gatas, espantou o sono, o frio, rompeu a madrugada, fez barulho, fez rosnar, assustou. Fez miar.

    O gato preto e branco queria comida, queria carinho, queria estar. Queria o lugar das gatas, queria mudar o rumo, queria dominar o mundo, queria brincar.

    O gato subiu no telhado e desceu na lareira para apavorar. Botou terror na madrugada, tirou meu sono, tirou o sossego do meu lar. Ficou preso na janela, morto de raiva sem cumprir seu plano, sem mais apavorar.

    O gato subiu no telhado e desceu pela janela, tirando meu sono, meu sossego, mas sem conseguir me dominar.

    Sem sono, sem festa. Só me resta contar.

  • Quando a amizade vira crônica

    A amizade é cheia de mistérios — e é isso que deixa a vida mais bonita. Ter amigos deixa tudo mais rico, mais leve, às vezes até mais suportável. Ninguém nasceu pra viver sozinho. Quando algo bom acontece, e não temos com quem dividir, o brilho se perde um pouco. Não sei se acontece com você, leitor, mas comigo é sempre assim.

    A amizade gosta mesmo é de se enfiar onde a gente menos espera, entre o certinho e o bagunceiro, o sério e o brincalhão, o que pensa alto e o que só escuta. Vai entender essa mistura doida que dá certo.

    Pois foi o que me aconteceu há alguns anos, trabalhando num centro cultural em Belo Horizonte. Foi ali que conheci quem se tornaria um dos meus melhores amigos — e, de quebra, meu carioca favorito. Sim, esta crônica é pra celebrar a amizade improvável de um mineiro e um carioca.

    Ele era professor da rede particular, certinho que só vendo — daqueles que não perde uma vírgula, não deixa passar um erro, e encara a vida como se fosse uma prova de português. Poeta de terno, com a elegância de quem sabe que até na gramática o estilo é fundamental.

    Eu era o oposto: bagunceiro, do tipo que esquecia o guarda-chuva no bar, e saía tomando chuva. Fascinado por praia, carnaval, samba — tudo o que o Rio tem pra oferecer.

    Ficamos amigos.

    Eu ia mediar uma roda de conversa com um poeta, sobre “Tempos de Paz”, filme brasileiro dirigido por Daniel Filho, lançado em 2009, que retrata com sensibilidade os dilemas e tensões da ditadura militar no Brasil, através da história de um guarda prisional e uma mulher que tenta libertar seu marido político. Ele, amigo do convidado, apareceu para assistir. Acabamos sentados num banco do centro cultural como se nos conhecêssemos há décadas. Falamos de livros, da escrita, de novelas, de mulheres, dos escritores favoritos.

    Falamos de tudo: dos contos do Caio Fernando Abreu, das novelas do Manoel Carlos, de “O Apanhador no Campo de Centeio”, do Salinger. Rubem Fonseca entrou na conversa, Dalton Trevisan também. Descobri que a estante de livros dele era imensa — coisa que eu só confirmaria mais tarde, pessoalmente.

    Ele sempre foi desinibido pra escrever. Enquanto eu encarava a folha em branco como se fosse um inimigo, ele se sentava comigo na Rua da Bahia e começava a inventar pequenas histórias para cada pessoa que passava.

    Era a cara séria de um homem, o tique nervoso de outro, os olhos pintados de uma menina, o terno mal-alinhado de um pastor de rua. Para cada um, uma página, uma crônica, uma invenção.

    Antes dele, eu não fazia ideia de onde um escritor tirava tanta história, como conseguia tanta imaginação, como um cronista arranjava assunto para escrever toda semana no jornal.

    Comecei a imitar ele. Comprei umas folhas de papel ofício, umas canetas — azul, vermelha, Bic mesmo. Escrevia, lia, jogava fora. Depois escrevia de novo. Lia, escrevia, jogava fora — não necessariamente nessa ordem, claro.

    Até que chegou a minha vez de ir ao Rio. Fui no Réveillon com ele, fiquei em Copacabana, vendo a queima de fogos. Vi as mulheres mais bonitas do mundo, e ouvi Frejat cantando seus sucessos, junto com o Barão Vermelho.

    Vi mães de santo jogando flores para Iemanjá. E ainda trombei com um YouTuber famoso que eu seguia — aquele que ensinava homens a xavecar mulheres.

    E eu fui muito ao Rio. Visitei a Galeria Atlântida, antiga Galeria Alaska, em Copa — cenário que inspirou Galeria do Amor, do Agnaldo Timóteo. Tomei banho de mar no Forte de Copacabana. Brinquei carnaval nos blocos Simpatia é Quase Amor, Cordão do Bola Preta, Banda de Ipanema.

    Mas não pense, leitor, que tudo foram flores. Ah, mas não foram mesmo.

    Quando veio a Minas conhecer Ouro Preto, alegou um contratempo que podia inviabilizar a viagem. Eu, na hora, chamei de “tratante”, disse que não tinha palavra. Tivemos um quebra-pau daqueles.

    Nada, porém, que abalasse a amizade. Tanto que, logo depois, viajamos juntos com um grupo de cariocas, por Santa Catarina, Curitiba e Rio.

    É assim, leitor. A gente nunca sabe no que vai dar uma amizade, nem o que ela vai ser. Mas é certo: a amizade dá sentido à vida. Torna o cotidiano mais belo, mais digno, mais humano.

    Hoje, basta eu olhar para o poeta Luiz Otávio Oliani — seja em BH, seja no Rio — e dizer: “Partiu.” Que venha o próximo bar, o próximo sarau, o cafezinho depois de um almoço em Ipanema. É isso que faz a vida ter mais sentido.

  • Poema #03: PRESSÁGIO

    Vê onde há dor,
    vá onde se avista,
    doa o que não se pede,
    perca o que não se dói.

    Foi o que não se via,
    viu o que não se achava,
    trouxe o que não devia,
    deveu o que não se tinha.

    “Terei onde ser um outro,
    verei o que há de novo”,
    tentou ser tudo que tinha
    viveu feito vivo-morto.

    “Saudade é da liberdade”,
    cantava o finado rouco;
    mas tudo o que era livre
    fizera de caso pouco.

    Saudade é da boa turma,
    teimosa que só a rima:
    largava, sentia, ouvia;
    era a vida do bicho solto.

    Onde fora tal maledicência
    que só o tombo levava o rito?
    O tinha o decurso, o todo
    fez da fome o que tinha dito.

    Repetiu o que se lembrava,
    calejava o suor da testa,

    uma vida já percorrida
    se de si esquecida,
    de que resta?

    A turma já como desfeita
    anunciava o discurso às pressas;
    foi o que não era
    e não se via.

    Eis a sutileza:
    Viver é afetar a vida com a espera.

  • Na ponta do lápis

    Na ponta do lápis, o cronista passeia pelo Rio e vê o mar e o barulho do mar. Na ponta do lápis, o cronista espera o sinal abrir para poder atravessar a avenida que corta o Aterro. Os carros são muitos e ligeiros e, ao que parece, ninguém dá muita atenção ao que está à volta. Mas os olhos do cronista buscam ruas, buscam pessoas e as suas mãos deslizam na folha em branco e procuram as cores e o cheiro da cidade.

    Na ponta do lápis, o cronista sente seus passos sobre a calçada. E vê gente de todas as cores e idades e jeitos e trejeitos. Na ponta do lápis, o cronista imagina um céu bem limpo e um sol bem quente. Na ponta do lápis, há mundos e fundos e há urgência. A urgência de escrever sobre a cidade. O Cristo, lá em cima, observa silenciosamente o movimento das coisas e dos seres: barcas, aviões, pessoas e mais pessoas.

    Na ponta do lápis, o cronista pensa que o Rio de Janeiro deveria ser assim o ano inteiro: um dia calmo, com sorrisos e abraços, com cordialidade, com aplausos e afagos. Na ponta do lápis, o cronista pensa ainda que uma mão sempre deveria ajudar outra mão. Levantar um corpo cansado e abatido pelo tempo é tarefa árdua, mas gratificante.

    Entretanto.

    O lápis escorrega da mão e a ponta acaba por se quebrar. Não há mais nada a fazer. O Rio é o que há: dia nervoso, sinal fechado, obras, correria, calor abafado. Olhos amedrontados, vidros fechados.

    O lápis cai ao chão.

    O Cristo, ainda lá em cima, vê pacientemente o caos, o tumulto, o barulho, a confusão, os gritos, acenos desesperados, a multidão.

    O cronista pensa em mudar de profissão. Talvez ser poeta. Ir na contramão. Talvez ser vagabundo. Encontrar um menino e um cão. Fugir da escuridão. Não pode. Não é José, mas não pode fugir. Não pode. Não pode não!

    Mas.

    O lápis volta à mão.

    E o cronista prossegue o seu trabalho de ver e de dizer o dia a dia. E o que diz é importante. O que vê é delirante. Entretanto há outros olhos e um senão: a recriação. O trabalho de inventar a si mesmo.

    Assim, na ponta do lápis, o Rio de Janeiro se faz uma vez mais prosa, verso e canção.

  • Do Gerúndio ao Pão Quentinho

    Hoje passei quase uma hora tentando cancelar uma linha telefônica. No meio da espera interminável, lembrei de uma crônica genial de Paulo Mendes Campos, escrita em 1959: Coisas Abomináveis. Ele listou 60 situações insuportáveis e, pasme, muitas continuam valendo mais de meio século depois.

    A palavra “abominável” já soa quase arqueológica, não acha? Então, decidi atualizar com um termo que me parece mais divertido: Coisas Intragáveis.

    Da lista do cronista, selecionei dez que permanecem firmes no pódio do incômodo: passar pela alfândega; falta d’água em casa; pessoa que fala muito próximo do nosso rosto; criança de nariz escorrendo; mão suada; a penúltima hora de qualquer viagem; sala de espera; declarar imposto de renda; caixa que diz “volte amanhã”; e ser apresentado quatorze vezes à mesma pessoa.

    E, já que entrei no clima, fiz minha própria lista de intragáveis: desconhecido que insiste em contar a vida inteira; dirigir para o endereço antigo no piloto automático; bater a porta e esquecer a chave dentro; alguém pegar o último pedaço de doce; atendente que me chama de “amorzinho”; URA telefônica; o famigerado gerúndio: “vou estar te ligando”; figurinhas dançantes no whatsapp; topada que arranca a unha; e, para fechar, crise de soluços no meio de uma reunião.

    Depois dessa overdose de azedume, me senti meio intragável também. Então fui buscar um antídoto – e achei. Em 1962, o cronista escreveu Coisas Deleitáveis, e suspirei aliviada. Tudo bem que tive que dar um toque mais atual ao termo – optei por Coisas Degustáveis. Escolhi dez para me inspirar: dormir cansada; aroma de madeira; rasgar papéis inúteis; vento da montanha; pão saindo do forno; café da manhã no hotel; descobrir que uma pessoa feia tem uma voz linda; ver crescer uma árvore que plantei; brincar com argila; lareira em noite fria.

    Se fosse acrescentar as minhas degustáveis, diria: ver um pôr do sol avermelhado, caminhar descalça na praia, tomar vinho com amigos, ganhar flores inesperadas, reencontrar alguém querido, passar a tarde lendo na varanda, mudar o corte de cabelo, andar de mãos dadas, receber um beijo e… escrever essa crônica.

    Porque, no fundo, a vida é isso: engolir algumas coisas intragáveis e saborear outras tantas deliciosas. No saldo, felizmente, ainda dá para degustar.

  • Sonhos Juvenis

    Eu queria amar! Quem manda ficar lendo livros românticos? Não devo culpar os escritores. Não eram heroínas épicas, grandiosas, orgulhosas, princesas.

    Nem moças descendentes de famílias tradicionais, preparadas para encontrar namorado entre os filhos dos frequentadores das altas rodas, da elite, ou filhos de amigos poderosos como os próprios pais, também. Casamentos entre iguais, diriam as interessadas mães.

    Se minhas heroínas fossem essas, eu não teria criado falsas ilusões. Embora eu deva confessar: lia tudo que me caía às mãos!

    Tanto é que sei distinguir as grandes heroínas das moças comuns. As do meu universo, eu via, conhecia, mesmo que fosse só de passagem, e, de certa forma, eu me assemelhava a elas.

    Colegas de escola, filhas de senhoras conhecidas, de donos de lojas, de pessoas a quem se dava bom dia ou boa tarde, e diriam: passou aqui a filha de fulano, ela já é uma mocinha.

    Esse era o mundo ao qual eu pertencia. Fisicamente.

    Porque, em pensamentos, eu vivia grandes amores, conhecia novas cidades, era razão de disputa entre rapazes. E o herói sempre se apaixona pela mocinha. No caso, eu.

    Sonhava com o amor selvagem, sensual, e a imagem de quem seria o homem amado mexia com meus sentidos.

    — Onde você está com a cabeça, Anita?

    — Oi, professor, em nenhum lugar. Estou aqui.

    — Não respondeu à chamada. Podia te dar falta.

    — Desculpe, professor. Presente!

    Não respondia por estar viajando… em suas mãos, em seus braços, nos músculos da perna que se adivinhavam debaixo do linho branco de sua calça.

    “Que homem bonito”, pensava.

    Sorte tem a prof. Marta em ser casada com um homem desses.

    De onde saíam esses pensamentos? Ah, com certeza, dos hormônios em rebuliço em meu corpo de adolescente.

    Mas a principal fonte era dos livros de amor que passavam de mão em mão entre os colegas da escola.

    — Trouxe?

    — Calma, vou terminar no recreio e te dou. Não consegui ler ontem. Minha mãe estava na costura, como sempre, mas meu pai ficou em casa.

    — E eu tenho só dois dias para ler. Sábado meu pai chega da fazenda.

    — Tá bom, tá bom.

    Na verdade, a forma como despertamos para o amor, a paixão ou o que chamamos de fraquezas humanas não faz a menor diferença.

    A natureza e o homem, esses têm suas próprias ordens e leis. Quem poderá definir onde começa um ou outro?

    Bom mesmo é lembrar-me da época. Dos devaneios. Da imaginação. Oh, juventude! Como o viver era leve!

  • Veganismo

    O costume de consumir cadáveres de animais grelhados, vulgarmente conhecidos como ‘churrasco’, está encravado em nossa civilização, associado a um congraçamento pagão, envolvendo farra, uma informalidade ligeiramente transgressora e, não raras vezes, embriaguez.

    Os propalados malefícios da carne, especialmente a vermelha, à saúde não parecem sensibilizar as pessoas, com hábitos de cultura alimentar arraigados e pouco propensas a abrir mão do primitivo prazer carnal. É inimaginável um encontro da patota no fim de semana para assistir futebol e tomar cerveja, tendo à mesa um prato de tofu grelhado com broto de feijão ao molho shoyu.

    Um método poderoso de tornar-se vegetariano é fazer uma instrutiva visita a um matadouro ou a uma avícola, a fim de presenciar in loco o espetáculo grotesco de como os pobres e pacíficos animais são assassinados para que lhes seja arrancada a carne. Carnificina! Se o estômago aguentar a experiência, pelo menos, nunca mais vai apreciar uma picanha da mesma maneira. Não pesando na digestão, pesará na consciência. A carne não mais descerá impune.

    Ao contrário do que acontece quando nossos dentes dilaceram um pedaço daquele tecido muscular, portador do terror da morte em suas entranhas, a conexão nutricional com os frutos da terra é um enlace com a vida. Ainda que uma planta possa conceder sua vida para nos fornecer alimentação, não há sofrimento e dor nessa entrega.

    Quando a cadeia alimentar realiza-se entre o animal homem e o vegetal, o ciclo da vida fecha-se de maneira conservativa. É sabido que a pecuária é uma das atividades mais impactantes sobre o meio­-ambiente em termos de devastação de florestas, utilização de insumos e efeitos sobre o aquecimento global. Esta razão já seria suficiente para repensar os hábi­tos alimentares: adotar uma prática ambientalmente correta.

    Ingerir vegetais é trazer o espírito da selva para dentro do corpo. Interagir com a natureza, extrair dela a essência da vida, integrando-se ao espírito de Gaia. É resgatar nossa dí­vida com o planeta, contraída nos descaminhos da civilização que descambou para práticas antropo­cêntricas. É conectar-se com o Universo e com Deus. E seja lá Ele quem for ou onde estiver, estará a léguas dos fast foods, das praças de alimentação e do alvoroço que cerca refeições feitas às pressas nos shoppings da vida.

    A prática básica que leva a essa ruptura é a inserção da salada nas refeições. Tenras folhas de alface, escarola, rúcula, agrião, colorizadas por fios de beterraba e de cenoura, brotos de alfafa e fatias de tomate caqui, regadas com azeite, sal e limão. Uma salada no almoço instala um oásis interno e capacita-nos a voltar com leveza à aridez da vida cotidiana.

    Substituir folhas verdes frescas por ali­mentos industrializados, cheios de aditivos e conservantes, é, com perdão da expressão, um ‘desplante’!

    Para reverter essa situação, uma boa técnica é um banho estomacal verde. Saturar o organismo de clorofi­la. O ideal é já começar o dia com um suco detox. É o sabor da vida descendo pelo gogó até se instalar refrescante no estômago. Ao sair do liquidificador ou do processador, é possível entrever uma aura verde fluir energeticamente do interior daquele líquido espumante, provinda da fusão de elementos vitais que concorrem para a mistura exta­siante. Parecemos estar sob o efeito do pó de pirilimpimpim. O perfuminho da clorofila remete ao mistério das florestas tro­picais virgens. Com algum esforço, é possível ver duendes e fadas bailando em torno do copo. Um exército de micronutrientes transporta­dos pelo caldo da trituração invade o intestino e instala a livre circulação no aparelho digestivo.

    Se você estiver anestesiado pelo sabor edulcorado do açúcar e do ciclamato dos refrigerantes, ener­géticos e outras drogas industrializadas, é preciso um estágio antes de receber o choque verde de Avatar. Procure ir introduzindo elementos naturebas no cardá­pio. É preciso ‘implantar’ em nosso organismo o sabor das florestas tropicais. Aos poucos. Não adianta botar o carro de alfaces na frente dos bois.

    Voltando à vaca fria, uma sugestão seria adotar dieta vegetariana nos presídios. Certamente essa medida aumentaria a taxa de regeneração, além da economia para o contribuinte, já que alface é bem mais barata que coxão mole. A carne insufla a violência. Rituais de brutalidade combinam com álcool e carne. Alguém já viu um estupradorvegetariano? Um criminoso que passe cinco anos comendo legume e arroz integral seguramente terá maior chance de retornar à sociedade em melhores condições de amar a vida e respeitar o próxi­mo.

    Talvez seja só uma utopia. Mas tenho a convicção de que um futuro melhor não depende apenas de mudanças político-sociais. É preciso uma revolução pessoal em que cada indivíduo conceba o mundo de maneira mais solidária aos demais seres vivos. A dieta vegetariana ou vegana faz parte dessa transformação.

  • Oração para os fortes

    Ultimamente tenho pensado na diferença entre maturidade, alienação e libertação existencial. A reflexão surge com base nas situações em que algo nos incomoda, aborrece ou se mostra absurdo, e, por diferentes justificativas, silenciamos ou entubamos em nome do perdão. 

    Como saber se essa atitude tão altruísta tem poder digestório ou infeccioso?

    Uns dizem que amadurecer é escolher as lutas. Outros afirmam que calar para evitar desgastes é uma forma de superioridade. Há quem pense que toda evolução espiritual depende da irrestrita aceitação das falhas humanas. 

    Será que é mesmo assim? 

    E se amadurecer for se permitir não tolerar, resignar ou recomeçar? 

    E se evoluir for romper tratados que ameaçam as fronteiras da paz interior?  

    Uma coisa é certa, evoluir é jamais desistir do que nos habita no íntimo. Mesmo que isso signifique seguir em frente, aparentemente, só. 

    Atentemos para as armadilhas sórdidas da aceitação. Algumas coisas são inegociáveis. Perdoe-se quando não puder perdoar.

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