A lua na casa de saturno
saturno na casa da lua
todo mundo em casa.
A casa de todos no mundo
todo mundo na casa de
todo mundo e eu que não
encontro o meu lugar
em lugar nenhum,
no escuro.
O Jardim Simultâneo
A lua na casa de saturno
saturno na casa da lua
todo mundo em casa.
A casa de todos no mundo
todo mundo na casa de
todo mundo e eu que não
encontro o meu lugar
em lugar nenhum,
no escuro.
O Jardim Simultâneo
“A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *
Os emaranhados da vida
tapeçaria mal tecida
De palavras sufocadas por amarras
por nós
Arremates enrijecidos do tempo
entre as costuras
Vida vivida
em monobloco
Esgarçar a tessitura
do tempo mal vivido
Esburacar a trama
de pontos suturados
Criar um circulador
de silêncios no espaço
Arear lembranças
do que resta calado
(*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar
Agora que a luz se apagou
e a solidão restabeleceu seu domínio,
ouço com receio a linguagem do escuro
que me des-norteia a vida.
Nasci sob o signo da morte
mas prefiro-a assim,
conquistada aos poucos.
Porção diária de veneno
que injeto na raiz da vida
até que ela, afinal, desapareça.
E a linguagem do escuro prevalece
(ainda que se acendam todas as luzes)
como sendo a linguagem universal de tudo
a tecer as teias da incompreensão fraterna.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
Não era o primeiro a chegar
também não era o último
ficava no meio.
Lugar pouco disputado,
onde ninguém posa
e quase ninguém repara.
Enquanto alguns se apressavam em brilhar
e outros reclamavam da falta de luz
ele aguardava.
Não parecia esperar nada específico
talvez só o tempo exato em que algo se revela
sem fazer alarde.
Foi assim que aprendi:
nem toda claridade quer vencer a noite
algumas só querem caber dentro dela
por um instante e depois seguir
vagalumeando
Ainda que sejam versos pequenos…
Uns simples versos que sejam ao menos,
os ventos os empurrarão no tempo
onde serão o eterno consentimento.
Toda a lua brilha alta e resplandece
porque deseja muito o amor do mar.
Acaricia um instante e depois reflete:
é a busca de nunca encontrar.
Como um solitário que ri na estrada
é toda ela amor…uma imagem vaga,
tempero de emoções, fogo que estala.
Sendo certo o errado e não sendo
a peleja da busca, o contratempo,
ainda que seja um verso pequeno.
“Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino
Que envelheceu, um dia, de repente!”
Mário Quintana (1906-1994)
Tenho quarenta e cinco anos
e já neste meu último aniversário
foi levantada a hipótese irreversível
do envelhecimento antes da morte,
mas nunca sabemos o que virá primeiro.
Seja como for o assunto é desagradável.
Imaginei-me de carteirinha sexagenária,
entrando pela porta da frente dos ônibus
e viajando de graça pelo país dos meus netos.
Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro
no banco e haveria um guichê específico
esperando a minha dificuldade de caminhar.
Soube também que eu poderei requerer
um acréscimo no valor da aposentadoria,
para gastar com hospitais, médicos e remédios.
Seja como for o assunto é desagradável.
A minha vontade é rasgar
o estatuto do idoso
e voltar a ser criança.
Uma Escada que Deságua no Silêncio
Quando a chuva neutralizar
a esperança das flores, no chão
uma semente irá se desenvolver
à imagem e perspectiva de tornar-se,
sintetizando em si todo o anseio dos homens
para que de seus ossos não se faça apenas
um cemitério, mas também um canteiro.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
A vida,
em todas as suas formas,
revela a sutileza de um mágico
que hipnotiza a todos
para que não vejam seus truques falhos.
Os homens,
em todas as suas crenças,
revelam a idiotice de um asno
que acredita em tudo
por não ser capaz de discernir o óbvio.
Os homens,
com todos os seus mágicos,
revelam a estupidez da espécie
que acredita na vida
como sendo o caminho para a salvação.
A vida,
com todas as suas armadilhas,
revela a esperteza de um camaleão
que dissimula aos homens
a sua completa inutilidade como veículo.
O Acaso das Manhãs.
amar-te até os dentes
embora passado o instante da mordida
fico de presente com a marca da ferida
leva pro futuro tatuado meu gosto
sou nascido e criado
na roça
acostumado com as durezas
da vida
racho lenha para o sustento
com um machado cego
de cabo de pau-mulato
herança do meu avô
após almoçar no quintal
uma empurra a outra na moita
e eu saio aliviado para o round
da luta suja e feroz do homem.
Um Andarilho Dentro de Casa
estou sem almoço
e sem janta
e com duas costelas
quebradas
meu caminhar é pele
sobre o bronze
do asfalto, atrito
suave de quem sonha
estou sofrendo
com as calças e tudo
e isso é nada para
quem vive na rua.
Um Andarilho Dentro de Casa
Solto em São Paulo, aonde iria?
Rompia a noite, não decidia.
Abria as asas: para onde ia?
Se fosse Batman, já saberia
qual o combate de cada esquina.
Mas nem pra Coringa prestaria.
Vampiro? Não, desmaiaria
à vista de sangue.
Dos predadores recusava
até a fantasia.
Ao encontro da rua,
sumiria.
De encontro ao muro,
desaparecer: será, seria?
Solto em São Paulo, sobrevoaria
avenidas edifícios várzeas varandas tabacarias
mercados de luxo
de porcarias
sobejas ninharias.
Aberto ao acaso,
negociaria com o tempo?
render-se: ia?
Embalado pelo eco incômodo,
cantaria, não cantaria
dançaria, não dançaria
as sirenes, dedilharia
o silêncio, ouviria.
Do presente, o futuro.
Do futuro, o passado.
Os tempos imperfeitos
impecavelmente alinhados.
Com ou sem condições,
fazer o que faria
em qualquer São Paulo.
Identifico-me com a noite
e com o que ela traz
de específico a si mesma,
e assim fazendo, aceito
o convívio de seres opacos
e da nova ordem e estado de coisas
que o escuro inaugura.
Identifico-me com o avesso
sou aliás o próprio avesso de mim,
e assim sendo, conheço
as esquinas sombrias
nas quais se disfarça
a inexorável nulidade.
Volto de manhã para casa,
e num balanço isento da noite
nenhum acréscimo se me acrescentou
de forma permanente.
Voltei eu mesmo sozinho e íntegro,
apesar das concessões necessárias
ao convívio comum entre os homens.
Nada ganhei e também nada de mim
se perdeu, exceto esta vida
que amanhece mais velha.
O Acaso das Manhãs
Olho para o vazio
de meus olhos.
O espelho
não reflete mais o amor,
outrora visível.
Imagens tão nítidas
se me afloram perdidas
na incongruência do vidro,
uma vez descascada sua tinta
prateada de reflexão.
E agora as manhãs
trazem o hálito da perda,
do que fui e que no meu delírio
se esgotou em fome.
Não a fome dos homens
do nordeste, biológica.
Tampouco a fome dos homens
civilizados, que inventaram a fome
para dois terços do mundo.
Mas fome ela mesma,
que não se come e me digere.
Não se alimenta e me fez assim
um antropófago de mim.
Fome que se reverte em morte
e não me assusta, pois construí
a vida a partir dela.
Sou um desses seres que acreditam
que na sombra se esconde a morte,
e se perde a vida e se ganha a vida.
A vida ganha com a morte
não é metafísica.
Por isso eu me mato a cada dia,
consciente de que um vazio com outro
não se compatibiliza.
O Acaso das Manhãs
Não escanda a minha fala.
Escancarar uma tara
nem sempre é um bom negócio.
Esconda, miúdo, as manias que lhe movem.
Um dia, quando nada sobrar,
elas ainda farão o seu coração bater.
É como diziam os romanos:
tudo em latim.
Ninguém entende, todo mundo concorda.
O vento sopra um frio doido e esquisito
na curva da esquina de um terreno baldio.
Estou entre sapos e grilos e entulhos de lixo,
atrás de um muro quebrado e com muitos cacos
de vidro onde me escondo dos meus inimigos.
Apaguei todas as luzes da esperança
e estou sendo mordido por cachorros de rua.
“Atualmente eu vivo rodeado por minhas
paixões defuntas”. Todas inclusive,
menos uma delas: a paixão do absoluto.
Ando sozinho pelas ruas de bairros e ouço:
(você quer pegar os balões? Coitado, mas
eles são feitos de sonhos que estão muito
acima da sua compleição). Talvez nunca,
quem sabe, mas eu acabei de comer agora
uma casca de pão e um pedaço de linguiça
como tira-gosto da pinga. Houve uma época
distante em que eu comia arroz e tomate
nos degraus da escada de uma igreja no alto.
A vida estava lá embaixo, mas havia pessoas comigo.
Hoje eu quero morrer sem contar pra ninguém que eu fiz isso.
Uma Escada que Deságua no Silêncio
Um cão latindo na noite
é sempre um cão.
Sem cor, sem nome e sem
significado
para quem o está ouvindo.
No entanto este cão
traz em seu latido,
sombras de milhões de outros cães
sintetizados
em uníssono noite adentro.
A chuva não consegue abafar
este inquietante latir,
profanando o sono dos homens
e o sectarismo estático
das coisas e dos seres.
Alguém para se ver livre
do incômodo latido
desfechou tiros na escuridão,
e a noite se arrastou em insônia.
Da boca sangrenta daquele cão morto
brotaram ruídos confusos
que invadiram as ruas e as casas,
mostrando a todos a inutilidade do ato.
O Acaso das Manhãs
De cotidianos resíduos
arrancados na solidão de prisioneiro
em que todo o meu ser se devora,
tento compor uma imagem humana
que me faça aceitável a mim mesmo.
No silêncio da morte aparente
na qual me recolho ao túmulo previsto
não sei com que ânsia mórbida de calma,
procuro juntar os cacos de culpa diária
que reunidos formam um apelo ao suicídio.
E não é só o remorso das manhãs doentias
pelo que na noite se desfez em delírios
de humana fraqueza cansada de si mesma,
é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
e lançar no cômputo geral das misérias minhas.
De cotidianos resíduos
recolhidos no isolamento mental de indivíduo
em que todo o meu ser se liberta,
tento compor uma imagem poética
que se faça de ideias e despreze a vida.
O Acaso das Manhãs
As nuvens tecem
uma história diária
e sem antecedentes.
Não sei se pode
chamar de trabalho
(o trabalho das nuvens)
o que parece ser mais
um deslizar contínuo
de um sonho que não
se sabe a si mesmo
e apenas escorre
para um vazio profundo.
Eu, que estou na janela,
vejo as nuvens
e não enxergo a razão
de se estar a vê-las
sem que se possa
interferir ou sustar
a sua indiferença.
A vida humana é mesmo esse
estar-sempre-dependurado
a uma janela da inércia
fechada para o infinito.
Inventário de Sombras
Quero banhar-me nas águas sujas
Quero banhar-me nas águas sórdidas
Sou a mais solitária das criaturas
Me sinto só.
Confiei às mulheres os meus amores
Caí de quatro pelas sarjetas
Cobri minha alma de decepções
Valei-me Manuel Bandeira.
Vozes da morte contai a história
Da pessoa boa que sempre fui
E eu dormia ouvindo o ruído calmo
Do bambuzal
A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
E vem
é frio é pouco
e quente e certo
incerto
é leve é tarde
e breve e louco
solto
é muito é medo
e mesmo e igual
real
parte e vem
vem e parte
uma parte
e vai…
A chuva no asfalto
leva papéis/cigarros
e o vômito de ontem.
Amanhã novos resíduos
virão para preencher
o vazio do meio-fio.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
acredito que haja
dentro em mim
uma separação entre
corpo e espírito,
espírito e mente.
a cabeça pensa de uma forma
e o corpo age de maneira diversa,
nunca se coadunam em alma de ser.
sou o intervalo exato, inexpressivo,
entre o talvez e o se e o quando será
sendo que sou este ser, de si ausente,
defeituoso e desengonçado.
Da Essencialidade da Água
Se te olhasse de novo, te perceberia
Se eu soubesse enxergar, ah, se soubesse…
Quão terrivelmente felizes
Seriam meus dias
Temo não saber o depois.
Pois quem nunca se perguntou…
“E agora, o que vem”?
Deixo vir.
Mas temo…
Não saber receber.
Temo a teima de não saber
Ser para saber.
Temo ter de temer, e temer…
E não viver outra coisa,
Não ver a beleza,
Fazer do outro jeito,
Viver ao contrário,
Não acertar nunca,
Estar sempre ocupado
De erros e não saber fazer
Outra coisa senão ser.
Mas se eu soubesse te ver
Bastaria um olhar.
Atravessado por um longo suspiro
Ver-te-ia.
Como se fosse a mais bela
Maneira de errar.
E desejaria que em todos os meus confusos desejos
Não sobrassem acertos.
Te teria em meus segredos
E através de tais erros
Não haveria mais medo, nem dúvida
Coisa alguma que não fosse
Sem jeito,
sem tropeço
Sem ter onde cair e me levantar.
Desejaria esta vida
E não outra.
E por desejar esta,
E não aquela,
Não teria de ver assim, pelos olhos
De quem sabe tudo
A miséria,
A quem errar lhe pareça tamanho absurdo
Que se atam os olhos
Para nunca ver transbordar a vida
No olhar.
Pois é assim que vivo:
Ao meu ver,
Sem saber e sem querer.
Quando queres, aprisiona-te.
Pois precisas ver.
Quando enxergas, então sabes como amar.
E por viver assim,
Quiçá fosse o fim
E tu, serias o começo.
E pelos meus primeiros erros
Saberia, enfim, a quem olhar.
E por te olhar assim não sobraria a pressa.
A vista seria o preço.
E a ti, infinda razão de meus erros,
Achegar-me-ia
Para onde te pudesse enxergar.
E por tua chegada
Contar-te-ia tudo o que, por acaso,
Me fizeste ver.
Não restaria outra coisa.
Quando chegaste, me fizeste aprender a amar.
E por ver o amor, voaria
E passaria os meus dias
A amar tudo o que, pela falta de ti,
Não via;
E na evidência de tamanhos erros
Não restaria outra coisa a se ver.
Se por amar-te estivesse, assim, errando,
Escolheria errar todos os dias,
E em todos eles,
Errar te amando,
E te amar.
Quando amo, entregam-me os olhos.
Já não detém-me o discurso e
Não prefiro mais a palavra.
Basta-se a ponta do sorriso,
Basta-se a força da risada.
E desse modo, percebendo-te, vi
Que tudo o que mais temia
Era ver o que não sabia como.
Mas tu, só tu
Sempre me alcançavas.
Não importa se demoras…
Cada hora sempre atinge seu lugar.
Quanto a mim,
Agora que a vejo, já não mais me enganam os
lábios:
Só aprendendo a ver, com você,
Tive onde o amor
Encontrar.
Entre as naus e os sonhos de antes
Anterior à memória, objeto estranho…
o mar era só… sem os seus navegantes.
Calmo, vário e tamanho,
As águas, um mistério, um senão
porém, quando teima a criatura humana
o desejo insistente instiga a mão
a alcançar tudo, com toda a gana…
brota na alma um querer
mais que tudo e muito mais!
Indo sem ir e vendo sem ver
do precipício à beira do cais.
Da imagem fez-se o nobre canto
do canto nobre fez-se a triste sina
da sina triste revelou-se, no entanto,
o mundo de todos, de todos a cisma
de içar ao alto a mais alta vela,
cortar as ondas e caminhos abrir
aos gritos triunfantes da sentinela,
vendo sem ver, indo sem ir…
Vendo sem ver, indo sem ir
A história do tempo mostrou
Lágrimas, morte, um pesado porvir
O que figura humana jamais imaginou…
Eu só boto bip-bop
no meu samba quando o tio Sam pegar o tamborim
Somos povo
Somos pluralidade
Somos originais
Somos natureza
Somos beleza
Somos muito
Colônia, de novo?
Nunca!
Sobre tudo
Somos… tudo
Somos … CUL-TU-RA!
Por isso
Eu só boto o bip-bop
No meu samba
Quando o tio Sam
Pegar no tamborim!
Deixar de ser cúmplice da vida
de outros que em mim personificam
a parcela da culpa que subtraio
do erro coletivo e meu, individualizado.
Obscurecer o reflexo do sofrimento
de homens que não vejo em presença,
mas que em espécie me julgam digno
de vê-los (como testemunha da morte
sem remissão de si) em que se abrigam.
A desvisão do homem como forma de se
desviar do mundo, numa covardia anônima
de se cegar para o que há de recíproco
no duplo ato de existir e ser responsável
por esta morte latente, usada como escudo.
Mantendo a essência que não explico
mas sei que existe onde deixo
de existir para ser parceiro da vida,
criação simbólica do gesto de um deus
não conclusivo, que se deu por satisfeito
em seu cansaço.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
Febre
Sudorese
Incontinências
Vômitos
Sitofobia
Excesso de saliva
Falta de ar
Palidez
Convulsões
Feridas
Gritos
Roncos
Fedor
Espumas na boca
Excesso de gás
catinguento
Dor no calcanhar
e cansaço no mesmo.
Uma pequena lista
do que somos e
ainda tem gente
que se jacta.
O Jardim Simultâneo
Um laço e um nó
e o engasgo e o silêncio
a palavra muda amordaçada e nada
do que fizera antes apaga
o fluxo do poema e da prosa
e as mãos frágeis do poeta-cronista
tentam a todo custo segurar o texto
o desejo
a insensatez e a loucura e o rio de letras
sílabas palavras-peixe e amores brutos
um laço e um nó e o engasgo e o silêncio
a palavra mata
e cala e se cala
afrouxa e aperta
afrouxa e aperta
e joga e rola
e deita e cola
afrouxa e aperta e água
e mais água inundam o ser e o papel
e o espaço e o universo
e a tela fala
aquela fala aquele riso
aquele pranto
afrouxa e aperta
e aperta e afrouxa
um laço e um nó.
Um burburinho crescente nas redes sociais revela que muitos donos têm evitado vacinar seus cães. Como jornalista, pesquisei e apurei relatos de especialistas, estudos e depoimentos de famílias, e concluí que o preço também está embutido nessa crítica. À primeira vista, porém, a explicação mais repetida remete a ecos de movimentos políticos que já conhecemos. Foi assim na pandemia, quando a incerteza sobre a eficácia das vacinas abriu espaço para a desconfiança. Essa sombra ainda paira sobre parte da população.
Na internet, o termo “antivax” ganhou força. Designa os que rejeitam vacinas ou diminuem sua importância. Uma pesquisa do portal IG mostrou um dado alarmante: cerca de 40% dos responsáveis temem que a vacinação cause autismo em cães. É uma crença sem base científica, mas que se espalha com rapidez, como rumor em feira livre. No Instagram,também circulam frases de efeito como “pet que não sai não precisa vacinar”, “vacina é só para gripe”. Mensagens curtas, fáceis de compartilhar, que acabam banalizando uma medida vital para a saúde animal e, por consequência, também para a nossa.
Para conter essa onda de desinformação, a Associação Britânica de Veterinária (BVA, na sigla em inglês), antecipou-se e divulgou uma nota posicionando-se contra os movimentos antivacina. O tom foi direto: não há qualquer evidência científica que relacione vacinas a casos de autismo em cães. Portanto, podem levar seus animais ao veterinário sem medo.
Entretanto, atribuir a resistência às vacinas apenas à ideologia é uma visão simplista. Acompanhei, ao longo dos anos, a relação entre cães e pessoas e percebi fatores mais concretos nesse movimento. O custo das vacinas, por exemplo, é um dos grandes obstáculos. Ainda que alguns veterinários se esforcem para oferecer preços acessíveis, para muitas famílias a imunização tornou-se inviável.
Há também a questão da exigência de várias doses antes de liberar o filhote para passear. Em certos casos, entre cinco e sete. Isso compromete severamente o desenvolvimento social dos cães, sobretudo na fase inicial da vida. Quando barreiras financeiras e práticas se acumulam, muitos donos ignoram as recomendações e acabam levando seus cães às ruas antes do fim do ciclo vacinal completo. E, uma vez quebrada a regra, a lógica se impõe: se o filhote já pode ter contato com o ambiente externo, por que continuar arcando com tantas vacinas caras? O resultado é um efeito dominó que mina a confiança.
Não se trata de condenar a prática veterinária, mas é impossível ignorar a engrenagem maior que sustenta esse cenário. Quanto mais vacinas, maior o lucro da indústria farmacêutica. Reconhecer esse fato não é aderir a teorias conspiratórias, nem enfraquecer o valor da imunização. Pelo contrário: vacinar continua sendo indispensável para a saúde e a longevidade dos cães. O desafio real está em outro ponto: tornar o processo viável, transparente e acessível, para que ninguém precise escolher entre proteger o animal ou pagar as próprias contas.
Politizar o debate é perigoso. Cães fazem parte de todas as camadas sociais, e muitos responsáveis simplesmente não conseguem arcar com o custo de certos imunizantes. Em um país onde famílias esperam meses por atendimento médico, não surpreende que os animais também sofram os efeitos do sucateamento da saúde pública.
Mesmo assim, não faltam histórias de donos que se sacrificam, abrindo mão do próprio cuidado para garantir a proteção de seus cães. Esse gesto, ao mesmo tempo nobre e doloroso, revela o tamanho do vínculo que une pessoas e animais, mas também expõe, com clareza, as falhas de um sistema que deixa ambos desassistidos.
No fim, a matemática é implacável: quando o dinheiro falta, meus caros leitores, não há retórica que resolva. Não é descuido, tampouco crença, mas realidade que nenhum afeto consegue ultrapassar. A conta não fecha. Entre pagar um boleto, comprar o gás ou investir em vacinas, muitos acabam escolhendo o imediato. É duro reconhecer, mas a verdade se impõe com a frieza dos números: amor não basta quando a sobrevivência está em jogo.
Como dizia meu pai, com a sabedoria de quem viveu de tudo: “Se não tem remédio para a situação, remediado está.”