o teu encanto de sereia
levitou a serpente
por entre minhas teias
tua pele luxo de seda
por cima de mim
feito mágica de Aladdin
sucumbiu com minhas destrezas
teu palato de rio doce
desaguou no meu remo
este tão cansado e enfermo
de navegações ocres
e ao velejarmos sobre ondas rítmicas
& místicas
no compasso do som das baleias
gozamos no alto do mundo
um bilhão e duzentas mil estrelas
Poesias de 1 a 99
-
Poema #04: Oceano de estrelas
-
Poema #71: Tratado de Anatomia
A anatomia dos carros na rua
revela a um homem que os vê
(entre outras coisas)
uma força neutra a interferir
e modificar a paisagem desolada
de quem anteriormente os criou.A anatomia das mulheres
(independente dos lugares
em que se encontram) remete-nos
a uma forma viva de organização planejada
onde a beleza é fruto dela mesma, transfigurada.A anatomia do pensamento de quem
(por exemplo escreve este poema)
nada mais é do que uma consequência imaterial
de causa e efeito entre o sentir de maneira sensível
diferentes realidades projetadas na sombra
do poste de observação.
O Acaso das Manhãs -
Poema #03: na sacada do apê & um marlboro às 2 da manhã
trago
a pessoa amada
aqui dentromas amor não se prende
sendo assim
solto-o
ao vento -
Poema #70: Trágica & Cômico
A cada dia vai-se diminuindo
o meu espaço vital.
Isto porque quando comecei a sentir-me
parte integrante do mundo
eu já havia sido expulso do mundo.
Toda uma vida
todo um aprendizado
adquirido na sombra e no silêncio de indivíduo
é tão somente de conhecimento meu próprio.
Só eu sei dos mecanismos mentais
que implicam em cada gesto
em cada palavra
que ensaiando digo às paredes
que ainda não foram construídas.
Encenei para mim mesmo uma tragicomédia
na qual sou o único personagem,
e o teatro em que represento
não é frequentado pelos homens
e está prestes a se desabar sobre.O Acaso das Manhãs
-
Poema #02: Música-Clássico
a música no rádio
toca
um clássico rock anos 80— ainda não sei de quem —
mas sei
que toda vez
que essa música-clássico
tocatodas as estações do rádio
sintonizam
tua imagem-clipe
dando cores
a um passado
que ficou em branco.*
-
Poema #69: Tatuagem
O corpo utilizado
para a afirmação
de uma individualidade,
de resto inexistente.A individualidade,
como um fantasma abstrato,
esconde-se por detrás
da porosa pele.A tatuagem utilizada
para a identificação
dos corpos, vítimas
do desastre aéreo.Um Andarilho Dentro de Casa
-
Poema #01: Espetáculo
na calçada dos meus olhos
você passaum palavrão alto
sai
na boca do beco
da minha mentea ponta-metal do teu salto
arrebenta
o meu tímpano-peito
num som estridentee no meio do palco
perco todo o sentido
feito fã cego idolatrando artista
em seu show ao vivo -
Poema #68: Sobrevivência no quarto
I
Tenho comigo
milhões de cadáveres
que apodrecem seus ossos
já destituídos do ímpeto
que movimenta os homens vivos
para a conquista de algo.II
Tenho comigo
a inércia do corpo
que aniquila o meu sonho
já despojado da vida
que antes impedia o plano
de me alimentar desses ossos.III
O que sou hoje é esta certeza
de não ser senão em mim.
O que sou hoje é este impulso
em preservar o que já está desfeito.
O que sou hoje é esta incapacidade
de desempenhar papel no mundo.
O que sou hoje é esta vontade
de antecipar meu próprio fim.IV
Trago comigo
as sombras e o peso dos erros
acumulados nos anos de solidão
em que tentei construir algo
que estava fora de meu alcance precário
e mesmo que se acaso construído em silêncio
não teria nenhum valor para os homens.V
Trago comigo
a síntese de um desprezo lógico
por essa espécie miserável de animais
que se arrasta numa fixidez sem sentido
pensando que com suas obras erigidas no espaço
poderão significar alguma coisa humana no tempo.O Acaso das Manhãs
-
Poema #01: Incondicional
Entre tantas vozes
Tantos abraços
Entre tantos conselhos
Em meio ao cansaçoQuando sorrio
Ou quando choro
Se me surpreendo
Ou me apavoroSe a alegria é tanta
Ou a decepção é muita,
Importa ter o teu colo, Mãe,
Pra valer a pena continuar. -
Li ho visto passare
Dove mi nasconderò?
Dove mi sentirò?
L’appartenenza non è più
Che la gentilezza Di far nulla
Senza
Una scelta.Il poema sarebbe bello
Se non fossi io
A scrivirtelo,
Dall’uomo che suona zero
Insomma, dammelo subito!
Che poi riesco a diventare…
Ansito.Chiusa è l’ombra poiché si è
avvolta alla finestra
e finchè La parola più lunga
Sotto l’esistenza esterna
Trovasi infatti un esempio
Cioè, una resistenza
Incerta.Dimmi di più, dimmi di sì, di no…
Su di noi lo scontro
Sofferto, dal petto che brucia
Esci la mia paura e
La tenerezza…
Un segreto mai detto.Discreto come lui
Non ne ho scritto più di un verso,
Di certo che l’ho fatto per me
Ma perchè?Alzato ai monti
Come si diceva, un desiderio
Davanti quartiere Lumbo
Un rumore di fondo
Davano le ali al vetroE sin venuto l’insuccesso
Era trascorso l’autunno
Mentre gridavano gli ucceli
“Sei tu il numero uno”
– E vogliono lo zero… poi seguivanoCaduti gli anni dalle grondaie
Incrinate, poveri scopritori…
Eravamo noi i secondari
Dove nemmeno i primi erano
Pronti a sopportare
Così
Il dolore!Venivano le tende, a volte…
Scivolate e vertiginose
Verso le fessure del tempo
– “Hai visto tutto, uccellino…
Adesso fategli un riscontro,
un fischio nel cielo,
oppure un salto cieco… qualcosa!
Ma sincero.”Tornati al tuo nido buio…
A mezzogiorno d’inverno
È presto.
E se non muoio…Così vedo le piume
Indossare la luce
di un invento
eterno.Vi vocês, passando
Tradução | por Bia Mies | do poema
“Li ho visto passare”, de Pedro D’ AmbrosioOnde é que me esconderei?
Onde reconhecer-me-ei?
Já não há vínculo
Além da gentileza do absoluto nada agir
Carente de
Escolha, uma.Emergiria beleza qualquer do poema
Não fosse eu a escrevê-lo, a si
Vindo do homem que vibra vazio
Enfim, entregue-me de prontidão!
Que ainda consigo tornar-me…
AflitoOclusa é a sombra por
Enroscar-se à janela
E porquanto a palavra mais longilínea
Censurada pela existência externa
Depara-se fatalmente frente ao modelo
Quem sabe, brio
Indefinido.Entoe-me além, diga-me sim, quiçá não
Sobre nós contrastantemente
Sofrido, ardendo-me o peito
Desvaneço-me em temores
Em ternura…
Um segredo sequer confabulado.Prudente tal qual
Não me atrevi além de um verso
Convenço-me enfim, escrevi a mim
Entretanto… por quê?Falido, levanto-me
Como dizem, ambicionado
À frente: os limites de Lumbo
Rumores, logo ao fundo
Asas conjuradas ao vidroAtrevido achega-se, pois, o fracasso
Recuado o outono
No mesmo passo grasnam, a mim, os pássaros
“És único, oh, número mono”
— Querem doravante o não-dito… e então, seguemEscorridos se vão, calha abaixo, os anos
Falhada aos furos, modestos desbravadores
Éramos os de em seguida
Onde sequer os pioneiros
Prontos estiveram a suportar
Assim
Tamanha dor!Descortinavam-se, vez em quando
Tecidos esvoaçantes e vertiginosos
Rumo às frestas do tempo— “Viste de tudo, passarinho…
Agora plana: entrega-lhes o perdão migratório
Um pio-canto; verso em céu
Ouse além, numa queda cega, livre… tanto faz!
— sin-cero”.Ao retornar – ninho para onde mingo…
Ao meio-dia invernil
É cedo.
E se não me extingo…
Assim me restam as plumas
Vestindo a luz
De um intento
Eterno. -
Poema #67: Saldo
De cotidianos resíduos
arrancados na solidão de prisioneiro
em que todo o meu ser se devora,
tento compor uma imagem humana
que me faça aceitável a mim mesmo.No silêncio da morte aparente
na qual me recolho ao túmulo previsto
não sei com que ânsia mórbida de calma,
procuro juntar os cacos de culpa diária
que reunidos formam um apelo ao suicídio.E não é só o remorso das manhãs doentias
pelo que na noite se desfez em delírios
de humana fraqueza cansada de si mesma,
é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
e lançar no cômputo geral das misérias minhas.De cotidianos resíduos
recolhidos no isolamento mental de indivíduo
em que todo o meu ser se liberta,
tento compor uma imagem poética
que se faça de ideias e despreze a vida.O Acaso das Manhãs
-
Poema #17: Quem é poeta quem é vigia
Soldado canta triste
Sentinela!
Quem é poeta?Vento que presta
Barco a vela
Quem é poeta?Pescador lança triste o anzol
Poeta!
Quem é vigia?Vento que espia
Amor que esfria
Quem é vigia?Moça olha triste o céu
Espera.
Quem é poeta?
Quem é vigia?Vento que presta
Vento que espia
Barco a vela
Só poesia. -
Poema #65: Rio Grande
O Rio Grande não é apenas
grande, ele é também
referencial de um sonho
(ponte de água clara
interligando abismos).
Dreno com meus olhos líquidos
a sua enseada como quem não
drena nada, exceto a visão da água.E como a viagem não permite
que se fique sempre às margens
do Rio Grande, instalo uma sonda
em suas águas e a outra ponta da
sonda eu a trago encravada na alma.Inventário de Sombras
-
Poema #64: Reta final
Em tese
tudo é possível
mas na prática
nada acontece.
Eu sou a antítese
de todos os axiomas
benéficos.
A Sentinela em Fuga e Outras Ausências -
Poema #63: Reivindicações
Eu sei que eu mereço
(embora talvez eu não venha a
ter) o meu nome num nome de rua.Eu sei que eu mereço
uma estátua de bronze
na praça de Ervália.Eu sei que eu mereço
denominar a Casa da
Cultura como o poeta que sou.Eu sei que eu mereço
casar com uma mulher
negra, que é o meu sonho
de consumo.Eu sei que eu mereço
ter um aumento de salário
para poder sobreviver.Eu sei que eu mereço
ganhar um prêmio literário
para pagar as dívidas.Eu sei que eu mereço
pescar um peixe grande
nas águas do tanque.Eu sei que eu mereço
nadar como quem voa
pelos céus de outro país.Eu sei que eu mereço
cavalgar uma égua
enfiando o dedo no seu cu,
para ela andar depressa.Eu sei que eu mereço
empinar uma pipa gigante
que nunca será alcançada.Eu sei que eu mereço
formar uma banda de rock
e fazer muito sucesso.Eu sei que eu mereço
ser aclamado e lido como
nunca antes na história
deste país.Eu sei que eu mereço
receber uma homenagem
de adeus e logo ser esquecido.Eu sei que eu mereço
uma catacumba digna
para descansar os meus ossos.Eu sei que eu mereço
tudo isso, mas desconfio
que não terei nada.O Jardim Simultâneo
-
Poema #04: Flor no Asfalto
Chamam de resiliência
essa palavra polida,
de palco e de LinkedIn,
que ensina a atravessar ruínas
com a coluna ereta.Resiliência:
dizem ser força,
dizem ser método,
dizem ser quase virtude corporativa.Mas outro dia
ela me apareceu diferente —
não em gráficos,
nem em discursos bem ensaiados,mas numa fresta de asfalto:
uma flor.
Pequena, improvável,
sem plateia, sem legenda,
rompendo o cinza
com a delicadeza de quem não pede licença.Ali estava tudo.
Porque a terra sabe:
depois da seca,
depois do frio,
depois daquilo que parece fim,há sempre um retorno
silencioso.Um recomeço que não se anuncia,
apenas acontece.E então pensei
nos nossos desertos particulares —
esses dias antes do aniversário,
quando o mundo pesa mais do que devia,
quando o acaso tropeça na gente
vez após vez,e por dentro
a paisagem racha.Mesmo ali,
no chão duro do cansaço,
algo insiste.Uma espera sem nome,
quase teimosa,
como quem já sabe
que a chuva vem.Lembro, então, de Sérgio Britto,
na voz dos Titãs,
em Enquanto Houver Sol —quando tudo parece gasto,
quando até a ilusão se recolhe,ainda assim,
em algum lugar mínimo,
sobreviveuma infância.
Talvez seja isso.
Resiliência não é pedra.
Não é rigidez.É chama.
É o quase nada que permanece
aceso o suficiente
para, um dia,florir —
mesmo
sobre o asfalto. -
Poema #62: Pra encerrar e recomeçando
mandei uma mensagem
acabando com tudo
que não havia. tranquei
o portão de entrada para
que nada entrasse além da
minha covardia. joguei
a toalha como quem se
despede da vida e talvez
não devesse ainda: era cedo e
tarde demais ao mesmo tempo.
fiquei com o meu corpo deitado
no chão da cozinha doendo sem
alma e sendo apenas, nada mais
e nada menos, que um obstáculo
ao percurso das formigas.O Jardim Simultâneo
-
Poema #16: Poema ao vento
Poema ao vento
Cesto vazio em pouso certo
Cascalho de ilusões
Sem tempo.Poema ao vento
E nenhuma certeza das coisas
Nenhuma certeza.De repente uma linha intrometida atrapalha o poema, como um rio conquista com ajuda das águas a terra branca, areia, alguma coisa separando os versos e construindo as margens. Há um menino do outro lado e ele abana um boné vermelho para o poeta. O poeta não se sente muito bem no meio de um parágrafo, mas, mesmo assim, acena para o menino…
Poema ao vento
Um contratempo
Mapa e ponte
Descaminho
Novo tempo -
Poema #61: Portal da Dor
Cap. I – Da Doença
Compressas frias, banhos mornos, cataplasmas sinapizadas, injeções intravenosas de electrargol, injeções hipodérmicas de óleo canforado, de cafeína, de esparteína, lavagens intestinais, laxativos e grande quantidade de poções e outros remédios internos.
Cap. II – Da Morte
Urna lisa, forrada com babado, envernizada, seis alças, com visor, véu, velas, encaminhamento da certidão de óbito, flores para ornamentação interna, livro de presença, paramentos religiosos, cinco anúncios na rádio local, translado de até 70 km e locomoção até a morada final.
A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
Agradecimentos ao Augusto dos Anjos, à D. Ester Fialho e ao Pax Ervália que funciona em frente ao necrotério.
-
Poema #60: Poema retirado de uma lápide
No cemitério de Perdões
Laura Alvarenga descansa.
Moça bonita de 19 anos,
falecida em 1920.
Sentada numa cadeira,
com um grande laço
de fita nos cabelos
e uns braços que talvez
nem mesmo Machado
sonharia descrever em
seus contos de Assis.
Laura Alvarenga
de 19 anos de idade
e seus olhos de Capitu.
Uma fisionomia pensativa
e meio triste de quem não
antevia a sua própria morte,
que chegaria tão cedo.
Na sua lápide está escrito:
“Saudade eterna de seus Paes
e irmãos”. 87 anos depois
eu contemplo sua fotografia
num livro de pesquisa e penso
que gostaria de tê-la conhecido.
O que sabemos nós da vida?Uma Escada que Deságua no Silêncio
-
Poema #59: Perdas e Danos
parece que perdi
o dom de sonhar
depois de tantas
decepções.depois de tantas
perdas
parece que sonhei
que já não tinha o dom.acordei e era tudo
verdade ou pesadelo
depois eu acho
que dormi de novo.O Jardim Simultâneo
-
Poema #58: Passagem das horas
Fica de nós este resíduo
do que ainda não fomos.
Este abismo a se superar
e uma certa disponibilidade.
Fica esta in/compreensão mútua
e a dificuldade em se comunicar.Fica de nós este fragmento
do que ainda podemos ser.
Este relacionamento a se elaborar
e uma parcela de interesse recíproco.
Fica esta identificação de caráter simultâneo
e o desejo de que tudo não se perca.Fica de nós este sentimento reticente
ainda não de todo vivido/compartilhado.
este completo des/conhecimento do outro
e uma necessidade de maior diálogo.
Fica esta in/definição de objetivos comuns
e o sentido da procura.Fica de nós este silêncio inédito
devido ao medo em acreditar.
Esta complexa/frágil vontade
de querer sobrepor-nos negando a intuição.
Fica este receio de se expor e viver o espontâneo
e o que isto nos tem custado.Fica de nós esta intransigência
e a falta de coragem para admitir.
Este impulso em dizer coisas secretas
e a sensação de ferir dizendo.
Fica esta recusa em se confessar
em defesa de uma estúpida integridade.Fica de nós esta passividade
e o distanciamento decorrente dela.
Este eterno ficar na espera sonhando
e o recolhimento implícito que nega.
Fica este gostar que desconhece convenções
e o raciocínio estragando tudo.
O Acaso das Manhãs -
Poema #03: Em branco
-
Poema #57: História Concisa
“Quando em meu peito rebentar-se a
Que o espírito enlaça à dor vivente”.
Álvares de Azevedo(1831-1852)O poeta dobra a esquina
com uma sacola de plástico:
pão, bife de hambúrguer e solidão.
Não vale a pena chorar por ele:
se fez as opções erradas,
se tombou pelo caminho,
nada fica além do fato
de um dia ter existido
e comido aquele sanduíche
barato.Uma Escada que Deságua no Silêncio
-
Poema #56: Isolamento
A lua na casa de saturno
saturno na casa da lua
todo mundo em casa.
A casa de todos no mundo
todo mundo na casa de
todo mundo e eu que não
encontro o meu lugar
em lugar nenhum,
no escuro.O Jardim Simultâneo
-
Poema #03: Habitar o intervalo
“A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *
Os emaranhados da vida
tapeçaria mal tecida
De palavras sufocadas por amarras
por nós
Arremates enrijecidos do tempo
entre as costurasVida vivida
em monoblocoEsgarçar a tessitura
do tempo mal vividoEsburacar a trama
de pontos suturadosCriar um circulador
de silêncios no espaçoArear lembranças
do que resta calado(*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar
-
Poema #55: Linguagem do escuro
Agora que a luz se apagou
e a solidão restabeleceu seu domínio,
ouço com receio a linguagem do escuro
que me des-norteia a vida.Nasci sob o signo da morte
mas prefiro-a assim,
conquistada aos poucos.
Porção diária de veneno
que injeto na raiz da vida
até que ela, afinal, desapareça.E a linguagem do escuro prevalece
(ainda que se acendam todas as luzes)
como sendo a linguagem universal de tudo
a tecer as teias da incompreensão fraterna.
Areia (À Fragmentação da Pedra) -
Poema #02: Sem alarde
Não era o primeiro a chegar
também não era o último
ficava no meio.Lugar pouco disputado,
onde ninguém posa
e quase ninguém repara.Enquanto alguns se apressavam em brilhar
e outros reclamavam da falta de luz
ele aguardava.Não parecia esperar nada específico
talvez só o tempo exato em que algo se revela
sem fazer alarde.Foi assim que aprendi:
nem toda claridade quer vencer a noite
algumas só querem caber dentro dela
por um instante e depois seguirvagalumeando
-
Poema #15: Um Soneto da Lua
Ainda que sejam versos pequenos…
Uns simples versos que sejam ao menos,
os ventos os empurrarão no tempo
onde serão o eterno consentimento.Toda a lua brilha alta e resplandece
porque deseja muito o amor do mar.
Acaricia um instante e depois reflete:
é a busca de nunca encontrar.Como um solitário que ri na estrada
é toda ela amor…uma imagem vaga,
tempero de emoções, fogo que estala.Sendo certo o errado e não sendo
a peleja da busca, o contratempo,
ainda que seja um verso pequeno. -
Poema #54: Intervalo
“Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino
Que envelheceu, um dia, de repente!”
Mário Quintana (1906-1994)Tenho quarenta e cinco anos
e já neste meu último aniversário
foi levantada a hipótese irreversível
do envelhecimento antes da morte,
mas nunca sabemos o que virá primeiro.Seja como for o assunto é desagradável.
Imaginei-me de carteirinha sexagenária,
entrando pela porta da frente dos ônibus
e viajando de graça pelo país dos meus netos.Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro
no banco e haveria um guichê específico
esperando a minha dificuldade de caminhar.Soube também que eu poderei requerer
um acréscimo no valor da aposentadoria,
para gastar com hospitais, médicos e remédios.Seja como for o assunto é desagradável.
A minha vontade é rasgar
o estatuto do idoso
e voltar a ser criança.Uma Escada que Deságua no Silêncio