Crônicas

A Copa das geladeiras

Existem fenômenos que a ciência ainda não conseguiu explicar.

As pirâmides do Egito.

A matéria escura.

O motivo pelo qual abrimos a geladeira durante os jogos da Copa do Mundo.

O melhor é que todo mundo faz isso. Se você está assistindo a Copa do Mundo com um grupo em sua casa, veja bem se não é assim mesmo.

O jogo está empatado, faltam três minutos para acabar, o atacante avança pela direita, o estádio inteiro prende a respiração… e quem está no meio do sofá empurra os outros e se levanta para verificar se, por acaso, surgiu um pedaço novo de queijo desde a última inspeção realizada há exatos quatro minutos.

Outro, torcedor fanático, rói as unhas.

A amiga, que não entende nada de futebol, caminha pela sala torcendo as mãos.

Independentemente do método escolhido para lidar com a tensão, mais cedo ou mais tarde todos acabam diante da geladeira.

Lógico que são pessoas íntimas, mas, em circunstâncias normais, nenhum deles mantém uma relação tão próxima com a minha Samsung Duplex.

Quanto mais decisivo o jogo, mais frequentes as visitas.

E tem inserções específicas por perfil:

– O fiscal de refrigerante, que conta quantas latinhas ainda sobraram;

– o explorador de potes, que abre recipientes à procura de algo que não sabe nem dizer o que;

– o supersticioso, que procura por um raminho de quatro folhas na gaveta de hortaliças;

– e o peregrino da luz branca, que apenas contempla o interior da geladeira em silêncio, como quem procura respostas existenciais entre a margarina e o pote de azeitonas.

Na final da Copa, a porta da geladeira passa mais tempo aberta do que fechada.

Talvez a Copa não revele apenas como torcemos.

Revele como esperamos.

Porque diante da ansiedade, da incerteza e dos noventa minutos que parecem eternos, fazemos o que os seres humanos sempre fizeram: procuramos conforto.

Alguns encontram na fé. Outros na estatística.

Nós, brasileiros, procuramos na geladeira.

E, quase sempre, encontramos apenas a mesma garrafa de água que já estava lá no primeiro tempo.

Mas voltamos.

Porque a esperança, assim como a Copa, é uma coisa que se alimenta sozinha.

Ana Helena Reis

Ana Helena Reis é paulistana, pesquisadora e empresária, com extensa produção de textos acadêmicos. Em 2019 começou a se dedicar à escrita literária e à ilustração de seus textos em prosa: contos, crônicas e resenhas, relacionados a fatos e situações do cotidiano. Publica em seu blog, Pincel de Crônicas, em coletâneas, e revistas eletrônicas. Em 2024 lançou seu primeiro livro solo, Conto ou não conto, pela editora Paraquedas/Claraboia, e, em Espanhol, Inquietudes Crónicas, pela editora Caravana/Caburé.

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