
A Copa das geladeiras
Existem fenômenos que a ciência ainda não conseguiu explicar.
As pirâmides do Egito.
A matéria escura.
O motivo pelo qual abrimos a geladeira durante os jogos da Copa do Mundo.
O melhor é que todo mundo faz isso. Se você está assistindo a Copa do Mundo com um grupo em sua casa, veja bem se não é assim mesmo.
O jogo está empatado, faltam três minutos para acabar, o atacante avança pela direita, o estádio inteiro prende a respiração… e quem está no meio do sofá empurra os outros e se levanta para verificar se, por acaso, surgiu um pedaço novo de queijo desde a última inspeção realizada há exatos quatro minutos.
Outro, torcedor fanático, rói as unhas.
A amiga, que não entende nada de futebol, caminha pela sala torcendo as mãos.
Independentemente do método escolhido para lidar com a tensão, mais cedo ou mais tarde todos acabam diante da geladeira.
Lógico que são pessoas íntimas, mas, em circunstâncias normais, nenhum deles mantém uma relação tão próxima com a minha Samsung Duplex.
Quanto mais decisivo o jogo, mais frequentes as visitas.
E tem inserções específicas por perfil:
– O fiscal de refrigerante, que conta quantas latinhas ainda sobraram;
– o explorador de potes, que abre recipientes à procura de algo que não sabe nem dizer o que;
– o supersticioso, que procura por um raminho de quatro folhas na gaveta de hortaliças;
– e o peregrino da luz branca, que apenas contempla o interior da geladeira em silêncio, como quem procura respostas existenciais entre a margarina e o pote de azeitonas.
Na final da Copa, a porta da geladeira passa mais tempo aberta do que fechada.
Talvez a Copa não revele apenas como torcemos.
Revele como esperamos.
Porque diante da ansiedade, da incerteza e dos noventa minutos que parecem eternos, fazemos o que os seres humanos sempre fizeram: procuramos conforto.
Alguns encontram na fé. Outros na estatística.
Nós, brasileiros, procuramos na geladeira.
E, quase sempre, encontramos apenas a mesma garrafa de água que já estava lá no primeiro tempo.
Mas voltamos.
Porque a esperança, assim como a Copa, é uma coisa que se alimenta sozinha.























