Crônicas

A vida como deveria ser

A gente pensa na vida como algo a ser resolvido depois porque tem urgências urgentíssimas sempre por fazer!

E esquece, com isso, a flor, o amor, o amar, o mar e as rimas todas que estão no ar.

A gente pensa que tem tempo, mas tempo, na verdade, não há!

E esquece aquele encontro, o jogo com os amigos, simplesmente ficar de papo para o ar!

A gente deixa o cinza e o concreto e o sinal fechado interromperem a fluidez das relações, a espontaneidade das coisas e, quando vê, não há mais nada o que fazer.

A urgência mesmo é a própria vida nas suas explosões e contradições.

A urgência simples das coisas é viver a vida a cada dia…

A urgência urgentíssima é sentir, olhar, perceber, respirar, encontrar, fazer acontecer na conversa na varanda entre samambaias.

Nas risadas entre um jogo e outro de futebol. Nos olhares cúmplices de irmãos trocados na cozinha e nas palavras que deveriam ser ditas e foram ditas… A vida no seu cotidiano!

Que tal escrever aquele poema que estava esperando sair do papel?

Que tal subir uma montanha e gastar os pés e o calçado?

Que tal parar tudo e escutar o som da própria vida?

A vida como deveria ser…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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