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fev- 2026 -16 fevereiro
A polícia do sonho
Quando Zími entrou no apartamento, a tábua do piso fez barulho. A luz do quarto de Mila Cox acendeu, ela abriu a porta e falou: “O universitário quer fazer a entrevista com você. Certamente porque te considera um punk velho, cheio de histórias pra contar. Deve ser machista, pouco acostumado com mulheres no rock. Ele disse que colou no show de Santo André.” Ela anunciou a ele que um jovem que estava presente no fim de semana anterior numa apresentação
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15 fevereiro
A cuíca, a ruivez e o smartwatch – sexta-feira 13 como comissão de frente
Comprou um relógio para controlar seus batimentos cardíacos. Descobriu que, ao ter o combo de medições de oxigenação, estresse, sono e ciclo menstrual, tornava seu pulso um criador de conteúdo. Dados. Gráficos. Percentuais.O coração, finalmente, auditável. As notificações de redes sociais, e-mails ou o contar do tempo passaram a ser meros gadgets. O que importava era o número que subia e descia como se fosse destino. O corpo, agora, tinha analytics. Com o
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15 fevereiro
Pierrô e Colombina
Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina. Bom, o carnaval chegou e o ano, enfim, começa a partir daí. Quantos não vivem dizendo isso a cada novo carnaval, a cada novo fevereiro? Todos ficam em compasso de espera. Tudo parece inerte. A expectativa é enorme, assim como as filas e a falta de paciê
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15 fevereiro
Poema #03: Habitar o intervalo
“A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” * Os emaranhados da vidatapeçaria mal tecidaDe palavras sufocadas por amarraspor nósArremates enrijecidos do tempoentre as costuras Vida vividaem monobloco Esgarçar a tessiturado tempo mal vivido Esburacar a tramade pontos suturados
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14 fevereiro
A solução vive nas cinzas
A dúvida é mesmo a assombração da humanidade, o veneno do existir. Não importa a situação. Se nos deparamos com a necessidade de fazer uma escolha ou se somos tragados pela incerteza da continuidade de algo que nos é fundamental, vem a maldita nos mastigar por dentro. Quem nunca passou uma noite em claro matutando sobre o melhor caminho a seguir? Largo meu emprego de anos por uma oportunidade promissora? E se tudo der errado? Troco de curso na faculd
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14 fevereiro
Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos
“Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante” (Roberto e Erasmo Carlos) Os saudosos anos 60, além de propiciar nova consciência, clamor pacifista e efervescência artística, colocaram nos moços longas cabeleiras. Encaracoladas, cacheadas, naturais, lisas, afro, black power, rebeldes, mas invariavelmente compridas. Depositários inconformados de valores de uma sociedade decrépita que exaltava a grana e a guerra, os
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14 fevereiro
Fantasia de Carnaval
“Resort com all inclusive, garçons bronzeados, bíceps à mostra, tapa-olho de pirata, buffet internacional e drinks tropicais… Música dos carnavais antigos, marchinhas singelas ou picantes ressoando, sem atrapalhar a conversação… Praia de areia branca, som do vai e vem das ondas… chuveirões e piscinas de borda infinita a poucos passos… Espreguiçadeiras, guarda-sóis, serviços de massagem, banhos de imersão e tratamentos corporais… Um livro, um chapéu,
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13 fevereiro
Alguém salve a Língua Portuguesa!
Queria falar de literatura. De literatura brasileira, especificamente. Gostaria, na verdade, de escrever sobre algumas das obras de Erico Verissimo, como O prisioneiro, que, por acaso, li os últimos capítulos hoje mesmo. E, preciso dizer, quanto mais leio as obras do Erico, mais certeza tenho de que se trata de um escritor absolutamente extraordinário. No entanto, não abordarei nem o romance e nem a guerra, sua temática principal. Falarei de Grêmio. E, vam
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13 fevereiro
Ofensas mal disfarçadas
Para viver em sociedade é preciso estar atento. Olhos bem abertos e ouvidos bem sintonizados. Por que existem várias maneiras de se ofender alguém sem usar palavreado de baixo calão. Por exemplo, atribuir à sorte as conquistas dos outros é uma delas. É uma forma velada de desprezar a preparação e o esforço que outros tiveram. Como se as coisas só dessem certo para uns como resultado da ocorrência de eventos positivos, favoráveis ou inesperados. Coisas que
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13 fevereiro
O Zé Vesgo
O Zé roubou a Cida, só porque era vesgo o pai não permitia o casamento? Não foi por esse motivo, a Cida estava prometida a um outro – e promessa é dívida. No dia seguinte, ainda no orvalho da madrugada, escurinho, os dois irmãos bateram na porta do Zé, que ele saísse fora de casa, para morrer. O Zé saiu de peito aberto, olhou nos olhos dos cunhados e mandou que atirassem. Os dois tremeram na pontaria – diacho de homem que olha para um lado e a gente pensa
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12 fevereiro
Ato saudável
Minha vida vai muito além das limitações do eu. Subir os degraus de qualquer monumento todas as manhãs, me traz a oportunidade de tudo ficar claro. Seria bom passar esse brilho aos olhos dos outros. Está tudo incrivelmente bem, e agora entendo que os limites entre ruídos e sons, são convenções, e todos estão à espera da transcendência. É possível transcender qualquer convenção se você imaginar que pode fazê-lo. Por isso entendo que minha vida v
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12 fevereiro
GUERNICA
Um dia o azul desapareceu. Olhamos para o céu com cara de espanto. Alguém palpitou que uma tempestade se aproximava, mas aquele cinza parecido com aço sobre a cabeça de todos não tinha nada a ver com os temporais costumeiros do mês de abril. Era diferente. Havia um cheiro, um quê desconhecido que tornava aquele dia distinto. O amarelo também sumira. Ao anoitecer a luz acabou. Os namorados não se encontraram, as ruas ficaram vazias e o silêncio se impôs, tã
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11 fevereiro
O peso da vida
Tento não crer nessa tristeza que me abala. Já são muitos os motivos para sofrer. Tá pensando que é por coisas externas, como a falta de minha mãe? Não, absolutamente. Perdi-a, como perdi o meu pai, num acidente de trânsito, ainda na infância. Fui criado por uma tia pobre e carrasca. Ela se satisfazia em me ver padecendo. A comida era fracionada. Seus filhos comiam mais. Nunca fui com a cara de nenhum, todos bandidos, literalmente; são assaltantes finos. P
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10 fevereiro
Gastando a Vida nos Bloquinhos
Outro dia, me lembrei de uma frase que me caiu no colo de graça no Instagram. É de Mário de Andrade: “Viver é gastar a vida e não conservar a vida”. E eu penso: às vezes, a gente economiza tudo – até o que não era pra economizar. Economiza amizade, esperando a pessoa perfeita, aquela que preenche todas as necessidades, que não enche o saco, não cobra e não liga na hora errada. O amigo sem defeitos. E, com essa exigência toda, quantos amigos a g
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9 fevereiro
A dúvida é mais cruel que qualquer verdade
Zími acordou cedo e estava em bom estado. Trabalha em casa, assistindo antes ao noticiário da manhã, que lhe agrada por mostrar ao vivo as condições surreais do transporte público. Ele estava livre disso depois de anos, mas a forma como o povo é obrigado a se deslocar para o trabalho como gado de corte ainda o chocava. Nunca havia o menor esboço de rebelião por parte de quem é obrigado a simplesmente doar todo o tempo e energia de sua vida e aind
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9 fevereiro
Poema #55: Linguagem do escuro
Agora que a luz se apagoue a solidão restabeleceu seu domínio,ouço com receio a linguagem do escuroque me des-norteia a vida. Nasci sob o signo da mortemas prefiro-a assim,conquistada aos poucos.Porção diária de venenoque injeto na raiz da vidaaté que ela, afinal, desapareça. E a linguagem do escuro prevalece(ainda que se acendam todas as luzes)como sendo a linguagem universal de tudoa tecer as teias da incompreensão fraterna.Areia (À Fragmentação da Pedra
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8 fevereiro
Nas alturas, um café com o Redentor
Próximo ao céu, onde nenhum obstáculo além de uma escada de marinheiro me separa do Cristo Redentor, a certeza de que nada é estável me invade. A mutabilidade da paisagem, colorida a cada noite por nuances de distintos pigmentos primitivos — esparsas, turvas, momentâneas — fere um órgão qualquer, apertado entre oxigênio, responsabilidades e preocupações. (— Não dói porque é frágil, diz uma voz que não vem de mim. Dói porque ainda sente.) Vejo, a princípio,
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8 fevereiro
Poema #02: Sem alarde
Não era o primeiro a chegartambém não era o últimoficava no meio. Lugar pouco disputado,onde ninguém posae quase ninguém repara. Enquanto alguns se apressavam em brilhare outros reclamavam da falta de luzele aguardava. Não parecia esperar nada específicotalvez só o tempo exato em que algo se revelasem fazer alarde. Foi assim que aprendi:nem toda claridade quer vencer a noitealgumas só querem caber dentro delapor um instante e depois seguir vagalumeando
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8 fevereiro
Poema #15: Um Soneto da Lua
Ainda que sejam versos pequenos…Uns simples versos que sejam ao menos,os ventos os empurrarão no tempoonde serão o eterno consentimento. Toda a lua brilha alta e resplandeceporque deseja muito o amor do mar.Acaricia um instante e depois reflete:é a busca de nunca encontrar. Como um solitário que ri na estradaé toda ela amor…uma imagem vaga,tempero de emoções, fogo que estala. Sendo certo o errado e não sendoa peleja da busca, o contratempo,ainda que seja u
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7 fevereiro
Super pobres
Muito se fala dos super ricos, grupinho reduzido de privilegiados que amealham fortunas tão descomunais que fazem o Tio Patinhas parecer um pobretão. Erguem mansões em localidades diversas com dezenas de cômodos em mármore maciço e um séquito enorme de serviçais, bunkers antinucleares, coleções de carros blindados, iates, jatinhos, joias e objetos de luxo. Possuem zoológicos particulares com animais exóticos (em extinção). Constroem banheiras de ouro e pri
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7 fevereiro
Solidão x Solitude
Costumamos dizer que seguimos com a mesma garra, a mesma força, a mesma independência, os mesmos “superpoderes”, embora já tenhamos atingido determinada idade. No fundo, porém, penso que isso talvez seja uma escolha. Optamos, de forma racional, por manter uma aparência de força. Decidimos seguir. Ainda assim, creio que nos tornamos, sim, mais fragilizados, mesmo quando estamos bem de saúde, com autonomia e em boa forma física. É como se, pouco a pouco, fôs
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6 fevereiro
Parada em ventania
Aqui venta sempre desse jeito, sim senhor. Acho que é por isso que chamaram aqui de Ventania. Em Dois Córregos também venta muito. Foi a minha irmã, a Cida, que me contou. Não, eu não conheço lá. O senhor não está vendo as minhas pernas? Eu não conheço lugar nenhum, eu só conheço aqui. A Cida é quem me conta as coisas. Ela diz que Dois Córregos não é muito grande, mas que é muito maior do que aqui. E deve ser bem maior mesmo, pelas coisas que ela conta que
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6 fevereiro
Ser surpreendido
Não tenho vergonha alguma em ser surpreendido. Já superei faz muitos anos aquela necessidade de ter que mostrar que sabia de tudo antes de todos. Desprezo a sensação de poder que a clarividência traz. A verdade é que adoro não saber das coisas antes que elas aconteçam. Toda vez que eu converso com alguém que me diz “eu já sabia” eu me alegro por nada saber antecipadamente. Sou curioso, como todo mundo, mas não perco meu tempo tentando adivinhar. Por dever
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5 fevereiro
Capacitismo
A discriminação e o preconceito social contra pessoas com alguma deficiência, são vistos como normais em sociedades desinformadas ou mal-intencionadas, e essas pessoas são entendidas como exceções; eles creem que a deficiência é algo a ser superado ou corrigido, se possível por intervenção médica. Um exemplo de postura inadequada, é dirigir-se ao acompanhante de uma pessoa com deficiência física, ao invés de dirigir-se diretamente à própria pessoa. Atitude
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5 fevereiro
O grande acontecimento
Ele tinha se tornado a principal atração daquela cidade à beira do mar. Quem lá fosse certamente ouviria na volta: “E aí, foi ver o…? O que achou?”, “Me conte, como é o…?”, “Não me diga que não foi ver o…!”. Era quase uma obrigação, para qualquer turista, visitar o… Ver o… era a revelação de um segredo, a que só pessoas especiais tinham acesso. No dia mesmo de minha chegada fui avisado pelo guia turístico de que naquela noite
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4 fevereiro
Matei
Nada que pudesse dizer me livraria do pecado. Eu havia matado, ainda que por puro instinto e defesa. Naquela noite, eu lembro, estava afobado e cansado. Entrei em casa arrastando a bolsa do trabalho no chão. Havia brigado com o meu chefe Roberto por causa da sua implicância comigo; ele tem a mania de dizer que faço corpo-mole, e isso é mentira: dou o meu sangue para a empresa. Cheguei em casa como um verdadeiro verme ambulante. Não tinha estímulo para nada
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3 fevereiro
Meu primeiro grito de carnaval
Sempre fui tímido. E, para piorar, me meti muito cedo com os livros. Só através da imaginação eu viajava — na vida real, não. Todo carnaval, eu me escondia: procurava ler uma montanha interminável de livros, me informava sozinho no cinema ou passava horas tediosas vendo televisão. Aquela alegria lá fora não me pertencia. Até que um dia cansei de ficar em casa. Vou para a rua, nem que seja para fazer uma caminhada, bater perna, invejar a alegria dos outros.
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2 fevereiro
Soberba
No aniversário do vovô, a neta diz a ele: “Vovô, você foi chamado de soberbo pelo resto da família desde muito antes de eu saber o que isso queria dizer, mas tem sorte por já ter vivido bastante e não ter que se preocupar com o futuro, né?” O vovô respondeu: “Nunca me preocupei com o futuro. Sempre temi pelo presente mesmo. Mas nunca na mesma intensidade de hoje em dia.” Neta: “Sim, mas você não é tão velhinho como os vovôs dos meus amigos. Tem algum medo
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1 fevereiro
Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!
Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena co
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1 fevereiro
Meu relógio é de borracha
Às vezes, me canso um pouco de ler as crônicas do cotidiano publicadas nos inúmeros sites e veículos de comunicação (logo eu, que sou uma delas?). E não é por conta da qualidade literária dos textos — que, na maioria dos casos, é inquestionável —, mas por sentir que estou sempre comendo aquele mesmo pudim que retorna à mesa depois de congelado. Por isso mesmo, me deliciei com um texto novo que falava sobre os Tidsoptimistas. O termo é difícil até de p
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