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  • out- 2025 -
    30 outubro

    Para que a chuva deixe de doer

    Se naqueles dias de aguaceiro eu tivesse uma corda, e se eu não fosse pouco mais do que uma criança crescida, e se eu pudesse e tivesse coragem, amarraria minha mãe na cama e lhe daria uma surra para ver se ela parava de chorar e de gritar de dor. Quando chovia, os ossos de minha mãe latejavam e ela ficava louca. E me enlouquecia também. Mas eu não tinha uma corda. *** E agora, quantos dias me aguentando? Demasiados. Já são onze dias que chove sem parar, o

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  • 29 outubro

    Apocalipticamente

    “Subverter a ordem, apocalipticamente!”. Foi assim que Luan nos apresentou, numa conversa desleixada, “o projeto”. Devíamos chocar, como os Mutantes e Secos e Molhados – indicou-nos, inclusive, as referências, que eu nem conhecia. Não vou mentir: tive medo. Agarrei-me a certos exageros para continuar. Já tocava e queria tocar mais. Era o baterista do colégio e tinha, inclusive, o meu fã-clube. O sonho era viver de música, “da minha arte”, e esse era o medo

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  • 28 outubro

    Almoço mineiro

    Quarta-feira. Meio-dia. Belo Horizonte está nublada, como uma cidade que acabou de sair do banho. Desço a Rua da Bahia, venho do Minas Tênis Clube, fazer algo que não vem ao caso. Atrás de mim está a Praça da Liberdade, com os bancos onde já se sentaram Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. A cidade não é só um convite à crônica — ela é uma crônica pronta,

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  • 27 outubro

    Poema #43: Carnaval, Bandeira e Eu

    Quero banhar-me nas águas sujasQuero banhar-me nas águas sórdidasSou a mais solitária das criaturasMe sinto só. Confiei às mulheres os meus amoresCaí de quatro pelas sarjetasCobri minha alma de decepçõesValei-me Manuel Bandeira. Vozes da morte contai a históriaDa pessoa boa que sempre fuiE eu dormia ouvindo o ruído calmoDo bambuzal A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

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  • 27 outubro

    Defasagem

    Quando Zími ouviu Mila Cox bater à porta de seu quarto, pensou que fosse por causa das pilhas do controle remoto da televisão da sala. Ele as havia trocado,colocando pilhas usadas no lugar. Pecou miseravelmente e estava envergonhado. As pilhas dele já tinham acabado e eram da mesma marca das pilhas usadas por ela na outra televisão, pois foram compradas na mesma ocasião. Compraram poucas, mas ele compraria outras no dia seguinte. Antes de dividirem o apart

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  • 26 outubro

    Por mais segundas-feiras e não sábados ensolarados

    É manhã de sábado, os raios de um dia ensolarado rasgam os tecidos da cortina e iluminam meu rosto adormecido. Há muito barulho de vida lá fora. Levanto com os pés quentes e sonhadores no piso frio, lembrete físico das tarefas ainda por fazer. Me espreguiço, levanto o tampo da bacia sanitária, mijo. Descarga, torneira e sabonete líquido: jogo uma água de qualquer jeito no rosto, a toalha felpuda brinca de me fazer cócegas e eu sorrio. Café. Preciso de café

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  • 26 outubro

    Poema #14: Fluxo

    E vemé frio é poucoe quente e certoincerto é leve é tardee breve e loucosolto é muito é medoe mesmo e igualreal parte e vemvem e parteuma partee vai…

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  • 26 outubro

    Desconfio que nasci pata. Pata pateta?

    Sabe aquela pessoa especialista em uma atividade, focada, perseverante, que se destaca pela alta performance? Não estou falando de quem nasceu com um dom divino — porque aí seria fácil dizer: se não foi abençoado, desista. Falo do ser comum que escolhe um caminho e segue nele, dia após dia, sem desvio. Pois é… essa não sou eu. Pelo contrário. Sempre tive necessidade de pular de galho em galho: cada hora um foco, um novo desafio, sempre para explorar algo d

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  • 25 outubro

    A atemporalidade da dor

    Naquela manhã de sábado, um senhor de setenta e poucos anos acordou decidido a acabar com o tormento vivido nas últimas cinco décadas. Aquela vergonha entranhada nos poros, aquela humilhação cravada na mente, aquelas risadas de escárnio ecoando na lembrança, que não lhe davam um segundo de paz, chegariam ao fim.  Carl levantou cedo, se arrumou, tomou seu café e foi até o endereço do seu desafeto. Tocou a campainha. Quando a porta abriu, diante de

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  • 25 outubro

    Dia de Algodão-Doce

    Sobre o mistério de viver com os olhos encantados e o coração desperto. Se o homem, esse ser racional, se apegar apenas ao pensamento e desacreditar dos mistérios e belezas que há no mundo, estará morto, embora vivo. Sonhar, comover-se, sentir-se maravilhado com pequenos ou grandes mistérios, sorrir das delicadezas inesperadas, espantar-se, sentir gratidão ou culpa são manifestações que nos conectam uns aos outros e dão sentido à nossa vida. É aquele insta

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  • 24 outubro

    Fábula do Afeto e do Amor

    Um dia Afeto chamou Amor para conversar. O olhar de Afeto era afetuoso, assim como o tom de suas palavras. Mas aos ouvidos de Amor dessa vez elas soaram estranhas, porque inéditas. Nunca ouvira da boca de Afeto nada tão neutro. Não havia agressividade, verdade seja dita, mas faltava algo. Calor. As palavras escolhidas por Afeto eram muito distantes das que Amor se acostumara a escutar em sua convivência. O que Afeto disse, a sugestão de conversarem, desceu

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  • 23 outubro

    O Menino e Matisse

    Na página aberta de um livro, está um desenho de linhas curvas entrelaçadas. O menino percorre com os olhos cada pedaço da imagem, procurando memorizar o caminho sinuoso de cada pincelada dada pelo artista. Pega uma folha em branco e fecha os olhos. Quer se certificar de que o desenho que acabou de ver está inteiro em sua memória. Traça linhas retas e curvas na folha branca. De vez em quando retorna ao desenho original, e percorre novamente, com os olhos e

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  • 23 outubro

    Viver com medo, é ser escravo!

    O precursor da carta dos direitos humanos, foi o Cilindro de Ciro que é uma peça rara cunhada em forma de barril e argila cozida, descoberto nas ruínas de Babilônia na Mesopotâmia em 1879. Ele foi criado em vários estágios, mede 22,5 centímetros por 10 cm no seu diâmetro máximo. Data do século VI a.C. (539 a.C.), e o texto talhado sua estrutura elogia Ciro, o Grande, e lista sua genealogia como um rei de uma linhagem de Reis. Nele foi declarada a

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  • 22 outubro

    Bichanos

    Larissa me pregou uma peça. Chegou em casa com uma gatinha filhote, embrulhada em sua camisa da malhação. Disse que a pobrezinha estava embaixo de seu carro, no centro da cidade, abandonada, que ela não poderia ficar assim. Logo rebati, mandando que levasse para doação. Larissa, com mil beijinhos e abraços – é assim que ela faz quando quer alguma coisa –, suplicou que ficássemos com a “neném”. Fiquei emburrado e desajeitado com a nova integrante, mas, aos

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  • 21 outubro

    Era uma vez Dona Namoradeira

    Dona Maria era uma mulher metódica. Todos os dias cumpria seu ritual sem faltar. Acordava pelas manhãs logo que o dia raiava, preparava um café bem preto, forte e aguardava por Zequinha, o menino que vinha trazer seu pão, sempre quentinho e fresquinho. Quando chegava, ela despejava o líquido, ainda quente, em sua xicara e ia bater ponto em sua janela. Maria jamais atrasava nesse compromisso matinal. Gostava sempre de chegar em seu “serviço” bem cedo, pois

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  • 21 outubro

    O homem que não gostava de nada

    Tenho um amigo que não gosta de nada. Comprou um livro, mas não leu porque precisa descansar.Descansar do quê? Nem ele mesmo sabe. Certo dia, chamei para um cinema.— Nossa, cinema é tão chato.— Mas é filme do Almodóvar.— Pois é. Cor demais, e muita pouca vergonha. Veio o carnaval. Sugeri uns bloquinhos.— Eu não. Aquele monte de gente.— Uai, mas você não gosta de gente?— Gosto, mas vou preferir ir pra roça, descansar.— Descansar do quê?— Ah, sei não. Descan

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  • 20 outubro

    Na parede do banheiro

    Mila Cox estava filmando e gravando uma entrevista a que seu parceiro musical Zími estava sendo submetido. Estavam na sala do apartamento que dividiam no bairro da Liberdade. Eram cinco horas e sete minutos de uma tarde de chuva e São Paulo estava caótica. Notícias de alagamentos e quedas de árvores eram a tônica dos noticiários locais. Fazia tempo que não sentiam tanta satisfação por poderem trabalhar em casa e poderem ficar de boa quando as condições cli

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  • 20 outubro

    Poema #42: Chuva Noturna

    A chuva no asfaltoleva papéis/cigarrose o vômito de ontem.Amanhã novos resíduosvirão para preenchero vazio do meio-fio.Areia (À Fragmentação da Pedra)

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  • 19 outubro

    uma pílula para manter a sanidade — …humanidade?

    A vida é um eco, não é mesmo? Mesmos problemas; vida que se derrama enquanto pensamos demais e, talvez, ajamos de menos. Descomplicar é sinônimo, em ação, do substantivo vazio. Que também pode ser um adjetivo. O vazio dói. O apartamento ficou vazio. A vida descomplica quando menos nos esforçamos. O vazio é repleto de tudo; é o próprio caos. Descomplicar é o verbo de ação para que a estafa necessária possa agir em meio ao vazio. Tudo o que nos torna nós mes

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  • 19 outubro

    Velórios Virtuais

    Elas escolheram sempre a mesma mesa, no canto da cafeteria — aquela perto da janela, com vista para a rua movimentada. Um ritual silencioso: dois cappuccinos, celulares na mesa e o feed de notícias aberto. Foi entre um gole e outro que o suspiro da mais falante das duas anunciou o assunto do dia: — Você conseguiu descobrir do que faleceu Diane Keaton? A outra levantou os olhos da tela, com a seriedade de quem comenta a morte de alguém da própria família. —

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  • 19 outubro

    A procura da poesia

    Ah! Carlitos! Se você soubesse da correria desse mundo! Corremos ainda mais! E não prestamos atenção em quase nada! Acelerados em quase tudo! Sentimos com pressa! Amamos com pressa! Brigamos com pressa! Desviamos com pressa! Olhamos com pressa! Chegamos ao despudor de morrermos com pressa! Os tempos pós-modernos são intensos e corrosivos! Tempos controversos e destrutivos! Ah! Carlitos! Se você soubesse… O seu humano máquina se transformou ainda mais

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  • 18 outubro

    Acalento

    Ao escrever, eu namoro, flerto, me apaixono. Por quem? Por elas, as palavras. Já perceberam como elas chegam? Afoitas, apressadas, querendo passar à frente umas das outras. Delas, sou fã, parceira e amiga. Pois venham, achem seus lugares, enfeitem, enfeiem, traduzam, confundam. Ahhh, as palavras… Com o seu poder, destroem impérios, apaziguam corações quebrados, animam os desesperados, fazem felizes os apaixonados. E os sons? Variados, engraçados, escrachad

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  • 18 outubro

    Duplo carpado

    Quando surgiu o papo de que 60+ era a melhor idade, eu não levei a sério. Julguei se tratar de ironia social ou brincadeira de mau gosto. A maioria de nós, obviamente, não deseja morrer. Mas, daí a achar que a velhice é a esperada sobremesa ao final do jantar, já é demais. Envelhecer, decerto, não é o fim do mundo, mas exige traquejo e criatividade para que o processo seja vivido como percurso e não como chegada. O discurso social não facilita o trabalho n

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  • 17 outubro

    Receita para se aburguesar

    Como perspicaz observador do seu tempo, Gregório de Matos soube compreender bem o papel da aparência naquela sociedade, o que o levou a compor um soneto intitulado “Remédios para enfidalgar”. Os tempos são outros, a sociedade é outra e os estratos sociais são outros. É verdade. Porém, embora com lugar diferente e mais distante do “ser”, o “aparecer” continua presente. Tem, inclusive, efeito curioso em determinados sujeitos inconscientes de sua classe. Assi

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  • 17 outubro

    Bethoven nos salvará

    Nos enredos de futuro catastrófico um dos temas mais recorrentes é a invasão da Terra por alguma raça alienígena ultra avançada. Os aliens chegam enfurecidos e destroem a humanidade e o que chamamos de civilização. Nem sempre por completo porque sobram alguns homo sapiens que se organizam e por fim derrotam o invasor mega tecnologicamente avançado. Bom, eu penso eventualmente nessa ideia. Não a extinção da raça humana mas a ameaça vinda de algum ponto do e

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  • 16 outubro

    Alguns convencidos que tudo sabem!

    Um grupo de cientistas japoneses criaram o sistema ferroviário que uniu Tóquio a 36 cidades vizinhas.  Eles tiveram a colaboração de Blob, um sincício multinucleado macroscópico, amarelo brilhante, que também propôs resultados semelhantes nas redes rodoviárias no Reino Unido e na península ibérica.  Seu nome científico é Physarum polycephalum, e já vivia na Terra há 500 milhões de anos antes dos seres humanos.  Esse é um exemplo de como a sa

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  • 16 outubro

    Quando o nosso nome estiver gravado na pedra

    Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definidoainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até a

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  • 15 outubro

    Atriz dentro da parede

    Era setembro. Estava ela diante do espelho a mirar-se. Já estava bem habituada a ouvir elogios mencionando a sua beleza, mas não era certo em suas formulações o que isso significava exatamente. De pé, frente ao espelho. Olhos grandes e bem abertos a olhar no vidro vivo e desafiador um rosto dotado de beleza semi-exótica – porém inquestionável – quase que como procurando pelo alheio. Estava séria e não caberiam sorrisos naquele momento. Na verdade, ninguém

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  • 15 outubro

    Fixação

    Daniele sabe me intimidar. É uma mulher sem par. Ela tem um quê de melindrosa, sarcástica, que eu adoro. O timbre de sua voz flutua até os meus ouvidos, é algo divino como uma canção de Debussy, e eu me sinto inebriado e confuso. Toda vez que a vejo é um desconcerto total, fico abestalhado, sem reação. Talvez seja porque ela não dá a menor bola pra mim. Não sou estragado, me considero mediano, “bem parecido”. Tenho me esforçado bastante para ter uma vida,

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  • 14 outubro

    Quase Real

    A internet é a cama desarrumada do mundo. Ou melhor: o quarto desarrumado do mundo. Dá na mesma, mas eu precisava começar minha crônica de hoje com alguma bobagem. Sinceramente, abrir um site hoje é como entrar na casa de um adolescente: panela suja, meia em cima do roteador e um cheiro indefinido de pizza com desespero. Cada link é uma gaveta aberta; cada anúncio, uma roupa esquecida da ex. E o pior: a gente fica à vontade nesse caos, como se fosse nosso.

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