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mar- 2026 -5 março
A loja de despedidas
Na estação rodoviária da cidade, entre um quiosque que vende lembranças para turistas e uma lanchonete, há uma loja de despedidas. Ali, os viajantes solitários — aqueles seres que transitam de um lugar para outro sem que haja ninguém que se despeça deles — podem escolher a melhor forma de partir da cidade. Há despedidas para todos os gostos, ânimos e possibilidades financeiras. Os atores contratados pela loja, de todas as idades, são muito experientes e tr
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5 março
Futuro do pretérito!
As cores revelam significados marcantes e frequentes na demonstração de nossos atos, e alguns desejos mais enfáticos associam intensidade única para estruturar aquela manifestação ativa que transborda em um ato contra outro indivíduo, ou por vezes, a nós mesmos. Pode ser quando estamos à beira de um ataque de nervos, ou enchendo os olhos de lágrimas, e nossa solidão repudia qualquer um que queira adentrar em nossas vidas e trazer medo e tristeza. Eventualm
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4 março
Consciência econômica
Não tenho mais medo do futuro. Minha mulher sempre me falou para curtir o presente, que “a vida é o agora!”. Mas, filho de um pai escrupuloso, tive a tendência de seguir os seus passos seguros. Criado por ele, devia ter uma “consciência econômica” – esta frase ecoa ainda hoje – quanto aos gastos, inclusive com a alimentação. Não se podia tomar mais de dois copos de café por dia. Não se podia comer mais de um pão francês. Tudo era racionado, fracionado, e n
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3 março
Poema #58: Passagem das horas
Fica de nós este resíduodo que ainda não fomos.Este abismo a se superare uma certa disponibilidade.Fica esta in/compreensão mútuae a dificuldade em se comunicar. Fica de nós este fragmentodo que ainda podemos ser.Este relacionamento a se elaborare uma parcela de interesse recíproco.Fica esta identificação de caráter simultâneoe o desejo de que tudo não se perca. Fica de nós este sentimento reticenteainda não de todo vivido/compartilhado.este completo des/c
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2 março
Beiça
Beiça era o apelido de César Albuquerque Valladares. Vestia-se como tivesse sido arrumado pela mãe para ir à escola, mesmo com quase cinquenta anos de idade, mas de sua boca qualquer narrativa sobre problemas do cotidiano ganhava uma dimensão épica e fazia quem estivesse por perto pensar e muitas vezes ter vergonha de si mesmo em algum aspecto. À primeira vista, parecia ter saído de um retrato de família de 1890. Era designer gráfico. T
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1 março
Beijos
Em Belo Horizonte, foliões reclamam: beija-se muito pouco no carnaval atual. Mulheres solteiras, gays, homens desempregados no “mapa da fome do amor” – todos declaram urgência no coração. Não dá para se iludir: você pode sambar na ponta do pé no Bainas Ozadas, curtir a vibe romântica e antiga do beiço do Wando, se jogar no Bloco da Calixto ou sensualizar na Corte Devassa. Mas passar um carnaval sem beijo algum é como um feriado tão guardado cai
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1 março
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1 março
De quando não havia internet
Você sabia que já existiu uma vida completamente diferente da que temos hoje sem internet? Sim, conseguíamos viver sem internet! O telefone servia simplesmente para que pudéssemos falar com alguém! Falar de fato! Falar diretamente com alguém! Estranho falar com alguém hoje pelo celular! Muitos preferem os intermináveis áudios ou a já consagrada mensagem de texto! Tudo hoje é urgente! A resposta precisa ser imediata! Caso contrário, pode acontecer a terceir
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1 março
Pé ante [o sisal e a sombra do outro] pé
Um vulto de cerca um metro e vinte e cinco se esquiva por trás da cadeira de balanço. Gabriel move um pé depois do outro, tentando elevar seu peso acima dos ombros. Primeiro, o indicador do pé esquerdo toca o assoalho de madeira, um marrom rosado escurecido pelos anos. Pisa com cautela para evitar o rangido. Quase não respira. Sua avó, sentada à cadeira, move apenas as mãos. Faz crochê. Há semanas se senta ali para tricotar não se sabe o quê. Faz algo, des
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fev- 2026 -28 fevereiro
Agora eu era herói
Quando eu era criança, deixava-me levar pela fantasia de ser um super herói que tudo podia. Mas, ao contrário do Batman, não agia apenas no combate aos folclóricos criminosos de Gotham City. Minha área de atuação era mais abrangente. Ocupava o cargo de presidente, ou talvez imperador, do Brasil. Não, do mundo! Pois as fronteiras nacionais não seriam suficientes para barrar meu desejo infinito de servir a cada um dos habitantes, até os das regiões mais remo
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27 fevereiro
10 para 14
Se você é um dos seis leitores que caridosamente escolhem ler o que eu escrevo às sextas-feiras aqui nesse nobre espaço saiba que, hoje, 27 de fevereiro de 2026, faltam 10 para 14. 10 dias para minhas filhas completarem 14 anos. (Suspiro, sorrio e continuo.) 14 anos… Que aventura! Pintam os cabelos. Pintam as unhas. Pintam os olhos. Pintam o caneco. Mas não quebram a louça. Se vestem de preto. Usam coturno. Amam blusinhas. E adoram chaveiros de K-pop. Se x
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27 fevereiro
Somos filhos da rua e da noite
O Zé Preto se acomodou, ajeitando o cobertor. O Espanhol deu um puxão: — Esse cobertor é meu. O Zé Preto empurrou o outro com a bunda. Riram. — Vai tomar no “cu” — um disse para o outro. E riram. Passou um carro numa poça e jogou água nos dois. — Vai se foder — o Espanhol gritou, se levantou e ficou esbracejando contra o carro, que já tinha virado a esquina da rua Brás Cubas. O Zé Preto correu pegar uma pedra. O Espanhol avançou contra ele com uma ba
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26 fevereiro
Mais lúdicos e sutis!
Na história do Reino Unido, a era vitoriana foi o período do reinado da Rainha Vitória, de Junho de 1837 até sua morte em Janeiro de 1901. Aqueles foram árduos anos para o povo famélico que andava pelas ruas difíceis e vazias. Muitos homens não tinham casa para dormir e se reuniam com outros, em espaços exíguos, para respirar e descansar. A pobreza da época em Londres fazia com que o povo optasse por dormir em caixões do tamanho de seu corpo,
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26 fevereiro
O magro, o gordo e o miúdo
Os três dividiam a cela. Um era alto, magro de olhos pequenos e negros, outro era gordo e de corpo nervoso, o terceiro era miúdo e de pouco espírito. Foram condenados à morte por um tribunal improvisado. Isso era tudo o que sabiam a respeito de seu destino. Nem se preocuparam em ler a sentença, conteúdo já sabido pelos três. Também não lhes disseram quando seria a data fatal. Eles só esperavam, jogando baralho e alguma conversa fora. De vez em quando inter
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25 fevereiro
Tempo não é dinheiro
Mãe: “Meu filho, você está indo pra onde?” Filho: “Estou indo pra minha nova casa.” Mãe: “Você não tem outra casa! Largue de ser ridículo!” Filho: “Eu não tinha, mas agora eu tenho dezoito anos e terei. Vou morar com a minha tia.” Mãe: “Com que dinheiro você vai viver?” Filho: “Sou copywriter, economizei uma grana, ainda que pouca para os padrões burgueses. E minha tia, que pra mim é como irmã mais velha, já tem o apartamento dela, que será dividido comigo
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25 fevereiro
Enfim, Carnaval…
Já sei bem que é Carnaval. Os sons da rua anunciam a jornada – repare que até os pássaros são proibidos de cantar, com a arruaça que se desorganiza pelo Centro da cidade. Ronaldo, meu vizinho, saiu cedo, às 5h, e me deu notas de como serão as suas aventuras pelas praias do Ceará. Falou que iria de Beberibe a Paracuru, com os detalhes de ser uma grande viagem em família. Parariam nas praias para curtir um pouco do que tinham para dar. “Sou folião nato, Inoj
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24 fevereiro
Valeu, Mestre Ciça!
João Pedro é um menino de 9 anos nascido na cidade de Niterói. Como todo garoto, costuma ocupar seu tempo fazendo coisas que outros de sua idade também fazem. Estuda, vai ao colégio, joga videogame, usa seu celular para ver o que acontece nas redes sociais e passar o tempo se distraindo com games. O menino sempre acompanhou a paixão de seus pais pela escola de samba de coração, a Viradouro. Os sambas da escola sempre fizeram parte dos churrascos de domingo
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23 fevereiro
Poema #57: História Concisa
“Quando em meu peito rebentar-se aQue o espírito enlaça à dor vivente”. Álvares de Azevedo(1831-1852) O poeta dobra a esquinacom uma sacola de plástico:pão, bife de hambúrguer e solidão.Não vale a pena chorar por ele:se fez as opções erradas,se tombou pelo caminho,nada fica além do fatode um dia ter existidoe comido aquele sanduíchebarato. Uma Escada que Deságua no Silêncio
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22 fevereiro
In-cels ou In-hells?
Numa conversa de bar, ouvi, na mesa ao lado, alguém chamar um colega de trabalho de “incel”. A palavra me chegou torta. Pensei ter escutado “in céu” — algo estrangeiro mal pronunciado, desses modismos que sobem à cabeça depois do segundo chope. Nada disso. As amigas se entreolharam com um susto breve — desses que duram menos que a espuma no copo. — Justo ele? Bonito, cargo alto, vida ajeitada… um pouco inseguro, talvez. Mas isso? — Escuta o que ele anda di
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22 fevereiro
Uma crônica fora da lata
A polêmica no carnaval (entre tantas e recorrentes polêmicas de carnavais e redes sociais) tem a ver com uma lata. Mas não uma lata qualquer, uma lata física e, ao mesmo tempo, metafórica. Coisas de nossos tempos tão absurdos! Não vou explicar o desfile e tampouco descrever a escola de samba, personagem ímpar de um ano que se inicia. Há muita agressividade nas redes e o assunto foi dito e redito centenas de vezes… Não sou eu que vou repetir mais uma vez! O
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22 fevereiro
Boiar nas águas, atravessar os morros: menos Catherine, mais Rita – mais minha
Quantas vidas vivemos em uma vida – você, eu? Eu, por exemplo, não sou mais a mesma do casamento. Nem poderia ser. Seria falta de educação comigo mesma. Tampouco sou a mesma que realizou, ainda nova, seu sono de morar no exterior. Ou a que ambicionava um prêmio de arquitetura, recebido na categoria sustentável antes dos 30. Hoje sou a única criatura — ao menos aparentemente — que sai aos prantos da sessão de terça-feira de Carnaval de O Morro dos Ven
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21 fevereiro
Rugas virtuais
Nunca me preocupei com a velhice, embora não acredite naquele papo de melhor idade, isso eu sei que é balela. Como eu poderia viver a melhor fase da minha vida sem enxergar um palmo à frente do meu nariz e ainda por cima na companhia de anti-inflamatórios e médicos de todas as especialidades? Não que seja horrível envelhecer, mas a crença na velhice como o melhor dos tempos é a reencarnação do coelhinho da Páscoa. Sei que é preciso alguma ilusão para aguen
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21 fevereiro
A madrinha
Um estranho. Para as pessoas distraídas, apressadas, pensativas, envolvidas em seus pensamentos ou problemas, em que mudar a marcha do carro vem a ser um ato automático, o rapaz parado ali naquele cruzamento praticamente não existia ou era apenas isso: a figura de um estranho. Em vez de empatia despertava irritação, talvez. Não era transparente, mas era como se fosse. Como se ali não houvesse ninguém. Gabriela passava todos os dias naquela esquina e por ac
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21 fevereiro
Onde foi que erramos?
Um grupo de renomados cientistas das mais variadas áreas uniu-se para criar o ‘relógio do juízo final’ (‘doomsday clock’), um instrumento que estima o tempo restante para o fim do mundo, a ocorrer à meia-noite em ponto. Como num conto de Edgar Allan Poe, o soturno soar das 12 badaladas anuncia a chegada da morte. O escalar das horas, ao contrário dos relógios convencionais, não ocorre em função do decorrer regular e inexorável do tempo, mas do processo de
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20 fevereiro
Ah! Se eu pudesse
Sou um cara que desconhece muito de música. Em particular os novos nomes que têm surgido, seja aqui seja no exterior. Por que? Ah não sei, acho que me dá um pouco de preguiça acompanhar tendências, sabe? Por isso para mim foi uma surpresa enorme descobrir que uma cantora, que eu só conhecia de nome, gravou uma bela canção do Roberto Menescal, que eu sei quem é. Ela é a Luisa Sonza. O nosso encontro se deu assim. Um dia explorando os meandros da televisão a
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20 fevereiro
CONFITEOR
Hoje eu cheguei em casa, mais uma vez, com uma vontade doida de me matar. Somente é possível raciocinar com o fígado. É a história de Prometeu, e vem o abutre e lhe rói o fígado. Por isso o homem é o desgraçado que é. Não é dono do seu destino, nem do seu próprio fígado. Existe alguma coisa chamada destino? Predestinação? Deveria haver alguma coisa assim para justificar a minha vida, sempre sem sentido. Dizem que a ocasião faz o ladrão. O homem é produto d
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19 fevereiro
Morrer pela segunda vez
Orfeu chorou tudo o que pôde quando Eurídice desceu ao mundo dos mortos. Suas lágrimas encheram oceanos até seus olhos ficarem secos. Vendo que o pranto havia desaparecido, e como forma de manter viva a memória da esposa a quem amava sobre todas as coisas vivas, passou a cantar. E viu que cantar era bom e que todos os que o ouviam se deleitavam. Os passantes, antes de tomarem o metrô, jogavam moedas e um sorriso para o músico maltrapilho sentado no chão na
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19 fevereiro
Mirar no espelho!
Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonho, que descrevem experiências que vivi. Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, e que eu gostaria de rever, trocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço. Quando fui a escola pela primeira vez, senti vontade de ficar mais tempo por lá com os amigos, porque aquela, era a melhor parte da aula, encontrá-
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18 fevereiro
Fervor
Não tinha nenhuma pretensão de me esquivar. Sou jogo aberto, embora um pouco carrancudo. Apesar da minha masculinidade exacerbada, dei total liberdade aos meus filhos. Paulinho era o único que não se abria muito. Vez ou outra, mesmo depois da separação de sua mãe, tentava uma saída só nossa, para assistir a um filme ou tomar uma. Ele sempre desconversava, e eu sentia uma saudade danada. Paulinho, depois dos dezessete, notei, se tornou introvertido. Um meni
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16 fevereiro
Poema #56: Isolamento
A lua na casa de saturnosaturno na casa da luatodo mundo em casa.A casa de todos no mundotodo mundo na casa detodo mundo e eu que nãoencontro o meu lugarem lugar nenhum,no escuro. O Jardim Simultâneo
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