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jan- 2026 -19 janeiro
Dinossaura herbívora
A avó tinha mesmo pintado o cabelo de azul, foi para o churrasco da família só para beber e usava uma camiseta do Circle Jerks. Ela só falava quando solicitada. E embora fosse, a princípio, econômica em suas falas, uma vez que engrenava num assunto de se
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18 janeiro
Rio abaixo…
Reconectar, rever, retomar a amizade – foi o mantra de Clô ao receber o convite para a festa dos 40 anos de formatura. Quarenta! Ela leu a lista de colegas com um sorriso nostálgico no rosto e um pensamento ligeiramente suspeito: “Que tempos maravilhosos
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18 janeiro
vida [e mundo] como um sopro
Intranscritível o sussurro aerado dos tempos à beira de uma lagoa. Folhas balançam, cabelos se descabelam, passarinhos tentam passarinhar, todo um compasso descompassado e, por isso mesmo, incrivelmente belo. Há algo de poético em se perceber só existindo, às
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16 janeiro
Memórias entre Ruínas
Ainda há fumaça saindo da cinza. Ainda há um inexplicável cheiro de rosas, entre as ruínas da casa, sob a cinza. Como se o cheiro das rosas saísse de debaixo das cinzas. Nenhuma parede em pé, móveis queimados, objetos vagos: ruínas. Ergo um busto de gesso, uma
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15 janeiro
Tem coisas nesta vida que a gente não esquece
Minha mulher, Maria da Graça, há dez anos padece de esquecimento. Seus olhos enxergam, mas não veem e, quando veem, não reconhecem o que viram, como se tudo que se apresentasse na frente deles fosse novidade: o vaso azul de porcelana, o relógio perto da janela
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15 janeiro
O Último Azul
Qual é o maior pecado que devemos temer em face de nossa caminhada escaldante, que por vezes é gélida de emoções? A certeza. Essa é a grande inimiga da união entre os povos, e da tolerância que espreita nossos atos mais dignos. Quando Jesus estava
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14 janeiro
Ano-Novo
Ano-Novo. 2026 está aí. Caminho em direção à casa de meus pais, solitário. Como moro a cerca de duas quadras, resolvi ir a pé. O sapato esquerdo aperta, por conta do joanete, que quase expõe o osso para fora. Caminho devagar, para amenizar a dor. Penso: por qu
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13 janeiro
Sem frases motivacionais daqui pra frente
Não sei se vocês já repararam, mas, depois dos 40, o mundo parece decretar: “Pronto, acabou o estoque de incentivos”. Aos 20, todo mundo te empurra pra frente — “Estuda! Viaja! Conquista o mundo!”. Aos 30, ainda rola um “Vai lá, c
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12 janeiro
Poema #52: Ciclo I
A vida,em todas as suas formas,revela a sutileza de um mágicoque hipnotiza a todospara que não vejam seus truques falhos. Os homens,em todas as suas crenças,revelam a idiotice de um asnoque acredita em tudopor não ser capaz de discernir o óbvio. Os homens,com
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12 janeiro
SUB VIDA
A sobrinha perguntou para o tio no churrasco da família: ‘Quando você percebeu que estava fodido e não tinha mais volta?’ O tio respondeu: ‘Desde cedo, nos anos 70, no primeiro dia na escola, aos quatro anos. Eu apenas não sabia expressar em palavras o que sen
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11 janeiro
Looping quotidiano
O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam: — Data de
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11 janeiro
TOC-TOC: crônica das loucuras cotidianas
Desconfio que, em vidas passadas, andei frequentando a Casa Verde do Simão Bacamarte. Não que eu me dedique profissionalmente ao estudo da loucura, mas traçar o perfil das manias alheias é um talento que cultivo com facilidade — e um tantinho de desfaçatez. Ou
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11 janeiro
Nada de novo no front II
Começamos mais um ano e notícias de guerra voam pelos ares, atravessam fronteiras e chegam às nossas casas, em todas as casas. A despeito da poesia e da vida, velhos amargurados jogam meninos no campo de batalha e exigem vitória. A despeito do pulso e do pulsa
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10 janeiro
Bora
Brasileiros de todas regiões e rincões têm o privilégio de dispor de um cardápio infindável de palavras para expressar ideias e sentimentos, com folga de opções semânticas. Nem mesmo o meio milhão de verbetes (além de gírias, regionalismos, neologismos e termo
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9 janeiro
Olho Mágico
A menininha se aproximou com um objeto na mão. Mostrou para o menininho sentado no banco, num canto isolado. – Me dá um pedaço do seu lanche. Eu te mostro o meu olho – disse. O menininho ficou olhando com olhos tímidos. Depois passou o pão com mortadela para e
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8 janeiro
O que acontece dentro de casa
O que acontece dentro de casa deve ficar dentro de casa, eu acho. É assim que eu penso, e por isso nunca o denunciei. Minhas amigas sempre me diziam que era o que eu devia ter feito desde o início, mas, o senhor há de compreender, a gente nunca quer que as pes
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7 janeiro
Inferno
Numa terça qualquer, à tarde, sol a pino, estavam todas as roupas estendidas no varal. Salete tirou tudo o que já enxuto, para que, quando o marido chegasse do trabalho, estivesse tudo arrumado. Jonas não gosta de bagunça. Salete sabia desde o dia em que se ca
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5 janeiro
Poema #11: Prato Frio
amar-te até os dentesembora passado o instante da mordidafico de presente com a marca da feridaleva pro futuro tatuado meu gosto
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5 janeiro
Poema #51: Andarilho no Quintal
sou nascido e criadona roçaacostumado com as durezasda vida racho lenha para o sustentocom um machado cegode cabo de pau-mulatoherança do meu avô após almoçar no quintaluma empurra a outra na moitae eu saio aliviado para o roundda luta suja e feroz do homem. U
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5 janeiro
Fardo
Zími sonhou que havia se tornado crooner e cantava com uma banda de músicos de jazz num pequeno teatro decadente, que no sonho havia reaberto no Bixiga. Havia na plateia pessoas conhecidas dele que jamais estiveram e nem poderiam estar juntas um dia, pelos mai
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4 janeiro
Palavras nem tão bonitinhas assim
Toca, por primeira vez em meus ouvidos, uma canção intrigante: I’m All I Got, de um grupo chamado Dead Brothers. O nome não passa incólume. Há algo ali que cheira a flores murchas, deixadas tempo demais num vaso a mercê de sabe-se-lá-o-quê. Palavras que já for
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3 janeiro
Infeliz Ano Novo
Passadas as comemorações de fim de ano, quando já cumprimos o aborrecido ritual de cumprimentar por educação o petista (ou o bolsonarista) que mora ao lado, podemos voltar a odiá-lo como sempre e desejar-lhe, sem remorsos, uma morte sofrida. Após o congraçamen
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3 janeiro
Quero morar no mato
Não por muito tempo… talvez só o suficiente para que passem as especulações de final de ano. Quais? As econômicas, as astrológicas, as políticas, as de tendências de moda, artísticas e até mesmo as da cor para 2026. Acreditam? Essa é realmente nova para mim. E
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2 janeiro
Árvore de Natal
Nunca pude esquecer aquela noite. Era o primeiro Natal depois da morte de Mamãe. Sempre, toda a vida, ela e Papai, de noite, pertinho do Natal, armavam a nossa árvore, com muito carinho, Lininha e eu sentados ao lado. Agora, pela primeira vez, a gente foi cedo
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2 janeiro
Deixe-se levar
No ano que começou agora há pouco desejo menos organização e mais espontaneidade. Mais espaço para contemplação e menos para observação. Compromisso só nas obrigações, porque são implacáveis. No mais, vamos levando em espirais diáfanas. Planejar é preciso, cer
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1 janeiro
Os homens da montanha, os homens do mar
Era bonito o lugar onde ficava aquela cidade: de um lado o mar, de outro a montanha. No meio, a vida calma e comezinha de quem nada ambiciona e é feliz assim. A terra ainda não estava cansada e dava de comer a quem andava sobre ela. Era fácil e bom viver lá, o
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1 janeiro
Ponte emocional!
Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade rural, um sítio que lhe dava trabalho e despesas. Ele reclamava que era um homem sem sorte, pois, as suas propriedades davam-lhe muitas dores de cabeça e não valia a pena conse
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dez- 2025 -31 dezembro
A dor do outro
Almir não tinha escrúpulos. Abusava de nossa mãe de todo jeito. Quase a deixou na falência e a induziu à morte. Sempre foi um cara problemático. Quando nosso pai era vivo, aí, sim, ele tinha certo respeito. Nessa época, não vilipendiava o lar sagrado. Papai im
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30 dezembro
Votos Teimosos
Meu coração transborda desejos teimosos, daqueles que povoam o peito da gente e não arredam pé. Que no ano que se aproxima o amor seja maior que o ódio, e nenhum ser humano neste Brasil de meu Deus fique sem almoçar, tomar café da manhã ou jantar. Que o carnav
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30 dezembro
O Patriota
Depois de muitos anos de resistência, Brasilino, respeitado pesquisador brasileiro, aceitou sair de seu país e ir fazer uma palestra na maior universidade dos Estados Unidos. Os norte americanos estavam eufóricos por conseguirem levar ao seu país um dos respon
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