Autores

  • set- 2026 -
    6 setembro

    Xeque-Mata

    Eduarda e Rafaela. No centro, um tabuleiro de xadrez. Eduarda com as pretas e Rafaela com as brancas. Eduarda gosta de ficar segurando o queixo enquanto pensa, e Rafaela adora um uísque durante o jogo. — Peão quatro do rei. Rafaela morre de inveja do corpo de Eduarda: pernas perfeitas, pele branca de quase nunca ir à praia, seios que cabiam na mão, pontudos, empinados. Eduarda não se acha tão bonita e despreza a objetificação. — Cavalo três do bispo do rei

    Leia mais »
  • 6 setembro

    Rebeldias do mundo

    Já repararam como o cotidiano doméstico muitas vezes conspira contra? Já mudei várias vezes de casa, cozinhas planejadas diferentes, mas não adianta: a água da torneira que espirra na pia sempre corre para o canto oposto do ralo. A gente tenta educá-la com aquele rodinho, mas ela faz ouvidos de mercador. E quando abrimos a gaveta onde guardamos fios de celular, fones de ouvido, tudo separadinho? Eles se embolam sozinhos, como se tivessem vida íntima. Isso

    Leia mais »
  • 6 setembro

    Poema #21: Sonho Azul

    No barco nuo pescador sonhaum sonho azul. No barco velhoo pescador rinum sonho azul. Com a água calmao pescador viajano sonho azul. Ninguém atrapalha,nada interrompeo sonho azul. O impulso amorosoé forte e clarocomo o sonho azul. No barco nuo pescador encontrao sonho azul.

    Leia mais »
  • 5 setembro

    A Bola de Neve e seus encantos

    — Mãe, abre o portão. É a Bárbara. Ela vem me ver às quintas-feiras. — Ué, você mudou os móveis? — Como? — A mesinha de café, aquele canto ali… Da última vez que estive aqui, não tinha! Andou garimpando, né? Já te falei: você não deve mais sair sozinha. Bom… tomei um pito. Mas vou guardar esse assunto para outro dia. — Falando nisso, filha, faz dois cafés. Mesmo estando calor, eu tomo meu café nesse horário. É costume. — Mas aí tem tomada elétrica? — Coloq

    Leia mais »
  • 5 setembro

    NÓS

    Sei que você não é sequer capaz de imaginar as sensações que desperta em mim. Nunca vivi nada parecido antes. Perco o sono, durmo mal. Você me excita. Muito… Penso que você é só minha. Eu exijo exclusividade. Você não tem a mais vaga ideia das coisas que eu gostaria de fazer com você. Na verdade, eu já fiz. No meu pensamento, já realizei todos os meus desejos. É tudo tão real. Eu despi você inteira. Observei de perto sua pele clara. Deslizei minhas m

    Leia mais »
  • 5 setembro

    “Zerou” a vida?

    Não. Zerar não é empatar. Quando chegamos ao fim da nossa capacidade de contagem, zeramos o jogo. “Zerar a vida” é a vanglória de um feito mágico e grandioso, uma experiência inacreditável! O ideal de fazer algo extraordinário, como se tivesse vencido o último e mais poderoso oponente e batido a meta máxima do game. O feed desliza repetidamente, sem pausa, sem ponto final. A moça radiante dança diante de um palco imenso e resplandecente debruçado sobre a p

    Leia mais »
  • 5 setembro

    Maldito Ipê Amerelo

    Dia desses, acordei desagradavelmente surpreendido, ao avistar pela janela um objeto estranho sublevar-se na paisagem urbana a que estou habituado a contemplar pelas manhãs. Em meio à monocórdica retitude dos edifícios cheios de sacadas, num cenário perfeitamente simétrico, ornado com veículos, postes, bueiros, muros, grades, fios elétricos, guindastes, betoneiras, tapumes, andaimes e fumaça, eis que se sobressai ao pálido grafite, uma intrusa árvore carre

    Leia mais »
  • 4 setembro

    A galinha manca

    A galinha atravessa vagarosamente o terreiro. Cada passo é quase uma queda. A galinha é torta, tem uma perna mais curta que a outra. É uma galinha manca. Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse calculando cada movimento. O terreiro é largo, clareado aqui e ali por algumas réstias de sol. O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra preta, folhas, penas e dor. A galinha é um bicho só. Procura algum grão de milho, uma minhoca, procura a

    Leia mais »
  • 4 setembro

    Dissertação: Adotar ou Comprar Animais?

    Coautora: Letícia Hyppólito* Nos tempos atuais, há discussões sobre adotar ou comprar animais, como no filme “Beethoven” em que há um cachorro que nunca era adotado por ter muito medo de humanos. Portanto, é necessário incentivar a adoção de cachorros, gatos e outros animais como os porquinhos-da-índia. É importante escolher adotar um companheiro, pois dá chances aos cães S.R.D (Sem raça definida) que estão há muito tempo no abrigo ou ONG (Organização Não

    Leia mais »
  • 4 setembro

    A bela da porta

    Era assim. Durante a semana eu caminhava logo cedo para o colégio Santo Agostinho. Percorria uns quatro quarteirões de onde eu morava na época, no Leblon. Era no século passado, entende, então eu, como todos os demais garotos de 12 anos, levava uma bolsa a tiracolo com livros e cadernos, pendurada em um dos ombros, que àquela hora pesava uma tonelada. Bem diferente de hoje quando só se vê para cima e para baixo malinhas de escola com rodinhas. Ao que parec

    Leia mais »
  • 3 setembro

    Loteria Sagrada

    No fastiar dos dias, nos cruzam rotinas que trazem novas oportunidades, e outras que quase não tentamos tocar. Simplesmente porque escolhemos a que nos arrefece o caminhar, como um templo de braços abertos, com ofertas a seu critério. “Estamos procurando fora de nós por força e confiança, mas elas vem de dentro, e estão lá o tempo todo” (Anna Freud). Um desses templos com múltiplas ofertas, é o “Omikuji”, construído em Tóquio, na ár

    Leia mais »
  • 3 setembro

    A chuva estranha

    A terapeuta disse à mamãe que procurasse sair do quarto e fazer alguma atividade simples que lhe desse alegria. Sugeriu que cuidasse do jardim. Mexer com a terra é o melhor remédio contra a depressão. Plantar flores ou fazer uma horta traria enormes benefícios à saúde mental de todos. “Aproveitem a primavera precoce que já está no ar”, disse ela. A família toda concordou. Aquele pedaço do terreno atrás da casa estava mesmo inútil, tornara-se uma floresta e

    Leia mais »
  • 3 setembro

    Cinzas

    Como um anjo caído, eu virei cinzas, me dispersando por cada lugar que passei. Gritei aos céus para que me recebessem de volta, enquanto bebia minha dor. Nenhuma luta para me levar ao cosmos foi suficiente, somente muito sangue foi derramado. Era a batalha interminável das duas coisas que me sobraram: a busca pela indiferença dos sentimentos, como uma boa estoica, e a hedonista que tentava sobreviver. Enquanto anjo caído, espalhei a dor que queimava como o

    Leia mais »
  • 2 setembro

    Finjo que consigo viver assim

    Procuro acalmar Luana. Ela está em polvorosa, com medo de ser demitida. O nosso chefe é de veneta, a cada minuto podemos esperar um vendaval ou um refresco brando de mar. Ele é uma boa pessoa, já demonstrou diversas vezes quando quer nos ajudar, mas pode pegar no meu pé ou no pé de qualquer colega por semanas, e isso nos aflige. Nas reuniões, somos chamados a falar: sempre me saio mal, por conta da minha timidez excessiva, mais especificamente por conta do

    Leia mais »
  • 2 setembro

    O velho saudosismo de todos nós

    Por alguma razão que desafia meus parcos conhecimentos, todos nós somos mais ou menos saudosistas. Com isso, não quero dizer que estejamos, naturalmente, inclinados a um pungente estado de melancolia. Talvez o caso requeira alguns cuidados, mas não chega ao absurdo de tal fatalismo. De toda forma, creio que o passado seja um personagem que insiste em ser valorizado, mesmo quando seus atributos só podem ser, medianamente, apreciados. — Bom mesmo era no temp

    Leia mais »
  • 2 setembro

    Um beijo ardente

    O empresário e a jovem secretária amante beijam-se ardentemente no quarto de luxo de um hotel evidentemente de luxo também.  Findo o beijo, ele leva as mãos à boca, sentindo algo estranho. Que foi, ela diz, não gostou? Ele corre pro banheiro, olha-se no espelho, abre a boca e lá está: um vão, uma janela, onde deveria estar um dente, um pré-molar tipo ostentação, de ouro 24k!  Assustado, sempre protegendo a boca, corre de volta pro quarto, ab

    Leia mais »
  • ago- 2026 -
    31 agosto

    Poema #84: A Solidão do Poema

    O poemanecessita de um outropoemaassim como o poetanecessitade uma con/vivência poética.Os versosnão nascem do nadaassim, exclusivamente,inspiração.A noiteprecede o sopro líricoe ambos se integramao poema acabado.O poeta,este ser solitário,desce das montanhasde seus sonhospara recolher os fragmentosda realidade dos homens,e com eles constrói no poemauma unidade hipotética.O Acaso das Manhãs

    Leia mais »
  • 31 agosto

    Retrato

    De Pipa para Pernambuco, pela estreita estrada, seguimos. Nada no peito, a não ser a batida do novo. Um beat surdo que ecoa, único, em cada ouvido. Seguimos. Somos expectativa e viagem. Os olhos decifram a paisagem: o pequeno cemitério cheio de árvores floridas e um homem só, que olha o túmulo de alguém que, pela primeira vez, está só. O caminho não é este, mas termina no encontro do rio com o mar. Beleza pura. Voltamos à estrada desejada, à experiência pl

    Leia mais »
  • 30 agosto

    E Ainda é Agosto

    “É 29 de agosto. Em 48 horas, sua vida mudará para sempre.” Mais uma vez estava eu vidrada diante da tela. O dia era 29 de agosto, ontem, como foi no ano passado e no ano antes dele. A melodia inebriante preenchia os vazios que o ar-condicionado a 21ºC fazia flutuar no quarto hermético do Cachambi: O som avança em pequenos impulsos, como passos curtos e apressados que de repente… desaceleram. Expande e…. recolhe. O acordeão dá a sensação de ar

    Leia mais »
  • 30 agosto

    O Sorriso Perdido

    Jandira teve uma infância de indigente. Criada com mais seis irmãos numa cidade pequena no interior, enquanto seu pai trabalhava na roça, ela ajudava a mãe a cuidar da casa e das crianças. Na tapera em que moravam, a miséria acompanhava de perto a família. Não havia comida todos os dias, faltava luz elétrica e, no caso de Jandira, lhe faltavam todos os dentes da frente. Era pobre, raquítica e banguela. Com dez anos, foi entregue aos cuidados de uma senhora

    Leia mais »
  • 30 agosto

    Poema #20: Mar e Voz

    O fraco risco frágile trêmulo uma vozuma voz apenasruído longínquo e espessouma vozum frasco, riscomurmúrio e sonhovoo largo e concreto da voznum desencontro imponderávela pedra a areia o riscoinevitávelvoz das brumasvoz das sombrasvoz apenasde tudo o que se podiatudo o que se queriatudo que se sonhavae nada se viavoz apenasvoz de melancoliamar marulhar marulhobrumaa escuna no escuroo som da vozna vozfozinominável voztrêmula, espessa, rarainevitável desenc

    Leia mais »
  • 30 agosto

    A arte de pensar com as mãos ocupadas

    Desde pequena desenvolvi uma habilidade peculiar: só penso direito quando minhas mãos estão ocupadas. Dê-me um novelo de lã e duas agulhas e, pronto, minhas ideias começam a trabalhar — às vezes até antes de mim. Sempre achei que esse hábito era apenas um jeito de evitar a ociosidade manual, uma espécie de TOC artesanal. Até perceber que havia ali um mecanismo mais profundo, quase científico, embora absolutamente nada acadêmico. Foi observando uma laçada s

    Leia mais »
  • 29 agosto

    O fim do mundo

    Francisco saltou do metrô apressado. Estava a 300 metros do consultório, e faltavam apenas cinco minutos para o início da sessão. Não se atrasava nunca e, ao contrário de muitos, estava sempre bem-disposto às segundas-feiras. O terapeuta também raramente o atendia fora do horário. Naquele dia, tudo foi diferente. Entrou 45 minutos depois da hora marcada. Tinha muita coisa para falar, havia ensaiado um discurso na véspera. Havia feito anotações no bloco de

    Leia mais »
  • 28 agosto

    O PARDALZINHO

    O nenê era como um pardal palpitando na palma da mão. Estava morto? Não sei o que vou fazer. Depósito com cuidado na covinha, aberta no jardim, cercada de flores. Aí ele pára de se mexer. Dá uma respirada comprida, dá que nem uma tossinha engasgada, dá outra respirada já meio sumida, e pronto: agora está morto. A Cida ainda está chorando. Mulher chora por qualquer coisa. Era o filho dela? Também era o meu filho. Nunca mais vou-me esquecer daquele montinho

    Leia mais »
  • 27 agosto

    Isso é para a vovó

    Meu primo Alfredo chegou correndo e me entregou um pacote pequeno. Disse: “É pra entregar pra vó.” Entrei em casa e falei: “O Alfredo mandou entregar isso pra vovó.” Paty, minha irmã menor, fazia a lição da escola na mesa da copa e gritou na direção da cozinha: “Manhê, o Juca falou que o Alfredinho mandou uma coisa pra vó.” Minha mãe, sem parar de mexer nas panelas, virou o rosto e alterou a voz: “Então fala pro Juca levar logo isso pra sua avó.” Juquinha

    Leia mais »
  • 27 agosto

    Em algum lugar

    Passei boa parte da vida correndo atrás de muita coisa, bufando como todos aqueles que chegam numa plataforma de trem, atrasados, na busca do encontro com a felicidade. Até que um dia, parei na esquina da minha rua, para conversar com seu Almeida, o jornaleiro. Ele não é daqueles que só empurram jornal com café requentado, com um pão de queijo de ontem. Ele lê cada notícia, comenta o tempo, pergunta do cachorro da gente, e guarda um doce para as crianças d

    Leia mais »
  • 26 agosto

    Imagine a minha dor

    Me vi no fundo do copo. É aterrorizante se ver distorcido, confuso, sem se entender bem. Vi também todos os meus achaques ali, quando me sentei e pensei em Ludmila. Ela me deixou, há anos, sem chão. Não porque quisesse. Ela me foi arrancada, a fórceps, como num nascimento complicado. E olhe que Ludmila se cuidava. Não fumava nem bebia, como eu. Aliás, todas as minhas doenças advêm disso, da minha vida tresloucada, irresponsável, principalmente depois da pa

    Leia mais »
  • 26 agosto

    O que te mantém vivo?

    Uma ideologia política, uma crença religiosa, uma visão de mundo ou um passatempo qualquer. A ambição por riqueza, a busca de reconhecimento, a luta por poder ou a simples necessidade de sobrevivência. Muitas podem ser as razões que nos mantêm vivos. Das mais vulgares às mais sublimes; das mais egocêntricas às mais altruístas. A natureza daquilo que nos estimula a levantar todas as manhãs pode dizer muito sobre nós mesmos, nossas histórias e nossas perspec

    Leia mais »
  • 25 agosto

    Vasco x Fluminense

    Junto à porta entreaberta, olhou para o fundo da sala. No Sofá, o pai aguardava o início da transmissão pelo Première. Vestia a tradicional camisa verde, branca e grená. Atrás, o número dez e o nome eterno: Rivelino. Não quis colocar o próprio nome, como faziam por aí. Era o de Rivelino, e não o dele, que vararia os tempos. O rapaz fitava o pai, antes de afinal sair. “Boa sorte pra vocês”, e acenou para o velho, que retribuiu a nobreza do gesto. Eram adver

    Leia mais »
  • 24 agosto

    Poema #83: A Queda

    Não digo que estouno fundo do poçoporque este não é mensurávele sempre se pode cair mais ainda.Mas estou numa queda livree vertiginosa.A roupa do passado não me serve,o presente é rotoe estou sem vestes para o futuro.E numa queda os laços vão-se rompendo,se dissolvendo,desagregando-se.Nenhum laço segura um homemque cai por muito tempo.A dignidade é uma palavra para pessoas de pé.Na horizontal os conceitos são outros. A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

    Leia mais »
Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar