Crônicas

Saudades dos tucanos

Blackbird singing in the dead of night / Take these broken wings and learn to fly / All your life / You were only waiting for this moment to arise – “Blackbird”, The Beatles

Fecho os olhos, e tucanos da minha infância planam em meus pensamentos. Há mais animais que desfilam, como cachorros, micos e papagaios. Os tucanos se destacam, porque eles sumiram. Ao contrário dos outros bichos, que, ocasionalmente, encontro na cidade grande. Vê-los significava férias no sítio. E me acostumei até perceber que deixaram de ser uma presença. É intrigante, como se desaparecessem sem querer. Apesar de que talvez não me importasse tanto assim com eles na época. Atiçavam uma curiosidade periódica, nada além. Suponho que essa é impressão da mudança dos tempos: passamos a valorizar o que não temos para suportar o sufoco do presente. A constatação da impermanência é o catalisador da nostalgia.

Nós apenas os chamávamos de “tucanos”, mas deveriam ser tucanos-de-bico-verde. Deixávamos frutas no mureta do terreno e esperávamos para avistar quem viria. Geralmente os micos eram ligeiros. Algumas vezes, os tucanos chegavam antes, espantando a concorrência. Achava-os educados, pois saltavam de um galho, recolhiam uma fatia e retornavam para a mesma posição para comer. Uma elegância em modos, postura e na estética que contrastava com suas cores berrantes. Eles vinham, comiam, cantavam um som seco e monótono e logo partiam. Mantínhamos a distância num pacto informal com os visitantes. Numa das raras vezes que o rompemos, alguém atirou um pedaço de mamão. Atingiu um tucano guloso na cabeça. Ele reagiu de uma maneira tão desengonçada e dramática que rimos. Não vimos tucanos por bastante tempo. Em outra, amarramos uma banana a um pedaço de barbante. Quando um desceu e abriu o bico para abocanhar, puxamos de supetão. O tucano abriu um berreiro, inconformado e alertando os colegas de nossas brincadeiras sem graça.

A memória tem esse efeito de fundir eventos, transformando-os em uma massa cujo começo e fim se confundem. A última vez em que vimos um tucano foi um acontecimento comum. Apareceu e saiu sem deixar qualquer anedota ou observação digna. Esse componente emocional das lembranças torna os eventos mais banais um objeto precioso. Nunca sabemos de verdade a duração das coisas. Quando elas se levantam em voo definitivo, nosso apego cresce. Os tucanos eram apenas um elemento dentro vários das férias, como jogos de futebol, pulos na piscina, churrascos e festas. A diferença está no acesso. Ainda podemos fazer essas coisas. Já outras não temos como controlar. Os tucanos voaram, e não há como atraí-los mais somente com nossa disposição.

Também significa que estou mais velho. Eles pertencem a um tempo em que havia inocência, em que achávamos que a vida seria justa e sempre alegre. À medida que crescemos, descobrimos que não é assim. Não é amargura, mas entender viver é perigoso. Porque tudo se complica quando os riscos são maiores. O fato é que não pagamos boletos ou evitamos problemas de saúde com saudades. Ainda assim, mantenho esperança de que os dias melhores virão. Ou menos preocupantes, o que já é bom o suficiente. Daí, a necessidade de reter alguma inocência infantil. Ela precisa ser cultivada para não enlouquecer sob o peso das exigências. Aquela atitude de criança desafiadora e aventureira que ainda reside em nosso anterior de que podemos encarar tudo como uma brincadeira e terminar com um sorriso no rosto.

Para onde os tucanos teriam ido? Torço para que não tenham sido devorados pelos carcarás que surgiram há poucos anos. Eles são mais agressivos, entrando na casa sem pedir licença e precisam ser guiados logo para fora. Os tucanos sabiam seu espaço, enquanto os carcarás não se importam. Inicialmente, achei que fossem águias devido a sua plumagem. A invasão deles provocou mudanças. Além de instalarmos telas, paramos de colocar frutas na mureta, numa tentativa de dissuadi-los. Ainda assim, os carcarás pairam por perto. São tempos novos. É nesse momento que o adulto alarmado e o moleque petulante precisam chegar a um acordo. Adaptar às circunstâncias e usar a criatividade para encontrar uma solução. Essa é chave para abrir o desenvolvimento. O papel que as lembranças desempenham não deve ser de colchão, mas de mola. O voo, como o dos tucanos, pode ser algo desastrado no começo para atingir uma tranquilidade de planador ao fim.

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Daniel Russell Ribas

Daniel Russell Ribas é um leitor assíduo e autor ocasional. Escreve resenhas para Revista Navalhista e apresenta o evento "Cante 1 Conto", no Rio de Janeiro.

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