Daniel Russell Ribas

  • Saudades dos tucanos

    Blackbird singing in the dead of night / Take these broken wings and learn to fly / All your life / You were only waiting for this moment to arise – “Blackbird”, The Beatles

    Fecho os olhos, e tucanos da minha infância planam em meus pensamentos. Há mais animais que desfilam, como cachorros, micos e papagaios. Os tucanos se destacam, porque eles sumiram. Ao contrário dos outros bichos, que, ocasionalmente, encontro na cidade grande. Vê-los significava férias no sítio. E me acostumei até perceber que deixaram de ser uma presença. É intrigante, como se desaparecessem sem querer. Apesar de que talvez não me importasse tanto assim com eles na época. Atiçavam uma curiosidade periódica, nada além. Suponho que essa é impressão da mudança dos tempos: passamos a valorizar o que não temos para suportar o sufoco do presente. A constatação da impermanência é o catalisador da nostalgia.

    Nós apenas os chamávamos de “tucanos”, mas deveriam ser tucanos-de-bico-verde. Deixávamos frutas no mureta do terreno e esperávamos para avistar quem viria. Geralmente os micos eram ligeiros. Algumas vezes, os tucanos chegavam antes, espantando a concorrência. Achava-os educados, pois saltavam de um galho, recolhiam uma fatia e retornavam para a mesma posição para comer. Uma elegância em modos, postura e na estética que contrastava com suas cores berrantes. Eles vinham, comiam, cantavam um som seco e monótono e logo partiam. Mantínhamos a distância num pacto informal com os visitantes. Numa das raras vezes que o rompemos, alguém atirou um pedaço de mamão. Atingiu um tucano guloso na cabeça. Ele reagiu de uma maneira tão desengonçada e dramática que rimos. Não vimos tucanos por bastante tempo. Em outra, amarramos uma banana a um pedaço de barbante. Quando um desceu e abriu o bico para abocanhar, puxamos de supetão. O tucano abriu um berreiro, inconformado e alertando os colegas de nossas brincadeiras sem graça.

    A memória tem esse efeito de fundir eventos, transformando-os em uma massa cujo começo e fim se confundem. A última vez em que vimos um tucano foi um acontecimento comum. Apareceu e saiu sem deixar qualquer anedota ou observação digna. Esse componente emocional das lembranças torna os eventos mais banais um objeto precioso. Nunca sabemos de verdade a duração das coisas. Quando elas se levantam em voo definitivo, nosso apego cresce. Os tucanos eram apenas um elemento dentro vários das férias, como jogos de futebol, pulos na piscina, churrascos e festas. A diferença está no acesso. Ainda podemos fazer essas coisas. Já outras não temos como controlar. Os tucanos voaram, e não há como atraí-los mais somente com nossa disposição.

    Também significa que estou mais velho. Eles pertencem a um tempo em que havia inocência, em que achávamos que a vida seria justa e sempre alegre. À medida que crescemos, descobrimos que não é assim. Não é amargura, mas entender viver é perigoso. Porque tudo se complica quando os riscos são maiores. O fato é que não pagamos boletos ou evitamos problemas de saúde com saudades. Ainda assim, mantenho esperança de que os dias melhores virão. Ou menos preocupantes, o que já é bom o suficiente. Daí, a necessidade de reter alguma inocência infantil. Ela precisa ser cultivada para não enlouquecer sob o peso das exigências. Aquela atitude de criança desafiadora e aventureira que ainda reside em nosso anterior de que podemos encarar tudo como uma brincadeira e terminar com um sorriso no rosto.

    Para onde os tucanos teriam ido? Torço para que não tenham sido devorados pelos carcarás que surgiram há poucos anos. Eles são mais agressivos, entrando na casa sem pedir licença e precisam ser guiados logo para fora. Os tucanos sabiam seu espaço, enquanto os carcarás não se importam. Inicialmente, achei que fossem águias devido a sua plumagem. A invasão deles provocou mudanças. Além de instalarmos telas, paramos de colocar frutas na mureta, numa tentativa de dissuadi-los. Ainda assim, os carcarás pairam por perto. São tempos novos. É nesse momento que o adulto alarmado e o moleque petulante precisam chegar a um acordo. Adaptar às circunstâncias e usar a criatividade para encontrar uma solução. Essa é chave para abrir o desenvolvimento. O papel que as lembranças desempenham não deve ser de colchão, mas de mola. O voo, como o dos tucanos, pode ser algo desastrado no começo para atingir uma tranquilidade de planador ao fim.

  • Nossa Senhora!

    Take second best / Put me to the test / Things on your chest / You need to confess / I will deliver / You know. I’m a forgiver – “Personal Jesus”, Depeche Mode (versão de Johnny Cash)

    Releio crônicas do autor Ivan Ângelo. Percebo o cronista da primeira metade do século, cuja prosa parece sair de uma conversa natural e observativa sobre os hábitos peculiares do brasileiro. O primeiro texto da coletânea da Global Editora é sobre a controvérsia dentre os moradores de um prédio acerca da vizinha nova, que teria sido capa de uma revista voltada ao público adulto. Apesar de ser uma mulher discreta e gentil, as pessoas entram em frenesi em nome da moral e dos costumes. Não é uma característica estritamente brasileira, mas a cruzada conservadora resiste firme nessas terras no século XXI. Outra reflexão minha é que os autores de sua época precisavam ver o mundo lá fora para buscar seus temas. Isso mudou bastante. Agora, basta um pequeno gesto de dedo na tela de um aparelho para encontrar o assunto que está na boca do povo. Daí, apareceu para mim outra mulher que, ao contrário da suspeita desinibida, é uma santa. Literalmente. A mulher que todos comentam e que exigem uma atitude a respeito da vez é Nossa Senhora Aparecida.

    Escolhida como padroeira do Brasil, ela pode ter repensado se isso foi uma boa ideia. Nos últimos dias, as redes sociais se dividiram entre sua defesa como um símbolo de esperança e sua condenação como uma emissária das trevas. A fábrica da internet, como num sonho febril fordista, produziu conteúdo com velocidade quase impossível de acompanhar. Ainda assim, alguém deve ter consumido o suficiente a ponto de protocolar perante um tribunal (real, não virtual) sua proibição e conseguir. Como o show não pode acabar, pouco antes de me sentar para escrever esse texto, num domingo, essa decisão havia sido revertida por outro juiz. Sabe o vídeo do Porchat (não o de denúncias, o outro em que ele interpreta um jornalista exausto de tantas novidades)? Até esse texto ir ao ar, que é numa terça-feira, estou tão convicto de que haverá mais desenvolvimentos que dispensei o powerpoint (piada antiga, mas ainda válida). Diante de tanto estímulo de informações, resta-me uma interjeição de espanto ou admiração popular entre os brasileiros: “Nossa Senhora!…”

    Se dizem que Deus é brasileiro, concordo que uma atribuição similar pode ser posta para Nossa Senhora da Imaculada Conceição, ou “Aparecida” para os íntimos. Sua associação com o povo brasileiro remete ao começo do século XVIII e mantém-se em voga desde então. Da fé e dos milagres aos chutes e xingamentos, a santa, fazendo jus ao nome, aparece com frequência quando pensamos em uma figura sacra, seguida por outros favoritos, como São Jorge ou Santo Expedito. Além do catolicismo, sua imagem representa um orixá, Oxum, que, como em sua forma original, define fertilidade e acolhimento. Também há uma canção muito conhecida dedicada a ela, e se você cresceu nos anos 90, como eu, com certeza já a ouviu num especial de natal televisivo. E atua com um nome diferente, porém similar, Compadecida, numa peça adaptada inúmeras vezes para palco, televisão e cinema, todas com sucesso. Aparecida é a padroeira do Brasil, e os brasileiros fazem questão de lembrar disso, seja numa maneira boa ou ruim. Se o papa é pop, assim é a Virgem Maria. Ela está entranhada na cerne da identidade brasileira. Logo, qualquer proposta de extirpá-la ou diminuí-la causaria um ruído alto e inevitável.

    ]O barulho foi tamanho que trouxe do oceano da memória uma entidade adormecida. No caso, a aliança entre membros da sociedade civil e religiosa num campo progressista. Chega a ser engraçado ter ateus e católicos num diálogo em comum para o respeito das diferenças e crenças, enquanto outro lado determina a imposição de sua perspectiva. Setores de um lado com histórico conservador defendendo liberdade democrática e soberania do país. Acho que isso não ocorria com tamanho peso político desde os anos 70. O outro agindo com a disposição retrógrada que foi o fator original que provocou a ruptura dentro do cristianismo, como a intolerância ao convívio entre linhas de pensamento diferentes à defesa aos jogos de azar (afinal, a venda de indulgências na Idade Média não seria uma espécie de aposta?). Seria o mistério da fé? O Brasil não é para amadores, mas especialistas em Teoria do Caos. Os criadores de memes não podem reclamar. Por isso, Nossa Senhora Aparecida assumiu a função de Padroeira da nação. Na maioria das vezes, é preciso uma mãe para pôr ordem na casa.

    NOTA: Circula nas redes sociais a informação de que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação é falsa. A confusão pode estar relacionada a um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, que propunha alterar a denominação de Nossa Senhora Aparecida. O projeto foi arquivado em 2008. A campanha de Flávio atribui a disseminação do boato a adversários políticos, mas essa afirmação deve ser tratada como alegação da própria campanha, não como fato comprovado. Até o momento, não há evidência de que essa mudança faça parte do programa de governo do candidato.

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