Daniel Russell Ribas no Crônicas Cariocas

  • Alegoria da solidão

    Take a trip, you’ll lose yourself / Watch the world breath / Heart is racing, minds pounding / Let
    me sit down cause I’m comin’ up — “Good is bad”, Headrillaz

    É a mãe que lhe abraça até esmagar sua alma e engoli-la. Dentro de seu útero, você é ligeiramente digerido. Sabe que está vivo, mas quebrado. Aos poucos, seus nutrientes são consumidos e vocês se tornam uno. Este é o momento perigoso. Vestido em seu couro, comete atos impensados. Alguns irreversíveis, outros que só prolongam a dor, numa sádica brincadeira de pique-pega. Pode ser inofensivo em meio à neblina emocional, mas é um bloco que atravessa a rua sujando tudo a seu redor: amizades, reputação, autoestima.

    O carnaval é vendido e celebrado como a época da união. Ao sair, pessoas bebem, cantam, pulam, se fantasiam ou mostram suas verdadeiras faces. É lindo. Como todo evento extremo, há um oposto logo na esquina. Aqueles que não gostam do caos festivo, os que se sentem isolados em meio a um turbilhão que toma conta de corações e mentes, não necessariamente doentes da cabeça e do pé.

    Ouvi ou li que datas comemorativas costumam ser escolhidas por suicidas por conta disso. O isolamento expande de tal forma que estoura uma bolha. Há muitas formas de se matar. Beber até cair, retornar antigos hábitos autodestrutivos. É inevitável que a reunião de muitos implique na exclusão de certos indivíduos. O que está fazendo aquele cara sentado na calçada, tentando cheirar uma carreira, mas tão intoxicado que cai pra trás e se deixa estar, como se admirasse os pontos brancos no céu escuro? E o maluco que gritou numa mesa com amigos, tal uma fera num rompante? Com sorte, será o sujeito que levará somente um olho roxo. A solidão, como o pó, vicia. A baixa estima é um RG para os muitos que não se sentem envolvidos na coletividade. Nem todos os gritos são por ajuda ou dor. São atestados de existência. Quando eu morrer, serei visto. Nem que seja por um folião perdido na madrugada, vendo aquele corpo exposto e tira uma selfie. Há maldade nisso? Depende do ponto de vista. Às vezes, alcançamos nossos objetivos. Raras, acredito, são aquelas em que tudo acontece exatamente como esperado. O evento, o agora, é o mais importante, e todo resto é latinha e lama no chão. Pular samba, pular da janela.

    Talvez os momentos de celebração tenham um toque de morte em si. Todos apagam suas existências anteriores para viver uma ocasião única. Alguns retornam para o próximo ano, outros não. A solidão, no fim, resiste. O mundo é um moinho, diz o verso. Esta mãe que nina e enforca. Destaque na avenida todo ano. Você só não a escuta em meio à bateria.

  • Saudades dos tucanos

    Blackbird singing in the dead of night / Take these broken wings and learn to fly / All your life / You were only waiting for this moment to arise – “Blackbird”, The Beatles

    Fecho os olhos, e tucanos da minha infância planam em meus pensamentos. Há mais animais que desfilam, como cachorros, micos e papagaios. Os tucanos se destacam, porque eles sumiram. Ao contrário dos outros bichos, que, ocasionalmente, encontro na cidade grande. Vê-los significava férias no sítio. E me acostumei até perceber que deixaram de ser uma presença. É intrigante, como se desaparecessem sem querer. Apesar de que talvez não me importasse tanto assim com eles na época. Atiçavam uma curiosidade periódica, nada além. Suponho que essa é impressão da mudança dos tempos: passamos a valorizar o que não temos para suportar o sufoco do presente. A constatação da impermanência é o catalisador da nostalgia.

    Nós apenas os chamávamos de “tucanos”, mas deveriam ser tucanos-de-bico-verde. Deixávamos frutas no mureta do terreno e esperávamos para avistar quem viria. Geralmente os micos eram ligeiros. Algumas vezes, os tucanos chegavam antes, espantando a concorrência. Achava-os educados, pois saltavam de um galho, recolhiam uma fatia e retornavam para a mesma posição para comer. Uma elegância em modos, postura e na estética que contrastava com suas cores berrantes. Eles vinham, comiam, cantavam um som seco e monótono e logo partiam. Mantínhamos a distância num pacto informal com os visitantes. Numa das raras vezes que o rompemos, alguém atirou um pedaço de mamão. Atingiu um tucano guloso na cabeça. Ele reagiu de uma maneira tão desengonçada e dramática que rimos. Não vimos tucanos por bastante tempo. Em outra, amarramos uma banana a um pedaço de barbante. Quando um desceu e abriu o bico para abocanhar, puxamos de supetão. O tucano abriu um berreiro, inconformado e alertando os colegas de nossas brincadeiras sem graça.

    A memória tem esse efeito de fundir eventos, transformando-os em uma massa cujo começo e fim se confundem. A última vez em que vimos um tucano foi um acontecimento comum. Apareceu e saiu sem deixar qualquer anedota ou observação digna. Esse componente emocional das lembranças torna os eventos mais banais um objeto precioso. Nunca sabemos de verdade a duração das coisas. Quando elas se levantam em voo definitivo, nosso apego cresce. Os tucanos eram apenas um elemento dentro vários das férias, como jogos de futebol, pulos na piscina, churrascos e festas. A diferença está no acesso. Ainda podemos fazer essas coisas. Já outras não temos como controlar. Os tucanos voaram, e não há como atraí-los mais somente com nossa disposição.

    Também significa que estou mais velho. Eles pertencem a um tempo em que havia inocência, em que achávamos que a vida seria justa e sempre alegre. À medida que crescemos, descobrimos que não é assim. Não é amargura, mas entender viver é perigoso. Porque tudo se complica quando os riscos são maiores. O fato é que não pagamos boletos ou evitamos problemas de saúde com saudades. Ainda assim, mantenho esperança de que os dias melhores virão. Ou menos preocupantes, o que já é bom o suficiente. Daí, a necessidade de reter alguma inocência infantil. Ela precisa ser cultivada para não enlouquecer sob o peso das exigências. Aquela atitude de criança desafiadora e aventureira que ainda reside em nosso anterior de que podemos encarar tudo como uma brincadeira e terminar com um sorriso no rosto.

    Para onde os tucanos teriam ido? Torço para que não tenham sido devorados pelos carcarás que surgiram há poucos anos. Eles são mais agressivos, entrando na casa sem pedir licença e precisam ser guiados logo para fora. Os tucanos sabiam seu espaço, enquanto os carcarás não se importam. Inicialmente, achei que fossem águias devido a sua plumagem. A invasão deles provocou mudanças. Além de instalarmos telas, paramos de colocar frutas na mureta, numa tentativa de dissuadi-los. Ainda assim, os carcarás pairam por perto. São tempos novos. É nesse momento que o adulto alarmado e o moleque petulante precisam chegar a um acordo. Adaptar às circunstâncias e usar a criatividade para encontrar uma solução. Essa é chave para abrir o desenvolvimento. O papel que as lembranças desempenham não deve ser de colchão, mas de mola. O voo, como o dos tucanos, pode ser algo desastrado no começo para atingir uma tranquilidade de planador ao fim.

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