
Os sonhos do Lupércio
Um deles era ser entrevistado: como os atores, os cantores, os escritores e os jogadores de futebol.
Imaginou e pôs em prática um plano sui generis: ajudou a atravessar uma velhinha e largou ela no meio da avenida. A velhinha fez um baita dum escândalo, chamaram a polícia, e ele, o Lupércio, foi parar na delegacia. Batata! Como ele queria, foi entrevistado pelo delegado.
O delegado disse bom dia, como vai? e ele respondeu que tudo bem.
— Cafezinho?
— Obrigado, não.
— Seu nome?
— Lúcio Lupércio.
— Profissão?
— De tudo um pouco.
— Ovos em várias cestas… muito bem! Formado?
— Fiz o primeiro ano do colégio e parei.
— Por quê?
— Muito trabalho, dr. Um dia eu completo.
— Ótimo. Casado?
— Com a Lena Lenita, um anjo de mulher. Somos do mesmo signo!
— Não diga, eu também! Quer dizer, eu e minha mulher somos Peixes.
— Nós somos Sagitário. Março; ela 5, eu 18.
— Belo signo, vão viver eternamente juntos.
— É mesmo?
— É o que dizem os astrólogos.
— Nunca brigamos, fomos feitos um para o outro.
— Tá vendo? Nós também. Filhos?
— Duas. Laura Lúcia e Lídia Lair. A mais nova 5, a mais velha 8.
— Ah, mocinhas! Moram onde?
— Comigo.
— Onde?
— No Cambuci. Casinha simples, sabe?, herança de papai. Comprou com dificuldade, 30 anos pagando.
— Lar doce lar! Tão bom ter uma casa.
— Tem até jardim. Minha mãe que fez, rosas de todo tipo.
— Gosta?
— Eu que cuido, mamãe aprendia na TV, com a Xênia, lembra da Xênia?, e me ensinava. Faço até enxertos.
— Que cor prefere?
— Qualquer uma. Me comove a beleza que traz a primavera com a florada do ipê amarelo.
— Lindo, né? Também tem o branco.
— Sim, com aquela atmosfera nórdica.
— A igualdade é branca!
— A paz é branca.
— Algum sonho?
— Ser entrevistado.
— Está realizando!
— Nem acredito. Também queria apresentar um de jornal de TV.
— Mesmo? Que nem o Tralli?
— Que nem o Bonner. Eu e a Lena Lenita apresentando o Jornal Nacional, aquela elegância, aquele jogral, aquele boa noite!…
— E ela?
— Quem?
— A Lena Lenita, também sonha com isso?
— Não, o dela é ser aeromoça.
— Ah, as mulheres!, sempre sonhando alto… Bom, acho que nosso tempo acabou.
— Passou rápido.
— Volte sempre.
— E a velhinha?
— Impertinência de velha. Dá-se um jeito.
— Obrigado,dr.
— Ah, só mais uma coisa: o que acha da polícia de São Paulo?
— Bom…
Corta!
Não foi nada disso. O delegado nem quis saber do Lupércio, mandou ele direto pra cadeia, aos berros.
Dois cascudos: “E se fosse sua avó?, e se fosse sua tia?!”. E um pé na orelha: “E se fosse sua mãe?!”.
Após três dias vendo o sol nascer com quatro lados iguais e paralelos dois a dois, foi solto com a advertência: “Na próxima, pega um mês na penitenciária e vai apanhar até ficar mais inchado que um bauicú-de-chifre”.
Em casa, encontrou a Lena Lenita, bico de garça, comprido e pontiagudo.
Pegou um mês dormindo no sofá. Um mês de abstinência.























