Crônicas

Precisei me matar para renascer

Precisei me matar para voltar a ser quem sou. Há uma obscenidade nessa constatação, eu sei. Como se a existência, em algum momento, tivesse exigido de mim a minha própria ausência para que eu pudesse regressar. Não sei exatamente quem morreu. Talvez tenha sido aquele que eu acreditava ser. Talvez tenha sido o outro, esse que me habitava sem pedir licença e que, durante muito tempo, confundi comigo. Há mortes que não deixam cadáveres. Deixam sobreviventes.

Fui criado entre armas. Não tenho medo de bala, de arma. O medo, quando se torna parte da paisagem, aprende a disfarçar-se de familiaridade. Crescemos acreditando que conhecemos aquilo que nos cerca, até descobrirmos que o conhecido também pode nos ameaçar. Há coisas que a infância nos entrega sem embrulho, e passamos a vida tentando descobrir se eram presentes ou sentenças. Algumas continuam dentro de nós, embora já não saibamos dizer quando entraram.

Não tenho medo do escuro. Nem das escuridões da noite, nem do calor que se derrama sobre o dia, nem do frio que parece exalar de certos corpos. Há uma escuridão que não depende da ausência de luz. Ela pode morar num rosto conhecido, atravessar uma conversa banal, repousar tranquilamente sobre a mesa enquanto todos acreditam estar em paz. O mais estranho não é a existência das sombras, mas a intimidade que, às vezes, estabelecemos com elas. Chega um momento em que já não sabemos se estamos tentando escapar do escuro ou protegendo aquilo que ele esconde.

Por minha mãe, entro na frente de uma arma. Digo ao homem que a segura que, para matá-la, terá de atirar em mim primeiro. E o desmonto. Poderia ser meu pai, poderiam ser meus irmãos. Quanto aos outros, não sei. Talvez eu fizesse o mesmo. Talvez não. Há uma parte de nós que só se apresenta quando a realidade deixa de ser hipótese. Antes disso, somos apenas as versões que contamos a nós mesmos.

E quem sou eu quando não tenho tempo de pensar em quem sou?

Essa pergunta me acompanha mais do que gostaria. Porque há gestos que acontecem antes da consciência, como se alguma coisa em nós já tivesse decidido quando ainda procurávamos uma razão. Talvez o amor seja também esse lugar onde o pensamento chega atrasado. Ou talvez não seja amor aquilo que nos leva a colocar o corpo diante da morte, mas alguma coisa muito mais antiga, uma espécie de pacto silencioso que fizemos antes mesmo de conhecer as palavras com que hoje tentamos explicá-lo.

Recordo-me de uma época em que fiz isso. O passado, entretanto, nunca retorna sozinho. Traz consigo a pessoa que éramos, a pessoa que imaginamos ter sido e aquela que inventamos depois para suportar a lembrança. Entre as três, alguma verdade deve existir. Ou talvez a verdade seja justamente o intervalo, essa região sem nome onde a memória deixa de ser acontecimento e passa a ser interpretação.

Nunca matei ninguém. Nunca mataria. Matei uma barata e um rato para me defender. Escrevo isso porque há uma diferença entre destruir aquilo que nos ameaça e compreender o que, dentro de nós, se sente ameaçado. Nem sempre as duas coisas coincidem. Às vezes, o perigo está diante dos olhos; outras vezes, continua existindo muito depois de ter desaparecido. O corpo parece não receber todas as notícias que a realidade lhe envia. Há defesas que sobrevivem ao inimigo. Há guerras que terminam no mundo e continuam acontecendo em silêncio.

Talvez eu escreva para me defender.

Não de alguém, necessariamente, mas daquilo que não consigo reconhecer quando se aproxima demais. A palavra pode ser uma espécie de distância. Uma superfície entre mim e o indizível, embora eu saiba que também pode ser uma porta. Escrevo para não tocar diretamente em certas coisas, e, quando percebo, já estou dentro delas. A linguagem me protege daquilo que a linguagem revela. Eis uma das suas perversidades: acreditamos que estamos nomeando alguma coisa, quando talvez estejamos apenas encontrando uma maneira de continuar diante dela.

O que escrevo não me pertence inteiramente. Há frases que parecem ter esperado por mim durante anos, escondidas em algum lugar que desconheço. Há outras que escrevo para descobrir o que estava pensando antes de saber que pensava. Talvez escrever seja isso: surpreender-se com a própria existência sem conseguir reivindicar a autoria de tudo o que aparece. O sujeito escreve, mas nem sempre sabe de onde vem aquilo que escreve. E, quando reconhece alguma coisa de si no texto, já não é exatamente o mesmo que começou a escrevê-lo.

Convivo todos os dias com minha mãe. O amor, quando deixa de ser uma palavra e passa a ocupar o mesmo espaço que nós, adquire uma estranha concretude. Está nos dias comuns, na presença, naquilo que não precisa ser anunciado. Se alguém entrasse nesta casa para lhe fazer mal, eu não hesitaria em protegê-la. Não digo isso para parecer corajoso. Há afirmações que não pedem testemunhas. Digo porque, diante dela, algumas das minhas dúvidas parecem suspender-se, embora eu não saiba se desaparecem ou apenas aprendem a esperar.

Talvez seja essa a diferença entre o que sou e aquilo que penso ser: diante de certas presenças, não tenho tempo de construir uma personagem. O gesto me antecede. O amor me antecede. E eu, que tantas vezes procuro na escrita uma maneira de compreender a mim mesmo, descubro que existem partes de mim que não se deixam conhecer pela explicação. Permanecem ali, irredutíveis, como se a consciência fosse apenas uma pequena casa construída sobre um território que não lhe pertence.

Mas não quero fazer da minha capacidade de proteger alguém uma prova daquilo que sou. Há vaidades escondidas até nas nossas melhores intenções. O sujeito pode transformar a própria dor em identidade, a própria coragem em espetáculo, a própria sobrevivência em argumento. Pode passar tanto tempo contando a história de quem foi que acaba impedido de descobrir quem ainda pode ser. Não quero que a minha história se transforme numa prisão com o meu nome na porta.

Precisei me matar para renascer. E talvez o mais difícil não tenha sido morrer para aquilo que eu era, mas suportar o desconhecimento daquilo que viria depois. Porque o renascimento não oferece garantias. Ninguém atravessa uma ruptura sabendo exatamente o que encontrará do outro lado. Há apenas um intervalo, uma espécie de suspensão, em que o antigo já não responde e o novo ainda não sabe falar.

É nesse intervalo que escrevo.

Não para preencher o vazio, mas para descobrir se ele realmente está vazio. Não para encontrar uma resposta definitiva, mas para desconfiar das perguntas que me trouxeram até aqui. Talvez a escrita seja a minha maneira de permanecer diante do que não compreendo sem precisar convertê-lo imediatamente em alguma coisa suportável. Há mistérios que perdem a força quando os explicamos depressa demais.

Há dores que não precisam ser transformadas em lição. E há experiências que talvez nunca encontrem uma tradução capaz de lhes fazer justiça.

Continuo sendo aquele que não tem medo de certas coisas, embora desconfie cada vez mais das certezas que construí sobre mim. Continuo protegendo quem amo, mas já não sei se proteger é sempre impedir que alguma coisa aconteça ou aprender a reconhecer aquilo que não podemos controlar. Continuo escrevendo, embora cada palavra pareça abrir uma nova distância entre o que sinto e o que consigo dizer.

Talvez eu nunca tenha voltado a ser quem era. Talvez esse retorno seja impossível, uma ficção necessária para que possamos continuar chamando a nós mesmos pelo mesmo nome. O que existe é uma continuidade imperfeita, feita de perdas, restos, deslocamentos e pequenas permanências. Somos também aquilo que não conseguimos recuperar.

E há alguma coisa profundamente estranha nisso: depois de tantas tentativas de me compreender, ainda encontro em mim um desconhecido.

Não sei se escrevo para encontrá-lo ou para impedir que ele desapareça.

Talvez eu tenha precisado morrer para descobrir que não era possível regressar intacto. Talvez renascer não seja recuperar a própria forma, mas aprender a existir sem exigir que tudo aquilo que nos constitui seja revelado. Há um ponto em que a procura precisa continuar sem promessa de chegada.

E eu continuo.

Não porque tenha compreendido.

Mas porque alguma coisa, cujo nome desconheço, ainda escreve em mim.

QUERIA ESCREVER PARA O MAR —

Às quartas-feiras, saem minhas crônicas. Às segundas, geralmente escrevo e vomito as palavras para o portal, como quem despeja aquilo que já não consegue conter dentro de si. E aos sábados? Aos sábados, jogo ao mundo o que me chega em terceiro pensamento, essa coisa que talvez nem tenha nascido para ser dita, mas que insiste em existir antes mesmo de encontrar um destino.

Será que peco ao vomitar minhas palavras em um portal? Talvez. Há qualquer coisa de profano em expor as próprias entranhas, em permitir que o outro toque aquilo que, por vezes, nem nós mesmos suportamos tocar. Escrever também é uma maneira de se perder, de se lançar ao desconhecido sem a garantia de ser encontrado.

Queria, aos domingos, escrever para o mar. Não para os leitores, nem para os olhos apressados de quem atravessa uma página, mas para essa imensidão que não me exige explicações. Eu escreveria, escolheria um lugar, marcaria discretamente a terra e enterraria minhas palavras na areia. Depois, partiria, deixando que o tempo fizesse o que sabe fazer com os segredos.

Quatorze anos mais tarde, voltaria para buscá-las.

Talvez eu já não fosse o mesmo. Talvez as palavras tivessem desaparecido, tragadas pela água, dissolvidas na memória salgada do mundo. Ou talvez permanecessem ali, esperando por mim, como uma carta enviada a alguém que ainda não existia quando foi escrita.

E se, ao desenterrá-las, eu não me reconhecesse? Se aquele que escreveu já tivesse partido, deixando no papel apenas os vestígios de um sujeito que um dia acreditou saber quem era?

Talvez seja esse o destino da escrita: enterrar no presente aquilo que somente o futuro poderá desenterrar. E, no intervalo entre um gesto e outro, deixar que o mar guarde o que não tivemos coragem de dizer.

Os anos 60 e a máquina que o tempo não apagou —

Talvez eu ganhe de presente uma máquina de escrever. Uma máquina de 66 anos. Uma máquina dos anos 60. E talvez seja estranho desejar uma coisa tão antiga justamente agora, quando tudo parece feito para ser rápido, apagável e substituível. Mas há alguma coisa nela que me chama. Talvez seja o tempo. Talvez seja aquilo que o tempo deixou nela.

Estou diante do computador, escrevendo ao som de Billy Joel. E há alguma coisa curiosa nisso: eu, escrevendo no computador, ouvindo uma música de um tempo que já passou, enquanto penso em uma máquina que nasceu nos anos 60 e atravessou décadas até chegar à minha imaginação. Alguém me pergunta: “Quem é esse?”. Eu respondo: “Ah, alguém que canta.” E continuo escrevendo. Talvez porque eu tenha aprendido, desde muito cedo, que algumas coisas não precisam ser completamente explicadas para permanecerem dentro da gente.

Billy Joel, de algum modo, me faz pensar justamente nisso. Naquilo que atravessa o tempo sem pedir licença. Uma música nasce em uma determinada época, mas não fica presa a ela. Alguém que nem viveu aquele momento pode ouvi-la décadas depois e sentir alguma coisa. Talvez seja assim também com a máquina. Eu não vivi os anos 60, mas posso tocar hoje aquilo que nasceu naquela década. Posso ouvir uma música, tocar uma tecla, sentir o papel receber uma letra e, por alguns segundos, ter a impressão de que o tempo não é tão distante quanto parece.

Escrevo desde os 9 anos. Aprendi a escrever no papel, depois aprendi a digitar, e hoje conheço o teclado do computador quase pelo toque, como quem aprende a reconhecer um corpo pela intimidade das mãos. Mas existe alguma coisa diferente na máquina de escrever. Talvez eu esteja desejando voltar a ouvir o impacto de uma tecla contra uma folha. Na máquina, a letra não aparece simplesmente na tela. Ela atravessa o corpo da máquina e chega ao papel. A palavra deixa de ser apenas pensamento e passa a ser marca.

E talvez seja justamente aí que os anos 60 entrem nessa história.

Eu penso em Billy Joel, penso naquela música tocando enquanto escrevo, e penso em uma máquina que já atravessou 66 anos. São coisas diferentes, mas talvez estejam dizendo a mesma coisa para mim: algumas coisas sobrevivem porque encontram alguém disposto a escutá-las novamente.

Uma música pode atravessar décadas. Uma máquina também. Uma palavra também.

Os anos 60 pertencem a um tempo em que a escrita exigia espera. Uma carta precisava ser escrita, colocada em um envelope, enviada. Alguém precisava esperar para receber aquilo que outro alguém havia escrito. Havia distância entre a palavra e a resposta. Havia tempo para a saudade acontecer.

Hoje tudo chega depressa demais.

Uma tela apaga. Uma palavra pode ser corrigida. Um texto pode ser substituído. Podemos escrever e apagar quase no mesmo movimento, como se aquilo que pensamos pudesse deixar de ter existido simplesmente porque apertamos uma tecla.

A máquina não tem tanta pressa.

Ela exige a mão, o corpo, o erro, o tempo. Exige que eu permaneça diante daquilo que escrevi. Talvez seja por isso que eu queira uma máquina dos anos 60. Não porque eu queira voltar para uma época que não vivi, mas porque talvez eu esteja procurando uma relação com o tempo que ainda faça sentido para mim.

Não sei quem tocou aquelas teclas antes de mim. Não sei quais mãos passaram por elas, quais histórias nasceram naquele papel, quais cartas foram escritas, quais confissões ficaram presas entre uma tecla e outra. Talvez alguém tenha escrito uma carta de amor. Talvez alguém tenha escrito uma despedida. Talvez alguém tenha escrito algo que nunca teve coragem de entregar.

E talvez seja justamente esse mistério que me atraia.

Uma máquina pode envelhecer sem morrer. Pode atravessar décadas e continuar carregando a possibilidade de uma nova palavra. Ela pode permanecer parada durante anos e, ainda assim, não deixar de ser uma máquina de escrever. Basta uma folha, uma mão e alguma coisa dentro de alguém querendo sair.

Talvez eu esteja assim também.

Talvez eu escreva para encontrar o que perdi, ou para perder aquilo que encontrei. Talvez eu escreva porque existem coisas que a alma não diz, apenas desloca de lugar, até que alguém as escreva.

Eu penso que digito, quando, na verdade, alguma coisa em mim é digitada.

Talvez a máquina dos anos 60 me atraia porque ela não separa completamente o pensamento do corpo. Eu penso, aperto, escuto, vejo a letra surgir. Existe um intervalo entre uma coisa e outra. E nesse intervalo talvez exista aquilo que hoje perdemos: a possibilidade de sentir a palavra antes de simplesmente vê-la aparecer.

E talvez seja isso que Billy Joel esteja fazendo enquanto eu escrevo. Não apenas tocando uma música. Talvez esteja me lembrando de que aquilo que pertenceu a outro tempo ainda pode encontrar lugar em mim. Assim como uma máquina dos anos 60 pode chegar às minhas mãos, uma música pode chegar aos meus ouvidos, e uma palavra pode chegar ao papel. O tempo passa, mas algumas coisas continuam procurando alguém para continuar a história.

Se essa máquina chegar até mim como presente, talvez eu não receba apenas uma máquina. Vou receber também o gesto de quem decidiu entregá-la. E presente não é somente aquilo que se coloca nas mãos de alguém. Às vezes, é uma memória que passa de uma pessoa para outra. É carinho, apego, gratidão. É uma coisa que chega trazendo junto alguma coisa de quem ofereceu.

Talvez eu queira essa máquina porque estou cansado de tudo aquilo que desaparece depressa. Talvez eu queira ouvir novamente o barulho de uma tecla contra o papel e lembrar que algumas palavras precisam de tempo para existir.

Uma música atravessa décadas.

Uma máquina atravessa o tempo.

E eu, ouvindo Billy Joel e pensando nos anos 60, talvez esteja apenas tentando descobrir o que ainda permanece em mim quando todo o resto já passou.

A máquina que ainda não chegou —

Há desejos que não sabem esperar. Instalam-se na gente com a estranha intimidade de quem já morava ali e, de repente, exigem ser atendidos. Não perguntam se é possível, se é o momento, se amanhã seria tão diferente de hoje. Querem. E, quando querem, parecem transformar o tempo numa espécie de ofensa pessoal. O amanhã torna-se distante demais, o agora parece insuficiente, e até as horas adquirem uma lentidão que não lhes pertence.

Passei um dia inteiro pensando numa máquina de escrever. Não era exatamente a máquina, embora fosse ela que ocupasse meus pensamentos. Havia alguma coisa naquele objeto antigo, no mecanismo das teclas, na promessa de um som que já atravessou outras décadas, que me chamava para além daquilo que eu conseguia explicar. Eu ainda não a tinha, mas já imaginava meus dedos sobre as teclas, o papel recebendo as primeiras palavras, o erro permanecendo à vista, sem a facilidade de desaparecer com um simples comando. Era curioso: desejava tanto escrever numa máquina que acabei escrevendo sobre ela antes mesmo de possuí-la.

Enquanto o encontro não acontecia, restou-me o teclado do computador. Digitei. Uma palavra depois da outra, como quem improvisa uma ponte entre a ausência e aquilo que deseja alcançar. Talvez haja algo de profundamente humano nisso: inventamos substituições, criamos pequenos desvios, encontramos maneiras provisórias de suportar aquilo que ainda não está ao nosso alcance. Nem sempre para desistir do objeto desejado, mas para descobrir o que podemos fazer enquanto ele não vem.

Foi então que me ocorreu uma pergunta: o que acontece conosco quando o desejo deixa de ser apenas desejo e começa a determinar o ritmo de tudo? Há uma diferença sutil entre querer alguma coisa e sentir que ela precisa acontecer imediatamente. Nem sempre conseguimos percebê-la no instante em que se estabelece. Às vezes, só mais tarde reconhecemos o quanto uma ideia nos ocupou, quantas horas lhe entregamos, quantas outras coisas ficaram suspensas enquanto esperávamos que o mundo correspondesse à nossa pressa.

A análise me ensinou, ao longo dos anos, que reconhecer um movimento interno não significa necessariamente interrompê-lo. Conhecer-se não é adquirir domínio absoluto sobre si. Há dias em que continuamos atravessados por aquilo que já conseguimos nomear. A diferença talvez esteja em podermos observar, ainda que de dentro, o que antes nos arrastaria sem testemunhas. Não se trata de vencer a própria inquietação, como se a vida fosse uma disputa entre a razão e o desejo. Trata-se de perceber que nem toda urgência precisa se converter em acontecimento.

Há uma espécie de silêncio entre querer e realizar que raramente sabemos habitar. Nesse intervalo, o desejo permanece sem a satisfação que imaginamos capaz de encerrá-lo. E talvez seja justamente aí que ele se revele menos como uma necessidade do objeto e mais como uma pergunta sobre nós mesmos. O que esperamos encontrar quando finalmente conseguimos aquilo que tanto queremos? A resposta nem sempre está à espera do outro lado. Por vezes, o encontro modifica a pergunta; por vezes, a pergunta permanece, mesmo depois que o objeto já nos pertence.

Não quero fazer da espera uma virtude, muito menos romantizar a inquietação. Esperar pode ser difícil, desconfortável, quase insuportável em determinados momentos. Mas existe uma diferença entre abandonar um desejo e permitir que ele não decida tudo por nós. Posso continuar querendo a máquina. Posso imaginar seu peso, seu som, a resistência de cada tecla. Posso até contar os dias para encontrá-la. O que não preciso é transformar a distância entre hoje e amanhã numa impossibilidade de viver o presente.

Talvez escrever seja também uma maneira de atravessar esse intervalo. Não para preenchê-lo completamente, porque há vazios que não aceitam preenchimento, mas para lhes dar alguma forma. Enquanto a máquina não chega, existe o teclado. Enquanto a palavra não aparece, existe a tentativa. E, quando a palavra finalmente surge, já não somos exatamente aqueles que começaram a procurá-la.

Penso que passamos boa parte da vida esperando alguma coisa: uma resposta, uma oportunidade, um encontro, uma mudança que nos devolva a sensação de estarmos no lugar certo. Às vezes, esperamos tanto pelo que virá que mal percebemos o que acontece enquanto esperamos. Como se o presente fosse apenas uma sala de passagem, um lugar onde permanecemos até que a verdadeira vida resolva chegar.

Mas e se ela já estiver aqui, justamente nessa matéria imperfeita dos dias? No teclado provisório, na palavra incompleta, na possibilidade de reconhecer a própria pressa sem precisar obedecer a ela?

Talvez não exista uma revelação grandiosa no fim da espera. Talvez o que nos transforme seja menos o momento em que alcançamos aquilo que desejávamos e mais tudo o que se torna visível enquanto não o alcançamos.

A máquina ainda não chegou. Continuo querendo-a. Não preciso fingir indiferença, nem converter meu desejo numa lição sobre desapego. Há coisas que queremos porque alguma coisa em nós se reconhece nelas, embora ainda não saibamos dizer o quê. E há encontros que começam antes do primeiro toque, quando um objeto ainda ausente passa a ocupar um lugar em nossa imaginação.

Por enquanto, escrevo. Talvez, quando a máquina chegar, eu descubra que era exatamente ela que procurava. Talvez descubra outra coisa, menos evidente e mais difícil de nomear. Não tenho como saber. Pela primeira vez, porém, não preciso antecipar a resposta para continuar.

Afinal, o tempo não é uma máquina que possamos obrigar a funcionar conforme a nossa vontade. E talvez a palavra mais difícil de escrever não seja aquela que desconhecemos, mas aquela que nos ensina a permanecer diante do que ainda não aconteceu.

Há coisas que chegam amanhã. Outras precisam de muito mais tempo. E existem aquelas que, enquanto esperamos, começam silenciosamente a nos transformar.

Entre a máquina e o tempo —

Aos leitores,

Me consumi pela máquina. Ainda estou aprendendo. Levei uma coça logo quando a peguei. Peço mil perdões. Se houver erros ortográficos, com o tempo os consertarei. Por ora, talvez seja necessário conceder ao erro o direito de existir antes de submetê-lo à correção.

Foi preciso fazer um retiro em mim mesmo. Desejei uma máquina, mas, quando ela chegou, deparei-me com algo que o desejo, enquanto ausência, não poderia me ensinar: a presença de seu objeto não encerra a falta. Apenas a desloca. Eu queria a máquina; agora, diante dela, descubro que também preciso aprender a habitá-la.

Há algo de curioso nesse encontro entre um homem dos anos 90 e uma máquina que atravessou o tempo desde outra década. Talvez eu tenha desejado, sem saber, não somente um instrumento de escrita, mas uma ruptura com a urgência do presente. Em 2026, tudo parece exigir que o sujeito responda imediatamente, produza sem demora, diga antes mesmo de descobrir o que deseja dizer. A máquina, entretanto, impõe outra temporalidade. Entre o pensamento e a palavra, há uma tecla; entre uma letra e outra, o intervalo; entre aquilo que desejo escrever e aquilo que efetivamente consigo inscrever no papel, existe a distância inevitável entre o sujeito e sua própria linguagem.

Eis a minha primeira lição: nem mesmo a máquina obedece inteiramente àquele que a deseja. Suas teclas resistem, meus dedos se confundem, as letras escapam à ordem que imaginei estabelecer. Levo uma coça, como quem se confronta com a própria insuficiência. Mas talvez aprender seja precisamente isso: reconhecer que não somos senhores absolutos dos instrumentos que utilizamos, tampouco das palavras que nos atravessam.

Quis sair de 2026. Não para negar o tempo em que vivo, mas para suspender, ainda que por alguns instantes, a tirania de sua velocidade. Quis flutuar até os anos 60, tocar uma época que não vivi e experimentar, por meio de um objeto antigo, a ficção íntima de pertencer a outro tempo. Afinal, não é também pela ficção que o sujeito inventa maneiras de suportar o real?

A máquina chegou, e com ela veio uma constatação que talvez estivesse escondida no próprio desejo: eu não precisava apenas de uma máquina de escrever. Precisava encontrar um intervalo entre o mundo e aquilo que o mundo exige de mim. Um lugar em que pudesse errar sem transformar o erro numa sentença, escrever sem a obrigação de responder e permanecer diante do indizível sem a pretensão de dominá-lo.

Ainda estou aprendendo. Talvez as letras saiam tortas, talvez a margem se perca, talvez o papel registre aquilo que minha intenção não soube organizar. Não importa tanto. A escrita nunca foi, para mim, a promessa de uma resposta definitiva. É antes o movimento de contornar aquilo que não se deixa dizer por inteiro.

Se comprei uma máquina para escrever, descobri, ao recebê-la, que também precisaria aprender a escutar o silêncio entre as teclas.

Por enquanto, deixem-me aqui. Entre o desejo e sua falta, entre o sujeito e a palavra, entre 2026 e uma década que só posso visitar pela imaginação.

Ainda não domino a máquina. Talvez seja cedo demais para dominá-la. Talvez escrever comece justamente quando renunciamos à fantasia de domínio.

O tempo continuará passando, indiferente às minhas tentativas de detê-lo. As máquinas envelhecerão, as palavras mudarão de suporte e outras tecnologias prometerão abreviar a distância entre o pensamento e sua inscrição. Mas alguma coisa permanecerá resistindo à pressa: esse sujeito que, diante de uma folha, ainda precisa descobrir o que tem a dizer.

Talvez eu tenha comprado uma máquina para voltar no tempo, mas tenha encontrado nela uma maneira de permanecer no presente sem me submeter inteiramente a ele. Não voltei aos anos 60. Apenas encontrei, entre o ruído das teclas e o silêncio do papel, um lugar onde o tempo parece respirar de outra maneira.

Com os erros de quem começa e a insistência de quem continua escrevendo, despeço-me por ora. Não porque tenha terminado de dizer, mas porque aprendi que até o silêncio precisa de espaço para existir.

A máquina permanece diante de mim. O tempo permanece lá fora. E eu continuo aqui, tentando transformar em palavra aquilo que nem o tempo, nem a máquina, nem eu mesmo conseguimos explicar por inteiro.

Talvez seja esse o destino de quem escreve: não vencer o tempo, mas deixar nele alguma coisa de si. Uma marca imperfeita, uma palavra incompleta, um vestígio de existência. Porque, quando minhas mãos já não alcançarem as teclas e esta máquina pertencer a outra história, talvez reste no papel alguma coisa que o tempo não consiga devolver ao silêncio.

Não sei se escrevo para permanecer ou para compreender o que em mim insiste em desaparecer. Sei apenas que, enquanto houver uma palavra por nascer, continuarei diante da máquina, aprendendo a escrever, aprendendo a errar, aprendendo a existir entre aquilo que desejo dizer e aquilo que jamais conseguirei dizer por inteiro.

A coisa —

São exatamente a hora de escrever? É. Eu estava fazendo outra coisa, lendo um livro. Terminei, fechei o livro com delicadeza. Olhei para o lado esquerdo e vi meu diário. É onde ainda escrevo. Olhei rapidamente e não me vi ali, no que estava escrito, que é algo de anos atrás. E comecei a escrever em outra folha.

Os ponteiros do relógio já me avisam que está na hora. O meu inconsciente já mandou mensagem para minha linguagem e aqui estou, escrevendo sobre um papel, uma caneta e talvez vá para o mundo. A palavra é o meu castigo no mundo? Meu pecado de escrever? Ou será o meu domínio? Não me adestro a muitíssimas coisas.

Hoje papai falou comigo. Foi muito bom. Senti uma leveza. Depois passou. Me fez lembrar quando publiquei meu primeiro livro. No dia do lançamento, era meu aniversário. Eu nem lembrava que era meu aniversário. Só pensava no lançamento. Cheguei em casa e senti uma felicidade que queimei a própria língua dizendo: “Peraí, tô voltando.” Eu tô olhando aqui. Tá estranho. Queimei a própria língua, pois sempre digo: quando somos felizes, nem temos tempo para falar. E naquele momento eu tive tempo para falar.

No outro dia foi tudo normal. Senti uma espécie de angústia com um misto de epifania e fui escrever novamente.

Talvez seja isso. O que se faz depois que é feliz?

Com a felicidade que não se quis, pois felicidade não se quer. Quanto mais quer, menos tem. Mesmo quando o mundo, ou melhor, a humanidade, quer tanto a felicidade. Embora eu ainda prefira a angústia. Ela me atravessa, rasga minha alma e depois me faz produzir alguma coisa. E aí passo numa espécie de felicidade.

Dessa vez não queimei as páginas que escrevi. Deixei guardadas. Até quando? Não sei. Os ponteiros se movimentam, assim como minha mão. Minha mão desliza para a esquerda, para a direita.

Escrever é coisa. E coisa só é coisa quando a linguagem pergunta: coisa é essa?

Igual quando estou em análise. Aí me pego e vejo. Na outra sessão vem a repetição, a coisa. Minha psicanálise faz silêncio e eu fico mudo. A análise se encerra e a coisa não teve nome.

Agora adormecerei pensando na coisa, que simplesmente é algo banal. Escrever para me libertar daquela coisa que tem dentro de mim.

E aí me desliguei.
A coisa era a luz acesa.
Quando apaguei, eu a nomeei:
lâmpada.

Os pecados que escrevem em mim —

Eu não escrevo para dar resposta a ninguém. Escrevo porque é assim que meu corpo encontra um jeito de continuar. Talvez o meu maior pecado seja ser ansioso demais. A ansiedade chega antes das palavras e, quando chega, não me deixa escrever. Porque eu não sei para onde as palavras vão. Nem onde elas terminam. Talvez eu nem precise saber. Talvez escrever seja justamente caminhar por aquilo que não conheço. Mas talvez eu esteja perdendo o jeito de escrever. Verbo? Então escrever é apenas o modo de conjugar um verbo? Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Não. Isso não faz parte de mim. Eu tenho o meu modo de escrever e também o meu modo de existir. Nenhum dos dois me adestra. Nenhum dos dois me obriga a absorver tudo aquilo que o mundo insiste em nomear como culpa, pecado ou desvio.

E então penso nos pecados capitais. Qual deles seria meu? A avareza? Não me apego aos bens materiais. Quase nada do que tenho parece realmente me pertencer. Tudo aquilo que escrevo nestas folhas, muitas vezes, termina queimado, rasgado, desaparecido. Talvez porque eu saiba que até as palavras precisam, às vezes, morrer para que outras possam nascer. A luxúria? Talvez exista em mim um desejo sexual que nem sempre consigo coordenar. Um desejo que não pede licença, que atravessa o corpo antes que a razão consiga alcançá-lo. A ira? Quando escrevo, há momentos em que uma raiva descontrolada atravessa minhas mãos. Mas não é uma raiva vingativa. Não quero devolver ao outro aquilo que um dia me feriu. Às vezes, apenas escrevo para que aquilo que me atravessa encontre algum lugar fora de mim. A gula? Não sei se tenho excessos nesse sentido. Talvez eu tenha outros. Devoro livros. Engulo palavras. Leio como quem tem fome. Escrevo como quem não consegue parar de procurar alguma coisa que sequer sabe nomear.

E existe o amor. Esse talvez seja o meu maior excesso. Porque também amo sem saber exatamente o que fazer com aquilo que sinto. Amo pessoas, memórias, palavras, livros, corpos, ausências e tudo aquilo que, por alguma razão, permanece em mim mesmo depois de ter ido embora. O amor também pode ser uma espécie de pecado quando nos atravessa sem pedir autorização. Ele também desorganiza. Também dói. Também nos faz perder o controle. Mas há alguma coisa nele que nenhum pecado consegue explicar. Talvez eu escreva também por amor. Por amor ao que vivi. Por amor ao que perdi. Por amor ao que ainda desejo. Por amor àquilo que não sei se um dia terei novamente. E talvez até por amor a mim, embora às vezes eu não saiba muito bem como fazer isso.

E existe o desânimo. Talvez esse seja o pecado que mais me acompanha ultimamente. Tenho me afastado até dos meus deveres espirituais. Há dias em que a alma parece pesada demais para alcançar aquilo que antes parecia tão próximo. Talvez seja justamente por isso que falo tanto dela. Talvez eu escreva sobre minha alma para que ela encontre algum espírito de luz capaz de me devolver alguma coisa que ainda possa me refletir.

Não sei. Talvez nenhum desses nomes dê conta de mim. Talvez o pecado esteja justamente nessa minha necessidade de procurar um nome para aquilo que não cabe em nome algum. Talvez o amor também esteja aí, escondido entre uma palavra e outra, entre aquilo que perdi e aquilo que ainda desejo encontrar.

E os ponteiros do relógio continuam se movendo. A madrugada avança. O corpo permanece. As palavras aparecem. Eu não sei para onde elas vão. Não sei onde terminam. Talvez nunca tenha sido necessário saber. Talvez eu apenas continue escrevendo. E talvez seja justamente aí, entre meus pecados, meus amores, minha alma e aquilo que ainda não consigo nomear, que alguma coisa de mim continue existindo. Talvez sejam os meus pecados que escrevam em mim. Talvez seja o amor. Talvez sejam os dois.

O que as palavras desenterram em mim —

O que as palavras em mim encontram? Já nem sei. Agora começou a chover, como quem de repente nem imaginasse. Talvez seja por isso que um dia pensei em escrever para o mar, porque ele não precisa da chuva que cai do céu. O vento nas ondas. Mas só posso ir até onde meus pés alcançam. Não sei andar de prancha.

Deslizo minha mão ao teclado, a tinta quase secava. Corro para a máquina e logo finalizo, se é que existe final, a caneta e o papel. E um caderninho velho, que acho que serve para muitas coisas. Afinal, dizem que tudo o que está no museu é velho; outros dizem que é antigo. E eu gosto dos antigos. Afinal, também tenho saudades daqueles que faleceram, de familiares que amo muito e de quem me recordo. São antigos em minha memória. Antigas são as palavras, antigas são as lembranças que, de algum modo, continuam encontrando lugar em mim.

Como o linotipista, que hoje tem outro nome: compositor tipográfico. Uma profissão que atravessou o tempo, assim como tantas palavras que mudaram de lugar sem deixar de existir. Mas por que será que escrevo?

Talvez seja para olhar a chuva caindo e ver minha mãe andando com uma garrafa vazia de Coca-Cola, com medo da ventania que possa vir, porque carrega traumas da infância. Na época em que eu nem existia nesse mundo. Mamãe morava em uma casa humilde. Quando venta as telhas voavam todas. E ela corria para minha bisavó, de quem não me esqueço, por mais que tantos anos tenham passado. Ela pegava um ônibus e, com o pouquinho que tinha, comprava biscoitos e os trazia.

E talvez seja isso: as lembranças que vêm, mesmo quando não as chamamos. As palavras desenterram aquilo que o tempo não conseguiu levar por inteiro. E, enquanto a chuva cai, alguma coisa antiga volta a respirar dentro de mim.

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Jorge Lannes Júnior

Jorge Lannes Júnior é escritor e psicanalista, nascido em Belford Roxo e residente em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Escreve desde a infância e transita, em sua produção literária, entre a crônica, a poesia e reflexões sobre a existência, a linguagem, a solidão, o desejo e as experiências humanas. Em 2026, publicou seu primeiro livro, Sentimentos em Palavras: À Luz das Minhas Angústias, além das obras Antes do Diagnóstico, Existe Você e Eu Vi a Morte de Perto e Depois Eu Andei. Sua escrita nasce do olhar sobre o cotidiano e das inquietações que atravessam a experiência humana, transformando sentimentos, memórias e reflexões em palavras.

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