Fernando Vasqs

  • Os sonhos do Lupércio

    Um deles era ser entrevistado: como os atores, os cantores, os escritores e os jogadores de futebol.

    Imaginou e pôs em prática um plano sui generis: ajudou a atravessar uma velhinha e largou ela no meio da avenida. A velhinha fez um baita dum escândalo, chamaram a polícia, e ele, o Lupércio, foi parar na delegacia. Batata! Como ele queria, foi entrevistado pelo delegado. 

    O delegado disse bom dia, como vai? e ele respondeu que tudo bem.

    — Cafezinho?

    — Obrigado, não. 

    — Seu nome?

    — Lúcio Lupércio.

    — Profissão? 

    — De tudo um pouco.

    — Ovos em várias cestas… muito bem! Formado?

    — Fiz o primeiro ano do colégio e parei.

    — Por quê? 

    — Muito trabalho, dr. Um dia eu completo. 

    — Ótimo. Casado?

    — Com a Lena Lenita, um anjo de mulher. Somos do mesmo signo! 

    — Não diga, eu também! Quer dizer, eu e minha mulher somos Peixes. 

    — Nós somos Sagitário. Março; ela 5, eu 18.

    — Belo signo, vão viver eternamente juntos. 

    — É mesmo?

    — É o que dizem os astrólogos. 

    — Nunca brigamos, fomos feitos um para o outro.

    — Tá vendo? Nós também. Filhos? 

    — Duas. Laura Lúcia e Lídia Lair. A mais nova 5, a mais velha 8.

    — Ah, mocinhas! Moram onde?

    — Comigo.

    — Onde?

    — No Cambuci. Casinha simples, sabe?, herança de papai. Comprou com dificuldade, 30 anos pagando. 

    — Lar doce lar! Tão bom ter uma casa.

    — Tem até jardim. Minha mãe que fez, rosas de todo tipo.

    — Gosta? 

    — Eu que cuido, mamãe aprendia na TV, com a Xênia, lembra da Xênia?, e me ensinava. Faço até enxertos.

    — Que cor prefere?

    — Qualquer uma. Me comove a beleza que traz a primavera com a florada do ipê amarelo.

    — Lindo, né? Também tem o branco.

    — Sim, com aquela atmosfera nórdica.

    — A igualdade é branca!

    — A paz é branca.

    — Algum sonho?

    — Ser entrevistado.

    — Está realizando!

    — Nem acredito. Também queria apresentar um de jornal de TV.

    — Mesmo? Que nem o Tralli? 

    — Que nem o Bonner. Eu e a Lena Lenita apresentando o Jornal Nacional, aquela elegância, aquele jogral, aquele boa noite!…

    — E ela?

    — Quem?

    — A Lena Lenita, também sonha com isso?

    — Não, o dela é ser aeromoça.

    — Ah, as mulheres!, sempre sonhando alto… Bom, acho que nosso tempo acabou.

    — Passou rápido.

    — Volte sempre.

    — E a velhinha?

    — Impertinência de velha. Dá-se um jeito.

    — Obrigado,dr.

    — Ah, só mais uma coisa: o que acha da polícia de São Paulo?

    — Bom…

    Corta! 

    Não foi nada disso. O delegado nem quis saber do Lupércio, mandou ele direto pra cadeia, aos berros. 

    Dois cascudos: “E se fosse sua avó?, e se fosse sua tia?!”. E um pé na orelha: “E se fosse sua mãe?!”.

    Após três dias vendo o sol nascer com quatro lados iguais e paralelos dois a dois, foi solto com a advertência: “Na próxima,  pega um mês na penitenciária e vai apanhar até ficar mais inchado que um bauicú-de-chifre”. 

    Em casa, encontrou a Lena Lenita, bico de garça, comprido e pontiagudo. 

    Pegou um mês dormindo no sofá. Um mês de abstinência.

  • O cupins

    Não existe cupim no singular, ou não deveria existir. Como o lápis, o vírus, o correto seria o cupins. Quem discorda deve provar que já viu algum dia um cupim sozinho. Não existe cupim sozinho, ao contrário, eles vivem às dezenas, centenas, milhares. Formam um exército – ou por outra, o cupim é esse exército – monolítico, uno, poderosíssimo e destrutivo como o de Átila, o rei dos também hunos, que por onde passava não deixava cupim, ou melhor, não deixava capim. Cupim não sei se ele deixava.

    Num episódio, a Pantera Cor-de-Rosa luta com um cupim. Um só. Primeiro ele rói os pés de uma cadeira,de uma mesa, um abajur, o teto, o piso. Por fim, ele destrói a casa toda. Um só! Isso no desenho, na realidade, pra roer uma casa inteira eles precisam desse exército, tipo um por todos, todos somos um. E conseguem, mesmo não sendo desenho, mas sendo esse inseto desgraçado, morfético e virulento.

    Em francês chama-se termite; em inglês, termita. Alnaml, em árabe, uipoka, em bengalês, bályi, em chinês; shiroar, em japonês. Quer dizer, tem, como se era de desesperar, cupim no mundo inteiro. E encontramos, pois pesquisamos, akhala, em aramaico! O que nos permite supor que tem cupim até no Paraíso Celeste, onde mora Deus, uma vez que aramaico é a sua, de Deus, língua.

    Tem mais cupim no mundo que gente na China e na Índia juntos – e que estrelas no céu, e que gelo no polo norte, e que puxa-saco em Brasília. Puxa-sacos, não cupins – tantos são os caras-de-pau na cidade que é improvável que cupim lá se crie. Ah, cupincha sim, esse é um outro gentílico.

    E não engordam – os cupins, não os cupinchas. Ao mesmo tempo que roem, desroem. O que você pensa que é pó de madeira, não é, é cocô, cocô de cupim. Um cientista esperto estudaria essa peculiaridade pra tirar dela a fórmula definitiva pra emagrecer pessoas, sem precisar de ozempic.

    Decididamente os cupins, como as baratas, herdarão a Terra. Os métodos de dedetização são falíveis e caros: cobram-se $2 mil paus pra descupinizar um cômodo de 3 m²! Então a gente aprende que são vários os tipos de cupim: o de madeira, o de solo e o de bolso.

    Uma coisa aliada à outra – a voracidade, o pantagruelismo dessa praga e o preço escorchante da dedetização -, os cupins liquidarão o planeta antes mesmo que o homem. Ou seja, o cupim é um tipo de capitalista selvagem, assim como vice-versa.

     São silenciosos, são traiçoeiros – os cupins e os capitalistas – como nicotina no pulmão, álcool no fígado, conspiradores no Planalto. Agem pelas costas – quando se menos espera, o exército, o de cupins, nhóc!, já comeu sua casa.

    E sua casa é seu lar, seu patrimônio, e não um desenho animado. Portanto, cuidado com o cupins, cuidado com o termita, cuidado com o uipoka, etc.

    Cuidado especialmente com o akhala – esse, nem Deus ele respeita.

  • Um beijo ardente

    O empresário e a jovem secretária amante beijam-se ardentemente no quarto de luxo de um hotel evidentemente de luxo também.  Findo o beijo, ele leva as mãos à boca, sentindo algo estranho. Que foi, ela diz, não gostou? Ele corre pro banheiro, olha-se no espelho, abre a boca e lá está: um vão, uma janela, onde deveria estar um dente, um pré-molar tipo ostentação, de ouro 24k! 

    Assustado, sempre protegendo a boca, corre de volta pro quarto, abaixa-se, procura no chão, embaixo da cama, debaixo dos lençóis… Que foi?, pergunta de novo a jovem secretária amante. Os dois se abaixam pra procurar juntos. Em vão. Ele tem um insight mesmo sem saber o que isso significa, e se pergunta: será? 

    Que foi?, ela quer saber outra vez de novo. Não é possível, ela diz depois de ele contar. Será? 

    Difícil seria explicar pra esposa, chegando o empresário às 2 da matina, sem um dente – e de ouro 24k! Caiu na rua, no bueiro, caiu na privada, um assaltante… ela, a esposa, não engoliria. Sua vida, a dele, viraria um inferno.

    Abriu o jogo: minha jovem secretária, hã, amante, hã, engoliu. 

    Seu dente?!, exclama a esposa estupefata. 

    De ouro 24k, ele responde embaraçado.

    Pediu perdão. Era íntegro. Momento de fraqueza. Mil promessas. Amava a esposa. Como a ninguém. 

    Inútil, em vão, outro vão. A vida dele virou um inferno. 

     A esposa processou a amante: “Garimpo ilegal, além do mais!. Quero o dente – o pré-molar de ouro 24k! – de volta. Custe o que custar!”. 

    Não pelo valor, poderiam comprar uma dentadura inteira de ouro 24k. É questão de honra!, afirmou a esposa, peremptoriamente.

     Processo de rico corre mais rápido que entregador de pizza. Contra pobre, é quase instantâneo. O juiz deu 24 horas pra jovem secretária amante desengolir o dente. Métodos, ele disse, existem aos magotes – juiz gosta de enxundiar o verbo.

    Sentença cumprida, o dente foi devolvido são e salvo. A esposa guardou o agora suvenir no porta-joias. A essa altura o empresário já tinha reposto o dente, dessa vez mais modesto, de acrílico. Até porque, obviamente, um dente que passou pelo que passou o pré-molar de ouro 24k, entrando por onde entrou, saindo por onde saiu, quem teria coragem de usar?

    O beijo da jovem ex-secretária ex-amante marcou pra sempre, como uma nódoa de cajú, o cuore do empresário. 

    A esposa passou o resto da vida conjugal tentando um beijo daquele pra agradar o marido. Em vão. A vida toda arrancou dinheiro dele, mas nunca conseguiu arrancar sequer um incisivo.

    O caso ficou conhecido como O Beijo de Lingote. A jovem ex-secretária ex-amante, ganhou fama como A-Garimpeira-do-Pré-molar-de-Ouro-24k. Coitada.

  • A Nora, o cachorro da Nora, os namorados da Nora e o adestrador

    A Nora tinha um cachorro. A Nora também tinha um namorado. O cachorro não gostava do namorado da Nora. A Nora contratou um adestrador pra fazer o cachorro acostumar-se com o namorado. Já que ainda não existe adestrador de namorado.

    Pouco tempo depois, quando o cachorro já estava amiguinho do namorado, o namorado caiu fora.

    A Nora tinha dotes físicos e intelectuais exuberantes e logo trouxe outro namorado.

    Pro outro namorado também foi preciso o adestrador, pra estreitar laços de amizade dele, o namorado, com o cachorro que o estranhava.

    A nova paixão também não durou. Foi, como disse um dia o Geraldo Vandré, breve como a perdida flor. E ele, o namorado, se foi.

    Logo a Nora se deixou cair por outro, um carioca que morava na Rua Vasco da Gama, 507, no Brás, e que se disse louco por cachorros só pra seduzí-la.

    Mas como o cachorro não era louco por namorados da Nora, a história se repetiu. E toca o adestrador entrar em cena de novo e aproximar os dois.

    Só não foi o bastante, a aproximação, pra mantê-los, ela e o namorado, aproximados por muito tempo. O caso foi breve também, dessa vez breve como banho num dia frio de 7 graus.

    Assim se sucedeu 3, 4, 5, 6 vezes: entra namorado, cachorro estranha, entra adestrador, sela acordo de paz, sai namorado. 

    Maldito cachorro, malditos namorados.

    Belo dia, quando o último namorado vazou, a Nora teve um lampejo perfeito pra um final feliz.

    Em vez de procurar outro namorado, sabem o que ela fez? Deu jeito de namorar o adestrador.

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