Crônicas

A Nora, o cachorro da Nora, os namorados da Nora e o adestrador

A Nora tinha um cachorro. A Nora também tinha um namorado. O cachorro não gostava do namorado da Nora. A Nora contratou um adestrador pra fazer o cachorro acostumar-se com o namorado. Já que ainda não existe adestrador de namorado.

Pouco tempo depois, quando o cachorro já estava amiguinho do namorado, o namorado caiu fora.

A Nora tinha dotes físicos e intelectuais exuberantes e logo trouxe outro namorado.

Pro outro namorado também foi preciso o adestrador, pra estreitar laços de amizade dele, o namorado, com o cachorro que o estranhava.

A nova paixão também não durou. Foi, como disse um dia o Geraldo Vandré, breve como a perdida flor. E ele, o namorado, se foi.

Logo a Nora se deixou cair por outro, um carioca que morava na Rua Vasco da Gama, 507, no Brás, e que se disse louco por cachorros só pra seduzí-la.

Mas como o cachorro não era louco por namorados da Nora, a história se repetiu. E toca o adestrador entrar em cena de novo e aproximar os dois.

Só não foi o bastante, a aproximação, pra mantê-los, ela e o namorado, aproximados por muito tempo. O caso foi breve também, dessa vez breve como banho num dia frio de 7 graus.

Assim se sucedeu 3, 4, 5, 6 vezes: entra namorado, cachorro estranha, entra adestrador, sela acordo de paz, sai namorado. 

Maldito cachorro, malditos namorados.

Belo dia, quando o último namorado vazou, a Nora teve um lampejo perfeito pra um final feliz.

Em vez de procurar outro namorado, sabem o que ela fez? Deu jeito de namorar o adestrador.

Fernando Vasqs

Fernando Vasqs nasceu em São Paulo. Construiu sua trajetória no humor gráfico e na imprensa brasileira. Escreveu e ilustrou para o Pasquim-SP e foi colunista do Jornal da Tarde, de O Estado de S. Paulo, atuando como redator e ilustrador. Durante 12 anos, emprestou seu olhar e seu traço às páginas do Diário Popular-SP. Também colaborou, ainda que brevemente, com O Pasquim, O Pasquim-21, Jornal do Brasil e as revistas Bundas, Revista do Faustão e Mad, nestas últimas também como redator. No caminho, ilustrou livros infantis e didáticos — porque até o aprendizado fica mais divertido quando ganha desenho. É autor de Ostras ao Vento – humor disposto a nada (edição própria, 2011) e Papo Gaio de Maritacas – humor que vai direto às… reticências (Editora ConVerso, 2025).

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