Estreia

  • Lendas

    Pouca coisa é mais estimulante que a alegria de uma criança no início de suas férias. A expectativa desperta a imaginação que permanecia adormecida dentro das paredes da realidade. As coisas se tornam pessoas e objetos que não são tornam-se coisas. Os sonhos tocam a matéria que, por sua vez, devolve em cores e movimentos.

    Mas como a tese não se torna síntese sozinha, ainda há uma antítese (que não torna a experiência menos interessante, pelo contrário). Assim como as dríades, elfos e fadas se despertam, também as bruxas más, os monstros e as bestas afastam-se da hibernação.

    — Vamos, filha. Já está tarde — Grita a mãe.

    — Estou indo, mãe. Estou indo — A criança respondeu enquanto apertava alguns brinquedos na mala estufada.

    A pequena Bartira estava a caminho da casa de sua avó que morava em uma cidadezinha no interior de Goiás chamada São Patrício.

    Ela, o irmão e primos sempre planejavam e imaginavam todas as aventuras que viveriam no sitio.

    Na estrada, Bartira se imaginava pulando pelas árvores que corriam em grande velocidade através da janela do carro. Por fim , adormeceu agarrada a Bilbo, seu coelho de pelúcia marrom.

    Interrompendo seu sono — não muito confortável — escorada junto à janela do carro, Bartira quase caiu quando Rita, não conseguindo conter a ansiedade, abriu a porta do carro sem aviso prévio.

    Ignorando o constrangimento (e os gemidos mal-humorados de Bilbo) ambas saíram saltitando com gritinhos, contemplando todas as possibilidades que viveriam no próximo mês.

    Na primeira semana as cinco crianças ( na realidade, eram seis, mas Ana não era contada por ser muito nova para a aventuras), se mantiveram investigando dentro dos arredores da casa da avó, coisa que era tradição entre os primos. Não encontraram muito mais que alguns parafusos que o avô havia pedido e roupas velhas de gerações que eram guardadas, o que lhes rendeu alguns dias de muita risada e entretenimento.

    No início da terceira semana, durante a noite se ajustaram ao redor de uma fogueira montada no curral do avô para contar seus medos em formato de histórias, era quase como uma competição sobre quem causaria o maior assombro no grupo.

    Bartira foi escolhida para protagonizar a primeira noite, contou-lhes todas as histórias que conhecia sobre o temido curupira.

    Nesta, voltaram em silêncio conferindo os lados da estrada de terra, para prevenir qualquer aparição.

    A segunda noite foi a vez de Tito Tavares tentar a sorte. O rapaz amava os animais, em especial, admirava os equinos. Como uma contradição que carregava, contou a todos a história do personagem que mais temia, e depois daquela noite também temido por todos ali, a mula sem cabeça.

    Na Quarta feira, os gêmeos Andrade dividiram o conto de feitos da caipora, amiga das florestas e inimiga dos caçadores. Ivan detalhou a aparência animalesca e suja da personagem, já que, este morria de medo de tudo que possuía um rosto que não fosse familiar a sua vista. Enquanto Ravi descrevia os assobios que caipora cantarolava ao passo que enrolava a crina dos cavalos desavisados das fazendas, o calor do fogo que carregava aceso em sua tocha e, por fim, os roncos do javali, em que montava. Ravi, que por sua vez, detinha um medo mortal de barulhos sem rostos, concluiu o terror com maestria.

    Na quinta choveu e não houve o encontro, então se contentaram em remarcar para o próximo dia. Todos suspiravam aliviados pela noite sem pesadelos, mas ninguém ousou dizê-lo, pois poderiam ser taxados de covardes pelos primos, que em secreto, também tremiam.

    A noite de sexta foi a pior de todas, a tempestade do dia anterior deixou a aura ainda mais sombria. A lua, por mais cheia que estivesse, era por hora tapada pelas nuvens que passavam e as estrelas piscavam como pequenas bombas prestes a explodir.

    Ventava bastante o que dificultou a montagem da fogueira, mas desta vez não a fizeram no curral, pois o avô naquele dia recebeu gado novo.

    Se a noite pudesse falar, diria a eles para não saírem de casa, quem dera pudessem ter ouvido antes de ser tarde demais.

    Os cinco recorreram ao milharal do tio que ficava a pouca distância da casa. Aquilo mais parecia um labirinto, mas Tito era bom com direções e guiou o grupo até o meio, onde alguns peões descansam em época de colheita. Todos chegaram pingando encharcados pela umidade que as folhas guardaram, a chuva se estendera até a tardinha e havia estiado a pouco.

    Ravi alimentava a fogueira com os galhos mais secos que o irmão havia recolhido, resultado: fogo fraco, amarelo. Todos irritados com o vento frio e a garoa que ainda secava.

    A oportunidade da noite estava com Rita, que preparou seu enredo por dois dias. O monstro escolhido foi o Boitatá, a cobra guardiã dos animais e inimiga de invasores. Durante a história não havia som ambiente, todos os roedores e animais noturnos resolveram se refugiar — a não ser por um.

    A voz da garota de cabelos cacheados se tornou mais séria, em conjunto com a luz fraca do fogo que dançava em suas feições, era impossível taxar todos os acontecimentos narrados como uma invenção.

    Rita se empolgou na descrição das escamas que refletia as fortes chamas que crepitavam em sua cabeça, quando somado a imaginação dos ouvintes, a raiva personificada dos olhos do réptil se tornava palpável.

    Ao decorrer da história, todos abaixo da lua que subia no céu abafado, tremiam, não responsabilizando as rajadas de vento que criavam mais força a cada hora. Em alguns momentos as crianças  pensaram escutar barulhos de passos na estrada ao longe.

    Quando, chegando próximo ao fim da história um ronco se ouviu no meio do milho, Ravi soltou um grito cortado pela mão de Ivan que estava ao lado observando o negro da escuridão junto a Tito.

    Bartira congelou onde estava. Não se atrevendo a mover um músculo sequer.

    — Ele não sabe onde estamos — Cochichou Rita após mais alguns ruídos se afastando.

    — Se mantermos o silêncio, ficamos invisíveis — Concluiu Tito um pouco mais alto que um sussurro.

    Com a ajuda de Ivan, Tito jogou terra úmida na brasa já fria e todos se sentaram quietos. Bartira se agarrou ao braço de Ravi no centro do pequeno círculo, ansiava com todo seu ser estar na casa da avó abraçada a Bilbo.

    Assim que pensaram ter dissipado o-que-quer-que-fosse, uma labareda em movimento se acendeu não muito distante dali, juntamente com um assovio cantado.

    Bartira foi a primeira a notar, e tivera a certeza de ser o moleque de cabeça quente e pés torcidos que falara a dias atrás. Tapou a boca com a mão e se atirou no milharal em desespero.

    Os gêmeos Andrade se entreolharam, seus olhos quase saltando das órbitas, correram juntos na direção oposta a de Bartira. No caminho foram atropelados por um porco gordo que disparava sem direção. O desespero de Ivan foi tanto que vomitou ali mesmo, ambos saíram tagarelando sobre como a caipora os enredou de jeito.

    Rita, ficou algum tempo congelada, apenas o lamento preenchia sua pequena mente de grande imaginação, pensara ter lançado uma maldição sobre todos com seus exageros sobre a pobre cobra. Suada em desespero, seguiu os outros.

    Tito, o mais velho e o único que sabia sair do labirinto, tentou sem sucesso conter a turma antes que se separasse. Ele mesmo chorava, ao notar o fogo da mula sem cabeça perseguindo os vultos que deviam ser os pequenos desesperados. Mergulhado no horror começou a andar em círculos. Ainda tentava chamar para perto os outros com cochichos embargados.

    Aos poucos, cada criança acabou achando a estrada por si mesma, algumas mais rápido que outras, ignorando a dor das pequenas pernas nem sequer olhavam para trás ao rumar a toda velocidade em direção a casa da avó.

    Já era tarde da noite, o satélite noturno já se encontrava em seu ápice e Tito acabou vencendo o medo, não o suficiente para adentrar novamente ao milharal, mas permaneceu a beirada da estrada esperando sua irmã.

    — Bartira, vamos. Está tarde. — Gritava

    Por fim, após alguns minutos — que mais pareceram horas — Bartira respondeu em desespero:

    — Estou indo, Tito, estou indo.

    Assim que sua irmã apontou na estrada, toda suja e molhada, o menino agarrou sua mão e disparou.

    Durante toda a terceira, e última, semana nem a luz do sol pode convencer os miúdos a saírem de casa.

    Um fato engraçado é que no dia anterior aquela sexta-feira, eles não imaginavam — nem sequer poderiam. Durante a tempestade,

    Capitão, o porco de estimação do tio José havia quebrado o chiqueiro e fugido junto com os outros, deixando um rastro de bagunça por todo terreno.

    Quando o José ouviu ruídos tarde da noite no meio do matagal achou ser seus porcos. Agarrou a lamparina e correu para alcançar os fujões. Foi com isso que os pequenos, eufóricos, confundiram com o fogo mítico e o assobio era a forma do tio se comunicar com sua vara.

    A cena era cômica para quem assistia, o tio correndo atrás dos vultos dos leitõezinhos e os pequenos correndo de sua sombra. A noite ia caindo e o fazendeiro finalmente se cansou, oferecendo a trégua que as crianças precisavam para fugir.

    Quando mais velhos, cada um contava a história de sua própria maneira. Sempre que confrontados pelas novas crianças sobre divergências na história diziam ter ocorrido em ocasiões diferentes quando cada divindade apareceu, mas no próprio peito cada qual tinha a certeza do que viu — ou o que achou ver. Todos ainda se lembram até os dias de hoje com a nitidez dos dias de ontem.

  • A liturgia do indizível

    Há dias em que acordo acreditando que ainda caminho em direção a mim. Em outros, compreendo que não existe caminho algum. Existe apenas o intervalo entre um pensamento e outro, onde a escrita resolve acontecer.

    Não escrevo porque sei.

    Escrevo porque desconheço.

    O cigarro, quase sempre, anuncia esse instante. A fumaça sobe como se soubesse o percurso que eu jamais consegui aprender. Enquanto ela desaparece, alguma palavra decide permanecer.

    Há um ritual nisso tudo.

    O papel nunca me pergunta quem sou. A caneta nunca exige explicações. Ambos apenas aceitam aquilo que consigo suportar dizer.

    Quando a tinta acaba, resta o lápis. Quando o lápis falha, ainda existe alguma margem onde a mão insiste.

    Talvez escrever seja isso.

    Insistir.

    Visto cores diferentes conforme o dia, mas nenhuma delas consegue vestir completamente aquilo que me habita. O branco tenta me pacificar. O cinza aceita minhas dúvidas. O preto conhece meus silêncios. O azul, curiosamente, sempre me devolve uma esperança que nunca faz barulho.

    Tenho vivido mais recolhido.

    Não por medo do mundo.

    Talvez por excesso dele.

    Existe uma solidão que machuca e existe outra que organiza. Ainda não sei em qual delas habito, mas aprendi a não fugir quando ela bate à porta.

    Tenho saudade de mim.

    Não daquele que fui.

    Também não daquele que imagino ser.

    Tenho saudade de alguma parte que ainda não encontrei.

    E isso deixou de me assustar.

    Hoje prefiro a curiosidade à certeza. As certezas costumam envelhecer depressa. As perguntas permanecem respirando dentro da gente.

    Sou feito de muitas versões que dificilmente conversam entre si. Algumas se abraçam. Outras se contradizem.

    Há dias em que uma salva a outra. Há dias em que todas desaparecem ao mesmo tempo.

    Talvez seja isso que chamam de existir.

    Escrevo sem procurar beleza.

    Sem procurar respostas.

    Sem procurar leitores.

    Escrevo porque algumas dores só aceitam existir depois que recebem um nome.

    E, curiosamente, depois de escritas, já não me pertencem da mesma forma.

    Cada palavra leva um pouco de mim.

    Cada texto devolve alguém que ainda não conheço.

    Enquanto isso acontece, continuo vivendo.

    Transformando-me.

    Desfazendo-me.

    Refazendo-me.

    Sobrevivendo.

    Talvez a escrita nunca tenha sido minha salvação.

    Talvez ela seja apenas a ponte que me impede de desaparecer completamente antes de chegar ao outro lado.

    Quando escrever já não é uma escolha

    Quando eu quero escrever, a minha linguagem não permite. Ela se recolhe, fecha as portas, apaga as luzes e permanece em algum lugar onde não consigo alcançá- la. Quando eu não quero escrever, entretanto, ela me empurra para a escrita. Insiste. Persiste. Bate contra alguma coisa dentro de mim até que eu ceda.

    E eu, querendo escrever, não encontro as palavras certas, como se existissem palavras certas para escrever. Como se a linguagem fosse uma espécie de território sagrado onde algumas palavras estivessem destinadas a determinadas coisas e eu precisasse encontrá-las, exatamente aquelas, para finalmente dizer o que ainda não sei dizer.

    Não consigo escrever.

    E é justamente quando digo isso que alguma coisa começa a ressoar.

    Talvez porque, quando eu quero escrever, eu possa encontrar alguma coisa que me mate. Alguma coisa entre o meu eu e aquilo que ainda permanece escondido em algum lugar do meu inconsciente. Não sei. Talvez existam coisas que não querem ser encontradas.

    Há palavras que, quando pronunciadas, não revelam.

    Ferem.

    E talvez seja por isso que a linguagem se recuse quando eu a convoco. Talvez ela saiba que, se vier, trará consigo alguma coisa que eu ainda não estou preparado para reconhecer.

    A única coisa que sei é que agora, sim, eu quis escrever.

    Mas fui empurrado para dentro da escrita no meio do próprio percurso, como se tivesse começado a caminhar em direção a uma porta e, quando percebi, já estivesse do outro lado.

    Eu queria começar a escrever e agora já não quero escrever mais.

    Mas alguma coisa já começou.

    E quando alguma coisa começa dentro da linguagem, talvez não seja mais possível simplesmente voltar.

    Entrei num abismo.

    Não sei se caí ou se fui levado. Não sei se havia alguma coisa me esperando lá embaixo ou se fui eu quem levou tudo comigo.

    Afoguei-me nas minhas próprias lágrimas, sangrei do meu próprio sangue e bebi do meu próprio veneno.

    E talvez seja essa a parte mais terrível da escrita: descobrir que o abismo não estava diante de mim.

    O abismo era a própria linguagem.

    E eu, ao tentar escrever, apenas descobri que já estava dentro dele.

    Tudo Escapa, Inclusive Eu

    Eu desejo o ontem no mesmo lugar do hoje, embora o ontem ainda insista em permanecer. Do amanhã já não sei. Nada me agrada. Nem eu me agrado. O que seria agradar a si mesmo? Não sei. Uma felicidade medida em cinco segundos? O ponteiro do relógio aguardando a hora da bela saída para um show marcado há anos? A euforia de uma noite entre amigos? De que matéria se faz a felicidade? E o que se faz dela depois que passa? Como se escreve quando não se quer escrever? Empurra-se a escrita ou é a escrita que nos empurra para sermos escritos? Minha linguagem é a morada de uma alma que sangra, que se fecha, que se abre por todos os buracos do corpo. Costurei cada rasgo com linha e agulha, mas cansei. Agora deixo tudo aberto. Continuo escrevendo de amanhã, porque daqui a um minuto já será tarde. Posso olhar as horas, mas quando escrevo não vejo o relógio, apenas escrevo. E por que escrevo? Talvez porque exista em mim um enigma que jamais se deixe decifrar. Há uma morada dentro de mim que insiste em escrever, talvez para viver, talvez para sobreviver. O que escrevo pode ser profundo ou apenas superfície. Nunca se sabe o que vai sair daqui.

    Mas tudo escapa.

    Quando escrevo, escapa.

    Quando não escrevo, também escapa.

    Hoje é dia da minha sessão com a analista.

    Não estou a fim de fazer análise.

    Hoje não quero.

    Não quero sair do quarto.

    Também não quero que alguém entre nele.

    Não quero falar com ninguém.

    Não quero que ninguém fale comigo.

    Não quero telefonar para ninguém, nem que alguém me telefone.

    Quero apenas o indispensável.

    Tomar banho.

    Comer e beber.

    Para não agredir tanto o corpo.

    Apesar disso, não comi nada.

    Alimentei-me de palavras escritas.

    De tudo aquilo que me atravessa.

    Uma travessia de mim por mim mesmo, fazendo do próprio corpo uma morada.

    Entre um eu e outro eu, contradigo-me naquilo que me falta e naquilo que desejo.

    Talvez seja justamente dessa contradição que a escrita continue a nascer.

    Solidão e Desejo

    Fico hipnotizado, olhando a parede, até virar o rosto e olhar para a janela. A chuva cai, e por alguns instantes eu fico esperando que, junto dela, caia alguma coisa por aqui. Um amor. Uma resposta. Qualquer coisa que atravesse o vidro e faça companhia.

    Mas não cai amor.

    São só águas.

    Águas que despencam do céu, escorrem pelo vidro e seguem seu caminho, enquanto eu permaneço aqui, acordado, tentando entender o que faço com aquilo que não passa.

    Estou sem sono. Um pouco triste. E talvez a tristeza seja apenas isso: uma coisa que chega sem pedir licença, senta ao nosso lado e fica em silêncio.

    Mas vai passar.

    Eu sei que vai.

    Porque eu também já caí.

    Já me quebrei inteiro, já pensei que não havia mais nada para juntar, e mesmo assim alguma coisa em mim insistiu em nascer de novo.

    Talvez seja por isso que eu ame tanto os pássaros e os bichos. Eles não precisam explicar a liberdade. Eles simplesmente existem. Voam, caminham, partem, retornam. E, de algum modo, me lembram que ainda é possível recomeçar.

    A noite continua.

    A chuva continua.

    E eu continuo também.

    Talvez seja isso que a gente chama de renascer: não voltar a ser quem era, mas descobrir que, mesmo depois de tudo, ainda existe alguma coisa dentro da gente que se recusa a morrer.

    Entre os ventos

    E repousaria entre os ventos, com um cobertor amarelo por cima, para que eu fique rico, mas não de dinheiro, e sim de saúde. Terei o meu sono dos justos. Assim faço da minha casa uma morada, e do meu quarto, cada quadro que existe nele. Cada casa tem seu canto. E cada canto representa alguma coisa, talvez um santo, talvez um pecado.

    Em cima da mesa tem uma maçã. Nunca fui de comer maçã. E agora me pego pensando: será porque dizem que a maçã foi o fruto do pecado? Então eu pequei, porque uma vez dei uma mordida nela. A maçã e eu. Ela fica lá em cima, mas, quando vejo, vai desaparecendo. Alguém come. Eu não sei quem é. Ou talvez saiba e não queira escrever aqui.

    Já a banana, por ser amarela, eu como. Justamente para ficar rico em saúde.

    São meus preparativos para a grande festa espiritual das crianças. Logo, logo chega o dia delas. Que vivam as crianças, que dizem ser o futuro da humanidade. Mas, se as crianças são o futuro da humanidade, um dia eu fui criança. Então, eu sou o futuro de quê?

    Não sei. E, neste momento, também não quero saber. Estou no presente. Não quero saber do futuro e tampouco lembrar o passado. Quanto mais escrevo, mais lembro do passado.

    Uma criança em cima do morro, descendo em uma tábua com rodas e se espatifando lá embaixo, com os joelhos ralados. A mãe passa Merthiolate.

    Ah, como arde!

    A criança reclama. Depois sara.

    Agora, adulto, ah, como arde a mesma angústia do Merthiolate. Só que não existe remédio para esse tipo de coisa. Talvez a vida e o amor sejam assim: escorregar para doer e encontrar, de vez em quando, algum líquido preto que anestesie a ferida.

    Não dá para sofrer sempre, nem sempre viver sofrendo. Também dá para ser feliz.

    Passa rápido. Às vezes devagar. E depois disso, o que se faz?

    Eu não sei o que se faz. Nem sei o que eu faço. Só sei das sensações do momento, que passam desvanecendo meus sentimentos, a falta, a angústia da minha alma, entre o cigarro nos dedos e a fumaça rolando para lá e para cá, enquanto vou me lapidando.

    Dormirei entre os ventos, numa corrente própria, onde, dentro dos sonhos, eu possa ser tudo aquilo que não quero ser.

    Porque tudo aquilo que eu não quero ser é justamente aquilo que quero que eu seja.

    Mas não posso.

    Que a minha solidão não me abandone

    Que a minha solidão não me abandone e me faça companhia nos dias a dias, especialmente, especialmente nos dias em que eu estou triste, como hoje. Que eu saiba diferenciar solidão e solitude a cada virtude que se ganha. Que eu possa me contentar com nada e, mesmo assim, me sentir por inteiro em tudo. Ou pelo menos quase tudo.

    Talvez eu não me compreenda tanto, mas talvez a minha forma de me compreender seja escrever, para eu não me sentir tão sozinho e saber que a escrita me acompanha na solidão que sinto em meu caminho. E que, em cada rua, cada esquina, cada estrada, eu deixe rastros de mim. Que minha linguagem saiba produzir alguma coisa do meu inconsciente e que eu saiba parar e negociar com a escrita quando o meu momento for apenas de ter o meu próprio devaneio e sentir a dor que é preciso sentir. Hoje, escrever foi o meu jeito de ficar comigo quando eu não queria ficar sozinho.

    E que, mesmo nos dias todos, no mais amargo deles, como um café sem açúcar, eu possa reconhecer o amargo sem precisar adoçá-lo. Há dias que simplesmente são difíceis. Há tristezas que não precisam produzir nada, não precisam ensinar nada e muito menos se transformar em alguma coisa bonita. Às vezes, o dia é apenas um café amargo que a gente bebe porque ele está ali, porque aquele é o dia que temos, e porque, de algum modo, precisamos chegar ao outro lado dele. Hoje eu estou triste. Não há uma grande lição escondida nisso. Não quero transformar a minha tristeza em alguma coisa bonita. Quero apenas poder escrevê-la.

    Talvez seja por isso que eu escreva tanto quando não sei o que fazer com aquilo que sinto. A escrita não resolve. Não cura. Não tira de mim aquilo que dói. Mas fica. E, às vezes, isso basta.

    A depressão me pegou. Eu não preciso fazer dela uma virtude, nem encontrar beleza onde hoje só existe cansaço. Hoje eu apenas reconheci o que sinto e deixeialgumas palavras sobre a mesa.

    Talvez eu não tenha encontrado uma resposta.

    Mas encontrei um lugar para colocar o silêncio.

  • O agridoce amanhã

    I’ve been livin’ for the moment /But I just can’t have my way / And I’m afraid to go to sleep / ‘Cause tomorrow is today – “Tomorrow is today”, Billy Joel

    Há um livro e um filme chamados “O doce amanhã”. Escrito por Russell Banks, trata-se de uma cidade que lida com o luto após todas as crianças serem mortas devido a um acidente de ônibus.

    Vale a recomendação. Eu me recordei disso enquanto escrevo essa crônica inspirada por um poema de Eleazar Carrias. Com a autorização do autor, transcrevo abaixo o texto:

    Não na Palestina

    Acordo
    com o cheiro do café,
    me arrasto até a cozinha,
    mas, no centro da mesa,
    é uma esfera dourada
    refletindo a luz da manhã
    que desperta o meu desejo.

    Bom dia, meu amor,
    e pego a faca
    entre o pão caseiro
    e uma caneca fumegante.
    Parece que vai ser
    um dia bom.

    Corto a laranja ao meio,
    no exato momento
    em que uma criança
    tem um braço decepado
    e o olho direito
    de uma senhora, viúva,
    é estourado
    por um estilhaço de metal.

    Mas eu não sei disso.

    O sangue doce da fruta
    na minha boca
    e a visão do marido
    bebendo o café
    quase sem pressa
    confirmam:
    o dia vai ser bom.

    Por que o dia vai ser bom? Porque será um dia como qualquer outro. Com sorte, sem alguma surpresa desagradável pessoal. É um poema forte e sucinto, como um soco na cara, que confirma que para a vida seguir, precisamos aceitar que para muitos não será assim. Não é necessariamente sobre ser egoísta, mas desenvolver capacidades para lidar com a dor.

    No mesmo dia em que li o poema, também me deparei com uma crônica publicada pelo autor Alexandre Brandão em seu blogue “No osso”. Nela, ele discorre sobre a banalidade da violência em referência ao assassinato de um homem que foi linchado por ser confundido com um ladrão. A vítima, Cláudio Rafael Landeiro, costumava pegar a bicicleta emprestada da irmã para passear. Até o encontro fatídico, provavelmente era mais um dia em que, para se distrair, circularia pelas ruas.

    Convivemos com a morte diariamente como chupamos uma laranja, tomamos café e pedalamos. Nós nos importunamos dentro do que é sociável, mas evitamos que esses pensamentos criem raízes. Porque encarar nossa impotência diante da injustiça, pior, da morte, é terrível. Como os mortos pelo genocídio em Gaza ou o ciclista, não temos controle sobre como terminaremos. O máximo que conseguimos é contar os momentos agradáveis e usufruí-los, pois não sabemos o que virá depois. Ainda assim, criamos expectativas, como que implorando para que nada de ruim nos ocorra. “O dia vai ser bom”, encerra o poema. Se não será sua vez, é a de outro. Para alguém, nesse momento, o dia é inevitável e terrível.

    A vida é curta e preciosa. Para lidar com o agridoce amanhã, é necessário reconhecer o prazer e a beleza dos instantes. Por esse motivo, a indignação quando alguém tem retirada a habilidade de sorver as sensações por aqueles que deveriam saber a importância que é estar aqui. Uma pessoa que não aprecia a vida deve ser considerada um ser humano? É tentador taxá-la de “monstro”, mas é uma falsidade e uma forma de mascarar que a multiplicidade da humanidade envolve maldade e crueldade. Assim como nos emocionamos diante uma caneca quente de café, também somos alertados por aquilo que não se encaixa em nossos critérios. Isso pode ser propulsor para injustiça. E ainda há a convicção dos linchadores, que agiram em nome de uma moral. Não há diferença nos que condenam violência com violência daqueles que a praticaram. São os dois lados do vampiro que mostra seus caninos.

    A empatia e a calma, como a que exercemos enquanto cortamos uma laranja, são a única maneira de sobrevivermos. Eu não tenho medo de IA, temo os vizinhos. Se seguirmos nossos impulsos sem freios, não cortaremos a laranja, mas nossos próprios dedos. Ser humano é sobre sentir e pensar. Ambas precisam estar combinadas, caso contrário desperdiçamos o dom que é aproveitar a vida, em seu paradoxo de tempo infinito e limitado.

  • A Nora, o cachorro da Nora, os namorados da Nora e o adestrador

    A Nora tinha um cachorro. A Nora também tinha um namorado. O cachorro não gostava do namorado da Nora. A Nora contratou um adestrador pra fazer o cachorro acostumar-se com o namorado. Já que ainda não existe adestrador de namorado.

    Pouco tempo depois, quando o cachorro já estava amiguinho do namorado, o namorado caiu fora.

    A Nora tinha dotes físicos e intelectuais exuberantes e logo trouxe outro namorado.

    Pro outro namorado também foi preciso o adestrador, pra estreitar laços de amizade dele, o namorado, com o cachorro que o estranhava.

    A nova paixão também não durou. Foi, como disse um dia o Geraldo Vandré, breve como a perdida flor. E ele, o namorado, se foi.

    Logo a Nora se deixou cair por outro, um carioca que morava na Rua Vasco da Gama, 507, no Brás, e que se disse louco por cachorros só pra seduzí-la.

    Mas como o cachorro não era louco por namorados da Nora, a história se repetiu. E toca o adestrador entrar em cena de novo e aproximar os dois.

    Só não foi o bastante, a aproximação, pra mantê-los, ela e o namorado, aproximados por muito tempo. O caso foi breve também, dessa vez breve como banho num dia frio de 7 graus.

    Assim se sucedeu 3, 4, 5, 6 vezes: entra namorado, cachorro estranha, entra adestrador, sela acordo de paz, sai namorado. 

    Maldito cachorro, malditos namorados.

    Belo dia, quando o último namorado vazou, a Nora teve um lampejo perfeito pra um final feliz.

    Em vez de procurar outro namorado, sabem o que ela fez? Deu jeito de namorar o adestrador.

  • Vira-lata Escudeira

    Há exatamente dois anos, no dia 21 de julho, adotei uma rebolativa de cambitos finos. No recesso profissional fomos à feira de filhotes. Queríamos adotar uma cadela como companheira à nossa Pretinha, já idosa, que entristeceu com a morte da parceira.

    Domingo invernoso ensolarado. Descemos a Serra contando o tempo. Chegamos com meia hora para a feirinha acabar. Não planejei e nem nunca quis ter um cão. Elvis, o Canário Belga, como já contei, esbarrou em minha caminhada na calçada. Não voava, só corria e pulava. Como cantava! Parceiro de felicidade por cinco anos. Sofri. Estanquei vontade de outro bichinho. Mas o destino nos prega peças. É pretensioso.

    Na Feira, avistei uma cadelinha de olhos brilhantes, cílios castanhos e orelhas caídas, nos braços da Veterinária. Encantei. Não tenho palavras para explicar. Não sei o que me deu. Me aproximei, encantada com aquele olhar. Está para adoção? É fêmea? Emoção estranha me apoderou. Senti o coração a comemorar em saltitos. Um afeto brotou instantaneamente. Que lindinha! Posso pegar? Tomei-a nos braços. E assim Mafalda, com dois meses de nascida, entrou para a família.

    Dois anos após a adoção ainda não consigo explicar aquele encontro. Mafalda parecia estar me esperando. Só ela restava da ninhada, encontrada abandonada em uma rua de Teresópolis. Ambas viemos para o Rio de Janeiro. Eu de Petrópolis e ela de Teresópolis. Descemos a Serra para o encontro mágico. Ser tão pequeno e indefeso que emana só felicidade. A propósito, também adotamos a Nina para ser amiga da Pretinha.

    Agora tenho vários pedacinhos de alegria durante o dia. Mafalda é minha fiel escudeira. Adora coco seco, ovo cozido e olhar a rua pelo vidro da varanda latindo para os cães que passam. Uma fofoqueira! Sabe quando não estou bem, quando estou para chegar do trabalho e vai comigo para todos os lugares e viagens. Acordo com os olhinhos dela a me darem bom dia. Ao chegar do trabalho, por mais que eu esteja cansada, zangada com o trânsito, tudo se desfaz quando a vejo. Ela me enche de lambeijos e não sossega enquanto não lhe dou carinho. Sou grata por esta artimanha do Universo chamada AMOR.

  • A Revelação dos Porquinhos da Índia

    Coautora: Letícia Hyppólito*

    Na casa da minha professora particular há dois porquinhos da índia. Eu não costumo ter muito contato com eles, eu apenas os via no Pet Shop. Os porquinhos da índia são pequenos roedores, mas são majestosos porque são fofos e lindinhos (e também são descolados: fazem de 10 a 12 sons diferentes!). Porém, o que descobri sobre eles vai te surpreender…

    Em uma conversa com a minha professora, dona dos porquinhos, ela me fez uma revelação chocante: os porquinhos da índia não são porcos e não são originários da Índia! Eu fiquei extremamente chocado e desacreditado. Como isso é possível? Como alguém pode chamar “porco” e não ser porco e chamar “da índia” sendo que não vem do país indiano?

    Fui pesquisar mais sobre o assunto. Descobri que “da índia” vem por causa da confusão dos portugueses que ao chegarem no Brasil acharam que estavam “na Índia”. Já o motivo de se chamarem “porquinhos” é por causa do som que eles fazem que parecem guinchos de porcos. Na verdade, os porquinhos da índia são originários da América do Sul, nos países Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e também são encontrados na bacia do Rio Amazonas, no Brasil. Inclusive, em certas regiões da América do Sul, há pessoas que comem a carne deles (que desnecessário!). Outra coisa que pesquisei é que o nome científico deles é Cavia Porcellus e seus ancestrais eram maiores que um furão.

    Pesquisei, por fim, como se chamam em outros idiomas e descobri que em inglês se fala “Guinea Pig”, em francês “Cochon D’Inde” e em espanhol “Cobaya ou Cuy” – o “Cuy” vem do barulho que eles produzem, mas na minha opinião devia ser “Guí” porque é muito mais parecido com o som!

    Com todas essas minhas pesquisas, refleti que não deveríamos chamar mais de “Porquinhos da índia”, mas sim “Porquinhos da América do Sul”, para ninguém nunca mais se confundir!

    Colaborou com este texto: Letícia Hyppólito, professora de Literatura

    Colaborou com este texto:
    Letícia Hyppólito, professora de Literatura*.

  • Poema #01: Espetáculo

    na calçada dos meus olhos
    você passa

    um palavrão alto
    sai
    na boca do beco
    da minha mente

    a ponta-metal do teu salto
    arrebenta
    o meu tímpano-peito
    num som estridente

    e no meio do palco
    perco todo o sentido
    feito fã cego idolatrando artista
    em seu show ao vivo

  • Poema #01: Incondicional

    Entre tantas vozes
    Tantos abraços
    Entre tantos conselhos
    Em meio ao cansaço

    Quando sorrio
    Ou quando choro
    Se me surpreendo
    Ou me apavoro

    Se a alegria é tanta
    Ou a decepção é muita,
    Importa ter o teu colo, Mãe,
    Pra valer a pena continuar.

  • Marta ainda não está morta

    Marta acordou e foi logo verificando sua respiração. Tudo em ordem, estava viva. O que fazer? Levantou-se resignada, bocejou, deu uns muxoxos e foi ao banheiro.

    Ultimamente esse ritual de despertar e continuar respirando se repetia. Perguntava-se por que não morria de vez. Sua memória fraquejava, as pernas doíam, as articulações tinham deixado de articular e o joelho esquerdo parecia fora do lugar, uma geleia. Sem contar a labirintite.

    Curiosamente ainda lembrava de passagens da sua infância: a primeira viagem, o primeiro milho cozido na espiga, o primeiro beijo roubado, tudo bem claro em sua mente.

    No entanto, não estava bem certa de quantos bisnetos tinha. E os netos? Sabia de um que nunca tinha visto. Podia ser alguma doença congênita, quem sabe até estivesse morto. Talvez a quisessem poupar.

    Exatamente isso que a incomodava: sempre a suspeita de comiseração familiar, como se todos, em conluio, planejassem esconder dela o que julgavam coisas ruins ou notícias tristes. Não seria ela capaz de entender, aceitar ou suportar as rudezas da vida?

    Agora, largada na cama, assistia de perto à menina, cuidadora contratada para ela. Sentia-se péssima naquela situação de dependência, necessitada de babá, um retrocesso ingrato, humilhação que ela pensava não merecer.

    O que Marta mais temia não era acordar e descobrir-se sem vida; nem eram as dúvidas sobre reencarnação, ou se o fim viesse a significar mesmo o fim de tudo. Detestava admitir e a ninguém confessava, mas tinha era pavor de morrer.

    E toda manhã, ao acordar, o mesmo ritual de verificar a respiração e constatar que vinha lá um novo e longo dia, cansativo e fastidioso.

    Os filhos raramente a visitavam. Justificavam afazeres e problemas diversos, e ela sentia-se mesmo um estorvo. Sem contar que os amigos andavam sumidos ou eram quase todos já falecidos. A monotonia carcomia pelas beiradas.

    Sua cuidadora, menina paciente e emburrada, dizia-se enfermeira. Parecia um daqueles robôs, sempre atrás dela para remédios e advertências. Levava-se a sério e achava a vida um desenrolamento de responsabilidades. Uma chata.

    As horas para Marta custavam a passar. Arrastadas. Um de seus prazeres, o café da manhã: fatia de mamão com açúcar, banana amassada com grãos, café com leite desnatado e o pão com manteiga ou requeijão. Era sagrado.

    Não comia muito no almoço, qualquer coisa servia desde que não faltasse arroz. Dormia uma hora à tarde e depois lia alguma coisa no jornal ou via televisão. Marta era assídua de novelas. À noite, na maioria das vezes, sopa. Exceção feita à de cebola. Detestava cebolas, forçavam lágrimas e Marta sempre odiou chorar.

    Matava seu tempo também no celular que recentemente aprendera a usar. Apenas o básico. Ligava especialmente para filha mais velha, a fim de saber as novidades. Somente as boas ou inúteis, porque as reais não lhe eram permitidas. Marta era cardíaca, tinha obstrução nas artérias e hipertensão controlada à base de comprimidos.

    Ainda fazia uso de fitoterápicos para dormir, que quase nada adiantavam. Dormia pouquíssimo. Ironia de vida que costumava repetir nas conversas “quando era jovem e amava a vida, sentia um sono irresistível, agora que odiava viver, dormia cada vez menos”.

    Seu pulmão era outro ponto fraco. Tossia sem parar. Logo ela que nunca havia posto um cigarro na boca. Tinha um único vício e que lhe deixara o fígado baleado: era chegada a umas cachacinhas. Ainda hoje, se
    dessem uma trégua ou nas comemorações em família, tomava uma taça de vinho ou encarava um a latinha de cerveja gelada. Só para amenizar o travo das saudades.

    E de que tinha saudades? Atualmente de nada. Talvez de manter-se animada para seguir vivendo. E o que a mantinha viva, respirando, tossindo, com as dores nas articulações, sem a cachaça e o joelho esquerdo destroçado? Simplesmente o medo paralisante de morrer.

    Marta ficava a imaginar sua morte, ela se despreendendo do corpo e escutando as pessoas “Dona Marta está morta! Partiu dessa pra outra! Descansou, enfim”. Quem fosse a seu enterro, e seriam poucos, que a
    velassem com respeito. Ao menos, evitassem as piadas e disfarçassem o incômodo de estarem ali.

    Estranhamente, naquela noite, ao se preparar para dormir, pressentiu no ar algo diferente. A hora da partida se acercava. Era quase palpável, Marta sabia. Deitou-se, então, com o melhor pijama, lingerie nova, até perfumou-se. Devia ser dessa vez.

    Demorou uma eternidade para dormir, ainda sem saber para aonde iria, se para o nada ou noutra vida, uma empersária milionária, uma atriz de televisão, uma flor num vaso ou um batráquio. Até imaginou-se reencarnando numa lagartixa. Acabou adormecendo, de tosse e cansaço.

  • Um beijo é só um beijo ou qual é o filme?

    “Um beijo é só um beijo”. Esse é titulo do livro do crítico literário e cinematográfico João Batista de Brito. Editado pela Manufatura, aqui mesmo nestas plagas parahybanas, o livro foi lançado em 2001. Pois é. Eu conheço muito bem o seu autor. Somos, talvez eu mais do que ele, jaguaribenses, do bairro de Jaguraibe, capital da Parayhyba.

    Sabia há muito, uma noticia passada por ele mesmo, que o livro havia sido lançado e muitos cinéfilos e não cinéfilos correram para comprar o dito cujo. Mas, infelizmente, andando por aí, presente no meio dessa gente eu não estava.

     Anos depois, mas precisamente 15 anos após o seu lançamento, por acaso, visitando um dos nossos sebos culturais encontrei o seu – dele – “Um beijo é só um beijo”.

    Antes, só não me lembro de quando nem onde, em papo com o autor, perguntei-lhe onde encontrar o referido, pois, não o tendo até aquela oportunidade, cinéfilo de carteirinha que sou, queria adquiri-lo. A resposta? Esgotou. Nem em casa tenho em duplicidade. Mas, como disse neste parágrafo, depois de muito procurar, finalmente, encontrei o procurado em um de nossos “sebos culturais”.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro fininho, apenas 129 páginas, como deve ser todos os livros lançados em nossos dias. Isso tudo considerando o fato de que o brasileiro ler apenas 4 livros por ano, sem conseguir, por incrível que possa parecer, chegar ao fim dos 4 livros que resolveu ler. Ah, mesmo considerando aqueles considerar aqueles que “caem” no vestibular. Tem mais; desses chegam ao fim de apenas 2,1 livros. Está na pesquisa.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro de pequenas 28 histórias, espécies de miniconto, com cada uma delas, como o autor faz questão de esclarecer na sua apresentação, relacionada a um filme.  Diz mais: é fiel ao filme, mas encontra uma forma criativa de narrar, sem entregar o filme (no sentido do conto) ao leitor.

    Li-o de uma só tirada. É assim que costumo me referir a uma leitura primeira e prazerosa. Ele, porém, o autor, por mais que diga não “entregar o filme” nos seus minicontos, para o cinéfilo, aquele mesmo viciado, a “charada” morre logo nas primeiras linhas. Nenhuma dúvida que o livro intitulado de “um beijo é só um beijo”, também poderia ser muito bem chamado, sem deixar de despertar a curiosidade do leitor, de “Qual é o filme”?

    Uma coisa, porém, mais que ululante e mais ainda que o óbvio que o antecede, é que não assistindo ao filme, por mais que se esforce o cinéfilo, ele não conseguirá “adivinhar” o filme ali transformado em miniconto pelo autor. Verdade. Por outro lado, esse fora da tela, qualquer pequeno cinéfilo tendo assistido ao filme “mincontado”, logo nas primeiras linhas, prestando atenção ao que o “narrador oculto” conta, a charada ou mesmo filme estará resolvido.

    E não é nem pela forma de contar do autor, pois, ma vez que ele, João Batista, tudo faz para esconder o filme “camuflado” nos seus minicontos.  Por outro lado, esse do lado de fora da tela, alguns elementos que ele usa para dar vida a sua narrativa, por mais que se esforce em escondê-los, acaba entregando o filme sem perdão.

    Um exemplo é o conto que deságua no filme Casablanca, “Um beijo e só um beijo”, titulo do livro. Nele, Rick – esse em especial – e Victor, esses dois fortes personagens do drama dirigido por Michael Curtiz, que trazem o nome de Casablanca na pele como tatuagem. E agora?  Só faltou Ilsa. Mas, sendo ela quem narra o conto, seria demais pedir que a própria se identificasse.  Assim a entrega seria, como dizemos por aqui, de bandeja!

    No caso do miniconto “Palavras Cruzadas”, apesar de “suas viagens semanais a Milford”, é a trilha sonora que entrega o nome do filme. E o “marido traído” e perguntando, enquanto faz as suas palavras cruzadas, “Ela gosta de Rachmaninoff, mas por que por a música tão alta?” E a citação do médico que encontra em Milford e com ele jantara?

    Pois é, mesmo sendo um breve encontro, esse ficará na sua memória. Conclusão: só poderia ser Desencontro (Brief Encounter), o filme de David Lean, do ano 1945. Por sinal um excelente e belo filme. O título desse miniconto é um achado -“Palavras Cruzadas”. Um título meio assim como “vidas cruzadas”. Não dá pra esquecer. Fazer palavras cruzadas é uma das manias do marido de Laura (ah, sim, “Laura” também é uma entrega).

    Mas, para ficar por aqui, pois afinal são 28 deliciosas histórias ou minicontos, como ele deseja asism chamar, não se esquecer do Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninoff, acelerado, lembrando o trem da partida do personagem. Em síntese, o livro e João Batista, os minicontos por ele escritos são deliciosos.  O cinéfilo que se preza, mesmo com o “produto” em falta no mercado, como vocês viram, deve procurar. Eu procurei e achei.

  • O Chute na tomada

    Bueninho era o vocalista da banda ‘Impunes’.

    Ele saiu do metrô na estação Liberdade, a caminho da Rua da Glória.

    Faltavam sete minutos para as treze horas.

    Logo chegou ao portão do prédio em que moram Zími e Mila Cox, que juntos são a banda Crop Circles.

    Era um trajeto curto, onde ele pensou em como algumas influências musicais deles podiam ser identificadas.

    Mas eram influências obscuras, e eram numerosas também.

    Muitas delas poderiam ser mais populares do que são, mas estão fora do radar das massas, e era isso que o atraía.

    As letras de Mila Cox e Zími eram muitas vezes em inglês, por opção estética, e embora fossem simples, conseguiam não apenas ridicularizar a sociedade, como também apresentar verdades incômodas.

    O estado sendo uma doença que se apresenta como cura, a igreja fazendo lavagem cerebral nas massas através do medo e outros assuntos que a essa altura ainda são tabus.

    A simbiose entre eles era apenas musical. Cada um tinha e prezava loucamente por sua individualidade.

    Mila Cox parecia uma jovem Lydia Lunch, e Zími lembrava um Slim Jim Phantom de quase cinquenta anos.

    Bueninho tem dezenove anos.

    Ele foi chamado porque Zími viu o clipe feito para o primeiro single que a banda ‘Impunes’ tinha lançado recentemente.

    Musicalmente, aquilo era o som do álbum ‘Metal Machine Music’, com algumas intervenções vocais e instrumentais por cima.

    Se fosse lançado em 1976 ou 1977, seria vanguarda.

    Mas o que agradou a Zími foi que o vídeo começa com um cachorro caminhando em direção a uma parede, então levanta a pata, e mija sobre uma tomada, causando um caos apocalíptico, com imagens de centenas de pessoas em desespero, explosões, destruição em massa, e um diabo cristão interpretado por Bueninho, que gargalhava de maneira esquizofrênica.

    No dia em que foi à casa dos Crop Circles, Bueninho vestia uma camiseta do New Model Army e levava um carrinho com uma bolsa térmica cheia de latas de cerveja.

    Ele havia tentado beber destilados com Zími com Tito, baterista da banda Provetas, depois de um show que aconteceu em Avaré, no dia em que se conheceram.

    As três bandas haviam tocado no evento.

    Bueninho deu um vexame horrendo, e desde então, o pouco que se lembrava do episódio era suficiente para deixá-lo completamente deprimido.

    Na madrugada seguinte ao evento, ele acordou pelado, enrolado numa toalha, no sofá de uma casa em que nunca havia estado antes.

    Todos na casa dormiam, com as portas dos quartos fechadas.

    Ele ouvia roncos e televisão ligada.

    Ele não encontrava suas roupas e documentos.

    Nunca se sentiu tão ridículo.

    Algum tempo depois, quem saiu de dentro de um dos quartos foi Tito.

    Tito contou que Bueninho saiu bêbado no meio de uma conversa.

    Pensaram que ele tinha ido mijar e logo voltaria.

    Como Tito era da cidade e também estava bêbado, voltava a pé para casa e viu

    Bueninho deitado no chão de um posto de gasolina que estava fechado. Acordou-o e o levou para sua casa.

    Tito havia chamado as bandas e ajudado a organizar aquele festival, realizado numa casa onde funcionava uma sociedade de amigos do bairro.

    E agora, enquanto subindo naquele elevador, Bueninho sentiu certo nervosismo, pensando se seria ou se já estava sendo motivo de chacota pela sua bebedeira.

    Ao sair, viu Zími praguejando na sala do apartamento, que estava com a porta aberta para o corredor.

    Aquela visão mostrava a ele alguém com uma vida bem diferente da sua.

    Mas acima de tudo, mostrava a Bueninho que eles eram na vida cotidiana o mesmo tipo de gente que eram quando saíam para tocar.

    A embriaguez de Zími ainda não era aguda, e ele estava desenrolando um monólogo.

    Enquanto gesticulava para que Bueninho entrasse, Zími dizia:

    “O diabo cristão nunca vai ser tão horroroso quanto algumas pessoas com as quais ainda preciso lidar de vez em quando. Um tipo que eu sei que existe, que não precisam e nem deveriam fazer parte do meu convívio social. Se eu saio pra comprar cigarros a cinquenta metros desse prédio, essa saída rápida pode se tornar uma epopéia, apenas porque pessoas me abordam gratuitamente. Seria glorioso poder evitar. Ainda não sou livre a esse ponto. Ao longo da minha vida, a pior parte da luta era quando me interrompiam enquanto eu estava tentando virar o jogo. As pessoas conseguem estragar tudo, só por estarem no meio do caminho. Algumas vezes foi preciso abrir mão de certas coisas materiais, pra que junto delas eu me livrasse de certas pessoas. De um modo geral, as pessoas tem um potencial enorme pra estragar tudo. Estão condicionadas a isso. São patrulhas ideológicas e comportamentais. Sempre tive atração pela decadência, mas quando falo sobre isso, preciso explicar para não ser mal interpretado. Eu sei que um artista, por exemplo, precisa melhorar com o tempo. No rock, ele pode estar melhor como músico depois de envelhecer, e será chamado de decadente. Ele pode, quando jovem, produzir algo de acordo com sua idade, mas se suas temáticas forem juvenis, ele terá que se adaptar ao envelhecimento. Caso contrário fará papel ridículo e se mostrará realmente decadente. Muitas vezes será lembrado pelos hits antigos. Mesmo tendo lançado grandes álbuns mais maduros, muitas vezes essa evolução é completamente ignorada. Odeio a palavra ‘amadurecimento’ quando usada pra pessoas que envelhecem. Há também muitas que pioram com o tempo. Mas esse tipo de suposta decadência artística em que o artista continua produzindo mais e melhor, e mesmo assim as mídias ignoram, ah, esse tipo me interessa. Muito mais do que a decadência dessa sociedade podre, onde a qualidade humana só deteriora.”

    Zími estava completando quarenta e oito anos naquela sexta-feira, e a sua banda, Crop Circles, não tinha show marcado no fim de semana.

    Sua parceira musical Mila Cox já dizia que estavam num hiato de shows.

    Tinham músicas novas que nunca haviam sido tocadas ao vivo.

    Ela disse para Zími que o aniversário dele deveria servir como um motivo a mais para tocarem naquele dia, ou no dia seguinte.

    Parece ter ficado brava e foi para a janela.

    Olhou para a rua, e bastaram dois minutos para lembrar exatamente porque estava ali.

    Virou-se de volta à reunião e ficou quieta.

    Então eles não marcaram show porque estavam na festa de Zími, no apartamento de sessenta metros quadrados que ele dividia com Cox e Zími repetiu várias vezes que dizia para sua mãe que nunca chegaria aos trinta anos de idade.

    Olhando para Mila Cox, Zími falou: “A parte mais louca é que se eu olhasse quando tinha a sua idade pra quem eu sou agora, muitos anos depois, acho que ficaria feliz, apesar de tudo. Foi uma vida que eu mesmo considero errante. Meus pais achariam pior ainda, então está tudo certo. O que eles queriam que eu me tornasse é aquilo que nós criticamos na música e na vida.”

    O ambiente parecia o camarim que Zími idealizou para usar sempre que fosse tocar, onde quer que fosse.

    Não havia deslumbramento,nem luxo. Havia um padrão utópico.

    Janela grande, banheiro, refrigerador, controle sobre quem entra e sai. Os camarins nunca eram assim. Eram geralmente improvisados e precários.

    Mas o que interessava mesmo é que agora ele tinha um lugar decente para viver.

    Zími estava morando num armário localizado no corredor de uma pensão perto dali, porque estava sem computador para exercer o trabalho de copywriter, que agora paga suas contas.

    “Havia naquele lugar um cara que limpava a bunda com sabugos de milho, e os atirava na casa vizinha, causando uma série de problemas.”

    Essa era uma das histórias que ele repetia muito.

    Mila Cox também vive do trabalho de copywriter.

    Ser baixista e vocalista dos Crop Circles não lhe dá lucro e nem prejuízo financeiro. Na sala do apartamento também estava Lola, que é baixista e toca na banda Main Drags.

    Foi ela quem pediu para que Bueninho levasse cerveja, mas àquela altura estava tomando vodka com suco de maracujá com Mila Cox, enquanto Zími e Silvano tomavam rum com limão e hortelã.

    Silvano é o vizinho uruguaio que mora no apartamento ao lado.

    Ele é um guitarrista que tem uma Kombi para fazer carretos e poder pagar as contas, e também para transportá-los em dias de show,quando geralmente também se apresentava, fazendo uma mistura de punk rock, blues e rock a billy.

    A nuvem de maconha ali era tão intensa que teria disparado qualquer alarme contra incêndios que estivesse numa distância razoável.

    Bueninho pensou: “Meu Deus, como eles aguentam? Devem cheirar pó no banheiro pra aguentarem!”

    Na frente dele, Silvano mostrava perícia manuseando a faca para cortar hortelã e fazer os drinks que bebia com Zími em copos grandes.

    O problema alcoólico de Bueninho depois do show em Avaré não havia sido mencionado.

    Duas semanas haviam se passado, e no fim de semana anterior, a banda de Bueninho tocou em Santo André sem que ele bebesse nada de álcool.

    Ele gostava de beber, mas havia descoberto isso há pouco tempo, e não tinha o vício da bebida.

    E morava com os pais, que eram advogados, e repudiavam a idéia de Bueninho levar música mais a sério do buscar uma carreira acadêmica.

    No ano anterior, ele havia concluído o ensino médio a duras penas, e não conseguia se ver novamente sentado num banco escolar.

    E era ainda mais desesperador imaginar uma vida nos moldes que seus pais planejavam para ele.

    Isso era o que ele sabia que não queria, muito antes de conceber algum caminho viável para sua vida.

    É claro que havia a opção de mandar tudo às favas, arrumar um emprego, alugar um lugar para morar, e se ainda houver tempo e energia, seguir com a música.

    Ele pensava nisso todos os dias.

    Bueninho não é um instrumentista, não sabe ler música, canta apenas músicas que sua voz pequena permite, e sua banda, formada por mais três jovens com problemas similares aos dele, tinha apenas um single lançado na internet.

    Além disso, largaram-no no interior quando ele ficou bêbado depois do show e acabou sumindo na cidade.

    Então ele foi à geladeira pegar mais uma cerveja e quando virou-se de volta, Zími estava de pé e, quase exaltado falou:

    “A vida tem que começar de verdade em algum momento. É preciso tirar o band-aid. A minha vida já terminou e recomeçou várias vezes pra que eu não cumprisse o que dizia pra minha mãe sobre não passar dos trinta anos. Um dia, quando eu morava numa pensão abandonada, dormia num armário fodido no corredor, eu passei aqui perto, descendo a Brigadeiro Luís Antônio, voltando pra casa, com o saco cheio da vida, cansado da rua e cansado do lugar em que eu morava, e então passei pela praça e havia no centro dela uma tenda armada, e havia um evento religioso. Passei olhando o evento cheio de som e luzes, e do nada, chutei algo sem querer e, simultaneamente, as luzes do culto piscaram e se apagaram. O gerador de luz era a bateria de um carro estacionado na calçada ao redor da praça. Continuei andando, num sentimento que era um mix de vergonha e perplexidade, enquanto cerca de oitenta pessoas olhavam pra mim, também parecendo perplexas. Eu andava e eles olhavam. Virei pra frente, segui o caminho até sair do campo de visão do grupo. Quando já estava numa padaria perto de casa pra usar o wi-fi, acendi um cigarro e não havia ninguém me seguindo. Depois de fumar, entrei na padaria, e havia uma mensagem da Cox me convidando pra tocar bateria num experimento musical caseiro que ela estava tramando. Ela morava na Penha, com a mãe e a avó, estava com o saco cheio e queria se mudar dali. Então nos juntamos pra pagar o aluguel desse apartamento. Tive que fazer um empréstimo, que depois me sugou até o tutano, mas já está quitado. Precisei comprar um computador e outras coisas. Mudamos pra cá, trabalhando em casa e saindo pra tocar. O momento satisfatório que vivo agora custou. Um dia contei a história do chute na tomada pro Falkner, o porteiro daqui do prédio que te anunciou no interfone. Ele disse que certamente aquele episódio libertou pelo menos meia dúzia de ovelhas daquele pastor, mesmo que tantas outras tenham ficado sob o domínio dele. Não chegamos a uma conclusão sobre a relação desse episódio com o fato da minha vida ter mudado a partir de então. Pode ser coincidência também. Mas aconteceu. E você precisa fazer alguma coisa também. Aquele clipe que vocês gravaram pode ter sido decisivo. E hoje é melhor você dormir nesse sofá pra não chegar bêbado em casa. Sei que ainda não está bêbado, mas provavelmente vai ficar, e deve evitar atritos na sua casa. Saia de casa de vez antes que atritos mais sérios surjam.”

    Mila Cox foi até Bueninho, dando-lhe um copo grande de vodka com suco de maracujá.

    Ela falou: “Já que não tem show e estamos aqui, tome esse drink e deixe a cerveja pro café da manhã.”

    As horas se passaram com Bueninho anotando nomes de bandas e ouvindo conversas sobre música alternativa e anarquia.

    Acordou no sofá na manhã seguinte sem se lembrar do momento em que adormeceu. Ninguém mais ali parecia ter dormido.

    Para o terror de Mila Cox, que é vegana, Zími e Silvano fritavam quantidades astronômicas de bacon e continuavam com as bebidas fortes.

    Bueninho foi até a geladeira e as cervejas ainda estavam todas lá.

    Ele quase morreu de tristeza ao recusar as fartas porções de bacon oferecidas por Zími, porque estava apaixonado por Mila Cox e não queria decepcioná-la.

    Inclusive mentiu a ela dizendo que também era vegano.

    Não iria jamais contá-la que estava apaixonado, mas mesmo assim preferiu manter alguma chance, apelando para a questão do veganismo por ter sido a primeira que surgiu.

    Sua autoestima era extraordinariamente baixa, e ele montou uma banda para tentar melhorar essa condição.

    Passou todas aquelas horas longe da tela do celular, e o lado ruim disso, é que iria sofrer opressão ao voltar para casa.

    Começou a pensar em sair de casa e largar a banda para tocar sozinho, com um teclado Casio que compraria usado.

    Arrumaria um emprego tosco, só pelo salário e pela revolta, que seria canalizada através de músicas contra o sistema.

  • Tudo muda

    Um estalo e tudo muda. Bruna saiu de casa muito cedo, para ir ao treino na academia. Não tomou o café da manhã direito. Precisava ir rápido para poder, depois, trabalhar. Muita pressa para uma vida tão curta. E ela que tanto defendia o cuidado com o tempo… Na volta, bateu a moto num carro parado. Distração. Apagamento. Não se sabe. O braço esquerdo firme no guidão aparou o impacto. Saltou da moto de ponta-cabeça. Uma queda abrupta, violenta, que distorceu os sentidos. Ficou estirada no chão. Chorou e gritou de dor. Logo os passantes se juntaram para ajudá-la. Aliás, uns curiosos espiavam, outros perguntavam sobre o ocorrido; e ninguém sabia respostas. Seu marido chegou e tentou acalmá-la, com carinhos no rosto, apavorado com as pernas raladas e o punho da mão esquerda inchado. Ela perguntou, copiosamente chorando, por que ele demorou tanto. “Meu amor, eu não sabia onde você estava. Fiquei tentando localizar, ligando para o escritório em que você trabalha”. A ambulância demorou mais de uma hora. O guarda de trânsito, que tentava aparar o tumulto, disse que era assim mesmo, porque aparentemente não era nada grave. Sol quente, a pino. Um guarda-chuva foi colocado sobre ela, emprestado pelo funcionário da clínica ao lado, para amenizar o sofrimento. O próprio funcionário que ajudou era o dono do carro avariado pela batida. Muito gentil, ficou segurando o guarda-chuva, até a ambulância chegar. Os paramédicos, muito concentrados no seu serviço e atenciosos, constataram uma fratura no punho, preliminarmente. As pernas arranhadas sangravam. Parecia, para quem visse pela primeira vez, que teria fraturado mais partes do corpo. O marido mesmo, quando chegou, teve um susto tremendo, achando que a esposa estava gravemente lesionada – demorou tempo para entender. No hospital, mais muitos minutos, e o atendimento médico ocorreu. Os paramédicos esperaram até o atendimento, era obrigação de ofício. O médico pediu raio-x e ultrassom, pra averiguar em detalhes. Antes de tudo, deveria tomar a medicação para dor. Doía muito, Bruna mal podia mexer o braço, achando até que teria afetado a clavícula. Mais uma hora e conseguiu fazer o bendito raio-x. Constatada a fratura em dois ossos da mão esquerda. A previsão, segundo o médico, era de que teria de fazer cirurgia, que só seria marcada em dois dias. Deveria ficar de repouso extremo no período que antecedesse a cirurgia. Na hora de colocar a tala, o médico teve de puxar a mão para ajustá-la na junta. Gritos e choros estridentes. Quem estava perto se compadeceu. Somente às 17h30min chegou em casa, recebida calorosamente com um beijo e um abraço do filho – que também chorou, com pena da mãe. Tomou banho e depois jantou devagar, para logo dormir e sonhar com sinceras explicações. “Meu Deus, muito obrigada!”, ela falou, antes do sono bom.

  • Poema #01: A Viagem

    A gente corre e esquece
    O tempo aquece, escorre
    Se a vida dança, eu rio
    Se a vida flui, eu sambo

    De lá eu vejo, sinto
    De longe eu peço, e fico
    Da rua, a terra, o transe
    A moita, espreita, um tanto

    Eu tive sede e sonho
    Vivi a luz, a sombra
    Timbrei um brado, um tinto
    Um feixe aceso, o sangue
    Da lua negra, um grito
    Afresco a palo seco
    Memória, o vulto, o vício
    Esqueço, vejo;
    Me desencontro

    Tolice a velha sina
    O ter não quer ser tido
    O lado oposto, o tempo

    Se rompe o véu, um rastro

    Um astro, um sal, um vento
    A pena diz assim levanto
    A vida que se espreita
    Espreme, exprime, espanto

    Domingo eu ligo o rádio
    Disfarço um beijo, encaro
    A rima, um desperdício
    A vida, um ter sem rumo
    O ter, um tempo em branco

    Eu finjo um fato, um feito
    Um tapa, o tom do sério
    Eis a vergonha boba
    Viver é só mistério.

  • Poema #01: Entrelinhas

    Repara a frente do verso.
    Gêmeas, capa e contracapa
    dispensam qualquer remendo.
    Abrem-se livres, pois são
    asas de uma ave vadia
    a desnortear perspectivas
    (no alto, embaixo, início, fim).

    Enumerar as palavras
    no caderno é exercício
    árduo de caligrafia.
    Um sem-número de imagens
    colore o branco entre as linhas,
    promove encontros na rígida
    geometria das paralelas.

    Remexe o varal das letras.
    O movimento preciso

    revela o que antes estava
    camuflado sem disfarce:
    conselhos, consolos, sonhos,
    denúncias…diálogo aberto
    que se guarda a sete chaves.

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