Crônicas

A folha e a pedrinha

No caminho encontrei uma folha e uma pedrinha. A folha havia caído suave ao chão, a pedrinha veio presa ao calçado de alguém e se soltou ficando junto a folha. Nenhuma das duas chegou ali por força de algum planejamento. As duas ficaram juntas como parte de tudo que vem carregado pela corrente aleatória dos fatos da vida. Um acaso só.

A folha e a pedrinha um dia fizeram parte de algo maior. Uma estava na árvore, outra no rochedo. Cada uma em sua origem era forte por fazer parte do todo. Destacadas do conjunto a que pertenciam se tornaram frágeis e hoje estão pelo caminho, imperceptíveis.

Quem as trouxe até ali o fez sem perceber. Não por desprezo mas porque nem tudo na vida é central e importante.

Folhas e pedrinhas fazem parte dos acontecimentos laterais, quase periféricos de nossa existência. A folha poderia ter ido ao olho. A pedrinha poderia ter incomodado a sola do pé. Assim elas teriam deixado a periferia discreta e anônima dos acontecimentos sem importância se tornando integrantes centrais da linha da vida.

Nem que fosse por um instante. Nem que fosse somente para nos aborrecer.

Mas nada disso aconteceu. Olho e pé não foram molestados e a vida seguiu seu curso. 

Folha e pedrinha permanecem ali. Se por um instante elas poderiam ter sido mais do que são, não passou disso, um mero instante.

Por isso não serão lembradas. Efêmeras, se estivessem em uma pintura seriam ínfimos detalhes do quadro geral. Teriam surgido de pinceladas distraídas, feitas pelo artista para completar a composição.

Não merecem a atenção, portanto. Nem qualquer referência de pé de página.

Talvez em outra realidade a folha fosse folhagem frondosa e a pedrinha fosse rochedo. Nesses formatos, elas permaneceriam presentes na nossa vida.

Mas não aconteceu e tudo terminou diferente. Uma folha e uma pedrinha, nada mais.

Do tamanho e peso de muitos problemas. Aparentemente importantes mas quando examinados de perto são insignificantes e periféricos.

E a vida segue, com você junto.

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Fernando Neves

Fernando Neves é carioca, nascido em 24 de setembro de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mora na cidade de São Paulo, continua Tricolor de Coração, é separado duas vezes e tem filhas gêmeas do segundo casamento. Jornalista profissional, desde os tempos no Colégio Pedro II sempre se interessou pelas letras, seja como leitor ávido seja como aprendiz de escritor. O jornalismo abriu a oportunidade de escrever e praticar mas não foi suficiente para seu desejo de escrever cada vez mais. As opções de forma são a mininovela e o conto. O estilo adotado pelo autor compreende um arco que inclui suspense, humor, conspiração e realismo fantástico. Semanalmente ele exercita sua paixão pela crônica e poesia publicando em seu instagram @fernandonevesescritor.

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