Era assim. Durante a semana eu caminhava logo cedo para o colégio Santo Agostinho. Percorria uns quatro quarteirões de onde eu morava na época, no Leblon. Era no século passado, entende, então eu, como todos os demais garotos de 12 anos, levava uma bolsa a tiracolo com livros e cadernos, pendurada em um dos ombros, que àquela hora pesava uma tonelada. Bem diferente de hoje quando só se vê para cima e para baixo malinhas de escola com rodinhas. Ao que parece a tal da ergonomia é invenção recente, desse século. Hoje quando lembro da minha situação indo para o colégio imagino como era possível um menino carregar tanta coisa sem passar o resto do dia reclamando de dores. Vantagem da pouca idade, claro.
Enfim, seguindo. Não lembro bem o mês mas acho que deve ter sido entre o verão e o outono ou de outra maneira entre janeiro e julho. Não, foi entre março e junho tenho certeza. Sabe por que? Porque em janeiro e fevereiro fazia um calor danado, além de parte do tempo ser férias, e na minha memória não lembro de fazer calor. E julho, como hoje, era mês de férias escolares. Bom, acho que deu para entender quando era né?
Retomando. Eu vinha caminhando devagar pela rua General San Martin, inclinado para um dos lados como um navio adernado por conta do peso. Até que um dia eu a vi. Ela era linda, cabelos castanhos claros meio cacheados. Não lembro a cor dos olhos mas a expressão no olhar era muito séria. E muito linda.
Na primeira vez que eu a vi não acreditei. Ela estava em pé, diante da porta de casa, de uniforme escolar esperando acredito o transporte para a escola. Era linda demais. Diminui o passo à medida que me aproximava. Devo ter feito uma expressão de imbecil porque a menina nem me olhou. Não parei, segui adiante porque tinha aula e não podia me atrasar.
A partir daquele dia minhas manhãs de ida à escola mudaram, ficaram mais radiantes e animadas. Tomava café correndo e me jogava na rua em direção a casa dela. Aos poucos fui ajustando meu horário para sempre coincidir com o dela. Com um pouco de sorte no meu esforço de tentativa e erro eu consegui. Sabia exatamente a que horas eu tinha que passar pela rua para vê-la. Isso tinha um lado muito bom e outro nem tanto. Era bom poder ver a bela menina da porta. Era ruim porque não podia ficar muito tempo, tinha aula e chegar atrasado era uma opção inexistente na minha vida.
Na minha memória foram várias as semanas em que eu a via ali paradinha. Honestamente não sei dizer quantas foram as vezes de ficar passando e observando a bela na porta da casa. Sol ou chuva, não importava, eu ia ao encontro da bela menina na porta de casa. Você pode achar estranho mas eu nunca, repito, nunca me dirigi a ela. Era tímido e fechado como uma ostra.
Por isso passei a arquitetar um plano para falar com a bela menina. Escrever um bilhetinho e entregar a ela quando passasse foi a primeira das idéias. Mas esbarrou num problema insolúvel: minha caligrafia. Minha letra era, e ainda é, tão feia que estava mais para escrita hieroglífica do que para algo minimamente legível. Portanto se eu deixasse o bilhetinho ela teria que buscar um especialista no Museu Nacional para decifrar minha mensagem. Fora o vexame que eu passaria por ter uma letra horrorosa. E tinha outro aspecto terrível no plano: o que eu escreveria? Uma saudação? Um cumprimento carinhoso? Um versinho copiado? Nada me parecia adequado. Assim a idéia foi obviamente abandonada.
A solução talvez fosse a mais simples mas ao mesmo tempo hiper difícil para o meu eu daquela época: parar diante dela e conversar. Falar o que? Sobre o que? Provavelmente eu gaguejaria, daria vexame, ela riria da minha incapacidade e eu sairia dali praticamente morto em vida. Na indecisão de minha adolescência, escolhi nada fazer.
Assim eu a via, ela não me dirigia um mísero olhar e eu seguia para o Santo Agostinho transbordando de alegria e fantasiando muito. Qual seria seu nome? Como seria a sua voz? Será que gostava de ler? De ir ao cinema?
Um dia eu me lembro quando me aproximava dela como sempre a menina do nada sorriu na minha direção. Um sorriso lindo, de outro mundo, de orelha a orelha. Parecia iluminar a calçada àquela hora da manhã. Pego de surpresa, parei de olhos arregalados. Engoli o coração que parecia uma batedeira e queria sair pela minha boca. Tomei coragem e quando sorri e as primeiras palavras começaram a sair da minha boca um vulto surgiu e se abraçou nela. Era um garoto mais alto e pelo visto mais velho do que eu, cheio de atitude com sorrisinhos, “bom dia gata”, ela ronronando de volta e…beijo! Os dois estavam se beijando bem ali, na minha frente. O sorriso afinal não era para mim.
Fiquei parado, mortificado. As lágrimas vieram aos meus olhos e corri para longe deles. Nem devem ter me notado. Parei próximo a entrada da escola para me recompor. Enxuguei as lágrimas, jurei nunca mais passar na porta dela e de não me encantar com nenhuma garota bonitinha como ela. São fáceis, fúteis e mentirosas, resmunguei para mim mesmo.
Bom, a segunda parte do juramento eu não cumpri tanto que casei três vezes e uma delas com uma miss Verão Fluminense, o clube tá? Já a primeira parte eu pus em prática na manhã seguinte. Mudei meu caminho e passei a ir para a escola pela avenida Ataulfo de Paiva. Na porta dela nunca mais passaria em frente.
Quando isso aconteceu? Faz as contas, eu tinha 12 anos na época portanto foi há décadas.
E ela? Ah, sei lá. Nunca mais a vi nem soube dela. Lembra, nem sabia como ela se chamava nem nada. De repente casou com aquele bobalhão. Ela também não era assim essa maravilha toda. Se mereciam, afinal.