Contos

O enterrado vivo

Porque hoje é dia de São Sebastião, e estouram foguetes na minha janela, lembrando que é dia de festa, vou falar da sua história, Sebastião Fidélis, que você merece festa.

Ninguém mais fiel que um Sebastião Fidélis, fiel até no nome, fiel à vida e seus caminhos e descaminhos.

Imagino você, velho caipira mineiro de Campo do Meio, velho apesar de apenas 43 anos de idade, de cócoras entre os túmulos, se benzendo, acendendo duas velas, e cuspindo o fumo de lado.

“Sai-te!”, você estaria dizendo. “T’esconjuro, ó Coisa Sem Nome!”, você diria, sem falar o nome da morte, essa aberração da natureza. Que não é próprio da natureza, morrer, acabar. Que ninguém em sã consciência aceita essa idéia obtusa, nem quem não
tem a consciência tão sã como você, Sebastião.

Que nem o nome dessa coisa se deve falar, seria invocar a dita cuja. Ainda mais como é o seu caso, Sebastião, que está de cócoras diante do próprio túmulo, cruz credo, e você se benze e cospe de lado. E já nem cospe o fumo, mas essa ideia mais enrolada que um cipoal.

Você estava andando pelas estradas, cumprindo o destino que Deus lhe deu, que o homem tem pernas é para andar e tem olhos para olhar além dos horizontes, buscando a graça da vida, indo empós de um chamado misterioso, uma graça singular.

Você estava há anos longe de casa, que casa é bom para tartaruga que carrega a dita cuja nas costas. Você andava por esse mundão de Deus…

E não é que chamaram a sua velha para reconhecer o seu cadáver no hospital da cidade vizinha, a cabeça estropiada de um atropelamento, de umas três cirurgias, mais feio e irreconhecível que o diabo?

E não é que a sua velha disse: “É ele!” E lá foi você para baixo da terra. No corpo de outro, na alma de outro, mas foi para baixo da terra.

E não adiantou você reaparecer, pelos braços de um antigo conhecido, dizendo:

“Estou aqui! Sou eu! Não estão vendo?”

Legalmente, você está morto, Sebastião Fidélis. Morto e enterrado.

E é tanta a papelama para desenterrar você, que é mais fácil ficar morto. É mais barato ficar morto, afinal os amigos já pagaram e bem pago o enterro. Enterrado, enterrado esteja.

E você só quer voltar para os caminhos de Deus, para as lonjuras sem fim. E viva a vida!

Para que pagar a burocracia idiota, se o que você mais deseja é viver? Estradas depois de estradas, as paisagens multiplicadas e sempre a mesma beleza renovada.

Viva e viva gloriosamente, Sebastião Fidélis, fiel à vida e aos horizontes por vencer. Sempre há um novo horizonte por vencer para os felizes que podem caminhar sem parar.

***

(Este texto foi escrito num dia 20 de janeiro, por isso a referência a São Sebastião.)

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José Carlos Mendes Brandão

José Carlos Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Mora em Bauru. Em 2025 publicou “Matéria e memória”, que reúne sua poesia de 1975 a 2025, 9 livros publicados, mais 3 inéditos. Publicou também 2 livros de crônicas. Escreveu um romance, que permanece inédito, apesar de ter ganhado o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 2000. Tem uma dezena de contos premiados em concursos e publicados em antologias. Escreveu ainda microcontos.

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