
O amor que Ela nunca quis viver
“Nossa, que cheiro de maconha é esse?”, Mirella quis saber, olhando ao redor. Era denso, encorpado. Alguém queimava forte por ali. “Certamente é aí de cima, tem um cara nesse prédio que pega de jeito”, Marcelo explicou apontando para o alto, para o prédio de apenas três andares que ficava em cima do bar. Mirella não disse nada. Quando o assunto era maconha, não fazia cara de quem gostava nem de quem condenava.
“O pessoal do meu trabalho acha que eu sou maconheiro”, Marcelo riu, incomodado, no entanto. “Pode um negócio desses?”, perguntou, espalmando as mãos para o alto. Mirella ergueu as sobrancelhas; divertida, fez cara de quem concordava. “Quando a gente se conheceu, eu também achava”, ela riu, sem se importar se o assunto o aborrecia. Surpreso, Marcelo olhou para ela, tentando encontrar o que dizer. Seu rosto passou da surpresa à decepção. “Você nunca me disse nada, Mirella…”. Ela sorriu, ia explicar alguma coisa, mas Marcelo entrou na frente. “Por que você achava isso? O que eu faço ou tenho que te leva a crer que fumo maconha?”. Ela, enfim, explicou, já não sorria tanto com a história. “Eu disse que achava, não acho mais. Sei lá o que foi, Marcelo, acho que essas suas roupas, essas camisetas que você usa, esse cabelo que você não corta…”. Uma vez Mirella falou de um ex-namorado. Ia à igreja, achava o celibato necessário. Usava camisa da grife do jacaré, mocassim sem meia e pulseira de ouro. Era um molde em que Marcelo não se encaixava, um rascunho oposto à sua arte final. “Talvez seja difícil pra você estar em um bar como esse e alguém na mesa ao lado olhar e pensar ‘veja aquela moça tão distinta e com aquele fumador de maconha’”. Chateado, ele esticou a camiseta, conferindo a estampa do Barão Vermelho. “Não é isso, Marcelo, e ninguém fala ‘fumador de maconha’”. Espiou em volta, como se por via das dúvidas estivesse checando se alguém os observava.
Uma semana depois, Mirella desliga o celular e fica virando de um lado para o outro da cama, sem conseguir dormir. São quase duas da manhã e os segundos abrem sem pausa seu rasgo repetido na escuridão do quarto. Na insônia, o mais miserável dos ruídos, como o de um relógio, é sempre um imenso sino badalando junto à cama. Duas horas antes, ela telefonou para Marcelo, chamada de vídeo. Ele mandara o link com uma música bem antiga do Roberto Carlos, ainda da época da Jovem Guarda. Triste, muito triste a música. “Nossa, Marcelo…que música triste, triste demais. Tá tudo bem com você?”, perguntou ainda por mensagem de texto. Ele respondeu que “sim, está tudo bem”, estava tranquilo, sozinho e bem consigo mesmo no mesmo bar de sempre, o que ficava embaixo do prédio onde algum morador enfumaçava a noite com um baseado aceso. Chegou a brincar dizendo “hoje o cheiro tá fraco”, e considerou que “Música antiga do Roberto ser triste é redundância”. Foi quando o telefone piscou: vídeochamada e na tela o nome e a foto de Mirella. O bar estava lotado, olhos vidrados na semifinal do campeonato na TV, um tanto de gente falando e fazendo um esporro que só deveria perder pro do estádio. Não atendeu, não haveria qualquer condição de conversa. E foi aí que a noite entrou em desgraça. Quando ia gravar uma mensagem explicando a situação, ela se antecipou, sarcástica: “Por que não atendeu a ligação? Está com as mãos muito ocupadas?”. Mirela o imprensou nas cordas, sem que ele conseguisse devolver os golpes: “Divirta-se com sua companhia”, a frase de Mirella foi curta e grossa, mais grossa do que curta. Apressado, ele retornou a chamada, aprendera a detectar rapidamente a fumaça dos incêndios que a namorada iniciava, e agora ali, no meio do seu sossego e do quinto chope, precisava deixar a paz de lado e acionar sua brigada. Queria que ela visse a situação e comprovasse que estava ali largado, sozinho, pensando nela, mas que não havia condições de conversarem, a conversa entre os dois seria engolida pelo falatório. Em outras palavras, era para que acreditasse que ele falava a verdade. Mas era tarde, Mirella havia desligado o aparelho.
Intempestiva, era moça dada a rompantes. Não raro suspeitava da fidelidade do namorado, e aí, em represália, agia antes de qualquer explicação convincente que pudesse receber. Enquanto a brisa da desconfiança soprasse para o lado dela, nenhuma explicação seria capaz de convencê-la. Naquela noite, mesmo que ineficaz, a forma que Marcelo encontrou para mostrar o porquê de não ter atendido a vídeochamada foi ligar de volta. A raiva subiu-lhe à cabeça quando a primeira chamada se encerrou sem ser atendida. Ligou outras cinco vezes, imaginando como seria bom se o celular desligado de Mirella fizesse o escarcéu dos velhos telefones fixos, que quando tocavam no meio da madrugada assustavam e perturbavam toda a família.
Pagou a conta ao esvaziar a sexta tulipa. Passava de uma da manhã. O bar era na Praça Varnhagem, o mesmo dos já distantes e desbotados anos de juventude. Marcelo morava na Muda. Foi andando, assim queimava a bebedeira incipiente. A caminhada de volta também o ajudaria a não pensar tanto em Mirella e seu comportamento histriônico.
Subiu a General Espírito Santo Cardoso, reta final até a Muda. Passou pela 19ª DP. Lembrou-se do Aldir Blanc. A delegacia era parte do título de um de seus livros. Marcelo não lembrou apenas por causa da delegacia. Lembrou porque logo ali ao lado estava o boteco em que o criador do ‘irmão do Henfil’ pousava sua poesia e sua glória de compositor. A eterna presença de Aldir levou a Marcelo inspiração sobre o que dizer a Mirella ainda àquela hora da madrugada, mesmo que o celular dela estivesse fora do ar. A mensagem lhe veio das entranhas e saiu como se estivesse lhe rasgando o peito. Soltou a voz e abriu a alma do modo que apenas os verdadeiros sabem ser, e o mínimo que disse na mensagem gravada foi “meu amor é eterno”, algo que só se diz voltando a pé para casa de madrugada depois de seis chopes. Quando Mirella acordasse, ouviria. Agora era só esperar o dia amanhecer, o que demoraria, ainda não dera duas horas.
O dia clareou e o sol não trouxe o aviso de que Mirella havia ouvido a mensagem de Marcello. Demorou quase três horas para que surgisse no canto do celular o tracinho avisando que o aparelho havia sido ligado. E a espera aflita durou ainda outras duas horas até que ela respondesse. Quando respondeu, Marcelo achou melhor que não tivesse feito. A nada mais do que um emoji de polegar pra cima foi o que se resumiu a resposta da moça. Mirella achou apenas ok a mensagem de Marcelo abarrotada de declarações derretidas. Isso mesmo: somente ok e mais nada para todo aquele desmanche do coração do sujeito, nada além de uma figurinha imbecil de WhatsApp. Um emoji usado por alguém que confirma o horário de uma reunião de condomínio é o que mereceu sua declaração cheia de dor e desejo de amor eterno.
Não era a primeira vez que Mirella aprontava uma dessas. Marcelo já experimentara os arroubos sem cabimento da namorada, nascidos não do ciúme propriamente dito, mas da engenharia de uma ficção de histórias mirabolantes que ela desenovelava a partir de um fato ou acontecimento que só ela enxergava, que apenas ela via se apresentar a sua frente. Uma noite, novamente no mesmo bar do cheiro de maconha, ele, por descuido, entrou dois ou três passos à frente dela. Inocente da tempestade que estava se formando, sentou-se de frente para o movimento, deixando para Mirela a cadeira de costas para a confusão. Foi suficiente para que ela adquirisse a certeza de que ele engendrara todo aquele movimento – entrar na frente e colocá-la de costas – com o objetivo de que alguém, ou alguéns, no bar, não percebesse que ele estava acompanhado. O que se seguia eram silêncios e distâncias que se alongavam noite adentro. “A vida passando, Mirella, e a gente aqui, desperdiçando esse momento que poderia ser único, mágico”, ele ponderava nessas horas, em um lamento que se sustentava em angústia e na ignorância sobre os motivos que levavam a namorada a ficar calada feito um sepulcro. “Deve haver muita gente aqui para você viver seus momentos únicos e mágicos”, e Mirella espetava o namorado. Ele bebia um gole, sacudia a cabeça. Desanimado, sentia que as atitudes da namorada eram mais fortes do que ele, via-se impotente diante daquelas crises fantasiosas e trabalhosas de contornar, como se estivesse em uma casa escura combatendo um inimigo invisível. “Você deveria escrever ficção, tem uma imaginação fertilíssima”, ele comentou durante uma dessas arengas, dando um riso meio debochado, meio de chateação, quando ela foi ao banheiro num restaurante e ao voltar deu com Marcelo mexendo no celular. “Aproveitou para falar com suas amigas, né? Quer dizer, não sei se são apenas amigas”, e sorria com a raiva a que ele já fora apresentado, aquela disfarçada de escárnio.
“Mirella, vamos viver em paz, quando estamos em paz, nós ficamos tão bem”, e nessas ocasiões de beligerância Marcelo carregava o rosto com ar de súplica contida. Ela o olhava com um jeito de aparente concordância de que a paz era realmente melhor do que a guerra que nascia de situações imaginadas sem propósito. Só que dali a dias, o armistício era suspenso, e o celular que ele viu enquanto ela foi ao banheiro, ou uma mulher que passou e Marcelo displicentemente olhou viravam novamente estopim. Mirella então puxava o pino da granada de uma nova crise.
“O que em mim te irrita, Mirella? O que em mim te desagrada, te incomoda?”, ele alterou a voz, a paciência minando feito parede exposta à infiltração. Começou a ficar nítido para ele que, ao passo que o amava, ela também o repelia por esse algo que a pinicava feito a etiqueta de uma roupa nova, mas que era um algo que ela mesma não conseguia identificar. “O que você acha que você tem que me incomoda?”. “Não sei. Se nem você sabe, como eu vou saber?”. Os dois ficaram em silêncio. Aí Marcelo se virou para dizer, com o semblante pesado de uma tristeza sentida: “Você me fez conhecer vários sabores, entre eles o sabor da injustiça”. Mirela olhou-o calada, parecendo baqueada. Antes de responder, respirou fundo e olhou a tarde pela janela. “Você me tira do sério, Marcelo, me faz dizer coisas que eu nunca disse antes a alguém, você me rouba a paz, Marcelo, a paz que você tanto quer entre a gente”. Pelo tom de voz, a fervura da discussão começara a ceder. Ao menos isso. Sem saber e sem querer saber naquele momento o que de fato ele fazia para tirá-la do sério ou roubar sua paz, Marcelo encheu o coração e disse “Eu te amo”, porque sempre dizia, na paz ou na guerra ele sempre dizia. Mirella o fitava parecendo perdida, como se identificasse finalmente o que sentia, mas não soubesse descrever. Àquele algo que ela sentia não alcançava sua definição. Nutria pelo namorado um não querer querendo. Vinha encontrá-lo, ou ficava a seu lado, com ar de má vontade em determinadas ocasiões, soltando frases e tomando atitudes de quem não queria estar ali, como se quisesse deixar claro que ele nunca era sua primeira opção de companhia, que Marcelo só entrava em cena no caso da impossibilidade da família e das amigas. Só que ao mesmo tempo em que pensava como se seria se estivesse longe dele, achava que, se estivesse distante, logo iria querer voltar para o lado de Marcelo, e aí permanecia, insistia na companhia, e o preço disso, novamente, era regar as sementes de sua fantasia, a fantasia em que Marcelo a traía da hora em que acordava até a hora em que ia dormir. Mirella o amava com embate, com o desassossego dos que desconfiam, com a aflição noturna dos que não conseguem pegar no sono. “Há alguma coisa em mim que te incomoda, que não te deixa sossegar com nosso namoro”, ele repetiu, quando uma das crises parecia contornada. Ficaram um nos olhos do outro durante algum tempo; ele, tentando sacar se de alguma forma acertara seu palpite; ela, continuando a buscar dentro de si algum fundo de verdade no que ele dissera. “Sabe o que eu acho que é?”, Marcelo perguntou. Em silêncio, Mirella perguntava o que era. “Eu sou um amor que você nunca quis viver. Meu cabelo, minhas camisetas…o que eu penso sobre o mundo e sobre a vida são representações de um mundo que você não habita, nunca habitou e não se vê moradora, porque é um mundo diferente do seu, do mundo em que você sempre morou”, ele arriscou, e completou o palpite: “É isso: eu sou um amor que você nunca quis viver”. O assunto dava voltas completas na cabeça de Mirella, mas ela não chegava a nenhuma conclusão. No entanto, se alguém houvesse acompanhado o diálogo, poderia apostar, olhando o semblante silencioso e inseguro da moça, no que o rapaz cravou com assertividade.
Atravessaram o tempo, chegaram a três anos, idade em que um namoro já está maduro. Só que no caso de Mirella e Marcelo, a maturidade não veio com a imunidade às crises circunstanciais paridas a partir das pulgas atrás das orelhas de Mirella. Marcelo sentia-se cansado, cansado dos pés atrás da namorada, da dúvida, do tanto que entregava e em troca não recebia. O amor de Marcelo era um amor cansado, feito um animal que puxa carroças ao longo da vida não recebendo nada além de chicotadas. Chegou a pensar em terminar, dar Adeus a Mirella, que ficasse ela na companhia de sua descrença. Quando tomou a decisão, no entanto, viu-se em dilema igual ao da namorada: percebeu que a vida lá fora, longe de Mirella, seria de um vazio sem preenchimento. Era um amor cansado aquele. Mas indispensável. Tentou, então, uma autocrítica. Afinal, o que ele fazia para jogar sua amada no vale da insônia nas madrugadas em que ela desaparecia do zap? “Mirella, eu te dou razão, reconheço que poderia ter agido melhor”, e enumerou algumas dessas situações, achou que esse era um bom preço a ser pago pela paz, e que tudo ficaria finalmente bem a partir dali. Menos de vinte e quatro horas depois, uma mensagem, uma foto na internet, uma curtida em alguém de biquíni e Mirella lhe jogou na cara seus procedimentos infantis, suas atitudes pueris. Impotente, Marcelo reconheceu fundamento nas acusações, mas suas explicações e desculpas não dobravam a ira de Mirella. Mais do que com raiva, ela dizia-se magoada; pior ainda, desencantada. “Tchau, Marcelo. Eu não quero mais”, e ele sentiu a terra abrir-se sob seus pés, ao mesmo tempo em que a vida perdia o sentido. A vida de Marcelo tinha vários sentidos, mas Mirella era o principal deles, o que dava sentido aos outros sentidos de viver.
Por dias seguidos, mandou mensagens, que morriam na indiferença da namorada, praticamente o mesmo procedimento daquela noite no bar da Praça Varnhagem. A diferença agora é que não era uma noite; eram dias. Até que ela o bloqueou, bloqueou como se faz com os inoportunos números de telemarketing ou com falsários e golpistas de celular. Até que em uma tarde, chegando em casa do serviço, Marcelo reparou dois livros destacados na estante. Milton Hatoum e Gabriel Garcia Marques. Havia também, em uma gaveta abaixo, fotos dele e dela, juntos. Não rasgaria, mas não queria ficar com aquilo. Iria passar adiante a responsabilidade de rasgar, tocar fogo ou deixar no sumidouro de alguma gaveta. Pegou o metrô até o Flamengo.
Quando Marcelo chegou, Mirella passava pela portaria, aérea, cara de quem nem percebe por onde está andando. Quando o viu, um supetão lhe arrancou de onde estava, a jogou de chofre no chão, entre as pilastras do prédio. “Estou indo na padaria”, foi o que, no susto, ela arranjou de dizer cara a cara com o ex-namorado, aquela surpresa fazendo com que ele ficasse ainda maior do que era, e por dentro um sentimento bom e inesperado saudando aquele momento que estava muito além do imprevisto. Embora fosse logicamente possível, Marcelo não contava em dar de cara com Mirella mal pisasse no piso detalhado da portaria antiga. Normalmente ele não estaria ali naquele horário, veio mais cedo do que viria porque foi liberado antes do trabalho. Mirella nunca ia à padaria, quanto mais àquela hora. Podia parecer coincidência, mas deve ter sido mesmo coisa do ordenamento astral. Não se viam desde que terminaram, cinco meses antes. Olharam-se calados após a explicação da padaria. O silêncio era daqueles que torna desnecessárias todas as palavras do vocabulário.
Sentaram-se no banquinho do jardim do prédio. “A sua camiseta do Sex Pistols está lá em cima, e também a coletânea da Lygia Fagundes Telles. Mas pode deixar lá, não está ocupando espaço não”, ela comentou, depois que finalmente destravaram a conversa empacada pelo baque do reencontro. Marcelo nem mostrou as fotos e os livros, ficaram na bolsa de papel em que vieram. Ali mesmo Mirella desbloqueou o número dele.
Marcelo era o amor que Mirella nunca quis viver, mas vivia e iria continuar vivendo, como se teimasse consigo mesma e com seu próprio juízo.























