
Relembrar é resistir!
Estamos passando por dias tensos. Há uma ansiedade pesada no ar e um aperto no peito sobre o que será do nosso país nos próximos dias. O cenário político é incerto, e o mais alarmante é ver como a memória coletiva vacila rápido diante do tempo. Parece que muitos se esqueceram do caos recente – das lições que nos custaram tantas vidas.
No documentário Anatomia do Caos (2025), a cineasta Dandara Ferreira resgata os bastidores da CPI da Covid-19 e expõe uma lente incisiva sobre o que vivemos. Não se tratou apenas de um vírus sem controle, mas de escolhas políticas conscientes. Foi o atraso deliberado na compra de vacinas em meio a dezenas de e-mails ignorados da Pfizer, a insistência no uso de remédios ineficazes, o colapso da falta de oxigênio em Manaus e o deboche direto contra pessoas que morriam sem conseguir respirar. O resultado foi a perda de mais de 700 mil vidas – muitas das quais poderiam ter sido salvas se houvesse responsabilidade no poder público.
E a reflexão urgente que precisamos fazer é: é esse o padrão de futuro que estamos dispostos a aceitar?
Ainda que a probabilidade de uma nova pandemia seja baixa, a forma de governar permanece. Quando olhamos para o herdeiro desse projeto, o senador Flávio Bolsonaro, vemos a continuidade direta dessas diretrizes. Durante a pandemia, ele manteve alinhamento irrestrito à conduta do pai. Hoje, sua plataforma volta a priorizar a entrega de patrimônios públicos e a defesa de pautas como a liberação de terrenos de marinha para a iniciativa privada (a chamada PEC das Praias), o incentivo ao ensino pago via vouchers e a retomada das privatizações e desinvestimentos de setores estratégicos como a Petrobras.
Enquanto os responsáveis pelo passado buscam formas de escapar do julgamento e manter seus privilégios, a conta dessas escolhas é cobrada do povo: no aumento do custo de vida, na fragilização dos serviços públicos e na precarização da dignidade social.
A verdade é que a violência estrutural do Estado e o fantasma do autoritarismo nunca desapareceram em 1985. A ditadura não é apenas um fato encerrado nos livros; ela sobrevive no cotidiano quando não há punição para quem cometeu crimes contra o povo, quando a educação pública é sucateada e quando discursos que atacam direitos fundamentais passam a ser normalizados.
Por que permitimos essa alienação? Porque o capital e o poder econômico ainda ditam as regras e constroem narrativas para nos manter divididos. No entanto, a metáfora da animação Vida de Inseto (1998) permanece exata: eles operam como os gafanhotos, mas o povo é a força das formigas. Isolados, somos vulneráveis; conscientes da nossa força coletiva, mudamos o rumo das coisas.
Não somos massa de manobra. Exigimos dignidade, acesso à comida, à saúde pública e à liberdade plena – não a sobrevivência precária em filas por ossos. Diante desse cenário, a sensação de impotência pode ser sufocante, mas há um instrumento concreto de transformação nas nossas mãos: o voto. Ou nós viramos ou morremos, infelizmente não há um meio termo!
Para quem considera abster-se ou anular a escolha por achar que seu voto não faz diferença: a omissão é exatamente o terreno onde os projetos de retirada de direitos avançam. A disputa é real e envolve a defesa de serviços essenciais contra o seu desmonte.
Se você atravessou a pandemia, se perdeu familiares ou se era jovem demais para compreender as engrenagens políticas daquele período, resgate a memória antes de votar. Nossa existência atual é fruto das lutas de quem nos antecedeu. Honrar essa trajetória é garantir que o futuro pertença a todos, e não a um projeto de poder que despreza a vida.
*Nota do Editor: Em respeito à pluralidade, registramos o contraponto a essas críticas. Defensores da gestão anterior destacam o impacto vital do Auxílio Emergencial e o alcance final da vacinação na pandemia. Economicamente, argumentam que privatizações e iniciativas privadas (como vouchers e a PEC das Praias) reduzem a ineficiência estatal e atraem investimentos.























