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  • jun- 2026 -
    28 junho

    Fantasias

    — O que foi dessa vez, Noêmia? — Sei lá. Não está funcionando. — Você sabe o trabalho que me deu arrumar essa fantasia de bombeiro, né? — Calculo. — E não era isso que você queria? Um bombeiro para apagar seu fogo com uma mangueira enorme? — Então… — Então, o quê? — Mangueira enorme, uma piada… — Sem ironias, Noêmia. — A questão foi que você não ficou bem de bombeiro, meu amor. — Sério isso? Já tentamos piloto de avião, você implicou com o meu quepe; vim d

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  • 27 junho

    A alegria das pequenezas

    — Olha o que eu achei! — O que é isso? — Um mixer, menina! Um mini mixer! E ainda funciona à pilha. Já pensou? Posso levar para qualquer lugar. — Levar? Para onde? — Para onde eu quiser! — Você só pode estar doida. Tanta alegria por causa de um mini mixer? — Ah, e você? Ficou quase uma semana comemorando a caça aos caramujinhos do jardim. — Como assim? — perguntou Ana. — Que duelo de esquisitices é esse? — Foi a Márcia quem começou — disse Tânia. — Veio co

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  • 27 junho

    Qual seu sonho hoje?

    Talvez a melhor maneira de realizar sonhos seja reparti-los em porções diárias. Se sonhar é a realização de desejos, como disse Freud, o pai da psicanálise, até mesmo os que se disfarçam de pesadelos tentam construir novos significados para abrir nossos caminhos. O sonho sempre está noutro lugar, ali onde não estou. Ele está no outro lado da montanha, na caída do sol, no ano seguinte, no tardar da maturidade, no horizonte do ideal e assim nosso imaginário

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  • 27 junho

    Vinte Meia Um

    O ano é 2061, não se esqueça disso. Foram essas as últimas palavras do meu chefe depois de ele ter me explicado todo o projeto. Parece que a solicitação tinha partido lá de cima (ele reforçou a informação com o dedo indicador da mão direita apontado para o alto quando me passou a tarefa). O novo dono da revista cismou que queria uma matéria sobre como estaria o mundo daqui a 35 anos. Bem, eu sou o mais novo da redação (em tempo de casa) e não podia recusar

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  • 26 junho

    Zé das Estrelas

    E o Zé deu de olhar as estrelas. Foi subir no telhado uma vez, e não acabou mais. Tinha descoberto a América. O Zé ficou encantado com as estrelas que ele viu no céu. Como se nunca tivesse visto. E olha que eu vivo com o Zé há quase cinqüenta anos. Ele sempre foi uma pessoa normal. Até que deu de olhar as estrelas. Não dorme mais na cama, o esquisito. “Faz tempo que eu quase não dormia, Cida”, ele diz. E é verdade: ele só dormia de dia. De noite ficava fut

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  • 25 junho

    Um trabalho de verão

    Ele tinha um trabalho a ser feito pelo seu primeiro ano de faculdade de jornalismo. Aliás, o segundo em sua segunda semana de aula. O assunto era: escrever uma história curta sobre algum acontecimento marcante de sua vida, em terceira pessoa. Mal sabia por onde começar, coitado. Viveu tantas coisas em seus 34 anos, mas há muito tempo, apenas lutava pela sua sobrevivência, feito um leão na selva cercado por uma alcateia de hienas. Pensou em escrever sobre u

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  • 25 junho

    O segredo da boa colheita

    Ao entardecer, quando o estranho passou, meu irmão e eu abrimos-lhe o crânio com o grosso ramo de videira que usamos para ocasiões semelhantes. Um único golpe, preciso e sem fúria, nada mais. O chapéu que o estranho usava empoleirado na cabeça rolou alguns metros adiante. Meu irmão o apanhou do barro vermelho e o pôs na sua própria cabeça. Será um ano bom, produtivo e faremos um bom dinheiro — isso foi o que concluímos, meu irmão e eu, apenas com uma troca

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  • 25 junho

    Regulação emocional

    Há um aquário dentro do meu peito. É uma caixa de vidro invisível onde as emoções nadam como peixes de cores e tamanhos diversos. Alguns pequenos e ágeis, prateados como a alegria de uma manhã de sol depois da chuva. Outros são lentos, escuros, quase como enguias que se escondem nas pedras, como a mágoa que insiste em não desgrudar do fundo. Hoje pela manhã, acordei com um peixe-elétrico no aquário. Era a ansiedade, nadando em círculos rápidos, fazendo as

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  • 24 junho

    O entregador

    O café esfriava enquanto eu assistia à saga do entregador, em frente à portaria, tentando descarregar do furgãozinho um pacote grande e pesado. A situação era cômica: ele andava de um lado para o outro, movia a encomenda pra lá e pra cá, e terminava sempre com a mão no queixo, pensativo. Por certo, não tinha carrinho de transporte nem experiência. O porteiro não deixou a guarita e certamente nem pensou em ajudar. Aliás, complicaria um pouco a vida do coita

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  • 24 junho

    Serena

    Serena entrou no meu mundo por acaso – se é que posso acreditar em acaso; não estou tão seguro assim. Eu não pretendia adotar, essa era uma máxima que construía na minha cabeça pelo fato de ter um primo adotado que sofreu com vários transtornos por não o aceitar. Wilson, o nome dele, tentou se matar umas duas vezes, mesmo recebendo o apoio dos meus tios para tudo. Ele era depressivo em grau máximo e bipolar. Mas isso agora não vem ao caso… Voltemos: desde

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  • 24 junho

    Adalberto, O Invejoso

    Dizem por aí que o Sr. Adalberto de Castro venceu na vida. Conforme seu obituário, esse dedicado empresário do setor têxtil aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho. Ainda menino, começou a trabalhar como engraxate. Sem muito tempo para frivolidades, abandonou os estudos e foi tentar a sorte na cidade grande. Apesar dos inúmeros percalços, tornou-se um reverenciado empresário, dono de várias indústrias espalhadas pelo País. Para a opinião pública civiliza

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  • 23 junho

    Desertos

    Os dois esqueletos de um condomínio em construção, voltados para o oeste, acolhem o vento de inverno que rasga as redes de proteção, agora de um laranja desbotado que denuncia o esgotamento de todos os prazos. Assovia por suas entranhas de tijolos cinzentos, cor de sem vida, e ecoa pelos corredores e escadarias e as futuras dependências de 5000 m2 e 800 quartos, o básico de que precisam para viver os que chegarão flutuando sobre tudo e todos, qualquer dia

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  • 22 junho

    Poema #74: ( )

    Suspenso na tardecomo uma lâmpada queimadanum porão deserto,figura o lado esquerdode um parêntesis aberto. Seu estado resultado itinerário de sombrasem que um homem se perdena solidão de seus próprios passos,esquecidos sequer sem deixar uma marca. Sua abertura demonstraa imperiosidade do erroque determina sempreque as flores se abram para cumprirseu papel de beleza e de decomposição. O parêntesis aberto no escuronão é senão a necessidadede se sair do estág

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  • 22 junho

    Poema #03: Magia

    O outono deixa cair seu manto branco sobre as montanhasNada mais é nítido, nada mais é real.Tudo vira sonho .Há magia sob o tecido d’água que misteriosamente pede aconchego.Todos são um. Confundidos, ofuscados. O outono salpica a noite com estrelas tantasO olhar se perde, tudo parece sonho.Há magia sob o céu bordado, que misteriosamente provoca suspiros.Todos são encantados. Confundidos, ofuscados O outono desenha montanhas azul-marinho guardando a cidadeN

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  • 22 junho

    Atonais

    Um frango feliz, estampado numa caixa de nuggets. Era o que Zími pensava sobre quase todas as pessoas que conhecia. E essa imagem bizarra virou uma camiseta usada por sua parceira musical Mila Cox. A sensação de certa segurança e conforto que vivia nesse ano ainda não era familiar o suficiente, A sua paranóia consistia no medo que tinha de voltar às condições precárias em que vivia até o ano anterior. Zími beirava os cinquenta anos, e entendia que atualmen

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  • 21 junho

    A Copa das geladeiras

    Existem fenômenos que a ciência ainda não conseguiu explicar. As pirâmides do Egito. A matéria escura. O motivo pelo qual abrimos a geladeira durante os jogos da Copa do Mundo. O melhor é que todo mundo faz isso. Se você está assistindo a Copa do Mundo com um grupo em sua casa, veja bem se não é assim mesmo. O jogo está empatado, faltam três minutos para acabar, o atacante avança pela direita, o estádio inteiro prende a respiração… e quem está no meio do s

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  • 21 junho

    Voos mais altos que nós mesmos

    O piso são nuvens; entre o céu e a terra, tal qual um dito rodapé, eis o cinturão cintilante que traz a cor das bagagens, no compartimento acima da cabeça e no nível do pé: laranja e amarela. Sigo fotografando estrelas sobre o oceano, a 12km de altitude, alaranjando a escuridão que me faz perceber Avior brilhando perto da ponta da asa metálica que me atravessa a madrugada e tantos tempos. Após turbulências tantas em terra, céu de brigadeiro, enfim. Enquant

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  • 21 junho

    VÂNIA está nua

    Vânia sempre sonhou morar em Santa Teresa. Tinha um monte de amigos por lá. Frequentava os bares da moda, andava de bonde e se admirava com a quantidade de centros culturais e casarões históricos, subindo e descendo pelas ladeiras de paralelepípedos e trilhos. Todos tinham cara de artistas ou se vestiam como artistas. O bairro respirava boemia e contracultura e isso a fascinava. Pontos de artesanato e ateliês em cada esquina. Conseguiu alugar um apartament

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  • 21 junho

    Comédia romântica

    Quando dois olhos se olham de uma maneira inesperada e se encontram e se sabem tão íntimos e tão inteiros, sente-se o fogo que arde sem se ver. Quando dois seres se veem próximos o bastante para dizer e celebrar o momento, vive-se o não contentar-se de contente. Quando duas bocas esperam, ansiosas, o suave toque ou o roçar de leve, percebe-se a dor que desatina sem doer. Quando duas almas dançam a canção imaginária dos amantes e ninguém os vê, e ninguém os

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  • 20 junho

    Na fila

    – (Leitor 1) Tá grande essa fila, hein. – (Leitor 2) Mas vale o sacrifício. Esse tipo de fila eu enfrento com prazer. Não seria muito pior se fosse uma fila de hospital? Ou pra comprar comida racionada? Minha mãe sempre falava que no tempo da guerra… – (Leitor 3, para leitor 2) Você é fã dele há muito tempo? – (Leitor 2) Muito… Eu sempre gostei do pai dele. Quando ele começou a escrever também, resolvi conferir. Foi paixão à primeira vista. E digo mais: el

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  • 19 junho

    O rouxinol

    O tio Argemiro gostava tanto de lendas, que tudo era pretexto para tirar uma do fundo do baú da memória, nem que fosse inventada – que a memória é assim, uma boceta de Pandora que tudo guarda, tudo inventa, tudo cria. Eis que numa tarde linda um beija-flor azul, tchibum!, mergulha de repente nas águas limpas de seus olhos. Não, não era um beija-flor, e não era azul; no remoinho da memória do tio Argemiro, o beija-flor tinha se transformado num rouxinol, co

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  • 19 junho

    Amor

    Movimento I – Primeiros passos. Uma noite, à beira mar em um bar numa cidade no vasto litoral brasileiro… Ele disse: um centavo por seus pensamentos. Ela disse: valem menos do que isso. Ele disse: um verso por seus pensamentos. Ela disse: de quem? Ele disse: meu. Ela disse rindo: passo. Ele disse sorrindo: de um poeta maior. Ela disse: mais alto que você? Ele disse: em estatura poética, um gigante. Ela disse: e quem é esse que você vai em busca? Ele

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  • 18 junho

    Dores inevitáveis

    A casa do senhor Elias cheira a livros velhos, café passado e madeira encerada. Nas paredes, não há quadros retos. Uma estante inclina-se para a esquerda, resultado de uma tentativa fracassada de montagem há quarenta anos. Ele a chama de “minha Torre de Pisa particular”. No centro da sala, sobre uma mesinha manchada de círculos de copo, há um vaso colado com esmero, as rachaduras desenhando mapas dourados pela superfície. Há quem visite Elias e veja apenas

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  • 18 junho

    INSTANTÂNEO

    A velha de lenço preto na cabeça não se incomoda de ficar horas dando voltas na casa feita destroços. Era a sua casa. Tenta reconhecer, sem conseguir, a parede do quarto, onde era o banheiro, a sala em que fazia crochê, a cozinha que, nos fins de tarde, parecia um paraíso com cheiro de comida. Traz num dos braços um cobertor sujo de poeira e nas mãos duas colheres de pau — o que sobrou depois do bombardeio, depois da casa no chão. Ela fala sozinha enquanto

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  • 18 junho

    Malhação 2003

    Leandro gostava de Kátia. Desde a quarta série. Já estava no fim do sexto ano. Leandro nunca teve coragem de cumprimentar Kátia. Kátia achava Leandro bonito. Achava Leandro e mais uns cinco ou seis da sexta série B bonitos. Sem contar as dezenas de garotos que deixavam Kátia com as maçãs do rosto bem firmes, quando passavam por ela sorrindo. Kátia era uma das muitas garotas cobiçadas do colégio. Leandro nunca soube que Kátia o achava bonito. Nem nunca imag

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  • 17 junho

    Sunshine

    Fui surpreendido com a doença do Sunshine. Ele sempre foi tão esperto; um gato para além dos limites. Agitado, inquieto. Veja, já passou três dias fora de casa e apareceu como se não tivesse acontecido nada, magro, arranhado de briga etc. Fez aventuras de todos os tipos, como subir na minha antiga casa e pular de telhado em telhado até desaparecer no horizonte. Sunshine nunca foi um gato “normal”. Desde o primeiro dia que o vi, no grupo da cria da casa da

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  • 16 junho

    INSTANTÂNEOS

    No meio da rua um veio d’água, a luz amarela da madrugada, um homem capengando junto ao muro longo, o som da camisa fina raspando no chapisco de quando em quando. Incertos dias, estes. Em que não somos nem sombra do que pensávamos ser. O sorriso lacônico e de entrega, como se sorri diante da derrota concreta. Um ônibus para o sul, o último da noite. Depois dele, os espaços de silêncio se alongam, ouve-se coisas mínimas, ouve-se dentro, agora que o homem se

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  • 15 junho

    Egocentrismo

    O alarido invade meus ouvidos ofendidos. Quero silêncio. Não tenho. Ainda é manhã e vespertino. Talvez até anoiteça, madrugue. Não sei. O barulho continua. Eu continuo. Queria poder parar os dois. Dormir? Acho que não. A vida me chama. Só a queria um pouco mais silenciosa. Estou sensível! A poeira me incomoda o nariz, a claridade, os olhos, o barulho… Maldito! Quero o silêncio de música escolhida. Quero o silêncio do livro preferido, quero o silêncio

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  • 15 junho

    Poema #73: Valpurgis

    A inquietação daquela noitelevou-me ao extremo de deixar a camaem pleno delírio da febre sem causaque me acometia desde há muito. Nunca em meus transportes noturnos,que eram então muito frequentes,eu havia experimentado essa ânsia de fugaque só se compara à de uma suicida na ponte. Corri como que alucinado fantasmaaté o porão da casa onde a umidadehavia impregnado as paredes de morte,e peguei no baú o espelho quebrado. A chuva era intensa e os relâmpagosco

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  • 15 junho

    Satanásio

    O aluguel do mês estava pago, e quando isso é alcançado, Mila Cox e Zími têm piadas sobre o sonho da casa própria. Faziam piadas sobre como conseguiam pagar contas sendo copywriters, mesmo com a inteligência artificial devastando as oportunidades da área. Eles não tinham esse sonho. As incertezas que eles tinham eram as mesmas do resto da humanidade, nesse momento macabro da história. Zími olhava da janela para ver Satanásio, um vizinho desempregado v

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