Crônicas

Fantasias

— O que foi dessa vez, Noêmia?

— Sei lá. Não está funcionando.

— Você sabe o trabalho que me deu arrumar essa fantasia de bombeiro, né?

— Calculo.

— E não era isso que você queria? Um bombeiro para apagar seu fogo com uma mangueira enorme?

— Então…

— Então, o quê?

— Mangueira enorme, uma piada…

— Sem ironias, Noêmia.

— A questão foi que você não ficou bem de bombeiro, meu amor.

— Sério isso? Já tentamos piloto de avião, você implicou com o meu quepe; vim de médico e você reclamou da falta de um estetoscópio; inventou um salva-vidas e faltou a boia. Agora a mangueira é o problema. Assim não dá.

— Tive uma ideia.

— O que será dessa vez, Noêmia?

— Super-heróis. Sempre tive atração por super-heróis.

— Pronto! Só falta agora me vestir de Batman.

— Não, você está mais para Robin.

— Que tal, He Man?

— Inviável, você não tem a “Força”. Tinha pensado no Homem-Aranha.

— Não acredito!

— Você até se parece um pouco com o ator que faz o Peter Parker.

— Nem sei quem é.

— Começamos a conversar e você já mostra um desânimo danado. É broxante, sabia?

— Você levou em conta, Noêmia, que aquela fantasia de Homem-Aranha deve dar um calor danado? Está fazendo quase 38 graus.

— Ligamos o ar.

— Não vai dar certo.

— Você não disse que faria tudo para me satisfazer?

— Mas não me desidratar.

— Então, o Hulk.

— O da televisão?

— Não, o verde.

— Onde vou arranjar tinta para o corpo? E também vai sujar a nossa cama toda.

— Pensei também no Homem de Ferro, mas acho que não vai combinar com você…

— Por quê?

— Deixa pra lá. Apaga a luz. Vamos dormir.

— Ei, Noêmia, sabe o que pensei? Posso me fantasiar de Wolverine. O que você acha da ideia?

— Você está mais para Professor Xavier, querido.

— Depois não vá reclamar que não quero participar das suas maluquices.

— Wolverine é demais, meu amor. Deita e dorme.

— O que foi agora, Noêmia?

— Pensei na Mulher-Maravilha.

— Fantasias homossexuais a esta altura?

— Por quê, não posso?

— Não vou passar por esse ridículo.

— Bobagem, você ficaria uma graça de maiô com cinto e uma peruca.

— Sem chance…

— E aí, Noêmia, gostou?

— Foi bom. Mas rápido demais.

— Mas você não pediu o The Flash?

— Não era ao pé da letra. A rapidez era só para tirar a minha roupa.

— Sabe de uma coisa, melhor deixarmos pra lá esse negócio de sexo com super-heróis.

— Logo agora que eu tinha pensado no Thor?

— Desisto…

Márcio Paschoal

Marcio Paschoal nasceu no Rio de Janeiro, onde também se formou em Economia. Escritor e redator de longa estrada, construiu uma obra diversa, com mais de dez livros publicados entre romances, crônicas, ensaios e literatura infantil. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas, no Cederj (Centro de Ensino Universitário a Distância), e colaborou com o Jornal do Brasil, escrevendo sobre música e literatura. Entre seus romances estão Sofá branco — menção honrosa no Prêmio Graciliano Ramos e pré-selecionado para o Prêmio Nestlé de Literatura —, além de Odara e Os atalhos de Samanta. No campo do humor, publicou Cada louco com sua mania, ilustrado por Jaguar, e o Horóscopo sexual para praticantes. Também é autor de A morte tem final feliz e do livro de crônicas A maconha está bêbada. Na literatura infantil, escreveu O livro maluco e a caneta sem tinta. É ainda autor das biografias do compositor maranhense João do Vale, da atriz e travesti Rogéria e do romance biográfico João Antônio e os Bee Gees.

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