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  • out- 2026 -
    1 outubro

    Poema #09: para dias cinzentos

    para dias cinzentosé preciso abrir a janela de casapulare sair descalçopelas calçadas encontraralgum mato-vivodo teu passadonas arestas do pasto e as terras vermelhasque agora bordam teus pés(um tanto cansados)um dia também pintou tua face com as mãossemeartuas raízes ao vento e quando partir o soljunto com o sino dos pássarosé hora da retomadafeito meninosujodeixando rastrosde aquarelapor onde passa

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  • set- 2026 -
    30 setembro

    Seu Gentil e sua necessária esperança

    Seu Gentil é um sujeito deveras singular. Desses que a gente admira e, ao mesmo tempo, desaprova. Persistente para alguns; teimoso para outros. Positivo para uns; lunático para tantos. Mas, para todos aqueles que o conhecem razoavelmente bem, uma figura que não passa despercebidamente. Dentre as suas características mais peculiares, o seu redentor otimismo é a que mais incomoda. Chamo sua positividade de “redentora”, pois ela transmite algo verdadeiramente

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  • 30 setembro

    Uma canção no fim da tarde

    Sou dos que ouvem mil vezes a mesma música. E quando engato uma reflexão, impressão ou divagação boba, ouço-a ainda mais para seguir conduzido pela melodia, pelo ritmo, pela letra ou por qualquer outra coisa que mantenha essa sintonia aberta, como se a própria logicidade dos meus pensamentos dependesse única e exclusivamente dela. Fruição estética, transe ou loucura, o nome não importa. A música, sim. Há nem trinta anos, eu sabia de cor a programação compl

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  • 30 setembro

    Deus me livre de uma morte cruel

    Quantos dias me separam do meu fim? É somente uma curiosidade. Não tem nada de trágico no meu pensamento. Quero saber para gozar da vida. Já pensou se eu soubesse? Marta, minha amiga da repartição, recebeu o diagnóstico de seis meses de vida, por causa de um câncer de mama que se alastrou. Foi embora rápido, antes do tempo previsto, depois de fazer uma última viagem a passeio, para Portugal, local que queria muito conhecer, terra de seus antepassados. Robé

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  • 29 setembro

    Nossa Senhora!

    Take second best / Put me to the test / Things on your chest / You need to confess / I will deliver / You know. I’m a forgiver – “Personal Jesus”, Depeche Mode (versão de Johnny Cash) Releio crônicas do autor Ivan Ângelo. Percebo o cronista da primeira metade do século, cuja prosa parece sair de uma conversa natural e observativa sobre os hábitos peculiares do brasileiro. O primeiro texto da coletânea da Global Editora é sobre a controvérsia dentre o

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  • 29 setembro

    O cupins

    Não existe cupim no singular, ou não deveria existir. Como o lápis, o vírus, o correto seria o cupins. Quem discorda deve provar que já viu algum dia um cupim sozinho. Não existe cupim sozinho, ao contrário, eles vivem às dezenas, centenas, milhares. Formam um exército – ou por outra, o cupim é esse exército – monolítico, uno, poderosíssimo e destrutivo como o de Átila, o rei dos também hunos, que por onde passava não deixava cupim, ou melhor,

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  • 28 setembro

    Cinderela

    — O que você achou? — Lindo! Nunca tinha visto igual. — Sério? — Sério! — Por quê? — Não sei… A transparência, talvez. — Você nunca teve um assim?! — Claro que não! Eles são raros. — Raros… — Raros! — Sei que existem diferentes, mas não pensei que fossem raros. — Pois são. — Você só gostou da transparência? — Não. Tem esse brilho intenso, ofuscante… Raro. — Ah! O brilho também é raro? — É. Muito! — Começo a achar que são os seus olhosR

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  • 28 setembro

    Poema #88: Adiamento

    Trago comigo meus poemasque ainda não foram escritos,simplesmente porque não se fizerame nem se recolheram à sua impossibilidade.E vou deixando-os, portanto, para o diaseguinte, para a manhã seguinte, paraa vida seguinte que não haverá.Areia (À Fragmentação da Pedra)

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  • 27 setembro

    Quando o algoritmo falha

    Dizem que, com duas ou três perguntas certas, dá para entender quase qualquer pessoa.   E se bastasse uma? Numa conversa dessas que começam em qualquer assunto e terminam em nenhum, alguém lançou a pergunta: — Você é mais gato ou cachorro? A mesa se dividiu rápido. Teve quem respondeu sem pensar, quase ofendido com a dúvida. Teve quem hesitou, como se estivesse prestes a revelar um traço de caráter. Achei curioso. Porque, no fundo, ninguém ali falou de bic

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  • 27 setembro

    Crônica de fim de tarde de uma Segunda, Terça ou Quarta-feira

    A esperança é uma droga alucinógena. Tal frase causou impacto repentino, travando o movimento corriqueiro do dedo sobre a tela brilhante. “Era isso, muito provavelmente”. Não tinha experiência anterior com drogas, não sabia que a esperança poderia ser vista assim: alucinógena. E era. Era o que ela pressupunha a partir do que sentia: esperava ventos na direção oposta, um misto de fé na natureza e também nas cartas do tarô da esposa do seu Ercíli

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  • 27 setembro

    Luzia e o dia a dia

    Passa das onze e o casal se prepara para dormir. Ele, já na cama, lê o jornal. Ela entra no banheiro da suíte. Ele sempre lia o jornal antes de dormir e ela tomava seu banho. O segundo do dia; o primeiro era ao acordar. Ele acaba de ler e ela ainda no banho. — Luzia, não demora, quero dormir. Ela, no chuveiro, não escuta. A água morna batendo na cabeça, por cima da toca de banho e ela pensando na vida. Mais especificamente no seu casamento. Completariam se

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  • 27 setembro

    Quando usou a inteligência artificial

    Tudo começou com uma consulta simples. Pediu uma informação banal! Um nome. Depois, uma pesquisa sobre um país, sua bandeira, seus habitantes… E assim foram outras pesquisas: comida, roupas, música… Pedia informações sobre quase tudo. Não tinha mais o trabalho de pensar! Pensar? Dá muito trabalho! Pra que pensar? E assim pedia, para todas as atividades do seu dia, uma ideia, uma orientação, uma resposta! Vai chover hoje? Que roupa combina com e

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  • 26 setembro

    “Coisa teimosa”

    O falo é uma coisa teimosa! Esse valente que desaba de um desfiladeiro de significados, exigindo da sua plateia coro, palmas e repetição. Com um sorriso maroto no canto de lábios cascudos, como um menino perverso que tem pavor da castração, arranca o véu na sua cena infantil. O falo é uma coisa teimosa! Na sua lógica de ter ou não ter, expõe a sua fragilidade. Na demanda desenfreada de amor, exibe envergonhado, o excesso de desamparo. Com pavor do desconhe

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  • 26 setembro

    NA CHUVA

    Marcelo – marido de PatríciaAlice – 8 anos, filha de Patrícia e MarceloPatrícia – psicóloga, trabalha numa delegaciaJuvenal Cruz do Espírito Santo – pedófiloAnselmo – delegadoRosa – tia de PatríciaIone – mãe de uma das vítimas Reunião com amigas da faculdade. Quinze anos de formatura. Na saída, começa a chover. Tempestade. Esqueci a chave de casa. Reviro a bolsa. Não tá. Ensopada na varanda. Esqueci o guarda-chuva. Frio. Vento gelado assobiando. Marcelo, a

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  • 26 setembro

    Livros

    — A senhora gosta de ler? — Muito. Leio desde menina. — Que bom! Alonguei o olhar, curiosa para descobrir o que ela lia. Talvez pela aparência de vovó das antigas, meus pensamentos fizeram o caminho mais curto: imaginei uma Bíblia. De capa dura, páginas de papel quase transparentes, letras miudinhas, paginação discreta. Um livro que claramente , eu entendi de formato impróprio para olhos já cansados. Enganei-me. Era um livro. E não desses atuais, modernos.

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  • 26 setembro

    HAPPY END

    Filmes com finais felizes, além de nos inundar a alma com uma sensação boa, fazem-nos acreditar que existe uma lógica subjacente à ordem das coisas, na qual a bondade sempre prevalece e os ruins serão punidos. Tais enredos, salpicados de tragédias transitórias, sofrem invariavelmente reviravoltas, até que o glorioso desfecho traga paz a nosso coração. Depois de duas horas de angústia cinematográfica, o alívio compensa a amargura. Podemos, então, dormir o s

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  • 25 setembro

    Um corpo que cai

    A Cida foi encontrada boiando no rio Pardo, a cabeça cortada, mal grudada no corpo. Tinha exigido do namorado Zé que largasse a mulher e fosse morar com ela. O danado só mandava esperar, mas ela estava cansada de ser enrolada. Ou deixasse a mulher duma vez, e os dois filhos, ou não ia mais querer saber dele. Pior, e tinha mostrado os braços fortes, de melhor cortadeira de cana da cidade. O Zé não era de ter medo, mas estava com o facão de cortar cana na mã

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  • 25 setembro

    O nome dele é Cookie

    O nome dele é Cookie. Abri a porta e ele entrou puxando uma das minhas filhas. É um cachorro vira-lata. Mas com todas as vacinas, banho tomado e bem cheiroso, assim me asseguraram. Pus meu nariz longe do seu pêlo curto sem qualquer vontade de tirar a prova se ele é mesmo esse modelo de asseio. Sou alérgico a pelo de cachorro, gato, cavalo, anta, leão, vaca e por aí afora. Meu nariz entope, tusso como se fosse cuspir os pulmões, o ar me foge e meus olhos la

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  • 24 setembro

    Bloqueio criativo

    O escritor senta na frente do computador disposto a renovar o romance como gênero literário. Quer fazer algo inovador, ainda não identificado, de difícil classificação. A tela pisca. O escritor pensa em estratégias variadas e fuma um cigarro enquanto pensa em qual delas adotar. Contar a história ao contrário, como já fizeram no cinema, quando todo mundo saiu da sala com cara de paisagem. Ou utilizar vozes narrativas alternadas: a primeira pessoa em alguns

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  • 24 setembro

    Horas depois

    Todo dia, que já é diferente dos demais, pego meu caderno de rascunhos, uma caneta que não arranha o papel, e desço para escrever no banco da praça. Como faziam os poetas antigos, aqueles que tinham o privilégio do tédio e da contemplação, com bem mais competência que eu. Perco mais tempo para escolher a camisa e a calça para sair do que para escrever. Porque quando estamos em frente ao espelho, inicia um embate na busca do contentamento. É a falta de paz

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  • 23 setembro

    A sorte está lançada

    Em tempos de inteligência artificial, nada mais parece escapar dos famigerados algoritmos. Se curto um post aleatório ou compro um hambúrguer, se sofro de enxaqueca ou pego um empréstimo… Pouco importa! Meus dados estão aí, prontos para serem coletados, armazenados e monetizados. Se eles retratam nossos comportamentos, que tal surrupiar nossas identidades e torná-las rentáveis? Fico horas a fio navegando pelas redes sociais. São tantos os meus perfis

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  • 23 setembro

    Bobeiras

    Faz tempo que falo com Renata sobre a situação do Marcelo. O menino está impossível. Não cumpre regras. Não respeita as professoras. Renata me diz que ele é somente um menino “normal”, saudável e brincalhão. “São coisas da idade, meu bem, não há nada de errado”. Como não? Na semana passada, no dia de banho de piscina na escola, o Marcelo, por puro impulso, furou a piscina inflável. O diretor veio falar comigo, que ele simplesmente, do nada, sem confusão al

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  • 22 setembro

    O Filósofo da Vila Kennedy

    Duas moças vestidas de recepcionista chegam e pegam a mesa que fica bem na porta do bar do Taiguara. Sentando-se ali, talvez queiram, não posso dizer, conferir quem entra e quem sai. Pedem uma cerveja e dois copos. É fim de tarde de uma sexta-feira, é fim de expediente, todo mundo ali precisa despressurizar. Trocam meia dúzia de palavras, se tanto, e antes que o garçom traga o pedido, mergulham no mundo paralelo dos celulares. Com os olhos agarrados às tel

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  • 21 setembro

    F5

    — E se o sapatinho não couber? — Como assim? Não é seu? — É. — Então? — O meu pé mudou. — Mudou? — Não sou mais a mesma. — Hã. — Meus pés às vezes incham. — rsrs — E o vestido? Você pode usar o vestido! — Será?1q — Claro! — ihh! Engordei… — A tiara! Use a tiara! — Tem um problema. De lá pra cá, meus cabelos diminuíram… Não vai ficar legal. — Caramba! — O que eu faço? — Não sei. Não tem mais nada igual? — Igual? — Igual ao que você era naquele t

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  • 21 setembro

    A Bergamoteira

    Era a estação do frio, do vento e das chuvas no ano de 2024. Dona Clair já morava havia algum tempo num residencial para idosos na cidade de Tramandaí. Ela era uma senhora jovial, na casa dos oitenta anos e gozava de uma saúde invejável para sua idade. Uma mulher muito disposta, sempre pronta para auxiliar os amigos nas mais diversas tarefas, das mais simples até as mais complexas. Por sua excelente capacidade física, tinha como costume trabalhar no jardim

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  • 21 setembro

    Poema #87: Acrobata

    um pessegueiro roxobraços em formas de garrasdedos intumescidospernas retesadas. quando estamos dormindotudo parece fácil:pé fora da camae acrobacia de quedas. Da Essencialidade da Água

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  • 20 setembro

    Com qual “provante” ficar?

    Eu me apaixonei por um sapato. Na verdade, por dois; ainda não sei com qual deles ficar. De um lado, um exemplar — par só depois de escolhido; antes disso, convenhamos, é pretendente. Honestamente, nem isso; ficante tampouco: apenas um provante — atrevidamente decidido: em pelo preto, bolinhas brancas disformes, salto alto e grosso, ponta quadrada vermelha. Vermelha mesmo. A irregularidade do branco ainda ensaia alguma compostura, categoricamente desmentid

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  • 20 setembro

    Sugando Ana Paula

    Ana Paula nunca teve sorte no amor. Abusada na infância diversas vezes por um primo, calou-se sobre o ocorrido. Seu primeiro namorado era gay e ela demorou a descobrir. Achou que o problema era dela. Depois ficou noiva de um piloto de helicóptero que viajava muito e quase não ficava com ela. O noivado se arrastou com promessas de casamento. Um dia recebeu do noivo uma carta terminando tudo. Custou a se recuperar. Na faculdade conheceu um professor e se apa

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  • 20 setembro

    O menino que escrevia versos

    O menino e a palavra eram amigos desde sempre. Inseparáveis como as horas e o tempo. Sensação, coração e pensamento. A palavra era a bola, a rasteira, a corrida, as travessuras… A palavra era o rosto, as descobertas, as noites escuras. O menino escrevia a vida e as suas cores em palavras pequenas, palavras grandes, palavras muitas ou palavras poucas. Cidades eruas. A palavra se fazia chuva, sol, mar e vento, beijo e estrada, sonho, abraço, sentido, t

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  • 20 setembro

    PVD

    Sonhei com um caderninho brochura.Capa marrom.Letras pretas em relevo na capa.P V D.Logo me vi de uniforme escolar, mordendo um pouco o lábio inferior.Estava perdida. Melhor nem ir ao catecismo. Se era PVD por que não decorei?Era essa a pergunta que a Madre superiora iria me fazer. Acordei rindo, apesar das gotinhas que brotaram na minha testa.Aí me veio a ideia: e se existisse um PVD para a vida adulta? Tipo:✔ PVD. Se você emprestar um livro de que gosta

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