Autores
-
ago- 2026 -19 agosto
Um aniversário diferentemente especial
Algumas pessoas não costumam dar muita importância a datas comemorativas. Conheço pessoas que parecem fazer questão de esquecer até o dia de seu aniversário. Datas que marcam o dia de uma profissão, de um santo padroeiro, de um clube de futebol, de um município e de uma batalha vencida. São tantas as datas a serem lembradas, que se torna difícil até mesmo ao mais organizado dos mortais saber o que será comemorado nesta ou na próxima semana. Mas, para mim,
Leia mais » -
17 agosto
Poema #82: A mim ensinou-me tudo
“… e a monotonia da vida será para mimcomo a recordação dos amoresque me não foram advindos,ou dos triunfos que não haveriamde ser meus”Fernando Pessoa O pouco que sei,sei de o não saber,mas só o de sentire nunca poder alcançar. Tudo passou por mimcomo as águas de enchente,mas vi tudo fluir e o vaziode nada reter nas mãos. Se escrevo é só uma fórmulade sonhar possibilidadesenormes, como se fossempassos de uma criança deitada. O Jardim Simultâneo
Leia mais » -
16 agosto
Mortos, vivos, morcegos e frutas | pausa (in)disponível
Uma mesa impossível: um tampo que não é firme (minha cama); três cadeiras – eu, que me sento com as pernas esticadas e sobrepostas. Uma única taça de vidro (a que comprei no mercado, porque na minha casa de areia temporal em quase formato pirâmide não tinha nenhuma) com o vinho (o que dividi há duas semanas, hoje esvaziado com outros – é preciso beber do mesmo lugar, a cama). De maneira quase indecente, Hilda Hilst e Victor Heringer se juntam a mim nesse m
Leia mais » -
16 agosto
Poema #19: Presente
O presente vivido é quase o infinito…o presente amado a eternidade incompleta.Ridícula a angústia, o cansaço tolhido,começo de caminho, meia-volta discreta… Ansiedade é pequena eternidade no presente,pedras e esforço inútil, chamado repetitivo.Tormento, fingimento, ser em estar ausente.Velho e novo, refundidos, abertos num livro… Os grãos de areia podem ser incontáveis,mas o mar recolhe um a um, a toda hora.O resto são espumas, simples brincadeira… Do temp
Leia mais » -
16 agosto
As tentativas de WALDINEIDE
A primeira vez que tentou se matar, tinha dezoito anos. Entrou no mar de São Conrado e nadou até cansar e perder as forças. Foi resgatada pelo helicóptero dos bombeiros. Aos salva-vidas, envergonhada, não revelou a tentativa malfadada de suicídio. Ironicamente, ainda agradeceu por ter sido salva. Waldineide amaldiçoava o pai pelo nome recebido. Seu Waldir era porteiro de um prédio na Barra da Tijuca. Ele, a mulher, Neide, e a filha moravam num barraco na R
Leia mais » -
16 agosto
A Vida em Bullet Points
Dizem que “a fila anda”. Talvez ande nos relacionamentos. Já na minha lista de tarefas, ela parece ter criado raízes. Ela nos persegue pelo celular, mandando alertas sonoros de tudo o que ainda não foi completado. Para quem prefere o caderninho, nem isso resolve: as tarefas não riscadas ficam ali, silenciosas, aguardando o momento de despertar a culpa. Tenho a impressão de que as listas de tarefas se reproduzem durante a madrugada. Vou dormir c
Leia mais » -
15 agosto
INSTINTO
Toquei a campainha e aguardei cerca de dois minutos até que viessem atender. A longa espera aumentou meu nervosismo. Sim, num caso desses, dois minutos constituem de fato uma longa espera. Desculpando-se pela demora, Augusto abriu a porta. Eu poderia ter interfonado antes de subir, mas, depois de refletir por alguns instantes, decidi que a atitude mais acertada seria aparecer sem avisar. Melhor que ele ouvisse o que eu tinha a lhe dizer com o espírito desa
Leia mais » -
14 agosto
O MORRO
No centro da cidade ergue-se um estranho morro. Verde e coberto de flores o ano inteiro, lar de pássaros e vários animais, mas estranho: ninguém o escalou até hoje. Contam os antigos que muitos tentaram, mas nenhum retornou; redobraram as tentativas, a subida não oferecia perigo algum; julgou-se que eles haviam se perdido, mas onde? Não se conseguiu saber por que não regressavam. Contra todas as recomendações, João e Manuel resolveram subir o morro. Fui co
Leia mais » -
13 agosto
Coisas duráveis
Há uma pergunta que atravessa os séculos sem nunca envelhecer: se tudo passa, o que nos resta pensar, e porque valorizar o que temos e vivemos hoje? Os gregos chamavam esse fluxo ininterrupto de panta rhei (tudo flui) e Heráclito o personificou no rio onde jamais nos banhamos duas vezes na mesma água. A efemeridade não é apenas uma característica acidental da existência, ela é a própria textura. Talvez o primeiro espanto filosófico diante da brevidade das
Leia mais » -
13 agosto
A vida em compasso de espera
Minha avó Penélope perdeu o marido na guerra. Isso é o que ela costumava dizer, embora algumas vizinhas, maledicentes que só, digam que ele saiu por aí a viajar pelo mundo sem pensar em voltar para casa. Não se falava muito sobre isso na família. A verdade é que quase não conversávamos sobre nada. Nos contentávamos em ouvir. Um homem deixou casa e família e não deu mais notícias: para nós, essa informação era suficiente, bastava. Quem perde maridos ou pais
Leia mais » -
13 agosto
Poema #08: o velho tênis nos fios elétricos
só Deus & o Diabosabemo quanto eu caminheiaté chegaraquinesse fim de mundo.hojejogueimeus velhos & gastospassosno altodos fios elétricos. acendi uma luz no fim do beco.
Leia mais » -
12 agosto
Sala de estar
A sala de estar da casa da minha avó era o ponto de encontro da família aos sábados. Chegávamos cedo, no começo da tarde, e saímos de madrugada. Era uma festança danada. Os mais velhos sentavam-se e contavam piadas e lorotas, enquanto jogavam cartas e tomavam cerveja, fumando – de quebra, também, inundando a sala de fumaça (naquela época era assim; até cheguei a tomar uns goles de cerveja, dados por meu pai, sem cerimônia). Esporadicamente, a reunião se es
Leia mais » -
12 agosto
A Vida Privada e o Transporte Público
Há bastante tempo, penso em falar sobre um hábito que se tem mostrado cada vez mais comum entre nós, brasileiros. Minhas numerosas procrastinações e desistências ocorreram menos por causa da complexidade do costume do que pela virtual controvérsia que ele carrega em si. Haja vista o uso generalizado de tal prática, suponho que poderei ferir certos egos e criar algumas animosidades. Mas assumo que quem vive de dar pitacos pretensamente sociológicos deve enc
Leia mais » -
11 agosto
O último ônibus para o Rio
Encostado ao trailer, pedi a última cerveja. Proença disse que para ele estava bom. Pagou sua parte. “O ônibus é às nove. Tu tá ligado, né?”, me lembrou, já saindo e me dando as costas, percebendo que eu ficaria por ali ainda um pouco mais. Fiz que sim com um gesto rápido de cabeça para o lembrete do horário do ônibus. Passavam das sete da noite. Ainda havia um resquício violeta de luz do dia no horizonte, sumindo no mar naquele anoitecer de domingo de qua
Leia mais » -
11 agosto
A quem você deve seu mérito
No Brasil, o discurso da meritocracia ainda encontra solo fértil. Acredita-se, com quase cega devoção, que o topo da montanha foi conquistado a passos individuais – fruto exclusivo do talento, da disciplina e das noites mal dormidas. O discurso é sedutor, embora ignore uma pergunta que possa soar incômoda: quando você chegou lá, quem segurava a escada? Por trás de cada trajetória de sucesso, há uma estrutura invisível operando nos bastidores. Independente
Leia mais » -
10 agosto
Caixinha de música
— O que você faz aí? — Não está vendo? — Estou, mas por que aí? — Você não sabe? — Não! — O meu criador disse: “Vá e enfeite o mundo!” — Então você é um enfeite. — Sim. — Pra quem? — Pra todo mundo. — Mas não os vejo. — Quem? — Todo mundo. — Porque você me trouxe pra cá. — Então agora você é meu enfeite? — Sim. — Desça daí. — Para quê? — Vou mostrá-la a todo mundo. — Não entendi. Você não me trouxe pra você? — Eu te trouxe para ser. — Ser o quê
Leia mais » -
10 agosto
Poema #81: A lua escura
“se soletra L-U-A” sabe,há um momentoem que a luafica escura. é quando,a escuridão maiorvinda dos montescobre a Rua Fácil. e tudo,vira um só quadronegro, uma lousafria que antecedea morte. Da Essencialidade da Água
Leia mais » -
10 agosto
Poema #10: Liturgia do instante
Lento, tudo está lento…Vejo meus passos firmes, passos soltosE já não sei mais o que solto, pelo que passoSe quando firmo, não me atento. Doce, tudo está salvo.Tampouco o hoje é, sorte.Se é veneno um tanto, e quanto ao não que houve?E quando o há? Sabemos? Se o quanto ouço, ou vejoFizer mera semelhança ao sentido…Se por falar em sentir, se exaltar-lhe o tatoFor, ainda assim, coisa-fato… não me remeto ao senso de ser simples isto. Existo. Voo.Plaino sobre a
Leia mais » -
9 agosto
Em Bocas de MATILDE
Quando pequena, Matilde surpreendia a todos com sua estranha mania de engolir objetos. Chupetas, partes de brinquedos de borracha, bicos de mamadeira. Na escola impressionava colegas, engolindo canetas e lapiseiras. Era um dom. Todos diziam que no futuro ela trabalharia no circo como engolidora de espadas. A mãe culpava o pai por ter levado a menina no circo. Agora, essa novidade, engolidora de espadas… Matilde não vinha de uma família circense e nunca tev
Leia mais » -
9 agosto
Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira?
Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira? Há passos no eco, pisos empoeirados da semana passada, taciturnos. Há o Cachambi, que dorme, às três e dezessete da manhã, já dezoito. Há o streaming para quem, como eu, de tão cansada, não dorme. Há um filme pandêmico, dor humana, tristeza, perda do olfato. Num streaming — todo o meu amor aos streamings que nos fazem companhia junto a uma Hocus Pocus de 500ml, 8.5% de teor alcoól
Leia mais » -
9 agosto
Essa vai para a coleção
Meu armário abriga uma coleção curiosa: caixas vazias, sacolas elegantes e potes de vidro sem função definida. Em comum, todos carregam a mesma etiqueta imaginária: “Pode ser útil um dia.” Tenho uma verdadeira compulsão por colecionar inutilidades que considero superimportante guardar. Vai que surge um presente de última hora. Vai que resolvo organizar a papelada. Vai que abro uma loja de embalagens recicladas. Vai que descubro um talento ocult
Leia mais » -
9 agosto
Poema #18: O menino e o pássaro
O pequeno menino olha demoradamente o céu.O voo de um pássaro branco…excitado,leve, branco, branco e leve: um estalo.Alvas penas de um delírio todo seu. Corpo sem brilho é beijo de encontro à terra,um desespero brusco de última chance.Molhado pelo sangue o passeio se encerra…dentre tantos pássaros, quem quer, que cante. Asas se abrem e contorcem no mesmo instante.Tudo é ferida, escuridão, lágrimas e repeteo menino a dor do pássaro agonizante… Chora compuls
Leia mais » -
8 agosto
Dia dos Pais
Um dia em que se homenageiam os meninos que se tornam homens e, um belo dia, se descobrem pais. Descobrem-se pais e não há nenhuma alteração fisiológica! Não sentem o seio intumescer segundos antes de o bebê chorar. Não têm um corpo que lhes avise, de maneira tão evidente, que chegou a hora de alimentar a cria. Não amamentam, não experimentam as mesmas transformações físicas da gestação e do nascimento. As mães contam com uma espécie de alarde da natureza.
Leia mais » -
8 agosto
Dois projéteis e um amor feito em pedaços
(Domingo de manhã, quarto de Sofia) O rádio havia ficado ligado a noite toda. Naquele momento, ia ao ar um debate sobre a epidemia letal que tinha começado havia mais de um ano. Infelizmente, diziam os cientistas, o fim do tormento não era esperado para breve. Uma nova variante do vírus, muito mais transmissível, havia surgido no Marrocos, perto da fronteira com a Espanha. Sofia escancarou a janela e deu de cara com uma nuvem acinzentada e espessa. Aquele
Leia mais » -
8 agosto
A Papiloscopista
Papilo o quê? Expectorei na tosse esta pergunta para minha filha Violeta, liberando as vias áreas de um agente irritante. Nunca entendi o seu sonho de ser uma papiloscopista. Quando meninas sonhavam em ser princesas, a minha desejava ser papiloscopista. Hoje fico aliviada dela não ter brincado de cadáveres ao invés de bonecas. Quando ela me falou pela primeira vez da profissão tão sonhada, confesso que não entendi. Naquela manhã ensolarada, ela desembuchou
Leia mais » -
7 agosto
Um gato chamado Bartolomeu
Não, eu não vou arrumar um gato. Nem em sonho. Mas uma das minhas filhas sim. Quer dizer, essa é a intenção dela. Essa semana ela me procurou com essa conversa. Veio com aquele papinho sinuoso, típico de adolescente que quer algo. Se seria possível, quando ela se tornasse mais responsável, ter um gato. Ela tem 14 anos e tem um quarto só dela onde deixa uma bagunça razoavelmente organizada. Com as coisas da escola é bem responsável, não deixa nenhuma tarefa
Leia mais » -
7 agosto
Traídos
Chamava-se Marisa, era casada e não desgostava dessa condição. O que lhe era mais caro na vida, porém, era o seu sentimento de liberdade. Costumava comentar com Nébia, a amiga íntima: “Sempre fiz tudo, ou quase tudo, que quis”. A amiga contestava: “Tudo, não. Ninguém pode fazer tudo. E você é uma mulher casada”. Marisa reconhecia: “Claro, claro, sempre respeitei Eustáquio”. A outra: “E não está fazendo nenhum favor. Eustáquio é um homem corretíssimo. Além
Leia mais » -
7 agosto
No dia seguinte
O Zé balançou a cabeça, recostou-se no sofá, acariciando os cabelos, a cara, as orelhas, o nariz. Quando chegou no nariz, ele acordou. Olhou a Cida do lado, sardentinha, de olhos claros. Eram mais de três horas da tarde, e ele dormindo. Um gosto de cabo de guarda-chuva na boca! A Cida falava que tudo bem, ele ficou meio alegre ontem à noite, mas quem é que não ficou? Todo mundo achou o Zé engraçado, só o Boi que ficou meio contrariado. O Boi é assim, é só
Leia mais » -
6 agosto
Preservação da dignidade
Em 20 de dezembro de 1943, o bombardeiro americano B-17 “Ye Olde Pub”, severamente danificado, pilotado por Charlie Brown, de apenas 21 anos, retornava de uma missão sobre a cidade de Bremen, na Alemanha. A aeronave tinha dois motores destruídos, sistemas avariados, vários tripulantes feridos e um artilheiro morto. Voando como um “straggler” (retardatário), isolado de sua formação, o bombardeiro era um alvo fácil. Em um determinado
Leia mais » -
6 agosto
DEIXA ESTAR
— Por que você apareceu aqui no meu sonho, se o que eu quero agora é sonhar com minha mãe? — perguntei, achando graça na presença dele no meu sonho. — É impossível escolher com o que sonhar — respondeu Paul, sentando-se na beirada da cama. — Bom, imagino que seja porque ontem eu passei o dia lendo um livro que conta a história de sua mãe e daquela música. Então este sonho de agora é um reflexo do que vivi durante o dia. De acordo? Paul fez um movimento com
Leia mais »





























