Autores
-
jul- 2026 -23 julho
O trapezista
No ponto mais alto do andaime lateral, aonde chegou depois de subir 42 degraus com ar de vitória e vestindo a calça apertada de malha branca, o trapezista faz uma reverência ao público, que aplaude mais por medo do que por entusiasmo, com a emoção presa na garganta. “É muito alto, ele não vai conseguir”, sussurravam os espectadores, a boca seca de tanta aflição. Era o número final do espetáculo, o mais aguardado, o fecho perfeito para uma noite de encantam
Leia mais » -
22 julho
A Subversão de um Insone
Desde criança, Armando sente verdadeiro fascínio pelas noites. Segundo ele, é de noite que sua mente consegue trabalhar mais eficaz e diligentemente. Independentemente da estação do ano e do lugar onde se encontra, noites quentes, frias, chuvosas e estreladas sempre despertam em seu interior o gozo pela vida e a curiosidade pelo desconhecido. Mais do que uma contemplação serena do universo e de seus mistérios, Armando embarca em excitantes e intermináveis
Leia mais » -
22 julho
Expectar
A cadeira vazia é sinal de luto, a falta do desejo. Morreu muita coisa em mim desde que Maroca se foi. Só tínhamos a nós mesmos, porque nossa família se dispersou, e nossos parentes moram distante, em outro Estado – é uma história longa, mas vou resumir: passei num concurso para um bom cargo no DNOCS; nessa época, namorava com Maroca, e, para assumir o meu posto, logo tive de me mudar e me casar com a mulher da minha vida. Lembro, repetidamente, dos bons t
Leia mais » -
20 julho
Poema #78: Chuva Noturna
A chuva no asfaltoleva papéis/cigarrose o vômito de ontem.Amanhã novos resíduosvirão para preenchero vazio do meio-fio.Areia (À Fragmentação da Pedra)
Leia mais » -
20 julho
Tule preto
Ela se trancou no quarto, triste que estava. Fechou atrás de si a porta. Aos poucos criou para si um mundo à parte. Mas o sol teimava em entrar pelas frestas da janela todas as manhãs. Fechou as janelas. Teceu com esmero um vestido longo e preto, de modo que seu corpo não mais se mostrasse. Lá fora, o tempo encarregava-se de transformar a vida. O vento sempre trazia mudanças. Dentro, tons sobre tons cuidadosamente escolhidos: todos escuros. Rosas de
Leia mais » -
19 julho
Escaneie para comer
Fui almoçar com uma amiga. O garçom chegou sorridente, apontou um adesivo colado na mesa e disse: — O cardápio está no QR Code. Ela suspirou, sacou o celular da bolsa e começou a procurar o ícone da câmera. Fez uma cara de quem acabara de perder o apetite. — Esqueci os óculos de leitura em casa. Esses cardápios parecem bula de antibiótico. — Que saudade de um cardápio de papel. Bastava levantar os olhos. — Esse peixe é bom? — O risoto serve duas pessoas? —
Leia mais » -
19 julho
Margarida à janela
A vida adulta não nos prepara para o entusiasmo. Em essência, a adultez deveria nos expandir; acrescentar novos cômodos à casa que temos por dentro para que aprendêssemos idiomas inéditos do corpo e da alma, em vez de interromper indefinidamente as nossas formas de sentir. Margarida, que tem nome de flor, sempre foi na direção oposta: cresceu para polinizar. Sentia-se inebriada por novos amanheceres, novos livros, novas promessas, novos começos. Novos rost
Leia mais » -
19 julho
A nora de REBECA
Quando completou 65 anos, Rebeca deu uma festa em casa e chamou o filho, a nora e os netos. Morando sozinha, não podia se dar ao luxo de extravagâncias na cozinha, então encomendou salgadinhos e um bolo de chocolate com nozes, que o filho amava. Pediu que não chegassem tarde por causa das crianças. Ela também queria dormir cedo. Depois da novela das oito, que começava nove e meia, normalmente era a hora em que o sono chegava. Tinha recusado o convite do fi
Leia mais » -
19 julho
Somos Latino-Americanos
Somos latino-americanos! De sangue quente e Sol! Brasil, Bolívia, Peru… Um céu lindo de azul! Somos latino-americanos! De marcas antigas coloniais, línguas americanas, línguas ancestrais. Somos latino-americanos, de rostos e cores particulares, singulares, mas, ao mesmo tempo, diversos: índios, negros e brancos! E somos muitos! E Somos tantos! Somos todos José Arcádio Buendia, formando Macondos em vários lugares! Em sonhos e em outras realidades! México,
Leia mais » -
18 julho
Era só uma brincadeira
Cara, na moral, foi só uma zoação. Olha o tamanho da confusão que armaram pra cima da gente, mano! Não dá pra entender esse povo fazendo essa zoeira toda. Dá um tempo! Parece que nunca tiveram 14 anos. Era só para tirar um sarro da tia na sala de aula, meu. Essa chata que vive querendo enfiar um monte de caretice na cabeça da gente, uns papos de cidadania, respeito, sociedade, essas coisas. Uns troços nada a ver, que não dão futuro, não rolam grana, não dã
Leia mais » -
18 julho
O último dia
O dia ainda não havia amanhecido quando o rádio anunciou neve no mês de novembro pela primeira vez no Brasil. Naquela mesma noite, por volta das 7 e 30, Fubá apareceu sozinho e inquieto, ostentando uma ferida no dorso. Amália logo pensou no mau pressentimento sofrido pela manhã. Sentiu-se culpada, achou que deveria ter tentado me impedir. Denise e Isabel ainda dormiam. Me levantei às 6, tomei banho, comi uma banana e um pedaço de pão, me servi do café prep
Leia mais » -
18 julho
Quem falou?
Há palavras e frases que, de tanto serem repetidas, acabam se esvaziando. Ou talvez já nasçam assim: sem sustentação. Uma delas sempre me intriga. — Descansou. Não falo do descanso de um fim de semana, do fim do expediente ou das férias. Falo daquele outro. Morreu? Coitado… descansou. Morreu e descansou. Sempre me pergunto: quem decidiu isso? Quem garante que aquela pessoa estava cansada? Talvez ainda tivesse planos, uma viagem marcada, um livro aberto sob
Leia mais » -
17 julho
Conversas picadas por aí
Passo por uma mulher que fala ao telefone sobre alguém que lhe foi desagradável mas não escuto o motivo da reclamação. A voz dela fica na minha cabeça e imagino o que teria acontecido. E mais, se de fato ela tem razão em se sentir assim ou apenas recebeu de volta o que deu à outra. Não dá tempo de seguir adiante na elucubração porque a voz de um rapaz invade meus pensamentos e na hora sou levado a prestar atenção no seu drama universitário que ele expõe a
Leia mais » -
17 julho
O tio perdido
Encontraram o tio Pedro perdido na estrada, perto da cidade vizinha. Estava velhinho, meio caduco; as pernas trôpegas, mal se aguentava em pé; ninguém entendia como tinha chegado até ali, arrastando na poeira da estrada os chinelinhos gastos. Morava com a Maria, no asilo; não porque fosse um asilado: Maria era a filha; ela e o marido trabalhavam no asilo; moravam numa casinha bem na entrada. – Por que, pai? – ela perguntou, sabendo que ele não saberia resp
Leia mais » -
16 julho
O Tempo Dobrado na Gaveta
Tenho visitado a geriatria onde mamãe está passando uma temporada. A sala de visitas tem cheiro de álcool gel e saudade. As poltronas são de plástico lavável, cor de abóbora, uma delas é laranja, que tenta ser alegre mas não engana ninguém. Ali, todo final de semana os filhos se revezam na cadeira ao lado de outros idosos acamados. Dona Alzira, a vizinha de quarto de minha mãe, já não pergunta que dia é hoje. Perdeu a conta do tempo, lá pelo segundo ano de
Leia mais » -
16 julho
As folhas mortas caídas no chão
Construí minha casa sob a copa generosa da maior árvore do terreno, bem junto ao tronco. Saboreei por antecipação a sombra refrescante que teria nos dias de calor e isso me deu grande alegria. Nivelei o chão, ergui as paredes, pintei tudo de branco. Estava muito bonita a minha casa, mas desde que me mudei não faço outra coisa a não ser varrer as folhas secas do assoalho. Esta é a lembrança mais antiga que tenho a partir do momento em que passei a habitar l
Leia mais » -
15 julho
A arte de não se levar a sério
Poucas são as pessoas que realmente sabem como não se levarem a sério. Infelizmente, não faço parte desse privilegiado grupo. Mas posso afirmar que esses seres iluminados costumam ter uma expectativa de vida mais longeva que os demais mortais, com menos cortisol e mais endorfina. Em outras palavras, menos estresse e mais alegria. A bem da verdade, para não ficar apenas em elucubrações pseudocientíficas e melhor sustentar minha tese, usarei o exemplo de um
Leia mais » -
15 julho
Menino São
Ricardinho viajou para a China e vai ficar, pelo menos, uns seis meses lá. Foi a estudo. Ele é um menino que gosta de se atualizar, para atender melhor os seus pacientes, com técnicas modernas. É médico, e faz cirurgia de mão, sua especialidade. Disse a mim e à sua mãe que vai trabalhar/estudar no melhor centro de pesquisa do mundo, no que diz respeito à tecnologia e à medicina. Ele sempre teve uma inclinação para cuidar de gente. Quando menino, fazia “mas
Leia mais » -
14 julho
Um dia qualquer na Cidade
Quanto mais ando, mais penso que há um mistério na existência das cidades, a maneira como tudo se funde nos entremeios desse emaranhado humano, um caso de estudo de como o caos aparentemente inevitável se transmuta em algum tipo de desastre organizado, em que tudo se encaixa e se desagrega ao mesmo tempo num moto contínuo, envolto por alguma energia invisível que nos conecta uns aos outros sem que percebamos, como as partículas solares que nos trespassam o
Leia mais » -
13 julho
Poema #09: Exercício para um ausente
Falemos da esperança.Sim, da velha andançaDa chuvosa lembrançaOnde te sondavas. Vamos, falemos em novidade.Digamos que vai tudo indo, sim.Lá fora, diga que, ao todo, te aquietasFora tempo de espera. E te lembravas. Este, foi-se?Não soubera.Tentaste um rumo, fostes sem manualSem estradas, fostes sem-terra. Pois que era um domingo.E que já não lhe haveria numa segundaPara mais saudade.Talvez na quarta. Ai, quem me dera! Esqueça, pois que já vens tarde.Tens u
Leia mais » -
13 julho
Poema #77: A Aranha e o Sonho
Havia uma aranha lá foraque tecia sua redea despeito da chuvae do desânimo dos homens. Era uma aranhaque tecia a sua rede fora do mundo,e eu miseravelmente preso a eleperdia-me em conjeturas sobre o amore sobre um livro que acabara de ler. O Acaso das Manhãs
Leia mais » -
13 julho
Sujeito homem
— Tu é sujeito homem? A frase saiu como um soco. Mais agressiva até. Os dois envolvidos na discussão eram homens, não havia dúvidas, mas a pergunta era mais profunda: vinha para mexer com os brios. Para trazer à tona fraquezas ou revelar coragens. Seu corpo, um tanto menino, não acompanhava o tamanho da sua integridade. Não revelava quão grande era aquele ser juvenil. Suas razões, explicadas de modo atrapalhado, eram contundentes. Dispensavam eloquência e
Leia mais » -
12 julho
Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?
Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!Para que a pressa?se preciso, eu, mais que vitaminas,do alimento para o viço que… reflete-me,[interna] e inteiramente?Que eu possa deleitar-me com o calor azulda caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio Eis-me inteira,num instante errante,naufragada no suor denão pertencer.Cá estou. Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro. Bate-me o peito em um não positivo. Eis me aqui. Intacta. Tempo, tempo…por q
Leia mais » -
12 julho
MUSICALIDADES
Nascera com o dom para a música. Precoce, Marília, com quatro anos já se aproximava do piano, como um beija-flor às flores. Uma profunda atração que deixava a todos impressionados. Com seus dois polegares tirava das teclas um som inédito. Futuras canções. A família, claro, providenciou uma professora. Aos seis, já arriscava o começo de algumas canções. Mas era mesmo no “cai cai, balão” que se realizava. Também esboçava, com o indicador, um “parabéns pra vo
Leia mais » -
12 julho
De Diva de Cinema à Madame Mim na Flórida
Sempre admirei o glamour dos cabelos ao vento. Grace Kelly, Audrey Hepburn, Tippi Hedren… todas sabiam, como ninguém, enrolar as madeixas em um lenço de seda, solto o bastante para deixar escapar charme e liberdade. As cenas de Ladrão de Casaca, Charade e The Birds me provocavam sonhos de princesa: eu, num conversível, óculos escuros, lenço estampado e vestido decotado, enquanto uma brisa perfumada acariciava meu rosto. Eis que a vida me presenteia com a c
Leia mais » -
11 julho
GRITO DE GOL
Um grito de gol não sai de uma superfície plano inclinada: a garganta. Ele irrompe de um outro lugar. Vem do fundo , sinuoso e labiríntico. Vem da pátria, seja verde e amarela, rubro-negra, tricolor… Pulsional, berra com a força e velocidade maiores que da própria bola, que estremece a rede, transferindo sua energia cinética para as suas malhas, resvalando no peito e retumbando nas batidas do coração do tocedor. Nos traçados da bola, que dribla num tempo l
Leia mais » -
11 julho
Historias antigas…
Nossa avó morava com a gente. Aliás, morava é modo de dizer. Ela fazia parte da casa. Era como a mesa da cozinha, o quintal, o cheiro do café e aquele relógio escurecido na parede da cozinha, com o antigo passarinho saindo sem pedir licença, para dizer: cuco-cuco. Era a nossa melhor amiga. Minha, da Laura, dos maiores, dos pequenos, dos primos que apareciam, dos vizinhos e até do cachorro, que, se pudesse escolher, dormia só aos pés dela. Todo dia ch
Leia mais » -
11 julho
UM DIA DE VERÃO
Eunice saiu da rede e se instalou na cadeira de palha da varanda. Cruzou as pernas e substituiu os óculos de leitura por outros com lentes escuras. Pôs de lado o livro sobre questões ligadas aos direitos das pessoas com deficiência que vinha lendo nos últimos dias e contemplou o panorama à sua frente. Sorveu dois goles de suco de limão gelado, pousando em seguida o copo sobre a mesinha de centro. Retocou o batom discreto com o auxílio de um espelhinho. Pro
Leia mais » -
10 julho
O VÔ ZÉ
Quando o vô Zé estava para morrer, pediu para sair de casa. Fraquinho, não parava em pé, mas quis por força sair no pomar. – Eu quero abraçar as minhas árvores – disse. Mal balbuciava as palavras, mas insistia: – Eu plantei essas árvores. Vi crescer que nem minhas filhas. Eu quero abraçar minhas filhas pela última vez. Tive que carregá-lo nos braços. Não aguentou abraçar mais que três árvores. Fez questão de abraçar a mangueira de manga-espada, no centro d
Leia mais » -
10 julho
E O BRASIL FOI EMBORA
É… Perdemos o jogo… E o Brasil foi embora! Foi-se embora a copa e o sonho… Mas qual sonho? Não saímos da copa no jogo contra a Noruega! Tínhamos saído bem antes, quando perdemos de 7x 1 para a Alemanha. Quando quase ficamos fora do torneio com uma péssima campanha nas eliminatórias. Não temos mais um futebol ofensivo e vistoso. O futebol brasileiro não contagia mais! O futebol brasileiro não empolga! Foi-se há muito tempo o que chamávamos de futebol brasil
Leia mais »





























