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out- 2026 -11 outubro
Árvores Vermelhas (um exercício de escrita)
Árvores vermelhas, de um vermelho vivo, intenso, de doer os olhos de tão forte. Uma alameda de pedras rosadas e gastas, fileiras de árvores (uma à direita, outra à esquerda). Não sei o porquê me veio à mente a palavra morte. Me Assustei de início. Olhei para um lado e algumas pessoas notaram meu sobressalto. Não dei atenção. A cor vermelha das árvores produzia em mim uma sensação estranha, ora uma calmaria desmedida, ora uma intranquilidade…não sei.
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11 outubro
Vamos Barbarizar!
Me virei na cama. Entre o sono e o sonho: Queria só beber. Girei. Bebê que sorria. Contei as letras. Nenhuma sobrava. Nenhuma faltava. Foi então que percebi: naquela noite, eu era um caleidoscópio. Meu poder não era criar palavras, mas embaralhá-las. As letras continuavam todas ali. Só mudavam de lugar. E, com isso, mudava tudo. No mundo dos sonhos, fui contratado como revisor de um jornal. Entrei na redação disposto a revolucionar o ofício. Adeus, manchet
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10 outubro
Outubro
Mês em que faço aniversário… Há o que festejar? Sempre há! E, quanto mais escadas eu subo, mais claramente enxergo o que realmente merece uma festa. Minha família, minha saúde, meus amigos, meus bichinhos de estimação, minhas plantas e as palavras. Ah, as palavras! São um presente precioso e merecem ser lembradas em todas as ocasiões. Quais palavras?, alguém perguntará. As minhas, as suas, as dos outros, as novas, as antigas, as que ainda não foram e
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10 outubro
Carolina
Eu quero que você saiba que ainda não decidi se vou mesmo fazer. Não sei se quero levar essa coisa adiante, se preciso mesmo. Claro, sou ansiosa, mas acho que todo mundo é um pouco hoje em dia. É, depressão também. Levantar da cama às vezes é tão difícil… Esse mundo tá um caos. Depois que a pandemia acabou, acho que ficou até pior. Sabe, me assusta um pouco a ideia de ter de dividir com alguém meus segredos, meus pensamentos mais íntimos. Eu sou atri
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9 outubro
Ah, o desencanto
Vinicius de Moraes dizia que a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. É, tem lá sua razão. Mas eu vou adiante umas casas no tabuleiro e adapto o que ele disse: a vida é a arte do encanto embora haja tanto desencanto pela vida. Encantar é uma arte. Exige muita atenção, percepção e disposição. Precisa de muitas doses de criatividade e jogo de cintura. Afinal, encantar alguém é envolver a pessoa em uma dança quase ritual de enlevo
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9 outubro
Lendas
Pouca coisa é mais estimulante que a alegria de uma criança no início de suas férias. A expectativa desperta a imaginação que permanecia adormecida dentro das paredes da realidade. As coisas se tornam pessoas e objetos que não são tornam-se coisas. Os sonhos tocam a matéria que, por sua vez, devolve em cores e movimentos. Mas como a tese não se torna síntese sozinha, ainda há uma antítese (que não torna a experiência menos interessante, pelo contrário). As
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9 outubro
A vaca atropelada
O carro do professor foi guinchado até ao Plantão Policial de Franca para registrar um boletim de ocorrência de acidente na estrada. Sobre o porta-malas, com as patas para cima, uma vaca morta. O que é isso, professor? Uma vaca em cima do carro? E com as pernas para cima? Que desconfortável! Mas está rindo do quê? Ah, já passou o susto! E que susto, hein?! Ele voltava de Franca para São Joaquim da Barra, quando viu três vacas no meio da estrada. Desviou da
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8 outubro
A infância bateu na porta
No domingo de manhã, enquanto eu lia no computador, percebi que a rua onde moro estava mais agitada do que o normal. Parei de escrever e fui ver o que era. Cheguei à rua e fiquei abismado: tanta gente andando de carrinhos de rolimã. A vizinhança toda. A rua, que foi fechada só para isso, ficou cheia de gente com velhos, crianças, marido e mulher, homem quarentão. Todo mundo com seu carrinho. Estava tão bom que resolvi deixar a leitura para outro dia. Quand
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8 outubro
Próprio esquecimento
Comecei a perceber isso no meio de uma terça-feira qualquer. Eu estava no ponto de ônibus quando vi uma senhora, muito idosa, com um carrinho de feira cheio de sacolas, e de repente minha garganta apertou. O sentimento ficou ali por uns segundos, igual um espirro que não veio. Depois passou. Quanto mais vivo, mais me convenço de que sou um mau conhecedor do meu próprio terreno. Meus sentimentos chegam sem bater, falam uma língua que não aprendi direito, e
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8 outubro
A revolução dos livros
Os livros começaram a se infiltrar de novo. Fazem isso de madrugada, quando os sonhos se confundem com a realidade. Eram discretos antes, descarados agora. Hoje apareceram três ao lado do espelho do banheiro. Perdi a conta dos que se amontoaram sob a minha cama. Um livro velho sobre cidades fantasmas é particularmente teimoso. Achei que não gostava dos seus vizinhos de estante, então o coloquei sozinho na mesinha de cabeceira. Acordei com ele em cima do me
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7 outubro
Um pequeno elogio à mentira
Muitas são as facetas do comportamento humano que atraem os mais bisbilhoteiros como eu. Estudiosos dos mais diversos campos dedicam horas a fio para compreender as incríveis nuances de atitudes consideradas desviantes do padrão moralmente desejável. Seja por uma perspectiva sociológica, seja por uma abordagem psicológica, os desvios comportamentais são sempre vistos como uma transgressão de regras socialmente criadas. O que é visto como “normal” não apena
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7 outubro
Deus do Tempo
Já parou e sentiu a sensação de que o tempo está passando depressa? Acordamos, fazemos nossas tarefas e, logo que nos damos conta, acabou. Parece que o dia não tem mais vinte e quatro horas, a semana, sete dias. Às vezes me pergunto: será que o tempo realmente está passando rápido demais ou eu que estou muito acelerado? Um dia desses chorava para não ficar na escola, ficava irritado com a hipótese de levantar da cama, tomar um banho gelado, colocar o farda
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7 outubro
A liturgia do indizível
Há dias em que acordo acreditando que ainda caminho em direção a mim. Em outros, compreendo que não existe caminho algum. Existe apenas o intervalo entre um pensamento e outro, onde a escrita resolve acontecer. Não escrevo porque sei. Escrevo porque desconheço. O cigarro, quase sempre, anuncia esse instante. A fumaça sobe como se soubesse o percurso que eu jamais consegui aprender. Enquanto ela desaparece, alguma palavra decide permanecer. Há um ritual nis
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7 outubro
Emoção fora de hora
Nara sacudiu a minha cabeça, de novo. Ela tem o poder de me bagunçar. Sabendo que sou autista e não me dou bem com o imprevisto, deveria me preservar. Na última semana, ela tomou sozinha uma decisão importante: disse que ia comprar um husky siberiano. Moramos num apartamento de aproximadamente 110m². Ela brinca com a minha paciência e com a minha sanidade. Passei noites em claro pensando em como demovê-la de tal decisão. Veja só, já temos três gatos. Para
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6 outubro
Derreta em nome de Deus, infeliz
Bem que na hora em que abri a boca pra falar, alguma coisa me cutucou por trás, como se dissesse em meus ouvidos: “Não fala nada não, fica calado”. Mas não me contive quando vi o homem gordo vendendo saco de lixo e pano de chão ao meio-dia, o sol de trinta e oito à sombra estalando no crânio do sujeito e sendo rebatido ainda pior do que era pelo asfalto em uma esquina da Edgard Romero, ali naquele ponto de Madureira, onde, dizem, começou o aquecimento glob
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5 outubro
Domingos
Lembro-me de um tempo em que as pessoas aproveitavam a tarde de domingo para fazer visitas umas às outras. Era comum que minha mãe fizesse um bolo e o deixasse reservado para as tais visitas, que podiam ser de amigos, parentes ou comadres e compadres. Muita conversa e café com bolo. A televisão ficava ligada no Silvio Santos, os adultos torcendo pelo número do seu carnê do Baú da Felicidade, enquanto nós, crianças, sonhávamos com os presentes do “Boa Noite
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5 outubro
Vovô
Quem não teve um avô ou uma avó não sabe da alegria de conviver com alguém que olha para você com ternura e carinho, de um jeito diferente de pai e mãe. Meu avô paterno eu não conheci. Ele havia falecido quando eu tinha pouco mais de um ano de idade. O avô materno se chamava Sabino Muniz Fagundes. Nascido e criado na fronteira entre Brasil e Uruguai, era um sujeito pitoresco. Gostava de chimarrão, churrasco e uma boa leitura. Já aposentado, seu passatempo
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5 outubro
Poema #89: Alcunhas
o poeta dos acasoso poeta das manhãso poeta das areiaso poeta da fragmentaçãoo poeta das pedraso poeta dos inventárioso poeta das sombraso poeta sentinelao poeta em fugao poeta das ausênciaso poeta das escadasque deságuamdentro de si mesmoo poeta dos silêncioso poeta dos jardinso poeta das simultaneidadesele, às vezes, planta árvores. O Jardim Simultâneo
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4 outubro
Por via das dúvidas
Cândida precisava cortar o cabelo.O problema era: quando?Lua Crescente, para o cabelo crescer mais rápido.Lua Cheia, para ganhar volume.Lua Minguante, para cuidar da saúde dos fios. Entrou em crise.Não podia simplesmente cortar o cabelo. Era preciso escolher a lua certa. Foi então que se lembrou de mais uma coisa.A tinta.Queria mudar a cor.Lua Nova. Pronto. Agora só faltava descobrir em qual fase da Lua deveria viver.Finalmente escolheu o dia e saiu para o
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4 outubro
Frango à milanesa
Assim resumo meu começo torto, na última sexta-feira como cidadã “cachambianse” — e que se retire solenemente quem, dada a época do ano e o gentílico recém-proclamado, aguardar daqui em diante jogos de palavras tendenciosos à política do botão verde de CONFIRMA. Não me demoro nessa competição de temporada que, de tanto disputar digitais alheias, fere o sentido amplo de seu propósito; aqui, a politicagem é outra… distribui santinhos da experiência de
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4 outubro
Uma vida normal
Valéria gosta de Cat Stevens e Johnny Rivers, de ir ao cinema e de bife mal passado pingando sangue. Escondida de todos, costuma colocar açúcar no chão e vai esmagando as formigas que apareciam, uma a uma. Também se diverte arrancando folhas das árvores, plantas dos vasos, cortando com tesoura rabo de lagartixas e atirando pedra nos pombos. Valéria parece ter um comportamento estranho. Uma de suas maiores alegrias é a infelicidade alheia. Gosta de apontar
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4 outubro
Uma amiga
Esta semana perdi uma amiga, uma daquelas que não passam despercebidas na multidão e por isso nos mostram aspectos da vida que não enxergamos sozinhos. Escrevo sobre ela para aliviar o luto porque, mesmo sabendo que ao longo da vida todos sofremos perdas, nunca estamos preparados para elas, ainda que anunciadas. Às vezes acho que a vida não passa de um jogo de soma zero: quem nos traz mais alegria é também quem nos traz mais tristeza ao partir. Multifaceta
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4 outubro
Língua
Língua breve, toda clara, toda escura,Aos poucos caminha, para, continuae entre o areal, a bruma, a leve chuvaa face se mostra, inquieta e muda. Língua instante – objeto nada – rara, poucaPara, continua, para… tonta e loucaEnsaia um grito, uma palavra, outra,A voz se insinua, miúda e rouca. No entanto, nas contradições do descaminho,Faz-se a língua na própria línguaFaz-se o verso em todo o canto. O poeta, imagem irreal, o instinto,Busca a palavra, su
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3 outubro
Clara
Aos 10 anos, Clara produziu o primeiro poema. A garota nunca se comportou como as outras de sua idade. Desde muito cedo, admirava as flores do jardim e os pequenos insetos que lá viviam. Contemplava os pássaros do bosque e conversava com eles, banhava-se de sol e de lua e regalava-se com o brilho das estrelas. Colecionava conchas e passava horas observando os movimentos delicados dos peixes no aquário. E os textos iam se avolumando numa pasta de cartolina
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3 outubro
O banquete do fim do mundo
Um encontro histórico em Washington colocou frente a frente os mandatários das duas maiores potências mundiais, EUA e China. Toda a pompa em torno dessa reunião de titãs sugeria que o evento seria um divisor de águas para a humanidade, abrindo caminho para a esperança de um futuro de entendimento e harmonia. A refinada decoração do ambiente que abrigava os dois homens mais poderosos do planeta combinava louças de prata com arranjos florais predominantement
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2 outubro
Ah, o charme
Acho que não me expliquei direito. Não é que eu seja contra a beleza ou a considere efêmera. Mas só acho que ela não é fundamental. Tudo bem, eu sei que esse meu comentário faria o Vinicius de Moraes sair da tumba para puxar meu pé. Mas a vida tem dessas coisas e não expresso minha opinião levianamente. Sim, você não disse que eu faço isso, eu sei. Claro, vou esclarecer meu ponto de vista e se bobear você vai concordar comigo. Vamos lá. Considere assim, a
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2 outubro
O expresso Oriente
Dizem que japonês bebe muito, mas eu não imaginava que fosse tanto. Dizem que bebe, fuma e se suicida muito. O fumo não é problema; fuma quem quer, e japonês fuma uns cigarros pequenininhos, intragáveis, uns estoura-peitos de matar, que eu já provei, no tempo em que chafurdava nesse vício. O suicídio é um grande problema, mas podemos suavizar, dourar a pílula, dizendo que quem se suicida enjoou de viver, e, portanto, um enjoado a menos. Agora, a bebida é u
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1 outubro
Embriagada
Em uma segunda-feira caótica, me deparei com um cenário incomum: estava eu, no balcão de um bar, pedindo uma taça de vinho. Reparei que, ao meu lado, estava um homem. Aparentava ter a minha idade, tinha o rosto ingênuo e bebia um drink. O início da conversa foi inevitável. Meu dia tinha sido tão difícil que conversar sobre qualquer banalidade era melhor do que nada. Depois de algumas taças, a conversa não queria ser terminada, e aquele homem, que agora já
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1 outubro
Sorôco, sua Mãe, sua Filha
Nossa responsabilidade social e familiar, se mostra exigente sempre que respiramos, porque muitos aguardam a presença amorosa e atenciosa, junto a seus lamentos e fraquezas mundanas. Esse pensamento tão próprio de um significado profundo de amor a vida, é também voltado àquele que amamos, e que está bem ao nosso lado, e se enche de força e afeto quando o abraço afaga sua alma carente. Foi esse o espírito que motivou o comandante Górgidas, em 379 a.C., ao s
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1 outubro
Bodas de prata
Meus pais fizeram bodas de prata e eu dei de presente um jogo de malas de couro acastanhado. Uma bem grande, para viagens prolongadas, uma média, para pequenas ausências, e uma menorzinha, para passeios de bate e volta. “Aposentar e viajar, esses dois verbos se completam”, costumava dizer o meu agora aposentado pai. Assim que viu o regalo, os olhos do velho marejaram. Andou em volta da maior, avaliou seu tamanho e capacidade. Sem que eu conseguisse evitar,
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