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set- 2026 -13 setembro
Manta, pipoca e duas em uma
Me dói. Um sofá cinza acolhe um corpo enrolado em uma manta pequena. Uma almofada faz as vezes de travesseiro. O ambiente é iluminado pelos feixes de luz que mudam constantemente de intensidade e cor, vindos da tela de grandes proporções, onde a Netflix permanece em pausa, e pela abertura mínima da cortina da varanda — mantida assim para que a planta ali postada, de sentinela, possa respirar. Certas dores dispensam gramática; já chegam sabendo ser substant
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13 setembro
Vai que…
Severo olhou para a gaveta. Tentou desviar o olhar, mas viu a gaveta sacudir, tentando cuspir seu conteúdo. Piscou três vezes, tipo superstição das três ondinhas da sorte na passagem do ano. Mas o recado estava dado – de hoje não passaria a tarefa que vinha procrastinando – enfrentar os cabos. Imbuído do seu melhor espírito esportivo, arregaçou as mangas. Colocou uma lixeira ao lado da gaveta. (otimista.) Puxou o trinco. Ela, desacostumada a se expor dessa
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13 setembro
Os influenciadores
Quem influencia você? Essa pergunta, feita há uns vinte ou trinta anos, teria como resposta muitas pessoas: pais, professores, escritores, jornalistas, grandes ícones da música e da atuação, enfim, homens e mulheres que tinham algo a dizer. E diziam! Hoje, essa mesma pergunta oferece como resposta as redes sociais. Geralmente, toda regra tem a sua exceção, as pessoas que influenciam não têm nada a dizer. Mas dizem! Eis o problema! Este o grande drama da so
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13 setembro
Benedita em Buenos Aires
Ela era toda estranha. Branca, rubicunda, judia, tinha nascido na Argentina e se chamava Benedita. Logo ao nascer seus pais desconfiaram: a recém-nascida não chorou, esboçou um leve sorriso. A bebê Benedita adorava o escuro. Qualquer facho de luz ou um abajur aceso era o bastante para ela não dormir. Sua mãe jurava que a filha dormia com um dos olhos abertos. Ora o direito, ora o esquerdo. Revezando. Benedita colecionava baratas, joaninhas e pequenos besou
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12 setembro
Vivo emoções em seu lugar ou tributo a Ariano
Doralice ganhava a vida de um modo estranho. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar que alguém pudesse tirar o próprio sustento por meio de uma atividade como aquela. Até que vi numa revista a reportagem de título chamativo: “Vivo emoções em seu lugar”. Ela se intitulava artista performática, morava em Recife e garantia poder realizar desejos – sonhos também, por que não? – de moradores de outras cidades brasileiras e até estrangeiras, coisas como visitar
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11 setembro
O limbo da dúvida
Nada mais shakespeareano que estar diante de uma encruzilhada. Ter que decidir para onde ir, o que fazer. Sem verborragia, sem teorias ou viagens intelectuais. Tudo resumido na questão mais famosa da humanidade: ser ou não ser. Escolher o caminho que leva a ser, evitando onde não seremos. Aparentemente simples mas verdadeiramente muito complexo. Não somos e queremos ser ou somos mas queremos ser diferentes? Onde seremos e onde não seremos? No lugar onde nã
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11 setembro
O mundo além do horizonte
O vô Júlio tinha umas ideias esquisitas. Uma tarde ele estava cortando cavacos – uma pilha de cavacos, todos iguais: um palmo, e um palmo tinha que ter vinte e dois centímetros. Encostou o pequeno machado no cepo onde realizava a delicada operação, enxugou o suor com o lenço do pescoço, e ficou olhando o horizonte. – O que é que tem para lá do horizonte, vô? – eu perguntei. – Ara, nada – ele disse. Eu fiquei matutando um tempo, o sol se pondo no alto do mo
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10 setembro
A riqueza fez suas vítimas!
Quantos anos são necessários para reconstruir um belo e charmoso instante, que nos fez bem há muito tempo? É uma tentativa lúdica Impossível de ser documentada, porque somente o tempo decanta o passado, glorioso e fértil, e que esteve às margens de nossas ideias e esperanças. Muitos desses eventos se tornaram a natureza de novos rumos prósperos e saborosos, outros nem tanto, pois muitas cortinas se fecharam com tristeza e medo, de que retornass
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10 setembro
Alimentar o silêncio
Ele sabe e por isso se cala. Ela sabe e por isso fala. Ele bebe o seu café com creme. Fica com um pouco de espuma no lábio superior. Ela se incomoda com isso, mas não diz nada. Não vai pronunciar a palavra lábio, porque é uma palavra perigosa. Suscita ideias, desejos, vontades. O silêncio a protege, ela imagina, assim como o ruído ao redor: naquele momento, o burburinho do entorno é seu melhor aliado porque preenche o vazio entre os dois. Muito ruído
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9 setembro
Gastura de vida
Uma dose de amargura espreita os meus dias. Posso deixar-me cair, mas posso, inclusive, não permitir que isso aconteça. A dor é um karma que me segue há longas datas, desde que meu pai se foi (essa é a minha forte lembrança) – ou bem antes disso, pois fui afeito ao gosto de sal que saía dos meus olhos e inundavam a minha boca. Sou sagitariano, de poucas palavras, de perseguições absurdas pelo conhecimento, e é isso que me salva – ainda. Sim, há tempo para
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8 setembro
A loja
“Ainda existe a Lobrás?” “O que é Lobrás?”. O outro, mais novo, não sabia do que se tratava. “Lojas Brasileiras” “Existem as Americanas, ainda, apesar dos balanços Mandrake”. “Eram concorrentes”. Aí o mais novo se ligou no que se tratava. “Ah, agora eu meu lembro. Eu era bem pequeno, passava de ônibus aqui com a minha mãe e via o letreiro da janela”. E foi exatamente por causa disso que a memória do mais velho foi buscar lá no fundo a lembrança de uma marc
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7 setembro
Poema #85: A verdade sobre a mentira
Tenho dito mentirassem tomar consciênciade sua contextura falsa. Não tenho desmentido o que digopois tenho a concepção de que mintosobretudo para mim mesmo. Sendo assim as minhas mentirasnão podem acarretarna perda de qualquer afeição. E já que é precisamente sobre a falsidadeque se alicerça o convívio entre os homens,as palavras de mentira ou verdade que eu dissernada significam de permanente num relacionamento. Mas não posso deixar de convirque assim faz
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7 setembro
Sincronia
As mãos ágeis dão forma a mais uma encomenda. Tecem em lã o desejo de alguém, na velocidade do som. A mulher de um metro e meio, se tanto, observa os carros passando a vinte quilômetros por hora e a vizinha no tanque. Conversam. Enredam dúvidas e certezas; criam histórias da vida alheia, sem nenhum pudor. Parecem amigas e são, até que deem as costas uma à outra. O ruído do motor na tarde. As mulheres que chegam e saem. O molde sobre a mesa. A almofada de a
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6 setembro
Íris
“Às vezes, Deus não muda o cenário. Ele muda você…” Era domingo, chovia, e fazia aquela temperatura imprevisível de fim de inverno – “esse tempo bipolar..!” (diria sua mãe). Com um guarda-chuva transparente sobre a cabeça, Íris leu a frase no muro da rua nove com a rua dois. Era a quarta cidade diferente, temporariamente sua, dentro de todo um ano. Um ano não exatamente de calendário; setembro ainda nem havia terminado. Era outra contagem. A de
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6 setembro
Xeque-Mata
Eduarda e Rafaela. No centro, um tabuleiro de xadrez. Eduarda com as pretas e Rafaela com as brancas. Eduarda gosta de ficar segurando o queixo enquanto pensa, e Rafaela adora um uísque durante o jogo. — Peão quatro do rei. Rafaela morre de inveja do corpo de Eduarda: pernas perfeitas, pele branca de quase nunca ir à praia, seios que cabiam na mão, pontudos, empinados. Eduarda não se acha tão bonita e despreza a objetificação. — Cavalo três do bispo do rei
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6 setembro
Rebeldias do mundo
Já repararam como o cotidiano doméstico muitas vezes conspira contra? Já mudei várias vezes de casa, cozinhas planejadas diferentes, mas não adianta: a água da torneira que espirra na pia sempre corre para o canto oposto do ralo. A gente tenta educá-la com aquele rodinho, mas ela faz ouvidos de mercador. E quando abrimos a gaveta onde guardamos fios de celular, fones de ouvido, tudo separadinho? Eles se embolam sozinhos, como se tivessem vida íntima. Isso
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6 setembro
Poema #21: Sonho Azul
No barco nuo pescador sonhaum sonho azul. No barco velhoo pescador rinum sonho azul. Com a água calmao pescador viajano sonho azul. Ninguém atrapalha,nada interrompeo sonho azul. O impulso amorosoé forte e clarocomo o sonho azul. No barco nuo pescador encontrao sonho azul.
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5 setembro
A Bola de Neve e seus encantos
— Mãe, abre o portão. É a Bárbara. Ela vem me ver às quintas-feiras. — Ué, você mudou os móveis? — Como? — A mesinha de café, aquele canto ali… Da última vez que estive aqui, não tinha! Andou garimpando, né? Já te falei: você não deve mais sair sozinha. Bom… tomei um pito. Mas vou guardar esse assunto para outro dia. — Falando nisso, filha, faz dois cafés. Mesmo estando calor, eu tomo meu café nesse horário. É costume. — Mas aí tem tomada elétrica? — Coloq
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5 setembro
NÓS
Sei que você não é sequer capaz de imaginar as sensações que desperta em mim. Nunca vivi nada parecido antes. Perco o sono, durmo mal. Você me excita. Muito… Penso que você é só minha. Eu exijo exclusividade. Você não tem a mais vaga ideia das coisas que eu gostaria de fazer com você. Na verdade, eu já fiz. No meu pensamento, já realizei todos os meus desejos. É tudo tão real. Eu despi você inteira. Observei de perto sua pele clara. Deslizei minhas m
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5 setembro
“Zerou” a vida?
Não. Zerar não é empatar. Quando chegamos ao fim da nossa capacidade de contagem, zeramos o jogo. “Zerar a vida” é a vanglória de um feito mágico e grandioso, uma experiência inacreditável! O ideal de fazer algo extraordinário, como se tivesse vencido o último e mais poderoso oponente e batido a meta máxima do game. O feed desliza repetidamente, sem pausa, sem ponto final. A moça radiante dança diante de um palco imenso e resplandecente debruçado sobre a p
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5 setembro
Maldito Ipê Amerelo
Dia desses, acordei desagradavelmente surpreendido, ao avistar pela janela um objeto estranho sublevar-se na paisagem urbana a que estou habituado a contemplar pelas manhãs. Em meio à monocórdica retitude dos edifícios cheios de sacadas, num cenário perfeitamente simétrico, ornado com veículos, postes, bueiros, muros, grades, fios elétricos, guindastes, betoneiras, tapumes, andaimes e fumaça, eis que se sobressai ao pálido grafite, uma intrusa árvore carre
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4 setembro
A galinha manca
A galinha atravessa vagarosamente o terreiro. Cada passo é quase uma queda. A galinha é torta, tem uma perna mais curta que a outra. É uma galinha manca. Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse calculando cada movimento. O terreiro é largo, clareado aqui e ali por algumas réstias de sol. O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra preta, folhas, penas e dor. A galinha é um bicho só. Procura algum grão de milho, uma minhoca, procura a
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4 setembro
Dissertação: Adotar ou Comprar Animais?
Coautora: Letícia Hyppólito* Nos tempos atuais, há discussões sobre adotar ou comprar animais, como no filme “Beethoven” em que há um cachorro que nunca era adotado por ter muito medo de humanos. Portanto, é necessário incentivar a adoção de cachorros, gatos e outros animais como os porquinhos-da-índia. É importante escolher adotar um companheiro, pois dá chances aos cães S.R.D (Sem raça definida) que estão há muito tempo no abrigo ou ONG (Organização Não
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4 setembro
A bela da porta
Era assim. Durante a semana eu caminhava logo cedo para o colégio Santo Agostinho. Percorria uns quatro quarteirões de onde eu morava na época, no Leblon. Era no século passado, entende, então eu, como todos os demais garotos de 12 anos, levava uma bolsa a tiracolo com livros e cadernos, pendurada em um dos ombros, que àquela hora pesava uma tonelada. Bem diferente de hoje quando só se vê para cima e para baixo malinhas de escola com rodinhas. Ao que parec
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3 setembro
Loteria Sagrada
No fastiar dos dias, nos cruzam rotinas que trazem novas oportunidades, e outras que quase não tentamos tocar. Simplesmente porque escolhemos a que nos arrefece o caminhar, como um templo de braços abertos, com ofertas a seu critério. “Estamos procurando fora de nós por força e confiança, mas elas vem de dentro, e estão lá o tempo todo” (Anna Freud). Um desses templos com múltiplas ofertas, é o “Omikuji”, construído em Tóquio, na ár
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3 setembro
Cinzas
Como um anjo caído, eu virei cinzas, me dispersando por cada lugar que passei. Gritei aos céus para que me recebessem de volta, enquanto bebia minha dor. Nenhuma luta para me levar ao cosmos foi suficiente, somente muito sangue foi derramado. Era a batalha interminável das duas coisas que me sobraram: a busca pela indiferença dos sentimentos, como uma boa estoica, e a hedonista que tentava sobreviver. Enquanto anjo caído, espalhei a dor que queimava como o
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3 setembro
A chuva estranha
A terapeuta disse à mamãe que procurasse sair do quarto e fazer alguma atividade simples que lhe desse alegria. Sugeriu que cuidasse do jardim. Mexer com a terra é o melhor remédio contra a depressão. Plantar flores ou fazer uma horta traria enormes benefícios à saúde mental de todos. “Aproveitem a primavera precoce que já está no ar”, disse ela. A família toda concordou. Aquele pedaço do terreno atrás da casa estava mesmo inútil, tornara-se uma floresta e
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2 setembro
O velho saudosismo de todos nós
Por alguma razão que desafia meus parcos conhecimentos, todos nós somos mais ou menos saudosistas. Com isso, não quero dizer que estejamos, naturalmente, inclinados a um pungente estado de melancolia. Talvez o caso requeira alguns cuidados, mas não chega ao absurdo de tal fatalismo. De toda forma, creio que o passado seja um personagem que insiste em ser valorizado, mesmo quando seus atributos só podem ser, medianamente, apreciados. — Bom mesmo era no temp
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2 setembro
Um beijo ardente
O empresário e a jovem secretária amante beijam-se ardentemente no quarto de luxo de um hotel evidentemente de luxo também. Findo o beijo, ele leva as mãos à boca, sentindo algo estranho. Que foi, ela diz, não gostou? Ele corre pro banheiro, olha-se no espelho, abre a boca e lá está: um vão, uma janela, onde deveria estar um dente, um pré-molar tipo ostentação, de ouro 24k! Assustado, sempre protegendo a boca, corre de volta pro quarto, ab
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2 setembro
Finjo que consigo viver assim
Procuro acalmar Luana. Ela está em polvorosa, com medo de ser demitida. O nosso chefe é de veneta, a cada minuto podemos esperar um vendaval ou um refresco brando de mar. Ele é uma boa pessoa, já demonstrou diversas vezes quando quer nos ajudar, mas pode pegar no meu pé ou no pé de qualquer colega por semanas, e isso nos aflige. Nas reuniões, somos chamados a falar: sempre me saio mal, por conta da minha timidez excessiva, mais especificamente por conta do
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