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  • ago- 2026 -
    6 agosto

    Preservação da dignidade

    Em 20 de dezembro de 1943, o bombardeiro americano B-17 “Ye Olde Pub”, severamente danificado, pilotado por Charlie Brown, de apenas 21 anos, retornava de uma missão sobre a cidade de Bremen, na Alemanha. A aeronave tinha dois motores destruídos, sistemas avariados, vários tripulantes feridos e um artilheiro morto. Voando como um “straggler” (retardatário), isolado de sua formação, o bombardeiro era um alvo fácil. Em um determinado

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  • 6 agosto

    DEIXA ESTAR

    — Por que você apareceu aqui no meu sonho, se o que eu quero agora é sonhar com minha mãe? — perguntei, achando graça na presença dele no meu sonho. — É impossível escolher com o que sonhar — respondeu Paul, sentando-se na beirada da cama. — Bom, imagino que seja porque ontem eu passei o dia lendo um livro que conta a história de sua mãe e daquela música. Então este sonho de agora é um reflexo do que vivi durante o dia. De acordo? Paul fez um movimento com

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  • 5 agosto

    As meias rotas do Presidente

    Não raramente, atribuímos a personagens importantes da história oficial qualidades inigualáveis e sobre-humanas. Altas autoridades, políticos de grande projeção, empresários bem-sucedidos, artistas de renome, todos eles adquirem um status que os coloca vários degraus acima da grande massa dos mais vis mortais. A fama, a riqueza e/ou o poder de que desfrutam obrigam-nos a projetar em suas figuras as características necessárias para que a atração e o frenesi

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  • 5 agosto

    Djamila me ensinou a ter fé. Sempre fui avesso ou displicente com a religiosidade. Nem ao menos procurei entendê-la. Meu pai dizia que eu era ateu e que isso era um grande mal para mim, mas me percebi, por muito tempo, agnóstico, porque precisava de prova para acreditar. Muitas vezes me peguei cutucando os meus demônios, para que algo acontecesse. Saudava aos deuses, quando passava em frente à igreja ou a algum lugar de culto, meramente por respeito. Então

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  • 3 agosto

    Poema #80: A ilha

    A ilha com seu silênciome comunica a mortedos seres espectraisque nela vivem ou já viveram. A ilha cercada por manguesé um poço de lama e óleo. Os pescadores da ilhame comunicam o fimdos pescadores da ilha. Os pescadores da ilhame apresentam a pesca de um dia,nada. A ilha com sua morteme comunica o silênciodos seres superioresque a mataram e matam. A ilha abandonada pelos banhistasé um deserto de espuma e água. Os frequentadores da ilhame comunicam o desas

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  • 3 agosto

    Sobre voar

    — Desaprendeu? — desaprendi. — mas você era tão… — Era! Muito tempo atrás. Não sou mais. — Tem certeza? Isso a gente nunca esquece. Basta uma vez pra nunca mais esquecer. — Não foi só uma vez… — Não?! Bem, comigo… Pensei que tivesse sido apenas comigo… — A primeira sim, mas houve outras. Tantas… Tão boas, tão lindas… O que foi? — Nada! Quer dizer… nada! Nada não. — Ficou com ciúmes? — Sim. — Não fique. A primeira nunca esquecemos. — Não?! Então por que des

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  • 2 agosto

    Se eu me perder

    O silêncio cresceu com a sombra mais densa. Então, os fones acenderam as lâmpadas incandescentes da plataforma, que pousava, num instante eterno, sobre a água. Era um simples trajeto de retorno à casa: sobre rodas que não tinha controle, observava o horizonte em que nada tinha fim, tampouco início. De repente, uma centelha flutuou acima, no compasso de seu coração.  Itália. Fevereiro. Março. Aquele abraço… “Um simples caso de sorte genuína

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  • 2 agosto

    SOLIDÃO

    Do nada, ela resolveu se isolar do mundo. Sumir do mapa. Escafeder-se. Largar tudo de vez. Pensou numa viagem solitária de barco pelos oceanos. Mas Yolanda nem sabia nadar. Aposentada pelo INSS, seu último emprego foi como caixa do Banco do Brasil. Lidou com o público e com a absoluta contrariedade de fazer isso. Tinha dias que parecia explodir. Controlou-se à base de comprimidos e orações. Não tinha mais ninguém, nem amigos nem família. Sua única filha, f

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  • 2 agosto

    Amém

    Por debaixo da porta, a convocação. Primeira chamada às 19h. Salão lotado, ordem do dia sobre as cadeiras. Quando viu “3º item — sorteio das vagas”, Severo percebeu que cometera um erro grave: não tinha jantado. Leitura da ata.— Amém.Leitura do orçamento.— Amém.Leitura da troca do capacho.— Amém. … Sorteio das vagas. Aí o inferno começa. — Alguém tem algo a colocar antes do sorteio? A senhora do 1º andar logo se manifesta: — Temos que estabelec

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  • 2 agosto

    POLICARPO

    É Policarpo, seu país não veio, não vingou… A bandeira que tremula na haste não conta mais as glórias do passado (se é que um dia já contou) e tampouco vislumbra as glórias do presente… Sua pátria, escondida entre farrapos, negociações e falsas intenções, desmorona todo dia. Todos os dias! No trabalhador que sua e sangra e não descansa! Na esquina em que se perde uma outra infância! Nas escolas abandonadas e no futuro dos jovens. Na promessa quebrada em qu

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  • 1 agosto

    A loja do Joca

    — Oi! Vó do Digo, Vó do Digo! Eu tenho uma loja. Você quer comprar o que eu vendo? — Mas onde fica essa loja? Eu pergunto, com a maior naturalidade. — Peraí. Vou lá buscar. E saiu saltitando, feliz da vida com a possibilidade de fazer mais uma venda. Essa é a segunda empreitada comercial do Joca. Antes disso, foi caubói. Tinha cavalo, chapéu preto e colete de franjas. Depois virou dono de um caminhão de gado. Também foi tratorista. Mais tarde resolveu aban

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  • 1 agosto

    O dia do aniversário

    Doze horas em ponto, os sinos da igreja de Santo Antônio de Pádua anunciavam. No dia em que completava 50 anos, Joel saiu apressado do escritório do advogado e, ainda dentro do elevador, passou a organizar mentalmente as tarefas da tarde. Memória privilegiada, sua melhor agenda sempre foi a própria cabeça. Era quinta-feira, e apenas no sábado uma celebração ocorreria. Reunião modesta, só para os mais íntimos, como se costuma dizer. Afinal, nunca gostou mes

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  • jul- 2026 -
    31 julho

    O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam. Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar. Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse. Passavam os dias, passavam as noi

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  • 30 julho

    Poema #07: Aeroporto

    só deus sabequantos e quantos aviões(entre sóisnuvensestrelas& luas)meus olhosdecolaram voos pra só assimdo outro lado do continentete aterrissare ser passageiro de tipor eternos instantes

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  • 30 julho

    Um homem de muita fé

    Ele desceu do trem numa estação qualquer, numa cidade desconhecida, e esperou por ela. Depois, entrou nas criptas das catedrais, onde o silêncio pulsa de tão denso, e esperou por ela. Empoleirou-se em árvores, em pontes, em terraços, em torres, em montanhas, em aviões, nas nuvens dos sonhos e, talvez, nas asas de algum anjo. Esperou por ela na dureza do inverno mais impiedoso, tremendo não de frio, mas de esperança. Também esperou por ela na chuva, até que

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  • 30 julho

    Sem direção

    Os humanos mais valentes creem que a solidão não vá corroer seus desejos, ao vagar pelo mundo sem olhos para fitar, que não é a forma mais sutil de ser gente. Passar minutos apreciando os outros se amontoarem em si, vagando em suas ideias ou cruzando pelas ruas frias e úmidas, pode nos trazer uma sabedoria solitária.  Porém, é uma companhia quase ausente de um par de mãos, que poderiam acalentar um nobre olhar. O oposto a esses instantes se percebe na

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  • 29 julho

    Os laços

    Os laços de Maria me enfeitiçavam. Eles me atraíam como uma medusa. Não era possível olhar diretamente nos seus olhos. Havia, de minha parte, uma tremenda vergonha. Ainda tinha um atrativo peculiar, o aparelho ortodôntico, com uma linha de aço que ficava para fora da boca, como um ser especial, de outro mundo. Conhecemo- nos desde a infância, mais especificamente no quarto ano, quando ela veio estudar na minha sala. A sua imagem me paralisou, ao entrar atr

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  • 29 julho

    A tirania da coerência

    Desde cedo, acostumamo-nos a avaliar a coerência como uma elogiável característica a ser vista nas atitudes de algumas pessoas. Em sua ausência, as divergências entre o que se diz e o que se faz costumam ser apontadas com a virulência de que apenas os mais empedernidos moralistas dispõem. Mas uma vivência menos tirânica e intransigente pode sugerir que todos nós, sem exceção, refletimos em nossos atos as próprias contradições internas. Diferentemente de má

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  • 27 julho

    Poema #79: A cor suja

    Mil noites de sonoe o abismo intactoA beleza da árvoree do peixeA máscara da maldadefiltrada pelo telefoneO sorriso do triunfo provisórioA dor latente e as pancadas na paredeA pedra que dissolve o leite. A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

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  • 27 julho

    Semente

    A ladeira de paralelepípedos cria obstáculos até o ponto de ônibus. Mal amanhece, o café preto, o banho, a escova de dentes. A roupa, cuidadosamente separada no dia anterior, e a corrida de sempre para não perder a condução. O corpo magro vai contra o vento, e sopra uma canção nos seus ouvidos. Ela cantarola. No trânsito, procura na paisagem de sempre algum novo detalhe e, invariavelmente, encontra. Tudo está no mesmo lugar, mas seu olhar é novo a cada dia

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  • 26 julho

    Diário contemporâneo in 3 languages

    – A toast to every single person in this crazy world, Olivia!  – A toast to you, Bia! This is really big and kind! Assim inauguro uma noite de quinta-feira, com unbicchierino di vino rosso – ed un altro, chiuso e raffredattoin sè nel frigo, rosa – e minha ligação diária para Olivia, uma cineasta londrina que nunca se lembra direito do meu nome ou da minha história, ou qualquer coisa mínima dentro do guarda-chuva da mi

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  • 26 julho

    VANILDA não será mãe

    Acho que estou me tornando uma sociopata. Só fico à vontade quando estou enfiada no meu mundo. Concentrada, recolhida comigo, sem interferências. Os amigos me perguntam, Vanilda, você não vai conosco? Vanilda, você está tão sumida; Vanilda, você parece uma velha… Odeio ser colocada contra a parede. Será que não veem que preciso de reclusão? Não é pela idade, mas por escolha. A minha fase antissocial começou depois que constatei que odiava crianças. Podia s

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  • 25 julho

    Habite-se!

    Habitar é um estado de bem-aventurança. Nômades ou sedentários, sempre procuramos o nosso lugar. Talvez a casa seja a palavra mais valiosa do mundo, ao lado do amor. Vai muito além de um conjunto de paredes, cômodos e teto. O corpo também é casa, a pele que habita a superfície da sua cor, sente frio e calor; a alma que habita a profundidade, sente no exílio, falta e saudade. Polvos, moreias, tubarões, passarinhos, também têm seu ninho, sua toca. A casa é o

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  • 25 julho

    O coração negro do futebol

    Àqueles que acompanharam a Copa do Mundo não deve ter passado despercebida a presença maciça de jogadores negros nas partidas. Não me refiro obviamente às equipes da África Subsaariana (Cabo Verde, Costa do Marfim, Congo…) que, por sinal, a cada edição vêm melhorando seu desempenho, enfrentando de igual para igual seleções consagradas do Primeiro Mundo. E sim às poderosas esquadras europeias, que, apesar do sobe/desce dos últimos anos, permanecem na

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  • 25 julho

    O que fica?

    Ganhar é sempre bom? Depende. Pergunte a quem subiu na balança após um fim de semana prolongado: — Ganhei dois quilos. Nesse caso, “ganhar” não soa como vitória. Também se perde um compromisso, a paciência, o medo, uma oportunidade ou alguns quilos. A palavra é a mesma, mas o sentido muda conforme o que vai ou fica. As palavras têm faces. Como moedas, pessoas e quase tudo.  Outro dia ouvi alguém dizer: — Passou. Passou o quê? A Copa? A esperança da Argenti

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  • 25 julho

    A Despedida

    Estranho ver você aí deitado, fisionomia serena. Por que você não era assim a maior parte do tempo, Samuel? Tenho a impressão de que você vai se levantar a qualquer momento e começar a falar aquelas coisas sem sentido que costumava dizer. Você não percebia que seus argumentos eram frágeis, sem coerência? Suas cenas de ciúme bobas. Samuel, aquilo era apenas meu trabalho, era tudo profissional. Sério. Nunca houve nada. Nada mesmo. Olha em volta, não veio qua

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  • 24 julho

    Karim, a alegria da feira

    Ele chega com cara de sono. Não está tão cedo assim, são quase onze da manhã. A feira já vai bem animada quando o garoto surge entre a barraca de flores e a primeira de frutas. Vem com a mãe e a irmã mais nova no carrinho de bebê. Karim está com o cabelo desarrumado. Parece que foi tirado da cama agorinha. Não reclama, não faz birra. Segue obediente ao lado da mãe. Olha ao redor e vê mais pernas e a beirada dos tabuleiros armados com frutas, legumes e tudo

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  • 24 julho

    A Revelação dos Porquinhos da Índia

    Na casa da minha professora particular há dois porquinhos da índia. Eu não costumo ter muito contato com eles, eu apenas os via no Pet Shop. Os porquinhos da índia são pequenos roedores, mas são majestosos porque são fofos e lindinhos (e também são descolados: fazem de 10 a 12 sons diferentes!). Porém, o que descobri sobre eles vai te surpreender… Em uma conversa com a minha professora, dona dos porquinhos, ela me fez uma revelação chocante: os porquinhos

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  • 23 julho

    Memórias gravadas nas paredes

    As paredes de uma casa de infância raramente são apenas tijolos e tinta. Em Belford Roxo, onde o afeto era escasso e o ódio falava mais alto que os abraços, a literatura se fez presente para mim não na lombada de livros encadernados, mas no reboco. E, mais especificamente, na porta do banheiro. Acho que aquele era o refúgio do meu genitor, de quem à época ainda valia a pena chamar de pai. O lugar onde ele se trancava, acendia seus baseados e tentava fugir

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  • 23 julho

    O home e o neno

    Em novembro de 1957, nos cais de Ferrol, no norte da Espanha, um instante de dor humana pura se desenhou no ar frio da manhã. Uma mãe partia deixando para trás, seu marido, um filho e a vida inteira que conhecia, para seguir rumo a um oceano que prometia futuro, mas cobrava despedidas irreparáveis. Ali, entre malas gastas e lenços úmidos, o fotógrafo Manuel Ferrol ergueu discretamente uma câmera escondida sob o casaco. O que ele capturou não foi pose teatr

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