Crônicas

As muitas faces de seu Levi

Poucas ou inexistentes são as pessoas que se destacam apenas por suas qualidades. Como seres falíveis que somos, tanto nossos defeitos como nossas aptidões podem bem ser usadas para descrever nossas personalidades àqueles que não nos conhecem. A depender do relator, se um apologista ou um detrator, nossos feitos serão realçados de uma maneira ou de outra, sem que a validade do informe seja, necessariamente, comprometida.

São essas coisas que me vêm à cabeça quando vejo o Dr. Levi Damasceno. Estimado por seus pacientes e reverenciado por seus colegas de profissão, esse simpático endocrinologista de meia-idade transmite calma, serenidade e polidez em sua rotina laboral. Os pacientes são, praticamente, unânimes nos elogios e os colegas, coincidentes no enaltecimento. Raríssimos são os casos, se é que existem, em que o médico Levi se indispôs com algum enfermo ou com qualquer associado. Sua fleuma parece inabalável até mesmo diante das piores encrencas que a rotina médica pode apresentar.

— Vamos, seu corno! Vai ser lerdo assim no inferno! – é o que grita, no entanto, um atrasado e impaciente Dr. Levi.

Como se vê, o problema é quando está no trânsito. O mesmo Levi Damasceno que muitos veem como um exemplo de tranquilidade e de sensatez é capaz de começar uma guerra civil durante os vinte minutos de deslocamento de sua casa a seu consultório. A leitora poderia achar que o problema é o atraso, mas reitero que tal comportamento independe do relógio. Afinal, o percurso inverso, do trabalho para o lar, conta também ele com as mesmas aventuras de malcriação e de incivilidade. Diferentemente do que se poderia imaginar, o motorista Levi mantém esse padrão de conduta mesmo quando está a passeio, numa tarde ensolarada de um domingo qualquer ou de um feriado em plena segunda-feira.

Vez ou outra, todo mundo acaba tendo um dia ruim. É quando a paciência se esgota mais facilmente e os nervos estão mais frouxos que gelatina ao sol. Isso é verdade! Mas e o que dizer das constantes rusgas que os filhos Álvaro e Ezequiel mantêm com o seu pai, o mesmo Levi Damasceno? Para os dois, já crescidos e independentes, seu Levi não passa de um turrão. Sempre distante dos filhos, aquele pai de família prioriza, em detrimento de todo o resto, exclusivamente sua vida profissional. A esposa, dona Marta, e os dois filhos vieram como complementos a uma vida dedicada com afinco e com amor à saúde e ao bem-estar não de seus entes mais próximos, mas de seus queridos pacientes.

— E o senhor emprestou esse dinheiro?! Pode esquecer… Vai colocar tudo fora no bacará e não vai lhe pagar nada.

E, agora, mais essa! Comentando, despretensiosamente, que havia emprestado uma pequena, mas relevante, soma a seu Levi, fui surpreendido por seu Zeca, o bodegueiro de nossa rua. Entre uma mesa e outra, seu Zeca sempre foi ágil em dialogar com toda a clientela e em especular sobre a vida alheia. Enquanto entrega uma cerveja gelada, aproveita para perguntar da viúva de um antigo freguês, anota mais um pedido feito para a mesa quatro e ainda difama seu Levi não somente a mim como a quem mais quiser ouvir. Segundo esse meu indiscreto informante, seu Levi é um homem correto em seus negócios, mas o descontrolado gosto pela jogatina compromete suas finanças e sua imagem perante seus credores.

Homem de muitas faces! — exclamarão alguns. Quem será o verdadeiro Levi Damasceno? — perguntarão outros. A bem da verdade, a resposta para essa indagação depende muito de quem a constrói. Como uma síntese de suas contradições e de suas identidades, meu gentil vizinho é tanto um competente e atencioso médico como um compulsivo jogador e um teimoso e displicente pai de família. Seu bom desempenho em tão variados e distintos papéis não faz de sua vida um mero roteiro encenado para ludibriar os mais desavisados. Ele, de fato, é tudo isso e mais um pouco!

A intimidade só é, pois, construída a partir do acesso nada trivial a variados matizes de uma só pessoa. Quanto mais íntimos somos dela, mais faces de seu caráter são desveladas perante nossos olhos. Assim sendo, o processo de descoberta pode resultar tanto em frustrações como em satisfações. Mas o certo é que essa complexidade humana torna o teatro da vida um imprevisível e inesgotável espetáculo.

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Guilherme Backes

Guilherme Backes é bacharel em Relações Internacionais pela UFSM e mestre em Ciência Política pela UFRGS. Gaúcho de Cruz Alta, atualmente reside na cidade de São Paulo. Estudioso de temas políticos e sociais, vê a Literatura não apenas como um refúgio pessoal, senão também como uma ferramenta para mergulhar mais profundamente nas entranhas de nossa sociedade. Escreve às quarta-feiras no Crônicas Cariocas

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