
A grande obra
Deixei tudo para escrever a obra da minha vida. Sou um grande escritor. Ninguém sabe disso ainda porque nunca escrevi nada, mas quando eu escrever meu livro, meu grande romance… A admiração de todos será um acontecimento, não tenho dúvida.
Para levar a cabo essa minha missão, pedi desligamento do meu emprego público e… do que mais me desliguei? De nada mais, porque nunca tive amigos e os parentes há muito tempo se esqueceram da minha existência. Isso posto, abandonei o mundo e me isolei de tudo para escrever meu grande romance.
O problema é que não sei sobre o que será esse meu livro. Já se escreveu tanto sobre tudo… Tenho um pressentimento: sei que sou um grande escritor, mas nenhum assunto parece ser bom o suficiente, grandioso o suficiente, interessante o suficiente para o meu talento. Então uso minha infinita paciência e espero por uma ideia original e surpreendente. Enquanto espero, claro, sofro com a solidão e, às vezes, com a fome, mas através desse sofrimento espero alcançar um estado de calma que me leve a descobrir um tema digno do meu superior dom de escritor.
Infelizmente, já se passou muito tempo e essa inspiração está demorando para aparecer. Minha solidão tem se tornado cada vez mais sufocante e opressiva. O silêncio me aprisiona, o vazio ocupa todos os lugares de minha casa e intuo que meu estoque de paciência esteja chegando ao fim. Essas três coisas horríveis — solidão, silêncio e vazio — estão destruindo meu teto, despedaçando-o até atingir as estrelas e espalhando-se ao infinito. Já não distingo o dia da noite, a chuva da neve, o calor do frio.
Numa crise de sofreguidão incontrolável, grito:
— Vou escrever tudo o que puder ser escrito! Não deixarei nada de fora. Escreverei o universo e a Via Láctea com todos os seus buracos negros.
Uma voz, vinda não sei de onde, me responde, irônica, mas ainda assim uma voz depois de tanto silêncio:
— Tudo bem, garoto, escreva sobre tudo. Mas apenas tudo e nada mais, certo?

Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP desde os anos 70. Tem 7 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020), “Antes de cair o pano” (2022), “A vida é uma palavra muito curta” (2024) e “Vozes para tímpanos mortos” (2025). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras). Escreve semanalmente na revista Crônicas Cariocas. Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021), “Brevemente Infinito” (2024) e Antologia de Contos da UBE-União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).























