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ago- 2026 -24 agosto
Percepção
Ela enxerga poesia, vê histórias em todos os lugares. Se viaja, escreve mentalmente histórias que jamais tomarão forma na tela ou no papel. Quanto mais longa a viagem, mais tempo em silêncio com seus pensamentos. Entretanto, nunca precisou de uma viagem física para sair do lugar, percorrer mundos, encontrar pessoas e ouvir e falar palavras que apenas ela conhecia, que apenas a ela eram ditas. Este é o ar que ela respira: há poesia no contraste de cores ine
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23 agosto
Era só uma bicicleta
Era só uma bicicleta! E Cláudio Rafael não havia roubado nada! Apenas saiu com a bicicleta de sua irmã! Ainda que tivesse acontecido um roubo, nada justifica a cena de selvageria que ocorreu em Copacabana. Pior, a cena de espancamento e linchamento de Cláudio Rafael escancara o quão estamos doentes! Que sociedade é essa que mata? Que sociedade é esta que banaliza a morte? Na fúria do dia a dia, vamos perdendo um pouco de nós mesmos. Na fúria do dia a dia,
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23 agosto
Bolero de Tecalitlán
Bolero de Tecalitlán, ao pé do ouvido em pleno 2026, soa como uma serenata de amor cantada à janela de uma casa que já não existe. Ou existe? existe: passou apenas a caber na tela de um smartphone. Informes contemporâneos. A linguagem sempre como logradouro de encontros. Disseram-nos que: • …a globalização tornaria o mundo uniforme;• …a tecnologia achataria os afetos;• …algoritmos substituiriam as coincidências.(…) Descubro, porém,
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23 agosto
REINO ANIMAL
A primeira vez que Joana trouxe um sapo para casa foi um alvoroço. A família não sabia como agir, a menina tinha só cinco anos e uma afinidade especial com os bichos. Até quis levar o sapo para dormir com ela. A muito custo, conseguiram convencê-la de que o sapo precisava voltar para casa dele a fim de se despedir dos amigos. Depois do sapo, foi um pintinho da feira, que acabou virando frango e morreu de estresse. Um jabuti habitou a banheira da casa apena
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23 agosto
Token inválido
O infarto foi fulminante. Quatro tentativas de reanimação. Nada. Resistiu bravamente até a última atualização. Merecia um fim digno. Logo ao chegar à recepção, um rapaz o atendeu, solícito. — Fique tranquilo: aqui, tudo tem solução. — O senhor deseja fazer a migração completa? Severo aceitou o pacote funerário. Os universitários iniciaram o ritual de reencarnação. Transplantada a memória. O outro, novo, reluzente, exibiu seu sorriso de maçã. Faltou a ident
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22 agosto
Manifesto
Confesso: eu era indiferente. Simplesmente não os notava. Não detestava, nem amava. Eles eram transparentes para mim. Daqueles de quem se diz: nem cheiram, nem fedem. Foi assim por dois terços dos meus dias. E nem queiram saber quantos foram. Centenas. Não procurei terapia, nem explicações. Até que aconteceu. Assim, sem me preparar, pensar ou conjecturar, um belo dia eu me apaixonei! Paixão de deixar boba. Olhar nos olhos, admirar as nuances, o chamego, o
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22 agosto
Seria a eternidade um mineral?
Quem sabe a imortalidade seja um mineral formado por átomos de carbono puro dispostos em uma estrutura cristalina cúbica. Nosso inconsciente não acredita na própria morte pois não possui nenhum registro psíquico ou representação para ela, e se comporta como se fosse imortal. Não queremos papo com a finitude, ponto e basta! É ao testemunhar a morte de alguém querido que somos forçados a confrontar a realidade da perda. Mas nem isto abala a invulnerabilidade
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22 agosto
Uma história de gatos e ratos
— Verônica! Finalmente resolveu aparecer depois de tanto tempo. Ainda se lembra do caminho de casa? Bem, acho que essa não é mais sua casa. — Quarenta e sete dias. —Você não atendia meus telefonemas… — Não quero falar sobre isso agora. Passei aqui porque preciso pegar umas coisas. Rafael, você tá molhado, pingando. Sai, tenho uma reunião de trabalho daqui a pouco. — Fiquei o dia todo na piscina. A água me faz bem, me purifica. Como estamos longe do m
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21 agosto
Tudo é Rio (menos Niterói e São Gonçalo)
Quando me mudei para o Rio, achei que bastaria algum tempo para entender a geografia, os costumes e, por osmose, me tornar um carioca da gema. Vã ilusão. Aqui nada é tão simples quanto parece. A lógica que rege os lugares homônimos ou com nomes parecidos parece ter sido concebida por um sambista bêbado, como se a cidade já não fosse complicada o bastante com a sua coleção de túneis, morros, largos, viadutos, encruzilhadas, ruas estreitas e ladeiras. Pega a
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21 agosto
O pião
Quando o tio Luís encontrava alguns meninos brincando com pião, logo se oferecia para demonstrar a sua habilidade. Escolhia o pião mais gordinho, que era o de que mais gostava, e mais liso, de tanto uso. Enrolava a fieira no pião com um capricho minucioso de filósofo. Escolhia a área de terra mais limpa, que não tivesse nenhum empecilho para quando o pião girasse sobre si mesmo. E então o lançava, não para a terra, como seria de se esperar, mas para a fren
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21 agosto
Vida nova mas o mesmo eu, ou não?
Vida nova para mim mesmo teve início nesse mês de agosto. Do casulo do home office para o palco do magistério. Direto , sem escalas e muito desejado. O silêncio perdeu seu espaço privilegiado em minha rotina. Antes, era soberano, só cedia seu lugar sagrado para as eventuais intervenções de minhas filhas. Agora precisa se contentar com as horas que sobra, como as horas mortas de Garcia Marques. Ruim? Nem tanto. A tudo, ou quase, se acostuma. Em lugar do sil
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20 agosto
Nossa nave
Há pouco mais de quarenta anos, a sonda Voyager 1, já distante mais de 6 bilhões de quilômetros de casa, recebeu uma ordem inusitada: virar-se e, com sua câmera já cansada, fotografar o ponto de onde viera. Carl Sagan chamou a imagem de “Pálido Ponto Azul”. Nessa fotografia, a Terra ocupa menos de um pixel. É um grão de poeira suspenso num raio de luz solar. Dalí Nenhum mapa, nenhuma fronteira, nenhum presidente, nenhuma guerra, nenhum amor ou
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20 agosto
OS CADERNOS
“Sempre diremos tudo um ao outro, inclusive o que não for bom. Mesmo o que for desagradável deverá ser dito. Porque calar é perigoso. Não nos separe o silêncio, nunca.” Assim foi o pacto que fizeram Carlos e Isabel, tão logo se descobriram apaixonados e dispostos a viver juntos vida afora. “Tem a minha palavra”, disse Carlos. “Tem a minha palavra”, respondeu Isabel. Casaram-se poucos dias depois. Ao cabo de dez anos, com a paixão um tanto esgarçada e froux
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20 agosto
Bubbaloo tutti-frutti
Reunião de pais e mestres. — Mãe, o Anderson é um bom menino, educado, gentil, quietinho, não dá trabalho. No entanto, precisa prestar mais atenção nas aulas. Tem horas que ele parece viver no mundo da lua. A mãe olha o boletim, que segue com notas regulares, sem nenhum vermelho. Mais tarde em casa, ela parabeniza seu filho por ter recebido elogios da professora, e por não ter ficado abaixo da média. Perfeito, não iria perder o videogame aos finais de sema
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19 agosto
A Nora, o cachorro da Nora, os namorados da Nora e o adestrador
A Nora tinha um cachorro. A Nora também tinha um namorado. O cachorro não gostava do namorado da Nora. A Nora contratou um adestrador pra fazer o cachorro acostumar-se com o namorado. Já que ainda não existe adestrador de namorado. Pouco tempo depois, quando o cachorro já estava amiguinho do namorado, o namorado caiu fora. A Nora tinha dotes físicos e intelectuais exuberantes e logo trouxe outro namorado. Pro outro namorado também foi precis
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19 agosto
Um aniversário diferentemente especial
Algumas pessoas não costumam dar muita importância a datas comemorativas. Conheço pessoas que parecem fazer questão de esquecer até o dia de seu aniversário. Datas que marcam o dia de uma profissão, de um santo padroeiro, de um clube de futebol, de um município e de uma batalha vencida. São tantas as datas a serem lembradas, que se torna difícil até mesmo ao mais organizado dos mortais saber o que será comemorado nesta ou na próxima semana. Mas, para mim,
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19 agosto
Desperdício de amar
Dandara tinha uma casa espetacular. Sendo minha melhor amiga, me chamava várias vezes para visitá-la. Brincávamos e esquecíamos do tempo. Dormi algumas vezes lá durante as férias. Sua mãe gostava de mim porque eu era educada e estudiosa, talvez pensasse que eu seria uma boa companhia para a filha. Seu pai era arquiteto de “mão cheia”, como dizia mamãe. Era uma família endinheirada, diferente da minha, que não chegava à classe média. Nunca percebi qualquer
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17 agosto
Poema #82: A mim ensinou-me tudo
“… e a monotonia da vida será para mimcomo a recordação dos amoresque me não foram advindos,ou dos triunfos que não haveriamde ser meus”Fernando Pessoa O pouco que sei,sei de o não saber,mas só o de sentire nunca poder alcançar. Tudo passou por mimcomo as águas de enchente,mas vi tudo fluir e o vaziode nada reter nas mãos. Se escrevo é só uma fórmulade sonhar possibilidadesenormes, como se fossempassos de uma criança deitada. O Jardim Simultâneo
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16 agosto
Mortos, vivos, morcegos e frutas | pausa (in)disponível
Uma mesa impossível: um tampo que não é firme (minha cama); três cadeiras – eu, que me sento com as pernas esticadas e sobrepostas. Uma única taça de vidro (a que comprei no mercado, porque na minha casa de areia temporal em quase formato pirâmide não tinha nenhuma) com o vinho (o que dividi há duas semanas, hoje esvaziado com outros – é preciso beber do mesmo lugar, a cama). De maneira quase indecente, Hilda Hilst e Victor Heringer se juntam a mim nesse m
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16 agosto
Poema #19: Presente
O presente vivido é quase o infinito…o presente amado a eternidade incompleta.Ridícula a angústia, o cansaço tolhido,começo de caminho, meia-volta discreta… Ansiedade é pequena eternidade no presente,pedras e esforço inútil, chamado repetitivo.Tormento, fingimento, ser em estar ausente.Velho e novo, refundidos, abertos num livro… Os grãos de areia podem ser incontáveis,mas o mar recolhe um a um, a toda hora.O resto são espumas, simples brincadeira… Do temp
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16 agosto
As tentativas de WALDINEIDE
A primeira vez que tentou se matar, tinha dezoito anos. Entrou no mar de São Conrado e nadou até cansar e perder as forças. Foi resgatada pelo helicóptero dos bombeiros. Aos salva-vidas, envergonhada, não revelou a tentativa malfadada de suicídio. Ironicamente, ainda agradeceu por ter sido salva. Waldineide amaldiçoava o pai pelo nome recebido. Seu Waldir era porteiro de um prédio na Barra da Tijuca. Ele, a mulher, Neide, e a filha moravam num barraco na R
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16 agosto
A Vida em Bullet Points
Dizem que “a fila anda”. Talvez ande nos relacionamentos. Já na minha lista de tarefas, ela parece ter criado raízes. Ela nos persegue pelo celular, mandando alertas sonoros de tudo o que ainda não foi completado. Para quem prefere o caderninho, nem isso resolve: as tarefas não riscadas ficam ali, silenciosas, aguardando o momento de despertar a culpa. Tenho a impressão de que as listas de tarefas se reproduzem durante a madrugada. Vou dormir c
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15 agosto
INSTINTO
Toquei a campainha e aguardei cerca de dois minutos até que viessem atender. A longa espera aumentou meu nervosismo. Sim, num caso desses, dois minutos constituem de fato uma longa espera. Desculpando-se pela demora, Augusto abriu a porta. Eu poderia ter interfonado antes de subir, mas, depois de refletir por alguns instantes, decidi que a atitude mais acertada seria aparecer sem avisar. Melhor que ele ouvisse o que eu tinha a lhe dizer com o espírito desa
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14 agosto
O MORRO
No centro da cidade ergue-se um estranho morro. Verde e coberto de flores o ano inteiro, lar de pássaros e vários animais, mas estranho: ninguém o escalou até hoje. Contam os antigos que muitos tentaram, mas nenhum retornou; redobraram as tentativas, a subida não oferecia perigo algum; julgou-se que eles haviam se perdido, mas onde? Não se conseguiu saber por que não regressavam. Contra todas as recomendações, João e Manuel resolveram subir o morro. Fui co
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13 agosto
A vida em compasso de espera
Minha avó Penélope perdeu o marido na guerra. Isso é o que ela costumava dizer, embora algumas vizinhas, maledicentes que só, digam que ele saiu por aí a viajar pelo mundo sem pensar em voltar para casa. Não se falava muito sobre isso na família. A verdade é que quase não conversávamos sobre nada. Nos contentávamos em ouvir. Um homem deixou casa e família e não deu mais notícias: para nós, essa informação era suficiente, bastava. Quem perde maridos ou pais
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13 agosto
Coisas duráveis
Há uma pergunta que atravessa os séculos sem nunca envelhecer: se tudo passa, o que nos resta pensar, e porque valorizar o que temos e vivemos hoje? Os gregos chamavam esse fluxo ininterrupto de panta rhei (tudo flui) e Heráclito o personificou no rio onde jamais nos banhamos duas vezes na mesma água. A efemeridade não é apenas uma característica acidental da existência, ela é a própria textura. Talvez o primeiro espanto filosófico diante da brevidade das
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13 agosto
Poema #08: o velho tênis nos fios elétricos
só Deus & o Diabosabemo quanto eu caminheiaté chegaraquinesse fim de mundo.hojejogueimeus velhos & gastospassosno altodos fios elétricos. acendi uma luz no fim do beco.
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12 agosto
A Vida Privada e o Transporte Público
Há bastante tempo, penso em falar sobre um hábito que se tem mostrado cada vez mais comum entre nós, brasileiros. Minhas numerosas procrastinações e desistências ocorreram menos por causa da complexidade do costume do que pela virtual controvérsia que ele carrega em si. Haja vista o uso generalizado de tal prática, suponho que poderei ferir certos egos e criar algumas animosidades. Mas assumo que quem vive de dar pitacos pretensamente sociológicos deve enc
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12 agosto
Sala de estar
A sala de estar da casa da minha avó era o ponto de encontro da família aos sábados. Chegávamos cedo, no começo da tarde, e saímos de madrugada. Era uma festança danada. Os mais velhos sentavam-se e contavam piadas e lorotas, enquanto jogavam cartas e tomavam cerveja, fumando – de quebra, também, inundando a sala de fumaça (naquela época era assim; até cheguei a tomar uns goles de cerveja, dados por meu pai, sem cerimônia). Esporadicamente, a reunião se es
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11 agosto
O último ônibus para o Rio
Encostado ao trailer, pedi a última cerveja. Proença disse que para ele estava bom. Pagou sua parte. “O ônibus é às nove. Tu tá ligado, né?”, me lembrou, já saindo e me dando as costas, percebendo que eu ficaria por ali ainda um pouco mais. Fiz que sim com um gesto rápido de cabeça para o lembrete do horário do ônibus. Passavam das sete da noite. Ainda havia um resquício violeta de luz do dia no horizonte, sumindo no mar naquele anoitecer de domingo de qua
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