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maio- 2026 -17 maio
Overkill em copacabana
Sol, pé na areia, água de coco, um domingo ensolarado. Entre o barulho do quebra-mar e a água que cai cantando, à la carioques, do chuveiro de um quiosque na Orla, Ludmila me cutuca do alto da caixa de som: “a vida é louca, mano, a vida é louca. Me perdi pelo caminho…” É fácil perder seu controle diante do mar de Copacabana. É fácil despir-se de roupas e da mente rotineiras, deixar o corpo à mostra, como um da gema — mesmo que o bronze se mostre, no fim do
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17 maio
Não fale com estranhos
Natália percebeu a ausência logo ao acordar.Não soube dizer exatamente o que faltava — apenas sentiu o vazio. O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, a luz da rua filtrando pelos galhos da árvore, desenhando sombras no teto, o ventilador rodando preguiçoso. Mesmo assim, algo tinha desaparecido. Sentou-se na cama, ainda confusa. Durante anos acordara com aquela presença discreta ao lado: um companheiro silencioso que cochichava cautelas, lembrava pe
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17 maio
Lisboa revisitada
Em Lisboa aparentemente há mais igrejas do que fiéis porque algumas deixaram de ser usadas para fins religiosos. Não é um fenômeno português, pelo mundo há vários casos de igrejas que se transformaram em museus e casas. Foi assim com a Igreja de São Julião: transformou-se no Museu do Dinheiro. Cada vez que vou a Lisboa escolho visitar algum museu menos divulgado no circuito turístico. Há muitos. Alguns são boas surpresas, outros nem tanto, mas é sempre agr
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17 maio
Desistências e permanências
A sala de aula, em algum momento, ficará vazia. Quando isso ocorrer, morrerá um país… A história do professor no Brasil é feita de desistências e permanências cotidianas. Desistências que fazem parte do diário, do quadro e do boletim. Permanências que fazem parte do olhar, do sentir e do fazer… Desisto de ser professor toda vez que as planilhas e plataformas me dão mais retrabalho e acúmulo de coisas e mais cobranças, tirando mais o meu tempo e me distanci
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17 maio
ISABELLE DE JOUR
Sou feia. Tenho 1,60 e peso 82 quilos. Um pouco gorda também. Prefiro me considerar robusta. Meu maior complexo, no entanto, são os pés: calço 40. As pessoas zombam de mim e dizem que não ando de sapatos, mas de skate. A altura, resolvo com saltos altos, e os pés enormes escondo no tênis. Se pudesse tomava banho e dormia com eles. A gordura só com regime, que toda vida tento começar e nunca vou adiante. Canetas emagrecedoras estão muito caras. Trabalho no
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16 maio
Entre páginas e anos
Desde pequena, sempre gostei de escrever frases soltas, inspiradas ao olhar uma cena comum do cotidiano ou ideias que surgiam assim, sem aviso. Meus cadernos de escola não tinham páginas vazias. Eu fazia meus diários ou anotações onde houvesse um espacinho limpo. Ao final do ano, meu tesouro era guardado. Tudo preenchido com minha letra de menina tímida na vida real, mas confiante nos pensamentos, nas dúvidas e nas certezas com que eu olhava o mundo. O est
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16 maio
Cuidado, Dotô!
“É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar” (Geraldo Vandré) Seu dotô, me desculpe invadir assim seu sossego. Não se avexe com meu aspecto franzino e meu jeito simplório, dotô. Não vou assaltar, nem pedir esmola, só levar uma prosinha. O assunto é breve mas muito sério. Vejo pela sua roupa e sua aparência que o senhor foi abençoado pelo destino. As coisas com que o senhor gasta num mês eu não tenho condições de comprar em 10 anos ralando dur
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16 maio
A FUGA E A FESTA
Pensa bem, Marcelo, você acha que vale a pena? Você pode se arrepender. Acabar com tudo assim, por uma bobagem. Você precisa concordar comigo que se trata de uma bobagem, poderia ter acontecido com qualquer um. Me dá a impressão de que está procurando uma desculpa. Você sente prazer em me ver implorando. Eu não me importo, eu me ajoelho se você quiser. É isso que você quer, Marcelo? Marcelo, olha pra mim, presta atenção, alguém como eu não se encontra em q
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15 maio
O derradeiro encontro
A manhã começou triste para ele. Era o dia em que finalmente se encontraria com ela. Não seria um compromisso qualquer nem trivial, até porque demorara um pouco para conseguir marcar a data. A moça se mostrara relutante em ceder ao seu pedido até que pela constante insistência dele sua resistência foi vencida. Este seria um dia diferente dos outros. Um dia marcante em sua vida porque finalmente teria a conversa pedida por ele há muito tempo e adiada por el
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15 maio
A metafísica do corpo
Não tenho papas na língua, falo palavras gordas de ouro ou bosta. Não quero brumas, essência incognoscível. Qual é a verdade? Quem sou eu? Que Deus, que sonho me move? Falo do que posso, a minha história é clara e suja como os olhos do homem. Vi claramente o mundo dos mortos. Voltei molhado do limo primitivo, trouxe a baba da inocência nos dentes. Derramei o meu sangue sujo no mundo dos mortos. Não tenho papas na língua, falo do sol e da noite como quem sa
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14 maio
Poema #01: Espetáculo
na calçada dos meus olhosvocê passa um palavrão altosaina boca do becoda minha mente a ponta-metal do teu saltoarrebentao meu tímpano-peitonum som estridente e no meio do palcoperco todo o sentidofeito fã cego idolatrando artistaem seu show ao vivo
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14 maio
Duas eternidades de escuridão
O mais belo dos arcanjos mostrou o risco da valorização da beleza, ao se tornar um ser que insistiu com a ideia do eu, em detrimento de nós, desenvolvendo a vaidade pela primeira vez. O nome dele é Lúcifer. Ao se olhar no espelho, se achou bonito, e como portador da Luz, se achou mais bonito que os outros. Sentindo-se individuado chegando ao ponto de dizer eu, quebrou o ritmo da criação, que havia sido concebida como nós. Porque todos seres criados eram nó
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14 maio
A vida dos outros
Quando Januária, a empregada, entrou na sala e anunciou que a comida estava na mesa, ele, o vizinho do prédio em frente ao nosso, continuava na mesma posição e nada tinha mudado desde a manhã: só de cueca, sentado numa cadeira frente a um grande espelho, a arma apontada para o lado direito da cabeça. Não se decidia. Às vezes depositava a arma sobre a escrivaninha e dava passos nervosos na sala, a cabeça entre as mãos. Em seguida sentava-se novamente, olhav
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13 maio
Mabel
Tenho certeza de que Mabel se esqueceu de mim. Já são muitos anos sem a ver, pelo menos. Fizeram com que se esquecesse, decerto. Eu fui bem quisto na sua família, mas depois passei a ser persona non grata – e o verdadeiro motivo não sei. O momento da ruptura foi abrupto, desproporcional. Meu pai havia falecido há dois meses. Isso foi em meados de 2011. E a namorada não teve a hombridade de estar comigo. Foi um deus nos acuda, com brigas e confusões – para
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13 maio
A bolita, o conflito e o mundial vendido pelo Guarany de Bagé
Fora da província, poucos conhecem a história. Nos jornais soltam abobrinhas, cogitam motivações econômicas e até levantam causos das antigas sociedades secretas que, segundo eles, ainda dominam o mundo. Na verdade, não é bem assim. As coisas são mais simples do que parecem. Os noticiários inventam essas bobagens para atiçar a curiosidade do povo, para vender assinaturas e para cobrar cada vez mais caro pelos espaços reservados aos anunciantes. No fim das
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11 maio
A grama do vizinho é artificial
Donald está falando de Ovnis na mídia mainstream para desviar a atenção para coisas muito mais loucas. Quando Zími era criança, seu pai lhe mostrava um grupo de moradores de rua e dizia: “Você vai se juntar aos dingos se for irresponsável. Não estarei aqui para sempre, portanto, estude e trabalhe.” Mas Zími sabia que no apego de um homem por sua vida, há alguma coisa mais forte do que todas as misérias do mundo. Seu pai o estimava como aqu
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11 maio
Poema #68: Sobrevivência no quarto
ITenho comigomilhões de cadáveresque apodrecem seus ossosjá destituídos do ímpetoque movimenta os homens vivospara a conquista de algo. IITenho comigoa inércia do corpoque aniquila o meu sonhojá despojado da vidaque antes impedia o planode me alimentar desses ossos. IIIO que sou hoje é esta certezade não ser senão em mim.O que sou hoje é este impulsoem preservar o que já está desfeito.O que sou hoje é esta incapacidadede desempenhar papel no mundo.O que so
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11 maio
Poema #01: Incondicional
Entre tantas vozesTantos abraçosEntre tantos conselhosEm meio ao cansaço Quando sorrioOu quando choroSe me surpreendoOu me apavoro Se a alegria é tantaOu a decepção é muita,Importa ter o teu colo, Mãe,Pra valer a pena continuar.
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10 maio
Inopinadamente, flores
— para minha mãe, Lucia. Terra fria e emudecida. Inopinadamente, fibras rompem o ventre silencioso, como unhas recém-nascidas. Entre o solo e a grama, um ponto vibrante. De um botão, eclode uma cor; formas e aromas a batizam ‘flor’. Surgem os rótulos, retalhos únicos entre tantos iguais, infinitas espécies distintas. Todas, entretanto, flores. Do inesperado, brotam. Despontam singulares. Soam vida. Encantam. Por um breve, quase memorável períod
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10 maio
Dia das Mães
Mãe. Palavra pequena que significa tanta coisa! Abraço, afago, aconchego mesmo no cansaço, presença, cuidado… Mãe. A matemática de contar feijão! Um a um na palma da mão… Mãe. Saber a palavra certa ou não ter palavra alguma e mesmo assim, falar com os olhos. Mãe. Toda mãe tem seus silêncios! E os silêncios continuam a dizer coisas, só que como um sussurro… Há coisas que não precisam ser ditas com palavras, não é? Há coisas que chegam assim, num sussurro… N
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10 maio
O outro pé da meia
Noite fria, escura.Abre a portinhola. A roda gira.De cabeça coberta, estica os olhos para os dois lados sem virar o rosto.Ninguém à vista. Por um momento titubeia. Mas já está feito. Não há volta.Segue em passadas trôpegas seu caminho. **** Sentindo um ardor na boca do estômago, Stefano serviu-se de uma caneca grande de café, entrou no quarto e fechou a porta. Permaneceu alguns minutos diante da janela, até que o calor da bebida agasalhasse um pouco o cora
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10 maio
Rosane desistiu
Meu nome é Rosane. Detesto quando me chamam de Rosana. Friso sempre o “e” no final. Não sou uma mulher exigente. E a carência está me fazendo ficar ainda menos. Sinto falta de transar, sinto falta de romance, sinto falta de um homem a quem possa admirar. A questão é que não me encanto com facilidade. Não será um abdômen definido, um bíceps malhado ou um rostinho perfeito que me fará ficar animada. Homens com barriga, pouco cabelo, aceito desde quemostrem v
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9 maio
A cartomante do fim da rua
1. A casa do fim da rua ficou vazia por anos. Sete, para informar com precisão. Dizia-se pela vizinhança que algo terrível havia ocorrido no local. As teorias eram muitas, mas ninguém nunca soube de fato o que aconteceu lá dentro. Um dia, uma caminhonete estacionou na frente do imóvel e começou a descarregar a mudança: um fogão, uma geladeira, uma cama, uma mesa, algumas cadeiras, um abajur, um ventilador, duas poltronas e uma ou outra tralha a mais. Exata
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9 maio
Mundos Paralelos
As pessoas se levantam cedo, tomam seu café e vão trabalhar. Trabalhos variados, perto de onde moram ou longe talvez; trabalhos fáceis, difíceis e até penosos. Existe um ditado muito popular que diz: “O trabalho dignifica o homem.” Não sei ao certo quem primeiro disse isso. A frase atravessou o tempo, ganhou força, repetição e certo prestígio moral. Embora, em alguns momentos, também pareça servir para romantizar excessos e medir a dignidade humana apenas
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9 maio
CARAS E COROAS
“Esse cara sou eu” (Roberto Carlos) Esse texto vai para aqueles que, como eu, já foram caras e, sem aviso prévio, foram remanejados para a turma dos coroas. Devo ter faltado à assembleia deliberativa que cravou essa arbitrária realocação, à revelia dos afetados. Acho que criaram as regras desse jogo para me infligir essa fatalidade metafísica em que o resultado do arremesso da moeda do destino estabelece ‘cara’ para a fase ascendente da existência e ‘coroa
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8 maio
Ulisses à beira da lagoa Rodrigo de Freitas
Alguém já disse que um dia de sol no verão do Rio de Janeiro chega a ser musical. Há no ar uma atmosfera positiva, de bom humor e de vontade que a vida dê certo. As pessoas circulam mais leves, esbanjam-se sorrisos e há uma eletricidade positiva no ar conectando a todos. O clichê que diz que o carioca é um ser solar se encaixa com perfeição quando chega o verão. Esse era justamente um domingo desses. Ele acordou cedo desperto pela claridade intensa que inv
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8 maio
A GAIVOTA
Noite após noite, eu acordava com o grito da gaivota, lancinante, como se viesse de um abismo de loucura. Eu me debruçava no alto do farol, e via lá embaixo, estatelada numa pedra enorme, batida pelos vagalhões, a gaivota. A pedra brilhava banhada pelo sangue da gaivota. Eu não podia dormir com o terror que o grito e a imagem da gaivota infundiam. De manhã lavava e lavava a pedra, com uma esponja de aço, que me comia os dedos, fazia de tudo para limpar o s
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7 maio
Foi assim que tudo começou
No primeiro dia, vassoura na mão, limpou a casa, caiou as paredes, pendurou as cortinas, distribuiu os móveis, arrumou os livros, pintou o número na porta, colocou o tapete, forrou o sofá e viu que tudo isso era bom. No segundo dia estendeu os fios elétricos, instalou interruptores novos e brilhantes e, quando os ligou, viu que a luz se fazia clara, forte, iluminando tudo, criando sombras nas paredes brancas, e viu que isso também era muito bom. No terceir
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7 maio
Um gênio e um louco
Em 1879, o Professor James Murray candidatou-se para liderar a tarefa de elaborar o célebre Oxford Dictionary of English. Monstruosa empreitada que consistiu em colocar toda a língua inglesa em livros, bem como a etimologia das palavras e o sentido de cada termo. O filme “O Gênio e o Louco”, que foi aos cinemas em 2019, contou essa história: um grupo de sábios reuniu-se para resolver a pendência de 20 anos da Universidade de Oxford. No papel do Dr. William
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6 maio
Prisão
Fábio não é digno de ser dito nessas linhas, mas a minha psicóloga cruel pediu para contar as artimanhas do malfeitor, para eu elaborar, mais uma vez, essa situação que me inferniza. Ainda nos anos 90, Fábio era dono de uma videolocadora. Eu vivia lá por conta dos jogos de videogame, quase sempre sem dinheiro e esperando a boa vontade de um amigo abastado para jogar. Fábio, de início, não me perturbava. Ficava olhando de longe, como se eu fosse um rato. Às
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