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jul- 2026 -29 julho
Os laços
Os laços de Maria me enfeitiçavam. Eles me atraíam como uma medusa. Não era possível olhar diretamente nos seus olhos. Havia, de minha parte, uma tremenda vergonha. Ainda tinha um atrativo peculiar, o aparelho ortodôntico, com uma linha de aço que ficava para fora da boca, como um ser especial, de outro mundo. Conhecemo- nos desde a infância, mais especificamente no quarto ano, quando ela veio estudar na minha sala. A sua imagem me paralisou, ao entrar atr
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29 julho
A tirania da coerência
Desde cedo, acostumamo-nos a avaliar a coerência como uma elogiável característica a ser vista nas atitudes de algumas pessoas. Em sua ausência, as divergências entre o que se diz e o que se faz costumam ser apontadas com a virulência de que apenas os mais empedernidos moralistas dispõem. Mas uma vivência menos tirânica e intransigente pode sugerir que todos nós, sem exceção, refletimos em nossos atos as próprias contradições internas. Diferentemente de má
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27 julho
Poema #79: A cor suja
Mil noites de sonoe o abismo intactoA beleza da árvoree do peixeA máscara da maldadefiltrada pelo telefoneO sorriso do triunfo provisórioA dor latente e as pancadas na paredeA pedra que dissolve o leite. A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
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27 julho
Semente
A ladeira de paralelepípedos cria obstáculos até o ponto de ônibus. Mal amanhece, o café preto, o banho, a escova de dentes. A roupa, cuidadosamente separada no dia anterior, e a corrida de sempre para não perder a condução. O corpo magro vai contra o vento, e sopra uma canção nos seus ouvidos. Ela cantarola. No trânsito, procura na paisagem de sempre algum novo detalhe e, invariavelmente, encontra. Tudo está no mesmo lugar, mas seu olhar é novo a cada dia
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26 julho
Diário contemporâneo in 3 languages
– A toast to every single person in this crazy world, Olivia! – A toast to you, Bia! This is really big and kind! Assim inauguro uma noite de quinta-feira, com unbicchierino di vino rosso – ed un altro, chiuso e raffredattoin sè nel frigo, rosa – e minha ligação diária para Olivia, uma cineasta londrina que nunca se lembra direito do meu nome ou da minha história, ou qualquer coisa mínima dentro do guarda-chuva da mi
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26 julho
VANILDA não será mãe
Acho que estou me tornando uma sociopata. Só fico à vontade quando estou enfiada no meu mundo. Concentrada, recolhida comigo, sem interferências. Os amigos me perguntam, Vanilda, você não vai conosco? Vanilda, você está tão sumida; Vanilda, você parece uma velha… Odeio ser colocada contra a parede. Será que não veem que preciso de reclusão? Não é pela idade, mas por escolha. A minha fase antissocial começou depois que constatei que odiava crianças. Podia s
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25 julho
Habite-se!
Habitar é um estado de bem-aventurança. Nômades ou sedentários, sempre procuramos o nosso lugar. Talvez a casa seja a palavra mais valiosa do mundo, ao lado do amor. Vai muito além de um conjunto de paredes, cômodos e teto. O corpo também é casa, a pele que habita a superfície da sua cor, sente frio e calor; a alma que habita a profundidade, sente no exílio, falta e saudade. Polvos, moreias, tubarões, passarinhos, também têm seu ninho, sua toca. A casa é o
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25 julho
A Despedida
Estranho ver você aí deitado, fisionomia serena. Por que você não era assim a maior parte do tempo, Samuel? Tenho a impressão de que você vai se levantar a qualquer momento e começar a falar aquelas coisas sem sentido que costumava dizer. Você não percebia que seus argumentos eram frágeis, sem coerência? Suas cenas de ciúme bobas. Samuel, aquilo era apenas meu trabalho, era tudo profissional. Sério. Nunca houve nada. Nada mesmo. Olha em volta, não veio qua
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25 julho
O coração negro do futebol
Àqueles que acompanharam a Copa do Mundo não deve ter passado despercebida a presença maciça de jogadores negros nas partidas. Não me refiro obviamente às equipes da África Subsaariana (Cabo Verde, Costa do Marfim, Congo…) que, por sinal, a cada edição vêm melhorando seu desempenho, enfrentando de igual para igual seleções consagradas do Primeiro Mundo. E sim às poderosas esquadras europeias, que, apesar do sobe/desce dos últimos anos, permanecem na
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25 julho
O que fica?
Ganhar é sempre bom? Depende. Pergunte a quem subiu na balança após um fim de semana prolongado: — Ganhei dois quilos. Nesse caso, “ganhar” não soa como vitória. Também se perde um compromisso, a paciência, o medo, uma oportunidade ou alguns quilos. A palavra é a mesma, mas o sentido muda conforme o que vai ou fica. As palavras têm faces. Como moedas, pessoas e quase tudo. Outro dia ouvi alguém dizer: — Passou. Passou o quê? A Copa? A esperança da Argenti
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24 julho
A Revelação dos Porquinhos da Índia
Coautora: Letícia Hyppólito* Na casa da minha professora particular há dois porquinhos da índia. Eu não costumo ter muito contato com eles, eu apenas os via no Pet Shop. Os porquinhos da índia são pequenos roedores, mas são majestosos porque são fofos e lindinhos (e também são descolados: fazem de 10 a 12 sons diferentes!). Porém, o que descobri sobre eles vai te surpreender… Em uma conversa com a minha professora, dona dos porquinhos, ela me fez uma revel
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24 julho
Karim, a alegria da feira
Ele chega com cara de sono. Não está tão cedo assim, são quase onze da manhã. A feira já vai bem animada quando o garoto surge entre a barraca de flores e a primeira de frutas. Vem com a mãe e a irmã mais nova no carrinho de bebê. Karim está com o cabelo desarrumado. Parece que foi tirado da cama agorinha. Não reclama, não faz birra. Segue obediente ao lado da mãe. Olha ao redor e vê mais pernas e a beirada dos tabuleiros armados com frutas, legumes e tudo
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23 julho
Memórias gravadas nas paredes
As paredes de uma casa de infância raramente são apenas tijolos e tinta. Em Belford Roxo, onde o afeto era escasso e o ódio falava mais alto que os abraços, a literatura se fez presente para mim não na lombada de livros encadernados, mas no reboco. E, mais especificamente, na porta do banheiro. Acho que aquele era o refúgio do meu genitor, de quem à época ainda valia a pena chamar de pai. O lugar onde ele se trancava, acendia seus baseados e tentava fugir
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23 julho
O home e o neno
Em novembro de 1957, nos cais de Ferrol, no norte da Espanha, um instante de dor humana pura se desenhou no ar frio da manhã. Uma mãe partia deixando para trás, seu marido, um filho e a vida inteira que conhecia, para seguir rumo a um oceano que prometia futuro, mas cobrava despedidas irreparáveis. Ali, entre malas gastas e lenços úmidos, o fotógrafo Manuel Ferrol ergueu discretamente uma câmera escondida sob o casaco. O que ele capturou não foi pose teatr
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23 julho
O trapezista
No ponto mais alto do andaime lateral, aonde chegou depois de subir 42 degraus com ar de vitória e vestindo a calça apertada de malha branca, o trapezista faz uma reverência ao público, que aplaude mais por medo do que por entusiasmo, com a emoção presa na garganta. “É muito alto, ele não vai conseguir”, sussurravam os espectadores, a boca seca de tanta aflição. Era o número final do espetáculo, o mais aguardado, o fecho perfeito para uma noite de encantam
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22 julho
A Subversão de um Insone
Desde criança, Armando sente verdadeiro fascínio pelas noites. Segundo ele, é de noite que sua mente consegue trabalhar mais eficaz e diligentemente. Independentemente da estação do ano e do lugar onde se encontra, noites quentes, frias, chuvosas e estreladas sempre despertam em seu interior o gozo pela vida e a curiosidade pelo desconhecido. Mais do que uma contemplação serena do universo e de seus mistérios, Armando embarca em excitantes e intermináveis
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22 julho
Expectar
A cadeira vazia é sinal de luto, a falta do desejo. Morreu muita coisa em mim desde que Maroca se foi. Só tínhamos a nós mesmos, porque nossa família se dispersou, e nossos parentes moram distante, em outro Estado – é uma história longa, mas vou resumir: passei num concurso para um bom cargo no DNOCS; nessa época, namorava com Maroca, e, para assumir o meu posto, logo tive de me mudar e me casar com a mulher da minha vida. Lembro, repetidamente, dos bons t
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20 julho
Tule preto
Ela se trancou no quarto, triste que estava. Fechou atrás de si a porta. Aos poucos criou para si um mundo à parte. Mas o sol teimava em entrar pelas frestas da janela todas as manhãs. Fechou as janelas. Teceu com esmero um vestido longo e preto, de modo que seu corpo não mais se mostrasse. Lá fora, o tempo encarregava-se de transformar a vida. O vento sempre trazia mudanças. Dentro, tons sobre tons cuidadosamente escolhidos: todos escuros. Rosas de
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20 julho
Poema #78: Chuva Noturna
A chuva no asfaltoleva papéis/cigarrose o vômito de ontem.Amanhã novos resíduosvirão para preenchero vazio do meio-fio.Areia (À Fragmentação da Pedra)
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19 julho
Escaneie para comer
Fui almoçar com uma amiga. O garçom chegou sorridente, apontou um adesivo colado na mesa e disse: — O cardápio está no QR Code. Ela suspirou, sacou o celular da bolsa e começou a procurar o ícone da câmera. Fez uma cara de quem acabara de perder o apetite. — Esqueci os óculos de leitura em casa. Esses cardápios parecem bula de antibiótico. — Que saudade de um cardápio de papel. Bastava levantar os olhos. — Esse peixe é bom? — O risoto serve duas pessoas? —
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19 julho
Margarida à janela
A vida adulta não nos prepara para o entusiasmo. Em essência, a adultez deveria nos expandir; acrescentar novos cômodos à casa que temos por dentro para que aprendêssemos idiomas inéditos do corpo e da alma, em vez de interromper indefinidamente as nossas formas de sentir. Margarida, que tem nome de flor, sempre foi na direção oposta: cresceu para polinizar. Sentia-se inebriada por novos amanheceres, novos livros, novas promessas, novos começos. Novos rost
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19 julho
A nora de REBECA
Quando completou 65 anos, Rebeca deu uma festa em casa e chamou o filho, a nora e os netos. Morando sozinha, não podia se dar ao luxo de extravagâncias na cozinha, então encomendou salgadinhos e um bolo de chocolate com nozes, que o filho amava. Pediu que não chegassem tarde por causa das crianças. Ela também queria dormir cedo. Depois da novela das oito, que começava nove e meia, normalmente era a hora em que o sono chegava. Tinha recusado o convite do fi
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19 julho
Somos Latino-Americanos
Somos latino-americanos! De sangue quente e Sol! Brasil, Bolívia, Peru… Um céu lindo de azul! Somos latino-americanos! De marcas antigas coloniais, línguas americanas, línguas ancestrais. Somos latino-americanos, de rostos e cores particulares, singulares, mas, ao mesmo tempo, diversos: índios, negros e brancos! E somos muitos! E Somos tantos! Somos todos José Arcádio Buendia, formando Macondos em vários lugares! Em sonhos e em outras realidades! México,
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18 julho
Quem falou?
Há palavras e frases que, de tanto serem repetidas, acabam se esvaziando. Ou talvez já nasçam assim: sem sustentação. Uma delas sempre me intriga. — Descansou. Não falo do descanso de um fim de semana, do fim do expediente ou das férias. Falo daquele outro. Morreu? Coitado… descansou. Morreu e descansou. Sempre me pergunto: quem decidiu isso? Quem garante que aquela pessoa estava cansada? Talvez ainda tivesse planos, uma viagem marcada, um livro aberto sob
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18 julho
O último dia
O dia ainda não havia amanhecido quando o rádio anunciou neve no mês de novembro pela primeira vez no Brasil. Naquela mesma noite, por volta das 7 e 30, Fubá apareceu sozinho e inquieto, ostentando uma ferida no dorso. Amália logo pensou no mau pressentimento sofrido pela manhã. Sentiu-se culpada, achou que deveria ter tentado me impedir. Denise e Isabel ainda dormiam. Me levantei às 6, tomei banho, comi uma banana e um pedaço de pão, me servi do café prep
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18 julho
Era só uma brincadeira
Cara, na moral, foi só uma zoação. Olha o tamanho da confusão que armaram pra cima da gente, mano! Não dá pra entender esse povo fazendo essa zoeira toda. Dá um tempo! Parece que nunca tiveram 14 anos. Era só para tirar um sarro da tia na sala de aula, meu. Essa chata que vive querendo enfiar um monte de caretice na cabeça da gente, uns papos de cidadania, respeito, sociedade, essas coisas. Uns troços nada a ver, que não dão futuro, não rolam grana, não dã
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17 julho
Conversas picadas por aí
Passo por uma mulher que fala ao telefone sobre alguém que lhe foi desagradável mas não escuto o motivo da reclamação. A voz dela fica na minha cabeça e imagino o que teria acontecido. E mais, se de fato ela tem razão em se sentir assim ou apenas recebeu de volta o que deu à outra. Não dá tempo de seguir adiante na elucubração porque a voz de um rapaz invade meus pensamentos e na hora sou levado a prestar atenção no seu drama universitário que ele expõe a
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17 julho
O tio perdido
Encontraram o tio Pedro perdido na estrada, perto da cidade vizinha. Estava velhinho, meio caduco; as pernas trôpegas, mal se aguentava em pé; ninguém entendia como tinha chegado até ali, arrastando na poeira da estrada os chinelinhos gastos. Morava com a Maria, no asilo; não porque fosse um asilado: Maria era a filha; ela e o marido trabalhavam no asilo; moravam numa casinha bem na entrada. – Por que, pai? – ela perguntou, sabendo que ele não saberia resp
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16 julho
As folhas mortas caídas no chão
Construí minha casa sob a copa generosa da maior árvore do terreno, bem junto ao tronco. Saboreei por antecipação a sombra refrescante que teria nos dias de calor e isso me deu grande alegria. Nivelei o chão, ergui as paredes, pintei tudo de branco. Estava muito bonita a minha casa, mas desde que me mudei não faço outra coisa a não ser varrer as folhas secas do assoalho. Esta é a lembrança mais antiga que tenho a partir do momento em que passei a habitar l
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16 julho
O Tempo Dobrado na Gaveta
Tenho visitado a geriatria onde mamãe está passando uma temporada. A sala de visitas tem cheiro de álcool gel e saudade. As poltronas são de plástico lavável, cor de abóbora, uma delas é laranja, que tenta ser alegre mas não engana ninguém. Ali, todo final de semana os filhos se revezam na cadeira ao lado de outros idosos acamados. Dona Alzira, a vizinha de quarto de minha mãe, já não pergunta que dia é hoje. Perdeu a conta do tempo, lá pelo segundo ano de
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