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jul- 2026 -17 julho
O tio perdido
Encontraram o tio Pedro perdido na estrada, perto da cidade vizinha. Estava velhinho, meio caduco; as pernas trôpegas, mal se aguentava em pé; ninguém entendia como tinha chegado até ali, arrastando na poeira da estrada os chinelinhos gastos. Morava com a Maria, no asilo; não porque fosse um asilado: Maria era a filha; ela e o marido trabalhavam no asilo; moravam numa casinha bem na entrada. – Por que, pai? – ela perguntou, sabendo que ele não saberia resp
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16 julho
As folhas mortas caídas no chão
Construí minha casa sob a copa generosa da maior árvore do terreno, bem junto ao tronco. Saboreei por antecipação a sombra refrescante que teria nos dias de calor e isso me deu grande alegria. Nivelei o chão, ergui as paredes, pintei tudo de branco. Estava muito bonita a minha casa, mas desde que me mudei não faço outra coisa a não ser varrer as folhas secas do assoalho. Esta é a lembrança mais antiga que tenho a partir do momento em que passei a habitar l
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16 julho
O Tempo Dobrado na Gaveta
Tenho visitado a geriatria onde mamãe está passando uma temporada. A sala de visitas tem cheiro de álcool gel e saudade. As poltronas são de plástico lavável, cor de abóbora, uma delas é laranja, que tenta ser alegre mas não engana ninguém. Ali, todo final de semana os filhos se revezam na cadeira ao lado de outros idosos acamados. Dona Alzira, a vizinha de quarto de minha mãe, já não pergunta que dia é hoje. Perdeu a conta do tempo, lá pelo segundo ano de
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15 julho
Menino São
Ricardinho viajou para a China e vai ficar, pelo menos, uns seis meses lá. Foi a estudo. Ele é um menino que gosta de se atualizar, para atender melhor os seus pacientes, com técnicas modernas. É médico, e faz cirurgia de mão, sua especialidade. Disse a mim e à sua mãe que vai trabalhar/estudar no melhor centro de pesquisa do mundo, no que diz respeito à tecnologia e à medicina. Ele sempre teve uma inclinação para cuidar de gente. Quando menino, fazia “mas
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15 julho
A arte de não se levar a sério
Poucas são as pessoas que realmente sabem como não se levarem a sério. Infelizmente, não faço parte desse privilegiado grupo. Mas posso afirmar que esses seres iluminados costumam ter uma expectativa de vida mais longeva que os demais mortais, com menos cortisol e mais endorfina. Em outras palavras, menos estresse e mais alegria. A bem da verdade, para não ficar apenas em elucubrações pseudocientíficas e melhor sustentar minha tese, usarei o exemplo de um
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14 julho
Um dia qualquer na Cidade
Quanto mais ando, mais penso que há um mistério na existência das cidades, a maneira como tudo se funde nos entremeios desse emaranhado humano, um caso de estudo de como o caos aparentemente inevitável se transmuta em algum tipo de desastre organizado, em que tudo se encaixa e se desagrega ao mesmo tempo num moto contínuo, envolto por alguma energia invisível que nos conecta uns aos outros sem que percebamos, como as partículas solares que nos trespassam o
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13 julho
Poema #09: Exercício para um ausente
Falemos da esperança.Sim, da velha andançaDa chuvosa lembrançaOnde te sondavas. Vamos, falemos em novidade.Digamos que vai tudo indo, sim.Lá fora, diga que, ao todo, te aquietasFora tempo de espera. E te lembravas. Este, foi-se?Não soubera.Tentaste um rumo, fostes sem manualSem estradas, fostes sem-terra. Pois que era um domingo.E que já não lhe haveria numa segundaPara mais saudade.Talvez na quarta. Ai, quem me dera! Esqueça, pois que já vens tarde.Tens u
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13 julho
Poema #77: A Aranha e o Sonho
Havia uma aranha lá foraque tecia sua redea despeito da chuvae do desânimo dos homens. Era uma aranhaque tecia a sua rede fora do mundo,e eu miseravelmente preso a eleperdia-me em conjeturas sobre o amore sobre um livro que acabara de ler. O Acaso das Manhãs
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13 julho
Sujeito homem
— Tu é sujeito homem? A frase saiu como um soco. Mais agressiva até. Os dois envolvidos na discussão eram homens, não havia dúvidas, mas a pergunta era mais profunda: vinha para mexer com os brios. Para trazer à tona fraquezas ou revelar coragens. Seu corpo, um tanto menino, não acompanhava o tamanho da sua integridade. Não revelava quão grande era aquele ser juvenil. Suas razões, explicadas de modo atrapalhado, eram contundentes. Dispensavam eloquência e
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12 julho
Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?
Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!Para que a pressa?se preciso, eu, mais que vitaminas,do alimento para o viço que… reflete-me,[interna] e inteiramente?Que eu possa deleitar-me com o calor azulda caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio Eis-me inteira,num instante errante,naufragada no suor denão pertencer.Cá estou. Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro. Bate-me o peito em um não positivo. Eis me aqui. Intacta. Tempo, tempo…por q
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12 julho
MUSICALIDADES
Nascera com o dom para a música. Precoce, Marília, com quatro anos já se aproximava do piano, como um beija-flor às flores. Uma profunda atração que deixava a todos impressionados. Com seus dois polegares tirava das teclas um som inédito. Futuras canções. A família, claro, providenciou uma professora. Aos seis, já arriscava o começo de algumas canções. Mas era mesmo no “cai cai, balão” que se realizava. Também esboçava, com o indicador, um “parabéns pra vo
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12 julho
De Diva de Cinema à Madame Mim na Flórida
Sempre admirei o glamour dos cabelos ao vento. Grace Kelly, Audrey Hepburn, Tippi Hedren… todas sabiam, como ninguém, enrolar as madeixas em um lenço de seda, solto o bastante para deixar escapar charme e liberdade. As cenas de Ladrão de Casaca, Charade e The Birds me provocavam sonhos de princesa: eu, num conversível, óculos escuros, lenço estampado e vestido decotado, enquanto uma brisa perfumada acariciava meu rosto. Eis que a vida me presenteia com a c
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11 julho
UM DIA DE VERÃO
Eunice saiu da rede e se instalou na cadeira de palha da varanda. Cruzou as pernas e substituiu os óculos de leitura por outros com lentes escuras. Pôs de lado o livro sobre questões ligadas aos direitos das pessoas com deficiência que vinha lendo nos últimos dias e contemplou o panorama à sua frente. Sorveu dois goles de suco de limão gelado, pousando em seguida o copo sobre a mesinha de centro. Retocou o batom discreto com o auxílio de um espelhinho. Pro
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11 julho
GRITO DE GOL
Um grito de gol não sai de uma superfície plano inclinada: a garganta. Ele irrompe de um outro lugar. Vem do fundo , sinuoso e labiríntico. Vem da pátria, seja verde e amarela, rubro-negra, tricolor… Pulsional, berra com a força e velocidade maiores que da própria bola, que estremece a rede, transferindo sua energia cinética para as suas malhas, resvalando no peito e retumbando nas batidas do coração do tocedor. Nos traçados da bola, que dribla num tempo l
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11 julho
Historias antigas…
Nossa avó morava com a gente. Aliás, morava é modo de dizer. Ela fazia parte da casa. Era como a mesa da cozinha, o quintal, o cheiro do café e aquele relógio escurecido na parede da cozinha, com o antigo passarinho saindo sem pedir licença, para dizer: cuco-cuco. Era a nossa melhor amiga. Minha, da Laura, dos maiores, dos pequenos, dos primos que apareciam, dos vizinhos e até do cachorro, que, se pudesse escolher, dormia só aos pés dela. Todo dia ch
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10 julho
O VÔ ZÉ
Quando o vô Zé estava para morrer, pediu para sair de casa. Fraquinho, não parava em pé, mas quis por força sair no pomar. – Eu quero abraçar as minhas árvores – disse. Mal balbuciava as palavras, mas insistia: – Eu plantei essas árvores. Vi crescer que nem minhas filhas. Eu quero abraçar minhas filhas pela última vez. Tive que carregá-lo nos braços. Não aguentou abraçar mais que três árvores. Fez questão de abraçar a mangueira de manga-espada, no centro d
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10 julho
E O BRASIL FOI EMBORA
É… Perdemos o jogo… E o Brasil foi embora! Foi-se embora a copa e o sonho… Mas qual sonho? Não saímos da copa no jogo contra a Noruega! Tínhamos saído bem antes, quando perdemos de 7x 1 para a Alemanha. Quando quase ficamos fora do torneio com uma péssima campanha nas eliminatórias. Não temos mais um futebol ofensivo e vistoso. O futebol brasileiro não contagia mais! O futebol brasileiro não empolga! Foi-se há muito tempo o que chamávamos de futebol brasil
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9 julho
Poema #06: olhar-eclipse
tivemos um olhar-eclipseapósanoseanos foi tão lindoque até os deusespararam pra ver e foi assim mais umavez até o sol dos seus castanhos partirpara um cantoe restarsomenteessa luaminguanteno céuda solidão
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9 julho
A luta desigual
Todas as manhãs o menino verifica, desolado, que seu castelo foi destruído pelas ondas. Quando chega à praia, vê que nada existe além de um monte de areia sem forma. O trabalho que teve no dia anterior desapareceu. Sua arte foi tragada pelo mar e deve estar agora em algum fundo escuro e frio daquela imensidão azul. Com paciência e dedicação, recomeça a tarefa de reconstruir o edifício onde colocará sua fantasia de morar ao lado de reis e princesas. Antes,
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9 julho
Poder desarmado
Na esquina da minha memória, moram dois personagens. O primeiro é o Senhor da Chave. Um homem corpulento, de trajes impecáveis, que carrega no bolso do colete um único objeto: uma chave antiga, pesada, que não abre porta alguma que eu conheça. Ele a exibe não como quem abre, mas como quem pode abrir. Seu poder está no tilintar metálico quando caminha, no gesto de tocar o bolso como quem confirma uma arma secreta. Ele fala pouco, mas quando fala, as pessoas
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8 julho
Fragmentos de mais uma noite em claro
Abro os olhos e vejo que o sol vespertino de um certo domingo ainda teima em transmitir um pouco de vida a um fétido e pestilento cômodo. Pelas frestas da janela, a luz do sol ilumina meu quarto, aparentemente vandalizado por poderosos demônios desconhecidos. Aos poucos, recobro minhas forças e sinto o peso de mais uma interminável e irresponsável bebedeira. Em meio a uma breve crise de consciência, escuto uma batida na porta. — Carlos Alberto! Você está
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8 julho
Desmedida
Mainha prepara o café da manhã todos os dias, às 5h, rigorosamente assim. Acorda e canta com os galos, porque é feliz. Nunca reclamou da vida, desatinou ou embruteceu, apesar da dureza que passou. Teve de criar sozinha dois filhos, revezando com a minha tia, também bondosa, que vinha ficar com a gente em casa. Tia Laura, solteirona, ainda continua adulando os “filhos postiços”, como ela nos chama, só que repugnamos o seu cuidado excessivo, tratando-nos com
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6 julho
Poema #76: “141 A”
Sequência finalnuma casa de 24 m²com vista de frentepara um beco lateral.O piso era grossoantes de eu assimilá-lo,mas como a vidapermaneceu emdesalinho eu adormecideitado de lado e tombadoem lençóis queimadosno espaço entre as camas.Com uma aliança invisívelna mão direita e um cheiroforte de esgoto vindo do banheiro.E pensar que havia promessasveladas feitas a mim mesmono escuro de uma vida desfalcada.Pinturas metálicas malfeitasno fundo de um espelho manc
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6 julho
Poema #04: Motivo
( A Cecília) Antes que chegue o dia da mudez,Cantemos!Cantemos elegiasCantemos heavyCantemos baladasCantemos !Que em nós haja uma eterna cançãoIndescritivelmente bela,Inevitavelmente originalPor sermos, cada um de nós, a própria melodia, a harmonia curativa No desconcerto do mundo.
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6 julho
Poema #08: Alteridade
Este que vos premeditaDevia dizer-lhes algoMas o profundo que é o serenoMais errôneo que o acaso tornou-se Então dizes ao papel:Das tuas palavras fizestesDe pouco caso;Que se bastasse um punhado‘Inda que só coubesse o que lhe atava. Sonoridade tal das águas já lhes assoavamOs cascos empoeirados da vigíliaE tu sonhastes teu atraso… O não que dizes é certeiroRessoa pra longe, bem longe se estende.Caronas apanhas; onde te encontras?Ao retorno te encostasDe on
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5 julho
“digitando… ”
| Um traço vertical. Pisca, pensativo, opressivo; poético. Acho que assim, quase girando o travessão introdutório, na busca pela correspondência de (um) outro, nos injetamos, como tentativa científica, numa releitura d’um passado literário: Trocamos cartas, quase como que acendendo um cigarro à mesa de um café de iluminação lúgubre, jazz no fundo, um barman meio ranzinza a enxugar louças e vidros, solitário. Uísque. Na única mesa redonda ocupada, um casal.
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5 julho
BELINDA diante do espelho
Belinda talvez fosse uma sonhadora. Incurável. Não era bonita. Sonhava com o conceito de formosura, camuflado em todas as coisas. Quando ouvia Milton Nascimento na introdução de O que será? (À flor da pele), conseguia enxergar toda a beleza. Ouvia dos amigos que o lado físico não era tão importante. Havia o exótico, o magnetismo, a beleza interior. Belinda fingia concordar, mas passava horas no espelho, buscando encobrir vestígios de imperfeição no seu cor
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5 julho
Quando duas palavras resolvem morar juntas
“Sentipensante” — A primeira vez que li, acho que num texto relacionado à física quântica (o que só piorou a situação), achei que era um erro de digitação. Fiquei curiosa tentando decifrar o significado dessa estranha palavra, para mim meio parecida com CatDog (lembram do seriado?) ou de uma aberração ainda maior: o Feijoaçaí. Só de pensar, me embrulha o estômago. Corajosa que sou, fui em frente na leitura e descobri que “sentipensante” é uma palavra híbri
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5 julho
A vida como deveria ser
A gente pensa na vida como algo a ser resolvido depois porque tem urgências urgentíssimas sempre por fazer! E esquece, com isso, a flor, o amor, o amar, o mar e as rimas todas que estão no ar. A gente pensa que tem tempo, mas tempo, na verdade, não há! E esquece aquele encontro, o jogo com os amigos, simplesmente ficar de papo para o ar! A gente deixa o cinza e o concreto e o sinal fechado interromperem a fluidez das relações, a espontaneidade das coisas e
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4 julho
Despreparar
Ou preparar. Quem sabe? A vida exige aprendizados. Será que nos preparamos para a luta diária ou aprendemos tudo enquanto ela acontece? Em que momento soubemos nos equilibrar sobre um salto alto, tirar os sapatos para brincar no parque com os filhos, passar no mercado na volta do serviço, engolir o almoço às pressas e correr para a faculdade? Quase sem perceber, deixamos de ser cuidados para nos tornar cuidadores. Talvez nunca tenha existido um aprendizado
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